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domingo, 12 de julho de 2026

MARO - Kiss me (Lyric Video)


A "KISS ME" funciona como uma cápsula do tempo muito específica, que se apoia mais na criação de uma atmosfera do que em referências intelectuais explícitas. Se pensarmos no cinema, a música carrega exatamente a mesma melancolia enevoada e o isolamento urbano que a Sofia Coppola filma, lembrando aquela sensação de Lost in Translation de estarmos num quarto de hotel a ver o mundo a passar lá fora enquanto nos ligamos a alguém a um nível quase tátil. O vídeo lírico, com aquela textura que remete para o VHS ou para a película antiga, reforça esse apelo à nostalgia visual, quase como se estivéssemos a ver um filme do movimento Mumblecore, focado no hiper-realismo dos silêncios e das conversas espontâneas de madrugada.

Filosoficamente, a abordagem é puramente existencialista, mas sem a densidade académica. Quando a letra pede para esquecermos o passado e vivermos aquilo como se fosse o último dia, há uma urgência discreta em focar no "eterno agora". É uma forma de romantismo cru, herdeira daquela ideia do século XIX da entrega total ao outro como única âncora de salvação no meio do caos, misturada com uma sensibilidade moderna sobre a impermanência das coisas. A escrita não tenta ser um romance denso ou uma poesia cheia de metáforas complexas; ela prefere a honestidade das palavras banais — o sorriso, o sono, a mente — para criar uma intimidade imediata. No fundo, a grande inspiração da música acaba por ser o próprio tempo e a forma como decidimos desacelerá-lo para caber dentro de um abraço.

"KISS ME" é um manifesto sobre a vulnerabilidade e o desejo de suspender o tempo através da intimidade. A canção funciona como um pedido de tréguas ao mundo exterior, focando-se na criação de um espaço seguro onde duas pessoas se despem das suas bagagens, das ansiedades e do peso do passado para existirem apenas no presente.

Há uma dualidade muito bonita na letra: ao mesmo tempo que existe uma entrega cega e romântica - quase uma promessa de fuga absoluta onde se aceita ir para qualquer lugar desde que seja em conjunto -, há também um apego ao mais simples e mundano dos gestos quotidianos, como o beijo mesmo antes de adormecer ou o riso partilhado que já não se consegue esconder.

Mais do que uma simples canção de amor, o significado de "KISS ME" reside nessa urgência de desacelerar. Num mundo onde tudo muda demasiado depressa, o amor ali é retratado como o único porto de abrigo possível, um pacto silencioso de proteção mútua onde o maior luxo é poder partilhar os pensamentos da madrugada sem medo de julgamentos. É uma música sobre encontrar a imensidão nos detalhes mais pequenos e silenciosos de uma relação.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Trentemøller: In The Gloaming

Melhor som aqui
Letra
[Chorus]
You draw me in
You pull me down
A rose behind all those many thorns

[Verse 1]
Tears of a silent rain falling
Leading me back to you
Through the dusk, into the dark night

[Chorus]
You draw me in
You pull me down
A rose behind all those many thorns

[Bridge]
In the gloaming
All the shadows, they fall
In the moonlight
All the stars are aligned
For you
For me
For us to see

[Chorus]
You draw me in
You pull me down
A rose behind all those many thorns

[Verse 2]
In the gloaming
In the twilight
Will I find a way?

[Chorus]
You draw me in
You pull me down
A rose behind all those many thorns

Em relação à nacionalidade, o projeto é dinamarquês, já que Anders Trentemøller nasceu em Copenhague, na Dinamarca, e toda a produção e base do seu selo independente, In My Room, estão sediadas lá. Quanto às colaborações, a grande parceira desta faixa e de boa parte do álbum é a cantora e guitarrista dinamarquesa Lisbet Fritze, ex-membro da banda Giana Factory, que assume a responsabilidade pela voz etérea e flutuante que guia a melodia da canção, além de colaborar de perto nos arranjos de guitarra com Trentemøller. 
No estilo musical, a música marca uma consolidação da transição do artista, que começou na música eletrônica minimalista e no techno, migrando para sonoridades mais orgânicas e analógicas. Dessa forma, o estilo de "In The Gloaming" pode ser classificado como Dream Pop ou Space Pop, devido às linhas de sintetizadores brilhantes e vocais enevoados que remetem a bandas clássicas como Cocteau Twins, e também como Shoegaze ou Post-Punk, pelo uso de guitarras marcantes com muito reverb e linhas de baixo melódicas e proeminentes, com forte influência de bandas dos anos 80 e início dos 90, como The Cure e o selo 4AD. 
Sobre o significado da canção, o termo "Gloaming" significa o crepúsculo ou a hora do lusco-fusco, que é aquele momento de transição exato entre o fim do dia e o início da noite. Liricamente, a canção usa essa metáfora do entardecer para falar sobre transição, impermanência e o esmaecer de um relacionamento. Segundo o próprio Trentemøller, a letra é aberta e abstrata, funcionando quase como uma pintura para complementar a música, retratando a ambiguidade de um amor que está esfriando, como uma rosa por trás de tantos espinhos, a sensação de perda iminente, mas também a busca por uma luz ou guia para atravessar esse momento de escuridão, equilibrando melancolia e um romantismo sombrio. 
Por fim, a mensagem do vídeo mostra que o videoclipe oficial captura perfeitamente essa estética alucinógena e melancólica do crepúsculo, brincando visualmente com o conceito de liminaridade, que é o espaço entre dois estados, como a vigília e o sonho, ou a luz e a sombra. A mensagem do vídeo gira em torno do isolamento e da introspecção, de modo que, através de imagens granuladas, contrastes de luz desfocada e cores frias intercaladas com lampejos de luz quente, o clipe transmite a sensação de que o tempo está desacelerando, espelhando visualmente a jornada emocional da música e o sentimento de estar perdido nos seus próprios pensamentos, olhando para o espaço, enquanto o mundo ao redor mergulha na noite para simbolizar o fim de um ciclo ou o momento exato em que aceitamos que algo chegou ao fim.

Embora o videoclipe de "In The Gloaming" não seja um documentário sobre a natureza ou mostre florestas tropicais exuberantes, a biofilia faz-se presente de forma subtil, poética e melancólica. Trentemøller usa a relação com os elementos naturais para traduzir o estado psicológico das personagens, surgindo no vídeo através de três aspetos principais.

Primeiramente, o crepúsculo surge como um elemento vital, associado à hora do lusco-fusco, visto que a biofilia dita que respondemos biologicamente aos ciclos da Terra e ao ritmo circadiano. O teledisco é inteiramente focado na transição da luz do dia para a escuridão da noite, pelo que o ambiente natural do entardecer, com o sol a sumir no horizonte e a mudar a tonalidade do céu, não é apenas um fundo fotográfico, mas sim algo que dita o ritmo desacelerado, a introspecção e o sentimento de recolhimento das personagens, retratando o ser humano a reagir emocionalmente a um fenómeno natural.

Em segundo lugar, destacam-se os ambientes naturais nórdicos e o isolamento, dado que o vídeo se passa em grande parte ao ar livre, mostrando paisagens típicas da Escandinávia, como praias desertas, o mar cinzento, campos abertos e o vento constante. Existe aqui um contraste biofílico muito claro, pois as personagens parecem perdidas ou distantes quando estão em espaços fechados, sendo precisamente quando vão para a natureza, como a praia e o campo aberto, que parecem processar os seus sentimentos de forma mais profunda, funcionando a imensidão do mar e do céu como um espelho para o vazio ou a melancolia que sentem por dentro.

Por último, verifica-se o embate entre a luz orgânica e a luz artificial, com o teledisco a abusar de texturas visuais e a focar-se imenso na forma como a luz natural, vinda do sol poente e dos reflexos na água, bate na lente da câmara, gerando feixes de luz desfocados, conhecidos como lens flares. Esta busca por texturas orgânicas e imperfeitas da luz natural constitui uma forma de design biofílico visual que gera uma sensação de calor, presença e nostalgia que a luz artificial e fria de um estúdio jamais conseguiria replicar.

Concluindo, o veredicto aponta que, no vídeo, a biofilia não aparece como uma celebração alegre da vida selvagem, mas sim como uma ligação visceral e melancólica com a impermanência da natureza, onde as personagens procuram o isolamento no mundo natural para conseguirem digerir o fim de um ciclo afetivo.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Mild Orange - This Kinda Day

Keep moving
To the out-lies
Of your head

Like an ocean
So often
In change

Yeah it's this kinda day
For a long kinda night
Yeah it's this kinda day
For a long kinda night

Let it getaway
Let's get away

'Cause I can tell there's something wrong
Usually it's not like this
All these things inside of our heads
Are okay - this moment too
Will all make sense someday

Keep your eye on
The horizon
Always

'Cause I can tell there's something wrong
And usually it's not like this
All these things inside of our heads
Are okay - this moment too
Will all pass someday
It's not like you're always like this
Remember how it felt moving forward
But for now - this moment too
Will all make sense someday

Yeah it's this kinda day
For a long kinda night
Yeah it's this kinda day
For a long kinda night

Let it getaway
Let's get away

'Cause I can tell there's something wrong
And usually it's not like this
All these things inside of our heads
Are okay - this moment too
Will all pass someday
It's not like you're always like this
Remember how it felt moving forward
But for now - this moment too
Will all make sense someday
It's not like you're always like this
Remember how it felt moving forward
But for now - this moment too
Will all make sense someday

Significado
Com uma letra minimalista e repetitiva, a canção aborda a importância da pausa, da autorreflexão e da gratidão. O eu lírico descreve o ato de deitar-se ao sol e refletir sobre as próprias ações passadas, concluindo que a paz daquele dia específico desperta uma vontade incontrolável de dizer "eu te amo". Longe de ser apenas uma declaração romântica tradicional, o refrão funciona como uma expressão de amor à vida, ao momento presente e à sensação de contentamento puro.

O videoclipe da música, dirigido por Simon Oliver e pelo vocalista Josh Mehrtens, aprofunda esse conceito ao explorar visualmente o contraste entre a monotonia do isolamento urbano e a libertação proporcionada pela natureza e pelos laços comunitários. Filmado com uma estética analógica e vintage que evoca nostalgia, o vídeo acompanha jovens que deixam suas rotinas solitárias e fechadas para se moverem em direção às paisagens naturais da Nova Zelândia, como praias e colinas verdes. O foco em elementos sensoriais, como a luz do sol e o vento, culmina na reunião desse grupo de amigos na praia. Assim, o videoclipe transforma a faixa num manifesto sobre saúde mental e desaceleração, sugerindo que a cura para os dias pesados está na reconexão com o mundo natural e na celebração das conexões humanas simples e genuínas.


"Estivemos recentemente em confinamento na Nova Zelândia e o tempo estava deslumbrante, por isso montámos o nosso estúdio no jardim e gravámos esta pequena sessão ao vivo enquanto convivíamos com os pássaros, as borboletas e... os dinossauros. A vida selvagem na Nova Zelândia é simplesmente excecional. Aproveitem"

sábado, 23 de maio de 2026

Ailton Krenak e Satish Kumar: Shiva e o beija-flor


O diálogo entre Ailton Krenak e Satish Kumar gira em torno de uma crítica profunda ao modelo de civilização ocidental, propondo uma reconexão com a vida na sua totalidade.

As questões são abordadas através dos seguintes tópicos:

1.O Silêncio como Refúgio: A discussão começa com a necessidade de escapar do ruído e da violência das metrópoles modernas. Krenak cita a cultura Guarani e o conceito de se refugiar numa "Mata Escura" interna, uma forma de meditação livre para silenciar o ambiente e permitir a aprendizagem.

2.A Desconstrução do Conceito de "Natureza": Os pensadores criticam a forma como a sociedade de consumo mercantilizou e "cosmetizou" o meio ambiente para vender produtos. Krenak aponta que a palavra "natureza" é uma invenção da modernidade e não existe nas línguas indígenas; para os povos originários, não há separação, pois tudo faz parte de um mesmo corpo comunitário ("eu mesmo e os meus parentes").

3.A Crítica ao Utilitarismo Económico: Satish Kumar debate como o sistema industrial e a educação moderna reduziram o planeta a um mero "recurso económico" para gerar lucro. Esta lógica de exploração coisificou tudo, transformando inclusivamente as pessoas em "recursos humanos".

4.O Princípio da Vida Integrada: Baseando-se na filosofia de que tudo o que é natural está vivo, Krenak usa a metáfora da lagarta que se transforma em borboleta para ilustrar como a vida é uma força cósmica contínua que atravessa diferentes corpos e estruturas, sem divisões.

5.A Parábola do Beija-Flor: Diante do cenário de destruição global, utilizam a história do beija-flor que carrega gotas de água no bico para apagar um incêndio na floresta. A metáfora serve para justificar o ato de resistir e cultivar pequenos espaços de consciência, mesmo que pareça impossível reverter sozinhos o estrago feito pelas indústrias e pelo capitalismo.

6.A Manipulação da Linguagem e a Tecnologia: Krenak expressa preocupação com as novas ferramentas tecnológicas e a inteligência artificial corporativa. Para ele, as grandes corporações usam estes meios para disparar mensagens em massa, adulterando a comunicação humana autêntica e criando abismos sociais.

7.Guerras Globais e a Luta pela Terra: O debate aborda os conflitos bélicos contemporâneos motivados pela ambição territorial e pela ganância de tomar a terra alheia. Kumar defende que a humanidade precisa urgentemente de ouvir e respeitar os povos indígenas para aprender a viver em harmonia com o solo e os animais, em vez de tentar "civilizá-los".

8.A Autodestruição do Sapiens: O vídeo encerra com uma reflexão dura de Krenak, que define a mentalidade do homem moderno (Homo sapiens) como a de um "serial killer" planetário devido à sua sanha destrutiva e sistémica, enquanto Kumar conclui que este modelo industrial é insustentável e caminha para a própria ruína.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Entrevista a Gary Snyder - aos 92 anos


Snyder enfatiza que os seres humanos perderam a conexão com o local onde vivem. Ele defende que devemos conhecer intimamente a nossa "bacia hidrográfica" (watershed): quais plantas crescem ali, de onde vem a água, quais animais habitam à sua volta. Para ele, a ecologia não é um conceito abstrato, mas a prática de se tornar um "nativo" do lugar onde se pisa.

Ele discute sua longa permanência no Japão e como o Zen-Budismo moldou sua visão de mundo. Snyder explica que a prática espiritual não está separada do trabalho físico (como cortar lenha ou cuidar da terra). Ele vê a natureza como um "sangha" (comunidade espiritual) expandido, onde todos os seres vivos têm dignidade.

A conversa toca na importância de comunidades pequenas e autossustentáveis. Snyder acredita que a resistência contra a destruição ecológica começa na escala local, através do fortalecimento dos laços comunitários e da educação das novas gerações sobre o valor do seu ecossistema imediato.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O Natal que Nos Habita


Bom dia, amigos. Desejo-vos Boas Festas e que o espírito de Natal não é um dia só, mas todos os dias. Pensei muito nisso e fiz um poema e um poster.

O Natal que Nos Habita
Que o Natal não seja vitrina,
nem corrida para comprar mais,
mas alegria que se faz mesa,
calor que nasce do convívio.

Natal é abraço que fica,
é tempo dado sem preço,
é ouvir, perdoar, cuidar,
é partilhar o que vem do coração.

Que nasça, em cada casa,
não o ouro, mas a presença,
não o luxo, mas o encontro,
não a pressa, mas a esperança.

E que o amor — tão antigo e novo —
seja o presente essencial,
fazendo de cada dia
um pouco mais de Natal.

Joao Soares, 22.12.2025

sábado, 15 de novembro de 2025

Foto e poema sobre as Árvores

Árvore
"Ficas ali, inteira,
como se soubesses algo que nós esquecemos.
O vento passa por ti
e tu respondes sem pressa,
um aceno leve, um sussurro de folhas
que não precisa traduzir-se.
A luz pousa nos teus ramos
como quem encontra casa.
Os pássaros chegam, partem,
e tu permaneces —
um gesto de permanência
num mundo que corre demasiado depressa.
Às vezes abraço-me ao teu tronco
e sinto qualquer coisa antiga,
quase uma respiração,
como se a tua vida entrasse um pouco na minha.
E penso:
talvez crescer seja isto —
abrir espaço no peito
para o que chega
sem medo do que fica."
Joao Soares, 15.11.2025

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Dias Perfeitos (Perfect Days) 2023


O filme Dias Perfeitos (Perfect Days, 2023), dirigido por Wim Wenders, é uma obra contemplativa e profundamente humanista que aborda temas como rotina, simplicidade, solidão, e o sentido da vida.

A história segue Hirayama, um homem de meia-idade que trabalha limpando casas de banho públicos em Tóquio. À primeira vista, leva uma vida monótona e solitária, mas o filme revela pouco a pouco a beleza e a plenitude que ele encontra nas pequenas coisas do quotidiano: o som das folhas ao vento, a luz da manhã, a música que ouve em cassetes antigas, os livros que lê, as fotografias que tira.

🌿 Temas centrais:

  • A dignidade do trabalho simples: Hirayama faz o seu trabalho com dedicação e calma, mostrando que há valor e beleza mesmo nas tarefas mais humildes.

  • A contemplação do quotidiano: o filme celebra o minimalismo e a atenção plena — viver o presente e encontrar alegria em gestos simples.

  • O silêncio e a introspeção: Wenders usa longos planos e pouca fala, convidando o espectador a observar e refletir junto com o protagonista.

  • A solidão e a escolha de um estilo de vida: Hirayama parece viver à margem da sociedade moderna, mas o faz por escolha — há uma liberdade na sua rotina.

  • A natureza e a cidade: o contraste entre o betão urbano e o verde das árvores reflete a harmonia que o personagem busca entre o mundo humano e o natural.

🎬 Destaques:

  • Koji Yakusho (no papel de Hirayama) ganhou o prémio de Melhor Ator no Festival de Cannes 2023.

  • A banda sonora é nostálgica, com músicas de Lou Reed, Patti Smith e The Animals — canções que traduzem o estado de espírito do protagonista.

  • A fotografia é poética e meticulosa, mostrando Tóquio como uma cidade silenciosamente viva.

Em suma, Dias Perfeitos é um filme sobre a beleza da rotina e a profundidade da simplicidade, uma espécie de meditação visual sobre o que significa viver bem — mesmo (ou talvez sobretudo) quando se vive com pouco.

🧍‍♂️ Resumo 

Hirayama (interpretado magistralmente por Koji Yakusho) vive uma rotina precisa e quase ritualística: acorda cedo, arruma a cama, cuida das plantas, apanha o mesmo comboio, limpa os sanitários públicos de Tóquio com esmero e, no tempo livre, lê livros usados, tira fotos em filme analógico e ouve música em cassetes antigas.

Essa repetição não é um vazio, mas uma forma de contemplação — uma vida em harmonia com o presente. Contudo, o filme deixa escapar, aos poucos, fragmentos do passado de Hirayama, sugerindo que ele escolheu esse modo de vida após um afastamento profundo da sua antiga realidade.

Quando a sobrinha adolescente, Niko, o visita inesperadamente, descobrimos que Hirayama pertence a uma família abastada, provavelmente da elite empresarial japonesa. A visita mostra o contraste entre o seu modo de vida simples e o materialismo do mundo que ele deixou para trás. Niko, fascinada pela autenticidade do tio, decide fugir da sua casa, e esse encontro reacende em Hirayama uma certa ternura, mas também uma melancolia silenciosa — ele sabe que as suas escolhas o afastaram de vínculos humanos.


🎞️ O final

No último ato, depois de reencontrar o irmão (pai de Niko), Hirayama regressa à sua rotina. Tudo parece igual — ele volta a acordar cedo, limpar, almoçar sozinho, dirigir. Mas há uma subtil diferença emocional: a visita da sobrinha parece ter reavivado algo dentro dele.

O filme termina com ele dentro do carro, conduzindo para o trabalho, enquanto ouve “Feeling Good” de Nina Simone. A câmara foca lentamente o seu rosto: ele sorri, depois o sorriso se desfaz, e lágrimas discretas surgem. O ecrã escurece.


🌅 Significado simbólico do final

Essa sequência final é profundamente ambígua — e é aí que está a sua força:

  • A lágrima não é tristeza pura. É um momento de epifania. Hirayama sente, por um instante, a plenitude da sua própria existência. É o reconhecimento da beleza e da dor de estar vivo.

  • “Feeling Good” reforça essa ideia: a música fala de recomeços (“It’s a new dawn, it’s a new day, it’s a new life for me”), ecoando o possível renascimento interior do protagonista.

  • O sorriso que se transforma em emoção mostra que, embora ele viva só, ele sente profundamente — o filme desmonta a ideia de que uma vida simples é uma vida vazia.

  • O ciclo recomeça, mas não de forma mecânica: cada dia é o mesmo e, ao mesmo tempo, único — daí o título Dias Perfeitos.


🕊️ Em essência

Wenders convida-nos a olhar para o quotidiano com outros olhos — a encontrar o sagrado no banal, o extraordinário no comum.
Hirayama é uma espécie de monge urbano, alguém que, através da rotina e do silêncio, alcançou uma forma serena de iluminação.

Noiserv e Pedro Branco - "No Cars Go" (Arcade Fire Cover)


A canção “No Cars Go” dos Arcade Fire (lançada originalmente no EP Arcade Fire de 2003 e depois regravada no álbum Neon Bible de 2007) é uma das faixas mais emblemáticas da banda, tanto pelo seu som expansivo como pelo significado simbólico.

Tema central
“No Cars Go” fala sobre fuga, transcendência e busca por um lugar puro e intocado, longe do caos e da mecanização do mundo moderno.
O título — “No Cars Go” (“onde os carros não vão”) — sugere um refúgio espiritual, um sítio fora do alcance da civilização industrial e da rotina urbana.

Interpretação lírica
Os versos repetem:
“We know a place where no planes go
We know a place where no ships go
Hey! No cars go”
Isto evoca um desejo de escapar dos meios de transporte e comunicação modernos, que simbolizam o progresso técnico mas também o isolamento e o ruído do mundo contemporâneo.
A canção convida a uma viagem interior, para um lugar onde reina a simplicidade, a inocência ou até uma espécie de paraíso perdido.

Dimensão emocional e espiritual
A música cresce gradualmente, com arranjos orquestrais e coros que criam uma sensação de êxtase e comunhão.
Muitos ouvintes e críticos interpretam-na como uma metáfora para o céu, o amor verdadeiro, ou até a infância — lugares (ou estados de espírito) onde o mundo não chega a corromper.

Em contraste com “Neon Bible”
No contexto do álbum Neon Bible (2007), que critica a superficialidade, o consumismo e a alienação tecnológica, “No Cars Go” aparece como um momento de esperança e libertação, um vislumbre de algo puro no meio do ruído moderno.

Em suma
“No Cars Go” é uma canção sobre escapar do mundo mecanizado e procurar um espaço de liberdade espiritual e emocional, onde o humano e o sagrado voltam a encontrar-se.

sexta-feira, 20 de junho de 2025

José Mujica - Life in a globalized world

O antigo presidente do Uruguai José Alberto “Pepe” Mujica Cordano era um ícone da esquerda. Neste filme, a sua defesa por um mundo mais justo entrelaça-se com as histórias globalizadas dos migrantes africanos e dos trabalhadores espanhóis e japoneses.

O documentário mistura histórias de pessoas de três continentes: migrantes africanos que querem fugir para a Europa, trabalhadores espanhóis que já não se podem dar ao luxo de viver onde estão e funcionários japoneses que se sentem sozinhos no mundo moderno. Embora os continentes, as classes sociais e as etnias nos possam separar, no âmago da nossa existência humana somos todos um só. Todos nós temos desejos, vontades, esperanças e sonhos. É aqui que reside a oportunidade, não apenas para abordar os efeitos negativos da globalização, mas para criar algo novo em conjunto.

No plano global, Mujica foi uma voz que desafiou o cinismo de nosso tempo. Sua crítica ao consumismo, sua defesa radical da liberdade como tempo de vida e seu estilo de vida simples — morando numa chácara, dirigindo um Fusca, doando parte do salário — tornaram-se símbolos de autenticidade num mundo saturado de lideranças performáticas e tecnocráticas. Em entrevistas recentes, insistia na urgência de uma cultura da sobriedade e da responsabilidade ecológica, afirmando que se todos quisessem viver como os europeus, precisaríamos de três planetas.

Essa mensagem, embora muitas vezes vista como utópica, representa um alerta geopolítico de longo alcance. Num momento em que a ascensão da ultradireita desafia as instituições democráticas — inclusive no Brasil e no Cone Sul —, Mujica oferecia uma alternativa: uma esquerda ética, popular, viável e baseada na pedagogia política e no compromisso com o comum.
O antigo presidente do Uruguai, José 'Pepe' Mujica (20 de maio de 1935 - 13 de maio de 2025), guia-nos através deste filme, lembrando-nos repetidamente a nossa humanidade.

sábado, 30 de setembro de 2023

Quem beneficia com o crescimento económico?

Minha arte digital

A preocupação com o crescimento económico é o argumento clássico dos governos para sustentar o sucesso da sua prestação política. Não é por acaso que a Europa deprime quando a Alemanha antecipa a estagnação da sua economia e o governo alemão elege o crescimento como prioridade, que a Índia reclama ser o país cuja economia está em maior crescimento, ou que a China manifesta preocupação com o cumprimento dos objetivos de crescimento que anunciou para este ano. 
O crescimento económico apresenta-se como a agenda fundamental para o desenvolvimento de um país. Desde logo, porque gera emprego, aumenta o rendimento disponível das pessoas e, portanto, melhora o padrão de vida da população, permitindo um melhor acesso a bens e serviços. Quando a economia cresce, há mais oportunidades de emprego, o que contribui para a redução da pobreza e da desigualdade, e há Investimento em infraestruturas e serviços públicos (saúde, educação e outros serviços públicos essenciais). Por outro lado, as economias em crescimento tendem a incentivar a inovação e a investigação e desenvolvimento, o que impulsiona o progresso tecnológico e a competitividade global. O crescimento económico pode ainda financiar programas sociais, melhorando o bem-estar da população.
Não sendo economista, a tendência natural é para alinhar numa leitura acrítica dos números e confiar na narrativa de crescimento, mas é absurdo este desígnio de um crescimento inesgotável, sem respeito pelas fronteiras planetárias e sem um propósito vertido em agendas políticas concretas: Quem beneficia deste crescimento económico? O crescimento deve ser acompanhado por políticas que garantam a sua sustentabilidade a longo prazo e, por si só, não garante a igualdade social; são necessárias políticas públicas adequadas para distribuir os benefícios do crescimento de maneira justa e equitativa. Para alcançar um desenvolvimento inclusivo, importa reconhecer que os trabalhadores criam o valor e os seus interesses devem ter um papel mais importante no debate sobre a distribuição do rendimento e da riqueza.
A economia não crescerá autonomamente numa direção socialmente desejável. Temos de desenhar novos caminhos para alcançar um crescimento que seja não só inteligente, mas também ecológico e inclusivo. Os governos precisam de vias de política económica com objetivos claros, baseadas no que é mais importante para os seus cidadãos e para a missão, e o apoio público às empresas deve ser condicionado à realização de investimentos que promovam o caminho para uma economia real mais verde e inclusiva.
Como afirma a economista Mariana Mazzucato, a questão que se deve colocar não é quanto crescimento podemos alcançar, mas de que tipo. Para alcançar uma maior produção económica simultaneamente inclusiva e sustentável, os governos terão de reorientar as organizações públicas em torno de missões ambiciosas. “Em vez de ficarmos obcecados com metas de crescimento estreitas, podemos estar à altura dos grandes desafios do século XXI e confiar que a economia cresce na direção certa”.
Cada vez mais pessoas questionam o atual modelo de sociedade, as relações interpessoais, as condições de trabalho, a relação com o planeta, o compromisso ambiental, e exigem novas abordagens à governação. Naturalmente, todos desejamos uma vida confortável, e o dinheiro pode certamente facilitar. No entanto, uma vez satisfeitas as nossas necessidades fundamentais, que razão existe para a busca incessante de lucros cada vez maiores ou de crescimento económico, mesmo que isso se faça à custa do bem-estar humano e comprometendo o próprio futuro?
Em tempos de crise climática e ambiental, torna-se imperativo que uma economia impulsionada pelo consumo excessivo diminua para que a humanidade possa não só suportar, mas também florescer.
Helena Freitas, Diário de Coimbra 26.09.2023

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

quinta-feira, 1 de junho de 2023

Livro: Serge Latouche - A Abundância Frugal como Arte de Viver


A inovadora proposta do decrescimento para salvar o planeta da falência ecológica, económica e social

«Restaurar uma relação “saudável” com o tempo é muito simplesmente reaprender a habitar o mundo. E, portanto, libertar-se da dependência do trabalho para recuperar a lentidão, redescobrir os sabores da vida ligados à terra, à proximidade e ao próximo (...). O desaparecimento dos «tempos mortos» é, na verdade, a morte do tempo.» - 𝐒𝐞𝐫𝐠𝐞 𝐋𝐚𝐭𝐨𝐮𝐜𝐡𝐞

Assistimos hoje à falência da felicidade quantificada tal como fora prometida pela modernidade. Perante a crise da sociedade do crescimento é necessário inventar uma sociedade da «abundância frugal», já que a frugalidade elimina todo o consumo desnecessário.

Neste livro, Latouche mostra, com soluções práticas concretas e desejáveis, como o decrescimento não implica necessariamente um retrocesso, mas que, pelo contrário, pode potenciar a felicidade e o sentido de pertença dos indivíduos, ao mesmo tempo que enriquece a paleta de experiências sensoriais à nossa disposição.

segunda-feira, 14 de março de 2022

Para compreender o "Decrescimento"

Pequeno Tratado Do Decrescimento Sereno by João Soares on Scribd



Movimento não é saudosista, nem anticivilizatório. Mas sustenta: sem rever padrões de consumo e produção, “progresso” resultará em desigualdade e devastação


Pouco frequente, ainda, no Brasil, um debate tomou corpo e expandiu-se rapidamente nos últimos anos, em paralelo ao desconforto com o capitalismo e seus impasses. Trata-se da ideia de “decrescimento”. “Outras Palavras” abordou-o em diversos textos, no passado — mas deu-lhe destaque especial em 10 de outubro. Um artigo do cientista político catalão Vicenç Navarro criticava “algumas teorias” do decrescimento. Em sua opinião, elas acabam reduzindo-se a um ambientalismo elitista e antissocial, ao sugerirem, diante de países em crise, a continuação das políticas de “austeridade”, que geram mais desemprego e desindustrialização.

O artigo de Navarro gerou importante polémica, na seção de comentários dos leitores. “Outras Palavras” convidou um dos polemistas, Alan Bocato-Franco, a escrever uma réplica. O resultado foi melhor que a encomenda. Muito mais que polemizar com Navarro — com quem, aliás, parece compartilhar pontos de vista –, Alan traça, no texto a seguir, um importante panorama sobre a origem, sentido e história das teorias do “decrescimento”.

É algo de enorme atualidade, num país que precisa encontrar uma síntese entre duas posições igualmente indispensáveis. Por um lado, as críticas cada vez mais frequentes a símbolos antes intocáveis do “progresso” — por exemplo, o automóvel, as grandes obras viárias e a multiplicação de projetos de geração de energia, desacompanhada de uma análise séria sobre o consumo de eletricidade.  Por outro, a ênfase na redistribuição de riqueza e na necessidade de assegurar condições de vida dignas à ampla maioria da população — o que exige, por exemplo, muito mais infra-estrutura (portanto, obras…) de transporte público, saneamento ou urbanização das periferias. (A.M.)

O movimento pelo decrescimento tem sido alvo de crítica recorrentes e repetitivas. De modo geral, acusam-no de tratar o crescimento econômico apenas em termos quantitativos, sem considerar suas variantes qualitativas. Além disso (ou por isso), afirma-se que seus defensores são malthusianos, porque propõem que a população e o consumo global sejam  estabilizados, se não reduzidos. Seriam os decrescentistas saudosistas de um estilo de vida pré-civilizatório, por não reconhecerem que o progresso tecnológico libertou a população humana dos limites biofísicos da natureza e nos apresentou o progresso? Este artigo tem como objetivo dialogar com essas críticas.

A questão do crescimento

Há, no decrescimento, uma defesa explícita pelo aumento das atividades econômicas que fortalecem a saúde humana e a diminuição das que intoxicam a sociedade. Defende as atividades que causam impactos menos acentuados e a diminuição das que degradam o ambiente de modo acelerado. Defende ainda o aumento das que fortalecem a autonomia das pessoas, estreitam seus laços e distribuem renda e a diminuição das que alienam, fragilizam as relações sociais e geram exclusão. Mas os decrescentistas reconhecem que mesmo para as atividades económicas qualitativamente diferenciadas os limites biofísicos do planeta persistem. Certamente a humanidade terá uma maior margem de manobra. Mas os limites ao crescimento econômico continuarão existindo.

A partir disto, a qualidade do crescimento econômico é relevante, mas secundário. O ponto principal é o paradigma do crescimento ilimitado. O decrescimento coloca em questão o modelo de sociedade, e as teorias de desenvolvimento que o sustentam, que tem o crescimento como condição fundamental para a “harmonia” socioeconômica ou, em outras palavras, a ausência de crise. Para o decrescimento, uma sociedade organizada sob o paradigma do crescimento ilimitado está fadada ao fracasso, pois é impossível crescer indefinidamente seja qual for a qualidade desse crescimento.

População, consumo e tecnologia

O decrescimento reconhece como verdadeira a equação I=PAT formulada por Ehrlich. Essa referência aparece de modo pontual e periférico em algumas publicações do decrescimento (1). Ela nada mais diz que o impacto ambiental (I) tem relação direta com o tamanho da população (P), sua afluência ou consumo (A) e a tecnologia (T). Com base nela, os decrescentistas aceitam a conclusão de que a redução de (A) por suficiência e sobriedade, bem como a de (T) pelo progresso tecnológico não determinam a redução indefinidamente do impacto sem que a população seja estabilizada ou diminua.

Dessas três variáveis, o decrescimento foca sua crítica no consumo. E por isso, seus partidários são acusados de negligenciarem os avanços tecnológicos. A verdade é que o decrescimento não nega que estratégias como reciclagem, diversificação da matriz energética e ecoeficiência sejam essenciais e devam ser estimuladas. Mas não as vê como soluções salvadoras do crescimento econômico ilimitado. Desta forma, reconhece a tecnologia sem a ingenuidade de acreditar que seu avanço seja prova de que a sociedade não deve se libertar da “gaiola do consumismo” (2). De modo que somente numa sociedade fora do paradigma do crescimento, que tem como base o consumismo, a tecnologia ganha alguma eficácia para conciliar atividade econômica e capacidade de carga do planeta.

Já a variável população está muito pouco presente na literatura e nos debates sobre o decrescimento (3). A redução da população é categoricamente entendida como uma falsa solução (4). Quando se trata de uma eventual regulação da população, ela deve ser igualitária e democrática, em vez de violenta e desumana, conforme propunha Malthus. Os decrescentistas rejeitam a limitação do número de filhos e assumem uma transição demográfica por meio da emancipação das mulheres, da alfabetização e da democracia (5).

Diferentes raízes

O decrescimento não tem uma única raiz. Podem ser identificadas até seis fontes intelectuais do movimento (6) como: 1) ecológica; 2) pós-desenvolvimentista e anti-utilitarista (7); 3) sentido da vida e bem viver (8); 4) bio económica (9); 5) democrática (10) e; 6) justiça (11). Uma das influências intelectuais é Ivan Illich, que figura em duas dessas seis fontes (2 e 5). Uma das inspirações buscadas nesse autor está no processo de “coisificação” que consiste na transformação da percepção das necessidades reais em produtos manufaturados de massa. Ou seja, as necessidades reais das pessoas transformam-se na necessidade por produtos industriais: a sede se converte na necessidade de um refrigerante, a mobilidade se reduz à necessidade de se ter um carro e a saúde se transforma na necessidade de tomar remédios e suplementos comprados numa farmácia. Assim, a indústria passa a deter um monopólio radical sobre as necessidades humanas. A técnica industrial cria as necessidades fictícias para as pessoas, e sugere que apenas  os bens e serviços produzidos por ela são capazes de atender essas necessidades.

Uma das críticas feitas pelo decrescimento e inspiradas em Illich recai sobre a hegemonia do sistema de saúde pautado numa abordagem industrial, individual, privatista e heteronômica. Isso não significa negar os avanços da medicina científica. Aponta-se, isto sim, a apropriação perversa da medicina pela indústria, que transforma a primeira em mero produto destinado ao consumo. Ao denunciar este processo, o decrescimento pretende contribui para a democratização do acesso à medicina científica. Mais do que isto, denuncia a supremacia da prática médica em detrimento às outras formas de conhecimento e práticas de cuidado com a saúde. Isto implica em entender a saúde individual e coletiva a partir de múltiplas perspectivas. É ampliar o leque das possibilidades de cuidados, de modo que ao mesmo tempo aumenta-se a autonomia do indivíduo em cuidar de si, naquilo que for adequado. Em outros casos, defende-se acesso democrático ao serviço especializado.

Diferentes correntes

Sobre o tema do decrescimento, existem dezenas de livros, centenas de artigos acadêmicos, muitos blogs, inúmeros coletivos de experimentação prática, grupos de discussão, de pesquisa e de formação em países dos hemisférios Norte e Sul (12), inclusive o Brasil (13) que se auto-reconhecem como parte do movimento pelo decrescimento. Todos à sua maneira e entendimento vêm contribuindo para a construção das múltiplas identidades e entendimentos sobre o decrescimento. Há inclusive uma sistematização (14), que não abrange a totalidade dessa diversidade, que reconhece ao menos duas “vertentes” que se complementam: o decrescimento à francesa, que foca sua crítica à modernidade; e o decrescimento sustentável, mais alinhado com a disciplina Economia Ecológica. Assim, este é um movimento ainda em processo de formação e significação, sendo que qualquer crítica dirigida a ele baseada em apenas um único autor constitui um erro precário.

A novidade

Ao reconhecer e divulgar suas fontes intelectuais, o decrescimento assume que o debate que provoca não é novo (15). Desta forma, o decrescimento ao mesmo tempo, incorpora e articula movimentos e autores que já empreenderam criticas à modernidade, ao desenvolvimentismo, ao consumismo, à democracia, à impossibilidade de generalização do padrão de consumo dos países e das classes ricas e às desigualdades ecológica e social.

Mas o decrescimento abre perspectivas radicalmente novas, quando denuncia que, sem superar o paradigma do crescimento ilimitado, o crescimento das economias já desenvolvidas irá agravar as desigualdades globais. Além de explicitar que todas as teorias de desenvolvimento, sejam quais forem, tratam de como provocar mais crescimento econômico. Ademais, o decrescimento retoma o debate sobre a autonomia da sociedade com relação ao Estado e sobre a influência da razão contábil e instrumental das grandes burocracias públicas ou privadas. Assim, os decrescentistas rejeitam as falsas soluções que se focam apenas na gestão e na escolha dos tipos de recursos. Mais que isto, os decrescentistas buscam provocar mudanças de sentido, não só dos meios, mas também dos fins (16). Em suma, a novidade está no entendimento de que sem modificar a essência do modelo socioeconómico e dos valores pessoais não haverá saída.


1. KERSCHNER, C. Economic de-growth vs. steady-state economy. Growth, Recession or Degrowth for Sustainability and Equity?, v. 18, n. 6, p. 544–551, abr. 2010;

MARTINEZ-ALIER J. Environmental justice and economic degrowth: An alliance between two movements. Capitalism, Nature, Socialism, v. 23, n. 1, p. 51–73, 2012.

SORMAN, A. H.; GIAMPIETRO, M. The energetic metabolism of societies and the degrowth paradigm: analyzing biophysical constraints and realities. Degrowth: From Theory to Practice, v. 38, n. 0, p. 80–93, jan. 2013.

XUE, J.; ARLER, F.; NÆSS, P. Is the degrowth debate relevant to China? Environment, Development and Sustainability, v. 14, n. 1, p. 85–109, 2012.

2. JACKSON, T. Prosperity without growth: economics for a finite planet. London: Earthscan, 2009.

3. A questão da população, sobretudo relacionada às ideias de Ehrlich, considerado por alguns como um autor malthusiano, não é sequer citada em diversos livros sobre o decrescimento, em edições especiais de revistas acadêmicas dedicadas exclusivamente ao decrescimento ele tampouco figura entre as raízes intelectuais do movimento. Para verificação veja:

BAYON, D. et al. Decrecimiento : 10 preguntas para comprenderlo y debatirlo. [Mataró]: Ediciones de interveción cultural/El Viejo Topo, 2011.

DEMARIA F et al. What is degrowth? from an activist slogan to a social movement. Environmental Values, v. 22, n. 2, p. 191–215, 2013.

FLIPO, F. Conceptual roots of degrowth Proceedings of the First International Conference on Economic De-Growth for Ecological Sustainability and Social Equity. Paris: Research & Degrowth, Telecom Sud-Paris, 2008

KALLIS, G.; KERSCHNER, C.; MARTINEZ-ALIER, J. (EDS.). Special Section: The Economics of Degrowth. Ecological Economics, v. 84, n. 0, p. 172–269, dez. 2012.

LATOUCHE, S. Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.

LATOUCHE, S. La apuesta por el decrecimiento ¿cómo salir del imaginario dominante? Barcelona: Icaria, 2009.

MARTINEZ-ALIER, J. et al. Sustainable de-growth: Mapping the context, criticisms and future prospects of an emergent paradigm. Ecological Economics, v. 69, n. 9, p. 1741–1747, 2010.

TAIBO, C. En defensa del decrecimiento : sobre capitalismo, crisis y barbarie. Madrid: Los Libros de la Catarata, 2009.

4. Ver a subseção “Uma falsa solução: reduzir a população” do livro Pequeno tratado do decrescimento sereno, de Latouche (2009) – citado acima.

5. Ver o capítulo “El decrecimiento, ¿es malthusiano?” do livro Decrecimiento: 10 preguntas para comprenderlo y debatirlo, de Bayon e colaboradores (2011) – citado acima.

6. DEMARIA e colaboradores (2013) – citado acima

7. Algumas referencias desta fonte intelectual são: os criticos do desenvolvimento das décadas de 1970 e 1980, como Latouche, Arturo Escobar, Gilbert Rist, Helena Norberg-Hodge, Majid Rahnema, Wolfgang Sachs, Ashish Nandy, Shiv Visvanathan, Gustavo Esteva, François Partant, Bernard Charbonneau e Ivan Illich. Inclui também os críticos inspirados por Marcel Mauss como Alain Caillé e outros membros do MAUSS. Além de outros autores como Karl Polanyi e Marshall Sahlins.

8. Algumas referencias desta fonte intelectual são Pierre Rabhi, Mongeau, Schumacher, Kumarappa e Easterlin.

9. Georgescu-Roegen, Herman Daly, Donella Meadows, Kenneth Boulding, E. F. Schumacher, Howard T. Odum e Elizabeth C. Odum

10. Algumas referências desta fonte intelectual são: Ivan Illich, Jacques Ellul e Cornelius Castoriadis.

11. Uma das referências desta fonte intelectual é Paul Aries

12. Demaria e colaboradores (2013) – citado acima

13. BOCCATO-FRANCO, A. A. O decrescimento no Brasil. In: LÉNA, P.; NASCIMENTO, E. P. DO (Eds.). Enfrentando os limites do crescimento: sustentabilidade, decrescimento e prosperidade. Rio de Janeiro: Garamond, 2012. p. 269–2


segunda-feira, 30 de agosto de 2021

As Origens do Ecopacifismo

Gosto de aproveitar o meu dia de aniversário para pensar nos caminhos que nos trouxeram até aqui. Em vez dos habituais balanços pessoais, decidi debruçar-me sobre um tema que me é caro: as raízes do Ecopacifismo. Da intuição de que a paz com a natureza e a paz entre as nações são inseparáveis, nasceu um movimento que moldou a nossa consciência ecológica moderna. É sobre esse encontro entre a recusa da guerra e a defesa da Terra que proponho refletirmos hoje.

A emergência do militarismo industrializado ao longo do século XX não transformou apenas a geopolítica mundial; desencadeou um modelo de exploração técnica que a tradição pacifista identificou precocemente como uma ameaça existencial à biosfera. Muito antes de a crise climática se tornar um tema central do debate público, intelectuais e movimentos religiosos perceberam que a corrida armamentista e a destruição ambiental eram manifestações indissociáveis da mesma lógica de dominação e consumo desmedido.

A Crítica Ecológica de Aldous Huxley
Entre os pensadores que lideraram essa virada conceptual, destaca-se Aldous Huxley. A sua trajetória intelectual articulou a crítica ao militarismo com uma profunda compreensão da interdependência biológica, defendendo que a preparação constante para a guerra exige um modelo de extrativismo contínuo e devastador. Em obras fundamentais como o ensaio filosófico Ends and Means (1937) e a reflexão tardia em The Politics of Ecology (1963), Huxley argumentou que o complexo industrial mobilizado pelos Estados exige volumes gigantescos de recursos naturais, transformando florestas, solos e ecossistemas inteiros em meros insumos para a máquina bélica.

Para Huxley, as tecnologias desenvolvidas no contexto militar - como a química industrial pesada e a manipulação da energia nuclear - foram subsequentemente redirecionadas para uma "guerra contra a natureza". A erosão dos solos, a desflorestação e a contaminação por resíduos tóxicos ou pelo Estrôncio-90 derivado de testes atómicos não constituíam danos colaterais acidentais, mas o resultado direto de uma mentalidade produtivista. Ao prever que a degradação da biosfera geraria inevitavelmente novas disputas por recursos escassos, Huxley lançou as bases para a moderna ecologia política, propondo uma transição filosófica do antropocentrismo destrutivo para uma ética de convivência simbiótica.

A Herança Quacre: Do Testemunho à Ação Direta
Essa leitura ecológica do pacifismo encontrou um terreno fértil na reflexão de intelectuais como Bertrand Russell e, fundamentalmente, nas práticas da Sociedade dos Amigos (Quacres). O movimento quacre - cujos membros são designados tanto pelo aportuguesamento "quacre" (ou "quáquer") como pelo termo original quaker - contribuiu significativamente para a gênese do ativismo ambiental contemporâneo através de duas dimensões centrais: a prática do testemunho e a fundamentação ética da simplicidade.

Historicamente, o Testemunho da Simplicidade (Testimony of Simplicity), formulado no século XVII, antecipou de forma pioneira os conceitos modernos de sustentabilidade e de decrecimento (degrowth). Ao recusar o acúmulo supérfluo e a busca obsessiva pela expansão material, a ética quacre desafiou a premissa do crescimento econômico ilimitado muito antes da formulação dos limites biofísicos do planeta. Figuras como John Woolman, no século XVIII, alertavam que o luxo e o consumo excessivo continham as "sementes da guerra", uma vez que exigiam a exploração predatória de recursos e a consequente disputa violenta pela sua posse. Em vez da dominação da natureza, a teologia quacre promoveu a ideia de stewardship (responsabilidade e cuidado), encarando a humanidade como guardiã temporária da Criação.

No século XX, essa postura ética traduziu-se em ação direta não-violenta. A prática do "Bearing Witness" (Prestar Testemunho) - o dever moral de interpor o próprio corpo diante da injustiça - moldou os métodos do movimento ambientalista. Em 1958, o protesto do Quacre Albert Bigelow, que navegou o veleiro Golden Rule em direção a uma zona de testes nucleares no Pacífico, serviu de modelo direto para a criação do comitê Don't Make a Wave e a subsequente fundação do Greenpeace em 1971 por ativistas como Irving e Dorothy Stowe.

A trajetória que une a crítica socioecológica de Aldous Huxley às práticas de resistência e simplicidade da tradição quacre demonstra que o movimento ambientalista moderno não nasceu apenas de descobertas científicas, mas de uma profunda reavaliação ética que identificou a paz, a justiça social e a preservação do planeta como elementos absolutamente inseparáveis.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Dia Mundial da Caminhada Nua (World Naked Hiking Day)

O Dia Mundial da Caminhada Nua (World Naked Hiking Day) é uma daquelas celebrações invulgares que misturam liberdade, bom humor e uma profunda ligação com o meio ambiente. Celebrado anualmente no Solstício de Verão (geralmente no dia 21 de junho), o evento convida entusiastas do montanhismo e do naturismo a deixarem as roupas em casa e a percorrerem os trilhos exatamente como vieram ao mundo.

Embora pareça apenas uma brincadeira excêntrica, a data carrega uma filosofia interessante e exige alguns cuidados práticos bastante específicos.

A Origem: dos Grandes Trilhos para o mundo
A tradição nasceu de forma espontânea nos Estados Unidos da América, ligada fortemente à cultura dos thru-hikers — pessoas que cruzam trilhos de milhares de quilómetros de extensão, como a famosa Appalachian Trail e a Pacific Crest Trail.

Para quem passa meses a carregar mochilas pesadas e a vestir as mesmas roupas técnicas, o solstício de verão (o dia mais longo do ano) tornou-se a oportunidade perfeita para celebrar o calor e desfrutar de uma sensação absoluta de desapego. Com o tempo, a internet espalhou o costume, transformando-o num fenómeno global praticado por naturistas e caminhantes em vários continentes.

Porquê caminhar sem roupa?
Para os participantes, a caminhada nua vai muito além do exibicionismo (que, inclusive, é desincentivado). Os principais motivos apontados são:
  1. Ligação pura com a Natureza: sentir o vento, o sol e o ar da montanha diretamente na pele traz uma perceção sensorial completamente diferente do ambiente.
  2. Libertação corporal: é um manifesto de aceitação do corpo humano em todas as suas formas, livre de julgamentos estéticos ou das amarras sociais do vestuário.
  3. Minimalismo: a experiência de depender apenas do próprio corpo e do essencial absoluto dentro da mochila.
Manual de Sobrevivência (Dicas Práticas)
Se a ideia parece tentadora, a realidade prática exige muito mais do que simplesmente tirar as calças. O ambiente selvagem não perdoa a pele desprotegida. Quem se aventura costuma seguir regras rígidas de segurança:
ItemCuidados Necessários
Protetor SolarEssencial. Áreas do corpo que nunca viram a luz do sol ficam vulneráveis a queimaduras graves em poucos minutos.
Calçado e meiasItens inegociáveis. Botas de caminhada de boa qualidade e meias adequadas continuam a ser obrigatórias para evitar quedas e bolhas.
Atenção ao TrilhoEvitam-se caminhos com vegetação espinhosa, urtigas ou rochas muito cortantes. Um arranhão em certas zonas pode estragar o passeio.
Cuidado com a mochilaO atrito direto das alças da mochila na pele nua causa ferimentos rapidamente. Muitos usam cremes antiatrito ou mantêm uma toalha/t-shirt sob as alças.
A regra de ouro: respeito à Lei e ao próximo
Os praticantes do movimento recomendam escolher trilhos isolados e de pouco movimento. O objetivo é a integração com a natureza, não chocar ou constranger outras famílias ou caminhantes vestidos. Além disso, a legalidade da nudez pública varia drasticamente entre países, distritos e parques naturais - por isso, verificar as regras locais antes de tirar a roupa é fundamental para evitar multas ou problemas legais.

No fundo, o Dia Mundial da Caminhada Nua recorda-nos que, por baixo de todas as camadas de marcas e tecidos tecnológicos, fazemos todos parte do mesmo ecossistema selvagem.

Livros:
Looking back: Naturism