Mostrar mensagens com a etiqueta Aldeias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Aldeias. Mostrar todas as mensagens

domingo, 7 de junho de 2026

Portugal deixa arder à vontade, o que é errado e perigoso

Grandes incêndios em julho de 2025

Em Portugal, os bombeiros não têm um plano estratégico de controlo de incêndios. Correm a salvar edifícios à medida que o incêndio se aproxima, enquanto deixam o fogo florestal arder para onde quiser, o que é imprudente». A denúncia é de Gary Morgan, perito mundial que melhor conhece o caso português. Foi contratado pelo Governo de António Costa para auditar o nosso dispositivo.

Depois da carnificina de 2017, que matou 116 civis e 13 operacionais, o anterior Governo deu instruções à Proteção Civil para se concentrar na salvaguarda da vida humana. A floresta pode arder à vontade, desde que não atinja aldeias e casas isoladas. O património edificado também pode ser destruído, desde que não tenha gente lá dentro. As evacuações tornaram-se banais.

Os Governos de Luís Montenegro conformaram-se com o mesmo objetivo. Os resultados desta política são catastróficos. No ano passado, Portugal sofreu o maior e o terceiro maior incêndios florestais da história. No dia 13 de agosto, deflagrou um em Piódão, concelho de Arganil, que alastrou aos concelhos vizinhos de Pampilhosa da Serra e Oliveira do Hospital, ainda no distrito de Coimbra. Manteve-se ativo durante dez dias. Invadiu os municípios de Seia, distrito da Guarda, Covilhã, Fundão e Castelo Branco, no distrito de Castelo Branco. Arderam 645 quilómetros quadrados, uma área superior à dos concelhos de Lisboa, Amadora, Odivelas, Oeiras, Cascais e Sintra. No final desse mês, deflagrou em Trancoso um incêndio que consumiu 320 quilómetros quadrados, área semelhante à soma dos concelhos do Porto, Matosinhos, Maia, Valongo e São João da Madeira.

«Os incêndios grandes, múltiplos e complexos continuam difíceis de conter», lamenta a OCDE, em relatório publicado há dois meses sobre o caso português. O nosso dispositivo tem um desempenho vexatório, quando analisado no plano internacional. A OCDE denuncia que «a coordenação e a tomada de decisão operacional continuam a ser dificultadas pela ausência de qualificações uniformes». Há muitos chefes no terreno, grande parte deles incompetentes. «A hierarquia tem sido priorizada em detrimento da especialização técnica, reduzindo, em última análise, a eficácia operacional», conclui o relatório.

Como mostra a experiência da Austrália, a força de braços é mais importante do que os aviões e os autotanques para travar a progressão dos fogos rurais. «Usar apenas água para apagar um incêndio florestal é assumir um risco inaceitável de propagação do incêndio», ensina Gary Morgan. Na Austrália, a opinião pública associa o combate aos fogos a sapadores florestais, de machado e sachola na mão, a abrir clareiras no terreno. «A intensidade do fogo determina como a barreira de terra mineral é criada, seja por maquinaria ou ferramentas manuais», descreve o homem que comandou essas forças durante dez anos, no estado de Victoria.

Os bombeiros tradicionais merecem o reconhecimento da sociedade, mas precisam de ser qualificados. «Devido ao grande respeito do público pelos bombeiros, muitas pessoas pensam que qualquer bombeiro pode suprimir todos os incêndios. Isso é um mito», escreve o perito australiano. Portugal já dispõe de forças especializadas em criar barreiras aos incêndios, para os travar no sítio e no momento adequados, mas precisam de ser reforçadas.

O pior é que o comando das operações no terreno está entregue às personalidades erradas. «Portugal tem pessoas com competências para evitar que os incêndios florestais não atinjam níveis catastróficos», garante Gary Morgan. Mas também denuncia que, muitas vezes, «a pessoa que assume a responsabilidade como Controlador de Incidentes não é competente nem capaz de tomar decisões estratégicas, nem tem uma abordagem voltada para a supressão de incêndios».

É preciso pôr os mais qualificados no comando. E, no terreno, corpos especializados no uso de máquinas de rasto, ferramentas manuais e fogo tático. «Uma parte do dispositivo não pode estar preocupada com casas, nem com pessoas. Se ninguém lhe tirar o alimento, o fogo agradece, passa por aldeias e destrói tudo», lamenta Akli Benali.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Há papel que nunca deve colocar no ecoponto azul e quase toda a gente erra


Reciclar papel parece simples: jornais, caixas, folhas antigas… tudo para o ecoponto azul. Mas há um erro muito comum que continua a acontecer em milhares de casas e que pode contaminar todo o processo de reciclagem.

A verdade é que nem todo o papel é reciclável. E alguns dos objetos que usamos diariamente são precisamente aqueles que nunca deveriam ir para o contentor azul.

O maior “impostor” da reciclagem? Os talões de compras!
Os recibos do multibanco, talões de supermercado e faturas impressas parecem papel normal, mas não são.

Grande parte é feita de papel térmico, um material com componentes químicos que dificultam a reciclagem e podem contaminar outras fibras de papel reciclável. Este tipo de papel deve ir para o lixo indiferenciado.

É um detalhe que pouca gente conhece e um dos erros mais frequentes na separação de resíduos.

Guardanapos e papel de cozinha também não entram
Outro hábito comum: colocar guardanapos usados ou papel de cozinha no ecoponto azul. Mas quando o papel está sujo com gordura, comida ou produtos de limpeza, perde a capacidade de reciclagem.
Copos de papel revestido/impermeabilizado que utilizamos, por exemplo, para tomar café. Pelas características do seu revestimento (seja por plástico, verniz ou outro material impermeabilizante) o seu encaminhamento para reciclagem no fluxo papel e cartão é inviabilizado

O mesmo acontece com:
  1. caixas de pizza com gordura
  2. lenços de papel usados
  3. pratos e copos de papel sujos
  4. papel vegetal ou plastificado
  5. papel plastificado
  6. papel autocolante
  7. papel de alumínio
  8. papel de lustro
  9. Sacos de cimento;
  10. embalagens de produtos químicos
  11. toalhetes e fraldas. [informação aqui]
O truque simples que ajuda a não errar
Há uma regra rápida que os especialistas usam: se o papel estiver demasiado sujo, engordurado, plastificado ou brilhante, provavelmente não deve ir para o azul. 
Observar bem o rótulo de reciclagem das embalagens: muitas indicam o destino final (ecoponto amarelo, p.ex.)
Já revistas, caixas de cereais, folhas, envelopes e jornais continuam a ser recicláveis, desde que limpos e secos.

Porque é que isto importa?
Quando materiais errados entram na reciclagem do papel, podem comprometer lotes inteiros e dificultar o reaproveitamento das fibras. Ou seja, um pequeno erro doméstico pode reduzir a eficácia de todo o processo.

Separar corretamente continua a ser um dos gestos mais simples para reduzir desperdício mas, afinal, reciclar bem é tão importante quanto reciclar muito.

segunda-feira, 30 de março de 2026

John Horsewell

John Horsewell é um conceituado pintor contemporâneo de nacionalidade britânica, nascido em Inglaterra  entre os anos de 1952. A sua trajetória artística é marcada por uma forte componente hereditária, uma vez que cresceu num ambiente profundamente criativo, tendo sido instruído no seio familiar pelo seu pai e pelo seu avô, ambos pintores profissionais.

Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, Horsewell não seguiu uma formação académica formal em faculdades de Belas Artes. A sua educação foi técnica e prática, moldada diretamente no ateliê da família e consolidada através da experiência no mundo do design de interiores e de galerias de arte após concluir o ensino secundário. Esta base autodidata e artesanal permitiu-lhe desenvolver um estilo muito próprio, que se situa entre o realismo e o impressionismo moderno.

O seu estilo  é definido como um impressionismo contemporâneo profundamente focado na captura da luz e na criação de atmosferas de serenidade absoluta. A sua estética afasta-se do detalhe fotográfico rígido para se concentrar na sensação de um momento, utilizando o que o próprio artista descreve como uma filosofia de "menos é mais". As suas composições são frequentemente minimalistas, apresentando horizontes baixos que dão protagonismo a céus vastos e dramáticos, evocando um sentimento de isolamento pacífico e de evasão da azáfama quotidiana.

O artista é particularmente célebre pelas suas paisagens costeiras, praias banhadas pelo sol e cenas rurais, frequentemente inspiradas pelas suas viagens pela Europa — com especial foco no sul de França e Itália — e pela Florida, nos Estados Unidos. 

A grande marca registada do seu trabalho é a mestria na utilização da espátula (palette knife), que combina habilmente com o uso do pincel. Enquanto as grandes áreas de céu e mar são trabalhadas com pinceladas suaves e fluidas para criar profundidade, os elementos centrais — como os barcos, as rochas ou a vegetação — são esculpidos com camadas espessas de tinta a óleo (técnica de impasto). Esta abordagem confere às telas uma qualidade tridimensional e uma textura rica, permitindo que a luz ambiente da sala interaja fisicamente com o relevo da pintura.

Quanto à paleta de cores, Horsewell utiliza tons que variam entre os azuis profundos e cerúleos dos oceanos e os tons quentes e pastéis das areias e campos europeus. O seu objetivo primordial é sempre o otimismo visual, transformando cada tela numa "janela" para um paraíso idealizado, onde o contraste entre as sombras suaves e os pontos de luz intensa convida o espectador a um estado de contemplação e calma interior.

Um exemplo perfeito desta estética é a obra "Calm Waters" (também conhecida como "Moored Boats"), pintada provavelmente entre 2010 e 2020. Nesta tela, Horsewell utiliza um horizonte baixo e uma paleta de azuis profundos em contraste com tons areia para evocar uma sensação de paz absoluta. Através de pinceladas suaves no céu e relevos texturizados nos barcos e no primeiro plano, o pintor convida o espectador a entrar num cenário de tranquilidade e isolamento regenerador.

terça-feira, 3 de março de 2026

O olival Português transformado num activo financeiro

Greenpeace Portugal exige “moratória imediata à expansão do olival superintensivo”


Um relatório de investigação internacional divulgado pela Greenpeace, intitulado "O Campo como Ativo", expõe a face oculta da expansão do olival superintensivo em Portugal. O documento revela que o país se tornou o "porto seguro" para fundos de investimento canadianos e britânicos, que utilizam o Alqueva e milhões de euros em fundos públicos portugueses para substituir a agricultura tradicional por um modelo industrial de lucro rápido e elevado risco ambiental. 
Ao contrário de Espanha, onde o olival tradicional ainda resiste, a expansão em Portugal (liderada por empresas como a Innoliva) foca-se quase exclusivamente no modelo superintensivo. Dos 4.800 hectares geridas pelo grupo na última década, mais de 65% (3.168 hectares) estão em solo português. 
O relatório detalha como o Estado Português, através do IFAP, financiou diretamente esta transição. Um único projeto de um fundo estrangeiro recebeu 6,5 milhões de euros a fundo perdido, a que se somaram mais 3 milhões para lagares industriais de alta capacidade (como o de Carapetal). 
A investigação confirma o impacto devastador na biodiversidade. As colheitas noturnas com máquinas cavadeiras, fundamentais para a rentabilidade destes fundos, provocam a mortalidade em massa de aves, o que forçou as autoridades a suspender a prática, embora o modelo económico destes grupos continue a depender da mecanização extrema. 
O relatório alerta que o modelo superintensivo, embora eficiente "por árvore", consome volumes totais de água por hectare muito superiores ao tradicional, colocando em causa a resiliência hídrica do Alentejo em períodos de seca extrema. 
Para o Diretor da Greenpeace Portugal, "Estamos a trocar pessoas por máquinas e comunidades por folhas de Excel. O Governo gasta milhões em subsídios para um modelo que não fixa um único jovem no Alentejo. 
O que vemos hoje é uma forma de extrativismo moderno: os fundos de investimento a sugar a nossa água e o nosso solo, pagos com os nossos impostos, deixando para trás um território vazio, biologicamente devastador e socialmente abandonado. 
O Alqueva não pode ser o cemitério das nossas aldeias." Toni Melajoki Roseiro acrescenta que “não é agricultura, é extração de valor. Transformaram a nossa oliveira numa franquia industrial onde tudo é uniformizado e mecanizado, controlado à distância a partir de um escritório em Toronto ou Londres. O resultado é um Alentejo mais frágil; ´água sob pressão, território a esvaziar-se e o azeite português tratado como um ativo financeiro, em vez de ser parte da nossa terra.” 
Parte da riqueza produzida no regadio de Alqueva é encaminhada para fundos de pensões de funcionários públicos, Forças Armadas e Polícia Montada do Canadá, bem como da Igreja Mormón.
Perante este cenário, a Greenpeace Portugal exige uma moratória imediata à expansão do olival superintensivo. O governo português tem de escolher: ou continua a ser o facilitador dos fundos de investimento, ou assume o seu papel de protetor do território e da soberania alimentar de Portugal. O campo não é um banco. O campo é a nossa vida.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Né Ladeiras - Beijai o menino

"Beijai o menino, beijai- o agora
Beijai o menino, de nossa senhora
Beijai o menino, beijai-no pé
Beijai o menino, que é de São José

Os filhos dos homens em berços dourados
E bós meu menino em palhas deitado
Em palhas deitado, em palhas querido
Filho de uma rosa dum cravo nascido

Os filhos dos homens em bós travesseiros
E bós meu menino preso a um madeiro

Sois um manso cordeiro que estais nessa cruz
Com os braços abertos perdoai-nos Jesus
Sois o Salvador do mundo que tudo salvais
Salvei nossas almas bendito sejais."

Este é o resultado de dois anos de pesquisa de material relacionado com a música e a cultura tradicional transmontana, nomeadamente as recolhas efectuadas por Michel Giacometti e por Jorge e Margot Dias. Foram assim redescobertos, cantares que remontam ao séc. XVI e outros cuja origem se perderam na bruma dos tempos e que aqui são reinterpretados á luz dos nossos dias.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Motor de desenvolvimento ou de danos irreparáveis? Parque solar planeado para Portugal abre polémica


Após a leitura deste artigo, apelo que assinem e partilhem esta petição que ainda só tem cerca de 4.200 Faça-o agora e partilhe com os vossos contactos. Precisamos de 7.500 assinaturas! As petições com mais de 7.500 assinaturas podem ser discutidas em plenário na Assembleia da República [consultar o guia]

Um novo projeto solar, que será sediado no distrito português de Castelo Branco, está a ser amplamente contestado tanto pelas associações ambientalistas como pelos próprios municípios. Chama-se Parque Solar Fotovoltaico Sophia e, segundo anunciado no site da empresa por detrás da iniciativa, a Lightsource bp, o seu objetivo passa por "conciliar a produção de energia renovável com a valorização ambiental do território e benefícios duradouros para as comunidades locais".

Tratar-se-á de um parque solar que deverá ser um dos maiores do país, com um total de 867 MWp de potência e que envolverá, de acordo com a Lightsource bp, um investimento de cerca de 590 milhões de euros. A empresa estima que o mesmo será capaz, no futuro, de "abastecer mais de 370 mil habitações e evitar a emissão de cerca de 24,5 mil toneladas de CO₂ por ano", com vista a contribuir "para as metas do Plano Nacional Energia e Clima 2030".

O projeto, que abrangerá os municípios do Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova, esteve em fase de consulta pública até ao passado dia 20 de novembro, durante mais de um mês, tendo angariado mais de 10 mil contribuições. Foi a consulta pública mais participada de sempre, com críticas a surgirem de várias partes, apesar de a empresa assumir, publicamente, que o projeto "integra um conjunto robusto de medidas de proteção ambiental e valorização da paisagem".

O que está, então, previsto no projeto, que impactos se espera que o parque solar tenha na região e de que modo a Lightsource bp está a encarar toda a polémica?

O que motivou a escolha do local e quando se prevê que esteja operacional
"A escolha do local de implantação de qualquer projeto de energia renovável, seja ele solar ou eólico, é a proximidade ao ponto de ligação à rede elétrica." A explicação é dada, em esclarecimento enviado à Euronews, pela própria Lightsource bp. "No caso do parque solar Sophia o ponto de ligação é a Subestação da REN do Fundão, vinculado através de um Acordo de Título de Reserva de Capacidade (TRC)", tendo a área selecionada para a sua implantação resultado de uma "análise técnica ambiental que confirmou esta opção como a de menor impacte num raio de 30 km ao redor da Subestação do Fundão".

A empresa refere ainda que, para elaborar o "Estudo Prévio que esteve em consulta pública", foi realizado "um trabalho exaustivo de recolha de informações ambientais refletindo um projeto em desenvolvimento há seis anos".

Neste momento, elabora a Lightsource bp, "o projeto Sophia está numa fase inicial de licenciamento, com entrada em operação prevista para 2030".

O que diz o Estudo de Impacte Ambiental
O documento, datado de setembro de 2025, detalha, entre tantos outros pontos, que esta central solar será "constituída por 1.365.588 módulos fotovoltaicos, que ocuparão uma área total, dividida em setores, de cerca de 390 hectares".

No Estudo de Impacte Ambiental, destaca-se ainda que o "modelo selecionado", neste caso, para a conversão da energia solar em elétrica, tem como "vantagens" uma elevada "eficiência", "fiabilidade" e "rendimento energético".

Além do mais, a análise realizada indica que a proposta "não abrange áreas da Rede Nacional de Áreas Protegidas ou Sítios da Rede Natura 2000", destinadas a garantir a proteção de zonas naturais reconhecidas e a conservação da biodiversidade, respetivamente. Ainda que "a área de implantação" da central se sobreponha "ao Geopark Naturtejo Mundial da UNESCO, reconhecido pelo Programa Internacional de Geociências e Geoparques da UNESCO".

Outra das principais conclusões prende-se com o facto de a fase de construção do parque solar constituir "o período mais crítico ao nível dos impactes negativos, nomeadamente sobre os descritores usos do solo, flora, vegetação, habitats, fauna e paisagem". Alerta-se, inclusive, que os maiores riscos estão associados "à desmatação, abertura de caminhos e à construção da subestação" da própria central.

Afirma-se, no entanto, que nessa mesma fase de construção, "as comunidades vegetais afetadas pela implementação dos projetos apresentam predominantemente reduzido valor conservacionista e/ou ecológico". Ainda que se reconheça que será necessário "abater ou afetar indivíduos de azinheiras ou de sobreiros isolados" - 1.120 e 421 de cada, respetivamente.

Já relativamente à fauna, "durante a fase de construção prevê-se a ocorrência de diversas ações que poderão conduzir a efeitos negativos para os diferentes grupos faunísticos".

Entre outros tantos pontos dignos de consideração nesta análise, recorda-se que a implantação da central "dará origem a impactes paisagísticos" num local que fica nas proximidades de "três aldeias históricas, nomeadamente, Castelo Novo, Idanha-A-Velha e Monsanto".

Salienta-se ainda, ao "nível do património", que a fase de construção "comporta um conjunto de intervenções e obras potencialmente geradoras de impactes genericamente negativos, definitivos e irreversíveis". Mas também a existência de "um impacte económico extremamente importante e significativo" por via do "arrendamento das terras" por um período de "40 anos", mas igualmente de "um investimento de cerca de 590 milhões de euros, fundamentalmente, através da captação de capitais externos".

Conclui-se também que "a conceção do projeto garantiu a não colocação de painéis fotovoltaicos em solos agrícolas integrados na RAN [Reserva Agrícola Nacional]", que, fruto das suas características, apresentam maior aptidão para a atividade agrícola. E que "para além de reuniões mantidas com os municípios e com a [rede] Aldeias Históricas, foram também tidas reuniões setoriais e de trabalho com a APA [Agência Portuguesa do Ambiente] e ICNF [Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas], em fase precoce de desenvolvimento, para apresentação e discussão do projeto".

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Antes que tudo arda

Incêndio em Avô (Oliveira do Hospital)

Em 2017, Portugal enfrentou uma das suas maiores tragédias coletivas: o incêndio de Pedrógão Grande. Uma ferida que destruiu vidas, memórias e esperanças, e expôs a vulnerabilidade estrutural do país. Nesse ano, após ouvir diferentes vozes ligadas à prevenção e ao combate, preparei uma breve síntese sobre a situação da floresta portuguesa. O retrato era conhecido, mas revelou-se devastador: um mosaico desordenado de pequenas propriedades essencialmente privadas, muitas abandonadas; política florestal errática e ausente no terreno; uma vigilância insuficiente; proteção civil dependente de participação voluntária; meios aéreos privados caros, mas ainda assim ausentes; comunidades rurais envelhecidas e esquecidas. Em síntese: uma floresta frágil, altamente inflamável, e um Estado incapaz de salvaguardar o interesse público.

Passaram oito anos. Houve avanços: destacaria o BUPi e os processos de emparcelamento que abriram caminho para resolver a fragmentação fundiária; a criação da AGIF (Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais) e a sua ação programática trouxe mais visibilidade e expressão territorial à política florestal; a vigilância tecnológica progrediu; a proteção civil incrementou a capacidade de intervenção e preparação; a contratação de meios aéreos tornou-se mais transparente, mas ainda assim ineficaz.

No essencial, os bloqueios estruturais mantêm-se intactos. A floresta continua dividida, sem escala para uma gestão eficiente e transformadora. As políticas públicas do setor transitaram entre ministérios, mas permanecem sem coerência e incapazes de inspirar a confiança que o problema exige. A vigilância tecnológica cobre apenas parte da realidade diversa do país. A proteção civil, mais preparada, continua excessivamente dependente de esforço voluntário. O papel das Forças Armadas mantém-se episódico e sem coordenação local. Os projetos-piloto de mosaicos resilientes existem, mas são insuficientes para travar tendências e implementar a transição florestal, e as comunidades rurais continuam esmagadas pela burocracia e pelo abandono.

A verdade é que pouco mudou. A floresta portuguesa continua refém de interesses sobrepostos, centralismo sufocante e ausência de reformas estruturais que integrem floresta, agricultura, água e biodiversidade num mosaico vivo e resiliente. A acumulação descontrolada de biomassa, alimentada pelo abandono rural, transformou vastas áreas em depósitos de combustível à espera da próxima ignição. E manter grandes extensões de monocultura inflamável, num contexto climático cada vez mais adverso — com secas mais longas, ondas de calor mais intensas e ciclos de incêndio cada vez mais prolongados — é prolongar a catástrofe. É urgente diversificar espécies, apostar em ecossistemas resilientes, combinar produção florestal com regeneração ambiental e colocar a floresta ao serviço da segurança, da economia e da vida.

Esta mudança exige também um novo contrato com a indústria. O setor não pode ser assistente ou comprador de matéria-prima barata e combustível para exportação. Precisa de assumir corresponsabilidade na regeneração, investir em gestão sustentável, inovar em produtos de maior valor acrescentado e comprometer-se com a transição ecológica do país.

O futuro exige cinco escolhas inadiáveis: governança descentralizada com técnicos e meios próximos do território; uma reforma fundiária realista que permita gestão conjunta; a profissionalização parcial do combate, associada à prevenção; a assunção realista e firme do nexo entre floresta, agricultura, água, biodiversidade e clima; e, sobretudo, a reconstrução da confiança social, devolvendo às comunidades o papel de parceiras centrais, com incentivos claros e retorno económico justo.

Se 2017 foi o ano da tragédia, e 2018–2025 o tempo da resposta insuficiente, o próximo ciclo só pode ser o da reforma estrutural. Ou teremos a coragem de transformar a floresta portuguesa em alavanca de resiliência e futuro, ou continuaremos prisioneiros de um ciclo de fogo, abandono e luto.

Antes que tudo arda.

domingo, 17 de agosto de 2025

"Vamos embora", disse a ministra quando ia a ser confrontada com o que se está a passar nos incêndios


Decisão de não responder a perguntas surge no mesmo dia em que a Proteção Civil admitiu falhas num sistema crucial para os bombeiros (e não só). E há "muita coisa por explicar", está a ser "demasiado mau"
A declaração ao país da ministra da Administração Interna deste domingo durou menos de cinco minutos. Nela, Maria Lúcia Amaral comunicou que o Governo entendeu estender por mais 48 horas a situação de alerta face ao agravar dos incêndios - que já consumiram mais de 170 mil hectares e que, durante os últimos dias, levaram à morte de pelo menos duas pessoas, além de terem provocado destruição e consumido habitações e explorações agrícolas. No final, os jornalistas na sede da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil tentaram fazer perguntas à ministra, mas a Maria Lúcia Amaral recusou-se a responder. "Vamos embora", disse - e depois foi mesmo.

A CNN Portugal questionou a razão por trás desta decisão, mas não obteve resposta. 

A decisão do Ministério da Administração Interna de não responder às perguntas dos jornalistas surge no mesmo dia em que a Proteção Civil admitiu falhas no sistema SIRESP, a rede de comunicações do Estado para comando e coordenação de comunicações em situações de emergência. Um problema que tem sido recorrente de cada vez que o país enfrenta uma crise - aconteceu, por exemplo durante o apagão geral de abril deste ano - e que levou o comandante dos bombeiros Luís Martins a descrever o assunto desta forma à CNN Portugal: "A rede de SIRESP muitas vezes falha e todos os anos falamos disto. É mais do mesmo, é de lamentar que uma das ferramentas importantes dos bombeiros não esteja disponível para o combate." 

Não houve, no entanto, qualquer referência da parte da ministra ao SIRESP, sistema o Governo pretende substituir - depois de em julho ter anunciado uma prorrogação de um estudo técnico com "o objetivo de encontrar uma solução que assegure um sistema de comunicações robusto, fiável, resiliente, tecnologicamente adequado e plenamente interoperável". De resto, as explicações dadas pela ministra abordaram também os fatores naturais que têm prejudicado o combate operacional aos incêndios, como o "agravamento dos ventos" e o "fumo intenso". 

O comandante Jorge Mendes refere à CNN Portugal que há "muita coisa ainda por explicar". "Sabemos neste momento que há bombeiros parados à espera de indicações para combater incêndios. Há zonas de combate que estão sem rede de comunicação. Há um certo desnorte em algumas zonas. Depois de isto tudo ter terminado, espero que as pessoas responsáveis façam uma avaliação e retirem consequências. Isto é demasiado mau, temos Sabugal completamente rodeado de chamas, temos Seia com o mesmo problema. Alguém terá de tirar as suas consequências."

A comunicação da ministra foi feita ao país num momento particularmente difícil no combate às chamas no Sabugal, onde quatro aviões Canadair deram este domingo apoio no incêndio que afeta o concelho raiano da Guarda desde sexta-feira, o que acabou por evitar que as chamas atingissem a aldeia de Rapoula do Côa, que esteve cercada. Os fogos, no entanto, continuam em polos opostos - o que tem dificultado a resposta das autoridades.

Também em Seia, a frente que nasceu em Teixeira passou as Pedras Lavradas, no Parque Natural da Serra da Estrela, e progride “com grande violência” na direção da freguesia da Erada, na Covilhã. Foi também neste município que foi registada a segunda vítima mortal desta vaga de incêndios: tratou-se de um bombeiro que morreu num acidente de viação enquanto se deslocava para um incêndio no Fundão. Em comunicado, a Proteção Civil indicou que o acidente ocorreu pelas 19:10 e que existiram ainda “quatro bombeiros feridos, que estavam a ser resgatados/assistidos pelas equipas de emergência no local”.

Já em Pampilhosa da Serra, a situação tornou-se mais dramática nas últimas horas, com o presidente do município a explicar que o vento "mudou", avançou a "grande velocidade" e que o fogo ficou "completamente descontrolado". “Neste momento a dimensão está de tal maneira... está de tal maneira descontrolado que já não há carros suficientes até para proteger as povoações”, avisou o autarca. 

A situação mantém-se portanto "desfavorável" - nas palavras do Ministério da Administração Interna - dois dias depois de Portugal ter pedido ajuda europeia para responder aos incêndios. O Governo acionou o Mecanismo Europeu de Proteção Civil na sexta-feira após ter rejeitado, num primeiro momento, essa possibilidade. A 7 de agosto, o MAI justificava que o país não precisava de ajuda externa por ter meios suficientes para responder ao avançar dos fogos. "Ainda não chegámos, felizmente, e esperamos e contamos não ter de chegar, à verificação de que já não somos capazes de debelar um problema com os nossos próprios meios", referia, na altura, a ministra. 

Essa decisão criticada pela oposição. No início do mês, o Chega disse que iria questionar o Governo sobre o atraso na ativação do mecanismo e o PS garantiu na altura que o apoio deveria ter sido pedido antes de forma a pré-posicionar meios aéreos para o combate aos incêndios. "O tempo deu-me razão", disse este domingo José Luís Carneiro à CNN Portugal, acrescentando que "há falhas graves de coordenação e essa coordenação precisa urgentemente de um comando político".

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Pequenas Cidades No Tempo. O Ambiente e Outros Temas


Este livro integra textos escolhidos do colóquio de 2019 sobre Pequenas Cidades e Ambiente. Iniciando-se com o repto lançado pelo Professor Jean-Luc Fray, seguem-se as respetivas respostas, ordenadas nas seguintes subsecções:
  1. A interpretação de sistemas socioecológicos sob perspectivas de conjunto; 
  2. A observação de sistemas socioecológicos através dos testemunhos materiais; 
  3. A análise pormenorizada de fenómenos de antropização; 
  4. O estudo da regulação societária de recursos e problemas ambientais.
A segunda parte do livro, sobretudo constituída por textos apresentados num encontro de 2017, corporiza várias categorias de estudos sobre as pequenas cidades, nomeadamente,  a  monografia,  a  articulação  de  povoados,  as  hierarquias  urbanas,  as  leituras  do  espaço  urbano,  as  materialidades,  as  redes  de  poder  e,  não  menos  importante, a intervenção societária. 

Por fim, as conclusões pretendem, para além de sintetizar algumas linhas gerais transmitidas pelo conjunto de artigos, enfrentar os “problemas irritantes” (nas palavras do Professor Jean-Luc Fray) levantados pela classificação  dos  núcleos  urbanos  de  pequena  dimensão  e,  também,  valorizar  a  acuidade da pesquisa sobre as pequenas cidades no tempo

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Couto Mixto - criação de um microestado


Coto Mixto (em galego:  Couto Mixto , em português: Couto Misto ) foi um microestado na fronteira entre Espanha e Portugal, independente de ambos os reinos , de apenas trinta quilômetros quadrados.

A República do Couto Mixto foi uma  micronação independente na região galega  que emergiu de um dos capítulos menos conhecidos da história europeia. Seu nascimento não se deveu a uma conquista, mas a uma  anomalia jurídica medieval que lhe conferiu um sistema administrativo único , juntamente com direitos e privilégios.

A origem do Couto Mixto é basicamente um mistério. No final da Idade Média, os limites administrativos dos diferentes territórios (reinos, condados, ducados, baronias, etc.) eram imprecisos e difusos. O Couto Mixto estabeleceu-se nas margens geográficas e cronológicas do nascimento de Portugal como reino independente de Leão, em algum momento do magma territorial dos três séculos que vão do aparecimento do Condado Portucalense (século IX) ao reconhecimento do Reino de Portugal pela Santa Sé (1179).

Sua origem remonta ao  século XII , quando o território recebeu benefícios especiais e autonomia, provavelmente devido à sua localização estratégica. Este período coincidiu com a assinatura do  Tratado de Zamora , que, em 5 de outubro de 1143, estabeleceu uma fronteira entre Afonso I de Portugal e Afonso VII de Leão, marcando o início do Reino de Portugal e da dinastia Afonsina.

Após a criação desta fronteira, surgiu uma pequena área ilegal, dando origem a este "microestado", composto por três municípios (que hoje fazem parte da província galega de Ourense): Rubiás dos Mixtos, Meaus e Santiago de Rubiás, este último considerado sua capital. Este microestado tinha até sua própria bandeira, brasão e até um lema: “Tres unum sunt” (Três são um).

Sua bandeira era quadrada, com listras azuis e brancas, imitando a do Reino de Portugal, mas invertendo as cores, e com a diferença de que a bandeira portuguesa continha o brasão do país.

Governo e vida em Couto Mixto
Couto Mixto era governado por uma  república federativa  com um sistema político baseado em três juízes eleitos, conhecidos como ' home de acordo ', selecionados nas três aldeias, além do 'xuiz' ou juiz , que atuava como presidente do Governo.

Este juiz era eleito democraticamente a cada três invernos pelos próprios moradores (chefes de família), permitindo-lhes administrar os assuntos locais e resolver disputas  sem a intervenção de autoridades externas.

A igreja de Santiago funcionava como Parlamento. Ali estava guardado  o tesouro do Couto Mixto : um cofre com três fechaduras, uma para cada juiz, que continha os documentos oficiais do país.

Esta era uma comunidade onde  as decisões eram tomadas localmente , sem depender de um governo central. Seus habitantes desfrutavam de um grau notável de  autogoverno democrático , algo incomum na Europa medieval, numa época em que Portugal e Espanha enfrentavam múltiplas lutas pelo poder.

Com uma área de apenas 27 quilómetros quadrados, Couto Mixto não tinha uma população grande. Entre as três cidades,  a população mal chegava a mil,  o que, aliado à falta de recursos, contribuiu para sua discrição ao longo dos séculos.

Sua estrutura social era  igualitária e baseada na cooperação mútua , essencial para a sobrevivência em uma região isolada. Entre os privilégios dos habitantes do Couto Mixto estava a possibilidade de escolher sua nacionalidade (espanhola ou portuguesa, ou em alguns casos, nenhuma delas) e não pagar impostos a nenhum dos dois países. Além disso, eles estavam isentos de serem convocados para as armas por qualquer país e por qualquer guerra, civil ou internacional.

Eles também desfrutavam de liberdade no comércio e na agricultura, já que não tinham controle fiscal e alfandegário . Da aldeia de Rubiás partia o Caminho do Privilégio, um percurso de sete quilómetros até à aldeia portuguesa de Tourém, devidamente assinalado com marcos de pedra, por onde os habitantes do Couto podiam percorrer sem serem incomodados ou interrompidos por qualquer autoridade. Assim, os mestiços podiam ir a Portugal comprar sal, bacalhau, óleo ou tecidos e depois revendê-los na Galícia sem pagar impostos.

O fim do Couto Mixto
Na segunda metade do século XIX, Espanha e Portugal decidiram delimitar adequadamente sua fronteira, com o  Tratado de Lisboa, em 1864 , que dividiu oficialmente o território entre Espanha e Portugal. Este tratado se concentrou na resolução de disputas de fronteira e questões de soberania, afetando a independência histórica do Couto Mixto e encerrando um capítulo de sua história.

Ambos os países concordaram em eliminá-lo.  As três aldeias permaneceram no lado espanhol do Raya , e uma pequena faixa de terra desabitada permaneceu no outro lado  do Raia . Naquele ano, os habitantes da reserva, cerca de mil, tornaram-se espanhóis, impostos foram cobrados deles e as quintas foram convocadas.

"Portugal renuncia em favor da Espanha a todos os direitos que possa ter sobre as terras do Coto Misto e as aldeias nelas situadas, as quais, em virtude da divisão determinada pela linha descrita, permanecem em território espanhol." Artigo VII do Tratado de Lisboa (1864)

A anexação pôs fim ao modo de vida tradicional dos Couto Mixto: o comércio. Ou melhor, acabou com sua legalidade. Assim como em toda a fronteira, o contrabando foi uma das principais fontes de riqueza até o Tratado de Schengen entrar em vigor em 1995, que eliminou as fronteiras entre os estados da União Europeia. 

Desde então, só resta sua memória. Em 2008, foi erguida uma estátua em homenagem a  Delfín Modesto Brandón, o último juiz da pequena nação , e uma réplica do baú que continha os arquivos da república é conservada na igreja de Santiago de Rubiás, como homenagem àquela época.

Embora Couto Mixto tenha deixado de ser um país há quase dois séculos, algumas de suas atrações ainda podem ser visitadas:
  1. Santiago de Rubiás : Famosa por sua igreja e seu charmoso entorno rural.
  2. Rubiás de los Mixtos : Uma cidade tranquila com vestígios de sua história única.
  3. Meaus : Outra das vilas históricas, com arquitetura tradicional e paisagens naturais.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Rostos da Aldeia - Pitões das Júnias


A curta documental “PITÕES DAS JÚNIAS - vidas na montanha” produzida pelo colectivo Rostos da Aldeia conquistou o GOLD AWARD na categoria documentário do Japan World's Tourism Film Festival 2025. A cerimónia de entrega de prémios decorreu no passado dia 19 de março, na cidade de Wakayama.
Este é o terceiro galardão internacional conquistado por este filme. Conquistas que partilhamos naturalmente com quem partilhou as suas histórias connosco: a gente boa de Pitões das Júnias.
Saber mais aqui

sexta-feira, 5 de julho de 2024

A saúde das plantas e o seu impacto na economia, sustentabilidade social e ambiental


As pragas e doenças que afetam as plantas são, segundo a FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, responsáveis por cerca de 40% de perdas das culturas alimentares a nível global, pelo que o seu combate eficaz é determinante para o suprimento das necessidades alimentares mundiais, em particular dos países mais vulneráveis.

A globalização, o comércio internacional, as alterações climáticas, o movimento crescente de pessoas e bens, têm contribuído, nos últimos anos, para a dispersão de pragas e doenças entre países e entre continentes. Os seus efeitos podem ser devastadores na economia, sustentabilidade social e ambiental dos territórios afetados.

Em Portugal, atualmente, são inúmeras as ameaças fitossanitárias que podem causar danos importantes à nossa agricultura e floresta. A nossa grande diversidade de culturas e de espécies vegetais e as nossas condições climáticas favorecem a dispersão e estabelecimento de pragas e doenças e dificultam o seu combate, pelo que é de extrema relevância as ações de prevenção. São exemplo, a introdução do nematode da madeira do pinheiro que atinge atualmente praticamente toda a nossa área de pinheiro-bravo, o escaravelho da palmeira que dizimou, em poucos anos, a maior parte das nossas palmeiras. Culturas tão importantes como são, por exemplo, a pera Rocha, a laranja do Algarve, ou as nossas vinhas, são também atingidas por pragas e doenças, que, além de conduzirem a importantes perdas de produção e de qualidade, implicam grandes intervenções para o seu controlo, por vezes mesmo culminando na destruição total de pomares e vinhas.

É, portanto, reconhecida a crescente importância das autoridades fitossanitárias na criação de normas fitossanitárias que permitam atuar na prevenção e deteção precoce de pragas e doenças emergentes, e com capacidade de acionar, quando necessário e atempadamente, medidas de erradicação.
A Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), enquanto autoridade fitossanitária nacional, implementa dezenas de programas de prospeção fitossanitários em todo o território nacional. Igualmente em todos os portos marítimos e aeroportos nacionais, os serviços de inspeção fitossanitária são responsáveis pela inspeção a vegetais e produtos vegetais, limitando assim a possível entrada de pragas e doenças por via dos produtos importados, mas é premente informar que uma mera peça de fruta ou uma planta trazida na mala de viagem, pode esconder um inimigo para as nossas culturas e florestas.

Devemos estar preparados para enfrentar crises fitossanitárias, priorizando a prevenção por forma a reduzirmos os impactos económicos, ambientais e sociais derivados de ataques de pragas e doenças nas nossas culturas e na nossa floresta.

É também fundamental que a sociedade em geral assuma o seu papel na salvaguarda na saúde das plantas e entenda os desafios e as dificuldades que os agricultores enfrentam diariamente para assegurar o abastecimento de alimentos saudáveis, nutritivos e diversificados, assim como o seu papel determinante na manutenção das áreas rurais e da biodiversidade.

Visando aumentar a consciência de todos para esta problemática, a Autoridade Europeia da Segurança dos Alimentos (EFSA), lança a campanha #PlantHealth4Life que une os esforços conjuntos da EFSA, de 22 países europeus e da Comissão Europeia.

Cada um de nós pode ser um embaixador desta campanha, ajude a divulgá-la, porque a «Proteger as Plantas é Proteger a Vida».

terça-feira, 11 de junho de 2024

Os lameiros - uma grande invenção tecnológica agrícola


Começou a época dos fenos cá na terra. Começa em junho nas cotas mais baixas e termina, no início de agosto, na Serra de Montesinho, se ainda se fenassem os lameiros da Lama Grande. Em Montalegre, Vila Pouca de Aguiar, nas Serras Beira Durienses, e na Cova da Beira–Serra da Estrela as datas (vale-montanha) são similares.
Os lameiros são um tema particularmente interessante de ciência da vegetação e da história da agricultura. As questões em aberto são muitas. Quando foram inventados os lameiros? De onde vem a flora dos lameiros? Como compatibilizar a produção de erva e feno com elevados níveis diversidade biológica? 
Começo pela primeira pergunta.
1. Os relatórios de escavações realizadas na Beira interior pela arqueóloga Catarina Tente (IEM – NOVA FCSH) mostram que nos séc. X-XI as habitações rurais eram ainda construídas em materiais perecíveis (sem corte e palheiro no rés-do-chão) e que os gados eram  guardados ao ar livre. Generalizando a Trás-os-Montes as descobertas beirãs, as aldeias atuais “parecem ter sido formadas a partir da segunda metade do século XI e sobretudo no século XII”.
2. Para produzir feno é preciso proibir o acesso dos herbívoros aos lameiros durante cerca de 90 dias.
Não sou especialista no assunto mas a reserva dos lameiros implica a imposição de direitos privados de propriedade nas pastagens e, suponho, alterações ideológicas profundas apenas possíveis em períodos de grande estress social (veja-se o que escreve Ester Boserup).
Tendo em consideração estas premissas, não é um salto lógico improvável admitir que a propriedade privada perfeita (?) dos lameiros e, implicitamente, a produção de feno dos lameiros seja uma invenção tardimedieval.


Para compreender a origem da flora dos lameiros é primeiro preciso perceber que existem dois tipos funcionais fundamentais de gramíneas perenes pratenses – gramíneas altas e gramíneas baixas–, que por sua vez dão origem a outros tantos grandes tipos de pastagens – pastagens altas e pastagens baixas –, sejam elas húmidas, mésicas ou secas. É curioso que as “tall grasslands” e as “short grasslands” são praticamente universais nos territórios pastados por grandes herbívoros, desde África às Américas.
As gramíneas altas têm uma estratégia de tolerância à herbivoria sendo, por isso, mais palatáveis e produtivas, com respostas rápidas à desfoliação, em contrapartida muito sensíveis a eventos reiterados de pastoreio intenso, em particular durante o período reprodutivo. São exemplos Dactylis glomerata, Festuca arundinacea, Festuca rothmaleri, as várias Avenula (agora no género Helictochloa), Celtica  gigantea, Holcus lanatus, Poa trivialis e P. pratensis, os Anthoxanthum perenes, Melica ciliata e, muito importante, o Arrhenatherum bulbosum. As gramíneas baixas optam pela resistência aos herbívoros: são menos palatáveis e produtivas, muitas delas rizomatosas ou bulbosas (as altas são sobretudo cespitosas), como é o caso do Agrostis castellana e do A. capillaris, do Nardus stricta, da Poa bulbosa, da Festuca indigesta e da  F. nigrescens. Nesta altura do ano, as gramíneas altas protegidas nos arbustos são a melhor prova de que um monte está pastado.
Então de onde vêm as plantas dos lameiros?
As gramíneas perenes altas são a chave da estrutura e da produtividade dos lameiros. A persistência destas plantas depende de três fatores: 1) serem poupadas ao pastoreio a partir de Março-Abril, durante pelo menos 90 dias; 2) a fenação tem que as apanhar, se não todos anos, quase todos, maduras, de modo que as sementes caiam no solo durante a fenação e renovem o pasto; 3) as extrações de nutrientes pelo feno têm que ser adequadamente repostas. O resto da flora de lameiro tem várias proveniências, a maioria, obviamente, é característica das comunidades de gramíneas altas; outras plantas, por exemplo, vêm das orlas de bosque.
Portanto, quem inventou os lameiros, além de dispor de muito mais erva (e de feno para o inverno) criou, inadvertidamente, um habitat secundário – tão dependente do maneio humano como a seara de trigo –, perfeito para as plantas das comunidades de gramíneas altas, curiosamente, muito mais diverso e estável do que o original.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Mais de 2.600 cães de gado apoiados no Norte para repelir ataques de lobo ibérico


Um programa comunitário apoiou no Norte 2.662 cães de gado, com um montante de mais de 860 mil euros, para reduzir o conflito entre o pastoreio e o lobo ibérico, ontem revelado à Lusa.

De acordo com dados solicitados pela agência Lusa ao Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas (IFAP), na região Norte (NUTS II) foram apoiados 1.805 produtores pecuários com o corresponde a 2.662 cães de gado, num montante global de 867.017 mil euros. Estes números dizem respeito à campanha de 2023, cujo período de candidaturas decorreu ente 01 de março e 01 de agosto de 2023.

Segundo o IFAP, o respetivo pagamento deste apoio, integrado no Plano Estratégico da Política Agrícola Comum – PEPAC 2023-2027, que inclui uma intervenção agroambiental com vista à proteção e recuperação de espécies da fauna com estatuto de ameaça associadas a sistemas agrícolas, foi feita em abril de 2024.

Esta medida tem o objetivo de reduzir a conflitualidade entre a atividade de pastoreio extensivo e a necessidade de conservação do lobo ibérico.

Para beneficiar dos apoios, é necessário candidatar um mínimo de três cabeças de ovinos ou caprinos ou 10 cabeças de bovinos e deter cão de proteção de gado, atestado por declaração emitida pelo Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF).

Segundo o IFAP, os montantes e os limites do apoio a conceder, por beneficiário, são determinados de acordo com o número de cães detidos.

O distrito de Bragança foi, dos oito distritos da região Norte, o território que obteve mais apoios com 747 beneficiários, o que corresponde a 1.198 cães de gado, num total de 385.376 euros. Segue-se o distrito de Vila Real, com 670 beneficiários correspondeste a 935 cães de gado e um montante de 307.298 euros.

Já Viana do Castelo é o terceiro distrito desta lista de apoios com 171 beneficiários, 216 cães de gado e apoio de 72.144 euros. Ainda no Minho, Braga contou com apoios de 47.917 euros, para 111 beneficiários e que corresponde a 144 cães.

Já no distrito de Viseu foram apoiados 120 cães de gado (38.844 euros), na Guarda 22 (6.862 euros), no Porto 17 (5.286 euros) e em Aveiro 10 (3.290).

A Lusa questionou o IFAP após os pastores do Planalto Mirandês, no distrito de Bragança, se terem mostrado apreensivos devido ao número crescente de ataques de lobos nas imediações das localidades, tendo desde janeiro sido registadas seis ocorrências tratadas pelas equipas de vigilantes da natureza do Parque Natural do Douro Internacional (PNDI), quatro das quais no concelho de Mogadouro.

A diretora regional do Norte do ICNF, Sandra Sarmento, revelou em 11 abril que, segundo os últimos censos, existem 300 lobos ibéricos na região Norte, predadores “de topo” cujos ataques podem ser repelidos com o apoio de cães de gado.

Sandra Sarmento acrescentou ainda que o ICNF tem que garantir um conjunto de cuidados, para evitar que os lobos se aproximem dos rebanhos e das aldeias onde estes são pastoreados, com recurso a cães de gado ou cerca elétricas.

A responsável garantiu ainda que, com o apoio de cães de gado, os ataques de lobos são repelidos, em grande parte.

Um cão de proteção de gado é um cão do tipo mastim de montanha, em adulto com o peso mínimo de 35 quilos para machos ou 30 quilos para as fêmeas e altura mínima ao garrote de 60 centímetros (machos) ou 55 centímetros (fêmeas), com características físicas e comportamentais adequadas à função de proteção de gado contra ataques de lobo e em exercício da mesma.

As raças portuguesas adequadas à função de proteção de gado contra ataques de lobo são: Cão de Castro Laboreiro, Cão de Gado Transmontano, Cão da Serra da Estrela e Rafeiro do Alentejo.

Os cães são utilizados, há centenas de anos, na proteção de gado, pertencem a raças do tipo mastim de montanha e apresentam características que foram sendo selecionadas de modo a assegurar a missão de proteção contra ataques de predadores como o lobo.

Conto: Artur


Na quietude da noite, sob o cobertor sufocante do brilho neon da cidade, havia um homem chamado Artur. Artur morava num apartamento pequeno e bagunçado à beira do esquecimento, ou pelo menos era assim que ele se sentia. A sua vida era um labirinto de prazos, cada um deles um minotauro que o perseguia incansavelmente. O tique-taque dos relógios, o zumbido do computador, os bipes incessantes das notificações – o tempo era uma fera com muitas cabeças, e cada uma delas estava com fome.

Artur trabalhava como jornalista, mas não do tipo que escrevia sobre acontecimentos importantes ou pessoas influentes. A sua batida era o mundano, o despercebido, o esquecido. Ele narrou a vida daqueles que viviam nas fendas da sociedade, os invisíveis. Ele sempre sentiu afinidade por eles, talvez porque também se sentisse invisível na maior parte do tempo. As suas palavras eram seu único refúgio, uma forma de dar sentido ao caos que o cercava.

Mas ultimamente, Artur sentia um aperto no peito, uma sensação torturante de que o seu tempo estava a acabar. Não eram apenas os prazos – eles sempre existiram, como velhos amigos que demoravam muito para serem bem-vindos. Não, isso era algo mais profundo, mais insidioso. Ele se viu a olhar para o relógio, vendo os segundos escaparem como grãos de areia por entre os seus dedos. Ele sentiu como se estivesse na costa de um vasto oceano, a maré subindo inexoravelmente, ameaçando puxá-lo para baixo.

Uma noite, sentado à sua mesa, cercado pelos detritos de sua vida – chávenas de café vazias, papéis amassados e refeições pela metade –, ele recebeu um e-mail. A linha de assunto dizia: “Seu prazo final”. Era de uma mulher chamada Elara, um nome que parecia brilhar na tela. O e-mail era breve, quase enigmático: "Encontre-me na antiga torre do relógio à meia-noite. O seu tempo está a acabar."

O coração de Artur disparou. Ele nunca tinha ouvido falar de Elara, mas havia algo na mensagem que parecia urgente, inegável. A antiga torre do relógio estava abandonada há anos, uma relíquia de uma época passada. Ficava nos arredores da cidade, uma sentinela silenciosa vigiando a vida daqueles que passavam sob a sua sombra.

À medida que se aproximava a meia-noite, Artur viu-se parado na base da torre do relógio. O ar estava denso de neblina, e a torre assomava acima dele como um monólito, com os ponteiros congelados a um minuto da meia-noite. Ele empurrou a pesada porta de madeira e entrou.

O interior estava escuro, exceto por uma única vela tremeluzindo sobre uma mesa no centro da sala. Sentada à mesa estava uma mulher, o rosto parcialmente obscurecido pelas sombras. Ela ergueu os olhos quando ele entrou e ele viu que os olhos dela eram de um azul profundo e penetrante, como as profundezas do oceano.

"Você deve ser Artur", disse ela, com a voz suave e melódica. "Eu estive à espera por você."

"Quem é você?" Artur perguntou, sua voz tremendo ligeiramente.

"Eu sou Elara", ela respondeu. "Estou aqui para ajudá-lo a encontrar o tempo que você perdeu."

Artur franziu a testa. "O que você quer dizer?"

Elara apontou para o relógio na parede. "O tempo é uma construção, Artur. Ele pode ser dobrado, esticado ou até mesmo pausado. Mas para você, tornou-se uma prisão. O seu tempo está a acabar porque se esqueceu de como viver no presente."

Artur balançou a cabeça. "Eu não entendo."

Elara levantou-se e caminhou até ele. "Feche os olhos", ela sussurrou.

Ele obedeceu e, ao fazê-lo, sentiu um calor inundá-lo, uma sensação de ser levantado, sem peso. Imagens passaram diante de seus olhos – memórias da sua infância, momentos de alegria, tristeza, amor e perda. Ele se via quando menino, correndo pelos campos de trigo dourado, rindo com os amigos, brincando na chuva. Ele viu seu primeiro amor, o toque da mão dela, o calor do seu sorriso. Ele viu os seus pais, com os rostos marcados pela idade, mas cheios de orgulho e amor.

E então ele se viu curvado sobre a mesa, o peso do mundo sobre os ombros, o relógio sempre correndo, sempre em contagem regressiva.

Quando ele abriu os olhos, ele estava de volta à torre do relógio. Elara havia desaparecido, mas a vela ainda tremeluzia, lançando um brilho suave. O relógio na parede começou a se mover novamente, os seus ponteiros avançando continuamente.

Artur respirou fundo e saiu. A neblina havia-se dissipado e as primeiras luzes do amanhecer surgiam no horizonte. Ele sentiu uma sensação de clareza, de propósito. Ele sabia agora que o tempo não era seu inimigo, mas uma dádiva – uma dádiva a ser valorizada, a ser vivida plena e completamente.

Ao voltar para o seu apartamento, resolveu escrever a sua história, não apenas dos esquecidos, mas dos momentos encontrados, dos momentos que faziam a vida valer a pena. Afinal, não se tratava de ficar sem tempo, mas de fazer valer cada momento.

terça-feira, 21 de maio de 2024

Raposa- vermelha, no limiar da urbe


No limiar da urbe
Raposa Vermelha (Vulpes vulpes)
As raposas são dos animais mais adaptáveis e plásticos dos nossos habitats, capazes de subsistir desde o alto das serras do norte e centro, às planícies do Alentejo, alimentando-se de bagas, insectos, roedores e não desperdiçando um galinheiro mal guardado. Pelas características que descrevi antes, não é de admirar que também consigam ocupar meios humanizados. Normalmente associadas a meios mais rurais, são já conhecidas populações semiurbanas, em cidades como Londres ou Berlim é relativamente comum observar raposas a deambular entre avenidas movimentadas, grandes jardins e parques, ou zonas de moradias. Neste meio aparentemente hostil, as oportunidades de alimentação são até vastas, ratazanas e pombos bem gordos, o nosso lixo e um ou outro fruto de um quintal. Maia também já tem direito às suas raposas citadinas, entre o ecocaminho e Parque do Avioso habita uma população deste simpático carnívoro. São vários os relatos de pessoas que se deleitam a observar estes animais numa caminhada pelo Parque de Avioso ou simplesmente estando nas suas varandas, normalmente já de noite, e vendo-as apressadas em busca do seu sustento diário. É animador, de várias perspetivas, que pelo menos alguns animais consigam subsistir nas nossas cidades, para nos recordar que a nossa vida não está toda em ecrãs, cimento e taxas, e que a natureza por vezes encontra os caminhos menos prováveis

terça-feira, 23 de abril de 2024

De forquilha em riste



Chega a Primavera e com ela motas e veículos todo terreno. Entram num canto da aldeia e atravessam-na a toda a brida, quitados com os símbolos do grupo e forrados de lama. Querem lá saber das crianças, dos velhos, das máquinas agrícolas a cinco à hora, dos gados guiados por pastores e cães ou do direito ao sossego de quem aqui vive. Vale a adrenalina porque os indígenas são empecilhos. Espero um acidente grave um destes dias.
Já vi grupos com dezenas deles, organizados em grupos à margem da lei, no interior do PNM. Muitos deles até são estrangeiros que vêm para aqui fazer o que não podem na terra deles. Em contrapartida, os agentes de animação turística legais têm, e bem, de se inscrever no Turismo de Portugal e possuir autorização do ICNF para orientar pessoas em percursos pedestres.
Enquanto ninguém lhes carrega hei de os receber de forquilha em riste para andarem de mansinho, como fiz na semana passada. A ver se não tomaram juízo.

Meu comentário
E ainda com probabilidade de retirada de subsídio às pessoas da aldeia. Há de uma faísca provocada pelo sobre aquecimento de pneus ou aqueles escapes potentes provocarem um incêndio, para não falar do provocado por lixo depositado. Afirmam que gostam da paisagem e da Natureza mas depois querem conduzir por cima dela na maior velocidade que puderem.
Somente por respeito à lei e ao estado de direito se resiste à vontade de espalhar estrepes nos caminhos…

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Bicicletas- Faça já o seu registo


Sabias que:
26% das bicicletas são roubadas na rua.
20% das bicicletas são roubadas no emprego/estacionamento público.
51% das bicicletas são roubadas em garagens ou arrecadações.
3% das bicicletas são roubadas de dentro das residências.
Já registaste a tua?
Faz já o teu registo

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Dia de nascimento de Kateryna Bilokur



Hoje é o aniversário da grande artista ucraniana – Kateryna Bilokur (1900-1961). Ela poderia ter sido mais reconhecida durante a sua vida, mas não foi porque era mulher e camponesa. Mas agora podemos celebrar a arte dela como ela merece!

Kateryna Bilokur (1900–1961) foi uma proeminente artista ucraniana reconhecida internacionalmente pelo seu talento singular, tendo chegado a encantar Pablo Picasso, que declarou em 1954: "Se tivéssemos uma artista deste nível, faríamos o mundo inteiro falar dela." A sua vida e obra desenrolaram-se num contexto histórico de profundas e violentas transformações políticas, sociais e económicas que devastaram o campo ucraniano ao longo da primeira metade do século XX.

Nascida no seio de uma família camponesa na aldeia de Bohdanivka, na região de Poltava, sob o domínio do Império Russo, Bilokur cresceu numa época em que a educação das mulheres no campo era profundamente limitada e vista como desnecessária. A mentalidade patriarcal vigente ditava que o seu dever se devia restringir ao trabalho agrícola e à gestão do lar. Totalmente autodidacta, aprendeu a desenhar em segredo, enfrentando a forte oposição e as punições da família, que temia que a sua paixão pela arte prejudicasse as suas hipóteses de casamento.

Mais tarde, com a queda do império e a criação da União Soviética, a vida rural sofreu um golpe devastador durante o final da década de 1920 com a coletivização forçada imposta por Joseph Stalin. O regime soviético negou passaportes internos aos camponeses dos kolkhozes (quintas coletivas), prendendo-os de forma efetiva às suas aldeias. Devido a este impedimento burocrático e ao facto de não possuir o diploma da escolaridade básica de sete anos, viu ser-lhe recusada a admissão em várias instituições de ensino artístico, como a Escola Técnica de Cerâmica de Myrhorod e o Colégio de Belas Artes de Kiev.

Bilokur sobreviveu também ao Holodomor (1932–1933), a fome devastadora provocada pelas políticas de requisição de grãos do regime soviético que vitimou milhões de ucranianos. Diante do horror, da escassez e da morte ao seu redor, a pintura funcionou como um refúgio estético e de resistência espiritual. Em 1934, exausta dos conflitos familiares e da impossibilidade de pintar livremente, tentou o suicídio ao atirar-se às águas geladas do rio Chumhak. Embora tenha sobrevivido, o incidente deixou-lhe sequelas permanentes nas pernas, o que acabou por levar a sua família a aceitar, ainda que com relutância, a sua vocação artística.

Sem acesso a materiais profissionais durante a maior parte da vida, desenvolveu uma técnica inteiramente artesanal: fabricava os seus próprios pincéis com pelos de rabo de gato e finos ramos de salgueiro, extraía pigmentos de plantas e minerais locais (como beterraba, calêndula e bagas) e misturava-os com óleos. Aplicava a tinta a óleo diretamente na tela sem esboços ou rascunhos prévios, trabalhando detalhe por detalhe com pinceladas extremamente finas. Recusando-se a colher as flores para pintar no estúdio, caminhava quilómetros até aos campos para pintar a flora viva ao ar livre.

O seu estilo enquadra-se na Arte Naïf e no Primitivismo Folclórico, destacando-se pelas suas composições de natureza-morta botânica de uma densidade e riqueza cromática impressionantes, onde frequentemente combinava plantas de diferentes estações do ano numa única cena sobre fundos escuros ou céus limpos.

As suas influências transcendem o âmbito técnico. No plano literário e cultural, a sua maior inspiração moral foi o poeta e pintor Taras Shevchenko, cujos textos lhe deram força espiritual para perseverar. Nutriu-se igualmente das descrições místicas do folclore rural na obra de Nikolai Gogol, do patriotismo de Ivan Kotlyarevsky e da poesia oral e canções populares ucranianas. Visualmente, foi influenciada pela tradição dos pintura decorativa de Petrykivka, pelos bordados tradicionais (vyshyvanka) e pela iconografia religiosa ortodoxa. Sob o ponto de vista filosófico, a sua obra é marcada pelo panteísmo e pelo vitalismo, encarando as flores não como meros ornamentos, mas como seres vivos dotados de alma - a que chamava "os seus filhos" -, traduzindo uma celebração contemplativa da harmonia entre a terra, o cosmos e a natureza.

A sua vida mudou radicalmente em 1940, quando a cantora de ópera Oksana Petrusenko, impressionada por um desenho que a artista lhe enviara por carta, intercedeu junto do meio artístico para a organização da sua primeira exposição individual em Poltava. Após a Segunda Guerra Mundial e o fim da ocupação nazi da sua aldeia, o regime soviético acabou por promovê-la como uma "artista do povo", aproveitando a sua origem camponesa para a propaganda cultural. Contudo, o estilo de Bilokur manteve-se imune às exigências ideológicas do Realismo Socialista, preservando a sua liberdade poética.

O ápice do seu reconhecimento internacional ocorreu em 1954, quando três das suas obras foram exibidas na Exposição Internacional de Paris e elogiadas por Picasso. Apesar dos títulos e da aclamação tardia, viveu os seus últimos anos em condições financeiras modestas na sua aldeia natal, cuidando da mãe doente antes de falecer em 1961, deixando um legado indelével na história da arte ucraniana e mundial.

Biografia