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domingo, 21 de dezembro de 2025

A tempestade voltou a agitar o mar de dúvidas em torno dos riscos do uso do glifosato para a saúde humana


1) Uma prestigiada revista científica acaba de retratar uma das publicações que mais influenciaram a avaliação da "segurança" do glifosato porque os autores "se esqueceram de declarar o seu conflito de interesses" — ou seja, quem os financiava. Que conveniente!

2) O Parlamento Europeu deverá decidir nas próximas semanas sobre o "abrandamento" das medidas para o registo e aprovação de pesticidas na Europa. A Comissão Europeia irá submetê-las em breve à discussão, e prevêem, entre outras coisas, a eliminação da obrigação legal de considerar provas científicas independentes ao autorizar ou proibir os pesticidas.

Assim sendo, um novo estudo dos nossos colegas da Universidade de Jaén (Espanha, Europa) sobre a presença de glifosato nos olivais de Portugal, Marrocos, Itália, Grécia e Espanha parece particularmente oportuna.

Passo a explicar: Fernández García e os seus colegas encontraram glifosato e os seus produtos de degradação (AMPA e N-acetil-AMPA) nos solos de olivais de gestão tradicional (MT) e de alta densidade (AD); também, mas em concentrações muito mais baixas e a maiores profundidades no solo, nos olivais orgânicos (ORG).

Portugal apresenta as concentrações médias mais elevadas em olivais de maneio tradicional (MT) e de alta densidade (AD). Em Espanha e Marrocos, os olivais de alta densidade (AD) apresentam as concentrações mais elevadas, enquanto que na Grécia, os olivais de maneio tradicional (MT) eram os mais ricos em glifosato.

Acrescentam que, em Itália, o glifosato não é encontrado em olivais porque o seu uso foi altamente restringido desde 2016.

O quê?! Assim, é possível produzir azeite de qualidade sem utilizar herbicidas tóxicos e alcançar uma posição de liderança internacional em termos de prestígio, imagem e marca? Não sei o que estamos à espera para abandonar este hábito prejudicial de matar ervas daninhas a qualquer custo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Estudo que negava riscos do glifosato é retirado após 25 anos de alertas

O mundo da ciência e da regulação ambiental sofreu um abalo significativo com a retratação formal de um dos estudos mais influentes de sempre sobre a segurança do glifosato. Publicado originalmente no ano 2000 na revista científica Regulatory Toxicology and Pharmacology, o artigo assinado pelos investigadores Williams, Kroes e Munro — que podes consultar no arquivo original da ScienceDirect — serviu, durante um quarto de século, como o principal escudo científico para afirmar que o herbicida Roundup não representava riscos de cancro ou toxicidade para os seres humanos. Agora, conforme reportado recentemente pelo jornal Público e no The Guardian, a própria revista decidiu retirar o estudo, admitindo que o processo foi marcado por má conduta ética.

A decisão de retratar o estudo surge após décadas de pressão por parte de cientistas independentes e da revelação de documentos internos da Monsanto, conhecidos como "Monsanto Papers". Estes documentos, que vieram a público durante processos judiciais nos Estados Unidos, revelaram que funcionários da multinacional estiveram diretamente envolvidos na redação, revisão e edição do texto original. Esta prática, conhecida como ghostwriting (escrita fantasma), foi ocultada na altura, apresentando o estudo como o trabalho de académicos independentes quando, na verdade, houve uma intervenção direta da empresa interessada no veredito de segurança.

Para além da escrita fantasma, a nota de retratação oficial emitida pela editora Elsevier aponta para falhas graves na integridade dos dados e na transparência. O estudo de 2000 baseou-se quase exclusivamente em relatórios internos não publicados da própria Monsanto, ignorando evidências científicas que já na altura sugeriam potenciais efeitos adversos. A falta de declaração de conflitos de interesse foi outro fator decisivo: os autores não revelaram que foram pagos pela empresa nem que o desenho da investigação foi influenciado pela estratégia de marketing e defesa legal da marca.

O impacto desta decisão é profundo, uma vez que este artigo foi citado em mais de 700 outros estudos e serviu de base para decisões regulatórias críticas em agências como a EPA nos Estados Unidos e a EFSA na União Europeia. Embora muitas destas agências continuem a manter a aprovação do glifosato baseando-se em avaliações mais recentes, a retirada deste "estudo seminal" desmorona o fundamento histórico que permitiu a normalização do uso massivo do herbicida a nível global. Para a comunidade científica e para organizações como o Pesticide Action Network, o caso serve como um aviso severo sobre os perigos da influência corporativa na ciência que dita as políticas públicas de saúde.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Estudo influente sobre glifosato retirado após décadas de alertas de envolvimento da Monsanto


Um estudo influente que afirmava que o glifosato não apresenta riscos graves para a saúde foi recentemente retirado por suspeita de conflito de interesses, 25 anos após a publicação, que orientou várias decisões políticas.

Embora os investigadores tenham saudado esta retratação, a lentidão levanta questões sobre a integridade da investigação realizada em torno do ingrediente principal do Roundup, o herbicida mais vendido no mundo.

O produto da gigante Monsanto está no centro de importantes debates políticos, especialmente na Europa, enquanto os seus riscos para a saúde são objeto de numerosos processos judiciais.

Publicado em 2000 no jornal Regulatory Toxicology and Pharmacology, o artigo agora retirado está entre os mais citados sobre o glifosato, nomeadamente por muitas autoridades governamentais que regulamentam a sua utilização.

Na nota de retratação publicada na semana passada, a revista cita uma série de lacunas "críticas": omissão de incluir certos estudos sobre os perigos relacionados com o cancro, não divulgação da participação de funcionários da Monsanto na redação e divulgação dos benefícios financeiros recebidos pelos autores da Monsanto.

A Elsevier, editora do jornal, garantiu à agência France Presse que o processo de reexame do estudo foi iniciado "assim que o atual editor-chefe tomou conhecimento das preocupações relativas a este artigo, há alguns meses".

Mas já em 2002, uma carta assinada duas dezenas de investigadores denunciava "conflitos de interesses, falta de transparência e ausência de independência editorial" na revista científica, mencionando a Monsanto.

O caso veio a público em 2017, quando documentos internos da empresa foram divulgados, revelando o papel dos funcionários da Monsanto na redação do estudo, agora retirado.

Naomi Oreskes, historiadora de ciência da Universidade de Harvard, e coautora de uma publicação em setembro que detalha a enorme influência do estudo em causa, disse à AFP estar "muito satisfeita" com uma retratação "há muito esperada", acrescentando que "a comunidade científica precisa de melhores mecanismos para identificar e retirar artigos fraudulentos".

Os motivos descritos pelo jornal para justificar a retirada do estudo "correspondem totalmente ao que denunciámos na época", disse à AFP Lynn Goldman, da Universidade George Washington, que também assinou a carta de 2002.

Gary Williams, um dos autores do estudo retirado, não respondeu ao pedido de comentários da AFP. Os seus coautores já faleceram.

A Monsanto, por seu lado, reiterou que o seu produto não apresentava riscos e garantiu que a sua participação no artigo criticado, reconhecida pela empresa, "não atingiu um nível necessário para declarar a sua autoria e foi devidamente divulgada nos agradecimentos".

A empresa, posteriormente adquirida pela Bayer, não reagiu à existência de e-mails internos nos quais uma cientista da empresa escreveu que queria agradecer a um "grupo de pessoas" que trabalhou nesse artigo e ainda em outro estudo, "pelo excelente trabalho", oferecendo-lhes t-shirts Roundup.

O glifosato foi comercializado como herbicida na década de 1970, mas teve uma adoção crescente na década de 1990. Classificado em 2015 como "provável carcinógeno" pelo Centro Internacional de Investigação do Cancro da Organização Mundial da Saúde, o glifosato é proibido em França desde o final de 2018 para uso doméstico.

Nathan Donley, cientista do Centro para a Diversidade Biológica nos Estados Unidos, disse à AFP que esta notícia provavelmente não mudará a opinião favorável da Agência de Proteção Ambiental (EPA) da Administração de Donald Trump, decididamente pró-indústria. Porém, acrescentou, pode ser levada em consideração pelos reguladores europeus.

Acima de tudo, observou ainda, o episódio constitui um exemplo de um fenómeno mais amplo na literatura científica.

"Tenho a certeza de que existem muitos artigos semelhantes, escritos por outros que não os seus autores declarados e com conflitos de interesses não declarados", disse também John Ioannidis, professor da Universidade de Stanford.

Porém, "é muito difícil revelá-los, a menos que se mergulhe" nos arquivos, acrescentou.

Pode haver mais retratações a caminho. Kaurov, que está agora a frequentar o doutoramento em ciência e sociedade na Universidade Victoria de Wellington, na Nova Zelândia, diz que ele e Oreskes enviaram recentemente um pedido de retratação à revista Critical Reviews in Toxicology para um artigo de 2013 publicado em nome de outros dois autores, que não revela completamente o papel da Monsanto no artigo. "Não é o fim da história", diz.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

REACH: Entre a Protecção e a Burocracia Química


Quando foi criado em 2007, o REACH (Registration, Evaluation, Authorisation and Restriction of Chemicals) prometia uma revolução silenciosa: tornar o mercado europeu mais seguro para as pessoas e o ambiente, obrigando as empresas a provar que as suas substâncias químicas são seguras antes de as colocarem no mercado. O princípio era simples e poderoso — “sem dados, sem mercado” — e pretendia inverter a lógica que, durante décadas, permitiu a comercialização de produtos cujos riscos eram pouco conhecidos.

Quase duas décadas depois, o balanço do REACH é ambivalente. O regulamento é, sem dúvida, um dos mais ambiciosos instrumentos de política ambiental e de saúde pública da União Europeia. Graças a ele, milhares de substâncias foram avaliadas, algumas restringidas e outras substituídas por alternativas menos perigosas. Porém, o seu percurso tem sido marcado por contradições, entraves administrativos e dilemas éticos que merecem reflexão.

A promessa e o peso da burocracia
O REACH é um sistema complexo. Exige que as empresas recolham, testem e submetam à Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA) extensos dossiês de informação sobre cada substância fabricada ou importada. Na prática, isso traduziu-se num fardo burocrático pesado, sobretudo para pequenas e médias empresas, que raramente dispõem de recursos técnicos e financeiros para cumprir todos os requisitos.

A boa intenção de responsabilizar a indústria acabou, por vezes, transformada numa teia de procedimentos administrativos, onde a transparência e a qualidade dos dados nem sempre acompanham o volume de informação exigido. Muitos dossiês submetidos contêm lacunas, atrasando as avaliações e comprometendo a eficácia do sistema.

O dilema dos testes em animais
Um dos pontos mais sensíveis do REACH é a questão dos testes toxicológicos em animais. Embora o regulamento promova métodos alternativos, a realidade mostra que, para muitas substâncias, ainda se recorre a ensaios dolorosos e dispendiosos. Organizações de proteção animal criticam o paradoxo de um sistema que pretende ser moderno e ético, mas que mantém práticas experimentais ultrapassadas em nome da segurança humana.

Competitividade e desigualdade global
A indústria química europeia argumenta que o REACH, ao elevar os padrões ambientais e de segurança, também aumentou os custos de produção e reduziu a competitividade face a países onde a regulação é mais branda. Alguns setores alertam para a deslocalização da produção para fora da Europa — um efeito colateral que, paradoxalmente, pode aumentar os impactos ambientais a nível global, ao deslocar a poluição em vez de a reduzir.

Além disso, a ausência de harmonização internacional dificulta o comércio e cria barreiras técnicas, já que outras regiões do mundo não adotaram sistemas equivalentes. O ideal europeu esbarra, assim, na realidade de uma economia global desigual.

A lenta substituição das substâncias perigosas
Outro objetivo central do REACH era incentivar a inovação química verde. Mas a substituição de substâncias perigosas tem sido mais lenta do que o esperado. Muitas vezes, as alternativas introduzidas no mercado revelam-se apenas ligeiramente menos tóxicas — um fenómeno conhecido como regrettable substitution.

Este impasse mostra que o desafio não é apenas regulatório, mas também científico e económico: criar produtos verdadeiramente seguros requer investimento em investigação e vontade política para transformar cadeias produtivas inteiras.

Entre o avanço e a estagnação
Apesar das suas falhas, o REACH continua a ser um marco global. Inspirou legislações fora da Europa e forçou um debate inadiável sobre a responsabilidade da indústria química. No entanto, permanece a necessidade de simplificar processos, melhorar a transparência e acelerar a substituição de substâncias perigosas.

Nomeadamente a fraca qualidade de muitos dossiers relativos a substâncias químicas registadas, implica que muitas substâncias continuam a ser usadas, sem que se tenha informação suficiente para avaliar a sua segurança para a saúde e o ambiente.

Também os processos de restrição de substâncias chegam a demorar mais de uma década para ser completado, com graves perdas para a saúde humana e para o ambiente.

A anterior Comissão Europeia tinha prometido rever o Regulamento REACH durante o seu mandato para o tornar mais eficaz. Contudo, essa promessa não foi cumprida. O atraso existe desde o primeiro trimestre de 2023 (31 de março de 2023), altura em que deveria ter sido publicada a proposta de revisão.

Em resumo
O equilíbrio entre proteção ambiental, bem-estar animal e competitividade económica é delicado — e o REACH é o espelho dessa complexidade. É um exemplo notável de progresso regulatório, mas também um lembrete de que a transição ecológica exige mais do que boas intenções: precisa de coerência, inovação e coragem política.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Sobre o Diquato


O diquato, substância ativa utilizada para substituir o glifosato no Roundup e noutros herbicidas, pode matar as bactérias intestinais e danificar os órgãos de várias formas, segundo uma nova investigação. É comercializado em Portugal pela Sapec. CUIDADO!

sábado, 21 de dezembro de 2024

Os polinizadores! Sabe quais são?!



Tem a certeza?!
É melhor ver o vídeo.
Neste vídeo só são mencionados os polinizadores insectos.
Tenha em atenção que cerca de 70% dos polinizadores insectos fazem o seu ninho no solo. Assim sendo, envie esta informação aos autarcas que pulverizam as autarquias com herbicidas.

Saber mais e outros vídeos aqui deste projecto da Quercus em 2021 





sábado, 14 de setembro de 2024

Malditas Conyza


Os agricultores detestam as Conyza ... e os botânicos também. São tão variáveis, as correlações de caracteres tão frágeis que a Flora Ibérica arrumou tudo em duas espécies, quando outros autores reconhecem 5 e mais.
A C. canadensis não levanta dúvidas (capítulos glabros, pequeninos). Bem, a C. bonariensis sensu FI é um saco de gatos. A planta em anexo cumpre os critérios de C. bonariensis s.str. (plantas ramificadas desde a base, de crescimento simpodial, folhas estreitas, capítulos granditos, brácteas involucrais tintas de vermelho na extremidade distal estreitando para a base, e papilho branco). Sim, a entidade C. sumatrensis existe – são plantas bem grandes, frequentemente unicaules, de folhas mais largas (na base e no caule), monopodiais (com uma panícula de flores na extremidade), capítulos mais pequenos que os de C. bonariensis, brácteas involucrais verdes, papilho cor de palha, e brácteas mais largas no terço basal. O problema é quando as sumatrenses são cortadas e se ramificam ... ou os papilhos das bonarienses se enchem de pó e ficam amarelados. Enquanto a C. canadensis e a C. bonariensis abundam em ambiente urbano (entulhos, passeios mal-tratados, terrenos de construção, muito cão e muito gato), a C. sumatrensis entra em ambientes menos ruderalizados, em força nos campos de cultura.
E são resistentes ao glifosato. Virtude ou defeito?

sábado, 8 de junho de 2024

Fotos que testemunham os efeitos nocivos do glifosato em Matosinhos


Em Matosinhos a autarca (Luísa Salgueiro) continua a aplicar de forma indiscriminada este tipo de pesticidas, ou seja, os mesmos que alteram a microbiota intestinal e provocam doenças, entre elas as patologias neurodegenerativas.
Acresce que, para além de envenenar a primavera, os munícipes, os seus animais e todo o planeta, ainda permite que se escreva o vocábulo "Ecológicos" no edital que anuncia a aplicação de herbicidas. 
Os herbicidas de síntese NÃO SÃO ecológicos. Vamos aos factos: 

1. A eliminação de árvores autóctones, no caso, de um carvalho pela aplicação de herbicidas designados por "ecológicos" pela autarquia, numa propriedade privada.

2. Após a aplicação de herbicidas, designados como "ecológicos" pela autarquia  ocorreu a morte de joaninhas e abelhões.

3. As plantas com flor, alimento dos polinizadores, em agonia, após a aplicação de herbicidas designados por "ecológicos" pela autarquia.

Fotos recolhidas pela minha amiga Ana Pacheco

Tese de doutoramento em Biologia da FCUP, que relata os efeitos de um herbicida potencialmente mais tóxico do que o glifosato, entre as melhores do ano


A tese de Cristiano Soares, doutorado em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), foi considerada umas das melhores teses de doutoramento de 2022 pela revista científica Plants, do grupo de publicações suíço Multidisciplinary Digital Publishing Institute (MPDI).

Desenvolvido sob orientação das docentes e investigadoras Fernanda Fidalgo e Ruth Pereira, o trabalho do investigador da FCUP e do GreenUPorto – Centro de Investigação em Produção Agroalimentar Sustentável constitui um dos primeiros estudos em Portugal e no mundo que relatam os efeitos de um herbicida potencialmente mais tóxico do que o glifosato e que é apontado como potencial substituto.

“O flazassulfurão faz parte de uma família mais abrangente de herbicidas, a classe das sulfunilureias, que se reconhece não serem tão tóxicos. No entanto, a avaliação de uma bateria de ensaios ecotoxicológicos, conduzidos com espécies vegetais e invertebrados terrestres, revelou que este agroquímico era muito mais nocivo do que o glifosato”, refere Cristiano Soares.

“As concentrações testadas de flazassulfurão eram cerca de 1000 vezes inferiores às de glifosato e incluíam a dose de aplicação recomendada, e mesmo assim, os efeitos eram bem mais significativos”, acrescenta o jovem investigador. Além disso, estudos focados na avaliação da capacidade de retenção do solo revelaram também que o flazassulfurão, nas condições testadas, poderá representar uma ameaça para os cursos de água presentes nas proximidades dos campos contaminados.

Os investigadores da FCUP alertam, por isso, para a necessidade de estudar outros herbicidas presentes no mercado e que começam a ser utilizados em alternativa, ou em complemento, ao glifosato.

“Embora o grande objetivo da Estratégia do Prado ao Prato da União Europeia seja a redução, pelo menos em 50% do uso de pesticidas, existem ainda vários herbicidas aprovados para uso agrícola e urbano, para os quais ainda existem poucos estudos acerca do seu potencial impacto ambiental”, denota Cristiano Soares.

Para quem quiser ler/aprender um pouco mais sobre herbicidas e, nomeadamente, sobre glifosato, pode ler a tese de doutoramento aqui

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Um avanço histórico. União Europeia reconhece o crime de ecocídio no seu direito penal


Este é o fim da impunidade dos criminosos ambientais, quer acreditar Marie Toussaint, uma eurodeputada Verde que há anos defende o reconhecimento do crime de ecocídio. Quinta-feira, 16 de novembro, por iniciativa da Presidência espanhola do Conselho da União Europeia, foi alcançado um acordo para reconhecer o crime de ecocídio no direito penal europeu. Uma decisão sem precedentes que abre caminho ao reconhecimento internacional.

É uma vitória para o reconhecimento do crime de ecocídio. Após longas negociações, a Comissão, o Conselho e o Parlamento Europeu chegaram a acordo na quinta-feira, 16 de novembro, sobre uma diretiva de compromisso que inclui a criminalidade ambiental no direito penal europeu. “ É um momento histórico ”, exulta a eurodeputada dos Verdes, Marie Toussaint, que levanta o assunto há muitos anos. “Este texto marca o fim da impunidade dos criminosos ambientais”, acrescenta.

O Parlamento Europeu já tinha chegado a um acordo em Março passado para reconhecer o crime de ecocídio, mas desde então as negociações foram bloqueadas. Finalmente concretizaram-se graças a uma nova proposta da presidência espanhola do Conselho da União Europeia que, contra todas as expectativas, revelou-se bastante ambiciosa. Se a directiva revista sobre a protecção do ambiente pelo direito penal não cita directamente o crime de ecocídio, introduz uma infracção dita "qualificada" que visa criminalizar os ataques mais graves ao ambiente, referindo-se à definição de ecocídio retidos pelos especialistas da Fundação Stop Ecocide.

“A poluição extensiva, os acidentes industriais ou os grandes incêndios florestais são abrangidos pelo delito qualificado de forma comparável ao crime de ecocídio conforme debatido no direito internacional ”, especifica o texto. Além disso, a directiva, anteriormente limitada a resíduos perigosos, materiais radioactivos ou ao comércio ilegal de vida selvagem, reconhece agora novas infracções como a comercialização de produtos resultantes de desflorestação importada, retiradas ilegais de água, destruição de habitat ou ozono, descarga de substâncias poluentes por navios ou mesmo pelo comércio de mercúrio.


A influência dos lobbies
Mas vai ainda mais longe, pois além da violação da legislação citada pela directiva, abrangerá de forma mais ampla comportamentos que causam danos ao ambiente. “Está além do que esperávamos”, disse Marie Toussaint à Novethic. Portanto, muitos ataques ambientais não abrangidos anteriormente pelo direito penal terão de ser abrangidos amanhã, como “derrames de petróleo, a propagação massiva de pesticidas ou produtos tóxicos como os PFAS espalhados no ambiente” , cita.

No que diz respeito à questão das sanções, o acordo introduz pela primeira vez a nível europeu sanções precisas e harmonizadas para infracções ambientais. A pena máxima de prisão também é fixada em oito anos para crimes qualificados. Nos casos mais graves, as empresas infratoras serão multadas em 5% do seu volume de negócios global anual ou 40 milhões de euros (3% do volume de negócios ou 24 milhões de euros para outras violações). Podem ser privados de financiamento público e serão obrigados a reparar os danos e a indemnizar as vítimas.

"Não há mais como fugir da regra, seja por meio de licenças ou de brechas legais: esta lei é preparada para o futuro, o que significa que a lista de crimes será mantida atualizada. Se você poluir, você pagará pelos seus crimes ; as empresas responsáveis ​​pagarão multas e estão previstas penas de prisão para representantes de empresas poluidoras, reagiu o relator do texto, Antonius Manders (PPE, NL). O texto, no entanto, apresenta algumas falhas e destaca a falta de consistência entre as autoridades, que votaram o mesmo manhã para a renovação por dez anos do glifosato , um polémico pesticida.

Rumo a uma resolução no Tribunal Penal Internacional?
Com este progresso, a União Europeia é o primeiro bloco de países a nível mundial a incluir o ecocídio na sua legislação. Resta agora aos Estados transporem o texto para a sua legislação mas, acima de tudo, podem agora submeter uma alteração ao estatuto do Tribunal Penal Internacional - do qual representam quase um quinto dos Estados membros - a fim de acrescentar graves violações ao ambiente a crimes de genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crimes de agressão.

Segundo a Interpol, o crime ambiental tornou-se, em apenas algumas décadas, o quarto maior sector criminoso do mundo, com um crescimento duas a três vezes superior ao da economia global. Hoje é um negócio tão lucrativo quanto o tráfico de drogas. Em todo o mundo, a pilhagem e a destruição da natureza representam hoje entre 110 e 280 mil milhões de dólares por ano.

Saber mais

sábado, 18 de novembro de 2023

Bruxelas autoriza a utilização de glifosato na UE por mais 10 anos


A Comissão Europeia autorizou, quinta-feira, a utilização de glifosato na União Europeia (UE) por mais 10 anos, depois de os Estados-membros não terem chegado a acordo sobre proibir a sua utilização.

"A Comissão, com base em avaliações de segurança exaustivas efetuadas pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (AESA) e pela Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA), em conjunto com os Estados-membros da UE, irá proceder à renovação da aprovação do glifosato por um período de 10 anos, sujeita a determinadas condições e restrições novas", afirmou em comunicado.

"Estas restrições incluem a proibição da utilização pré-colheita como dessecante e a necessidade de determinadas medidas para proteger os organismos não visados", acrescentou.

O glifosato é um herbicida de amplo espetro e dessecante de culturas agrícolas, usado para matar ervas daninhas, especialmente as folhosas perenes e gramíneas. A AESA afirmou numa avaliação, em julho passado, que não tinha encontrado "áreas críticas de preocupação" para a renovação da utilização para além de 15 de dezembro, quando expirava o prazo de autorização.

O executivo da UE tem o poder de aprovar a sua própria proposta depois de os Estados-membros não terem conseguido, pela segunda vez, alcançar uma maioria qualificada a favor ou contra o plano apresentado, em setembro.

A bancada dos Verdes no Parlamento Europeu está contra a decisão, tendo a eurodeputada francesa Marie Toussaint dito, à Euronews, que há estudos em sentido contrário ao da AESA.

"A Europa tem uma escolha: ou se envenena ou se protege. E esta votação, esta abstenção dos Estados-membros - que tinham os meios para impedir esta proposta - acaba por contribuir para a deterioração da saúde, para a devastação da natureza. Esta proposta de renovação do glifosato é um drama para a saúde humana, com um número crescente de vítimas que sofrem de cancro e deformações desde tenra idade, e também para outros organismos vivos. Numerosos estudos demonstraram o efeito devastador do glifosato na biodiversidade", explicou.

"A Europa tem uma escolha: ou envenena ou protege. E esta votação, esta abstenção dos Estados-membros - que tinham os meios para impedir esta proposta - acaba por contribuir para a deterioração da saúde, para a devastação da natureza. Agora escondem-se por detrás da sua abstenção, alegando que se opuseram porque se abstiveram, para não passarem um cheque em branco à Comissão Europeia, o que é totalmente hipócrita", concluiu Marie Toussaint.

O presidente da Comissão do Ambiente do Parlamento Europeu, Pascal Canfin, criticou a decisão por ser contrária aos pareceres científicos: “Esta proposta não tem o apoio dos três maiores países agrícolas do nosso continente - França, Alemanha e Itália. Lamento profundamente. Não é a Europa de que gosto."

Aplicação depende de cada país
Embora o executivo comunitário tomado esta decisão, recordou que os Estados-Membros são responsáveis pelas autorizações nacionais dos produtos fitofarmacêuticos que contêm glifosato.

Cada país da UE continuará, por conseguinte, a ter a possibilidade de restringir a sua utilização a nível nacional e regional, se o considerar necessário, "em função dos resultados das avaliações de risco, tendo em conta, em especial, a necessidade de proteger a biodiversidade", afirmou a CE.

Um estudo europeu, divulgado no passado dia 6 de setembro, que envolveu 12 países, revela que Portugal é campeão em termos de concentração tóxica para consumo humano do herbicida glifosato em cursos de água doce. As amostras foram recolhidas em rios, ribeiras e lagos. Uma das amostras em Portugal, recolhida em Idanha-a-Nova, continha três microgramas/litro (µg/L), isto é, 30 vezes mais que o limite legal, tendo sido a mais elevada concentração de glifosato detetada nas amostras analisadas no estudo. O limite de segurança para o glifosato na água potável é de 0,1 µg/L.

Embora a Organização Mundial de Saúde (OMS) tenha alertado, em 2015, para os riscos cancerígenos do glifosato, a Agência Europeia para a Segurança dos Alimentos e a Agência Europeia dos Produtos Químicos afirmaram ter provas científicas para classificar o herbicida como não cancerígeno.

Assim, após dois anos de polémica, o herbicida glifosato (da empresa norte-americana Monsanto) recebeu, em 2017, luz verde para continuar a ser utilizado na UE, embora por um período mais curto do que o habitual, cinco anos em vez dos habituais 15. No ano passado, a licença foi renovada mais uma vez até 15 de dezembro, na pendência de um relatório da EFSA, que foi publicado este verão.

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Fim de Venenos em Nossos Campos! Peça para parar o Glifosato Agora


Nossa saúde depende da alimentação, e de como esse alimento é cultivado e de quantos venenos são utilizados e liberados no meio ambiente. O glifosato, cuja renovação a Itália também manifestou o seu apoio, é um herbicida utilizado intensamente em todo o mundo que causou poluição generalizada do solo e da água e, ao consumir alimentos contaminados com glifosato, introduzimo-lo nos nossos corpos: para o demonstrar, um francês estudo mostrou que 100% dos cidadãos franceses apresentam vestígios de glifosato na urina. A pesquisa foi realizada com mais de 6.800 pessoas com idade média de 53 anos, cujas amostras foram coletadas durante dois anos, entre 2018 e 2020. Apesar disso, o perigoso herbicida da Bayer-Monsanto corre o risco de ser autorizado na Europa por mais 10 anos. 
As crianças são as mais sensíveis à exposição a partir da idade fetal: o Fundo Francês de Indemnização às Vítimas de Pesticidas aceitou recentemente o pedido de uma grande indemnização de um rapaz de 16 anos, pois sofre de malformações congénitas da laringe e do esófago, devido ao fato de sua mãe ter ficado muito tempo exposta ao glifosato durante a gravidez. 
A Bayer terá de pagar US$ 175 milhões a um ex-dono de restaurante que sofre de linfoma de Hodgkin, aceitando a exposição contínua ao glifosato como causa. A exposição ao glifosato aumenta significativamente (+41%) o risco de contrair linfoma não-Hodgkin (Luoping Zhang et al. (2019). 'Exposure to Glyphosate-Based Herbicides and Risk for Non-Hodgkin Lymphoma: A Meta- Analysis and Supporting evidencence' 
O glifosato é usado em muitas culturas, e podemos introduzi-lo, com farinhas, massas, cerveja, mas também carnes, vegetais e frutas. Assinando para bloquear o glifosato é pensar na sua saúde, na dos seus filhos e no planeta. A exposição de hoje pode causar cancro em 10 anos, é importante proteger as crianças antes de tudo dessa longa exposição. Quando falamos de uma alimentação saudável não podemos ignorar estes aspectos importantes. Uma dieta saudável é aquela que nutre e é tão livre quanto possível de contaminantes tóxicos.

sábado, 4 de novembro de 2023

O glifosato causa leucemia nas primeiras fases da vida


Em Bolonha, Itália, acaba de ser apresentado um estudo toxicológico multi-institucional, internacional e de longo prazo , que concluiu que “baixas doses de herbicidas à base de glifosato causam leucemia em ratos. É importante destacar que metade das mortes por leucemia identificadas nos grupos de estudo ocorreram em idade jovem”, afirma o comunicado oficial que acompanhou a apresentação.

Os dados, apresentados quarta-feira, 25 de outubro, foram divulgados na conferência científica internacional “Ambiente, trabalho e saúde no século 21: estratégias e soluções para uma crise global”, e fazem parte do Estudo Global do Glifosato (GGS) .

No estudo apresentado, os pesquisadores administraram glifosato sozinho e duas formulações comerciais, Roundup BioFlow (MON 52276) usado na UE e Ranger Pro (EPA 524-517) usado nos Estados Unidos, em ratos através da água potável desde a vida pré-natal em doses. de 0,5, 5 e 50 mg/kg de peso corporal/dia.

Daniele Mandrioli, coordenadora do Estudo Global sobre Glifosato e diretora do Instituto Ramazzini, observou que “aproximadamente metade das mortes por leucemia observadas em ratos expostos ao glifosato e aos herbicidas à base de glifosato ocorreram em menos de um ano de idade”.

As descobertas questionam fortemente a base que permite o uso do herbicida. Estas doses utilizadas no estudo são atualmente consideradas seguras pelas agências reguladoras e correspondem à Ingestão Diária Aceitável (DDA) da União Europeia (UE) e ao Nível de Efeito Adverso Não Observado da UE (Noael) para o glifosato.

Mandrioli anunciou que todo o estudo será publicado em breve e explicou o motivo desse avanço. “Essas descobertas são de tal relevância para a saúde pública que decidimos que era vital apresentá-las agora, antes da publicação. Os dados completos serão disponibilizados ao público e submetidos para publicação em revista científica nas próximas semanas.”

O Estudo Global sobre Glifosato é o estudo toxicológico mais abrangente já realizado sobre glifosato e herbicidas à base de glifosato. Examina os impactos do glifosato e dos herbicidas à base de glifosato na carcinogenicidade, neurotoxicidade, efeitos multigeracionais, toxicidade de órgãos, desregulação endócrina e toxicidade no desenvolvimento pré-natal.

O GGS publicou anteriormente um estudo piloto mostrando toxicidade endócrina e reprodutiva em ratos em doses de glifosato atualmente consideradas seguras pelas agências reguladoras dos EUA (1,75 mg/kg de peso corporal/dia). Estas descobertas foram posteriormente confirmadas numa população humana de mães e recém-nascidos expostos ao glifosato durante a gravidez.

As descobertas do GGS sobre a toxicidade do glifosato para o microbioma , que foram revisadas por pares e publicadas no final de 2022 e apresentadas ao Parlamento da União Europeia em 2023, também mostraram efeitos adversos em doses atualmente consideradas seguras na UE (0,5 mg/kg). peso corporal/dia, equivalente à ingestão diária aceitável na UE).

O GGS é coordenado pelo Instituto Italiano Ramazzini e conta com a participação de cientistas da Europa, dos Estados Unidos e da América do Sul. As universidades americanas participantes são Boston, Icahn Medicine at Mount Sinai, George Mason e California. Também participaram a Universidade de Pádua (Itália), o King's College (Reino Unido), Copenhague (Dinamarca) e a Universidade Federal do Paraná (Brasil).

“ Renovar a licença do glifosato é completamente ilegal”
O glifosato foi classificado como provável carcinógeno humano em 2015 pela mais alta autoridade mundial em câncer, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Cancro (IARC) da OMS. Apesar desta afirmação, a maioria das agências reguladoras, incluindo o Serviço Nacional de Saúde e Qualidade Agroalimentar da Argentina (Senasa), continuam a permitir o uso do perigoso herbicida.

O avanço dos resultados do GGS ocorre no âmbito da renovação da licença do herbicida glifosato na União Europeia que está a ser definida nestes meses. Uma decisão que mantém a atenção de todos os países membros da UE, mas também de toda a comunidade internacional que procura erradicar o perigoso herbicida mantido no mercado pelas mais importantes empresas agroquímicas do mundo.

Assim que foram conhecidos os dados do estudo, da Alemanha, o toxicologista Peter Clausing, membro da Pesticide Action Network (PAN), num comunicado daquela organização, afirmou: “Este estudo de alta qualidade precisa de toda a atenção das autoridades europeias. , pois fornece novas evidências alarmantes que corroboram descobertas anteriores sobre os efeitos cancerígenos do glifosato no sistema linfático observados em estudos com ratos e em estudos epidemiológicos em humanos.

Por sua vez, Angeliki Lysimachou, Diretora de Ciência e Política (PAN Europa) concluiu: “O estudo sublinha que a renovação da licença do glifosato é mais do que questionável, é completamente ilegal. As autoridades da União Europeia cometeram um grande erro ao concluir que o glifosato e a sua formulação representativa são seguros. “O passo certo agora é a UE retirar a atual proposta de reautorização e pressionar para que ela não seja renovada.”

terça-feira, 24 de outubro de 2023

Renúncia fiscal: soja recebe quase R$ 60 biliões ao ano, o dobro da cesta básica


A soja tem dificuldades em abrir mão do Estado-babá? Como todo produto do colonialismo, o grão depende fortemente de subsídios públicos. Um novo estudo mostra que a produção custa quase R$ 60 biliões ao ano apenas em renúncia fiscal. O valor é o dobro das desonerações garantidas à cesta básica, e seria suficiente para arcar com quatro meses de Bolsa Família.

O relatório O custo da soja para o Brasil: renúncias fiscais, subsídios e isenções da cadeia produtiva, lançado nesta terça-feira (17), reforça o papel concentrador desse grão na disputa por terras, financiamento e benesses. E, em meio à discussão sobre reforma tributária, propõe que sejam repensados os subsídios ao setor.

O autor, o economista Arnoldo de Campos, destrincha leis que garantem isenções para a produção agrícola em várias etapas, desde insumos (como fertilizantes e agrotóxicos) até a livre circulação pelos estados e a exportação, passando pelo processamento de óleos, biodiesel e farelo de soja.

O resultado é uma estimativa de renúncia de R$ 56,81 biliões apenas em impostos federais ao longo de 2022. Isso equivale a 15% do faturamento estimado para a produção de soja, de R$ 400 biliões.

"Estamos trazendo ao público a informação de quanto é o custo para o país como um todo de uma opção estratégica que foi tecida durante a ditadura, onde não houve esse processo de transparência, participação e democracia. Esse é o cerne do nosso estudo", diz Marcos Woortmann, coordenador de Políticas Socioambientais do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), uma das organizações responsáveis pelo estudo. Ele faz alusão ao fato de que a estrutura tributária atual do país começou a ser instituída durante o regime autoritário, e depois foi apenas sendo sucessivamente remendada.

"O Brasil é o país que mais se desindustrializou no mundo nos últimos trinta anos. E existe uma razão do porquê isso aconteceu. Não houve priorização da indústria na economia. Um setor está pagando, o outro está recebendo. O setor industrial paga IPI, CSLL, Cofins. E o setor da soja não paga. E quem paga somos nós como contribuintes."

O relatório traça ainda uma projeção para a renúncia fiscal de ICMS em Mato Grosso, maior produtor de soja e estado-símbolo do agronegócio no Brasil. A estimativa é de uma perda de quase R$ 8 biliões, o que equivale a 6,1% do faturamento da cadeia de soja no estado. No total, a desoneração foi maior que a própria arrecadação, projetada em R$ 5,9 biliões.

"Não sou um otimista", diz Woortmann sobre a possibilidade de que a reforma em tramitação no Congresso acabe com os privilégios do agronegócio. "O Brasil está subsidiando a destruição ambiental, a concentração de renda e o autoritarismo. A democracia brasileira está subsidiando as forças que atentaram contra ela. E isso ficou profundamente nítido a partir das investigações de financiamento dos atos antidemocráticos de 8 de janeiro. Esses atos foram subsidiados por empresas subsidiadas pelo contribuinte. Existe uma complexidade do momento histórico que é gravíssima."


Papa-tudo

Não é de hoje que a capacidade da soja em ser predatória com outras culturas chama atenção. Ainda assim, o avanço do grão nos últimos anos tem se dado em bases astronômicas. A projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a safra atual é de 44 milhões de hectares, o equivalente à soma dos territórios de Mato Grosso do Sul e Pernambuco. Se fosse um país, a soja teria o tamanho aproximado de Marrocos.

Como assinala o relatório, é verdade que o cultivo teve um ganho de produtividade, mas a principal explicação reside na expansão geográfica: na comparação com o primeiro mandato de Lula, a soja mais do que dobrou de tamanho.

"O estudo é uma oportunidade de abrir um debate de que existem alternativas", assinala Paula Johns, diretora-executiva da ACT Promoção da Saúde, outra das organizações responsáveis pela análise. "Para desnaturalizar essa coisa que está dada na sociedade, de que o agronegócio é que salva a lavoura no Brasil. Esses números mostram que o que a gente tem de aparentemente bem-sucedido é o fruto de um investimento de décadas. Hoje a gente sabe que esse investimento tem uma série de consequências ambientais e de saúde humana. A gente pode rever essa rota."

Essa capacidade de concentração fica explícita também na pesquisa Produção Agrícola Municipal, cuja versão mais recente foi divulgada em setembro pelo IBGE. Tirando da conta o milho, nem mesmo a soma de todos os demais produtos faz frente à soja: são R$ 292,7 biliões entre cana-de-açúcar, café, algodão, trigo, arroz, laranja, feijão, mandioca e outros alimentos.

Como temos mostrado no Joio, o mote de que o agro é tudo cai por terra diante da desproporção entre a soja e todo o restante. Sem o grão, o agro perderia quase metade do valor de produção, o que expõe a fragilidade do setor que se apresenta como "indústria-riqueza do Brasil".

Segundo o estudo, a participação da cadeia da soja no PIB do agro passou de 9% para 27% entre 2010 e 2022 – uma expansão de 58%, contra apenas 8% do agro como um todo.

O relatório analisa como essa concentração se reflete na concessão de crédito. Os dados do Banco Central mostram que o grão sugou 52% dos recursos de financiamento em 2022. "Ou seja, de um total de R$ 133,2 biliões emprestados para custear as lavouras no país, R$ 69,5 biliões foram destinados para financiar exclusivamente o custo da soja."

Somando o milho, chega-se a 72%, ou seja, todos os restantes alimentos, num total de 140 culturas, ficam com apenas 28% do crédito rural. O feijão, por exemplo, ficou com menos de 1% dos recursos, num total de 8,4 mil contratos para um universo de quase um milhão de produtores.

A porta de saída

O estudo defende que a soja é o exemplo-mor da ênfase colocada pelo Estado na transformação do país em potência agrícola. O grão é o resultado de políticas agrícolas, comerciais, de infraestrutura e de tributação. Vale lembrar que a adaptação do cultivo ao Cerrado é vista como uma das maiores realizações da Embrapa, que celebra 50 anos em 2023.

"Se o objetivo de fomentar e desenvolver o agronegócio foi alcançado, como demonstra o caso da soja aqui destacado, será que faz sentido manter os atuais níveis de apoio que as cadeias produtivas privilegiadas receberam ao longo de décadas?", questiona o relatório, sugerindo que está na hora de o agronegócio brasileira começar a devolver parte dos investimentos feitos pelo país.

O texto aponta que parte da elite do país questiona o tempo do qual famílias pobres dependem de programas sociais, como o Bolsa Família, "e cobra do poder público as chamadas 'portas de saída', para que estas famílias deixem, depois de um determinado período, de receber o apoio do Estado. Dizem que as famílias não deveriam ficar ‘dependentes’ das políticas sociais".

Então, por que a soja deveria ficar eternamente dependente do Estado? A pergunta, ao fim, é: o agronegócio sobrevive sem fartos apoios públicos?

O relatório "O custo da soja para o Brasil: renúncias fiscais, subsídios e isenções da cadeia produtiva" foi produzido por ACT Promoção da Saúde, Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio), Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) e Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN)

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Dia Mundial da Alimentação: Quercus exige medidas do Governo para proteger os insetos polinizadores

Rainha: Bombus terrestris  Planta :Tilia cordata

Em vésperas de se celebrar mais um Dia Mundial da Alimentação, assinalado a 16 de outubro, a Quercus vem relembrar e sensibilizar para a relação direta entre o declínio dos insetos polinizadores e a segurança alimentar de uma população mundial em crescimento.

Nos últimos anos, são muitas as ameaças que têm conduzido ao declínio das populações de abelhas e de outros insetos polinizadores. Na Europa, cerca de um terço da população de abelhas e borboletas está em risco de desaparecer. Muitos são os estudos e relatórios que apresentam os fatores de declínio destes insetos, como a utilização crescente de pesticidas e fertilizantes sintéticos associados à agricultura intensiva e super-intensiva, doenças e parasitas diversos, interferência de espécies invasoras como a vespa velutina, também conhecida como vespa asiática, e as alterações climáticas.

Porém, sabe-se hoje que 75% das culturas agrícolas mundiais dependem, total ou parcialmente, dos insetos polinizadores para a produção de alimento. A polinização é um serviço dos ecossistemas vital para a natureza, para a agricultura e para o bem-estar humano. O papel essencial dos polinizadores foi, de resto, amplamente reconhecido pelas entidades governamentais após a Convenção para a Diversidade Biológica (CBD) ter estabelecido a Iniciativa Internacional de Polinizadores (IPI), apoiada e coordenada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Na Europa, a Estratégia «do Prado ao Prato» representa um elemento fundamental do Pacto Ecológico Europeu e funciona em concertação com a Estratégia de Biodiversidade da União Europeia (UE) para 2030. Tornar os alimentos da Europa mais saudáveis e sustentáveis é o objetivo da UE, que fixa como principais metas reduzir a utilização de pesticidas em 50 % e reforçar a área de agricultura biológica em 25%, até 2030.

Todavia, a excessiva utilização de pesticidas, em particular do glifosato, compromete irremediavelmente o cumprimento destas metas. O glifosato é um herbicida tóxico bastante nefasto para as abelhas, o principal inseto polinizador do qual dependem muitas culturas agrícolas. Os dados disponíveis são preocupantes, não apenas porque confirmam que em Portugal se mantém o uso generalizado e excessivo de pesticidas (com a consequente contaminação dos solos agrícolas, da água e dos alimentos), mas também porque trazem a nu a total ausência de políticas e de medidas para inverter este estado de coisas.


Para tal, é essencial implementar medidas concretas e eficazes tais como restringir o uso intensivo de pesticidas e fertilizantes sintéticos na agricultura; fomentar a criação de refúgios para os insetos polinizadores, como corredores silvestres e hortas comunitárias; ou promover a manutenção dos prados floridos e da vegetação espontânea em geral. Medidas que poderiam e deveriam incluir também, e desde já, o fim da atribuição de subsídios agroambientais que continuam a permitir a utilização de pesticidas na agricultura.

Campanha SOS Polinizadores tem reforçado sensibilização
Sabe-se, hoje, que a segurança alimentar do Planeta depende diretamente da implementação de medidas urgentes de proteção dos insetos polinizadores. Através da campanha SOS Polinizadores (com vários materiais disponíveis ), a Quercus e a Jerónimo Martins têm vindo a acompanhar a temática do declínio dos insetos polinizadores e a desenvolver várias ações de sensibilização, reforçando sinergias com autarquias locais através de ações concretas que incentivem uma alimentação segura e uma agricultura mais sustentável, bem como a criação de mais espaços amigos dos polinizadores, como hortas e corredores silvestres nas cidades e nas escolas.

É fundamental aumentar a consciencialização da sociedade sobre a importância e a problemática do declínio dos polinizadores. Mais ainda, tendo em conta que, segundo relatórios da Comissão Europeia, Portugal não possui ainda um plano ou estratégia nacional ou local para a proteção de polinizadores selvagens, um passo essencial para ajudar a estabelecer metas uniformes para todo o país e servir de orientação para as entidades públicas e privadas responsáveis pela gestão dos espaços verdes em cada cidade.

terça-feira, 10 de outubro de 2023

Cartaz da Semana


O cartaz é injusto. Injusto porque há milhões de vegetarianos, milhões andar de bicicleta para o trabalho, milhares de ONG e colectivos na defesa da biodiversidade, muitos líderes ambientais são assassinados, milhões de pessoas com hábitos "ecofriendly" (cozinham a forno solar, permacultores, praticam a agricultura biológica, simplicidade voluntária, minimalistas, etc.), milhares são contra o glifosato e os OGM, milhares recusam os aviões, centenas de académicos produziram resultados que nos tornam apreensivos em relação às consequências do aquecimento global e ao colapso dos insectos e das aves. A extinção maciça de outras espécies, etc...
E o que vemos, em particular, Portugal? Um travão e uma marcha atrás que  amputa os objectivos já descritos. Com o SIMPLEX Ambiental, o Governo está a incumprir os seus compromissos internacionais, nomeadamente a Convenção de Aarhus sobre o acesso à informação, participação do público nos processos de tomada de decisão e acesso à justiça em matéria de ambiente. Assim não dá.

domingo, 8 de outubro de 2023

Petição- pela proibição definitiva do glifosato


A Bayer ocultou os riscos do glifosato para a saúde de mulheres grávidas e crianças, afirma uma queixa criminal apresentada em 2019 na Áustria, que acaba de ser tornada pública.
As evidências são contundentes, mas a investigação pode levar mais meses e não temos esse tempo. Os governos da UE deverão decidir em 12 de outubro se o glifosato será reaprovado por 10 anos ou banido.
Juntamente com a Avaaz, a WeMove e outros parceiros, estamos a fazer uma petição gigantesca para entregar antes da votação dos governos. Quase banimos o glifosato antes – por favor assine e partilhe esta petição para mostrar aos líderes da UE que ainda hoje existe um apoio público massivo à proibição:
Diga aos governos da UE para votarem pela proibição definitiva do glifosato.

domingo, 24 de setembro de 2023

Glifosato - relembrando o episódio do lobista Patrick Moore


Será que Manuel Chaveiro Soares, Engenheiro Agrónomo, Ph. D., também recusa beber um copo de glifosato? Recordemos Patrick Moore. Perito em ecologia, entrevistado pelo Canal+, disse que o Roundup, um herbicida na altura produzido pela Monsanto, era tão seguro que se podia beber, mas negou-se a fazê-lo em direto, acabando intempestivamente com a entrevista e chamando parvo ao entrevistador.

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

A poluição por glifosato ameaça as águas superficiais europeias


A Comissão Europeia quer renovar a autorização de uso do glifosato por mais 15 anos.

De Portugal à Polónia, da Bélgica à Bulgária, a água de rios e ribeiras está contaminada com glifosato e o seu resíduo metabolito de degradação AMPA (1). Mesmo fora da época de aplicação de pesticidas, final de outubro, estas substâncias foram detectadas nas águas superficiais em 11 dos 12 países estudados.

Esta é uma descoberta chocante revelada pelo estudo europeu da ONG Pesticide Action Network-PAN Europe, em colaboração com os Verdes Europeus. Esta contaminação, vaticinada há muito pela sociedade civil, constitui uma séria ameaça para a vida aquática, para a qualidade da água potável e para a saúde humana.

O glifosato está em toda a parte: na urina humana, na poeira doméstica, nos solos e nas águas superficiais. Sabe-se que tanto o glifosato, como o AMPA, constituem riscos graves para os ecossistemas aquáticos (2). Glifosato e AMPA em conjunto foram detectados acima de 0,2 μg/L em 17 de 23 amostras (74%). As amostras recolhidas na Áustria, Bélgica, Bulgária, Croácia, França, Alemanha, Hungria, Países Baixos, Espanha, Polónia e Portugal estavam contaminadas com pelo menos uma das substâncias.

Considerando que o limite de segurança para o glifosato (sem o AMPA), na água potável, é de 0,1 μg/L, 5 das 23 amostras de água (22%) coletadas na Áustria, Espanha, Polónia e Portugal continham glifosato em concentrações tóxicas para consumo humano. Uma das amostras em Portugal, na bio-região (3) de Idanha-a- Nova, continha 3 µg/L, isto é 30 vezes mais que o limite legal, o que confirma estudos anteriores da Plataforma Transgénicos Fora em Portugal (PTF) que revelaram a contaminação da urina humana na grande maioria das pessoas analisadas (4).

O estudo salienta também a grave lacuna existente na regulamentação de salvaguarda dos nossos recursos hídricos devido à inexistência de um sistema europeu de monitorização das águas superficiais e da falta de valores de referência para o AMPA que, embora seja um produto da degradação do glifosato, é também muito tóxico.

O glifosato tem permanecido no mercado, em possível violação das disposições do Regulamento (CE) 1107/2009, segundo o qual os pesticidas (as substâncias ativas e os adjuvantes dos produtos comerciais) colocados no mercado não devem ter efeitos nocivos nas pessoas, nos animais, ou no ambiente.

Em 2018 a utilização do glifosato foi renovada por apenas 5 anos devido às dúvidas sobre a sua segurança. A autorização terminaria em 2022, mas foi prorrogada, também com a aprovação de Portugal, para recolher provas dos impactos ecotoxicológicos.

Entretanto o corpo de literatura científica independente que associa a exposição ao glifosato a doenças graves e a danos ambientais continua a aumentar. Por exemplo, para além do seu potencial carcinogénico identificado pela OMS/IARC (2015), estudos recentes revelam que o glifosato e os produtos à base de glifosato podem ser nocivos para a saúde humana.

Para além disso o glifosato está implicado na alarmante perda de biodiversidade – 65% em 40 anos, a nível mundial, prevendo-se perder 25% da existente nas próximas décadas. Ciente do problema a Comissão Europeia (CE) propôs a redução de pesticidas (incluindo herbicidas) para 50%, até 2030, na nova PAC. Os pesticidas têm de ser substituídos por práticas agrícolas capazes de proteger as culturas e os recursos naturais pois, havendo vontade política, tal é realizável.

No entanto, a CE propõe agora renovar a utilização desta substância ativa, com o risco de não haver o adequado debate científico e escrutíno público (6). Prevendo-se que esta proposta seja votada em meados de outubro. As conclusões recentes da própria EFSA (Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos) identifica lacunas (7)

Notas:
  1. AMPA, ácido aminometilfosfónico, resulta da degradação do glifosato e ele próprio também é tóxico metabolito de degradação AMPA;
  2. Ecotoxicology of Glyphosate-Based Herbicides on Aquatic Environment
  3. Nesta bio-região têm sido instalados amendoais intensivos em produção integrada com uso permitido de Foram subsidiados em medidas agroambientais e, desde 2023, no PEPAC português, são subsidiados em regime ecológico.
  4. Nova et al, Glyphosate in Portuguese Adults – A Pilot Study. Environmental Toxicology and Pharmacology 80 (2020). 
  5. Silva et al, Distribution of glyphosate and aminomethylphosphonic acid (AMPA) in agricultural topsoils of the European Union. Sci Total Environ (2017)
  6. Pesticide Action Network: “Leaked: EU Commission plans to swiftly reapprove glyphosate to avoid scientific and public debatel
  7. EFSA p23. “a data gap for addressing the risk to aquatic macrophytes due to contact exposure via spray drift of glyphosate was identified and this resulted in an assessment not finalised” “For chronic exposure to glyphosate, a proper comparison between fishand amphibians could not be carried out, since relevant and reliable chronic endpoints for amphibians were not available. A full comparability between fish and aquatic stages of amphibians would anyway be hampered by the different response types being measured for the two groups.