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domingo, 17 de maio de 2026

UNYOKE - Falling


Letra
Is there an ending?
My body is aching
I feel it coming and it′s taking all i've owned
It′s you i'm seeking
Sometimes i'm falling
And if you′d know that it is you
I want your love

I feel it coming
My time is ending
The love is gone and never coming back my way
I want to know
Someone could help me?
Cause this feelings are the reasons i′m alone

If I fall
What can I do?
What's happening
I′m on my own
Oh if I fall
Somebody help me
My body is aching and I'm on my own

You′ve taken all I've owened
All I′ve owened

Oh baby can't you see?
That I'm dripping of a high hill and my body
Is taking over
There′s nobody
Here to help me
It′s taking over me
Taking over me
Oh baby can't you see?

Lost my behaviour
Cause you′ve taken it all
I want to save her
But you've broke my world

Uh uh
If I fall
What can I do?
What′s happening
I'm on my own

A canção "Falling", da banda Unyoke, é uma fusão magnética de indie rock e post-punk revival, caracterizada por uma atmosfera densa, fria e melancólica. Embora o quarteto esteja radicado em Bruxelas, na Bélgica, o projeto carrega uma forte ligação a Portugal através da sua vocalista e guitarrista, Mia, que partilha raízes luso-moldavas. A restante formação da banda reflete o espírito multicultural da capital belga, contando com o baterista parisiense Fabrice, a baixista marfinense Aicha e o guitarrista belga Manu. Juntos, constroem uma sonoridade que evoca o dramatismo do darkwave e o balanço do rock alternativo dos anos 2000.

Liricamente, "Falling" funciona como um mergulho visceral na vulnerabilidade humana, na solidão e no desespero emocional. A letra retrata um estado de queda livre interior ("Sometimes I'm falling"), onde o eu lírico expressa uma dor física e psicológica profunda provocada por uma perda ou rutura amorosa que desmoronou o seu mundo ("But you broke my world"). Existe um apelo constante por salvação e afeto ("somebody help me", "I want your love"), que ilustra a linha ténue entre o isolamento sufocante e a necessidade urgente de conexão com o outro. Visual e conceptualmente, a música reflete o processo doloroso da criação e da autodestruição, transformando o sofrimento e a ausência numa performance artística intensa e catártica.

Curiosidade
Unyoke is a verb that means to free an animal from a harness or yoke. Metaphorically, it refers to disconnecting, liberating oneself from oppression, or taking a much-needed break from labor. [1, 2]
The term is often used in several specific contexts:

1. Linguistic Meaning
Literal: To remove the wooden crosspiece (yoke) connecting two draft animals (like oxen) so they can rest.
Figurative: To separate or break a connection. For example, "to unyoke political power from religious authority." [1, 2, 3]
Adjective: Old form(s): vnyoak'd. unbridled, unrestrained, rampant [4]

2. The Unyoke Foundation
It is the name of an international organization dedicated to running reflective retreats and peacebuilding processes for international change-makers and activists. It functions as a "creative pause" for those working in intense, conflict-heavy environments. [1]

4.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Miranda Sex Garden - Peep Show


Videoclipe original com melhor som aqui

Letra
Show me a memory
And that's where I'll long to be
Please don't ask for more from me
Cos memory is all I'll be

[Refrão]
But I can live
In your mind's eye
Live, in your heart
I'll love you in your dreams
But please don't try to hold me in your arms

Show me a fantasy
And that's who I'll long to be
Please don't ask for more from me
Cos fantasy is all I'll be

[Refrão] 2X

O álbum Fairytales of Slavery, lançado em 1994, representa o momento de maior rutura e maturidade artística do Miranda Sex Garden, consolidando a transição da banda de um trio vocal de música antiga para um coletivo de rock gótico experimental e darkwave. Neste disco, a sofisticação das harmonias clássicas funde-se com uma sonoridade industrial densa, marcada por guitarras distorcidas, ritmos tribais e uma atmosfera assumidamente claustrofóbica e sensual. É uma obra que abandona a pureza acústica do passado em favor de um estilo de vanguarda, frequentemente comparado à sonoridade de artistas como Dead Can Dance ou à agressividade artística do movimento pós-punk. 

O Fairytales of Slavery é amplamente considerado o disco mais negro, pesado e experimental da banda. Foi produzido por Alexander Hacke (dos Einstürzende Neubauten), o que explica a guinada drástica para o Rock Industrial e para uma sonoridade muito mais metálica e abrasiva oi produzido por Alexander Hacke (dos Einstürzende Neubauten)

A canção que dá título ao álbum funciona como uma metáfora central sobre o voyerismo e a exposição. Através de uma sonoridade que oscila entre o sussurro sedutor e a tensão caótica, a letra explora o desconforto de ser observado e o jogo de poder inerente ao ato de olhar. O termo "Peep Show" sugere um ambiente de cabaré decadente e sombrio, onde a feminilidade não é apresentada de forma passiva ou delicada, mas sim como uma força crua e, por vezes, perturbadora. Ao subverterem a imagem de "anjos" que as acompanhava desde o início da carreira, as integrantes utilizam esta faixa para explorar os desejos, os medos e a complexidade da psique humana, criando uma ponte entre a beleza técnica do conservatório e a rebeldia do submundo industrial de Londres.

O nome Miranda Sex Garden nasceu de uma vontade deliberada das fundadoras - Kelly McCusker, Jocelyn West e Katharine Blake - em unir o erudito ao profano, criando um contraste que definisse a identidade da banda. A primeira parte do nome, Miranda, é uma referência direta à heroína da peça A Tempestade, de William Shakespeare, simbolizando a pureza, a juventude e a herança clássica que as integrantes traziam da sua formação académica em música antiga.

Por outro lado, a adição de Sex Garden serviu como um contraponto irónico e provocador. Sendo jovens estudantes de conservatório que interpretavam madrigais do século XVI, o grupo queria distanciar-se da imagem austera e conservadora associada aos coros tradicionais. Ao introduzirem esta expressão mais carnal e terrena, as artistas estabeleceram uma dualidade entre o "celestial" das suas harmonias vocais e a atitude rebelde da cena underground londrina dos anos 90.

Esta escolha acabou por se revelar uma excelente estratégia de identidade artística, permitindo à banda transitar com naturalidade entre a solenidade da música renascentista e a estética sombria do rock gótico e industrial, sublinhando que a sua arte não estava presa ao passado, mas sim viva e em constante mutação.

Miranda Sex Garden (wikipedia)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Future Islands - Ran

Melhor som aqui
Ingest, where it goes, nobody sees but me
So perfect and so sweet
But the rest, feels incomplete
Like the rabbit's foot I keep
In the locket, with no key

And I can't take it, I can't take this world without
This world without you
I can't take it, I can't take it on my own
On my own

[Refrão]
On these roads
Out of love, so it goes
How it feels when we fall, when we fold
How we lose control, on these roads
How it sings as it goes
Flight of field, driving snow
Knows the cold

Ran round the wailing world

And what's a song without you?
When every song I write is about you
When I can't hold myself without you
And I can't change the day I found you

[Refrão]

A dor da perda e a jornada solitária em 'Ran', lançada em 2017, presente no álbum  The Far Field
A música 'Ran' da banda Future Islands é uma profunda exploração da dor da perda e da solidão. A letra começa com uma reflexão sobre algo precioso e doce, mas que, sem a presença de uma pessoa amada, se torna incompleto. A metáfora do 'pé de coelho' guardado num medalhão sem chave sugere um talismã de sorte que perdeu seu significado, simbolizando a ausência de alguém essencial para a completude do eu lírico.

O refrão expressa a incapacidade de enfrentar o mundo sem essa pessoa, destacando a dependência emocional e a sensação de desamparo. A repetição de 'I can’t take it, I can’t take this world without you' reforça a intensidade do sentimento de perda e a dificuldade de seguir em frente sozinho. A música também aborda a jornada emocional em 'these roads', que pode ser interpretada como os caminhos da vida, onde o amor se perde e o controle é difícil de manter.

A letra também questiona o valor da arte sem a musa inspiradora, refletindo sobre a criação artística e a importância da pessoa amada como fonte de inspiração. A repetição de 'out of love, so it goes' sugere uma aceitação resignada da realidade dolorosa. A imagem do 'flight of field, driving snow' e 'knows the cold' evoca um cenário desolado e frio, simbolizando a solidão e a tristeza que acompanham a perda. 'Ran' é, portanto, uma canção que captura a essência da dor da perda, a luta para encontrar sentido e a jornada solitária que se segue.

Sites
Future Islands wikipedia

quarta-feira, 11 de junho de 2025

O discurso de Lídia Jorge na íntegra – a mensagem do 10 de Junho que será recordada


Contra a possibilidade de loucos atingirem o poder e contra "a fúria revisionista que assalta pelos extremos", a escritora e conselheira de Estado Lídia Jorge dedicou o discurso que proferiu no âmbito das celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas a uma condenação do racismo, da escravatura e da cultura da mediocridade. Para ler aqui na íntegra

Lídia Jorge, conselheira de Estado falava enquanto presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do 10 de Junho, em Lagos, num discurso que antecedeu o do chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa.

Na sua intervenção, com cerca de 30 minutos, citou Shakespeare, Camões e Cervantes, “três autores perceberam bem que, em dado momento, é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência”.

O discurso na íntegra

“Os países escolhem datas de referência para celebrarem a sua história, contemplando memórias de batalhas, ações de independência, encontros civilizacionais, momentos importantes em torno dos quais concitam a unidade dos cidadãos e promovem o orgulho patriótico.

Mas, em Portugal, é a data da morte de um poeta que protagoniza o nosso momento cívico de unidade mais relevante.

Muito se tem discorrido sobre o significado desta nossa singularidade e, muitas vezes, é difícil explicar que não se trata de um sinal de melancolia, mas sim do seu oposto.

Há a assunção de que um poeta do século XVI nos legou uma obra tão vigorosa que acabou por ser adotada no seu conjunto como exemplo da vitalidade de um povo e que a própria biografia do seu autor se oferece como exemplo não só de um percurso português, mas se transformou em símbolo universal da nossa peregrinação prometeica sobre a terra.

A fidelidade que Camões manteve em relação à pátria, quando se encontrava em paragens remotas, alimenta a simbologia que lhe é atribuída como exemplo da proximidade que os portugueses que se encontram longe mantêm com a sua cultura de origem.

O país retribui-lhes, reconhecendo, desde há muito, que as comunidades portuguesas são o corpo essencial do nosso ser identitário.

Mas as celebrações deste ano de 2025 têm um cunho muito particular. Em primeiro lugar, porque voltam a ter lugar na cidade de Lagos. No século passado, foi cidade anfitriã em 1996.

Passados 29 anos, esta cidade do Algarve continua a ser democrática, livre, próspera.

O que mudou e o que justifica que, de novo, tenha sido escolhida para ser palco das celebrações foi a nova consciência de que Lagos passou a representar um lugar obrigatório quando se pretende avaliar as relações entre os povos ao longo dos séculos.

É sabido que Lagos, lugar de saída para a África e lugar do comércio prático, tem como símbolo complementar o Promontório de Sagres.

A escassos 40 quilómetros de distância, Sagres e Lagos representam historicamente uma dualidade contrastiva cujo papel se encontra em avaliação.

A comunicação digital que se afirmou a partir dos anos 90 permite agora uma divulgação ampla dos estudos que os arqueólogos, antropólogos e historiadores estão a realizar neste espaço geográfico designado por Terras do Infante.

Era a altura de atribuir a Lagos, de novo, o estatuto de cidade vencedora e de apoiar estas celebrações de importância ou de interesse cultural.

Mas há outro motivo para que, este ano, a celebração deste dia seja particular. Desde há dois anos que estamos a invocar o nascimento de Camões, ocorrido há 500 anos, presume-se que entre 1524 e 1525. Calcula-se que assim tenha sido, mas vale a pena refletir sobre o facto, pois, tal como não sabemos como decorreu a sua infância, nem a sua formação, também desconhecemos o local e o dia em que o poeta nasceu.

Para sermos justos sobre a sua vida inicial, apenas podemos dizer o que um certo maestro célebre disse de Beethoven: Um dia Camões nasceu e nunca mais morreu. Nunca mais morreu.

Provam-no a forma como, passados cinco séculos, tem sido revisitado ao longo destes dois últimos anos. As escolas, a academia, o mundo da edição, os vários campos das artes e das ciências humanísticas em Portugal têm dado rosto a toda uma espécie de comemoração espontânea e informal em torno do nosso poeta maior.

Novos autores têm surgido, atualizando a exegese sobre os seus poemas e o conhecimento acumulado em torno da vida de Camões.

O jovem ensaísta Carlos Maria Bobone pôs recentemente em relevo o papel decisivo que Camões desempenhou ao fixar uma língua nova à altura de um pensamento novo que resultaria definitivamente na Língua Portuguesa moderna que hoje usamos.

Demonstrou como a língua portuguesa, manobrada no seu esplendor, resultou como uma dádiva que devemos ao grande cantor do Oceano, como lhe chamou Baltasar Estaço.

Por sua vez, a biógrafa Isabel Rio Novo, numa visita recente, profusamente documentada que faz à vida de Camões, no final, não deixa de se comover com os testemunhos sobre os últimos dias do poeta, demonstrando que as histórias que correm sobre certos passos da sua vida, afinal, não são lendas, são verdades.

O receio de sermos românticos não nos deveria afastar da realidade testemunhada. E assim, a mim, não me pareceria errado que os adolescentes portugueses conhecessem o comentário que Frei José Índio redigiu na margem de um exemplar d’Os Lusíadas, presumivelmente oferecido pelo próprio autor na hora de partir. Escreveu o frade: Yo lo vi morir en un hospital en Lisboa sem tener uma sábana com que cobrisse, despues de haver navegado 5.500 léguas per mar.

Assim foi, sem um lençol. Terá sido um amigo quem lhe enviaria a sábana, já depois de morto.

Não me parece que daí se devam retirar conceitos patrióticos ou antipatrióticos. Conceitos sobre a vida humana e seu mistério, isso, talvez.

Entretanto, por contraste, sobre a obra que deixou, milhares de páginas de novo têm sido escritas, confirmando a dimensão invulgar do poeta que foi.

Hélder Macedo, um dos seus leitores mais subtis, disse recentemente numa entrevista que, se Camões tivesse continuado a viver, ninguém mais em Portugal teria sido capaz de escrever um verso. Essa hipérbole é linda.

Assim como é reconfortante saber que os professores deste país continuam a ler às crianças epigramas, redondilhas e vilancetes de Camões, como se fossem filos modernos, feitos de palavras, o que mostra que os portugueses continuam vivamente enamorados do seu poeta maior.

Mas se o patrono destas celebrações é o poeta do virtuosismo verbal e do amor conceptual, o amor maneirista, o poeta do questionamento filosófico e teológico, como é em “Sôbolos rios que vão”, e o poeta dos longos versos enfáticos sobre o heroísmo dos viajantes do mar, ao regressarmos a todos esses versos, escritos há quase 500 anos, encontramos coincidências que nos ajudam a compreender que os tempos duros que atravessamos têm conformidade com os tempos em que o próprio viveu.

Camões, tal como nós, conheceu uma época de transição, assistiu ao fim de um ciclo e, sobre a consciência dessa mudança, no conjunto das 1.102 oitavas que compõem Os Lusíadas, 22 delas contêm avisos explícitos sobre a crise que se vivia então.

Aliás, hoje é ponto assente que o poema épico encerra um paradoxo enquanto género, o paradoxo de constituir um elogio sem limites à coragem de um povo que havia resultado da criação do Império e, em sentido oposto, conter a condenação das práticas que, passados 50 anos, impediam a manutenção desse mesmo Império.

E nesse campo pode-se dizer que Os Lusíadas, poema que no fundo justifica que o dia de Portugal seja o dia de Camões, expressa corajosas verdades dirigidas ao rosto dos poderes que elogia.

É bom lembrar que, entre os séculos XVI e XVII, três dos maiores escritores europeus de sempre coincidiram no tempo apenas durante 16 anos e, no entanto, os três desenvolveram obras notáveis de resposta ao momento de viragem de que eram testemunhas.

Foram eles Shakespeare, Cervantes e Camões. De modo diferente, mas em convergência, procederam à anatomia dos dilemas humanos e, entre eles, os mecanismos universais do poder, corpus que continua válido e intacto até aos nossos dias: sobre o poder grandioso, o poder cruel, o poder tirânico, o poder temeroso e o poder laxista.

No caso de Camões, de que se queixa ele quando interrompe o poema das maravilhas da história para lembrar a mesquinha realidade que envenenava o presente de então? Queixava-se da degradação moral, mencionava “o vil interesse e sede imiga/Do dinheiro, que a tudo nos obriga”, e evocava, entre os vários aspetos da degradação, o facto de sucederem aos homens da coragem que tinham enfrentado um mar desconhecido, homens novos, venais, que só pensavam em fazer cultura. Mais do que isso, queixava-se da subversão do pensamento, queixava-se da falta de seriedade intelectual, que resultava depois, na prática, na degradação dos atos do dia a dia.

Escreve o poeta no final do canto oitavo: “Este deprava às vezes as ciências,/ Os juízos cegando e as consciências./ Este interpreta mais que sutilmente/ Os textos; este faz e desfaz leis;/ Este causa os perjúrios entre a gente/E mil vezes tiranos torna os Reis”.

Na verdade, Camões, Cervantes e Shakespeare, de modos diferentes, expuseram os meandros da dominação, envolvidos com o tempo histórico dos impérios que viveram.

Por essa altura, sobre os reis de Portugal, Espanha e Inglaterra, dizia-se que lutavam entre si pelo domínio do globo terrestre. Ou mais concretamente, dizia-se então que os três competiam para ver quem acabaria por pendurar a terra ao pescoço como se fosse um berloque.

Os três autores perceberam bem que, em dado momento, é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência.

Escreveu Shakespeare no ato IV do Rei Lear: “É uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos”.

Enquanto isso, Cervantes criava a figura genial do alucinado Dom Quixote de La Mancha, que até hoje perdura entre nós como o nosso irmão ensandecido.

Por seu lado, Camões, no corpo d’Os Lusíadas, não falou da loucura, mas a vida haveria de lhe demonstrar que as páginas escritas por si mesmo haviam sido proféticas, em resultado dela, da loucura. O desastre de Alcácer-Quibir, ocorrido em 1578, estava assinalado numa das últimas estrofes do Canto X. Era a história, como sempre, a confirmar o pressentimento experimentado pela literatura.

No entanto, o fim do ciclo, que neste caso aqui interessa, não é mais uma transição localizada que diga apenas respeito a três reinos da Europa.

Nos dias que correm, trata-se do surgimento de um novo tempo que está a acontecer à escala global. Porque nós, agora, somos outros.

Deslocamo-nos à velocidade dos meteoros e estamos cercados de fios invisíveis que nos ligam para o espaço.

Mas alguma coisa desse outro fim de século, que se seguiu ao tempo da Renascença malograda, relaciona-se com os dias que estamos a viver. O poder demente, aliado ao triunfalismo tecnológico, faz que a cada dia, a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como se mais uma vez se tratasse de um berloque.

E os cidadãos são apenas público, que assiste a espetáculos em ecrãs de bolso. Por alguma razão, os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores. E os seus ídolos são fantasmas.

É contra isso e por isso que vale a pena que Portugal e as Comunidades Portuguesas usem o nome de um poeta por patrono. Por isso mesmo, também vale a pena regressar a Lagos.

Sobre estes areais, aconteceram momentos decisivos para o mundo.

No início da Idade Moderna, Lagos e Sagres representaram tanto para Portugal e para a Europa que à sua volta se constituíram mitos que perduram. O Promontório e a silhueta do Infante austero que sonhou com o achamento de ilhas e outros descobrimentos, como parte de uma guerra santa antiga, e tudo realizou a poder de persistência férrea e sagacidade empresarial, transformou-se numa figura de referência como criador de futuros. À sua figura anda associado um sonho que se realizou e depois se entornou pela terra inteira e a lenda coloca-o a meditar em Sagres.

Numa referência um tanto imprecisa, mas que permite a sua evocação, Sophia escreveu: “Ali vimos a veemência do visível/ o aparecer total exposto inteiro/ e aquilo que nem sequer ousáramos sonhar/ era o verdadeiro”.

Esta ideia de que, na mente do Infante, se processou uma epifania, anda-lhe associada enquanto mentor de uma equipa mais ou menos informal que teve a capacidade de motivar e dirigir. Sagres passou, assim, para a história e para a mitologia como lugar simbólico de uma estratégia que mudaria o mundo.

Mas existe uma outra perspetiva, como é sabido, e hoje em dia o discurso público que prevalece é, sem dúvida, sobre o pecado dos Descobrimentos e não sobre a dimensão da sua grandeza transformadora.

É verdade que a deslocação coletiva que permitiu estabelecer a ligação por mar entre os vários continentes e o encontro entre povos obedeceu a uma estratégia de submissão e rapto, cujo inventário é um dos temas dolorosos de discussão na atualidade.

É preciso sempre sublinhar, para não se deturpar a realidade, que a escravatura é um processo de dominação cruel, tão antigo quanto a humanidade.

O que sempre se verificou foi diversidade de procedimentos e diferentes graus de intensidade.

E é indesmentível que os portugueses estiveram envolvidos num novo processo de escravização longo e doloroso.

Lagos, precisamente, oferece às populações atuais, a par do lado mágico dos Descobrimentos, também a imagem do seu lado trágico.

Falo com o sentido justo da reposição da verdade e do remorso pelo facto de que se ter inaugurado o tráfico negreiro intercontinental em larga escala, como polos de abastecimento nas costas de África, e assim se ter oferecido um novo modelo de exploração de seres humanos que iria ser replicado e generalizado por outros países europeus até ao final do século XIX.

Lagos expõe a memória desse remorso. Mostra como, num dia de agosto de calor tórrido de 1444, desembarcaram aqui 235 indivíduos raptados nas costas da Mauritânia e como foram repartidos e por quem.

Alguém que, muito prezamos, encontrava-se em cima de um cavalo e aceitou o seu quinhão de 46 cabeças. Esse cavaleiro era nem mais nem menos do que o próprio Infante D.Henrique.

Lagos não se furta a expor essa verdade histórica.

Lagos também mostra o local onde depois levas sucessivas iriam ser mercadejados os escravos. E mais recentemente relata-se como eram atirados ao lixo quando morriam sem um pano a envolver os corpos. Até agora foram retirados desse monturo de Lagos os restos mortais de 158 indivíduos de etnia Banta.

Lagos mostra esse passado ao mundo para que nunca mais se repita. Talvez por isso estejamos aqui,no dia de hoje.

Aliás, a UNESCO criou a Rota do Escravo e inscreveu Lagos na Rota da Escravatura, para que saibamos como os seres humanos procedem uns com os outros, mesmo quando se fundamentam em religiões fundadas sob os princípios do amor e sob a lei dos direitos humanos.

Lagos mostra esse filme e faz-se parente de quem escreveu na porta de um lugar de extermínio moderno o pedido solene: Homens não se matem uns aos outros.

É verdade que só conhecemos o que sucedeu naquele dia 8 de agosto de 1444 porque o cronista do infante Dom Henrique o narrou. Eanes Gomes de Zurara não conseguiu evitar um sentimento de compaixão e comentou, de forma comovida, como a chegada e a partilha dos escravos era cruel. Felizmente que dispomos dessa página da “Crónica dos Feitos de Guiné” para termos a certeza de que havia quem não achasse justo semelhante degradação e o dissesse.

Aliás, sabemos que sempre houve quem repudiasse por completo a prática e o teorizasse.

O que significa que Lagos, a cidade dos sonhos do Infante de que Sagres é a metáfora, passados todos estes séculos, promove a consciência sobre o que somos capazes de fazer uns aos outros. Esta tornou-se, pois, uma cidade contra a indiferença.

É uma luta nossa, contemporânea.

Em Lagos, hoje em dia, está presente de outro modo a mensagem do cartoon de Simon Kneebone, datado de 2014, que tem corrido mundo.

A cena é nossa contemporânea. Passa-se no mar. Num navio enorme, aparelhado com armas defensivas, no alto da torre, está um tripulante que avista ao longe uma barca frágil, rasa, carregada de migrantes.

O tripulante da grande embarcação pergunta: de onde vêm vocês? Da lancha, apinhada, alguém responde: vimos da terra.

Sugiro que os jovens portugueses, descendentes de cavadores braçais, marujos, marinheiros, netos de emigrantes que partiram descalços à procura de trabalho, imprimam este cartoon nas camisas quando vão ao mar.

Consta que em pleno século XVII, 10% da população portuguesa teria origem africana.

Essa população não nos tinha invadido. Os portugueses os tinham trazido arrastados até aqui. E nos miscigenámos.

O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro. A falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma.

Tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou. Filhos do pirata e do que foi roubado. Mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas.

A consciência dessa aventura antropológica talvez mitigue a fúria revisionista que nos assalta pelos extremos nos dias de hoje, um pouco por toda a parte.

Agora que percebemos que estamos no fim de um ciclo e que um outro se está a desenhar, e a incógnita existencial sobre o futuro próximo, ainda desconhecido, nos interpela a cada manhã que acordamos sem sabermos como irá ser o dia seguinte.

A pergunta é esta: quando ficarem em causa os fundamentos institucionais, científicos, éticos, políticos e os pilares de relação de inteligência homem-máquina, entrarem num novo paradigma, que lugar ocuparemos nós como seres humanos? O que passará a ser um humano?

Comecei por dizer que Camões nasceu e nunca mais morreu.

Regresso à sua obra para procurar entender que conceito tinha a poeta sobre o que era um ser humano. Sobre si mesmo, toda a sua obra o revela como vítima da perseguição de todas as potestades conjugadas. A sua obra lírica é uma resposta a esse abandono essencial.

Em conformidade com essa mesma ideia, ao terminar o canto I d’Os Lusíadas, Camões define o ser humano como um ente perseguido pelos elementos: “Onde pode acolher-se um fraco humano,/ Onde terá segura a curta vida/ Que não se arme, e se indigne o Céu sereno/ Contra um bicho da terra tão pequeno”.

Nestes versos, se reconhece o conceito renascentista, o da grande solidão do ser humano e a sua luta estóica contra, centrada na confiança em si mesmo.

Mas, na prática, essa atitude representava uma orfandade orgulhosa que facilmente a fortuna não reconhecia. Curiosamente, no final da vida, o corpo nu de Camões só teve um lençol, o oferecido, a separá-lo da terra. Igual à sorte do seu corpo, essa sorte não difere daquela que mereceram os corpos dos escravos aqui em Lagos.

Mas entretanto, no século XIX, o direito à proteção beneficiada pelo Estado começou a emergir. Criaram-se documentos essenciais tendo em vista o respeito pelos cidadãos. Depois das duas guerras mundiais do século XX, foi redigida e aprovada a Carta dos Direitos Humanos e, durante algumas décadas, foi tentado implantá-los como código de referência um pouco por todo o mundo. Só que ultimamente regride-se a cada dia que passa.

O conceito de representatividade respeitável da figura do Chefe de Estado, oriundo do povo grego, princípio que sustentou a trama purificadora das tragédias clássicas, a que se juntou depois o princípio da exemplaridade colhida dos Evangelhos, essa conduta que fazia com que o rei devesse ser o mais digno entre os dignos, está a ser subvertida.

A cultura digital subverteu a regra da exemplaridade. O escolhido passou a ser o menos exemplar, o menos preparado, o menos moderado, o que mais ofende.

Um Chefe de Estado de uma grande potência, durante um comício, pôde dizer: adoro-vos, adoro os pouco instruídos. E os pouco instruídos aplaudiram.

Pergunto, pois, qual é o conceito hoje em dia de ser humano? Como proteger esse valor que até há pouco funcionava e não funciona mais?

Hoje, dia de Portugal, de Camões e das comunidades, não será legítimo perguntar, sem querer ofender quem quer que seja, perguntar como manteremos a noção de ser humano respeitável, livre, digno, merecedor de ter acesso à verdade dos factos e à expressão da sua liberdade de consciência?

Nós, portugueses, não somos ricos. Somos pobres e injustos. Mas, ainda assim, derrubámos uma longuíssima ditadura e terminámos com a opressão que mantínhamos sobre diversos povos e com eles estabelecemos novas alianças e criámos uma comunidade de países de língua portuguesa. E fomos capazes de instaurar uma democracia e aderir a uma união de países livres e prósperos que desejam a paz.

Assim sendo, por certo que ainda não temos as respostas, mas, perante as incógnitas que nos assaltam, sabemos que temos a força.

Leio Camões, aquele que nunca mais morreu, e comovo-me com o seu destino, porque se alguma coisa tenho em comum com ele, que foi génio, e eu não sou, é a certeza de que partilho da sua ideia, de que um ser humano é um ser de resistência e de combate. É só preciso determinar a causa certa.

Muito obrigada.”

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Discurso de Anne Teresa De Keersmaeker quando aceitou o prémio Helena Vaz da Silva


Introdução e Agradecimentos [00:06] "Exma. Senhora Ministra, caros membros da direção da Europa Nostra, da Fundação Calouste Gulbenkian, do Centro Nacional de Cultura e do Clube Português de Imprensa. Caros membros do júri, senhoras e senhores. Deixem-me primeiro expressar o quão honrada e grata estou por estar aqui esta noite e receber o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural."

Sobre Helena Vaz da Silva [01:03] "Gostaria muito de ter conhecido a inspiradora Helena Vaz da Silva. Compreendi que o seu nome, Helena, significa que ela é a mulher mais bela, e 'da Silva' significa que ela é da floresta. O que se pode querer mais? Além disso, Helena foi uma grande amiga da admirável Marguerite Yourcenar, que nasceu na minha cidade, Bruxelas."

A Definição de Coreografia [01:48] "Em algum momento do seu caminho, qualquer artista se depara com a questão: o que é que faz e o que significa o seu meio para si? (...) A tentativa de expressar o que a coreografia significa para mim tem sido algo em movimento, em constante mudança. Dança comigo."

A artista descreve a evolução da sua visão sobre a coreografia em quatro fases:

  1. Corporizar uma abstração: Uma obsessão com o numérico, o geométrico e o formalismo [04:11].

  2. Organização do tempo e do espaço: Um regresso ao corpo humano e ao básico: caminhar, respirar, cair [04:31].

  3. Desafiar a gravidade: Algo entre Isaac Newton e saltar como uma criança [04:43].

  4. Uma forma de cura: Uma visão mais recente do seu trabalho [05:03].

O Impacto da Pandemia e a Crise Climática [05:29] "Com a COVID-19, tudo o que pensávamos saber foi desestabilizado. Como coreógrafa, as perguntas tornaram-se incontornáveis: quando voltaremos a fazê-lo? Porquê dançar?"

Anne Teresa reflete sobre a etimologia da palavra: Core (coro/grupo) e Graphine (escrever). "Coreografia é escrever as pessoas, ou escrever o espaço entre as pessoas" [06:55]. Ela observa que a pandemia criou uma "coreografia peculiar" de distância, máscaras e desconfiança entre os corpos [07:22].

No entanto, alerta que problemas como as alterações climáticas, a educação e a desigualdade social são questões mais urgentes que devem estar no topo da lista [08:02]. "Destruímos o nosso ambiente, destruímo-nos a nós mesmos" [09:10].

A Dança como Reencontro e "Reset" [11:18] "Acredito que a coreografia tem o potencial de oferecer mais do que apenas consolo. Podemos aprender com ela." Ela discute dois eixos na dança:

  • Eixo Vertical: Liga o céu à terra, mantendo-nos enraizados mas elevando-nos [12:11].

  • Eixo Horizontal: O reino do social, onde alcançamos os vizinhos e nos apoiamos [12:40].

"O mundo precisa de se reescrever, não de retroceder, mas de fazer um reset para um futuro melhor" [14:26].

O Património da Dança e a Educação [19:05] Refletindo sobre a Europa Nostra e a proteção do património, ela questiona como proteger a dança, que não é feita de objetos, mas passa de corpo em corpo. Menciona a fundação da sua escola, PARTS, em Bruxelas em 1995, que já recebeu 556 alunos de 66 países [20:36]. "Proteger o património da dança é uma questão de cuidar da sua transmissão de geração em geração" [23:28].

Conclusão: Uma Celebração da Humanidade [28:16] "No final do dia, a coreografia é uma celebração da nossa humanidade. É um meio para dançarmos juntos coletivamente. Mesmo quando dançamos a solo, nunca estamos verdadeiramente sozinhos."

O discurso termina com citações de T.S. Eliot e o Soneto 18 de Shakespeare, celebrando a vida e a imortalidade através da arte [29:59].

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Música do BioTerra: The Cure - The Drowning Man


She stands twelve feet above the flood
She stares
Alone
Across the water
The loneliness grows and slowly
Fills her frozen body
Sliding downwards

One by one her senses die
The memories fade
And leave her eyes
Still seeing worlds that never were
And one by one the bright birds leave her

Starting at the violent sound
She tries to turn
But final
Noiseless
Slips and strikes her soft dark head
The water bows
Receives her
And drowns her at its ease
Drowns her at its ease

I would have left the world all bleeding
Could I only help you love
The fleeting shapes
So many years ago
So young and beautiful and brave

Everything was true
It couldn't be a story

I wish it was all true
I wish it couldn't be a story
The words all left me
Lifeless
Hoping
Breathing like the drowning man

Oh Fushia
You leave me
Breathing like the drowning man
Breathing like the drowning man

Filme "A Pomba Branca" de František Vláčil

Melhor som aqui

The Cure - "The Drowning Man": significado, influências literárias e a riqueza musical da obra mais icónica do álbum Faith
Lançada em 1981 no emblemático álbum Faith, "The Drowning Man" afirma-se como uma das composições mais sombrias, profundas e atmosfericamente densas de toda a discografia dos The Cure. No seu âmago, a canção explora o desespero absoluto, a perda da inocência, o luto sufocante e a inevitabilidade da morte, utilizando a tragédia do afogamento de uma figura feminina como uma metáfora sufocante para a perda de controlo e para o esmagamento psicológico provocado pela depressão.

A faixa é uma referência literária direta ao romance Gormenghast (1950), o segundo volume da célebre trilogia do autor britânico Mervyn Peake. Robert Smith inspirou-se na trágica morte de Lady Fuchsia Groan, que, num estado de profunda depressão e desorientação, cai de uma janela da fortaleza para o rio e morre afogada. A letra retrata quase literalmente a atmosfera do capítulo, ligando-se também ao arquétipo shakespeariano de Ofélia (Hamlet) e a uma visão filosófica de carácter existencialista e niilista, inspirada por autores como Albert Camus e Jean-Paul Sartre, onde a impotência perante a fatalidade ocorre sem qualquer possibilidade de salvação ou redenção divina.

Apesar da forte carga narrativa e visual da letra, os The Cure nunca realizaram um videoclipe para "The Drowning Man". A razão principal prende-se com o facto de a canção nunca ter sido lançada como single comercial - do álbum Faith, apenas "Primary" teve esse estatuto promocional. Além disso, quando o disco foi editado em abril de 1981, a MTV ainda não tinha estreado (o que só aconteceria em agosto desse ano), pelo que a cultura de criar vídeos conceptuais para faixas secundárias de álbuns ainda não existia. Por fim, durante a gravação da chamada "Trilogia Obscura" (Seventeen Seconds, Faith e Pornography), a banda vivia uma fase de forte isolamento e melancolia, recusando o apelo comercial e focando-se puramente na atmosfera sonora e nas atuações ao vivo.

Sonoramente, embora seja habitualmente catalogada sob os rótulos de Post-Punk e Gothic Rock, a arquitetura de "The Drowning Man" incorpora e antecipa vários outros estilos. Trata-se de um exemplo límpido de Coldwave, marcado pelo minimalismo, timbres frios e um sentimento de isolamento existencial. A composição aproxima-se também do Dark Ambient e da Ambient Music, ao substituir a estrutura convencional de verso e refrão por uma paisagem sonora fluida, onde o baixo lento e hipnótico de Simon Gallup simula o pulsar da maré e a caminhada de uma marcha fúnebre neoclássica. Adicionalmente, as guitarras densas, carregadas de flanger, chorus e delay, criam texturas etéreas e aquáticas que antecipam diretamente os movimentos Dream Pop e Shoegaze de bandas que surgiriam anos mais tarde, como os Cocteau Twins ou os Slowdive.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Macbeth - 2015


A versão de 2015 de Macbeth, dirigida por Justin Kurzel, reconstrói a tragédia de Shakespeare sob uma ótica profundamente visceral e psicológica. Em vez de tratar a ambição apenas como uma falha moral abstrata, o filme a enraíza no trauma de guerra e na dor do luto. A narrativa ganha vida numa Escócia árida e sufocante, onde a violência constante moldou a psique dos personagens. Logo após uma batalha sangrenta, o general Macbeth e seu companheiro Banquo encontram três bruxas na névoa, que profetizam que Macbeth se tornará rei e que a linhagem de Banquo herdará o trono. Impulsionado por essa predição e alimentado pelo luto velado de Lady Macbeth pela perda de um filho, o casal arquiteta o assassinato do Rei Duncan. No entanto, a conquista do poder não traz paz, mas sim uma espiral incontrolável de paranoia e culpa. Para proteger sua coroa, Macbeth comete uma série de novos crimes, mandando matar Banquo e a família de Macduff. Consumido por alucinações e vendo a sanidade da sua esposa ruir até a morte, Macbeth apega-se a uma falsa sensação de invencibilidade prometida pelas bruxas, culminando no seu inevitável e sangrento confronto final contra Macduff.

Para além do enredo, a obra dialoga diretamente com importantes inspirações e subtextos filosóficos, éticos e mitológicos. No campo filosófico, a narrativa capta com precisão o conceito do absurdo e o desespero existencial desenvolvidos mais tarde por pensadores como Albert Camus. Macbeth percebe que os seus atos violentos não deram sentido à sua existência, mas apenas aceleraram o vazio, culminando na constatação de que a vida é uma história cheia de som e fúria que não significa nada. O filme explora também a tensão entre o determinismo e o livre-arbítrio, questionando se as profecias seriam um destino inevitável ou apenas um gatilho psicológico que levou Macbeth a agir. Do ponto de vista político, reflete-se a lógica de Nicolau Maquiavel sobre a corrupção do poder, demonstrando que a crueldade e a violência desmedida não geram estabilidade, mas sim a rutura total do Estado. Já sob a ótica da psicanálise do trauma e do remorso, a loucura de Lady Macbeth e o seu ato obsessivo de tentar lavar as mãos simbolizam a impossibilidade moral de apagar a responsabilidade individual diante do mal. Por fim, a própria figura das três bruxas carrega uma mitologia riquíssima que remonta à Antiguidade. Elas são inspiradas nas Moiras ou Parcas da mitologia greco-romana e nas Nornas da mitologia nórdica, entidades divinas que teciam e cortavam o fio do destino humano. No texto original de Shakespeare, elas são chamadas de weird sisters, termo derivado do anglo-saxónico wyrd, que significa literalmente fado ou destino. Há também a influência da deusa Hécate, associada à feitiçaria e à noite, além do contexto histórico do rei Jaime I de Inglaterra, um monarca obcecado pela caça às bruxas. Na adaptação de 2015, toda esta carga mitológica é reinterpretada de forma terrena e realista, onde as bruxas deixam de ser figuras caricaturais para se tornarem mulheres marginais e sobreviventes de guerra, integradas na própria terra escocesa e no ciclo de trauma que assola a história.

sábado, 23 de junho de 2012

Deuxvolt - Blackheart


Letra

Girl: Why do not you call me love?
Boy: What is love? Is just a chemical reaction...

Drowning... deceiving and bleeding
Best wishes, your words or lies?
Feelings are chemical processes
Love works with dopamine from the brain

When trust was blind
For you it was not good enough [Can’t see the light?]
Don’t play with my mind
Black winter will come inside [Can’t stop the pain?]

The night will come down
Taking now this broken wings [You blackheart!]
The days will pass by
Wishing what can never be [You blackheart!]
The smoke will drift up
From ashes of a shattered dream [You blackheart!]
The past is gone with
Just another dark piece...
...of Blackheart

Break me and shake me ...to hate me!
Deal with it: there’s no love in there
Whispering voices creep all around
Cardiac pulse just pumps your blood alive

I've done my time
Retracing mistakes on and on [Can’t see the light?]
You want to go back
But memories fade to a black hole [Can’t stop the pain?]

I’m killing now my romance
I only need to stay away from you...
I’m killing now my romance
I’m done with dreaming that never comes true...
I’m killing now my romance
The feeding of illusion’s over soon
I’m killing now my romance
I only need to stay away from you...

Amleto: "...I loved you once."
Ofelia: "Indeed, my lord, you made me believe so"
Amleto: "You should not have believed me [...] I loved you not."

O video da música "Blackheart", da banda italiana Deuxvolt, combina uma explicação científica e biológica sobre o amor com a sonoridade agressiva do metal industrial e do aggrotech. Ao longo do vídeo, é explicado que o amor, do ponto de vista puramente físico, não passa de uma reação química fria desencadeada no cérebro. Através do toque, que ativa milhares de unidades táteis nas mãos, e da libertação de neurotransmissores e hormonas como a oxitocina, a dopamina e a fenetileamina, o corpo gera a sensação de infatuação inicial. O video desmistifica a ideia romântica do coração, lembrando que este órgão serve apenas para bombear sangue e não tem emoções, enquanto o hemisfério direito do cérebro processa o sentimento. Esta visão puramente clínica contrasta fortemente com o visual e a estética gótica da banda, cujas principais influências vêm de clássicos do cinema e da literatura de terror, como o livro "Dracula" de Bram Stoker e os filmes "Entrevista com o Vampiro", "A Rainha dos Condenados" e "O Corvo", criando um ambiente de "dark romance" onde a paixão é tratada como uma força visceral, sombria e inevitavelmente temporária.
Toda esta dinâmica serve de pano de fundo para a metáfora de Amleto e Ofelia (Hamlet e Ofélia), o pináculo do romance trágico de Shakespeare. Enquanto Ofélia representa a infatuação levada à loucura e à autodestruição, Hamlet encarna a frieza analítica e cínica, criando um ambiente de "dark romance" onde a paixão e a tragédia literária são explicadas como um curto-circuito biológico, visceral, sombrio e inevitavelmente temporário.