“O que eu sei é que, se queremos manter as nossas sociedades seguras... veja bem, se não fizermos isso, se não chegarmos aos 5%, incluindo os 3,5% destinados a despesas essenciais com a defesa, ainda poderemos ter o National Health Service, ou, noutros países, os seus sistemas de saúde, o sistema de pensões, etc., mas é melhor aprender a falar russo”, disse o secretário geral da NATO, Mark Rutte.
De forma ridícula chutam para debaixo do tapete a sabotagem americana do NordStream, facto que os EUA anunciaram antecipadamente e do qual, repetidamente, se gabam.
Permitem, sem tugir nem mugir, que cidadãos europeus, eurodeputada incluída, sejam maltratados.
Dizem-nos que as sanções que aplicaram aos russos, que teriam sido obrigados a pilhar chips das máquinas de lavar e dos frigoríficos ucranianos, os colocaram de joelhos.
E agora, finalmente, dizem-nos que, embora podendo e devendo aldrabar a contabilidade pública para mascarar despesas com a guerra e agradar a quem as impõe, ainda assim, temos de trocar os nossos serviços públicos de saúde, cada vez menos grátis e universais, e as nossas pensões pela possibilidade de resistir aos tais russos que estavam de joelhos.
E, numa União Europeia que proscreve liminarmente toda e qualquer política económica minimamente keynesiana que seja, ainda nos dizem que foi o socialismo que nos trouxe aqui.
E, à esquerda, aquela que participa diretamente do extremo-centro que aqui nos trouxe, mas não só, enredados com a fidelidade à ideia de uma UE que não existe e se tornou parte do problema e incapazes de reconhecer que erraram quando não condenaram o cerco da NATO à Rússia, ainda há quem tenha a coragem de defender que é mesmo necessário embarcar nesta óbvia loucura destrutiva que é a corrida armamentista imposta pelos idiotas celerados que puxam os cordelinhos na plutocracia americana e na burocracia vassala e desprovida de qualquer sentido moral e estratégico que desgoverna a irreformável UE.
Pessoalmente não vejo outro caminho: estarei com aqueles que este sistema colocou de fora, contra a guerra, contra o capitalismo que a impõe, interpelando os que decidem não ver.
Robert Skidelsky é membro da Câmara dos Lordes britânica, Professor Emérito de Economia Política na Universidade de Warwick e autor de uma biografia premiada em três volumes de John Maynard Keynes. Ele começou a sua carreira política no Partido Trabalhista, foi membro fundador do Partido Social Democrata e actuou como porta-voz do Partido Conservador para assuntos do Tesouro na Câmara dos Lordes até ser demitido por sua oposição ao bombardeio da NATO em Kosovo em 1999. Desde 2001, ele actua na Câmara dos Lordes como independente.
«O historiador Thomas Frank tem, na edição dos seus livros em francês, duas obras traduzidas com títulos provocadores. Uma sobre a razão por que os pobres votariam na direita e a outra sobre os motivos por que os ricos passaram a votar à esquerda. Nestes textos, muito baseados na situação dos EUA, relata-se o abandono das classes populares por parte dos partidos da esquerda moderada em troca de agendas menos ligadas aos direitos sociais e mais conectadas com os direitos individuais e as múltiplas agendas identitárias.
Num estudo coordenado por Thomas Piketty sobre a relação entre as desigualdades sociais e os resultados eleitorais em 50 países “democráticos” (Clivagens Políticas e Desigualdades Sociais) verifica-se que há em muitos países desenvolvidos uma evolução: antigamente, as classes trabalhadoras tendiam a votar à esquerda e os patrões, ricos e licenciados à direita. Hoje, verifica-se que os licenciados votam à esquerda e que parte das classes trabalhadoras já não vota, ou não o faz à esquerda. Isso coincidiria com várias circunstâncias: o abandono por parte da esquerda do terreno popular e da defesa das classes trabalhadoras e a passagem de reivindicações “materiais” para “pós-materiais”, enquanto se multiplicam novas lutas de caráter identitário que tornam invisível o conflito de classes. Como alguém dizia, “a classe social não foi morta, ela foi enterrada viva”.
Obviamente que é necessário fazer uma política que tenha em conta as identidades, mas isso não significa reduzir a política a uma soma de identidades cada vez mais próxima da individualidade.
Este processo de individualização e perda de referentes coletivos tem a ver com uma alteração da realidade económica e social: a desindustrialização do mundo desenvolvido, a criação de empregos por plataformas, em que dezenas de milhares de pessoas, a fazer a mesma coisa, parecem todas isoladas, em que todos têm laços cada vez menos estáveis, em que há uma certa liquidificação da sociedade.
Mas tudo isto também foi fruto de uma vitória ideológica. Num célebre artigo em 1939, Friedrich Hayek defende que se deveria entregar a condução da política monetária a uma organização supranacional. Propõe a criação de instituições supranacionais como forma de, na prática, retirar ao controlo democrático o funcionamento da economia.
Na altura, esta vontade era amplamente minoritária mesmo no seio da social-democracia e da direita moderada, em que o pensamento keynesiano era dominante. Mas até aos anos 70 os pensadores neoliberais e as classes proprietárias, interessadas em reduzir a força dos sindicatos e dos trabalhadores na distribuição do rendimento, construíram uma nova hegemonia. Como afirmava um dos seus defensores mais conhecidos, Milton Friedman, fizeram com que o politicamente impossível se tornasse o politicamente inevitável.
Este processo de dissociação total entre economia e democracia, através da globalização e da integração europeia, da democracia e da economia, provocou, desde o final dos anos 70, um lento apodrecer das instituições democráticas e uma ideia de impotência da democracia para resolver os problemas das pessoas. Independentemente de em quem votem, as decisões económicas são sempre as mesmas e servem, preferencialmente, determinadas elites políticas e económicas.
Perante este vazio, numa sociedade cada vez mais deslaçada em que impera o isolamento e a insegurança em relação ao futuro - as novas gerações vão viver pior do que as anteriores -, o populismo de extrema-direita veio tentar ocupar o vazio através de um redesenhar do território da política.
De um lado, teríamos as supostas elites, todas confundidas e misturadas, políticos e intelectuais, os imigrantes e as pessoas que não são “da nossa cultura e raça”, e, do outro lado, o povo de bem.
Este mapa da política deixa de lado, naturalmente, as diferenças entre patrões e trabalhadores. Nega a existência de uma luta de classes e substitui-a por uma suposta guerra de civilizações. Aquele que trabalha e é roubado por uma economia que enriquece bilionários não olha para eles e concentra o seu ódio no imigrante que trabalha por metade do preço. Como se essas situações não fossem ditadas pelo capitalismo financeiro globalizado. André Ventura faz esse movimento de prestidigitação, retirando da vista os empresários milionários que dão dinheiro ao Chega, fazendo ainda um ajuste de contas histórico. Quer fazer-nos crer que a culpa da nossa situação de miséria está na democracia, e não na economia. Ao mesmo tempo, faz uma lavagem do fascismo e do colonialismo, como se eles não tivessem sido uma das razões, a par da política neoliberal, do nosso atraso e da falta de condições de vida em que se encontra a maioria das pessoas que vivem em Portugal. Para dizer claramente, não foi quem combateu a ditadura e o colonialismo que traiu as pessoas que vivem em Portugal, foi quem defende esse regime fascista que tem as culpas do sofrimento, miséria e falta de liberdade em que viveram gerações.
O Chega é o braço armado dos ricos, que lhe pagam, a fingir que quer apoiar quem trabalha. Tudo isso disfarçado com discursos sobre segurança, ideologia de género, falsa teoria da substituição dos portugueses pelos imigrantes e o alegado combate à corrupção, que deixaria os maiores corruptos a salvo.
Para impedir o crescimento da extrema-direita é preciso sair de um conflito em que a extrema-direita fala às entranhas das pessoas, enquanto do outro lado só há uma esquerda moderada que fala com o Excel.
O drama é que populismos e fundamentalismos têm sido contestados por bons motivos mas com más respostas. Como escrevia William Butler Yeats n’O Segundo Advento, “aos melhores falta convicção e aos piores sobeja apaixonada intensidade”. Talvez fosse melhor desenterrar a luta de classes e reivindicar a parte intensa de um conflito social com coordenadas verdadeiras.»
Na sexta-feira, o banco californiano Silicon Valley Bank (SVB) tornou-se o maior banco a falir desde a crise financeira de 2008. Num súbito colapso que chocou os mercados financeiros, deixou encalhados milhares de milhões de dólares pertencentes a empresas e investidores.
O SVB recebeu depósitos e fez empréstimos a empresas no coração do sector tecnológico da América. A US Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC) está agora a atuar como consignatário. O FDIC é uma agência governamental independente que assegura os depósitos bancários e supervisiona as instituições financeiras, o que significa que liquidará os ativos do banco para reembolsar os seus clientes, incluindo depositantes e credores.
O que aconteceu ao SVB? E será isto um acontecimento isolado ou um sinal de que há mais desabamentos financeiros para vir? O desenvolvimento imediato foi o anúncio pelo SVB de que havia vendido com prejuízo um monte de títulos em que investira e que teria de vender US$2,25 mil milhões em novas ações para tentar reforçar o seu balanço. Isto disparou o pânico entre as principais empresas tecnológicas da Califórnia que mantinham o seu cash no SVB. Houve uma corrida clássica ao banco. Com uma velocidade relâmpago, o banco teve de impedir os depositantes de retirarem dinheiro. O preço das ações da empresa entrou em colapso, arrastando outros bancos para baixo com ele. A negociação de ações do SVB foi interrompida e a seguir o SVB abandonou esforços para angariar capital ou encontrar um comprador, o que levou o FDIC a assumir o controlo.
Apesar de pouco conhecido fora do Vale do Silício, o SVB estava entre os 20 maiores bancos comerciais americanos (o 16º maior), com 209 mil milhões de dólares em ativos totais no final do ano passado, de acordo com o FDIC. É o maior credor a falhar desde que o Washington Mutual entrou em colapso em 2008 durante o crash financeiro global. Assim, ao contrário de alguns relatos, o SVB não é um peixinho. Ele oferecia serviços a quase metade de todas as empresas de tecnologia e cuidados de saúde apoiadas por capital de risco nos EUA. O SVB detinha dinheiro para estes "capitalistas de risco" (aqueles que investem em novas empresas "em fase de arranque").
Mas também fez investimentos com os depósitos em dinheiro que obteve, concedendo por vezes empréstimos de risco pessoais a criadores de tecnologia, bem como às suas empresas. Mas os seus investimentos começaram a dar origem a perdas. A SVB apostara na compra de títulos do governo americano aparentemente seguros. Contudo, quando a Reserva Federal iniciou o seu ciclo de subida das taxas de juro para "controlar a inflação", o valor destes títulos do governo caiu drasticamente e o balanço do SVB começou a tomar água. Quando informou o mundo financeiro que estava a vender estes títulos com prejuízo para fazer face a retiradas de dinheiro por parte de clientes, a corrida ao banco ganhou proporções de inundação. Ao não conseguir obter financiamento adicional através da venda de ações, o SVB teve de declarar bancarrota e entrar em processo de concordata (receivership) junto ao FDIC.
Há quem tente afastar a ideia de que o colapso do SVB é um sinal do que está para vir. "O SVB era pequeno, com uma base de depósitos muito concentrada", disse o responsável da investigação europeia sobre ações da Amundi, Ciaran Callaghan. Não estava "preparado para saídas de depósitos, não tinha a liquidez disponível para cobrir resgates de depósitos e, consequentemente, foi um vendedor forçado de obrigações que impulsionava um aumento de capital e criou o contágio. Este é um caso muito isolado e idiossincrático".
Portanto, é um caso isolado. Mas será? O colapso da SVB deve-se a um acontecimento mais amplo, nomeadamente a subida agressiva das taxas de juro da Reserva Federal ao longo do ano passado. Quando as taxas de juro estavam perto de zero, bancos como o SVB carregaram-se com títulos do Tesouro a longo prazo, aparentemente de baixo risco. Mas como a Reserva Federal elevava as taxas de juro para "combater a inflação", o valor desses ativos caiu, deixando muitos bancos sentados sobre perdas não realizadas.
As taxas mais elevadas também atingiram o sector tecnológico de forma especialmente dura, subcotando o valor das ações tecnológicas e tornando difícil a angariação de fundos. Assim, empresas de tecnologia começaram a levantar os seus depósitos em dinheiro no SVB para satisfazerem as suas contas. Ed Moya, analista de mercado sénior da Oanda, comentou: "Toda a gente na Wall Street sabia que a campanha do Fed para a cobrança de taxas acabaria por quebrar algo e neste momento isso está a derrubar os bancos pequenos". O outro racha na parede bancária está nas criptodivisas. O cripto banco prestamista Silvergate também foi forçado a liquidar após o colapso do bitcoin e de preços de outras criptodivisas.
"Os desafios institucionais do SVB refletem uma questão sistémica maior e mais generalizada: a indústria bancária está sentada sobre uma tonelada de ativos de baixo rendimento que, graças a aumentos de taxas do ano passado, estão agora muito debaixo de água – e a afundarem", disse Konrad Alt, co-fundador do Grupo Klaros. Alt estimou que os aumentos das taxas "eliminaram efetivamente cerca de 28% de todo o capital da indústria bancária a partir do final de 2022".
O fracasso do SVB pode ser pontual, mas os crashes financeiros começam sempre com os mais fracos ou os mais imprudentes. Este é um banco que estava a ser esmagado pelas tesouras de uma queda iminente: queda dos lucros no sector tecnológico e queda dos preços dos ativos causada pela subida das taxas de juro. O SVB havia crescido para cerca de US$209 mil milhões em ativos com uma base de clientes concentrada entre empresas tecnológicas em fase de arranque, pelo que se revelou particularmente vulnerável ao impacto do rápido aumento das taxas de juro. Mas as perdas do SVB na venda de obrigações estão a repetir-se entre muitos outros bancos. O FDIC informou recentemente que os bancos norte-americanos estão sentados sobre US$620 mil milhões de perdas combinadas não realizadas nas suas carteiras de títulos.
Entretanto, após os últimos números relativos ao emprego terem continuado a mostrar um mercado de trabalho "apertado", a Reserva Federal parece estar determinada a continuar a aumentar as taxas de juro ainda mais depressa e mais alto do que os investidores financeiros esperavam. Dando testemunho ao Congresso dos EUA na semana passada, o presidente da Reserva Federal, Jay Powell, deixou claro que: "O emprego, os gastos dos consumidores, a produção manufatureira e a inflação inverteram parcialmente as tendências de abrandamento que tínhamos visto nos dados há apenas um mês atrás". E como Larry Summers, o guru keynesiano e ex-Secretário do Tesouro, afirmou: "Temos de estar preparados para continuar a fazer o que é necessário para conter a inflação". Possivelmente ao ponto de deitar abaixo partes do sector bancário e corporativo.
Neste sábado, 14 de maio, Izquierda Unida realizará em Madri um encontro que suscitou grande expectativa entre os setores ativistas mais próximos do Decrescimento. Precedido de uma carta pública e de um manifesto intitulado Diminuição de vida promovido por diversos militantes do setor decrecentista da formação, contou com o apoio do seu coordenador geral através de um extenso artigo de tom didático mas também ideológico, publicado no órgão oficial de IU , onde defende e justifica a necessidade biofísica de pôr fim ao crescimento económico. Na revista 15/15\15 queríamos falar com um dos promotores deste encontro, o coordenador da área de meio ambiente e ex-parlamentar Eva García Sempre , e com o coordenador geral e Ministro do Consumo, Alberto Garzón Espinosa .
15/15\15: O encontro que você convocou por meio de sua carta e manifesto pode surpreendê-lo de fora, mas imagino que seja na verdade o resultado de debates e reflexões que você vem mantendo internamente na IU há algum tempo sobre o problema dos limites ao crescimento , não é assim?
Eva García: De fato, não é um debate novo dentro da organização. Que temos que viver dentro dos limites do planeta já estava claro; agora damos um passo adiante e propomos que o decrescimento é uma realidade e que temos que traçar, juntos, um roteiro político para que esse decrescimento não recaia, como sempre, nos mais vulneráveis.
15/15\15: Algumas coisas que se destacam no encontro é que não só os movimentos sociais foram convocados expressamente, o que pode ser algo mais ou menos comum nas formações de esquerda, mas também outros partidos políticos. Que resposta você teve tanto de um quanto de outro? Que outros partidos do Estado espanhol conhece que estão nesta evolução rumo ao Decrescimento?
EG: A resposta foi, sem dúvida, muito interessante. Independentemente de considerarem ou não oportuno participar como organização neste primeiro encontro, a recepção tem sido positiva e expectante por parte das organizações contactadas. E em relação às forças políticas, principalmente aquelas que também estão tendo esses debates, é muito positivo. De qualquer forma, e já que ainda estamos delineando, saberemos os nomes no sábado, dia 14. E sobre outras forças políticas, acredito que em maior ou menor medida esse debate está ocorrendo em quase toda a esquerda. Uma questão separada é como ela é abordada e se essa posição é a maioria dentro dela. Mas sim, existem forças políticas que o levantaram e esperamos que nos encontremos em algum momento para trabalhar.
15/15\15: Outro aspecto que chama bastante a atenção é o objetivo de desenhar conjuntamente um programa para o país em chave de decrescimento. Parece que o debate interno realmente parece bastante claro e você quer começar a trabalhar para transformar a consciência do fim do crescimento em linhas programáticas em um sentido político prático. É assim?
EG : Não somos ingénuos. O debate não será fácil em nenhuma organização ou força política (nem a nossa) porque, quando você pousar no concreto, há muita vertigem: será compreendido pela sociedade? O que acontecerá com este ou aquele setor produtivo que é chave na minha zona? Precisamente por isso queremos promover o espaço amplo, com todas as vistas possíveis. Esclarecer dúvidas e medos entre todos costuma ser mais fácil. Mas sim, acho que desde o início nossa posição é bastante sólida internamente.
Alberto Garzón: Nossa força política nasceu em 1986 com o objetivo político-social, entre outros, de incorporar as demandas ambientais e feministas surgidas naqueles anos, especialmente dos movimentos sociais. Desde então, o componente ecológico tem sido forte dentro da organização, apesar de a matriz ideológica da IU sempre ter sido uma orientação clássica (de conflito capital-trabalho). Nos últimos anos temos feito um esforço significativo com a militância para definir um perímetro ideológico coerente onde todas essas dimensões possam se complementar. Nas próximas semanas apresentaremos os principais resultados de uma pesquisa sobre a crise ecossocial que nos permitiu mensurar essas transformações ideológicas dentro de nossa organização. Mas posso adiantar algumas informações. Hoje, por exemplo, praticamente 50% da nossa militância se define como ambientalista, 60% como feminista e 70% como comunista; ou seja, há um alto grau de interseccionalidade. Além disso, entre a militância, 39% se identificam com o projeto de decrescimento. Acredito que a situação está muito madura para abordar determinados debates, sem que isso signifique que eles deixem de ser problemáticos.
15/15\15: O texto “ Os limites do crescimento: ecossocialismo ou barbárie ” foi publicado em inglês e recebeu elogios de notáveis pensadores do Decrescimento como Jason Hickel e até mesmo alguém mais situado no ecoanarquismo como Ted Trainer. Que outras reações você teve no exterior? Haverá participação internacional no encontro?
AG : O documento tem a ambição de ser uma abordagem rigorosa, embora não académica per semas também informativo. Sabíamos que o fato de ter sido elaborado por um ministro aumentava seu impacto, e isso precisava ser aproveitado. Mas na realidade já avançamos bastante com o trabalho do Ministério do Consumo, que se expressa muito bem com as polêmicas da redução do consumo de carne e a questão das macro-fazendas. Mas sem dúvida minha intenção foi levar o debate para novos espaços, como os da nossa militância ou das pessoas que se referem a nós e não conhecem muitos dos elementos que apareceram no texto. A ideia era garantir que a questão ecológica não se reduzisse ao problema das alterações climáticas, pelo que se abriu um debate sobre as medidas que teríamos de tomar enquanto sociedade perante um desafio muito mais complexo e ameaçador do que aquilo que as pessoas tendem a pensar.Traduzimos o texto para o inglês . Queremos continuar tecendo redes nacionais e internacionais que vão além dos partidos, porque entendemos que é a única forma de construir alternativas políticas reais. Na verdade, o artigo pretende ser um ponto de partida que explicará muitas das próximas ações e eventos.
Em uma reunião virtual do Fórum Econômico Mundial (FEM), líderes globais das Nações Unidas, Reino Unido, Estados Unidos, Fundo Monetário Internacional (FMI) e corporações multinacionais discutirão e anunciarão um plano para reiniciar toda humanidade incluindo a economia mundial. Esse plano é conhecido como “O Grande Reinício” ou, em inglês, The Great Reset.
“TODOS OS PAÍSES, DOS ESTADOS UNIDOS À CHINA, DEVEM PARTICIPAR, E TODOS OS SETORES, BEM COMO TECNOLOGIAS DE PETRÓLEO E GÁS, DEVEM SER TRANSFORMADOS.”
“Temos uma oportunidade de ouro para tirar algo de bom desta crise [COVID-19]. As ondas de choque sem precedentes podem tornar as pessoas mais receptivas a grandes visões de mudança”, disse o Príncipe Charles, um dos líderes do evento.
O objetivo do “O Grande Reinício” é usar a pandemia da coronavírus como uma justificativa – os participantes repetidamente se referiram a ela como uma “oportunidade” – para reformatar completamente toda a economia global, incluindo a dos EUA, para tornar o mundo mais “equalitário” e para combater a mudança climática, que em várias ocasiões foi identificada como a próxima grande “crise” do mundo.
Em um artigo publicado no site do Fórum Econômico Mundial, o fundador e presidente executivo do FEM, Klaus Schwab, disse que “o mundo deve agir conjuntamente e rapidamente para renovar todos os aspectos de nossas sociedades e economias, desde a educação até os contratos sociais e as condições de trabalho”.
“Todos os países, dos Estados Unidos à China, devem participar, e todos os setores, bem como a tecnologia de petróleo e gás, devem ser transformados”, acrescentou Schwab. “Em suma, precisamos fazer ‘O Grande Reinício’ do capitalismo.”
Schwab não foi o único a pedir que o mundo “reinicie” o capitalismo. Incontáveis líderes no evento, muitos dos quais ocupam posições influentes em organizações e governos ao redor do mundo, exigiram mudanças econômicas de longo alcance que soam notavelmente semelhantes ao “Novo Acordo Verde” (Green New Deal) dos socialistas Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez – exceto que em um escala global.
Sharan Burrow, a secretária geral da Confederação Sindical Internacional, disse que precisamos usar a crise atual para ajudar a “reequilibrar” a economia global.
“Precisamos criar políticas para alinhar o investimento nas pessoas e no meio ambiente”, disse Burrow.
“Mas, acima de tudo, a perspectiva de longo prazo é sobre reequilibrar as economias.”
Burrow acrescentou mais tarde: “Queremos o fim da mentalidade de lucro a todo custo, porque se não construirmos um futuro econômico dentro de uma estrutura sustentável em que respeitemos nossos limites planetários e a necessidade de mudar nossos sistemas de energia e tecnologia, então não teremos um planeta vivo para os seres humanos. ”
Ecoando esses pontos, Antonio Guterres, secretário-geral da ONU, pediu a construção de “sociedades iguais, inclusivas e sustentáveis, que sejam mais resilientes em face de pandemias e mudanças climáticas”.
Jennifer Morgan, diretora executiva do Greenpeace International, disse que o mundo deveria usar a crise atual para apertar o “botão de reinicialização”, semelhante ao que ocorreu após a Segunda Guerra Mundial, quando Morgan diz que: “Estabelecemos uma nova ordem mundial”.
Morgan acrescenta que: “Estamos agora em um mundo diferente do que éramos então. Precisamos perguntar: o que podemos fazer de maneira diferente? O Fórum Econômico Mundial também tem uma grande responsabilidade nisso, apertando o botão de reinicialização e entendendo como criar bem-estar para as pessoas e para a Terra”.
Outros palestrantes no fórum virtual que pediram pelo “O Grande Reinício” incluíam Ma Jun, presidente do Comitê de Finanças Verdes da Sociedade Chinesa de Finanças e Bancos e membro do Comitê de Política Monetária do Banco Popular da China; Bernard Looney, CEO da BP; Ajay Banga, CEO da Mastercard; Bradford Smith, presidente da Microsoft; e Gina Gopinath, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional.
O evento virtual do FEM anunciou o lançamento do plano para “O Grande Reinício” da economia mundial, mas propostas de políticas mais específicas provavelmente serão deliberadas na reunião do FEM em Davos, Suíça, em janeiro de 2021. O evento de Davos está sendo anunciado pelo FEM como uma “cimeira gêmea” que incluirá um encontro pessoal de líderes mundiais e reuniões virtuais “conectando os principais líderes governamentais e empresariais do mundo em Davos com uma rede global em 400 cidades.”
Abaixo segue um resumo dos pontos que devem ser discutidos durante a cimeira do “O Grande Reinício” em Davos.
1. Liderança:
Os economistas Thomas Piketty e Joseph Stigliz (marxistas e keynesianos) estão encabeçando as diretrizes do “O Grande Reinício”.
2. Diretrizes:
• Aquecimento global
• Novo Acordo Verde
• Novo Bretton Woods
3. Problemas:
• Pandemia do COVID-19
• Agitação social
• Crises econômicas
4. Metas:
• Eliminar todo o papel-moeda e utilizar a cripto moeda DES (Direitos Especiais de Saque), que já foi utilizada em 1970, 1979 e 2009 para injetar liquidez no sistema financeiro.
• Reforma tributária global com maiores impostos para fortunas, chegando a 90% para fortunas acima de US$ 2 bilhões.
• Criar dificuldades para as empresas moverem ativos para paraísos fiscais. Remover do mercado qualquer empresa ou organização que não seja “verde”, como a indústria da carne ou do petróleo.
• Estimular o consumo de produtos com o “selo verde”. Os governos devem dar preferência na lista de subsídios e cupons ao consumidor para esses produtos.
• Fomentar títulos verdes tanto quanto possível. Qualquer banco central que esteja considerando o uso de flexibilização quantitativa deve usar títulos verdes.
• Acabar com qualquer tipo de combustíveis fósseis em todo o mundo.
• Vacinação mandatória e passaporte mundial (APP) com rastreamento genético.
Portanto, as mudanças propostas pelo “O Grande Reinício” possuem um viés político e ideológico alinhado com as doutrinas marxistas e socialistas, e visam moldar a humanidade nesses parâmetro, o que é perigoso. De fato, a história tem diversos exemplos de países que adotaram esses regimes e levaram o caos e a destruição social para sua população como a China, Coreia do Norte, Irã, Venezuela, Cuba entre outros.
As opiniões expressadas neste artigo são pontos de vistas do autor e não refletem necessariamente as opiniões do Epoch Times.
A chamada “economia pós-escassez” é um cenário hipotético da teoria económica em que há abundância de recursos a serem produzidos por uma quantidade mínima de mão-de-obra humana, o que possibilita a sua comercialização a preços baixos ou, em última instância, a disponibilização gratuita.
Esta situação especulativa teve os seus primeiros esboços feitos por Karl Marx, num trecho do seu livro “Grundrisse” (1858) intitulado “Fragmento sobre as Máquinas”, no qual fala sobre a transição para uma sociedade pós-capitalista na qual os avanços na automação possibilitariam este cenário de redução de trabalho humano, abundância de recursos e maior tempo livre para o lazer e para os estudos.
Este discurso talvez não pareça novidade àqueles que vêm acompanhando conteúdos produzidos por futuristas como o americano Peter Diamandis, um dos fundadores da Singularity University. Coautor do livro “Abundância”, Diamandis afirma que a humanidade está a entrar num período de transformação radical, no qual a tecnologia carrega o potencial de elevar os padrões de vida básicos de todas as pessoas no planeta. Eles defendem que essa cena aconteceria por volta de 2040, quando serviços outrora restritos à minoria rica serão disponibilizados a todos os que precisarem e desejarem.
Em tempos de Covid-19, crise económica e política, fica difícil acreditar num tal desdobramento para o nosso futuro interrompido por uma pandemia. Mas, para futuristas como Diamandis, mais do que exercitar o otimismo é preciso ver como, apesar de tudo, o mundo industrializado nunca esteve tão seguro e nunca vivemos por tantos anos. A expectativa de vida das pessoas, em 2000, já era 60% maior do que em 1900 e, além disso, cada vez mais somos surpreendidos por inovações tecnológicas que prometem revolucionar todos os aspetos das nossas vidas: da penicilina às chamadas tecnologias exponenciais, assim intituladas devido à exponencialidade do seu desenvolvimento.
Tecnologias como a realidade virtual, blockchain, inteligência artificial, fontes de energia sustentável, internet das coisas, big data, robótica, bioengenharia ou mesmo a mineração espacial prometem mudar o mundo e levar-nos a uma possível Quarta Revolução Industrial ou Terceira Disrupção, como nomeia Aaron Bastani, autor do livro “Fully Automated Luxury Communism”, de 2019.
Apesar de o título lembrar algum meme ou uma página de humor irónico no Facebook, o termo traduzido como “Comunismo Automatizado de Luxo” e encurtado a partir da sigla FALC, em inglês, traz em si a ideia de uma futura economia que supera a lógica da escassez, tanto no sentido da disponibilidade de recursos quanto da criação artificial de escassez na lógica de mercado capitalista. Bastani usa as quase 300 páginas do livro para dar contexto e ponderação à proposta que, de facto, suscita dúvida e ceticismo. Apesar de ser visto como um pensador utópico, Bastani procura manter as suas proposições o mais objetivas e racionais possíveis. Para isso, boa parte da obra dedica-se a elencar exemplos de tecnologias e empresas que estão a trabalhar em ferramentas e produtos que possibilitem a automação e a conquista de um futuro pós-escassez.
Antes de iniciar um longo relatório tecnológico, Bastani primeiro faz a provocação sobre como o senso comum tende a pensar que o capitalismo é inevitável e insubstituível. Provavelmente já ouviu alguém dizer algo parecido com esse tuíte de Olavo de Carvalho, mas o que o autor britânico procura defender é que esse é apenas mais um sintoma do que Mark Fisher chama de realismo capitalista, resumido na sugestão de que “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. Por outras palavras, a perceção geral é de que o capitalismo não apenas é o único sistema económico viável, como também é “impossível de se imaginar uma alternativa coerente”, afinal, como escreve Bastani, “como contribuir com uma alternativa à própria realidade?”. Já nas palavras do filósofo francês Alain Badiou, citado por Bastani:
“Nós vivemos numa contradição … na qual toda a existência … nos é apresentada como ideal. Para justificar o conservadorismo, os partidários da ordem estabelecida não podem realmente chamar (ao modelo) de ideal ou maravilhoso. Então, em vez disso, decidiram dizer que tudo o resto é horrível … a nossa democracia não é perfeita. Mas é melhor do que as malditas ditaduras. O capitalismo é injusto. Mas não é criminoso como o estalinismo. Nós deixamos milhares de africanos morrerem de Sida, mas nós não fazemos declarações nacionalistas e racistas como Milosevic”.
Se, depois de ler esta citação, pensou numa campanha publicitária protagonizada por representantes de comunidades marginalizadas e em como essas mesmas pessoas não são empregadas pela própria marca, percebeu a ideia. No mundo do realismo capitalista, nada muda; porém, como diagnostica Bastani, sofremos uma grande crise em 2008 e hoje vislumbramos novamente um sinal de alerta: no Reino Unido, o suicídio é a principal causa de morte de homens com menos de 50 anos e a depressão pode tomar a liderança nos gastos de saúde por volta de 2030. Além disso, há ainda a crise migratória na Europa, o Brexit, a ascensão da extrema-direita e de líderes opressivos, as alterações climáticas e os seus negacionistas e, finalmente, la pandemia que já soma mais de 190 mil mortes e a perspetiva de uma nova crise económica — que, aliás, vai sair muito mais cara para alguns.
Bastani cita Francis Fukuyama no seu livro porque o escritor, no início dos anos 1990, declarou que o fim da União Soviética também instaurava o fim da história. Contudo, Bastani reforça não apenas o absurdo dessa constatação como também afirma que a ideia apenas provou a instauração do chamado realismo capitalista. Com o insucesso do socialismo na União Soviética, ficou mais óbvio que apenas o capitalismo pode funcionar. Mas o que o FALC quer argumentar é justamente o contrário: é possível pensar em alternativas e esta é uma delas.
O que estamos prestes a assistir é ao fim do capitalismo pelas suas próprias mãos. Aliás, esta é a perspetiva que Slavoj Zizek vislumbra face à crise do novo coronavírus (apesar de Byung-Chul Han defender justamente o oposto). Mesmo que não enfrentássemos esta pandemia, Bastani já diagnosticava que o próprio imperativo do capitalismo é a competição em encontrar sempre a forma mais barata e eficiente de produzir commodities (mesmo que isso signifique substituir humanos por máquinas). Por outras palavras, o próprio modus operandi do capitalismo pode ser responsável por criar aquilo que o vai tornar obsoleto.
A começar pela crise energética e a sua respetiva escassez de recursos naturais, os seus fatores políticos e económicos, bem como os seus efeitos colaterais no ambiente. Bastani, então, comenta como a eletrificação e o uso da energia solar já estão a ser consideradas mais relevantes e cada vez mais disseminadas ao redor do mundo. No Reino Unido, por exemplo, há a perspetiva de usar apenas fontes de energia renovável até 2040. Na China, durante os últimos cinco anos, grandes cidades têm feito o processo de eletrificação nos seus transportes públicos como uma forma de reduzir o problema da poluição do ar, mas também sonora.
Já no caso de outros recursos naturais, matérias-primas como o ferro não precisarão de ser mais extraídas do nosso planeta. Levando em consideração a perspetiva de crescimento da população para até 9,8 mil milhões de pessoas até 2050, fica impossível manter a mesma lógica de consumo atual e acreditar que a Terra poderá dar conta da procura. Na realidade, um estudo de 2015 já demonstrou que se todos no planeta tivessem os mesmos hábitos de consumo dos norte-americanos, seriam necessários quatro planetas Terra para sustentar o mercado em termos de recursos naturais. Só que o que Bastani argumenta não tem a ver apenas com uma mudança no consumo ou mesmo com uma intensificação dos processos de reciclagem e criação de produtos biodegradáveis, por exemplo. O investigador britânico entende que a mineração espacial é o caminho para a aquisição de recursos minerais virtualmente infinitos e que, portanto, atingirão um custo muito baixo devido à sua abundância.
E parece que muitos empresários estão de olho neste setor industrial: Jeff Bezos, fundador da Amazon, por exemplo, já se mostrou interessado no mercado. O futurista Peter Diamandis é um dos fundadores da Planetary Resources, uma empresa de mineração de asteroides. No caso da PR, o interesse está especialmente focado nos NEAs, ou asteroides mais próximos da Terra. Além da vantagem de proximidade com o planeta, também há o facto de que as suas riquezas minerais são tão grandes que chegam a ultrapassar a nossa compreensão. Bastani afirma no seu livro que uma das estimativas sobre a cintura de asteroides é algo como 825 quintiliões de toneladas de ferro, com 63kg de níquel para cada tonelada de ferro, o que possibilitaria a geração de uma riqueza capaz de prover 100 mil milhões de dólares para cada pessoa no mundo inteiro. Para investigar isso, os japoneses colocaram em órbita a sonda Hayabusa2 em junho de 2018. Ela deve voltar à Terra no final de 2020.
Por enquanto, os gastos necessários para a exploração, desenvolvimento e implementação de um sistema robusto de mineração espacial ainda são muito altos (tanto que Bastani menciona como mesmo as iniciativas privadas na área aeroespacial ainda assim contam com recursos governamentais). Contudo, assim como acontece com qualquer tecnologia (pense no computador e em como foi barateado e miniaturizado no telemóvel, seguindo a chamada Lei de Moore), haverá um momento em que a mineração espacial será mais barata ao ponto de as commodities por si só passarem a ter preços tão irrisórios devido à própria abundância. E isso vale para todas as outras tecnologias exponenciais: a inteligência artificial, a robótica, a bioengenharia, tudo ficaria mais barato e acessível, bem como mais eficiente. Vale lembrar, também, que tudo isto aconteceria num cenário em que as pessoas envelhecem cada vez mais, a taxa de natalidade diminui e alcançamos um pico de crescimento populacional que Bastani prevê por volta do fim deste século.
Claro, parece estranho pensar que chegaremos a um ponto em que a população irá parar de crescer quando se conquistam novas tecnologias que facilitam a vida e quando se tem acesso a recursos virtualmente infinitos. Já foi observado durante as revoluções industriais como as taxas de natalidade aumentaram, as de mortalidade diminuíram e a longevidade se estende cada vez mais. Com exceção de um evento catastrófico, como uma guerra ou uma epidemia, fica difícil imaginar que desaceleraremos o crescimento populacional. Contudo, para este e outros problemas de solução ainda difícil de ser vislumbrada, Bastani traz como exemplo a grande crise do estrume de cavalo na Londres de 1894.
Naquela época, o crescimento da cidade levou à multiplicação de cavalos nas ruas e à concentração de dejetos que não conseguiam ser removidos, ao ponto de publicações como o The Times acreditarem que “em 50 anos, cada rua de Londres estaria coberta por três metros de esterco”. Esta passagem histórica que transformou os dejetos equinos de recursos a serem vendidos num problema de limpeza acabou por se tornar uma analogia para momentos que parecem insuperáveis, até que uma nova tecnologia (como foi o caso dos carros, nesse contexto) muda completamente o cenário. É aí onde entram as tecnologias exponenciais.
Mas mesmo que Bastani gaste páginas e páginas a elencar como a eletrificação eliminará os combustíveis fósseis da equação, como a mineração espacial trará recursos infinitos e como a biotecnologia pode curar doenças e criar carne em laboratório capaz de tornar a pecuária uma indústria obsoleta, fica difícil acreditar que chegaremos a um ponto em que, de facto, todos terão acesso a isso – afinal, não é isso que o comunismo propõe? O autor sabe-o e, por isso, traz como exemplo o filme de ficção científica “Elysium”, no qual, apesar de existirem tecnologias de ponta, elas só são acessíveis a uma classe mais privilegiada. Isto porque, como o britânico explica, essa sociedade futurista ainda vive sob um regime capitalista, o qual mesmo diante da abundância cria escassez artificial para manter a concorrência e a lucratividade.
É por isso que, por mais que as tecnologias continuem a evoluir, elas nunca serão acedidas por todos se não houver uma mudança política acima da inovação tecnológica. Nas palavras de Bastani:
“… na ausência de uma política apropriada, isso só será uma nova forma de gerar lucro. Marx expressou isso perfeitamente quando escreveu que ‘a mais avançada máquina então força o trabalhador a trabalhar por mais horas do que um selvagem, ou do que ele próprio trabalhava quando usava as ferramentas mais simples e rudimentares.’ Em resposta a essa admissão, uma afirmação: qualquer política de sucesso que procure direcionar as possibilidades da Terceira Disrupção às necessidades das pessoas em vez da lucratividade deve ser populista. Senão, é certo que irá falhar. O realismo capitalista é simplesmente muito adaptável para as políticas radicais de administração e tecnocracia, o que significa que qualquer rutura precisa de ser compreensível para a maioria das pessoas, numa linguagem capaz de ser rapidamente entendida.”
Ou seja, o que Bastani argumenta é que não adianta manter estas ideias num nível académico e elitista. Quando o autor fala de populismo, sugere uma abordagem de retórica política que seja simples e atraente para que não afaste ou confunda as pessoas. Acontece que, no nosso caso latino-americano, fica difícil ler esta palavra e não trazer à mente as memórias de políticos populistas que não se apropriaram de uma comunicação acessível para beneficiar as pessoas, mas sim para se fazerem eleger e depois tomarem decisões em benefício próprio.
Além disso, quando Bastani sugere a implementação do comunismo, não traz em si a perspetiva do que foi o comunismo no século XX, até porque o que o mundo vivenciou até então foi um socialismo ainda definido pela escassez e pela existência de empregos. Na Terceira Disrupção, não só haverá abundância de recursos e riquezas como o trabalho também deixará de existir como necessidade de sobrevivência para se tornar um lazer — afinal, “produtividade é para robôs”, como já disse o futurista Kevin Kelly. E é nesse ponto que entra o luxo proposto pelo investigador.
No futuro, os robôs trabalharão por nós para que possamos ter lazer e trabalhar com aquilo que nos dê prazer, não para sobreviver.
Ao aproximar-se dos partidos verdes com as suas preocupações em relação ao ambiente e ao bem-estar animal, o FALC também se aproxima dos partidos de esquerda até divergir das suas narrativas que glorificam a simplicidade ou até mesmo uma perspetiva idílica de fuga da cidade e da modernidade. O FALC não só é contra esse chamado de volta à natureza como também contra os hábitos de consumo sob o capitalismo pautado por combustíveis fósseis, com a sua lógica de comutação, publicidade omnipresente, trabalhos sem sentido e obsolescência programada. Para viver uma boa vida num cenário de abundância de recursos, é possível que vivamos uma vida parecida com a dos multimilionários de hoje, caso queiramos. “O luxo estará em tudo conforme a sociedade baseada em trabalho assalariado se tornar uma relíquia histórica do mesmo modo que o camponês feudal e o cavaleiro medieval”, escreve Bastani.
Não se trata, portanto, de emular os costumes niilistas dos multimilionários da contemporaneidade, até porque as suas práticas se baseiam, justamente, na lógica da escassez. Enviar um carro da Tesla para o espaço não faz sentido nenhum a não ser demonstrar que Elon Musk o pode fazer porque tem dinheiro. Do mesmo modo, também não significa que o FALC defenda discursos de “consumo ético” ou mesmo a narrativa de que “o local” é mais virtuoso. Num cenário no qual tudo é acessível, barato e possível, narrativas que ainda mantêm contrastes não fazem sentido. E isso só pode ser conquistado não através de uma renda básica universal, como muitas vezes ouvimos dizer, mas sim através de um sistema básico de serviços públicos.
No Brasil, já desfrutam de um sistema de saúde público, bem como de instituições de ensino públicas. O que Bastani propõe é estender isso a todos os países do mundo, tornando educação, habitação, transporte, saúde e informação direitos garantidos e gratuitos para todos. Diferente de distribuir um rendimento mínimo para as pessoas, o qual poderia gerar inflação aos governos e manter a lógica desses serviços como se fossem commodities capazes de terem os seus preços manipulados pelo mercado, possibilitar o acesso generalizado e gratuito garante uma maior conquista de bem-estar social e de independência dos cidadãos — afinal, como escreve Bastani, “pessoas necessitadas não são pessoas livres e um sistema de serviços básicos universais acaba com essa necessidade.”
Agora, se o seu problema está no facto de Bastani se inspirar em Marx ou mesmo propor o comunismo como o sistema político-económico a ser seguido com a chegada da Terceira Disrupção, saiba que também os economistas Keynes e Drucker pensaram algo semelhante, uma sociedade na qual a inovação tecnológica nos pode levar à abundância e na qual a informação se tornaria a nova moeda. Contudo, o capitalismo não tem como funcionar nesse cenário de automação e abundância de recursos. Bastani comenta que os níveis de automação diminuíram nos últimos anos, o que poderia significar um maior pessimismo para a chegada da Terceira Disrupção, mas o motivo não está na tecnologia, mas sim no facto de os salários estarem cada vez mais baixos, tanto que substituir trabalhadores por máquinas não é lucrativo. Além disso, o autor ainda conta uma anedota na qual Ford teria dito que não poderia automatizar completamente a sua linha de montagem ou baixar demais os salários dos seus funcionários porque, no fim de contas, eles próprios seriam os compradores dos seus produtos.
Afinal, muitas das tecnologias que prometem vir com a Terceira Disrupção, na verdade, não são novas: elas apenas se moveram das “margens” da sociedade para tomarem o seu centro (como explora a futurista Amy Webb no seu livro “The Signals Are Talking”). Se elas já estavam entre nós e não se desenvolveram tão rapidamente quanto poderiam é porque o motivo pelo qual vivemos no mundo de hoje não é tecnológico, mas político. O mesmo vale para este novo mundo para o qual nos podemos dirigir. Para Bastani, de facto, não há nenhum motivo real pelo qual as empresas e os mais ricos desejem libertar as pessoas ou manter os ecossistemas do nosso planeta — na verdade, faz mais sentido continuar a intensificar a desigualdade económica e o colapso generalizado para que algum novo algoritmo preditivo ou uma startup unicórnio venham com a solução. Pelo contrário, a mudança não virá através destes, mas sim da política a ser feita coletivamente.
Apesar de promover algo tão marcante, Bastani provoca, afirmando que “Fully Automated Luxury Communism” não é um livro sobre o futuro, mas sim sobre um presente que não está visível (colocado à vista) pelas pessoas. É uma isca que nos possibilita fugir da caverna de Platão do realismo capitalista e, no mínimo, questionar se, de facto, faz sentido acreditar que é mais fácil o mundo acabar do que o capitalismo deixar de existir. Mesmo que não adotemos o FALC, mesmo que sequer adotemos o comunismo, tem de haver algo além dos espetros do capitalismo que habitam a nossa caverna.
Já pensaram porque é que os políticos já não são o que costumavam ser? Porque é que os governos parecem incapazes de resolver os problemas reais? O economista Yanis Varoufakis, antigo ministro das Finanças da Grécia, diz que é porque hoje podemos ser politicos mas não temos poder — porque o poder real pertence hoje aos que controlam a economia.
Acha que os ultrarricos e as grandes empresas estão a canibalizar esfera política, provocando uma crise financeira. Nesta palestra, oiçam o seu sonho para um mundo em que o capital e o trabalho já não lutam um contra o outro, "um mundo que é simultaneamente libertário, marxista e keynesiano".
Por que você deve ouvir
Yanis Varoufakis se descreve como um "marxista libertário", embora, segundo ele, "não seja algo sobre o qual eu me disponha a falar muito, porque a simples menção de Marx desorienta o público". Ele ensina teoria econômica na Universidade de Atenas, onde desafia as noções dominantes - argumentando que, após o colapso financeiro de 2008, precisamos de uma maneira radicalmente nova de pensar sobre economia, finanças e capitalismo.
Tornou-se amplamente conhecido no primeiro semestre de 2015, quando, como Ministro das Finanças do recém-formado governo grego, foi uma figura líder, franca e muito discutida nas renegociações da dívida da Grécia.
O trabalho é a palavra que tomou conta dos discursos e das preocupações das pessoas. Aqueles que o não têm gritam pelo direito ao trabalho, aqueles que o têm gritam pela sua manutenção, por um trabalho a tempo inteiro e para a vida. As pessoas vivem cada vez mais em função do trabalho, deixaram de ter tempo para si próprias e esqueceram-se de si mesmas. A necessidade da manutenção e da defesa dos seus postos de trabalho tornaram-se no melhor polícia de cada um, fizeram com que cada vez mais as pessoas se calem, mantem a constestação social com rédea curta. A automatização tomou conta das pessoas e a ideia dos quase robôs nas cadeias de montagem, como mostrou Chaplin nos Tempos Modernos, já esteve mais longe.
Entramos numa tal engrenagem que os tempos livres nos assustam porque não sabemos o que fazer com eles, porque a única coisa que sabemos fazer é matar o tempo daquilo que não é mais tempo livre, mas tempo de recuperação de energias para voltarmos ao tempo do trabalho .Por isso há toda uma indústria do tempo livre organizada para nos entreter, para manter o barulho à nossa volta, para não deixar que o silêncio nos perturbe, pois temos horror do silêncio, para que o tempo de contemplação, de troca de ideias, de vagabundagem, o tempo dos eurekas de que falam os grandes inventores, não possa acontecer.
O trabalho tornou-se o deus que comanda cada vez mais esta sociedade, tornou-se uma verdadeira obsessão, e a verdade é que começamos a tomar consciência que nunca mais haverá trabalho a tempo inteiro para tanta gente. Diminuir o tempo de trabalho era a ideia e o objetivo de que presidia aos visionários que inventaram e hoje inventam as máquinas cada vez mais sofisticadas para fazerem o nosso trabalho, para nos aumentar o bem estar e diminuir e redistribuir o tempo de trabalho.
Se vivêssemos num tempo em que as tomadas de decisão tivessem um mínimo de lógica, hoje o tempo de trabalho era muito mais curto, haveria efetivamente mais tempos livres, mais tempos de lazer, estaríamos a assistir ao fim de uma sociedade centrada no trabalho e ao nascimento de um tempo onde o trabalho ocuparia menos tempo da nossa vida, um tempo onde onde o direito à preguiça, porque tempo de criação e invenção, fosse incentivado, numa sociedade da espiritualidade, do novo renascimento. Uma consciência antiga pois já em 1902 Paul Lafargue defendia o direito à preguiça, o direito a uma sociedade do lazer, e, em 1930, John Keynes, em plena crise, dizia que antes do fim do século necessitaríamos só de 3 horas de trabalho produtivo para que a sociedade pudesse responder às suas necessidades.
Pelo contrário, este sistema irracional perpetua o modelo da ainda revolução industrial, do tempo de sermos escravos do dinheiro e do consumo, onde nos esquecemos de nós próprios e do nosso bem. Um sistema que produz uma legião de inúteis, como os donos do mundo chamam aqueles que não têm trabalho, que cada vez mais estão a engrossar, levando a que aos poucos a maior parte deles acabem por desistir da própria vida.
Mas, ao mesmo tempo que estamos a viver um tempo que parece sem saída, um tempo de bloqueios, se trabalharmos no interior da contradição, percebemos que esta sociedade, este modo de vida, tem dentro dela os vírus que a vai destruir e vai abrir espaço para a entrada num tempo onde o direito à preguiça deve ter todo o espaço do mundo, um tempo onde o lazer deve ser uma realidade, um tempo onde temos todo o tempo do mundo para a vagabundagem, tempo por excelência onde as invenções se concretizam. onde estamos livres para as novas ideias aparecerem.: Só agora, continuemos a ouvir Agostinho da Silva , com uma economia capitalista há riqueza e saber para se conseguir o desenvolvimento pleno, para acabar com a carência que vem de tão longe, para chegar a um ponto em que haja tudo para todos, tal como na Ilha dos Amores, que Camões tão bem contou nos Lusíadas, em que toda a economia desaparecerá. Economia que será uma recordação do passado, como queriam os tais portugueses do século XIII, onde o Homem possa passar à sua verdadeira vida, que é a de contemplar o mundo, de ser poeta do mundo, de tal forma que ninguém se preocupe por fazer tal e tal obra, mas por ser único no mundo, entre os tais biliões que existem.
Vamos entrar numa coisa parecida como a que os portugueses e alguns italianos intitulavam de Idade do Espírito Santo, a Idade em que as crianças cresceram tanto que a sua espontaneidade e capacidade de sonhar nunca se extinguisse e um dia dia fossem capazes de dirigir o mundo.
Interessa-nos hoje que os tempos de criação e fruição, os tempos de lazer e gratuitidade de que falámos atrás, sejam não só um espaço-tempo de respiração que liga dois tempos afogueados, mas também um espaço-tempo de concepção de projectos que permitam e criem condições para o desenvolvimento e a afirmação das capacidades criativas de cada indivíduo, onde se pode ter todo o tempo do mundo para pensar, desenvolver projectos, experimentar soluções. Efetivamente, procuramos configurar algo que possa potenciar ideias e estratégias capazes de conduzirem à transformação do tempo chamado de trabalho num tempo que estimule a participação e a criatividade de cada indivíduo e que seja factor de desenvolvimento e de realização pessoal.
Procuramos no fundo romper as fronteiras entre os tempos chamados de trabalho e de lazer, e isto porque temos consciência que a própria transformação interna do mundo chamado do trabalho, que passará a exigir outras qualificações das pessoas e uma redistribuição mais solidária, vai implicar não só um aumento dos tempos livres, mas que estes tempos livres sejam não um tempo de fuga mas sim um espaço de afirmação de novas qualificações e de novos desafios. A diferença que passará a haver entre estes dois tempos traduzir-se-á, a nosso ver, no facto de que no trabalho tudo se deverá centrar no produto e na planificação dos tempos de criação-produção desse produto, enquanto que no lazer haverá uma outra liberdade para experimentar os processos e para perder tempo a descobrir outras soluções, para vagabundear tal como Umberto Eco quando se perdia nas bibliotecas em busca do livro que desconhecia, ou melhor, em busca do conhecimento. [Fonte:Carlos Fragateiro]
A queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética conduziram a uma nova ordem mundial que pouco se compadece com as regras das democracias tradicionais. Na euforia ultra-liberal da globalização em curso, os novos fisiocratas organizaram tudo em benefício das empresas e dos capitais. Por outro lado, a intervenção na Jugoslávia (nomeadamente, o bombardeamento de Belgrado e, em particular, da sua estação de televisão), bem como a invasão do Iraque, ou a guerra na Tchechenia vieram demonstrar que a nova ordem nada tem a ver com a vontade democrática dos povos e que já não se olha a meios para atingir fins.
Neste quadro muitos mitos se desfazem e novos paradigmas emergem.
Os chamados direitos sociais dos trabalhadores, representados no imaginário da esquerda tradicional como conquistas heróicas do movimento operário, são esvaziados ou aniquilados sem qualquer resistência. A sua imolação faz-se no altar da actual crise económico-financeira mundial, curiosamente, a mesma causa que ditou o seu nascimento.
Com efeito, a maioria dessas «conquistas» surgiu depois da grande crise económica de 1929 que se evidenciou com o célebre crash da Bolsa de Nova Iorque, a que se seguiu a falência de milhares de empresas e a miséria de milhões de pessoas. Até então acreditava-se que o mercado (a economia) era regulado por aquilo que um economista inglês, Adam Smith, chamara (num livro intitulado A Riqueza das Nações, de 1776) uma «mão invisível».
Como resultado da crise de 1929, iniciou-se a lenta construção do chamado Estado Providência, cujas bases teóricas já tinham sido lançadas por outro economista inglês, John Keynes, sobretudo com o seu livro, de 1926, sintomaticamente intitulado The end of laissez-faire, em que punha em causa o liberalismo e a sua teoria da «mão invisível».
Keynes defendia que o papel do estado não deveria resumir-se a ser o «guarda nocturno» do mercado, antes deveria intervir na economia, a fim de evitar que as crises económicas conduzissem ao colapso do sistema. Como essas crises são cíclicas e, portanto, previsíveis, o estado teria de tomar medidas a montante e a jusante delas, a fim de as prevenir ou atenuar os seus efeitos. Medidas de regulação da economia (disciplinando a concorrência, proibindo a cartelização, efectuando mesmo uma planificação indicativa da produção, etc.), mas, sobretudo, medidas de carácter social que, aumentando o poder de compra, alargassem o consumo e os mercados internos.
Foi assim que nasceram as primeiras medidas sociais que conduziram ao que se chama Estado Providência. Note-se que as primeiras férias pagas foram gozadas pelos trabalhadores franceses, em 1936, durante o governo da Frente Popular liderado por Léon Blum. Além de 15 dias de férias anuais, foi também instituída, pela 1ª vez, a semana das 40 horas.
Só que, hoje, não é só o estado providência que está em falência. Faliram também as ameaças revolucionárias ao capitalismo, sobretudo as de matriz bolchevique. Aliás, nunca se explicou bem por que é que um país semi-feudal, pré-capitalista, como era a Rússia do início do século XX, veio a ser o berço de uma revolução socialista, que, por definição, só teria condições históricas de sucesso numa economia tão avançada que a contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e as respectivas relações sociais de produção (entre o carácter social da produção e a propriedade privada dos meios produtivos) só pudesse ser superada dialecticamente com a apropriação colectiva dos meios de produção. Mas, paradoxalmente, naquela Rússia em que triunfou a primeira revolução socialista só havia miséria e servidão para socializar.
Assim, hoje, não é só todo o modelo keynesiano que está em crise e cujo fim se anuncia, são também os principais paradigmas ideológicos da esquerda do século XX.
Neste panorama, a política perdeu os seus referentes ideológicos e fulanizou-se. Os centros de poder e de decisão nacionais estão a transferir-se para instâncias supra nacionais (quando não para empresas globais) sobre as quais não há qualquer controlo democrático. Os estados estão a limitar-se ao velho papel residual de guardas-nocturnos de um mercado agora global e a democracia extingue-se lentamente, perante a estupefacção daqueles que disso têm consciência, sem que, aparentemente, nada se possa fazer nada para o impedir. As eleições já nada decidem, verdadeiramente, porque o que é importante aparece sempre decidido por instâncias supranacionais não democráticas.
Segundo John Maynard Keynes, as necessidades humanas podem parecer insaciáveis, sejam elas absolutas (aquelas que sentimos seja qual for a situação de existência), sejam elas relativas (aquelas que sentimos caso as satisfações nos impulsionem ou nos façam superiores a nossos amigos). Para ele, “as necessidades de segunda classe, aquelas que satisfazem ao desejo pela superioridade, podem certamente ser insaciáveis, desde o mais baixo até os níveis mais elevados”.
Em objeção a conceitos desta espécie, inculcados na sociedade consumista de nossos tempos, é que José Lutzenberger fará críticas sistemáticas através de artigos escritos e discursos e palestras proferidos. A polêmica criada por Lutzenberger tem origem na maneira como ele expunha os acontecimentos e suas conseqüências para o ambiente natural, visto que naquele momento não existiam estudos mais aprofundados sobre danos causados à natureza, assim como, pesquisas de opinião pública que denunciassem qualquer atitude predatória. Expressões hoje notoriamente habituais, ainda não eram conhecidas naquele período. Entre elas podemos citar: meio ambiente, ecossistema, desenvolvimento sustentável, Agenda 21, etc...
Inúmeros críticos do pensamento de Lutzenberger qualificaram-no como extremista e radical e, outros ainda, como um teórico da “síndrome do apocalipse”.
A década de 1970 caracterizou-se pelo chamado “Milagre Brasileiro”, onde o PIB cresceu à taxa média anual de 11,2% entre 1969 e 1973. Entretanto, este crescimento favorecia mais as classes média e alta, resultando numa injustiça social de grande monta e significativa concentração de renda na classe dominante. Foi um período de crescimento de nossa dívida externa, principalmente após o advento da crise do petróleo gerada pela Guerra do Yom Kippur. Vários mega-projetos foram iniciados, em detrimento dos programas sociais. Dentre esses projetos destacaram-se a hidrelétrica de Itaipú e a Transamazônica.
O governo Médici apostou no crescimento industrial dando ênfase à expansão da indústria automobilística, à concessão de maior crédito ao consumidor e ao incentivo às exportações. Para isso, tomou empréstimos externos valendo-se do bom momento que o mercado internacional usufruía.
Os movimentos sociais nesta época estavam extremamente acanhados, diante da perplexidade com as atitudes arbitrárias do governo militar.
A campanha eleitoral de 1978 demonstrou uma adesão mais veemente entre os dissimiles conjuntos da sociedade civil. Entidades antes amordaçadas diante da repressão, agora se expunham peremptoriamente para demonstrar a insatisfação de algumas camadas da sociedade com a situação vigente.
É neste contexto político, econômico e social da década de 1970 que um agrônomo nascido em Porto Alegre fundaria, em meados de 1971, juntamente com outros ativistas, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, AGAPAN. José Antonio Lutzenberger, graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, especializou-se em solos e agroquímica nos Estados Unidos. Iniciou sua vida profissional na Companhia Riograndense de Adubos e, em 1957, foi convidado a ingressar em uma indústria química suíça, depois de acompanhar um alto executivo da mesma como tradutor, em viagem pelo território brasileiro. Ocupou cargos de relevância na empresa, em países como Alemanha, Venezuela e Marrocos. Em 1971, por discordância das atitudes da empresa no tocante ao emprego de defensivos agrícolas em áreas nas quais julgava desnecessário seu uso, demitiu-se e retornou a Porto Alegre. Havia tomado uma decisão: trabalhar pela causa ecológica, no combate ao desperdício dos recursos naturais e contra quaisquer atitudes de depredação da natureza.
Em obra lançada no ano de 2002 sobre os precursores da ecologia, Bones & Hasse assim descrevem os primeiros passos do ambientalista:
“Graças a artigos publicados aos domingos no Correio do Povo, passou a receber convites para falar em cidades do interior. Visitou mais de 50 cidades do Rio Grande do Sul. Também viajou por quase todo o Brasil, no principio, para falar sobre agrotóxicos. Deu aulas sobre ecologia em cursos recém implantados em São Leopoldo e Porto Alegre e ministrou cursinhos de formação técnica em agrotóxicos para agrônomos e veterinários. Em suas conferências, combinando ensinamentos práticos sobre a natureza e denúncias contra os destruidores do equilíbrio ecológico, muitas vezes era aplaudido de pé. Mais convincente, mais sincero e mais entusiasmado do que a maioria dos ecologistas brasileiros que também faziam conferências, Lutzenberger sensibilizou milhares de pessoas sobre a delicada cadeia da vida que envolve a Terra, os crimes ambientais na Amazônia, o perigo dos agrotóxicos, os riscos da energia atômica, entre outros assuntos”.
O discurso ambientalista de Lutzenberger se destacou sempre pelo tom irônico com que desdenhava dos que se atreviam a contestar suas argumentações. Palestrante de grande poder de persuasão, recebia convites de várias entidades, não só para emitir pareceres e críticas ácidas aos atos dos poderes públicos como também propôr alternativas e soluções para problemas ambientais.
Os temas que mereceram destaque nas críticas de Lutzenberger são inúmeros. Porém, os mais significativos foram: a poda e o corte indiscriminado de árvores nas praças públicas e avenidas de Porto Alegre para dar lugar aos canteiros de concreto e viadutos que o progresso exigia, a campanha contra o uso de agrotóxicos nas lavouras, o despejo dos efluentes através do “emissário” nas águas do rio Guaíba, a religião do progresso com crescimento constante e o uso do PIB como índice de desenvolvimento, a explosão demográfica concorrendo para a exaustão dos recursos naturais e a energia nuclear como fator de poluição e negócio lucrativo das grandes potências.
Em 1990, foi convocado pelo presidente Collor de Melo, por sugestão do ex-ministro e deputado federal Carlos Chiarelli, para assumir o cargo de Secretário Especial do Meio Ambiente, mas não conseguiu resistir às controvérsias corriqueiras que costumam ser geradas no ambiente político. Seu afastamento do cargo foi questão de tempo. Conta ele, em entrevista a Bones & Hasse, como foi exonerado após uma viagem com a comitiva presidencial à Áustria:
“Um dia estávamos Collor e eu no gabinete do primeiro-ministro da Áustria. Naquela época era o Branitski. Aí, o Collor, naquele inglês todo enrolado dele, fez aquele discurso comum dos terceiro-mundistas: “Nós somos um país pobre. Estamos precisando da ajuda de vocês, países ricos”. Aí eu fiquei (sic) puto da vida, deixei eles falarem. Mas como ele sempre me dava a palavra depois, só olhei para trás para ver quem estava ali. Sempre tem uns caras do Itamarati junto. Tinham só dois deles que sabiam inglês, mas não sabiam alemão. Aí eu falei em alemão, e disse para o primeiro-ministro: “Olha, nós brasileiros temos um país incrivelmente rico. Vocês têm um território de 83 mil km2. O nosso território é de 8,5 milhões de km2, isto é, mais de 100 vezes maior que o de vocês. O território de vocês, (sic) metade é montanha gelada. Dá pra fazer ski e ganhar um pouco com o turismo. Aqueles lindos vales verdes de vocês são lindos, frutíferos, mas têm oito meses de vegetação por ano. A maior parte do Brasil, com exceção daqueles desertozinhos lá do Nordeste, têm doze meses de vegetação por ano. Nós temos um clima maravilhoso. Temos tudo quanto é recurso”. E o Collor só perguntando, não estava entendendo nada. E no fim eu disse: “Mas nós somos um país muito pobre. Incrivelmente pobre. Não se imagina como nós somos pobres em político decente”. Aí na saída, Collor me perguntou: “Lutz, por que o homem riu tanto?” Aí eu expliquei para ele o que tinha dito. O Collor deu uma risada amarela, e três semanas depois me mandou embora.”
Depois de se decepcionar com a experiência política vivida no governo Collor e com a incapacidade do poder público frente aos problemas concretos da destruição ambiental, Lutzenberger refugiou-se em seu sítio distante alguns quilômetros da capital gaúcha, no município de Pântano Grande. Ali procurou dedicar-se ao seu último grande projeto: a Fundação Gaia, que ainda hoje preserva sua memória e seus ensinamentos. O principal objetivo da fundação foi o apoio a agricultores interessados em desenvolver a agricultura ecológica.
Faleceu em 14 de maio de 2002, depois que várias crises de uma asma adquirida de maneira imprevisível, e que muitos creditam ao seu pouco cuidado com relação à saúde física, abreviaram sua vida.
Na produção literária era desorganizado, pois não possuía o hábito de reunir seus escritos para posterior publicação. Se atualmente existem obras suas publicadas, muito disso se deve a admiradores e colegas de militância que se preocuparam com a preservação de suas idéias; exceção feita ao “Fim do Futuro - Manifesto Ecológico Brasileiro” de 1976, com versão em espanhol pela Universidade de Los Andes na Venezuela em 1978, e que, segundo o autor, serviria de grito de alerta aos ecólogos, cientistas e pessoas preocupadas com os (sic) “iminentes perigos que a humanidade está para enfrentar”.
Um dos grandes responsáveis pela memória do trabalho de Lutzenberger, da AGAPAN e do movimento ambientalista surgido no sul do Brasil é o professor Augusto Cunha Carneiro. O incansável tesoureiro da antiga AGAPAN e ex-integrante do Partido Comunista, guarda na histórica rua da República, no centro de Porto Alegre, um verdadeiro tesouro em forma de biblioteca. Ali estão preservadas as raízes do movimento ambientalista que maior número de militantes mobilizou no país, desde seus primórdios.
Ao visitarmos as publicações do pensamento de Lutzenberger, além do “Manifesto Ecológico”, podemos destacar ainda: “Gaia – o Planeta Vivo” e “Ecologia – do Jardim ao Poder”. Estas duas últimas são coletâneas de artigos publicados em vários periódicos durante a vida do autor e compiladas por amigos e simpatizantes como Augusto Carneiro e a jornalista Lílian Dreyer.
Referências Bibliográficas:
BONES, Elmar, HASSE, Geraldo. Pioneiros da ecologia. Porto Alegre: Já Editores, 2002.CARNEIRO, Augusto Cunha, A historia do ambientalismo. Porto Alegre: Sagra Luzatto, 2003. LUTZENBERGER, José Antonio, Do jardim ao poder, 11.ed. Porto Alegre: L&PM, 2001._______________, Fim do futuro? manifesto ecológico brasileiro. 5.ed. Porto Alegre: Movimento, 1980. _______________, Gaia – o planeta vivo. 2.ed. Porto Alegre: L&PM, 1990.