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sábado, 29 de agosto de 2026

Por que razão a desigualdade social e a crise da habitação alimentam a ascensão do Chega em Portugal?


A perceção de que a desigualdade em Portugal possa ter abrandado resulta de uma confusão frequente entre a variação pontual dos rendimentos diários e o fosso abissal na acumulação de património. Embora o discurso político enfatize pequenos aumentos no salário mínimo, as análises do World Inequality Database revelam que a fratura social é profunda e estrutural. Em Portugal, a extrema concentração de recursos significa que o topo 10% mais rico controla entre 50% a 60% de toda a riqueza nacional, enquanto o 1% das elites económicas detém cerca de 20% do património total. No extremo oposto dessa balança, a metade mais pobre da população sobrevive com apenas 1% a 4% dos ativos do país, perpetuando um ciclo vicioso onde quem nasce sem património dificilmente consegue ascender socialmente.

Esta disparidade passa muitas vezes despercebida no debate público porque a cobertura mediática dá prioridade às métricas do Instituto Nacional de Estatística focadas na pobreza imediata e na folha de pagamentos mensal. Em contrapartida, os relatórios do Banco de Portugal e da OCDE expõem a realidade mais crua: a valorização imobiliária galopante pós-2015 enriqueceu desproporcionalmente os grandes proprietários e fundos de investimento, enquanto esmagava o poder de compra das famílias dependentes de um salário.

Durante o período em que este abismo social se cavou, o país foi governado pelo Partido Socialista (PS) sob a liderança de António Costa - através do XXI Governo Constitucional (2015–2019), do XXII Governo Constitucional (2019–2022) e do XXIII Governo Constitucional (2022–2024). Foi nesta fase que Portugal ultrapassou os Estados Unidos (em 2017/2018) e Espanha (em 2019/2020) na inacessibilidade à habitação. A estagnação salarial combinada com o custo de vida inflacionado deixou a classe média e os jovens sem qualquer perspetiva de mobilidade social, alimentando uma sensação sufocante de injustiça e abandono por parte do Estado.

Esta vulnerabilidade estrutural foi novamente posta em evidência nas previsões macroeconómicas e recomendações que a Comissão Europeia publicou no âmbito do Semestre Europeu. Nas suas diretrizes para o país, Bruxelas sublinhou a urgência de acelerar a execução dos fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) direcionados para a habitação acessível, o reforço da produtividade e a sustentabilidade das contas públicas perante o envelhecimento demográfico. A Comissão Europeia alertou ainda que, sem reformas profundas que melhorem a eficiência dos serviços públicos e incentivem investimentos de alto valor acrescentado, os ganhos de rendimento arriscam-se a ser absorvidos pela pressão inflacionista do mercado imobiliário e pelos custos de vida.

É precisamente no terreno fértil desta desigualdade social sufocante e da lenta resposta institucional que o Chega constrói a sua força eleitoral. A perceção de que o sistema protege as elites económicas enquanto a maioria da população luta para pagar a renda transformou a frustração num voto punitivo de rutura. Para travar a expansão do populismo, o PS e o PSD não podem limitar-se a gerir o status quo: têm de acolher estas recomendações europeias e combater diretamente as causas desta fratura, promovendo reformas profundas na habitação, na justiça e nos serviços públicos para devolver aos cidadãos a certeza de que o trabalho compensa mais do que o privilégio acumulado.

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sábado, 15 de agosto de 2026

As Mulheres da Nova Direita em Portugal - Bases Teóricas e Ameaça Democrática

A emergência de uma nova militância de mulheres conservadoras no espaço público português, vai mais além do   revisionismo do Movimento Nacional Feminista, do Estado Novo e tem como teorização o  manifesto, que passou para o livro Identidade e Família. Este movimento já arquitetado em meados de 2021, junto como o Manifesto Identidade e Família são duas faces da mesma moeda. Trata-se da reorganização de um Novo Conservadorismo que está a moldar a direita em Portugal e na Europa, combinando a mobilização jovem nas redes sociais com o resgate de velhos dogmas morais. Esta aliança une a linha da frente de novas bancadas e ativistas a uma elite intelectual, médica e católica tradicional. Por trás de uma estética moderna e de discursos que apelam a uma suposta "verdadeira emancipação", esconde-se uma estratégia para desmantelar conquistas sociais e, sobretudo, para branquear e apagar a herança de figuras históricas incontornáveis como Maria de Lourdes Pintasilgo.

A ascensão de quadros femininos no campo da nova direita - com destaque para deputadas do Chega como Rita Matias, e em linha com fenómenos europeus protagonizados por figuras como Giorgia Meloni em Itália - veio reconfigurar a paisagem política. Ao contrário do conservadorismo tradicional, estas protagonistas não recusam a presença pública da mulher. Pelo contrário, ocupam o palco político e usam redes digitais como o TikTok e o Instagram para defender que a "verdadeira liberdade" passa pelo regresso ao essencialismo biológico, pelo culto da maternidade e pela defesa intransigente da "família natural". O objetivo passa por disputar a narrativa dos direitos das mulheres, catalogando o feminismo moderno como um "dogma ideológico" e posicionando-se como guardiãs dos valores cristãos perante a secularização e a mudança demográfica.

Movimento de mulheres conservadoras aproxima Chega da agenda evangélica brasileira e do Novo Conservadorismo
Em Julho, o grupo juntou-se em Sintra para um evento que reuniu “mulheres conservadoras”. O lançamento oficial do movimento está anunciado para Novembro.
O pré-lançamento realizou-se a 11 de Julho, no Palácio Valenças, em Sintra, num espaço pertencente à Câmara Municipal. O encontro contou com a presença de deputadas do Chega, entre as quais Rita Matias, Cláudia Estevão e Madalena Cordeiro, e da deputada federal brasileira Priscila Costa, avançou o Diário de Notícias Brasil.
Entre as oradoras estiveram Teresa Nogueira Pinto, que integra o governo-sombra do Chega com a pasta da Cultura; Catarina Nicolau Campos, jurista e chefe de gabinete do grupo parlamentar do CDS-PP; e Rute Sousa, uma das oito influenciadoras que esteve em Israel a convite da Embaixada israelita em Portugal e que soma mais de 108 mil seguidores apenas no Instagram. Destaca-se também no centro com a credencial "REBECA" a jovem Rebeca Batista, uma das fundadoras/embaixadoras do movimento e dirigente de uma fundação evangélica internacional (The Foursquare Church).
Na apresentação das participantes, a organização fez também referência à maternidade e ao número de filhos.
O Movimento Mulheres Conservadoras Portugal ainda tem pouca informação pública disponível, mas, desde Junho, tem vindo a publicar conteúdos nas redes sociais. Entre eles está um vídeo de uma reunião com deputadas do Chega, realizada no gabinete do partido, na Assembleia da República.

A aproximação à direita brasileira ganha particular relevância pelo papel que as igrejas evangélicas desempenham no Brasil como importante base de apoio da direita e do bolsonarismo. Em Portugal, o Chega tem mantido contactos com comunidades evangélicas, mas não tem assumido, até agora, uma estratégia política especificamente dirigida a este eleitorado.

De acordo com os Censos de 2021, entre a população com mais de 15 anos residente em Portugal, cerca de 186 mil pessoas identificaram-se como “protestantes evangélicos”.

Também este movimento está associado internacionalmente aos movimentos pentecostais ou Pentecostalismo, ressurgido com mais intensidade na era MAGA, de Donald Trump (consultar embaixo os textos) 

É no centro desta disputa cultural que o novo ativismo conservador promove o apagamento do legado de Maria de Lourdes Pintasilgo. Primeira e única mulher a chefiar um Governo em Portugal e figura cimeira do movimento O Graal, Pintasilgo provou que a fé católica e o compromisso ético não exigem a submissão ao patriarcado nem o confinamento ao lar. Enquanto Pintasilgo defendeu que a emancipação das mulheres e a igualdade eram exigências do próprio Evangelho, recusando a maternidade como um destino único ou uma gaiola social, o movimento atual tenta colar a defesa da igualdade de género a um "marxismo cultural". Ao fazê-lo, estas novas frentes conservadoras omitem que a maior pioneira do feminismo e da igualdade política em Portugal foi uma mulher de fé católica, cuja ação assentava na libertação e na justiça social - e não na preservação da autoridade masculina ou do papel da dona de casa.

Se este novo ativismo feminino garante o impacto nas redes e  na rua, o livro Identidade e Família - coordenado por António Bagão Félix, Paulo Otero, Pedro Afonso e Victor Gil - serve de pilar doutrinário. A obra compila ensaios que contestam a dita "ideologia de género", o aborto, a eutanásia e o construtivismo social nas escolas. A apresentação da obra na livraria Buchholz por Pedro Passos Coelho, a par da comparência de dirigentes do CDS-PP e do Chega, evidenciou a capacidade deste movimento para cruzar pontes entre o centro-direita católico e a nova extrema-direita parlamentar.

Este processo insere-se numa vaga documentada em toda a Europa, visível na afirmação de lideranças femininas sob o lema "Sou mulher, sou mãe, sou cristã", na reação articulada contra a agenda woke em países como Espanha através do Vox, em França e na Europa Central, e na ligação a movimentos pró-vida das Américas, como a influência do CPAC ou do PL Mulher no Brasil.

Conclusão
A articulação entre a militância de novas mulheres conservadoras e a sustentação teórica do livro Identidade e Família demonstra que o Novo Conservadorismo em Portugal está estruturado. Ao usarem as ferramentas da modernidade para defender o regresso a valores tradicionais, estas frentes procuram reescrever a história recente do país. Contudo, ao fazê-lo, esbarram na memória que tentam branquear: a praxis de Maria de Lourdes Pintasilgo, a prova histórica de que ter fé e combater pela emancipação das mulheres continua a ser uma das maiores forças de libertação da democracia portuguesa.

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quarta-feira, 17 de junho de 2026

OVO - © 2012, Manel Cruz featuring Retimbrar, Sopa de Pedra, Renato Oliveira e Eduardo Silva


Da ideia antiga de fazer um concerto para pintainhos, em que estes eram o único público, e da ideia de assinalar o descontentamento social aquando da época do resgate financeiro a Portugal pela Troika, surgiu esta combinação. Eu tinha a música e a letra, como hino de contestação, e a hipótese de colocar 300 pintainhos a assistir à execução ao vivo da música. 
Os pintainhos ganharam este  significado metafórico do povo que apanha os grãos, e os músicos o de uma espécie de resistência secreta, que no vídeo oculta a identidade atrás de máscaras que fiz com materiais pobres e lixo. 
O áudio do videoclipe é do take original dessa atuação.

Letra
[verso 1]
Um é bom para fumar
Dois é bom para lamber
Três para dizer
Quatro é bom para falar
Cinco para ouvir
Seis para ir lá para trás
Sete eles sentem-se mais
Oito eles sabem que o são
Nove não cabem na cela
Dez rebentam com ela

[verso 2]
Vê se me deitas ouvidos
Enquanto o lume está brando
Não queremos a tua cabeça
Teus ouvidos e é tudo
O nosso povo aguenta
Mas eu não sei até quando

[verso 1]

[verso 3]
Ninguém tem a cara lavada
Todos brincamos na merda
Mas eu estou disposto a mudá-lo
Não estou disposto a comê-la

[verso 1]

Minha Análise
Este tema musical e a sua respetiva componente visual apresentam uma forte carga conceptual e etnográfica, típica dos projetos nos quais o músico português Manel Cruz, conhecido por projetos como Ornatos Violeta, Foge Foge Bandido e Pluto, se envolve. OVO é um tema originalmente concebido em 2012, reeditado nesta versão em parceria com vários nomes sonantes da música de matriz tradicional e experimental da cidade do Porto, como o Retimbrar, um coletivo portuense dedicado à exploração dos ritmos e da percussão tradicional portuguesa, como os bombos e as caixas, e o Sopa de Pedra, um grupo vocal dedicado ao canto polifónico a cappella que reinterpreta o cancioneiro popular com arranjos contemporâneos. A estes juntam-se os músicos Renato Oliveira e Eduardo Silva, que acrescentam densidade instrumental através de cordas e sopros.

A análise da letra e simbologia revela que esta assenta numa contagem progressiva e satírica do quotidiano social e das funções atribuídas a cada indivíduo numa célula ou sociedade. Cada número dita um comportamento pré-definido, visível em trechos como "Um é bom para fumar, dois é bom para lamber..." e "Nove não cabem na cela, dez rebentam com ela." A repetição do mantra final denota uma crítica à inércia e à resignação perante as dificuldades socioeconómicas, contrapondo a resiliência do povo com o limite das suas capacidades através da frase "O nosso povo aguenta, mas eu não sei até quando."

Em termos de videoclipe e estética visual, o vídeo decorre num pátio interior fechado, um típico ilhéu ou logradouro de um prédio antigo do Porto, filmado com perspetivas geométricas acentuadas que transmitem uma sensação de claustrofobia. Entre os elementos visuais chave destacam-se os intérpretes mascarados, com os músicos a surgirem vestidos com sacos de sarapilheira, máscaras de cartão, funis de plástico na cabeça e fatos pretos e cinzentos, uma escolha estética que remete tanto para rituais pagãos do solstício e do entrudo, como os caretos, como para uma desumanização e anonimato provocados pelo isolamento urbano. Outro elemento central são as galinhas e os pintainhos, mostrando o fundo do pátio repleto de aves que debicam o chão, cercadas por tijolos partidos e aparas de madeira, simbolizando um ambiente de capoeira onde todos os seres vivos estão enclausurados e à mercê de forças externas. Assiste-se ainda à chuva de notas, onde a meio da performance começam a cair notas falsas das janelas superiores que as aves pisam sem compreender o seu valor, funcionando esta imagem como uma alegoria explícita ao sistema monetário, à crise e à desvalorização da dignidade humana. Em resumo, a fusão da percussão estridente do Retimbrar com as harmonias vocais das Sopa de Pedra transforma OVO num manifesto cénico poderoso, misturando o folclore rural com a decadência e a contestação urbana.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

O Prémio ao Cimento: Cavaco Silva e o "Whitewashing" à Europeia


Bom dia. Acordei a meio da noite para ir à casa de banho e, na ingenuidade de quem acha que consegue controlar tudo (inclusive o tempo), dei uma espreitadela no telemóvel com o intuito de voltar a adormecer... O resto é algo que podem imaginar — algumas horas de sono perdidas. Li esta notícia: "
Cavaco Silva condecorado com a Ordem Europeia do Mérito em Estrasburgo" - fui de imediato ver se era alguma partida de 1 de abril ou mais uma "exclusividade" da edição digital da Folha Nacional - que, para quem anda distraído, é o jornal oficial e o órgão de propaganda do partido Chega. Mas nem uma coisa, nem outra. Aconteceu mesmo!
Logo hoje, que eu ia usar o meu precioso tempo para falar das escolhas (fortemente questionáveis) do selecionador nacional para o Mundial de 2026... Quero que saibam que estou desde as 05:30 (e já passa das 08:00!) a escrever este texto. Porquê? Porque me dei ao hercúleo trabalho de procurar algo que este homem tenha feito para merecer tamanha distinção. Confesso que de pouca coisa me lembrava; tive de fazer arqueologia política, escavar muito numa rocha a que chamam de Google, isto para não fazer má figura, nem enganar ninguém.
Meus amigos, aconteceu terça-feira, na cidade de Estrasburgo, França, Europa — a uns 2.000 quilómetros de Lisboa. No meio de palminhas ensaiadas e sorrisos amarelos, a Múmia de Boliqueime — aquele ser de uma modéstia ímpar que dizia que "nunca tinha dúvidas e raramente se enganava" — recebeu uma medalha do tamanho do seu ego chamada Ordem Europeia do Mérito. Sim, deram-lhe um prémio daqueles grandes, com fitinha dourada e tudo!
E quem melhor para receber um prémio da Europa do que o nosso Doutor Alcatrão, o homem que transformou Portugal num parque de estacionamento gigante? A escolha foi feita por um júri de líderes europeus e, vejam bem a ironia, um deles era Durão Barroso. Alguém que não o conhece de lado nenhum, nem nunca tinha ouvido falar dele, decidiu dar nota positiva ao morto-vivo da nossa política. E lá estava ele, parecia preso por arames (pelas fotos que acompanham a notícia), a receber a medalha ao lado de figuras de relevo mundial, como a alemã Angela Merkel — a "Chanceler de Ferro", também conhecida por "Mamãzinha" no tempo em que controlava os seus subalternos europeus. Imagino a conversa de circunstância em "bom alemão"...
Se bem se lembram, enquanto os outros mandavam de facto nos seus países, o "Bolo Rei" do nosso orçamento limitou-se a gerir o alcatrão de estradas como a A1 e a EN125. Os chefes da Europa acham que ele mereceu o prémio por nos enfiar na UE, mas nós cá na paróquia lembramo-nos bem do que ele fez nos anos 80 e 90 — pormenores que a medalha finge esquecer. Foi a autêntica loucura do betão. Entrou tanto dinheiro vindo de Bruxelas e, em vez de modernizar o país, construir escolas de futuro e hospitais, o agora medalhado gastou quase tudo em autoestradas para podermos viajar mais depressa e gastarmos mais combustível.
Depois, veio o crime no setor primário: o governo aceitou as ordens de Bruxelas de cabeça baixa e trocou os nossos barcos e campos por subsídios para pescadores e agricultores ficarem em casa a ver as telenovelas. O interior esvaziou e passámos a comprar tomates a Espanha com o dinheiro que vinha de fora (porque os nossos já tinham ido à vida). Ainda hoje não os temos.
Para além disso, privatizou bancos e empresas estatais quase às escondidas, num número  de magia financeiro. E quem esquece aquele feitio altivo, com laivos pidescos? Um chefe teimoso e prepotente que ignorou a revolta do buzinão da Ponte 25 de Abril e os protestos dos estudantes contra as propinas. A brilhante ideia de mandar polícias avançar à força contra os seus próprios colegas - a que deram  ao episódio os "Secos e Molhados" — um espetáculo absolutamente lastimável. E, claro, como o homem gostava de silêncio, houve até espaço para a censura, ao proibir um livro do nosso único Nobel da Literatura, José Saramago.
Não esquecendo que essa múmia também não quis dar uma pensão a Salgueiro Maia. Não esquecendo que essa múmia também, umas semanas antes do BES ter entrado em falência, disse sem hesitação que o BES era um banco seguro. E por coincidência o genro dele de nome António Montez ganhou a compra, por proposta em "carta fechada" da atual MEO Arena, quando essa personagem estava falida. 
Durante os seus mandatos presidenciais, a par da governação PSD/CDS-PP liderada por Passos Coelho, o país implementou as duras medidas de austeridade associadas ao resgate da Troika, um rumo que Cavaco Silva chancelou. 
Mas a internet não perdoa e o timing é cruel. Enquanto o para mim "inexpressivo de Boliqueime" subia ao palco todo vaidoso a receber o metal, o feed das redes sociais dava atenção a um jovem, em França, que saltou para um rio perigoso para salvar um pato bebé. A piada faz-se mesmo sozinha: um rapaz arrisca a vida por um patinho indefeso, enquanto a Europa dá uma medalha de ouro ao agora surdo-mudo Cavaco - o homem que usou a força do cimento para empurrar a nossa agricultura e a nossa pesca para o fundo do poço.
Parabéns! Eu não, mas a Europa agradece penhoradamente por nos teres deixado permanentemente agarrados ao soro deles.
Texto adaptado de Luís Santos

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Rio sabe bem falar chegano


Na entrevista desta semana à TVI, Rui Rio esclareceu o seu acordo com a extrema-direita: o líder do PSD concorda mesmo com as quatro propostas feitas pelo Chega para apoiar o Governo da direita. Ao mesmo tempo que declarava que um Governo liderado por si “nunca dependerá da extrema-direita”, Rio adotava já as categorias do Chega na descrição e classificação da realidade. Reagindo com nervosismo às perguntas dos jornalistas, o momento não deixa de ser impressionante pela prova de fraqueza: Rio não apenas depende do apoio do Chega nos Açores, como reproduz os termos de debate escolhidos pela extrema-direita sobre a pobreza e a sociedade.

Os pontos negociais de Ventura, já se sabe, são atoardas retóricas sem qualquer credibilidade nem concretização: “diminuir a subsidiodependência”; um “gabinete contra a corrupção”; “diminuir deputados” (decisão que nem depende do Parlamento açoriano); “aprofundar a autonomia”. Confirmam, no fundo, o quanto aquele se move por propaganda e não por propostas, por oportunismo e não por qualquer coerência programática, permitindo-se dar o dito por não dito em troca da inscrição de alguns slogans no programa do governo açoriano. Mas o facto de o PSD, através do seu líder, reproduzir nas suas intervenções esses termos revela uma desorientação que é também uma reorientação do posicionamento do partido.

O caso do RSI é um clássico dessa retórica, que contrasta com a realidade que os números traduzem. Num arquipélago em que deveria ser central o combate à pobreza (articulando apoios sociais com investimento em emprego, educação, habitação…), o PSD aceitou substituí-lo retoricamente pelo combate aos pobres. Como se a redução administrativa de um apoio social que tem o valor de 86 euros por mês nos Açores (sim, é este o valor médio do RSI no arquipélago, por beneficiário, o mais baixo de todo o país, já agora) resolvesse alguma coisa além de aumentar o sofrimento e a privação absoluta dos mais miseráveis. Com várias agravantes. Cerca de um terço dos beneficiários do RSI nos Açores são crianças menores de idade, que não poderiam em nenhuma circunstância trabalhar. Uma boa parte dos beneficiários adultos são mulheres, muitas delas cuidadoras informais, que só por insulto se pode dizer que “não trabalham”, mesmo que não tenham emprego nem remuneração pelos cuidados que prestam a crianças, idosos e pessoas dependentes. E quase 10% dos beneficiários do RSI tem rendimentos do trabalho, mas recebe tão pouco nos biscates precários, nos empregos sazonais ou nas tarefas pontuais que encontra que continua a precisar do RSI – sobretudo, para que os seus filhos não passem fome.

Ouvimos a Rui Rio alguma palavra sobre investimento em educação, reconhecimento das cuidadoras ou mudança de paradigma da economia local? Nada. Zero. Só o preconceito, a desinformação e a culpabilização dos pobres. Como a extrema-direita, nenhum beliscão nos poderes e nas elites económicas que vivem, essas sim, de uma cultura de dependência em relação ao Estado, numa economia em que, até pela insularidade e pela condição ultraperiférica da região, não há praticamente nenhum setor (da agricultura ao turismo ou à indústria) que não receba apoios públicos.

Para quem é do Porto, talvez a entrevista de Rio tenha sido menos surpreendente. A retórica sobre os “subsidiodependentes” foi uma constante nos seus mandatos à frente da Câmara, usada contra os pobres e contra os trabalhadores das artes. Rio mandou expulsar moradores do São João de Deus, do Cerco, do Bacelo e demoliu bairros pobres com o argumento da “luta contra a droga”, mas o negócio da droga ficou intocado e redução de riscos nem vê-la (ainda hoje se vivem as consequências dramáticas da irresponsável demolição do Aleixo e da ausência de políticas públicas nesta área, que fez migrar o tráfico, descontroladamente, para a Pasteleira). Nas artes, procurou silenciar os coletivos artísticos, acabou com os apoios aos criadores e com a agenda cultural, concessionou a La Féria o teatro municipal – ao mesmo tempo que canalizava milhares de euros do orçamento municipal para financiar corridas de carros e de aviões. Abriu guerra aos jornais – Público e Jornal de Notícias – pedindo a demissão de jornalistas e utilizando o site da Câmara para intimidá-los. Alienou património público como nunca fora feito. Tudo isto foi acompanhado com pormenores de cinismo, como a célebre viagem de barco pelo rio Douro para abrir uma garrafa de champanhe com os convivas enquanto as torres do Aleixo eram demolidas e, em terra, mulheres gritavam de raiva ao ver a sua casa demolida, homens choravam com o espetáculo e as crianças assistiam atónitas ao que acontecia.

Rio conta, até agora, com um quase silêncio nas estruturas do PSD (com honrosas exceções como a de Moreira da Silva), com o apoio excitado de liberais como João Miguel Tavares (para quem os princípios democráticos devem ser interrompidos face ao objetivo de chegar ao poder) e com o entusiasmo da ala radical dos apoiantes de Passos Coelho (sempre de olhos no pote). Resta saber se, aceitando as categorias de pensamento do Chega sobre a perseguição aos pobres, não se demarcando das tiradas racistas de Ventura (como a desta semana), alienando os votantes do centro político e legitimando a extrema-direita como parte de uma solução comum, Rio não estará mesmo a ditar a sua própria sentença. É que tudo isto não faz um projeto. Faz um buraco.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

As contradições absurdas do capitalismo


Actualização: Passos admite concessionar escolas públicas a privados. E, grave, mesmo gravíssimo porque não haverá retorno possível, será a concessão/privatização do ensino superior.

Estes pupilos Passos Coelho, Relvas, Nuno Crato e Gaspar são neo-salazaristas e retrógrados, impondo cegamente um regime sanguinário. A União Europeia está mergulhada num merkelismo sem precedentes. O tempo está negro. A luz (ainda) é a sustentabilidade.
"Só serei verdadeiramente livre quando todos os seres humanos que me cercam, homens e mulheres, forem igualmente livres, de modo que quanto mais numerosos forem os homens livres que me rodeiam e quanto mais profunda e maior for a sua liberdade, tanto mais vasta, mais profunda e maior será a minha liberdade." - Mikhail Bakunin
Bom dia- faça o seu contributo por mais liberdade- liberte-se!

sábado, 22 de setembro de 2012

No Dia Mundial Sem Carros

Devolvam as nossas vidas! Mais eficiência não significa egoísmo social nem novas formas de fascismo!

Maria Anicas, seis anos a faltar para os cem, veio de Almodôvar – “a pé não, que já não conseguia”. Foi uma dos milhares de manifestantes que estiveram ontem frente à Presidência da República para protestar, enquanto se realizava o Conselho de Estado. Na mão um cartaz – “Acorda” – e meio a dançar, Maria Anicas tentou passar o cordão policial. Sem sucesso. “Quero ir para o pé dos gatunos! Queria ver o [Passos] Coelho lá na minha terra na época da caça”, diz. Vai a manifestações há 40 anos porque, diz, “não se pode acomodar”. E também porque não tem “dinheiro para comer, nem sequer para ir ao médico”.[fonte: IOnline]


A Ler
Há alternativa (por Paulo Morais)
A austeridade que fustiga os portugueses, com aumento de impostos e redução de salários, é perfeitamente evitável. Desde que o governo opte por outro tipo de medidas, que penalize menos os cidadãos e as empresas, retire privilégios aos poderosos e altere de facto a estrutura de despesas do Estado.

Acordem...sem descanso...Quando um agente na linha da frente, rosto no rosto com o povo de que é filho, murmura entredentes A Portuguesa e chora...sabemos que chegará A Manhã. Há um ano foi assim em Wall Street. Um aviso. Uma inspiração. 'Juntem-se a nós!' Mantenham-se no Palácio de Belém, Assembleia da República, instalações do FMI, etc...vigílias e acampamentos.

 "É Impossível que o Tempo Actual não Seja o Amanhecer doutra Era"~ Miguel Torga

Boas vibrasons com Sainkho...uma nómada entre nómadas. A vida pode e deve ser mais simples.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Desmercadorizar

Retirada do Politeia
Nem a propósito do que já escrevi aqui

Fui à manifestação 19 de Junho no Porto...uma decepção: nada organizado, tímida, tímida.Pouca gente. Bem, nem comentei nas redes sociais nem no blogue, mas só agora, porque já "digeri" o momento.

Será que caímos em Portugal na clicodemocracia de vez? Do faz de conta da "democracia" do sofá? Não falar nada deste roubo legalizado e maldade em todo o lado ? Ou afinal os "indignados" portugueses ainda contam com a fundação pais? Que não confiem nos políticos, já não gostem dos sindicatos, já não acreditam nas cooperativas, então estão à espera de quê? Que se lhes ofereçam tudo, e não fazerem nada- nadismo? Ou então estarão à espera de ser um Mourinho ou Ronaldo? Ou na esperança em chegar à política através de um carreirismo profisisonalizante como temos actualmente a lição final de dois diletantes licenciados e que chegaram um a PM: Passos Coelho e outro a braço direito: Miguel Relvas.
Ou então submetidos a um cinismo reinante, fruto de massificação explosiva de publicidade e vida consumista que lhes retirou a força de encarar a vida no TODO, com TODOS e para TODOS seres vivos humanos e não humanos!
Vejam os filmes

E leiam a crónica de Boaventura dos Santo embaixo.
Se nada fizermos...será tarde demais.

Segunda feira, 6 de Jun de 2011

Desmercadorizar é um imperativo incontornável na busca de uma sociedade melhor. Sobrepostas às crises financeira, económica e social que acompanham o capitalismo desde o seu início, as crises ecológica, energética e alimentar vieram conferir um grau de convicção maior a algumas constatações que até agora não tinham merecido a atenção do cidadão comum. Eis algumas dessas constatações.

Primeiro, conceber o desenvolvimento como crescimento infinito assente na apropriação intensa da natureza é uma conceção que nos conduz ao desastre. A natureza está dar múltiplos sinais de que os seus ciclos de regeneração vital têm vindo a ser violados muito para além do que é sustentável. A natureza aguenta bem o uso por parte dos humanos mas não o abuso. O planeta não é inesgotável. O estilo de vida nos países desenvolvidos é energívoro e submete as energias não renováveis a uma pressão insustentável.

Segundo, a redução do bem-estar ao bem-estar material, baseado no consumo de bens disponíveis no mercado, deixa de lado muitas dimensões da vida (a espiritualidade, o cuidado, a solidariedade, os valores éticos) essenciais ao florescimento humano. Tornam-se necessários outros indicadores de bem-estar.

Soa hoje menos absurda ou exótica a iniciativa de um pequeno país budista entalado nos Himalaias, Butão, que, em 1972, decidiu criar um índice de Felicidade Interna Bruta (por analogia com Produto Interno Bruto) para medir o desenvolvimento humano com base nos valores da sua cultura.

Terceiro, como qualquer outro fenómeno histórico, se o capitalismo teve um início, certamente terá um fim. Aliás, a crise ecológica está a mudar os termos dos desafios que enfrentamos: se o problema não for o de saber se o capitalismo sobreviverá, é certamente o de saber se sobreviveremos ao capitalismo.

Quarto, o capitalismo, por mais dominante, não conseguiu nunca erradicar totalmente outras lógicas de relações económicas que não passam nem pela acumulação infinita de riqueza nem pelo lucro a qualquer preço; essas lógicas (algumas existiam antes do capitalismo e sobreviveram, outras surgiram com o capitalismo e para lhe resistir) contêm um repertório de inovação social e económica que pode ser precioso num contexto em que se aprofundam as crises social, ecológica, alimentar e energética.

Refira-se, a título de exemplo, o conceito de "viver bem", Sumak Kawsay em quéchua, que os indígenas do Equador lograram transformar em imperativo constitucional, ao mesmo que atribuíram à natureza (Pachamama, a terra mãe) a titularidade de direitos próprios dela e não dos humanos.

Desmercadorizar significa impedir que a economia de mercado estenda o seu âmbito a tal ponto que transforme a sociedade no seu todo numa sociedade de mercado, numa sociedade onde tudo se compra e tudo se vende, inclusive os valores éticos e as opções políticas.

O imperativo de desmercadorizar envolve a promoção do mais amplo conjunto de iniciativas, muitas delas já testadas pelo tempo e pela capacidade de criar bem-estar para os que nelas participam. Com algumas adaptações, as propostas pela desfinanceirização da Europa estão hoje a ser avançadas a nível mundial.

Constituem um dos núcleos centrais do objetivo de desmercadorizar a vida pessoal, social, política, cultural.

Com o mesmo objetivo, muitas outras propostas e iniciativas têm vindo a ser apresentadas. Fazem parte da consciência antecipatória do mundo e vão esperando a hora da vontade política para as levar à prática. Entre muitíssimas outras, eis algumas:
  • Promover formas de economia social tais como cooperativas, economia solidária, sistemas de entreajuda e de troca de tempo e de trabalho
  • Submeter ao controlo público (não necessariamente estatal) democrático (não burocrático) a exploração e gestão de recursos e de serviços essenciais ou estratégicos
  • Desmercadorizar a natureza na medida do possível - de que é bom exemplo o pacto internacional da água, há algum tempo em discussão -promovendo uma nova relação entre seres humanos e natureza assente na ideia de que os primeiros são parte da segunda (não existem à parte dela) e que por isso deverão respeitar os ciclos vitais de regeneração da natureza, sob pena de suicídio coletivo
  • Definir uma nova geração de direitos fundamentais: os direitos da natureza, os direitos humanos à água, à terra, à biodiversidade e a consequente consagração de novos bens comuns insuscetíveis de serem privatizados
  • Interditar a especulação financeira sobre a terra e os produtos alimentares a fim de evitar a concentração de terra (está em curso uma contrarreforma agrária) e a subida artificial dos preços dos alimentos
  • Transformar a soberania alimentar em eixo de políticas agrárias para que os países deixem de ser, na medida do possível, dependentes da importação de alimentos
  • Regular estritamente os agrocombustiveis pelo impacto que têm na segurança alimentar e na soberania alimentar. O impacto destes projectos na agricultura e na vida dos camponeses não é difícil de imaginar
  • Aumentar a vida média dos produtos manufaturados. Um carro ou uma lâmpada podem durar muito mais tempo sem acréscimo de custos
  • Tributar de forma agravada alguns produtos agrícolas que viajam mais de 1000 km entre o produtor e o consumidor, criando com a arrecadação um fundo para apoiar o desenvolvimento local dos países menos desenvolvidos -Incluir a diminuição do tempo de trabalho entre as políticas de promoção de emprego
  • Proibir o patenteamento de saberes tradicionais e reduzir drasticamente a vigência de direitos de propriedade intelectual na área dos produtos farmacêuticos e agrícolas
  • Aproveitar ao máximo as potencialidades democráticas da revolução digital para promover uma cultura livre que recompense coletivamente a criatividade de artistas e investigadores, generalizando a inovadora experiência do movimento do Open Source Software, e da Wikipedia.
Estas são algumas imagens da consciência antecipatória do mundo.
Dir-se-á que são utópicas ou eivadas de romantismo. Sem dúvida. Mas devemos ter em conta algumas cautelas ao estigmatizar a utopia. Muitas destas propostas, quando detalhadas tecnicamente, dispõem de medidas de transição e são susceptíveis de aplicações parciais.

Acresce que uma ideia inovadora é sempre utópica antes de se transformar em realidade. Finalmente, porque muitos dos nossos sonhos foram reduzidos ao que existe e o que existe é muitas vezes um pesadelo, ser utópico é a maneira mais consistente de ser realista no início do século XXI.