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domingo, 21 de dezembro de 2025

A tempestade voltou a agitar o mar de dúvidas em torno dos riscos do uso do glifosato para a saúde humana


1) Uma prestigiada revista científica acaba de retratar uma das publicações que mais influenciaram a avaliação da "segurança" do glifosato porque os autores "se esqueceram de declarar o seu conflito de interesses" — ou seja, quem os financiava. Que conveniente!

2) O Parlamento Europeu deverá decidir nas próximas semanas sobre o "abrandamento" das medidas para o registo e aprovação de pesticidas na Europa. A Comissão Europeia irá submetê-las em breve à discussão, e prevêem, entre outras coisas, a eliminação da obrigação legal de considerar provas científicas independentes ao autorizar ou proibir os pesticidas.

Assim sendo, um novo estudo dos nossos colegas da Universidade de Jaén (Espanha, Europa) sobre a presença de glifosato nos olivais de Portugal, Marrocos, Itália, Grécia e Espanha parece particularmente oportuna.

Passo a explicar: Fernández García e os seus colegas encontraram glifosato e os seus produtos de degradação (AMPA e N-acetil-AMPA) nos solos de olivais de gestão tradicional (MT) e de alta densidade (AD); também, mas em concentrações muito mais baixas e a maiores profundidades no solo, nos olivais orgânicos (ORG).

Portugal apresenta as concentrações médias mais elevadas em olivais de maneio tradicional (MT) e de alta densidade (AD). Em Espanha e Marrocos, os olivais de alta densidade (AD) apresentam as concentrações mais elevadas, enquanto que na Grécia, os olivais de maneio tradicional (MT) eram os mais ricos em glifosato.

Acrescentam que, em Itália, o glifosato não é encontrado em olivais porque o seu uso foi altamente restringido desde 2016.

O quê?! Assim, é possível produzir azeite de qualidade sem utilizar herbicidas tóxicos e alcançar uma posição de liderança internacional em termos de prestígio, imagem e marca? Não sei o que estamos à espera para abandonar este hábito prejudicial de matar ervas daninhas a qualquer custo.

quarta-feira, 22 de março de 2023

Dia Mundial da Água: humanidade "vampírica" enfrenta crise global iminente de água

A humanidade "vampírica" está a esgotar os recursos hídricos do planeta, alertou nesta quarta-feira a ONU antes do início de uma conferência que procura corresponder às necessidades de biliões de pessoas, em risco perante uma iminente crise hídrica mundial.


"O superconsumo e o superdesenvolvimento vampírico, a exploração insustentável dos recursos hídricos, a poluição e o aquecimento global descontrolado estão a esgotar, gota a gota, esta fonte de vida da humanidade", alertou o secretário-geral da ONU, António Guterres, no prefácio de um relatório publicado algumas horas antes da Conferência da Água de 2023 das Nações Unidas.

"A humanidade embarcou cegamente num caminho perigoso e todos nós sofremos as consequências", realçou o diplomata português. Água insuficiente em alguns locais, demais em outros onde as inundações estão a aumentar ou água contaminada: o relatório da ONU-Água e da Unesco, divulgado na terça-feira, destaca o "risco iminente de uma crise global de água".

"Quantas pessoas serão afetadas por esta crise global de água é uma questão de enquadramento", sublinhou à agência France-Presse (AFP) o seu principal autor, Richard Connor.

"Se nada for feito, entre 40 e 50% da população continuará sem acesso aos serviços de saneamento e cerca de 20 a 25% à água potável", vincou, lembrando que mesmo que as percentagens não mudem, a população mundial está a crescer, bem como o número de pessoas afetadas por estes problemas.

Numa tentativa de inverter a tendência e na esperança de garantir o acesso de todos a água potável ou casas de banho até 2030, objetivos definidos em 2015, cerca de 6500 participantes, entre os quais cerca de uma centena de ministros e uma dezena de chefes de Estado e de Governo, reúnem-se até sexta-feira em Nova Iorque, chamados a alcançar compromissos concretos.

Mas alguns observadores já estão preocupados com o alcance destes compromissos e a disponibilidade do financiamento necessário para implementá-los. No entanto, "há muito que fazer e o tempo não está do nosso lado", realçou Gilbert Houngbo, presidente da ONU-Água, plataforma que coordena o trabalho das Nações Unidas, que não tem uma agência dedicada ao assunto.

Nenhuma conferência desta magnitude tinha sido organizada desde 1977 sobre esta matéria vital, mas ignorada durante muito tempo.

No mundo, nos últimos 40 anos, o uso de água potável aumentou quase 1% ao ano e o relatório da ONU-Água destaca que a escassez de água "tende a espalhar-se" e a piorar com o impacto do aquecimento global, alertando que em breve atingirá até mesmo as regiões poupadas atualmente, como o leste da Ásia ou a América do Sul.

Assim, aproximadamente 10% da população mundial vive num país onde o stresse hídrico atingiu um nível alto ou crítico. E de acordo com o relatório de especialistas em clima da ONU (IPCC) publicado na segunda-feira, "cerca de metade da população mundial" sofre de escassez "severa" de água durante pelo menos parte do ano.

Esta matéria também evidencia as desigualdades: "Onde quer que você esteja, se for rico o suficiente, conseguirá ter água", observou Richard Connor.

O problema não é apenas a falta de água, mas a contaminação daquela disponível, devido à ausência ou deficiência de sistemas de saneamento. Pelo menos dois biliões de pessoas bebem água contaminada com fezes, expondo-as à cólera, disenteria, febre tifoide e poliomielite.

A água é ainda afetada pela poluição por produtos farmacêuticos, químicos, pesticidas, microplásticos ou nanomateriais. Para garantir o acesso à água potável para todos até 2030, os atuais níveis de investimento devem ser multiplicados por pelo menos três, estima a ONU-Água.

Esta conferência da ONU será presidida pelos Países Baixos e Tajiquistão, tendo como tema "Água para o Desenvolvimento Sustentável".

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Desinformação da indústria de pesticidas: o que está em jogo? Saúde, clima, biodiversidade

“O objetivo da propaganda moderna não é apenas desinformar ou impor uma agenda. É para esgotar o seu pensamento crítico, para aniquilar a verdade.” — Garry Kasparov


Em 5 de dezembro de 2022, a US Right to Know lançou Merchants of Poison: How Monsanto Sold the World on a Toxic Pesticide , de Stacy Malkan, com Kendra Klein, PhD e Anna Lappé (você pode ler o relatório completo aqui). A análise se baseia em milhares de páginas de documentos corporativos internos divulgados durante ações judiciais movidas por pessoas processando a Monsanto por alegações de que a exposição a herbicidas Roundup à base de glifosato os levou a desenvolver cancro; e muitos outros documentos obtidos por meio de uma investigação de registros públicos de anos pela US Right to Know. Os documentos revelam muitos detalhes, explicados em nosso relatório, sobre como a indústria de pesticidas nega a ciência e conduz suas campanhas de defesa de produtos. Neste trecho, explicamos por que escrevemos o relatório e descrevemos o grande corpo de evidências científicas que levantam preocupações sobre o glifosato e o que está em jogo para nossa saúde e para o planeta.
As empresas de pesticidas ajudaram a escrever o manual de desinformação

Na manhã de 14 de abril de 1994, o Comitê de Energia e Comércio Subcomitê de Saúde e Meio Ambiente empossou sete executivos do tabaco para uma audiência sobre a regulamentação dos produtos do tabaco. O vídeo daquele dia [1] — com executivo após executivo declarando uma versão de “Não acredito que a nicotina ou nossos produtos sejam viciantes” — está gravado na memória coletiva das mentiras e decepções da Big Tobacco. De fato, décadas antes desse testemunho, os executivos do tabaco sabiam que os cigarros causavam cancro – e que a nicotina é, de fato, viciante. 

Em outubro de 2019, em uma audiência do subcomitê de supervisão da Câmara sobre direitos civis, Martin Hoffert, ex-consultor da Exxon, testemunhou que, no início dos anos 1980, os cientistas que trabalhavam para a empresa já previam como o uso de combustíveis fósseis aumentaria os níveis de dióxido de carbono, levando a temperaturas crescentes. [2] Documentos internos mostrariam que, já em 1968, o American Petroleum Institute, um grupo comercial da indústria do petróleo, havia identificado a ameaça do aquecimento global e o papel das empresas de seu setor nisso. [3]

Os executivos da indústria do petróleo sabiam que o uso de combustíveis fósseis causaria o aquecimento global e, no entanto, não apenas esconderam a ciência, mas atacaram ativamente aqueles que deram o alarme. Os executivos do tabaco sabiam e encobriam os riscos à saúde de seus produtos. [4] Essas indústrias usaram táticas de desinformação agora bem documentadas para promover a dúvida e o negacionismo. [5] As táticas da Big Tobacco provavelmente custaram milhões de vidas, já que os regulamentos surgiram muito depois de se tornar evidente que os cigarros causam câncer - e continuam a custar vidas. (A OMS estima que 8 milhões de pessoas morrem anualmente devido ao uso do tabaco). [6]A rotação do setor de combustíveis fósseis impulsionou o negacionismo científico e a inação política que levaram a um aquecimento global e estão associados a milhões de mortes por ano, [7] com poucos caminhos claros para evitar mudanças climáticas catastróficas.

Durante décadas, a indústria de pesticidas usou estratégias de comunicação igualmente enganosas para moldar o debate público e influenciar os reguladores – até mesmo manipulando a própria ciência sobre a qual as políticas são feitas – para desviar a atenção das evidências de que a agricultura intensiva em pesticidas ameaça os ecossistemas e a saúde humana. Neste relatório, mostramos como as empresas de pesticidas não apenas seguiram os passos do Big Oil e Big Tobacco, mas também ajudaram a escrever o manual de relações públicas que obscurece os perigos de produtos de consumo amplamente utilizados que a ciência mostra que estão ameaçando a saúde humana e ambiental em todo o mundo. globo. Este relatório sobre a campanha da Monsanto para defender o glifosato conta uma parte de uma história mais ampla: que, por décadas, as empresas de pesticidas realizaram caras campanhas de relações públicas para moldar a narrativa sobre a ciência e nosso sistema alimentar, promovendo as ideias gêmeas de que os pesticidas - um termo que abrange inseticidas, herbicidas, fungicidas e muito mais - são seguros e que precisamos deles para alimentar o mundo. Nos últimos anos, estudos globais inovadores mostraram a grave ameaça que os produtos químicos agrícolas representam para a biodiversidade e a saúde pública e como eles falham em cumprir suas promessas de maior produtividade agrícola, levando à perda de colheitas e à resistência de ervas daninhas e pragas.[8] No entanto, apesar das evidências crescentes, a indústria de pesticidas dobrou as mensagens enganosas.

Este relatório chega em um momento de consolidação cada vez maior da indústria no setor de agroquímicos e sementes — muito parecido com o que vimos em toda a economia. Em 2020, graças a compras recentes, incluindo o acordo Bayer-Monsanto, apenas quatro empresas controlavam 62% do mercado global de agroquímicos e 51% do mercado global de sementes comerciais, de acordo com o ETC Group, participação de mercado da Bayer em agroquímicos, 16% , ficou atrás apenas da ChemChina/Syngenta com 25 por cento, seguida pela BASF com 11 por cento do mercado e Corteva (o nome renomeado da empresa fundida Dow e Dupont) com 10 por cento. Para sementes comerciais e características de sementes, a Bayer controla 23 por cento do mercado, enquanto a Corteva tem uma participação de mercado de 17 por cento, com a ChemChina em 7 por cento e a BASF em 4 por cento. [9]

Para esclarecer o giro de relações públicas da indústria de pesticidas, este relatório fornece um mergulho profundo em uma empresa e uma campanha de relações públicas: a Monsanto, comprada em 2018 pela multinacional farmacêutica e agroquímica alemã Bayer AG, e sua campanha de defesa de produtos para promover herbicidas à base de glifosato vendidos sob a marca Roundup, e para proteger esses produtos da ameaça de regulamentação. Este relatório baseia-se num white paper de 2015 escrito por Kari Hamerschlag, da Friends of the Earth, juntamente com Stacy Malkan e Anna Lappé, que documenta algumas das mensagens e táticas de grupos de frente da indústria de alimentos, incluindo os milhões de dólares que gastam todos os anos para moldar o história do nosso sistema alimentar. [10]

Dois grandes desenvolvimentos nos últimos anos levaram a mais relatórios sobre este tópico: Primeiro, novas evidências científicas, discutidas abaixo, tornam clara a urgência de abordar os impactos ambientais e de saúde associados aos produtos da indústria de pesticidas, incluindo formulações de herbicida glifosato. Em segundo lugar, o acesso a novas evidências de documentos corporativos internos, obtidos nos últimos cinco anos por meio de ações legais e investigações de interesse público, fornece uma nova visão sobre como a Monsanto conduziu suas operações de propaganda, com a ajuda das indústrias de pesticidas e alimentos processados. Graças a dezenas de milhares de páginas de documentos corporativos internos disponibilizados por esses esforços, o público tem acesso sem precedentes a como o setor desenvolve estratégias para enganar o público. Esses documentos incluem os “Papéis da Monsanto” obtidos em litígios sobre herbicidas à base de glifosato e registos públicos disponibilizados por meio de uma investigação liderada por colegas da US Right to Know. (Muitos desses documentos estão disponíveis no site US Right to Know e via documentos que doamos aos arquivos de documentos da indústria química e alimentícia da UCSF.) [11]

Este relatório soma-se a um crescente corpo de pesquisas e reportagens sobre as táticas enganosas da indústria de pesticidas: as reportagens do The Intercept sobre o giro de relações públicas empurrando os neonicotinoides, a classe de pesticidas que impulsionam o “ apocalipse dos insetos ” e detalhando as táticas usadas pela indústria manter o mortal pesticida paraquat no mercado por décadas; ou a reportagem do The New Yorker sobre os ataques da empresa de pesticidas Syngenta ao cientista Tyrone Hayes; ou mapeamento do DeSmog dos pontos de desinformação da indústria de pesticidas. Em conjunto, este relatório ajudou a revelar as principais táticas de relações públicas da indústria de pesticidas e ajudou a expor a criação de mitos sobre a segurança e a necessidade de pesticidas.
Em suas próprias palavras…

O relatório do Merchant's of Poison acrescenta a esta pesquisa detalhando as táticas de spin usadas para empurrar o herbicida mais onipresente do mundo: o glifosato. Mostramos — usando as próprias palavras da indústria em seus próprios documentos — como o maior produtor de herbicidas à base de glifosato, a Monsanto (comprada pela Bayer AG em 2018), usou táticas furtivas para obscurecer a verdade e moldar a narrativa sobre esse pesticida e nosso sistema alimentar mais amplamente. Detalhamos como a empresa produziu ciência corrupta , minou instituições de saúde pública, comprou influência nas mais prestigiadas universidades dos Estados Unidos, e implantou um exército de aliados terceirizados para espalhar mensagens de defesa do produto, incluindo ataques a cientistas e jornalistas. Mostramos como a empresa rastreou e atacou os críticos e tentou dominar espaços online relacionados a pesticidas e organismos geneticamente modificados (OGMs). Ao longo deste relatório, mostramos como um pequeno grupo de especialistas do setor implantou mensagens enganosas por meio de vozes aparentemente independentes, usando muitas das mesmas estratégias e fluxos de financiamento – e às vezes as mesmas pessoas – que as indústrias de tabaco e combustíveis fósseis usam para enganar o público.

Por que focar no giro de relações públicas em torno do glifosato? Certamente existem pesticidas mais tóxicos para uso agrícola. Há o paraquat, em que a exposição até mesmo a uma tampa cheia pode ser mortal, e a classe de inseticidas conhecidos como neonicotinoides, que aumentaram a toxicidade da agricultura dos EUA para insetos em 48 vezes nos últimos 25 anos. [12]Mas, embora não seja o mais tóxico, o glifosato ainda é tóxico para os seres humanos e devastador para os ecossistemas; discutimos na Parte 1 a ciência que liga o glifosato ao câncer, danos reprodutivos, doenças renais, declínio da borboleta-monarca e outros impactos ambientais e de saúde. E, como o produto químico agrícola mais difundido no mundo, um detalhamento de há quanto tempo a empresa sabia sobre essa toxicidade, o quanto ela fez para criar uma história diferente e como continua a gerar dúvidas, negação da ciência e desvio ao enfrentar milhares de ações judiciais de agricultores e jardineiros que sofrem de câncer relacionado ao uso de glifosato é extremamente importante. Além disso, os documentos internos mostram uma imagem clara das táticas de relações públicas que a Monsanto/Bayer usou e os jogadores dos quais a empresa depende,

Finalmente, esta história é importante porque está ligada à promoção e defesa de cultivos geneticamente modificados ou OGMs, comercializados pela primeira vez em meados da década de 1990. A conexão é simples: a maioria das culturas transgênicas vendidas até agora foram desenvolvidas com características para expressar um inseticida ou tolerar um herbicida ou ambos, e quase todas foram modificadas com a característica de tolerância ao glifosato. [13] Portanto, os debates sobre os riscos e recompensas dos OGMs estão intimamente ligados à história do giro em torno da segurança do glifosato.

A maioria das culturas transgénicas no mercado foram modificadas para tolerar o glifosato.


Com base nessas milhares de páginas de documentos internos da Monsanto e relatórios investigativos, analisados ​​juntos em um só lugar pela primeira vez, este relatório revela cinco táticas de desinformação da indústria de pesticidas , relatando como a Monsanto:

1) Corrompeu a ciência: mostramos como os funcionários da Monsanto moldaram a ciência do glifosato, incluindo o pagamento de acadêmicos, redação de artigos fantasmas, influência de agências reguladoras e uso de outras táticas secretas para moldar o registro científico e regulatório;

2) Academia cooptada: Relatamos como a Monsanto e outras empresas de pesticidas fizeram parceria e pagaram universidades e professores que, por sua vez, promoveram e defenderam o glifosato e as sementes transgênicas projetadas para tolerar o herbicida. Muitas dessas parcerias não eram transparentes para o público.

3) Aliados terceirizados mobilizados: Descrevemos a grande e bem financiada câmara de eco de terceiros - os grupos de frente, organizações profissionais, universidades, campanhas de astroturf e outros - que disseminaram mensagens elaboradas pela Monsanto e suas empresas de relações públicas para esse fim de se opor aos regulamentos de saúde, segurança e transparência para produtos da indústria de pesticidas.

4) Cientistas, jornalistas e influenciadores rastreados e atacados: examinamos como grupos da indústria que afirmam ser “pró-ciência” – incluindo o Projeto de Alfabetização Genética e o Conselho Americano de Ciência e Saúde – visaram os pesquisadores de câncer da Organização Mundial da Saúde e outros cientistas e jornalistas que informaram sobre as ligações do glifosato com o câncer.

5) Espaços on-line dominados: discutimos como a Monsanto e outras empresas implantaram os mesmos grupos de fachada que atacaram cientistas e jornalistas em defesa do glifosato para se infiltrar em espaços on-line e obter a melhor colocação nas pesquisas do Google News para elevar as mensagens do setor.

Este relatório também documenta como as próprias campanhas de influência do setor são grandes negócios : Juntas, seis das associações comerciais nomeadas nos documentos da Monsanto para a defesa do glifosato — a Biotechnology Innovation Organization, CropLife America, American Chemistry Council, a Grocery Manufacturers Association, a National Corn Grower's Association e a American Soybean Association — gastaram US$ 1,3 bilhão em um período de cinco anos (2015-2019) financiando marketing, lobby e mensagens. (Consulte o Apêndice I) E apenas sete das organizações sem fins lucrativos nomeadas nos documentos internos da Monsanto como principais aliadas em sua estratégia de defesa de produtos gastaram até US$ 76 milhões durante o mesmo período. (Isso tudo além dos US$ 206 milhões que a Monsanto gastou em seu orçamento de publicidade relatado durante o período de três anos antes da compra da Bayer). [14] Embora a defesa do glifosato seja apenas parte do que essas organizações fazem - em alguns casos, uma pequena parte - o tamanho de seus orçamentos transmite os enormes recursos disponíveis para grupos que executam campanhas de defesa de produtos usando as táticas de desinformação que descrevemos neste relatório.

Esses grupos são uma indústria inquestionável em si mesmos: seu objetivo é proteger e defender os alimentos, produtos e processos com uso intensivo de produtos químicos que são a base da cadeia alimentar industrial atual.

Enquanto este relatório vai para a impressão, a União Europeia está debatendo se deve reautorizar o uso do glifosato no próximo ano. Aqui nos Estados Unidos, o Tribunal de Apelações do Nono Circuito decidiu em junho de 2022 que a aprovação do glifosato pela EPA era ilegal. [15] No mesmo mês, a Suprema Corte dos EUA rejeitou a tentativa da Bayer de se esquivar de um prêmio de $ 25 milhões do júri para um homem da Califórnia que disse que décadas de exposição ao Roundup à base de glifosato causaram seu linfoma não-Hodgkin. [16] Em grande parte como resultado das pressões do litígio do glifosato, a Bayer anunciou em julho de 2021 que substituiria seus produtos à base de glifosato no mercado residencial “Lawn & Garden” dos EUA por novas formulações a partir de 2023. [17]O uso agrícola do glifosato continuará. Inúmeros outros usos comerciais e industriais, incluindo escolas e parques da cidade, também continuarão. Embora esses usos ainda sejam permitidos, há uma crescente pressão pública para regulamentar ainda mais o herbicida.

Os debates sobre o futuro do glifosato, na verdade, todas as formulações de pesticidas, devem ser deliberados à luz do que é revelado neste relatório e em outros relatórios sobre a indústria de pesticidas: o fato de que agora está bem documentado como a indústria de pesticidas funciona para moldar a ciência e a opinião pública a fim de evitar a regulamentação. Neste contexto, este relatório levanta questões-chave: Como podemos expor a manipulação da indústria da ciência em torno de pesticidas? Como garantimos que substâncias químicas nocivas, como o glifosato, não sejam substituídas por outras ainda mais tóxicas? E como regulamentamos os pesticidas para proteger a saúde pública e os ecossistemas e não ficar à mercê da ação voluntária das empresas químicas? De forma mais ampla, como garantimos que os funcionários públicos, não influenciados pela indústria ou seus aliados,

Em última análise, a história de engano que este relatório documenta é uma história sobre a vulnerabilidade da indústria de pesticidas: para escapar da regulamentação e da transparência que afetariam sua lucratividade e participação de mercado, a indústria de pesticidas - assim como as indústrias de petróleo e tabaco - depende profundamente da sucesso do subterfúgio de relações públicas para manter a lucratividade. Compreender como esse subterfúgio funciona é fundamental para jornalistas, formuladores de políticas e grupos de interesse público que trabalham para informar o público sobre os riscos à saúde e ao meio ambiente decorrentes do uso crescente de pesticidas e da disponibilidade de alternativas mais seguras.

domingo, 16 de outubro de 2022

Dia Mundial da Alimentação promove cuidado com todos para evitar fome



“Não deixe ninguém para trás” é o tema desde ano após preocupações com guerras e desafios para segurança alimentar global; papa Francisco e Guterres enviaram mensagens a evento de comemorações em Roma, sede da FAO.

As Nações Unidas marcam neste 16 de outubro o Dia Mundial da Alimentação. Em 2022, o tema é “não deixe ninguém para trás”.

Para líderes internacionais e chefes de agências da ONU, o momento é de alerta com uma crise global de segurança alimentar e um recorde de pessoas em grave risco de fome na Ásia e na África.

Esperança e ação

O Dia da Alimentação é celebrado em mais de 150 países em locais icónicos como a estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, as Cataratas de Niágara, na América do Norte, e a praça Piccadilly Circus, de Londres, também acolhem atividades.

Em Roma, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, FAO, realizou um evento, nesta sexta-feira, com mensagens do secretário-geral da ONU, António Guterres, do papa Francisco e do presidente italiano Sergio Mattarella.

Guterres ressaltou que o mundo vive um período desafiador para a segurança alimentar.

Na mensagem para este ano, o líder das Nações Unidas exorta as partes interessadas a cooperarem para passar do desespero à esperança e à ação.

O diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, disse que diante de uma iminente crise alimentar global, é preciso aproveitar a solidariedade e o impulso coletivo para construir um futuro melhor. Nessa realidade, todos devem ter acesso regular a alimentos nutritivos suficientes.

Soluções justas e duradouras

Em sua mensagem, o papa Francisco listou os desafios desse momento de guerra.

O chefe da Igreja Católica lembrou que a FAO celebra 77 anos e que foi criada para responder as necessidades das vítimas da miséria e da fome no contexto da Segunda Guerra Mundial.

O apelo é que não se perca de vista que as pessoas “não são apenas números, dado um fluxo interminável de estatísticas”.

O papa Francisco pediu ainda que os projetos e intervenções da agência não se limitem a carências circunstanciais ou apelos feitos em contextos de emergência, mas para oferecer soluções justas e duradouras.

Ele destacou que é necessário ressaltar a urgência de enfrentar o problema da pobreza, que está intimamente ligado à falta de nutrição adequada, em conjunto e em todos os níveis.

Para o presidente italiano, Sergio Mattarella, “sem igualdade de acesso à alimentação, milhares de pessoas principalmente aquelas que vivem nos países mais pobres, não podem ter uma vida saudável, educação de qualidade e oportunidades de crescimento social e económico”.

Crise alimentar global sem precedentes

A ONU estima que além das 970 mil pessoas em risco de fome no Afeganistão, na Etiópia, na Somália, no Sudão do Sul e no Iémen, o número de pessoas que passam fome em todo o mundo está aumentando.

Somente em 2021, 828 milhões viviam nessa situação, segundo o relatório Estado de Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo. Cerca de 3,1 biliões de pessoas ainda não podem ter uma alimentação saudável.

Na cerimónia, o diretor executivo do Programa Mundial de Alimentos, PMA, afirmou que a maior preocupação é o que está por vir.

Crises contínuas

David Beasley listou a crise de disponibilidade de alimentos, relembrando que os efeitos de conflitos e das mudanças climáticas ameaçam prejudicar a produção global de alimentos nos próximos meses.

O chefe do PMA destacou que o mundo deve abrir os olhos para a atual crise alimentar global sem precedentes e agir de imediato para impedir que a situação saia do controle.

O presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola, Álvaro Lario, informou que, este ano, mais do que nunca, o Dia Mundial da Alimentação deve ser um apelo para intensificar as ações de ajuda aos pequenos agricultores do meio rural.

Ele ressaltou que estes produtores fornecem alimentos para suas comunidades e países em crises sucessivas, apesar da desigualdade, da vulnerabilidade e da pobreza.

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quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Ending world hunger by 2030 would cost $330bn, study finds

Research suggests that by targeting enhanced aid money more effectively and with greater innovation, a solution is possible.

Ending hunger by 2030 would come with a price tag of $330bn (£253bn), according to a study backed by the German government.

Research groups compiled data from 23 countries and found international donors would need to add another $14bn a year to their spending on food security and nutrition over the next 10 years; more than twice their current contribution. Low and middle-income countries would also have to give another $19bn a year, potentially through taxation.

The study, published this week, coincided with warnings that the world has an “immense mountain” to climb in order to end hunger, with 11 countries showing “alarming” levels of hunger, and “serious” levels in another 40, according to the Global Hunger Index.

“We’re trying to solve a problem here – that is, hunger being on the rise – and still almost 700 million people are going to bed hungry at night. Whatever we’re currently spending is not helping those people,” said Carin Smaller, co-director of Ceres2030, a coalition funded by the German government and the Bill and Melinda Gates Foundation.

Smaller said researchers used an economic model that took existing spending and looked at how it could be improved in 14 areas, ranging from social protection and income support, to investment in research and training.

“It’s not about doubling spending to do the same things,” she said.

The research, from the Centre for Development Research, Cornell University, the UN Food and Agricultural Organization (FAO), the International Food Policy Research Institute, and the International Institute for Sustainable Development, found that advancements in technology needed to be matched by support for farmers, especially women, who were often not able to benefit from new techniques or crops that could make harvests more reliable.

It also suggested that work on reducing losses from harvests should be expanded beyond the existing focus on storage, to include more nutritious fruits and vegetables.

The study included the development of an AI tool that analysed half a million research articles from the past 20 years to find evidence on what works to end hunger.

“If rich countries double their aid commitments and help poor countries to prioritise, properly target and scale up cost effective interventions on agricultural R&D, technology, innovation, education, social protection and on trade facilitation, we can end hunger by 2030,” said Maximo Torero, chief economist at the FAO.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Fundação Gates investe na Monsanto

No Huffington Post  de hoje.
Destaco este trecho e os meus sublinhados:

Under the guise of "sustainability" the Foundation has been spearheading a multi-billion dollar effort to transform African into a GMO-friendly continent. The public relations flagship for this effort is the Alliance for a Green Revolution in Africa (AGRA), a massive Green Revolution project. Up to now AGRA spokespeople have been slippery, and frankly, contradictory about their stance on GMOs.
The first Director of AGRA was Gary Toenniessen, a career program officer for Rockefeller Foundation. He said AGRA was not ruling out GMOs and if and when they were introduced it would be with all the appropriate "safeguards." After AGRA was criticized for not having any Africans, Kofi Anan was named Chairman in 2007. He first said GMOs were out of the picture, the next day he recapitulated. Last Spring, Joe DeVries, who runs the AGRA seed program was asked by a Worldwatch blogger if they were engaging in genetic engineering. "Read our lips," said Joe DeVries. "We are not promoting or funding research for GMOs (genetically modified organisms)..." In fact, in Kenya alone AGRA has used funds from the Gates Foundation to write grants for research in genetically modified agriculture. Nearly 80% of Gates' funding in Kenya involves biotech and there have been over $100 million in grants to organizations connected to Monsanto. In 2008, some 30% of the Foundation's agricultural development funds went to promoting or developing genetically modified seeds (See Ending Africa's Hunger)..
More to the point is that--as Monsanto and Gates are fully aware--to establish a healthy GMO industry one first needs a strong conventional breeding program in place: labs, experiment stations, agronomists, extensionists, molecular biologists... and farmer's seeds. All of which Gates, Rockefeller, Monsanto and AGRA are actively lining up.
They also need the power of U.S. government funding. That is where the U.S. Agency for International Development and the Casey-Lugar come in. USAID is now headed up by former Gates employee Rajiv Shah. The Casey-Lugar Global Food Security act ties foreign aid to GMOs. When the Gates Foundation places a bet, they like to hold all the cards.

Conheça a página AGRA Watch


sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Pequeno e-livro sobre o importante papel das ONG na desburocratização

Pequeno e-livro sobre o importante papel das ONG na desburocratização e seu contributo para uma democracia mais "viva"
Eduardo Szazi1
1. General Overview

The strong democratic winds that have been sweeping the world since 1989 have ushered in an unprecedented situation, in which electoral democracies now constitute the predominant form of government in the world. They have also given birth to a steady increase in the people’s participation in public affairs, either at the national or international levels, through private bodies, the so-called non-governmental organizations (NGO).

The expression “non-governmental organizations” was coined by the UN Charter, which, by establishing consultative procedures with NGO (article 71), assumed that the public sphere was larger than the governmental one and that not only States had the legitimacy to be heard in matters affecting the needs and aspirations of citizens. This hard law recognition of the importance of NGO was followed by several similar provisions in the constitutive acts of intergovernmental organizations, both at the universal or regional levels, in UN programs and funds, as well as in other innumerous soft law instruments of interaction between governmental bodies and NGO.

Hence, one could affirm that, at the international level, pluralism is admitted by the UN Charter not only between States, but also beyond States, since the Charter acknowledged that individuals could interact with the United Nations not only through governmental organizations but also through non-governmental organizations. Some authors suggest that since 1945, the world has been living in a neo-Grotian era insofar as the principles of solidarity have been invigorated.2 Not coincidentally, this is the same period in which we observed the appearance of NGO, which experienced a particularly explosive growth after the adoption of the International Covenant of Civil and Political Rights (1966) and the end of the Cold War (1991), both pivotal moments for civil society at large. NGOs are new forms of people’s participation in public affairs, which, at the international level, is based on the international legal personality of individuals and the right of people to self-determination, which has expanded way beyond the de-colonization process of the last century to encompass the right to democracy.

However, if democracy provides the contractual arrangement framework for the participation of people in public affairs through periodic elections, it is currently not capable of ensuring the same participation in the operation of the “social contract,”3 the Weberian bureaucracy that controls the State and has replaced parliament as the main norm-creator. Civil society must control the State. Liberalism has adopted rationalism to ensure fundamental freedoms, hence, it is civil society that commands the State and not the other way around. The primacy of individual rights over State rights was acknowledged by international law when it accepted restrictions to the States’ sovereignty if this proved necessary to ensure human rights. Hence, bearing in mind Thomas Franck’s ideas on Democratic Governance,4 it is necessary to add another building block to his model, through mechanisms of civil participation to hold bureaucracy accountable for its acts and decisions.

One aspect merits attention: Even in solid democracies, while NGO cannot be regarded as being equal to civil society,5 they are relevant non-state actors in the contemporary world that have demonstrated a great capacity for gathering collaborators and financial supporters.6 Any survey will show that NGO are actively involved in the shaping of public policies, whether at a local, national, or international level, addressing a broad range of issues, sometimes as supporters but also—and more often—as critics.7