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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Alguns gigantes da Inteligência Artificial estão a comprar lotes de milhares de livros antigos simplesmente para os copiar - e eliminar de seguida


A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros reporta um aumento de 3,2 milhões de livros nas vendas do primeiro trimestre de 2026. No segundo trimestre, as vendas voltaram a cair, mas ainda assim venderam-se mais de três milhões de livros.

Sim, as pessoas ainda leem. Mesmo retirando as leituras obrigatórias, como manuais escolares e afins, as pessoas ainda dão valor ao ato físico de ler e folhear um livro, mas há quem esteja a comprar milhares de livros simplesmente para os eliminar. Alguns gigantes da IA que estão a comprar lotes de milhares de livros antigos simplesmente para os copiarem e eliminar de seguida [Fonte 1] [Fonte 2] [Fonte 3]. O caso é tão grave que Elon Musk já se apressou a dizer no X que deu ordens para a sua empresa não destruir livros raros nos processos de digitalização.
Se por um lado o mercado de livros usados encontrou compradores massivos que "atiram a tudo o que mexe", transformando um negócio moribundo num negócio extremamente lucrativo, também é verdade que estas empresas não estão meramente a comprar livros para guardar em estantes bonitinhas de uma livraria qualquer. Estas empresas estão a comprar livros para lhes passarem uma guilhotina nas lombadas, colocar em digitalizadores rápidos, copiar página a página e no final tratar o papel como nos recomendam que tratemos: enviar para reciclagem.

Morte ou perpetuidade?
Se é um fato que os livros digitalizados podem garantir mais perpetuidade do que livros numa arrecadação a apodrecer com humidade ou a serem devorados por ratos, também é verdade que podemos nunca mais ter acesso às histórias completas desses livros se a velocidade com que são destruídos for muito maior do que a velocidade com que os ratos os roem.

Estes processos de digitalização não são propriamente projetos de preservação e restauro. Quando estas empresas copiam os livros, não estão a criar um novo livro digital, nem nada parecido. O que estão a fazer é a aumentar o conhecimento dos seus modelos de IA que mais tarde nos apresentarão interpretações ou respostas com base no que aprenderam nesses livros, o que não quer dizer que nos entreguem alguma vez esse livro na sua forma integral.

E mesmo que existam cópias integrais, nada garante que esse arquivo digital sobreviva. Guardar milhões de páginas digitalizadas em alta resolução custa dinheiro. Armazenamento, manutenção, curadoria, gente a organizar e a catalogar. é dispendioso. Se não houver curadoria suficiente que preserve esse arquivo ainda que digital, é bem provável que estas empresas, por puras razões económicas optem por não o fazer. Um ficheiro que já cumpriu a sua função de treino não gera retorno nenhum só por ali estar guardado. O que sobra, nesse cenário, não é o livro nem a sua cópia mas aquilo que o "robot" reteve do treino e da sua própria interpretação do texto. Isso, sim, é uma perda irreversível. Passamos de ter o original para ter, na melhor das hipóteses, um eco eventualmente distorcido dele.

Podemos estar a cometer uma atrocidade cultural ao nível do que aconteceu na Dinastia Qin, na Inquisição Espanhola ou na Alemanha Nazi, eliminando livros em troca de um pret-a-porter que a Inteligência Artificial nos poderá vir, ou não, a dar.

Antecipando as críticas, claro que os propósitos são, de facto, diferentes. Nesses tempos antigos os livros eram destruídos para impedir que o conhecimento chegasse a alguém, destruindo a narrativa desejada. Já uma empresa de IA digitaliza-os para absorver o máximo de conhecimento possível mas as o resultado prático, pode, no final, pode ser semelhante. Em ambos os casos o original desaparece e fica apenas a narrativa que quem ficou com o livro decidiu ou conseguiu reter e transmitir. Um ditador entrega-nos a história reescrita à medida da sua ideologia, uma IA entrega-nos a história reescrita à medida do que o seu treino conseguiu interpretar. Muda a intenção, não muda o efeito: o leitor perde o acesso à obra completa e fica dependente da versão de quem a destruiu.

O livro físico é uma prova física. Um papel é sempre um papel que só se apaga, destruindo. Quando perdermos a referência do papel perderemos a referência do que é incorruptível e do que não é. Quando não tivermos esses livros antigos, não teremos como saber se o que nos estão a dar é o livro, ou se é uma interpretação do livro, ou, ainda pior, se do livro só tem a referência sendo o conteúdo outra coisa qualquer.

Quem será, afinal, o guardião das obras originais quando os livros forem partidos às peças e não soubermos onde está e o que é o todo?

Lembra-se do reCAPTCHA?
Muito provavelmente não sabe mas andámos anos a treinar os algoritmos de IA a interpretar texto sem que sequer nos déssemos conta.

Provavelmente já lhe apareceu, nos testes de segurança de algumas páginas de internet, um texto para "provar que é humano". É o CAPTCHA.

O texto mostra-lhe umas letras quase sempre distorcidas e desalinhadas que pede-lhe que re-escreva o texto. Sempre pensou que fosse o computador a pregar-lhe uma partida, mas não é nada disso. O que o computador está a fazer á a solicitar ajuda humana estatística para identificar textos de documentos antigos ou esbatidos que foram digitalizados. A ratoeira é fácil. Uma palavra ou parte da palavra, é um texto real que o computador conhece. A outra metade é uma foto de um texto antigo digitalizado que o algoritmo não entende e quer perceber o que será. Ao fim de vários milhares de interações, o algoritmo percebe o que os humanos assumem do que leram e fica a digitalização completa.
Imagem do cartaz do filme "Fahrenheit 451", realizado por François Truffaut em 1966. O filme é inspirado no romance homónimo de Ray Bradbury, publicado em 1953. Num futuro distópico, um regime proíbe todos os livros, sendo cada exemplar encontrado queimado. Fahrenheit 451 (equivalente a 233 graus Celsius) é a temperatura a que o papel arde.

Ou seja, de um lado da palavra, o algoritmo valida, com o outro lado, aprende. Sente-se fintado?

Ajudámos o algoritmo, neste caso da Google, a converter milhões de livros e de manuscritos em versões digitais precisas através da nossa interpretação e conhecimento. Mais uma vez ninguém nos explicou antes e mais uma vez a nossa sede de informação foi maior do que o nosso sentido de proteção.

Os grandes fazem-se valer disso.

A IA está a secar
Destruir livros deveria ser um atentado ao património. Destruir livros antigos deveria ser um atentado à humanidade.

Todos sabemos que por questões de eficiência os modelos de aprendizagem da IA não guardam na íntegra toda a informação que vão apreendendo. Ou seja: um modelo de IA não guarda um livro inteiro palavra a palavra. Os modelos guardam a ideia, o conceito e, inevitavelmente, a interpretação deles. Se estas empresas não guardarem os livros na íntegra, o modelo treina-se e vai passando o treino - e não a versão original - de geração em geração do seu algoritmo, fazendo com que se perca a história na íntegra.

As grandes empresas de IA não estão a brincar com os treinos de modelos. Passaram anos a obter informação gratuita na internet. Apanharam jornais, livrarias, bibliotecas, empresas, influencers, redes sociais, enfim, todos nós distraídos, e deixaram os seus modelos a "varrer" literalmente a internet e a caçarem toda a informação que lhes era possível e que ainda por cima era gratuita. Essa foi a base dos modelos que conhecemos mas, e agora?

Depois da implementação da IA dos últimos anos, muitas dessas fontes começaram a ser bloqueadas a robots de IA. Muitos sites instalaram medidas de segurança e já não permitem que sejam abertos por algoritmos. Com isto, os modelos de IA cujo treino assentou em capturar a informação que os humanos já tinham criado e publicado, começam a não ter acesso à última parte da criação atualizada assim como não têm acesso à parte mais antiga da criação humana. Muito provavelmente alguns "robots" não conseguirão ler este mesmo artigo no site da CNN Portugal.

A parte antiga do conhecimento - os livros - estão a querer colmatar com a compra e digitalização de dos mesmos, a moderna ainda se vai ter de resolver mas, quando estivermos bem dependentes da IA, iremos sem pestanejar aceitar qualquer carta de "termos e condições" que lhes permita entrar no nosso computador e ver e até levar tudo o que lá tivermos. É o preço que nos impõem pela inclusão.

Singularidade tecnológica
É precisamente neste apagar da prova física que aceleramos o caminho para a singularidade. No final do dia pode haver uma luta real pelo conhecimento. Ou seja, se a IA absorver todo o conhecimento humano poderá vir a ser a guardiã da sabedoria, o que significa que não precisará dos humanos para aprender porque aprenderá sozinha com base no que já sabe e que é, no limite, tudo o que os humanos já sabem até hoje. Se por outro lado a IA não tiver acesso ao que de novo os humanos criam, tenderá a desligar-se dos humanos ou, em alternativa, a encontrar formas de "roubar" o que não consegue obter deles.

O fundador da OpenAI (Chat GPT) disse esta semana que chegámos perto do ponto da singularidade tecnológica. Ou seja, as máquinas ganham uma "mente" muito mais capaz do que a de qualquer ser humano ou, diga-se, que as máquinas ultrapassam a nossa inteligência.

A nossa sorte ou o nosso azar é mesmo o facto de mesmo estes gurus poderem estar errados. A inteligência não é algo que se possa medir sem contexto nem se garante com todo o conhecimento "scaneado". A inteligência mede-se com base no propósito, na medida em que inteligência é, no fundo, a capacidade de alcançar um propósito. Uma aranha pode ser mais inteligente do que um ser humano se for mais eficaz na forma como concilia os seus dados para alcançar o seu propósito. Quando dizemos que somos o ser mais inteligente à face da terra, não deixa de ser um erro ou mesmo uma audácia.

Se a aranha não tem o propósito de criar um sistema monetário, ou um sistema de saúde ou o que for, a sua inteligência pode extravasar de forma brutal o seu propósito, mas ser infinitamente diminuta para conseguir alcançar o nosso.

O mesmo se aplica à Inteligência Artificial: se o propósito da mesma não é igual ao nosso propósito, como poderemos sequer comparar ambas as inteligências e ainda por cima dizer qual é a maior? E fará sentido criarmos algo mais inteligente do que nós próprios e ainda por cima perdermos a referência integral das obras que fizeram de nós o que somos.

Mais ainda, se na cadeia de predadores a inteligência é sinónimo de topo- não pela dieta e pela biologia, mas pelas ferramentas e pela tecnologia - então acabámos, com todos os nossos livros e escritas, por construir o nosso único predador?

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Bohumil Hrabal - Uma Solidão Demasiado Ruidosa

Reler "Uma Solidão Demasiado Ruidosa", originalmente publicada em 1976 e reeditada com uma excelente tradução de Ludmila Dismanová, é recordar que trabalhar numa cave a prensar livros ensina uma lição rápida: o papel tem peso, cheiro e poeira, poesia, absurdo, tragédia, comédia, esforço intelectual. Esta obra não é uma história limpinha, estruturada com princípio, meio e fim para entreter a cabeça numa viagem de comboio. É o monólogo sufocante, poético e ligeiramente alcoólico de Haňta, um homem que passa trinta e cinco anos metido num buraco em Praga a desmarcar papel velho, refugos de tipografias e bibliotecas inteiras proibidas pelo regime. O interior do livro é um turbilhão onde a máquina não para, o barulho é infernal e a cerveja ajuda a suportar a sujidade e o mofo. Só que, ao longo de três décadas a destruir cultura, Haňta faz o oposto: bebe as palavras. Salva edições raras do monte de lixo, lê frases soltas de Kant, Spinoza, Hegel ou Lao-Tsé no meio de papéis ensanguentados do talho e guarda-as na cabeça, transformando a sua mente num arquivo vivo de tudo o que o poder quis apagar.
Esta narrativa é profundamente autobiográfica e reflete de forma direta o percurso e a filosofia do próprio Bohumil Hrabal. Doutorado em Direito pela Universidade Carolina de Praga, o autor foi impedido de exercer a profissão pela Segunda Guerra Mundial e pela subsequente ascensão do regime comunista. Remetido para a margem como intelectual indesejado, trabalhou como ferroviário, operário siderúrgico e, entre 1954 e 1958, como empacotador de papel na rua Spálená. Da sua rotina diária extraiu as descrições mecânicas da prensa e o ambiente da cave onde assistiu ao abate massivo de livros confiscados. Assim como a sua personagem, Hrabal tornou-se um "sábio involuntário", resgatando do lixo e devorando a grande literatura e filosofia ocidental.
A própria trajetória do livro espelha o contexto político em que o autor viveu. Após o fim da Primavera de Praga em 1968, Hrabal foi banido das edições oficiais, pelo que a obra teve de circular clandestinamente em edições samizdat - cópias dactilografadas em segredo - antes de ver a luz do dia no estrangeiro e, mais tarde, na Checoslováquia. O consumo de cerveja por parte de Haňta reflete também a vivência do escritor nas cervejarias de Praga, como a famosa U Zlatého tygra, onde aperfeiçoou o estilo pábení: uma narrativa fluida e sem pausas que cruza a filosofia erudita com a conversa banal de botequim. Reescrevendo o texto três vezes até atingir o tom lírico definitivo, Hrabal considerava este romance o cume da sua criação e o seu testamento vital, tendo chegado a confessar que tinha vindo ao mundo apenas para o escrever.

Porque é importante ler este romance?
Uma inteligência artificial pode cruzar milhões de dados para pintar um quadro no estilo de Rembrandt ou compor uma sinfonia ao modo de Beethoven, ou elaborar um texto camiliano em segundos mas esse processo é uma simulação estatística, desprovida de biografia, sofrimento ou necessidade de expressão. A arte humana não nasce num vácuo de dados, mas sim do conflito do artista com a sua própria mortalidade, com o contexto histórico e com as suas contradições internas. Quando a sociedade passa a valorizar a arte apenas pela velocidade de produção ou pela sua capacidade de gerar estímulos visuais rápidos, o público arrisca-se a consumir um subproduto industrializado e esteticamente homogéneo. O verdadeiro valor da pintura, da música, da literatura ou do cinema reside no facto de serem canais de comunhão entre duas consciências: quem cria deposita ali a sua mundividência, e quem observa reconstrói esse sentido através da sua própria experiência de vida. Proteger a arte na era digital significa, por isso, resgatar o direito ao erro, à imperfeição e à intencionalidade, elementos que nenhuma prensa ou algoritmo consegue programar.

sábado, 18 de julho de 2026

O reflexo de uma geração cobaia: a vida sob o império do algoritmo


O documentário The Guinea Pig Generation: Born Into the Algorithm propõe uma reflexão profunda e, por vezes, inquietante sobre a primeira geração da história que cresceu com um ecrã na mão e um algoritmo a ditar-lhe os passos. O cerne da obra reside na premissa de que os jovens nascidos na viragem do milénio funcionaram, sem o saberem, como cobaias humanas de uma gigantesca experiência sociológica e psicológica gerida pelas grandes empresas de Silicon Valley. Ao analisar o impacto das redes sociais e da inteligência artificial na saúde mental, na socialização e na perceção da realidade, o documentário expõe como estes jovens foram moldados por mecanismos concebidos para viciar, monetizar a atenção e polarizar o discurso público.

A narrativa sustenta-se através de um painel diversificado de entrevistados, que equilibra a perspetiva científica com os testemunhos na primeira pessoa. Entre as principais vozes contam-se psicólogos clínicos especializados em desenvolvimento juvenil, neurocientistas que explicam como os fluxos constantes de dopamina das notificações reconfiguram o cérebro adolescente, e ex-engenheiros e ex-designers das principais plataformas tecnológicas. Estes últimos assumem o papel de arrependidos, revelando os bastidores dos mecanismos de "scroll" infinito e as métricas de validação social que criaram. A par destes especialistas, o documentário dá voz aos próprios jovens da Geração Z - influenciadores digitais, ativistas e estudantes -, que partilham relatos francos sobre a ansiedade de performance, a dismorfia corporal alimentada por filtros e a sensação generalizada de solidão num mundo hiperconectado.

O funcionamento do algoritmo assenta num mecanismo invisível de radicalização que ajuda a explicar como um jovem perfeitamente integrado no mundo real, com uma vida social saudável e uma relação estável, pode adotar posturas políticas extremadas nas redes sociais. Este processo, que afeta profundamente a Geração Z em plataformas como o YouTube, o TikTok, o X ou o Discord, começa com o que a ciência chama de caça à atenção. O objetivo primordial destas tecnologias é manter o utilizador colado ao ecrã pelo maior tempo possível. Como os conteúdos equilibrados, moderados ou puramente históricos tendem a gerar menos retenção, os algoritmos priorizam publicações que despertem emoções fortes, como a indignação, o medo, a polémica ou o orgulho identitário, que disparam imediatamente os níveis de atenção e interação.

É a partir daqui que se ativa o funil de recomendação. Um jovem pode iniciar a sua navegação a ver conteúdos totalmente inofensivos sobre musculação, videojogos, humor ou análises simples à situação económica atual. Contudo, ao detetar esse interesse inicial, o sistema começa a sugerir, de forma gradual e impercetível, conteúdos progressivamente mais intensos dentro daquela esfera. No espaço de poucos meses, o feed de publicações afunila de tal maneira que passa a exibir quase exclusivamente canais de cariz nacionalista e de extrema-direita, fechando o utilizador numa bolha de filtragem isolada do resto do mundo.

O culminar deste processo é a ilusão de consenso. Uma vez preso nesta bolha digital, a totalidade das informações, vídeos e comentários que surgem no ecrã do jovem passa a validar e a reforçar essa visão específica do mundo. Para quem consome este fluxo contínuo, aquela bolha transforma-se na realidade nua e crua, gerando a forte convicção de que os factos ali apresentados constituem uma verdade oculta que a comunicação social tradicional, as escolas ou os próprios pais tentam deliberadamente esconder.
As ideologias nacionalistas e de extrema-direita oferecem algo muito sedutor para esta geração digital: respostas simples para problemas complexos, um sentido de pertença e certezas absolutas. Enquanto a realidade é cinzenta e cheia de nuances, o algoritmo vende uma narrativa de "nós contra eles", de orgulho e de proteção de uma identidade.

Para compreender o alcance desta obra, é fundamental definir quem é, afinal, a Geração Z. Geralmente compreendida como o grupo demográfico de indivíduos nascidos entre meados dos anos 90 e o início da década de 2010 (mais especificamente entre 1997 e 2012) esta é a primeira geração puramente nativa digital. Ao contrário dos Millennials, que ainda se lembram do mundo analógico e da transição para a internet, a Geração Z não conhece uma realidade sem Wi-Fi, smartphones ou redes sociais. Caracterizam-se por uma fluidez cultural notável, uma forte consciência social e ambiental, e uma capacidade inata de processar grandes volumes de informação visual em simultâneo. Contudo, esta mesma hiperconexão tornou-os estatisticamente mais propensos a crises de ansiedade, depressão e isolamento social, sendo os primeiros a herdar os efeitos secundários de uma infância mediada por algoritmos de recomendação que lucram com o tempo que passam agarrados ao ecrã. O documentário acaba por ser um espelho desta dualidade: o retrato de uma geração que possui o mundo na ponta dos dedos, mas que luta diariamente para não se perder no labirinto digital que lhe foi imposto.

Influenciadores digitais ecológicos (ou também chamados eco-influencers ou greenfluencers)
Em Portugal: figuras como a Catarina Barreiros (fundadora do projeto Do Zero, uma das vozes mais ouvidas e respeitadas na sustentabilidade em Portugal), Isabel Barros ou projetos partilhados como as Verdes Marias, mostram como é possível acumular dezenas de milhares de seguidores a falar exclusivamente de ecologia, escolhas conscientes e educação ambiental.  
A nível internacional: figuras pioneiras como Lauren Singer (do famoso blogue Trash is for Tossers, conhecida por colocar anos de lixo doméstico dentro de um único frasco de vidro) movimentam comunidades de centenas de milhares de pessoas globalmente.  

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Palestra
Algoritmos: potencial extraordinário ou risco existencial?

sexta-feira, 10 de julho de 2026

TikTok está farto do lixo gerado por IA e vai passar a apanhar quem publica



Se andas no TikTok, de certeza que já esbarraste neles: vídeos estranhos, meio absurdos, com vozes robóticas e imagens claramente feitas por inteligência artificial, publicados às dezenas por contas que não fazem mais nada. Pois a própria plataforma está farta e acaba de anunciar que vai começar a caçá-los.

O que o TikTok vai fazer em relação à IA
Esta sexta-feira, o TikTok anunciou que vai reforçar os sistemas de deteção para identificar contas dedicadas exclusivamente a publicar aquilo a que chama “spam gerado por IA”. Nas próximas semanas, a plataforma vai testar melhorias que apontam sobretudo às contas que despejam conteúdo automático sobre temas sensíveis.


TikTok está farto do lixo gerado por IA e vai passar a apanhar quem publica
E quais são esses temas? Precisamente os mais perigosos quando a informação é falsa ou de baixa qualidade: política, atualidade, saúde e conselhos financeiros. Ou seja, as áreas onde um vídeo enganador feito por IA pode fazer estragos reais, desde desinformação política a maus conselhos de dinheiro ou saúde.

Afinal, o que é o “AI slop”?
O fenómeno tem nome e tudo: chama-se “AI slop”, algo como “lixo de IA”. Descreve aquele conteúdo produzido em massa por inteligência artificial, de baixíssima qualidade e muitas vezes sem pés nem cabeça, cujo único objetivo é gerar visualizações a custo quase zero.

A lógica de quem faz isto é simples e cínica. Com ferramentas de IA generativa, uma pessoa consegue produzir dezenas de vídeos por dia sem esforço, atirá-los ao algoritmo e ver o que “cola”. O problema é que este dilúvio de conteúdo automático rouba visibilidade aos criadores reais. Aqueles que passam horas a fazer vídeos genuínos ficam soterrados por baixo da enxurrada de lixo.

Como o TikTok identifica uma conta “de spam”
Segundo a plataforma, uma conta entra na mira quando junta vários destes sinais: produz conteúdos de IA “de baixa qualidade e muito padronizados”, concentra-se em temas de alto risco que podem abalar a confiança pública, e detalhe revelador compra ou vende seguidores. É o retrato-robô da fábrica de conteúdo automático montada só para explorar o algoritmo.

O TikTok não deu pormenores técnicos sobre como vai detetar estas contas, o que é normal, revelar o método seria dar o mapa a quem tenta contorná-lo.

Não é só o TikTok
Vale a pena notar que isto não é um caso isolado. O TikTok anunciou também uma funcionalidade de denúncia automática de conteúdo gerado por IA. Entretanto não está sozinho nesta luta: outras redes, como o Pinterest, já estão a implementar medidas parecidas para filtrar o dilúvio de conteúdo artificial.

No fundo, estamos a assistir ao início de uma batalha que vai marcar os próximos anos: as redes sociais construíram-se a incentivar quem publica mais, e agora veem-se obrigadas a distinguir o que é feito por pessoas do que é cuspido por máquinas.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A Irlanda é o cão de colo das grandes tecnológicas - e isso compromete a sua presidência da União Europeia

Irlanda assume Presidência do Conselho da UE. Saiba mais aqui
Pode-se admirar um país outrora pequeno, pobre e não industrializado por ter ganho a "corrida ao fundo" e se ter tornado rico. Mas as consequências têm sido nefastas para a democracia, a competitividade e a segurança europeias - e, em particular, para as crianças.

À primeira vista, a Irlanda comporta-se como uma boa europeia, sendo uma firme defensora dos direitos humanos e um farol de progressismo na extremidade ocidental do continente. Mas há uma área vital onde o seu historial está longe de ser perfeito - uma área que deve suscitar preocupação depois de o governo irlandês assumir a presidência rotativa semestral da UE, a 1 de julho. O pacote de regras da UE para a tecnologia e a inteligência artificial será renegociado durante esse mesmo período, mas o Estado e a economia irlandeses foram capturados pelas grandes tecnológicas (big tech). A Irlanda está de tal forma comprometida que, enquanto presidente do Conselho da UE, deveria declarar-se impedida de participar em todas as negociações sobre tecnologia e soberania digital.

A última vez que a Irlanda deteve a presidência da UE foi em 2013, durante as negociações do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD). Um memorando do Facebook descreve uma reunião de 2013 na qual os executivos da empresa se reuniram com o então primeiro-ministro da Irlanda para se queixarem das regras propostas para a privacidade de dados. Saíram do encontro convictos de que tinham a garantia de Enda Kenny de que a Irlanda usaria a sua “influência significativa” como presidente do Conselho da UE para assegurar o que o Facebook apelidou de um “resultado positivo”. Os executivos também participaram num “jantar organizado por políticos irlandeses de topo para analisar as várias formas através das quais os irlandeses poderiam ser prestáveis”.

Os 27 Estados-membros da UE alternam entre si a liderança da presidência. O país incumbente preside às reuniões e, na prática, controla o ritmo das negociações da legislação europeia. Pode prioritizar certos temas e deixar deslizar outros. Por exemplo, Chipre, um país pequeno e vulnerável numa região volátil, conseguiu utilizar a sua presidência, de janeiro a junho deste ano, para colocar os compromissos de defesa mútua na agenda europeia.

Atraídos por benefícios fiscais e por uma cultura de complacência cordial, gigantes como a Google, Meta, Apple, Microsoft, OpenAI, TikTok e X estabeleceram todos as suas sedes europeias na Irlanda. O princípio do “país de origem” da UE determina que o país que acolhe a sede europeia de uma empresa é o responsável por regulá-la em toda a UE. Esta particularidade jurídica transformou a Comissão de Proteção de Dados (DPC) da Irlanda no principal regulador da Europa para o setor tecnológico: a Irlanda pressionou para que assim fosse enquanto presidente do Conselho, em 2013.

Os efeitos deste arranjo são avassaladores. A presidente da DPC admitiu recentemente que, à exceção de “resoluções amigáveis” sobre questões triviais, a Irlanda não concluiu um único inquérito europeu à Google ou a qualquer uma das suas subsidiárias nos dez anos decorridos desde a promulgação do RGPD. As proteções à escala europeia estão paralisadas porque todos os outros Estados-membros têm de esperar que a Irlanda aja numa resposta conjunta da UE.

Quando a DPC aplicou sanções contra empresas tecnológicas, fê-lo de forma deficiente e sob coação de outros reguladores europeus. Agiu, de facto, com uma celeridade invulgar num caso específico, contra a IA Grok de Elon Musk, mas aceitou depois um acordo que parece ter colapsado. O regulador dos média da Irlanda, Coimisiún na Meán, goza de melhor reputação, mas dispõe de poderes muito mais fracos. Há já uma década que a Irlanda mantém aberta a porta dos fundos da regulação, permitindo que gigantescas empresas norte-americanas e chinesas operem com impunidade por toda a Europa. Tornou-se não apenas um paraíso fiscal, mas um paraíso regulatório.

A dependência económica é gritante. Três empresas norte-americanas foram responsáveis por quase metade das receitas fiscais sobre as sociedades na Irlanda em 2024. Em 2022, a Irlanda arrecadou quase cinco vezes mais impostos sobre as sociedades por habitante do que a França ou a Alemanha. Pode-se admirar um país outrora pequeno, pobre e não industrializado por ter ganho a "corrida ao fundo" e se ter tornado rico. Mas as consequências têm sido nefastas para a democracia, a competitividade e a segurança europeias - e, em particular, para as crianças.

O filme de 2026 “Molly vs. the Machines” conta a história de como os algoritmos das redes sociais empurraram conteúdos suicidas para o feed de Molly Russell, de 14 anos, que pôs fim à própria vida em 2017. Há e haverá mais Mollys por toda a Europa, a menos que a Irlanda comece a aplicar as regras de dados da UE que exigem que os “algoritmos de recomendação” sejam desativados por defeito, dado que se alimentam de dados particularmente íntimos.

A Irlanda pode já nem sequer estar a tentar manter as aparências. A mais recente comissária de proteção de dados do país, Niamh Sweeney, foi anteriormente a principal lobista da Meta na Irlanda durante o escândalo da Cambridge Analytica e o período sombrio marcado pelas revelações da denunciante Frances Haugen. O processo do governo irlandês para recrutar Sweeney foi absurdo: o único especialista em tecnologia no júri de seleção era um advogado das grandes tecnológicas. Os critérios de seleção focaram-se em competências genéricas, como a “gestão de relacionamentos”, em vez de tentar contratar um fiscal capaz de investigar as empresas tecnologicamente mais sofisticadas do mundo. Ninguém verificou, durante o processo de contratação, se a candidata indigitada estava vinculada à notória prática da Meta de proibir ex-funcionários de a criticarem - o que amordaçou de forma tão absoluta a antiga executiva e denunciante da Meta, Sarah Wynn-Williams. A Irlanda dota a DPC de dezenas de milhões de euros para operar, mas lobotomiza-a.

E as portas giratórias continuam a rodar: a anterior comissária de proteção de dados, Helen Dixon, acaba de começar a trabalhar para a sociedade de advogados da Meta. A firma continua a deparar-se com vários casos em aberto da Meta contra a DPC. Sob a liderança de Dixon, a DPC processou outras autoridades de dados europeias no mais alto tribunal da UE, porque estas tinham votado no sentido de obrigar a DPC a investigar a utilização que a Meta faz dos dados mais íntimos dos cidadãos. Embora o caso tenha sido rejeitado, a ação de Dixon concedeu à Meta uma trégua de um ano antes sequer de a investigação ter início.

No livro “Careless People”, de Wynn-Williams, a autora articula a visão que a Meta tem da DPC como um “cão de colo”. Isto espelha de forma inquietante a hesitação e a deferência do regulador financeiro irlandês face aos bancos do país nos anos que antecederam a crise bancária de 2008. No início deste mês, a ministra dos Negócios Estrangeiros da Irlanda publicou na sua página do LinkedIn uma fotografia onde posava com uma lobista da Meta. “Excelente reunião ontem com a Meta para discutir prioridades para a próxima presidência europeia da Irlanda”, dizia a legenda, acompanhada de vários pontos de argumentação do memorando da Meta de 2013 que, em 2026, parecem ter-se tornado política oficial do governo irlandês.

A Irlanda é inclusivamente acusada de “bloquear” a instauração de ações populares contra empresas tecnológicas em nome de crianças, ao proibir o financiamento comercial destas ações, embora permita tal financiamento para arbitragens comerciais. De acordo com a sondagem do Eurobarómetro da UE deste mês, 92% dos europeus querem que a UE garanta uma melhor proteção online para os seus filhos. A Irlanda não irá assegurar essa proteção a menos que outros governos da UE comecem a exigi-la de forma insistente. Durante quanto mais tempo irão os líderes europeus tolerar que a Irlanda venda a saúde mental das crianças dos seus países?

Houve um tempo em que a Europa parecia ser a resposta do mundo contra os piores excessos das grandes tecnológicas. A Irlanda sabotou esse sonho a troco de uma recompensa massiva. Se o país não se afastar espontaneamente de todas as discussões tecnológicas durante a sua presidência de seis meses, então Berlim, Paris, Varsóvia, Madrid e Bruxelas deverão exercer sobre a Irlanda o mesmo tipo de pressão que alguns exerceram após a crise bancária. O que foi injusto na altura seria inteiramente justo desta vez.

Saber mais:

segunda-feira, 29 de junho de 2026

E se o "Fascismo Eterno" de Umberto Eco, tivesse encontrado a ferramenta perfeita na Inteligência Artificial?

O custo da IA não é apenas ecológico; é cultural e político. Convoco os meus amigos à leitura desta minha reflexão profunda sobre o mundo que estamos a construir e a leitura que nos pode salvar do fascismo eterno.

𝐏𝐨𝐧𝐭𝐨 𝐩𝐫𝐞́𝐯𝐢𝐨
Atualmente, o grande desafio é o crescimento exponencial da Inteligência Artificial - um campo que nasceu em meados do século XX, mas que hoje atinge proporções sem precedentes. Os chips de IA, como os GPUs, consomem muito mais energia do que os servidores tradicionais. Este aumento súbito na procura de eletricidade está a pressionar as redes elétricas e, em algumas regiões, a obrigar ao prolongamento da atividade de centrais a gás ou carvão, dificultando as metas de descarbonização.

Para além da eletricidade, a corrida aos minerais raros para construir estes componentes tornou-se insuportável e insustentável. É neste cenário - um mundo polarizado, minado por fraudes e mergulhado numa nova era tecnológica quase imposta - que os algoritmos disparam em todas as direções, perpetuando vieses políticos e alimentando bolhas ideológicas para maximizar o lucro. É assim que o tecnofascismo e o carbofascismo se impõem numa era tecnológica quase imposta. A verdade é que não estamos preparados. Explico porquê no segundo texto.

𝐒𝐞𝐠𝐮𝐧𝐝𝐨 𝐩𝐨𝐧𝐭𝐨 - 𝐀 𝐩𝐨𝐧𝐭𝐞 𝐞𝐧𝐭𝐫𝐞 𝐚 𝐨𝐛𝐫𝐚 𝐝𝐞 𝐔𝐦𝐛𝐞𝐫𝐭𝐨 𝐄𝐜𝐨 𝐞 𝐚 𝐞𝐫𝐚 𝐝𝐢𝐠𝐢𝐭𝐚𝐥: 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐧𝐨𝐬 𝐝𝐞𝐟𝐞𝐧𝐝𝐞𝐫𝐦𝐨𝐬?

O Fascismo Eterno, obra em que Umberto Eco analisa as estruturas mentais e socioculturais do autoritarismo, ganha uma relevância alarmante quando confrontado com a atual e acelerada evolução da Inteligência Artificial. Embora o ensaio tenha sido escrito na década de 1990, muito antes da explosão dos modelos generativos e dos algoritmos avançados, as catorze características do Ur-Fascismo identificadas pelo filósofo italiano servem como um aviso severo sobre os impactos culturais e políticos da automação tecnológica no comportamento humano.

A primeira grande interseção reside no conceito de novilíngua. Eco alertava que o fascismo eterno recorre a um vocabulário empobrecido e a uma sintaxe elementar para limitar o raciocínio complexo e eliminar o pensamento crítico. Ao transferirmos a produção de textos, discursos e comunicações diárias para sistemas de IA, corremos o risco de padronizar a linguagem de forma global. Estes modelos tendem a gerar respostas estatisticamente previsíveis e polidas, o que pode esvaziar a riqueza linguística, a ironia e a profundidade do debate público, pavimentando o caminho para uma sociedade que aceita mais facilmente narrativas simplistas e polarizadas.

Além disso, o culto da ação pela ação e o consequente desprezo pela reflexão intelectual encontram um terreno fértil na busca cega pela produtividade algorítmica. A pressa em obter resultados imediatos através de prompts substitui muitas vezes o processo humano de pesquisa profunda, erro e ponderação. Quando o ato de pensar é delegado à máquina em nome da eficiência, a capacidade da sociedade para exercer a dúvida filosófica e a contestação - defesas vitais contra regimes autoritários - acaba por atrofiar.

Outro ponto crítico é a obsessão pelo complô e a criação de inimigos imaginários, dinâmicas que alimentam o ecossistema fascista. Atualmente, a Inteligência Artificial é utilizada para potenciar bolhas de radicalização através de algoritmos de recomendação baseados no envolvimento pela indignação e, ironicamente, maximizando o lucro dos plutocratas . A capacidade de gerar desinformação em massa, clones de voz e deepfakes de forma automatizada e barata permite que atores maliciosos criem conspirações personalizadas para diferentes franjas da população, fraturando o tecido social à escala industrial.

Por fim, o populismo qualitativo, onde o líder se assume como a encarnação da vontade de uma massa homogénea, ganha contornos de precisão cirúrgica com o uso de dados processados por IA. A análise automatizada do sentimento das redes sociais permite moldar discursos políticos que não convidam ao debate, mas que ecoam de forma artificial os medos e preconceitos do eleitorado. Assim, o maior perigo não reside numa revolta das máquinas contra a humanidade, mas sim na possibilidade de a IA ser utilizada para automatizar e perpetuar os hábitos mentais mais primitivos e intolerantes que Umberto Eco nos instou a combater.

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segunda-feira, 22 de junho de 2026

O efeito de ilha de calor de dados: quantificação do impacto dos centros de dados de IA num mundo em aquecimento.



O "Efeito de Ilha de Calor de Dados" (Data Heat Island Effect) refere-se ao aumento localizado na temperatura da superfície terrestre causado pela dissipação massiva de calor dos centros de dados voltados para Inteligência Artificial (IA). Um estudo pioneiro liderado por investigadores da Universidade de Cambridge e da Universidade Tecnológica de Nanyang quantificou globalmente este impacto, demonstrando que estas instalações alteram os microclimas à sua volta. [1, 2, 3]
Abaixo estruturam-se as principais conclusões e métricas avançadas pela investigação. [1, 2]

Métricas de impacto térmico
O estudo analisou dados de satélite da NASA recolhidos entre 2004 e 2024, cobrindo mais de 6.000 localizações fora de áreas densamente urbanizadas para isolar o efeito das infraestruturas de dados: [1, 2, 3]
  • Aumento médio: a temperatura da superfície da terra aumenta 2°C em média após o início das operações de um centro de dados de IA. [1]
  • Casos extremos: foram registados picos de aquecimento extremo de até 9,1°C na proximidade imediata de algumas infraestruturas. [1]
  • Raio de influência: o efeito térmico propaga-se através do espaço, sendo detetável a uma distância de até 10 quilómetros da instalação. [1]
  • Degradação da intensidade: a intensidade do calor gerado reduz-se para cerca de 30% quando atinge um raio de 7 km de distância. [1]
Dinâmica e Causas do Fenómeno
Os centros de dados focados em modelos de IA operam com milhares de unidades de processamento gráfico (GPUs) de alto desempenho a funcionar continuamente sob cargas de trabalho extremas. Esta arquitetura gera duas fontes principais de perturbação térmica: 
  • Exaustão direta [1]: Os sistemas de refrigeração industrial extraem calor do interior dos edifícios, expelindo massivamente ar quente e vapor de água para a atmosfera circundante. [1, 2]
  • Pegada da construção: As próprias características físicas do complexo (grandes telhados, superfícies de asfalto e betão) absorvem a radiação solar e criam um efeito semelhante ao das ilhas de calor urbanas tradicionais. [1, 2, 3]
Populações e regiões afetadas
Estima-se que mais de 340 milhões de pessoas vivam em zonas sob o raio de influência térmica destas instalações a nível global. Os investigadores apontaram que anomalias de temperatura anteriormente difíceis de justificar coincidem diretamente com a expansão de grandes polos de dados em regiões como: 
  • Aragão (Espanha)[1]
  • Bajío (México)
  • Teresina, Piauí (Nordeste do Brasil) [1, 2]
Caminhos para Mitigação
Para conter o aparecimento destas zonas microclimáticas sem travar a inovação tecnológica, o ecossistema aponta soluções em duas vertentes principais: 
  • Otimização de hardware e refrigeração[1, 2]: integração de tecnologias de refrigeração líquida avançada de ciclo fechado e reaproveitamento do calor residual para sistemas de aquecimento residencial local ou processos industriais. [1, 2, 3, 4]
  • Eficiência de software: desenvolvimento de algoritmos e modelos de IA estruturalmente focados em eficiência energética e sustentabilidade desde a sua conceção, reduzindo o esforço computacional bruto. [1]
A notícia já tinha sido avançada aqui

domingo, 31 de maio de 2026

Movies that completely changed my Life (and why you should watch them)

We’ve all experienced that unique magic: the lights dim, the screen glows, and for the next two hours, you are completely transported. But every now and then, a movie does something deeper. It doesn't just entertain you for an evening; it fractures your worldview, shifts your priorities, and stays with you long after the credits roll.

These are the ten films that fundamentally changed how I view the world—and why they deserve a spot on your watch list tonight.

1. Dead Poets Society (1989)

The Lesson: Carpe Diem is easy to say, but terrifying to live.

On the surface, this is a movie about an unconventional English teacher at a strict boarding school. But beneath that, it is a masterclass in existential courage.

  • How it changed me: It forced me to confront the reality of my choices. Am I living the life expected of me, or the life I actually want? It taught me that "sucking the marrow out of life" requires shaking off conformity, standing on your desk, and daring to find your own voice.

  • Why you should watch it: If you feel stuck in a routine or find yourself living to satisfy other people’s expectations, this film is the gentle, poetic wake-up call you need.

2. The Truman Show (1998)

The Lesson: We accept the reality of the world with which we're presented.

Jim Carrey plays Truman Burbank, a man who has no idea his entire life is a 24/7 reality TV show broadcast to the entire planet.

  • How it changed me: It made me hyper-aware of the invisible scripts we follow in society. Truman's journey isn't just about escaping a literal television set; it’s a metaphor for breaking free from the comfort zones, biases, and artificial structures that keep us safe but completely unfulfilled.

  • Why you should watch it: In an era dominated by social media algorithms and curated feeds, The Truman Show feels more relevant than ever. It forces you to look at your own "set" and ask: If I walked to the edge of my world, would I have the courage to open the door and leave?

3. Arrival (2016)

The Lesson: If you knew how your story would end, would you still live it?

When mysterious spacecraft touch down across the globe, a linguistics professor named Louise Banks is recruited to communicate with the extraterrestrial visitors. As she learns their non-linear language, her perception of time and memory begins to change.

  • How it changed me: Without spoiling the ending, this movie completely rewired how I look at grief, love, and time. It taught me that the beauty of life doesn't lie in a happy ending, but in the willingness to embrace the journey fully - sorrow and all. It’s a profound shift from asking "Why me?" to saying "Yes to life."

  • Why you should watch it: This isn't your typical alien invasion action flick. It is a deeply philosophical, quiet sci-fi masterpiece that will leave you staring at the ceiling for hours after it ends, rethinking every relationship in your life.

4. Billy Elliot (2000)

The Lesson: Passion is not a choice; it’s a necessity.

Set during the grueling 1984–1985 UK miners' strike, the film follows an 11-year-old working-class boy who trades his boxing gloves for ballet shoes, facing fierce opposition from his family and community.

  • How it changed me: It completely redefined my understanding of resilience and identity. Watching Billy turn his frustration, anger, and isolation into explosive, raw choreography taught me that art is not just a hobby—it is a vital survival mechanism. It made me realize that staying true to who you are often requires fighting the very environments meant to shape you.

  • Why you should watch it: If you have ever felt like an outsider in your own world, or if you're struggling to defend a dream that others find foolish, Billy Elliot is an emotional powerhouse. It will make you laugh, cry, and want to dance through the streets.


5. Apocalypse Now (1979)

The Lesson: The thin veneer of civilization is easily stripped away away from societal control.

Francis Ford Coppola's Vietnam War epic follows Captain Willard on a secret mission down a river into Cambodia to assassinate a rogue Green Beret Colonel, Walter E. Kurtz, who has gone insane and set himself up as a god to a local tribe.

  • How it changed me: It forced me to look into the darkest corners of human nature. It's not just a movie about war; it is a psychological descent into darkness. It made me realize how fragile our moral compasses really are when separated from social rules. Kurtz isn't just a villain—he is a reflection of what happens when a man stares too long into the hypocrisy of civilization and completely breaks.

  • Why you should watch it: If you want a cinematic experience that challenges your understanding of morality, sanity, and the dual nature of man (good vs. evil), this hallucinatory masterpiece is mandatory. It is heavy, surreal, and unforgettable.

6. Breaking the Waves (1996)

The Lesson: True love and faith often look like madness to the rest of the world.

Set in a deeply religious and isolated Scottish community, Lars von Trier's masterpiece follows Bess, a naive young woman who marries an oil rig worker, Jan. After an accident paralyzes Jan, he convinces Bess that she can keep him alive and heal him by sleeping with other men and telling him the stories.

  • How it changed me: It shattered my conventional views on morality and altruism. Lars von Trier strips away all Hollywood sentimentality to ask a brutal question: what does absolute, unconditional sacrifice actually look like? It taught me that genuine grace and faith are rarely neat or socially acceptable; often, they are messy, deeply misunderstood, and painful.

  • Why you should watch it: This is raw, emotionally demanding cinema at its finest. Driven by a devastating, career-defining performance by Emily Watson, it is a haunting exploration of psychological isolation, religious rigidity, and spiritual transcendence that you will never forget.

7. Paris, Texas (1984)

The Lesson: You cannot rebuild a broken past just by showing up; some distances are internal.

A mute, disheveled man named Travis wanders out of the desert after being missing for four years. Reconnecting with his brother and the young son he abandoned, Travis gradually begins a quiet, agonizing search across Texas to find his missing wife, Jane, trying to patch together the ruins of his former life.

  • How it changed me: It completely redefined how I perceive emotional estrangement, forgiveness, and love. Travis trying to learn how to be a father again through old home movies broke my heart. The famous peep-show conversation between Travis and Jane through a one-way mirror taught me that sometimes, the only true act of love left is knowing when to let go and disappear back into the landscape.

  • Why you should watch it: Anchored by Robby Müller’s gorgeous, neon-soaked cinematography and Ry Cooder’s haunting slide guitar soundtrack, it is a masterpiece of slow-burn emotional devastation. If you’ve ever loved someone deeply but realized your own brokenness stood in the way, this movie will speak directly to your soul.

8. Until the End of the World (1991)


The Lesson: The most dangerous journey is the one we take into our own obsession.

Wim Wenders' ultimate road movie follows a woman tracking a mysterious man carrying a device that records visual data directly from the human brain, allowing the blind to see—and users to view their own dreams. The pursuit spans nine countries, ending in the Australian outback right as a global nuclear crisis threatens to break society apart.

  • How it changed me: It was a prophetic warning about the digital age that completely shifted my relationship with technology. Long before smartphones existed, Wenders showed characters becoming hopelessly addicted to viewing their own subconscious memories on handheld screens, ignoring the real world around them. It made me realize that the "end of the world" isn't always a physical apocalypse; sometimes it is the moment we stop looking each other in the eye and retreat completely into our personal digital loops.

  • Why you should watch it: It is a sweeping, visually mesmerizing epic with one of the greatest rock soundtracks in cinema history. Watch the Director's Cut if you can; it is an unmatched philosophical exploration of global wanderlust, the power of images, and human connection at the edge of existence.

9. Holy Motors (2012)

The Lesson: We are all exhausting ourselves playing roles for an audience that might not even exist.

Over the course of a single day, we follow Monsieur Oscar, a mysterious man who travels through the streets of Paris in a white stretch limousine. Guided by his driver, Celine, he transitions between 11 different "appointments," completely transforming his appearance each time to play different characters: a beggar, a dying old man, a motion-capture stuntman, and a monstrous creature.

  • How it changed me: It completely redefined my view on modern identity. Carax uses this surreal journey as a brilliant metaphor for social existence. In life, just like Oscar, we shift masks continuously—from professional colleague to digital persona, to caregiver, to lover. It taught me that the great modern tragedy isn't that we play roles, but the exhaustion that comes from doing it when the "invisible cameras" have stopped rolling and we no longer know who we are underneath.

  • Why you should watch it: It is a wildly original, anarchic, and gorgeous fever dream. Driven by Denis Lavant's staggering physical performance and featuring an unforgettable accordion intermission, it challenges everything you think you know about traditional narrative storytelling.

10. Stalker (1979)

The Lesson: The hardest place to look is into the center of your own desires.

In a dystopian wasteland, a guide known as a "Stalker" leads a melancholy Writer and a cynical Professor into "The Zone"—a dangerous, post-apocalyptic region sealed off by the government. At the heart of the Zone lies a legendary room that is rumored to grant the deepest, most subconscious desires of anyone who steps inside.

  • How it changed me: It completely shifted my understanding of what a movie can achieve. Tarkovsky doesn't use Hollywood special effects; instead, he uses rain, damp soil, rusty metal, and time itself to create an atmosphere of immense spirituality. It taught me a terrifying but beautiful truth about human nature: we often think we know what we want, but if our truest, most hidden subconscious desires were suddenly granted, they might reveal us to be monsters or cowards. It made me realize that faith and self-reflection are not comforting answers, but exhausting, ongoing psychological journeys.

  • Why you should watch it: Stalker is not a film you simply watch—it is an experience that you absorb like a meditation. If you are willing to slow down your breathing, accept its mesmerizing rhythm, and let its philosophical poetry sink in, it will permanently change the way you look at a cinema screen and your own soul.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

DeepMind prevê chegada da AGI até 2029 e diz que a sociedade não está pronta para o avanço


O diretor-executivo da Google DeepMind, Demis Hassabis, afirmou que a Inteligência Artificial Geral (AGI, na sigla em inglês) pode tornar-se realidade até 2029 e alertou que governos, empresas e a sociedade ainda não estão preparados para lidar com a velocidade do avanço da tecnologia. Segundo o próprio, os sistemas atuais de inteligência artificial (IA) já demonstram sinais de capacidades mais amplas e autónomas, num movimento que pode acelerar antes do esperado.

As declarações foram feitas após a conferência anual de desenvolvedores da Google. Hassabis afirmou que os recentes avanços em agentes de IA e sistemas autónomos reforçaram a perceção, dentro da indústria, de que a AGI poderá surgir antes do fim desta década. O executivo ainda considera 2030 como uma estimativa provável, mas disse que 2029 já é um cenário “realista” e que o desenvolvimento pode acontecer a um ritmo ainda mais acelerado.

A AGI é descrita pelo setor como uma forma de IA capaz de igualar ou superar o desempenho humano em diferentes tarefas cognitivas. Para Hassabis, as melhorias observadas nas ferramentas de IA ao longo do último ano não são avanços isolados, mas sim evidências de que a indústria finalmente encontrou um caminho técnico viável para construir sistemas mais sofisticados.

O executivo afirmou que a chamada “era dos agentes” deve ser vista como um primeiro teste de stresse para a sociedade. Esses sistemas conseguem executar tarefas de maneira mais independente, realizando atividades ligadas à programação, produtividade e automação. Segundo Hassabis, os agentes atuais representam apenas uma antevisão do impacto que os futuros sistemas poderão causar quando tiverem capacidades mais avançadas de raciocínio, planeamento e investigação.

Hassabis também afirmou que o ritmo da evolução da IA já apanhou empresas e governos de surpresa. O responsável citou exemplos recentes que envolvem modelos avançados de empresas concorrentes, como a Anthropic, para argumentar que até os especialistas do setor têm sido surpreendidos pela velocidade dos avanços.

Segundo ele, ainda existe uma pequena janela de oportunidade para que a sociedade se prepare para sistemas cada vez mais poderosos, mas essa margem pode diminuir rapidamente nos próximos anos. Diante disso, o executivo reforçou a necessidade de uma ação célere por parte dos governos no que toca à segurança e regulamentação da IA.

Em termos práticos, o que Demis Hassabis quis dizer resume-se ao facto de que a IA superinteligente está quase a chegar. A Inteligência Artificial Geral, aquela que consegue fazer qualquer tarefa intelectual tão bem ou melhor do que um ser humano, pode estar pronta já em 2029, muito antes do que a maioria das pessoas imaginava há uns anos. Além disso, o caminho técnico já foi descoberto. Os avanços recentes, como os agentes que trabalham de forma autónoma, mostram que a indústria já não está a adivinhar e que os cientistas já encontraram a fórmula técnica certa para criar esta superinteligência. No entanto, o mundo não está preparado para esta realidade. O avanço está a ser tão rápido que os governos, as empresas e as leis não estão a conseguir acompanhar o ritmo. Hassabis deixa, por isso, um alerta claro de que temos uma janela de tempo muito curta para criar regras e garantir que a tecnologia é segura antes que ela nos ultrapasse. Em suma, a revolução da IA vai acelerar a um ritmo avassalador e a sociedade precisa de se preparar com urgência.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Noruega destaca-se como “o país europeu que mais portugueses expulsou” em 2025?


Não. Em 2023, o Polígrafo já tinha verificado um post onde era visível um artigo do “Público”, ilustrado com os retratos de oito indivíduos negros, que supostamente teriam sido expulsos da Noruega. A notícia, apesar de verdadeira, não tem qualquer relação com a imagem utilizada. Agora, repete-se a alegação, completamente desprovida de contexto.

O artigo foi publicado em 2022 e, consequentemente, diz respeito a 2021. Nesse ano, dos 370 portugueses deportados, 276 (74%) foram realmente expulsos de países europeus, sendo que, de acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2021, 95 desses foram obrigados a abandonar a Noruega, mais do que qualquer outro país. As autoridades norueguesas especificaram ainda que o número não só engloba expulsões, como também recusas de entrada e permanência.

A estatística, no entanto, volta a ser partilhada em 2026, referindo-se assim ao ano de 2025. Ora, o RASI de 2025 aponta para um total de 352 portugueses que receberam ordens de saída em todo o mundo, dos quais 219 foram afastados de países na Europa. Ao contrário do registado em anos anteriores, a Noruega não consta sequer dos países referidos neste contexto.

Tal como mencionado, as fotografias que acompanham o post não mostram portugueses afastados de qualquer país. Na realidade, são retratos de criminosos detidos em 2017 por tráfico de droga em Londres. De facto, alguns dos homens detidos têm nomes em língua portuguesa, como Bruno da Silva, Evanildo Gomes ou José Mário Sá. Porém, nenhuma das penas aplicadas consistiu na expulsão de qualquer um dos condenados, cujas penas variaram entre nove meses e quatro anos de prisão.

Em conclusão: os números indicados na publicação estão desatualizados e, no último ano (2025), a Noruega não foi o país europeu que mais portugueses deportou; as imagens não correspondem a indivíduos de nacionalidade portuguesa, nem a indivíduos deportados da Noruega. Duas falsidades numa mesma publicação.