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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Reno, Danúbio, Elba, Loire. Alguns dos maiores rios da Europa vão secar este verão


Uma vaga de calor prolongada e a ausência persistente de precipitação na Europa estão a deixar os principais cursos de água do continente a níveis criticamente baixos. Rios vitais como o Reno, o Danúbio, o Elba e o Loire estão a registar reduções drásticas no seu caudal, ameaçando a navegação comercial, a geração de energia hidroelétrica e nuclear, a agricultura e os ecossistemas aquáticos.

O Danúbio, o segundo maior rio da Europa depois do Volga, caiu para o nível mais baixo dos últimos 30 anos na Roménia, onde desagua no Mar Negro, segundo a agência governamental Romanian Waters.
De acordo com a agência, o caudal do Danúbio em Baziaș, onde o rio entra no país, desceu para cerca de 1.700 m³ por segundo, pouco mais de um terço da média de julho, que ronda 4.700 m³ por segundo.

A seca deixou longos trechos de areia exposta nas margens junto à fronteira com a Bulgária, com vários serviços de ferry suspensos e barcaças de transporte de cereais paradas, reportou a Reuters. A agência acrescentou que a situação deverá melhorar a partir de 20 de julho, quando se previa chuva em vários condados.

Do outro lado do continente, o outro grande rio europeu, o Reno, também foi afetado pela onda de calor e pela seca. A imprensa europeia notou que o nível da água no ponto crítico de medição em Kaub desceu recentemente para 80–90 centímetros.

O Reno é uma rota de transporte essencial para mercadorias como cereais, minerais, minérios, carvão e produtos petrolíferos, incluindo gasolina. Os baixos níveis do rio têm afetado a navegação, obrigando os navios de carga a navegar parcialmente carregados, o que aumenta significativamente os custos de transporte nos centros industriais europeus.

A Reuters noticiou recentemente que o rio deverá subir ligeiramente após chuvas inesperadas no sul da Alemanha, permitindo que os navios transportem cargas maiores.

Em França, o Loire, com 625 milhas (cerca de 1.005 km), ficou recentemente reduzido a um leito seco com poças isoladas após semanas de calor intenso em Montjean-sur-Loire, segundo relatos da imprensa. O Doubs também secou, evidenciando o agravamento das condições de seca.

Impactos Socioeconómicos e perspetivas
A diminuição dos caudais dos rios afeta não só o comércio e as redes de logística industrial, mas agrava também a crise energética no continente. A escassez de água fria limita a capacidade de refrigeração das centrais nucleares e térmicas, enquanto as albufeiras hidroelétricas operam com reservas mínimas.

Segundo as projeções da Agência Europeia do Ambiente e do Observatório Europeu da Seca, a frequência e a intensidade destes eventos extremos tendem a aumentar devido às alterações climáticas, exigindo reformas urgentes na gestão sustentável dos recursos hídricos na Europa.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Governo vai rever regime de gratuitidade dos museus e diz que são exigências da Comissão Europeia


No alinhamento da direita populista, a "infanta" Margarida Balseiro Lopes encontrou uma resposta genial: pagar para entrar em todos os museus. Deus nos livre de dar coisas de graça a este povo. A senhora Ministra da Cultura, com a lucidez que só os gabinetes bem iluminados do Palácio da Ajuda conseguem proporcionar, bateu no cerne da questão: os portugueses não gostam de arte; gostam é de borlas e  do ar refrigerado dos Museus. E se há coisa que desvaloriza uma pintura de Amadeo de Souza-Cardoso ou uma escultura renascentista é o ultrajante preço de zero euros. 

É uma questão de pura psicologia económica. Cientistas de algures já provaram que se não nos custar um rim a entrar num museu, os nossos olhos simplesmente recusam-se a focar o óleo sobre tela. O cérebro humano, esse órgão mercantilista, olha para um claustro manuelino gratuito e pensa: "Se não cobram por isto, de certeza que é gesso pintado ou as infiltrações são falsas".  

O plano é infalível. Em breve, os museus estarão vazios de gente, mas repletos de "valor". As obras de arte repousarão finalmente sozinhas, intocadas pelo olhar plebeu de quem não tem dez euros para gastar num domingo à tarde. E quando as salas estiverem perfeitamente desertas, a sustentabilidade estará alcançada: zero custos de manutenção com as pegadas do público.  As obras de arte repousarão finalmente sozinhas, intocadas pelo olhar plebeu de quem não tem dez euros para gastar num domingo à tarde. E quando as salas estiverem perfeitamente desertas, a sustentabilidade estará alcançada: zero custos com as pegadas do público.

A economista Clara Mattei explica isto na perfeição: a obsessão com a austeridade e com a mercantilização da vida não serve para equilibrar contas; serve para nos disciplinar. Para nos recordar que não temos direito à beleza ou ao lazer sem antes mostrarmos a carteira.

Quando a UE invoca o Artigo 56.º do TFUE para travar o "Acesso 52", ela está a demonstrar as suas prioridades, pois o direito de um cidadão é visto estritamente através da sua identidade enquanto consumidor ou destinatário de serviços num mercado globalizado, fazendo com que o acesso à cultura deixe de ser um direito social ou uma ferramenta de coesão nacional para a população local e passe a ser tratado como uma mercadoria que não pode sofrer distorções de concorrência.

Na minha investigação, argumento que o Estado moderno foi reconfigurado para blindar a economia da vontade democrática, e a reação de Bruxelas ilustra isto perfeitamente: o governo português tentou implementar uma medida de redistribuição social para dar acesso gratuito à cultura a quem paga os impostos que mantêm esses museus, mas uma instituição tecnocrática e não eleita intervém para invalidar uma decisão soberana em nome de regras de livre mercado. O resultado prático é a austeridade por via indireta, pois, como Portugal dificilmente conseguirá comportar financeiramente a extensão da gratuitidade a dezenas de milhões de turistas estrangeiros, a pressão da UE vai forçar o país a recuar e a retirar o benefício aos seus próprios cidadãos, o que prova que o mercado nivela sempre por baixo e que, se não pode ser mercantilizado para todos, não pode ser gratuito para ninguém.

Os tecnocratas europeus justificam a sua ação com a neutralidade da lei e a justiça da não-discriminação, mas, como cidadão atento, eu diria que esta igualdade abstrata esconde uma profunda desigualdade material. Exigir que um cidadão português, com um salário médio significativamente mais baixo do que a média europeia, pague o mesmo que um turista de um país com maior poder de compra para aceder ao património do seu próprio país é, em si, uma forma de violência económica, pelo que a lei europeia acaba por proteger o poder de compra do turista consumidor enquanto sufoca a capacidade do trabalhador local de aceder aos bens públicos que ele próprio financia. Concluindo, como Clara Mattei, eu diria que este caso não é sobre regras jurídicas neutras, mas sim sobre como as instituições europeias utilizam o direito económico para impedir os Estados-membros de protegerem os seus cidadãos das forças do mercado, empurrando os bens públicos para a mercantilização total.

Obrigado, Senhora Ministra. Finalmente compreendemos que a cultura não serve para nos elevar o espírito; serve para sabermos quanto pesa a carteira.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Mais um miradouro, neste caso, em frente à Cascata de Fisgas do Ermelo


A cascata das Fisgas de Ermelo, conhecida como uma das maiores de Portugal e da Europa, tem agora um novo miradouro. A inauguração oficial aconteceu na manhã deste domingo, 19 de abril, em Mondim de Basto, no distrito de Vila Real. O momento contou com a presença do Secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços, Pedro Machado.

A queda de água tem um impressionante desnível de 400 metros e já contava com um miradouro natural. No entanto, a Câmara Municipal realizou recentemente uma construção para melhorar as condições de acesso, deixando-as mais seguras para os visitantes e atletas que percorrem a região.

Foram criados um acesso pedonal e um passadiço para permitir que os visitantes consigam aceder ao miradouro sem qualquer problema. A construção, segundo o autarca, já devia ter sido inaugurada, mas sofreu atrasos devido à falência da empresa responsável.

“Tivemos a infelicidade de a empresa que estava responsável pela construção da plataforma ter entrado em falência. Portanto, todo o procedimento para que a autarquia pudesse assegurar a concretização da obra foi moroso”, apontou, aqui citado pelo “Público”.

As obras também chegaram a ser criticadas por alguns residentes, que acreditam que a nova construção afeta a paisagem natural. No entanto, a autarquia acredita que vai atrair mais turistas para a região.

𝐏𝐞́𝐬𝐬𝐢𝐦𝐚 𝐧𝐨𝐭𝐢́𝐜𝐢𝐚!  Mais um postal para a "Disneylândia" da natureza - a tendência das autarquias para artificializar paisagens selvagens através da construção de passadiços e plataformas de metal e vidro. Este fenómeno transforma o contacto com o mundo natural numa experiência de consumo visual rápido, focada na partilha em redes sociais, em vez de promover uma ligação autêntica e educativa com o ecossistema. 

Paralelamente, o impacto na biodiversidade e na geologia é preocupante, uma vez que estas estruturas permanentes podem fragmentar habitats — afetando aves de rapina que nidificam nas escarpas — e descaracterizar a geologia local, sendo a perfuração de rochas milenares para fixar estacas vista como um atentado ao património.

O Parque Natural do Alvão, com as suas escarpas rochosas e vales profundos (como as Fisgas de Ermelo), é um habitat crucial para várias aves de rapina rupícolas. Espécies notáveis que nidificam nas escarpas incluem o Grifo (Gyps fulvus), o Bufo-real (Bubo bubo), a Águia-real (Aquila chrysaetos) e o Falcão-peregrino (Falco peregrinus).

A área também é frequentada por outras rapinas, como o Bútio-vespeiro e a Águia-cobreira, que, embora prefiram árvores, podem caçar nas áreas rochosas. 

A ZEC Marão-Alvão é uma zona fundamental para a conservação destas espécies em Portugal, beneficiando da orografia acidentada.[Consultar ICNF

Além disso, o lobo-ibérico marca presença no Parque Natural do Alvão, sendo um dos habitantes mais emblemáticos e importantes desta área protegida. Esta espécie, cientificamente designada como Canis lupus signatus, encontra no Alvão e nas serras vizinhas, como o Marão, um habitat fundamental para a sua sobrevivência a sul do rio Minho. Apesar de estar classificado como "Em Perigo" em Portugal, o lobo mantém alcateias na região. Porém no último Censo 2019-2021 [consultar ICNF] este núcleo populacional sofreu uma redução do número de alcateias detectadas, da ordem dos 50 %, não tendo sido detectada a presença de 7 das 13 das alcateias registadas no anterior censo. 

Esta facilitação do acesso acaba por gerar problemas graves de capacidade de carga e massificação, atraindo milhares de pessoas para zonas antes preservadas pelo seu isolamento, o que resulta em acumulação de lixo, pressão sobre os recursos hídricos e perturbação do sossego da vida selvagem. Estes projetos raramente incluem planos de gestão a longo prazo para mitigar o impacto humano. O investimento deveria priorizar a vigilância e a conservação, através da contratação de mais vigilantes da natureza, em vez de se concentrar exclusivamente em infraestruturas turísticas.  
 
Muitas destas obras ignoram o que acontece "antes" e "depois" do miradouro:
1. Estacionamentos - para levar pessoas ao novo miradouro, é preciso alargar estradas e criar parques de estacionamento, o que impermeabiliza o solo.
2. Espécies Invasoras: o movimento constante de carros e pessoas facilita o transporte de sementes de espécies invasoras nas solas dos sapatos e nos pneus, que acabam por colonizar o Parque Natural e expulsar a flora nativa.

Portugal tem um histórico de construir passadiços e miradouros magníficos que, cinco anos depois, estão degradados, tornando-se perigosos e visualmente ainda mais chocantes na paisagem.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Matt and Kim - Lessons Learned



Tape holds things that cannot stick
And keep leftovers in the fridge
While lessons learned go down the drain
I can't believe in everything
All the bad names gone
And the good ones were all wrong

And so I stayed up all night
Slept in all day
This is my sound
Thinking about tomorrow won't change how I feel today

Never let your mark erase
'Cause broken legs can be replaced
Two steps to the finish line
Three sips till I finish mine
A straw will always suck it out
Close your eyes and use your mouth
And tell me about your song

And so I stayed up all night
Slept in all day
This is my sound
Thinking about tomorrow won't change how I feel today

Lançada em 2009 no álbum Grand, a canção foca-se na ideia de viver o momento e aceitar as consequências das nossas ações, sem grandes arrependimentos. Há uma celebração da juventude e da falta de inibição.

A Letra: A música fala sobre a sensação de liberdade ao "deixar-se ir" e como as experiências (mesmo as mais caóticas ou embaraçosas) se tornam "lições aprendidas". Há uma celebração da juventude e da falta de inibição.

O Vídeo Icónico: É impossível falar desta música sem mencionar o videoclipe. Nele, o duo caminha por Times Square, em Nova Iorque, enquanto se despe completamente até ficarem nus em público.

O conceito do vídeo: Reforça a mensagem da letra — a vulnerabilidade total e a ideia de que, independentemente do "escândalo" ou da reação dos outros, o que importa é a experiência vivida e a liberdade pessoal.

Curiosidade: O vídeo foi gravado num dia de muito frio e foi filmado de forma "guerrilha" (sem autorizações completas para nudez em público), o que resultou na detenção (encenada) dos artistas no final.

O que foi real?
O Frio: Sim, era real. Foi filmado em fevereiro de 2009. Se olhares para as pessoas em pano de fundo em Times Square, verás que estão todas com casacos pesados de inverno.

O Estilo Guerrilha: Sim. Eles não tinham autorização para nudez (o que seria quase impossível de conseguir ali). A produção foi feita de forma rápida para evitar que a polícia os parasse antes de terminarem a caminhada.

O que foi encenado?
A Detenção: Não foi real. No final do vídeo, vemos agentes da polícia a algemarem o Matt e a Kim. No entanto, aqueles "polícias" eram, na verdade, atores contratados pela produção.

A Nudez: Embora eles estivessem tecnicamente despidos no local, a Kim revelou mais tarde em entrevistas que eles usaram "pequenos truques" (" modesty patches, "como fita adesiva de cor da pele e protetores) para não estarem 100% expostos perante a multidão, embora para quem passava a ilusão fosse total.

Porquê a confusão?
A banda e o realizador queriam que o vídeo parecesse um documentário real de um crime ou de um ato de rebeldia pura. Durante muito tempo, eles mantiveram o mistério para alimentar o "hype" do vídeo, que acabou por ganhar o prémio de Melhor Vídeo Revelação nos MTV Video Music Awards de 2009

Resumo: Eles foram corajosos ao ponto de passarem muito frio e arriscarem uma multa a sério, mas o final "atrás das grades" foi apenas uma escolha artística para fechar a narrativa da música.

Fontes:
Butts, Blood and Busting Moves: How Matt and Kim Videos Rock the Internet
Entrevista sobre o vídeo

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Mão de obra imigrante é nove anos mais jovem do que a portuguesa – estudo


Os imigrantes que trabalham em Portugal são, em média, nove anos mais novos que a força de trabalho portuguesa, segundo uma análise estatística hoje divulgada.

De acordo com uma pesquisa da plataforma Prepara Portugal, com base nos dados cruzados do Instituto Nacional de Estatística (INE) e da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), “em 2023, a idade mediana dos trabalhadores estrangeiros era de 33 anos, enquanto a dos trabalhadores portugueses atingia os 42 anos”, um sinal de que os imigrantes contribuem para o “rejuvenescimento do mercado de trabalho nacional”.

Por outro lado, o estudo indica que mais de 85% da população estrangeira residente em Portugal encontra-se em idade ativa, muito acima da população portuguesa.

“Entre os nacionais, o grupo com 65 anos ou mais representa mais de 24% da população, enquanto entre os imigrantes esse valor não ultrapassa 8,5%”, refere Higor Cerqueira, diretor pedagógico do Prepara Portugal, uma plataforma destinada a estudantes internacionais e imigrantes que procuram inserção profissional no mercado português.

Segundo o estudo, cuja versão final será apresentada em janeiro, os imigrantes “estão fortemente inseridos em setores estratégicos como construção civil, turismo, restauração, agricultura, serviços administrativos e tecnologia da informação, áreas que enfrentam escassez estrutural de mão de obra nacional”.

De acordo com Pedro Stob, formador do curso de Análise de Dados e Tecnologia da Informação Aplicada à Gestão, do Centro de Formação Prepara Portugal, o objetivo final foi formar “alunos a trabalhar com dados reais, interpretar fenómenos sociais complexos e comunicar conclusões com impacto para a sociedade”.

“O estudo aponta ainda para uma integração progressiva dos imigrantes no mercado laboral, refletida na melhoria das taxas de emprego e no aumento gradual das remunerações médias ao longo do período analisado, apesar da persistência de desafios como diferenças salariais, reconhecimento de qualificações e estabilidade contratual em alguns setores”, referem os autores.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Esta é a lista de clientes divulgada por Marques Mendes


O candidato presidencial Luís Marques Mendes divulgou esta sexta-feira uma lista com os 22 clientes da sua empresa, na qual se encontram prestações de serviços em consultoria, comentário e participações em conferências, e que inclui a construtora de Famalicão Alberto Couto Alves.

Numa lista enviada à agência Lusa pela sua candidatura, encontram-se como clientes da sociedade LS2MM, Lda., no âmbito de consultoria estratégica: a Alberto Couto Alves, SGPS, SA; a Associação Portuguesa dos Industriais de Engenharia Energética (APIEE); a Atrys Portugal Centro Médico Avançado, SA, do Porto; a Denominador Comum – Consultoria de Negócios, SA, com sede na Póvoa de Lanhoso; e a Painhas SA, com sede no Porto.

À Lusa, o diretor de campanha, Duarte Marques, desafia os restantes candidato, “a bem da transparência”, a divulgarem “tudo o que se possa suscitar conflitos de interesses”.

McDonald’s e transportes pesados entre clientes

Na sequência de um artigo da revista Sábado, segundo o qual Marques Mendes ganhou mais de 700 mil euros nos últimos dois anos enquanto consultor da Abreu Advogados e na sociedade LS2MM, Lda, o candidato presidencial comprometeu-se a divulgar a lista da sua empresa familiar, após autorização dos clientes, mas não da sociedade de advogados, por colocar em causa o sigilo profissional.

Da lista da sua empresa constam igualmente, no âmbito de conferências proferidas por Marques Mendes: a ARP – Associação Rodoviária de Transportes Pesados de Passageiros; associação de Restaurantes McDonald’s, Brandom – Comunicação, Imagem e eventos, Lda; CBRE – Sociedade de Mediação Imobiliária, Lda; Cimpor – Serviços, SA; Eixo e Debate, Lda; El Circo del Marketing SL; Ger Imotion – Lda; GS1 Portugal; Marketividade – Marketing, comunicação e vendas, Lda; Primavera – Business Software Solutions, SA; Rede Global, SA; Shopitur, SA; a Tabaqueira II, SA; e Tedcom, Lda.

A SIC Sociedade Independente de Comunicação, SA, aparece na lista pelo espaço de comentário que manteve, assim como a Medipress Sc Jornalística e Editorial, Lda, no âmbito de artigos de opinião.

"Quem não deve não teme"
O diretor de campanha de Marques Mendes salientou, na declaração escrita enviada à Lusa, que o candidato presidencial divulgou esta lista “por dever de escrutínio e porque quem não deve não teme”.

“Cumpriu o que prometeu”, declarou, sublinhando que “o escrutínio deve ser para todos”.

“Isto é escrutínio e é correto. Outra coisa são insinuações vindas de alguns outros candidatos, só exibem desespero e baixa política”, afirmou Duarte Marques, que disse que “Marques Mendes resolveu fazer algo de inédito em Portugal em termos de transparência: divulgar a lista de clientes com que trabalhou, na sua vida”.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Portugal engana-se. Diverge, empobrece e finge crescer



Nenhum país se renova enquanto continuar a expulsar os competentes, os íntegros e a promover quem vive das conveniências e das redes de interesse, escreve o economista Óscar Afonso.

⚡ECO Fast
Portugal tem registado uma frágil convergência em relação à média da União Europeia, mas enfrenta uma divergência estrutural que se agrava.
Os dados da Comissão Europeia revelam que, entre 1999 e 2024, Portugal perdeu 5,2 pontos percentuais no nível de vida relativo, contrastando com o progresso de várias economias de leste.
Sem reformas estruturais profundas, o país continuará a descer no ranking europeu, com previsões de empobrecimento relativo e emigração de talentos qualificados.

Portugal tem registado, nos últimos anos, alguma convergência de nível de vida em relação à média da União Europeia (UE) nos dados oficiais da Comissão Europeia (CE). Contudo, esse progresso revela-se muito frágil — porque assenta em fatores conjunturais que mascaram fragilidades estruturais: Programa de Recuperação e Resiliência (PRR), turismo e a vaga de imigração descontrolada, além da imagem de destino seguro para turismo e investimento face à guerra na Ucrânia — e insuficiente para compensar a trajetória de divergência desde o início do milénio (entre 1999 e 2024), o foco da análise desta crónica. A divergência é ainda maior quando se corrigem os dados para refletir números mais atualizados da população residente, refletindo a vaga de imigração recente.

O contraste torna-se particularmente evidente quando comparado com o percurso das economias de leste, que protagonizaram um notável processo de aproximação ao nível de vida europeu, ultrapassando vários países que, em 1999, se situavam claramente à sua frente, incluindo Portugal. Acresce que estes países entraram bastante mais tarde na UE, tendo por isso recebido muito menos fundos — que, ao contrário de Portugal, souberam transformar em produtividade, rendimento e progresso para a generalidade da população.

Enquanto no leste europeu os apoios comunitários foram canalizados para modernizar economias inteiras, por cá serviram demasiadas vezes — para usar uma expressão suave — para alimentar interesses instalados, reproduzir privilégios e fortalecer uma elite facilitadora. E o mais triste é que nada disto é novo: Está, infelizmente, nos nossos “genes institucionais”. É um padrão antigo e persistentemente português, amplamente documentado por Antero de Quental, Eça, Garrett, Ramalho Ortigão, Fernando Pessoa, Saramago, Sophia ou Vergílio Ferreira — todos eles descrevendo, ao longo de séculos, a mesma teia de favoritismos, patrimonialismo e captura do Estado por minorias privilegiadas.

Uns investiram para criar futuro, nós desperdiçámos para preservar um sistema. Em suma, enquanto as economias de leste aproveitaram os fundos para convergir, Portugal continua a avançar aos solavancos, preso a um modelo que favorece a esperteza oportunista em detrimento do mérito, do trabalho sério e da inteligência criadora.

Somos um país onde demasiadas portas se abrem não pelo que se sabe ou pelo que se faz, mas por quem se conhece — um padrão que os nossos maiores escritores denunciaram, com uma precisão quase profética, muito antes de existir UE. E assim, geração após geração, mantemo-nos reféns dos mesmos bloqueios estruturais, enquanto outros que começaram muito atrás já vão muito à frente.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Ilhéu na Indonésia luta contra gigante suíço do cimento

Quatro residentes da pequena ilha indonésia de Pulau Pari prometeram lutar contra uma das indústrias mais prejudiciais para o clima: o cimento. A sua luta tem feito manchetes em todo o mundo. Nesta reportagem, falámos com eles na sua ilha natal ameaçada.

A partir de Jacarta, é preciso uma hora de barco e depois uma caminhada de cinco minutos para chegar à modesta casa de hóspedes no centro de Pulau Pari, uma pequena ilha cujo nome se tornou conhecido em todo o mundo.

Uma vez chegados, o olhar do visitante é imediatamente atraído por numerosos cartazes que apelam a "salvar a ilha".

De pé, junto ao fogão, a fritar bananas, está Ibu Asmania, gerente da casa de hóspedes. É também ela que está por detrás da primeira queixa climática apresentada na Suíça contra o fabricante de cimento Holcim.

Nesta manhã de quarta-feira de outubro, o terraço da pensão está cheio de gente. Um jornalista e um operador de câmara de um canal de televisão indonésio e dois representantes de uma ONG local também fizeram a viagem. "Viemos para contar a mesma história", diz entusiasmado o jovem jornalista.

O terraço da casa de hóspedes de Ibu Asmania está sempre ocupado, servindo de ponto de encontro para os residentes empenhados na justiça climática

A presença dos meios de comunicação social - incluindo do estrangeiro - já não surpreende ninguém nesta ilha paradisíaca de 1.500 habitantes. O processo que opõe quatro membros desta comunidade ao gigante do cimento Holcim, com sede em Zug, é histórico. Poderá abrir caminho a processos semelhantes na Suíça e noutros países.

Pulau Pari, que fica a cerca de 40 quilómetros a noroeste da capital indonésia, está na linha da frente do aquecimento global, tal como muitas pequenas ilhas em todo o mundo. A população sofre diariamente com o impacto negativo da subida do nível do mar, da degradação do ecossistema marinho e de condições meteorológicas cada vez mais imprevisíveis.

No entanto, os habitantes da ilha, que vivem principalmente da pesca e do turismo, contribuíram muito pouco para as emissões de gases com efeito de estufa responsáveis por estas alterações.

"As alterações climáticas estão a afetar-nos gravemente", diz Asmania. "Mas nós sempre cuidámos da nossa ilha. Estamos a sofrer as consequências das emissões de gases com efeito de estufa de multinacionais como a Holcim. É injusto."

Foi por isso que ela e três outros residentes decidiram deslocar-se à Suíça para intentar uma ação civil contra a Holcim, que consideram corresponsável pela crise climática. Exigem que o fabricante de cimento os indemnize pelos danos sofridos e contribua para medidas de proteção, num total de 14.700 francos suíços (18.200 dólares). Pedem igualmente à empresa que reduza as suas emissões de dióxido de carbono.

Depois de terminado o pequeno-almoço, Asmania, 42 anos, leva-nos para a sua sala de estar, onde apenas o zumbido de um ar condicionado quebra a calma. Na estante, há fotografias emolduradas da sua visita à Suíça, que a mostram em frente ao edifício do Parlamento Federal, em Berna, com vários deputados que apoiam a sua luta.

Um mês após o seu regresso, esta mãe de três filhos não esconde a sua preocupação enquanto "espera impacientemente" por notícias do tribunal de Zug.

Ao contrário dos outros queixosos, Asmania não cresceu em Pulau Pari, mas na cidade de Bekasi, a leste de Jacarta. Isso não a impede de lamentar o facto de o local ter mudado muito nos últimos anos. "Quando vim para cá, era uma ilha de pescadores", diz. Mudou-se para cá com o marido, Tono, com quem casou em 2005.

Na altura, Pulau Pari era conhecida pela sua cultura de algas marinhas, que eram exportadas internacionalmente e constituíam uma importante fonte de rendimento para a população. Depois de transformadas, estas algas eram utilizadas na indústria alimentar e farmacêutica.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Podemos estar a viver uma “extinção silenciosa” de aranhas únicas em Portugal

A aranha Macrothele calpeiana é uma das espécies que tecem as suas teias em forma de túnel

Fonte e mais imagens: Wilder 
Os grandes incêndios dos últimos anos e a perda de habitats, aliados à falta de recursos para investigação, podem levar ao desaparecimento de muitas espécies de aranhas únicas em Portugal e no mundo, sem sequer darmos conta, afirma Sérgio Henriques.

O alerta foi lançado numa entrevista à Wilder dada por este cientista português, líder do grupo de especialistas em aranhas e escorpiões da União Internacional para a Conservação da Natureza e especialista da Sociedade Zoológica de Londres.

Sérgio Henriques salienta também a singularidade do território subterrâneo português: “Para quem alguma vez sonhou em visitar o centro da terra e encontrar uma ‘selva’ tropical perdida no tempo, esse local existe, e fica nas cavernas de Portugal.”

Wilder: Estão para já descritas 829 espécies de aranhas em Portugal Continental. Este número é muito diferente de outros países europeus?
Sérgio Henriques: Os números variam muito de país para país, tal como o conhecimento que cada país tem da sua fauna. Será muitíssimo raro que exista alguma espécie nativa de aranha em Inglaterra que ainda não esteja descrita cientificamente, mas acontece todos os anos em Portugal. E mais vezes aconteceria, se houvesse recursos para estudar estes animais.

Ainda assim, Portugal tem um número considerável de espécies para a área que ocupa, devido à sua localização geográfica e à diversidade de habitats. Estamos localizados numa região de elevada biodiversidade, o Mediterrâneo. Ponto de encontro entre dois gigantes, África e Europa, Portugal foi um refúgio para muitas espécies durante a última glaciação: temos animais que sobreviveram aos impactos desta época no nosso país, mas foram erradicados de outros países do Norte da Europa.

As nossas cavernas são o melhor exemplo disso. Nelas temos espécies relictas [de grupos que já ocorreram na superfície mas que estão hoje isoladas nestas cavernas], cujos parentes mais próximos estão na Costa do Marfim, por exemplo. Essas são espécies de aranhas que já terão ocorrido numa área bem mais extensa do que a que hoje ocupam, mas cujos descendentes apenas sobreviveram no calor e segurança das cavernas portuguesas, tendo sido erradicadas em todos os outros habitats próximos na superfície.

Para quem alguma vez sonhou em visitar o centro da terra e encontrar uma ‘selva’ tropical perdida no tempo, esse local existe, e fica nas cavernas de Portugal.

W: E é possível estimar quantas espécies de aranhas existem em Portugal, incluindo aquelas que ainda não foram descritas?
Sérgio Henriques: Tenho a certeza de que o número será muito maior do que é hoje, mas não é possível fazer uma estimativa fiável. O número de espécies de aranhas descritas em Portugal cresce todos os anos e não me parece que vá parar tão cedo. Mas sem apoio, estas descrições são esporádicas e estão sobretudo dependentes de amadores.

Alguns fazem trabalho de topo, mas temos outros sem grande mérito, que descrevem espécies que claramente não são diferentes das anteriormente descritas. Alguns trabalham em colaboração com cientistas portugueses e com as autoridades, mas outros vêm “passar férias” e recolhem espécies em áreas naturais sem permissão de colheita e traficam-nas para fora do país.

Além disso, desta forma algumas áreas mais turísticas acabam por ser bem mais estudadas, como a costa algarvia, mas sabemos menos acerca do Interior do país, apesar da sua enorme riqueza biológica e da proximidade a Espanha. Pelo que é impossível fazer previsões sobre a velocidade com que novas espécies serão descritas ou registadas pela primeira vez para Portugal, quantas serão realmente válidas, e quando é que essas descrições vão começar a abrandar por estarmos a chegar ao número real de espécies que temos.

W: Os grandes incêndios que aconteceram nestes últimos anos podem estar a colocar em perigo aranhas únicas no país e no mundo?
Sérgio Henriques: Muitas das espécies de aranhas portuguesas estão adaptadas a incêndios ocasionais de baixa intensidade; algumas até podem depender deles. No entanto, os incêndios recorrentes com temperaturas muito elevadas, que afectam uma área enorme, dão pouca capacidade a alguns destes animais de recuperar. Particularmente quando já resta muito pouco habitat e as únicas áreas que se salvaram são urbanas ou agrícolas.

Além disso, Portugal não é um país enorme. E por isso, quando uma espécie ocorre apenas aqui, nunca ocupa uma área grande e não tem muita capacidade para se mover e viver noutros lados. E espécies como essas têm uma forte ligação à terra, são muito dependentes do seu habitat especifico e da estabilidade desse habitat.

W: E exemplos concretos de espécies afectadas?
Sérgio Henriques: Uma das que temo ter sido afectada pelos incêndios recentes é a Nemesia berlandi. É apenas conhecida de Fagilde, no Centro do país, e não era vista há quase 100 anos. Até que encontrei duas tocas numa pequena floresta.

Ao contrário de outras aranhas buraqueiras, que constroem tocas verticais com uma tampa, a N. berlandi parece construir tocas horizontais, o que a coloca em maior risco de não sobreviver às temperaturas elevadas de um incêndio. Infelizmente, o local onde encontrei as duas tocas era a única zona natural naquela área, que é sobretudo urbana ou agrícola, e a pequena floresta ardeu recentemente. Temo que não restem muitos outros locais apropriados para esta espécie viver.

É possível que algumas aranhas desta espécie tenham consigo sobreviver, mas tal como tem acontecido nas ultimas décadas, não há recursos para estudar esses animais. Na verdade, podemos estar a viver uma extinção silenciosa em que muitas espécies únicas do nosso pais desaparecem sem que saibamos, ou desaparecem antes mesmo de sabermos que existiam aqui.

W: Há outras ameaças para a conservação das aranhas?
Sérgio Henriques: Existem várias ameaças que parecem afectar as aranhas e outros invertebrados. A perda de habitat é uma das maiores e em Portugal está por vezes relacionada com os incêndios. Mas também com a urbanização e com a indústria mineira. Esta afecta particularmente a nossa fauna cavernícola, que é exepcionalmente única!

Mas temos também a construção de barragens, que prejudica os rios e inunda largas áreas únicas e de importância natural. E o aquecimento global, que impacta por exemplo a subida do nível do mar e aumenta a perda de habitat dunar (já afectado muitas vezes por outras ameaças), mas também causa a subida das temperaturas em habitats de alta montanha.

É provável que existam várias outras ameaças importantes que não tivemos ainda oportunidade e recursos para medir, uma vez que os esforços têm sido dirigidos para espécies endémicas [espécies que ocorrem apenas em território nacional]. Mas para além da perda de habitat, o uso de pesticidas agrícolas e a captura ilegal para venda ou coleccionismo têm certamente impacto em algumas espécies de aranhas portuguesas.

W: Os cientistas envolvidos nos trabalhos da Lista Vermelha de Invertebrados, como é o teu caso, estão a avaliar qual é o risco de extinção de várias centenas de animais invertebrados em Portugal Continental. Quantas espécies de aranhas estão a ser avaliadas?
Sérgio Henriques: As espécies-alvo desta Lista Vermelha são as endémicas do nosso país, que totalizam 42 espécies de aranhas, porque tememos que possam estar particularmente ameaçadas devido à sua distribuição reduzida. Por apenas existirem no nosso pais, a avaliação feita a nível nacional, como acontece neste projecto, é na realidade uma avaliação global

Esta aranha, apesar de ser endémica da Peninsula Ibérica – e não apenas de Portugal – é a única espécie que actualmente tem protecção oficial, neste caso pela rede Natura 2000. Por esse motivo, havia interesse científico e legislativo em analisar o seu estado de conservação.

Pessoalmente acho que é um imperativo moral protegermos o que é nosso. Se não o fizermos, quem o fará por nós?

W: Na tua opinião, ainda há muito para descobrir sobre as aranhas em Portugal?
Sérgio Henriques: Existe de facto muito a fazer, e não é que não haja gente nova com muito interesse ou conhecimento para isso, mas nunca houve apoio. E temo que ainda vamos perder muito mais habitat, espécies únicas e cientistas competentes, antes de termos o apoio que seria preciso.

Neste momento, nenhum aracnólogo activo português reside em Portugal. Emigrámos todos e continuamos a trabalhar no estrangeiro. Enquanto Espanha, por exemplo, embora esteja longe de ser perfeito, apoia vários destes especialistas.

Há muito ainda a fazer, mas qualquer boa casa começa com boas fundações. E qualquer campo de conhecimento biológico, antes de produzir conhecimento preditivo, tem de ter as fundações do conhecimento descritivo. E estas seriam descobrir que espécies temos e saber onde estão. O que se traduz em termos basicamente alguém a ser apoiado para descrever as espécies do nosso país que nunca foram descritas pela ciência, e a executar trabalho de campo para saber onde e quando essas e outras espécies ocorrem.

Este tipo de informação pode parecer de pouco valor, ou de interesse secundário, mas é a base que nos permite saber quão ameaçadas estão as nossas espécies, como as podemos proteger e quais são os impactos das alterações climáticas, que por sua vez nos poderão ajudar a prevenir os impactos em nós mesmos e nos recursos de que dependemos.

Essa informação também nos vai ajudar a produzir mais e melhor produtos agrícolas (sem recursos a pesticidas) e a descobrir novas substâncias, medicamentos mais eficazes ou melhores métodos de tratamento, que podem salvar vidas humanas. Sem esta base, todo este potencial se perde. Como uma biblioteca que arde sem que alguém tenha tido oportunidade de a ler.

Descubra as espécies de aranhas que já foram identificadas na Wilder e outras histórias sobre estes invertebrados ainda tão pouco conhecidos em Portugal, aqui.

domingo, 9 de novembro de 2025

Jornais do Reino Unido publicam mais anúncios de produtos poluentes do que cobertura sobre o clima



Segundo um novo estudo , os jornais nacionais britânicos dedicaram mais do que o triplo do espaço dedicado à publicidade de indústrias poluentes, como petróleo, companhias aéreas e veículos utilitários desportivos , do que à cobertura das negociações climáticas das Nações Unidas no ano passado .

O total de publicidade com altas emissões de carbono — incluindo publicidade de empresas de combustíveis fósseis, cruzeiros e bancos que financiam petróleo e gás — totalizou 5.086 polegadas de coluna em duas datas importantes durante a COP29, a conferência climática de 2024 em Baku, Azerbaijão, em comparação com 1.745 polegadas de coluna para as próprias negociações.

Com a próxima rodada de negociações, conhecida como COP30 , tendo início em Belém, no Brasil, os jornais provavelmente repetirão o padrão, alertou Andrew Simms, codiretor do think tank New Weather Institute, que conduziu a pesquisa .

“O que as pessoas no Reino Unido verão quando abrirem seus jornais? Algumas poucas matérias alertando-as sobre um desafio urgente que precisa ser enfrentado, mas isso provavelmente será ofuscado por pelo menos três vezes mais anúncios que normalizam a poluição”, disse Simms. “Precisamos de controles semelhantes aos da indústria do tabaco para anúncios que promovem produtos poluentes.”

A pesquisa analisou a cobertura em dez jornais nacionais britânicos, incluindo o Times, o Sun e o Daily Mail, em 11 de novembro, dia da abertura das negociações em Baku, e em 25 de novembro, na manhã seguinte ao término da conferência, quando a cobertura atingiu o pico. Os dez jornais dedicaram, em média, 2,1% de seu espaço editorial à conferência.

Alguns jornais quase não mencionaram os grandes impactos climáticos da época, como as inundações em Valência, na Espanha, ou a tempestade Bert no Reino Unido.

Cruzeiros e pacotes turísticos dominaram a publicidade de viagens durante o mesmo período, representando 50% das promoções de viagens.

O Financial Times foi o único jornal que não publicou anúncios de viagens durante o período, representando 55,7% da cobertura da COP29 em todos os jornais. O Guardian, que não aceita anúncios de empresas de combustíveis fósseis desde 2020, publicou um anúncio de página inteira da Turkish Airlines em uma das datas principais da conferência, segundo o estudo.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu aos países que proíbam a publicidade de combustíveis fósseis e instou os meios de comunicação e as empresas de tecnologia a pararem de veicular esses anúncios.

“Os jornalistas estão dizendo ao público que os cientistas climáticos estão alertando para a necessidade de pararmos de queimar combustíveis fósseis, mas aqueles que ainda compram jornais impressos são bombardeados com anúncios sugerindo que todos os outros estão aproveitando voos de longa distância e cruzeiros de luxo”, disse Brendan Montague, autor do estudo e editor da revista The Ecologist.

Os jornais The Times, The Sun, Daily Mail e The Guardian não responderam aos pedidos de comentários.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Quase metade de imigrantes recentes em Portugal sobrequalificados para trabalho que fazem


Foi divulgado esta segunda-feira o relatório da OCDE International Migration Outlook 2025. Entre vários dados apresentados relativamente ao fenómeno migratório em Portugal consta o cálculo de que 41% dos imigrantes recentes em Portugal são sobrequalificados para o trabalho que estão a fazer. Esta percentagem nos trabalhadores portugueses situa-se nos 12%, sendo assim um dos maiores fossos dos países analisados.

O nosso país é assim um dos destaques por ter uma taxa de sobrequalificação dos imigrantes “particularmente elevada” junto com a Itália, Noruega e Suécia. Isto contrasta com baixas taxas na Áustria e Alemanha e com uma taxa “praticamente nula no Canadá e nos Estados Unidos”.

Elencam-se explicações gerais para o desfasamento entre qualificações e emprego como os obstáculos no reconhecimento de qualificações e licenças profissionais, barreiras linguísticas e desajuste entre mercado de trabalho e qualificações.

No caso português salienta-se que 57% dos imigrantes são remetidos para a economia dos baixos salários dos setores do turismo, restauração e construção.

O estudo qualifica como imigrantes recentes” os que chegaram entre 2006 e 2015 e define sobrequalificação como o facto de o trabalhador deter um diploma de ensino superior e ter um trabalho que apenas exige qualificações médias ou baixas.

Portugal tem ainda uma das mais altas taxas de imigrantes empregados, 76%. E estes, quando entram no “mercado de trabalho” nacional ganham em média menos 28% do que os trabalhadores portugueses da mesma idade e sexo.

No país, o número de entradas de imigrantes de longa duração está a baixar. Entre 2023 e 2024 desceu 1,9%, sendo no total de 138.000. Neles se incluem 28% de imigrantes beneficiários de livre circulação, 44% de migrantes laborais e 14% de familiares, para além de estudantes internacionais do ensino superior que terão sido pelo menos 9.000.

Em termos gerais, a migração no espaço da OCDE desceu 4% em 2024, com um total de 6,2 milhões de novos migrantes de longa duração. No espaço da União Europeia este decréscimo é mais acentuado, nos EUA a tendência é de crescimento.

No conjunto dos países analisados, as razões familiares continuam a ser a maior causa, tendo a imigração laboral caído 21% e a humanitária aumentado 23%. Já a migração laboral estabilizou em 2,3 milhões e os estudantes do ensino superior foram 1,8 milhões, menos 13%.

O número de requerentes de asilo aumentou 13%. Na maior parte dos países até caiu, mas isso foi mais do que compensado por aumentos nos EUA, Canadá e Reino Unido. Na União Europeia, o número de deteções de passagens ilegais de fronteiras desceu 37% e nos EUA 48%. A percentagem de pessoas nascidas no estrangeiro nos países da OCDE situa-se nos 11.5%.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Para garantir circulação "mais segura e permanente" entre Campo do Gerês e Portela do Homem

Estrada da Mata de Albergaria vai ser pavimentada por 1 milhão de euros

Uma intervenção que só vai fazer aumentar a carga em Albergaria e consequentemente a poluição atmosférica e sonora, o abandono de lixo, a deposição de poeiras que recobrem a vegetação, o pisoteio descuidado de plantas e a perturbação constante da fauna — não é raro o atropelamento de animais como corços, martas ou raposas. E o problema é que estes danos não são temporários. Acumulam-se num ciclo contínuo de degradação que ameaça transformar uma área que deveria ser de proteção rigorosa num exemplo preocupante de desleixo ambiental. Senhor Presidente, ainda é tempo de reconsiderar a dita requalificação de Albergaria. Não transforme um património único, que deveria ser defendido com visão e coragem, num instrumento de conveniência política. A proteção da Mata exige responsabilidade. O que está em causa não é apenas o presente, mas sim a herança que deixaremos às gerações do futuro.

Será gasto um milhão de euros desviando um montante que deveria ser investido em projetos que inspirassem e orientassem a população a uma relação com a Mata que viabilizasse a sua manutenção, estudo e contemplação. 

Fonte: O Minho 

domingo, 21 de setembro de 2025

Turismo Imersivo: Da Massificação à Experiência com Significado


Hoje, viajar tornou-se uma prática tão comum que se arrisca a uma certa banalização. Em 2023, os residentes da União Europeia com mais de 15 anos realizaram mais de 1,1 mil milhões de viagens turísticas com pelo menos uma noite de estadia. Isso equivale a uma média de 2,4 viagens por pessoa por ano (Eurostat, 2023). No outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, a maioria das famílias realiza uma média de três viagens por ano.

Apesar da dimensão impressionante destes números, esta massificação e repetição de itinerários semelhantes — praias, monumentos, capitais turísticas — faz com que muitas dessas viagens deixem de ser experiências marcantes ou transformadoras.

É neste contexto que surge com força uma tendência internacional: o turismo imersivo (immersive tourism), também referido como experiential travel ou curated travel. A sua proposta é clara: substituir a quantidade pela qualidade, levando o viajante a viver experiências autênticas e a criar ligações genuínas com as comunidades locais.

O que distingue o turismo imersivo?
Ao contrário do turismo de massas, o turismo imersivo privilegia pequenos grupos e experiências de proximidade, onde os visitantes deixam de ser meros observadores para se tornarem participantes ativos:

Aprendendo diretamente com artesãos locais em workshops práticos.
  1. Descobrindo saberes tradicionais, como a cestaria com plantas autóctones ou a produção de queijo de cabra numa pequena unidade artesanal
  2. Partilhando refeições com gastronomia regional preparada com produtos locais.
  3. Integrando-se em festividades comunitárias e tradições vivas.
  4. Explorando a natureza através de passeios guiados que revelam paisagens, histórias e biodiversidade.
Um estudo recente de Zhou & Wang (2024) sublinha que a qualidade destas experiências depende de dois fatores: o experiencescape físico (o ambiente, a temática, e as infraestruturas que envolvem a experiência) e o experiencescape interpessoal (proporcionado pela interação entre anfitriões e visitantes). Ambos os elementos, segundo os autores, potenciam emoções positivas, que aumentam a probabilidade de os viajantes recomendarem o destino ou regressarem no futuro.

Uma prática de Turismo Responsável
As viagens imersivas não são apenas gratificantes para os viajantes – representam também um avanço no movimento global pelo Turismo Responsável. Ao escolher este tipo de experiência:
  1. As economias locais beneficiam diretamente: artesãos, produtores, guias e pequenos negócios veem o seu trabalho valorizado e justamente compensado.
  2. O património cultural é preservado: os ofícios e práticas tradicionais ganham visibilidade e continuam a florescer.
  3. As comunidades são fortalecidas: receber viajantes aumenta o orgulho na identidade local e abre novas oportunidades.
  4. O ambiente é respeitado: o formato de pequenos grupos e as atividades de contacto com a natureza promovem práticas de baixo impacto.
Desta forma, o turismo imersivo gera benefícios mútuos. Os visitantes têm experiências autênticas – não encenadas - que se tornam o ponto alto da viagem: as histórias das pessoas que conheceram, os ofícios que experimentaram com as próprias mãos, as receitas que provaram e as tradições em que participaram. E, ao fazê-lo, cada viagem contribui para uma economia local mais forte e para a preservação do que torna cada lugar único.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Os negócios de Hugo Soares, Aguiar-Branco e alguns deputados do Chega



Conflito de interesses dos deputados do PSD:
Hugo Soares como José Pedro Aguiar-Branco detêm empresas com actividade no sector imobiliário. Com efeito, Hugo Soares, bastante próximo de Luís Montenegro, criou em 2020 a Capítulo Universal com a sua mulher, Patrícia Lopes Mendes. Com um capital social de 5.000 euros, a empresa começou por estar sedeada em Caminha, mas mudou-se entretanto para Braga. E tem um objecto social quase decalcado da Spinumviva: além de actividades de consultoria, surge a inevitável “gestão e comércio de bens imóveis próprios ou de terceiros, incluindo a compra para revenda”.
A empresa de Hugo Soares não tem facturado tanto como a de Luís Montenegro, mas aparenta ser um bom “pé-de-meia”. Nas últimas contas apresentadas, a Capítulo Universal facturou 164.000 euros – nem um cêntimo a mais nem a menos – e um lucro de quase 69 mil euros, tendo Hugo Soares declarado que recebeu 19 mil euros como gerente. Sem distribuição de lucros – para não haver aplicação de impostos –, o presidente do grupo parlamentar do PSD tem lucros acumulados de cerca de 285 mil euros, um pecúlio de quatro anos bastante razoável para quem investiu cinco mil euros.
Quanto a Aguiar-Branco, conhecido pela sua actividade de advogado, também mete o dedo no imobiliário. De entre as três empresas em que declara participações, uma delas – a Portocovi – tem actividade no sector imobiliário. Com uma participação minoritária do social-democrata (38,97%), a Portocovi tem sede em Lisboa, um capital próprio de 29 mil euros e no seu objecto social está “a compra e venda de bens móveis e imóveis, arrendamento, gestão e administração de bens próprios ou alheios e prestação de serviços”.

Conflito de interesses dos deputados do Chega
Filipe Melo é detentor de 50% de uma empresa com o seu próprio nome - a António Filipe Dias Melo Peixoto, Unipessoal Lda.
Filipe Melo é gerente da empresa constituída em 2016, com sede em Braga e capital social de 5.000 euros. O âmbito do negócio, refere o registo, é de “promoção imobiliária” e de “compra e venda de imóveis”.
A mulher de Filipe Melo, com quem está casado por comunhão de adquiridos, é também dona de uma imobiliária com o seu nome - Cristina Vilaça, Unipessoal Lda -, constituída em 2020, quando o marido já era deputado do Chega, com sede em Braga mas diferente da outra empresa, e com capital social de 500 euros.
Outro deputado mencionado é José Dias Fernandes, eleito pelo círculo da Europa e que é membro suplente do Chega na comissão que vai votar alterações à lei dos solos, que terá uma holding de gestão de património - a JOAM - nos arredores de Paris, em França.
Marcus Santos, deputado e ex-atleta de MMA, é dono de um ginásio onde ministra aulas. 
Rui Paulo Sousa, secretário-geral do CHEGA, é empresário agrícola, sócio da empresa Villabosque — Espargos Verdes do Ribatejo. Todos os que referi mantêm os seus negócios e são deputados na AR.

Fontes:

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Façam todos o teste de ADN e verifiquem as suas origens. Somos todos primos!


Há vários testes, eu fiz do My Heritage.

Estávamos no ano 2016
O inglês, que é "provavelmente do melhor país no mundo", tem a certeza que é integralmente inglês e foge a sete pés dos alemães. O islandês, que diz ser 100% islandês, sente-se mais importante do que muita gente e a francesa está certa que tem pais franceses, avós franceses, ascendentes unicamente franceses. Mas basta um teste de ADN para derrubar todas as convicções e abalar tudo aquilo em que se acredita: talvez o inglês não seja tão britânico assim, talvez o cubano tenha qualquer coisa do outro lado do mundo. No final de contas, somos todos primos, estamos todos ligados, temos muito mais em comum com outras nacionalidades do que aquilo que se possa pensar — eis a mensagem que a última campanha do motor de busca de viagens Momondo tenta passar. "Não haveria lugar para certas coisas, como extremismo no mundo, se as pessoas conhecessem os seus antepassados desta forma. Quem seria tão estúpido ao ponto de pensar que existem cosias como uma raça pura?", diz, a dada altura, a tal francesa neste vídeo que já é viral. O portal dinamarquês juntou-se à empresa AncestryDNA e testou o ADN de 67 pessoas que aceitaram descobrir o seu passado. O vídeo "The DNA Journey", que ao fim de um mês tem mais de seis milhões de visualizações no YouTube e 29 milhões no Facebook, mostra as primeiras suposições e, depois, as emotivas reacções aos resultados. No entanto, está longe de ser consensual: houve quem criticasse o método científico e a veracidade das reacções, já que algumas das pessoas escolhidas são actores; a empresa, no entanto, emitiu um comunidado em que explica o processo e garante que tudo é real. Esta acção surgiu de um estudo que a Momondo realizou junto de mais de sete mil pessoas de 18 países (entre as quais, cerca de 400 portugueses) e que concluiu que viajar abre mentalidades, diminui a intolerância e aumenta a confiança no outro. Nele, entre outras coisas, mais de 40% pessoas responderam que há hoje mais preconceito do que há cinco anos. Daí surge a campanha "Let's Open Our World" [Vamos abrir o nosso mundo] que promoveu um passatempo para "celebrar a colorida diversidade do mundo", em que qualquer um pode ganhar "uma viagem pelo seu ADN". Até 16 de Agosto, os interessados teriam de convencer a empresa, num texto de 250 caracteres em inglês, como irão ajudar "a abrir o mundo" ao viajarem. As melhores respostas ganharam um kit de ADN. Depois, ao receberem os resultados, foram convidados a filmar a reacção — esse vídeo podia valer viagens para qualquer país que se encontrasse no mapa genético ou para aquele que preferirem. Puderam concorrer residentes de 17 países, entre os quais Portugal.

Em Fevereiro de 2017 Manuel Maqueo Martínez, mexicano de 27 anos, visitou Portugal pela primeira vez. Não veio à toa, veio com uma missão: descobrir as suas raízes portuguesas. Assim, passeou por Lisboa, pelo Porto mas o seu destino principal era Pereira, freguesia de Barcelos – o seu bisavô era português, o sobrenome da mãe Pereira.

No início de 2019, o vídeo tornou-se viral nos Estados Unidos. Enquanto o presidente norte-americano não desistia de erguer um muro na fronteira com o México, a Aero Mexico, companhia aérea mexicana, decidiu lançar uma campanha chamada “DNA Discounts”, em que oferecia descontos em voos para americanos. Os interessados só tinham de fazer um simples teste de saliva. Se tivessem acedência mexicana —e as probabilidades eram muitas — tinham descontos diretos numa viagem para aquele país. 

Foi a forma de a companhia mexicana mostrar a Trump e ao mundo que a ascendência mexicana é generalizada no território americano. Tão generalizada que até há escalões de descontos: uma pessoa com 15% de herança mexicana tem 15% de desconto, 50% dá direito a metade da viagem paga e por aí fora.

Esta é apenas mais uma história daquela que foi, disseram os especialistas, uma das grandes tendências de viagens nos últimos anos. Esteve, aliás, no top das 10 tendências de 2019, segundo a “Lonely Planet”. 

Saber mais: 

terça-feira, 6 de maio de 2025

O Direito ao Litoral



O fenómeno não é novo. Chama-se privatização do país. Transforma-lo numa coutada exclusiva para alguns. Na ultima década e meia, em Portugal, depois de Lisboa e Porto, outros pontos do território, em meio urbano ou rural, vão sendo atingidos pelo mesmo vírus. 

No caso, é todo o eixo Setúbal, Troia, Comporta, Melides e Galé, outrora toda uma vasta área de coabitação entre diferentes estilos de vida, classes sociais e disposições. Desde miúdo que frequento aquelas terras e areais e sempre ouvi dizer: “Isto dá para todos!” Cada vez mais se percebe que não é verdade. A história já foi contada muitas vezes noutros lados. 

Existe um território apetecível. Vai havendo investimentos privados. Os empreendimentos propagam-se. O turismo (de luxo, no caso) expande-se. A teia entre políticos, investidores e redes de interesses intensifica-se. Os planos e leis que outrora zelavam pelo bem comum, vão sendo abolidas e as delimitações entre o que é público e privado vão-se dissipando. 

A segregação faz-se de muitas maneiras. Existe a pornográfica, através do dinheiro. Aumenta-se exponencialmente os preços. Dos Ferry Boats. Dos restaurantes. Do imobiliário. Do turismo. Outras vezes a coisa é mais subtil, através da imposição de um certo estilo de vida entre semelhantes, de tal forma que os restantes acabarão por sentir-se excluídos. 

A população, residente, ou flutuante, assiste a tudo, numa primeira fase, com regozijo, com alguns a amealharem alguns cobres, e numa segunda fase com apreensão, porque vão percebendo que também são excluídos, ao mesmo tempo que os equilíbrios (ambientais ou socioculturais) vão sendo postos em causa. Um pequeno exemplo. 

A construção de um dos vários empreendimentos de larga escala (construção de 292 residências de luxo e mais um campo de golfe) implicou o cancelamento – por enquanto, parcial, porque ainda existe – do Parque de Campismo da Galé. Mas como a população que ali afluía dinamizava a economia local – ao contrário do turismo de luxo – todo o ecossistema económico se ressentiu. 

É aí que estamos. Os investimentos continuam. Os atentados ambientais também. O frenesim de construção não abranda. Há zonas onde só se avistam retroescavadoras e guindastes. A presença de seguranças é uma constante. Os acessos às praias, para quem vem de fora, vão sendo muito habilmente dificultados, quando não mesmo bloqueados.

O direito ao litoral está posto em causa. Depois, existe quem reaja e resista. Associações, plataformas, grupos de cidadãos. Não existe ilusões. Os cidadãos estão atomizados, fragmentados, isolados. É David contra Golias, mas se nada for feito, então, é que será mesmo o fim. Ninguém tem nada contra o investimento privado ou a dinamização territorial, mas sim contra o facto de os desequilíbrios não serem acautelados, as intervenções em vez de serem feitas com pinças, serem realizadas com buldózeres, apenas atendendo ao lucro, sem respeito pelo ambiente, e pela diversidade socioeconómica e cultural. 

Nos últimos três dias o movimento Reabrir a Galé gritou, em diversas iniciativas, entre manifestações nos Ferry Boats, conversas públicas e caminhadas, pelo Direito ao Litoral. Ontem ao caminhar pelo areal a perder de vista pensava num comentário da minha amiga Carla Baptista. “Quem diria que em 2025 tínhamos de estar a lutar pelo direito de ir à praia?”, escrevia ela. “Não há nada mais ilustrativo do estado do mundo.” É mesmo isso. 

E o pior é pensar que, daqui a uns anos, se nada for feito, quem agora aqui investe milhões, irá para qualquer outro lugar, porque o que seduzia no início estará esgotado ou totalmente destruído. E o capital irá colonizar outro território qualquer virgem. Marte, talvez. 

sábado, 3 de maio de 2025

Música do BioTerra: A Garota Não - Não sei o que é que fica


Então voltamos ao mesmo assunto
Somos tão bons pró resto do mundo
Na nossa casa o espeto é de pau
A prata é a fome do lobo mau
Welcome monsieur, a casa é vossa
O mal dos outros não nos faz mossa
Quem não aguenta a subida encosta
Habitação é fractura exposta
E eu que só vinha pra falar de amor
Deitar neste beat um poema em flor
Mas na porta ao lado há mais um despejo
Cai uma família, fica o azulejo
Começam as obras, que casa bonita!
Começam os guests, fome é infinita
Mais um AL, orgulho nacional
Corrida sem lei, onde vais Portugal?
Não sei o que é que fica se corrermos mais
O kê ke fica
Komé ke fica/
Quem é ke fica/
Como é que a gente fica/
Quando essa gente rica/
Gentrifica
Quando há uma gente k fica/
Com cada metro quadrado
Da nossa vida, memória
Onde é que a gente fica/
Quando nem se identifica
Com essa calçada refeita
Com essa fachada que foi feita
Para dar uma cara de outrora
A um fascismo de agora
Que só quer saber da receita
Na sede excêntrica
Quem vem de Paris é na hora
Quem tava aqui é pa fora/
Quem vem de cruzeiro vá bora/
Quem vem no barco que demora
Que vá morrer borda fora/
Que o estado quer o IMI
E o banco quer é penhora/
Voulez vous parlais
Parlais vous français/
Do you speak anglais/
Entre si vous plais/
Excepto se é cale
Excepto se vem de Calais/
E dizem que o mal é
Culpa de pobres, mas afinal
Qual é/
Coisa qual é ela/
Quem tem tanta gente sem casa, e tanta casa sem gente
E um camon à janela/
Qual é coisa qual é ela/
Que Desaloja e aloja
O camon e a loja
Da sardinha do Pastel
Ê o hostel, pa quem foge à
Geada do Norte
E o sul despoja/
Desalojamento local
Pra alojamento local
No mínimo é paradoxal
E agora este local, igual
A qualquer outra capital/
Senhor Presidente não ando feliz
Eu quero ser sonhos e não quem maldiz
Calem-se os fachos que ardam bandeiras
Aqui o assunto não são as fronteiras
É sempre bem vindo quem venha por bem
Problema é haver um casa pra cem
Salários tão baixos amarga a batuta
Que felicidade interna tão bruta