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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

De Ortega y Gasset ao tecnofeudalismo: diagnósticos e alternativas


Quando José Ortega y Gasset publicou A Rebelião das Massas em 1930, o mundo assistia ao colapso das certezas liberais do século XIX e à ascensão fulminante de forças destrutivas que ameaçavam dissolver a civilização ocidental. O filósofo espanhol anteviu que o maior perigo da modernidade não residia apenas em divisões de classe ou em doutrinas económicas abstratas, mas na emergência de um tipo psíquico e social específico: o homem-massa. Incapaz de autoexigência, habituado a usufruir dos frutos da tecnologia e do progresso sem compreender a sua complexidade nem assumir deveres éticos, o homem-massa caracteriza-se pela recusa da razão, pela rejeição das minorias qualificadas e pela imposição do seu arbítrio através do que Ortega denominou "ação direta". Esta atitude desprovida de mediação institucional constituiu a matriz comportamental dos regimes totalitários do século XX.

Os acontecimentos trágicos que se seguiram às advertências do pensador espanhol confirmaram o vigor premonitório do seu diagnóstico. O Fascismo na Itália de Benito Mussolini e o Nazismo na Alemanha de Adolf Hitler instrumentalizaram a vertigem da massa atomizada, transformando o ressentimento coletivo em violência de Estado, na aniquilação de opositores, no Holocausto e numa guerra devastadora em solo europeu. Paralelamente, o totalitarismo soviético sob Joseph Estaline converteu a promessa de emancipação no horror dos gulags, na purga sistemática de intelectuais e na submissão absoluta do indivíduo ao aparelho estatal. Anos mais tarde, o primarismo ideológico e o desprezo pelo saber atingiram o paroxismo no Camboja sob o regime do Khmer Vermelho e Pol Pot. Entre 1975 e 1979, na tentativa de refundar a sociedade a partir do zero através de uma "ação direta" absoluta, a população urbana foi forçada a trabalhos agrícolas, as elites intelectuais foram sumariamente executadas e cerca de um quarto da população do país foi dizimada num dos genocídios mais brutais da história humana.

Embora Ortega y Gasset focalizasse a sua crítica na inflação do poder estatal e na brutalidade política, as dinâmicas sociopolíticas das últimas décadas reconfiguraram o homem-massa dentro de uma nova estrutura sistémica. A desregulação do capitalismo selvagem dos anos 1980 deu lugar, no século XXI, à emergência do tecnofeudalismo. O indivíduo satisfeito e descomprometido da época de Ortega metamorfoseou-se no "servo da nuvem" hiperconectado: um utilizador que gera valor e dados continuamente para grandes plataformas privadas sem dele ter consciência, enquanto o espaço público e os mercados abertos são substituídos por feudos digitais dominados por monopólios tecnológicos.

Perante esta mutação do capital, a financeirização acelerada, o controlo algorítmico e a degradação ecológica, diversos pensadores contemporâneos redefiniram a crítica social, rejeitando os modelos autoritários do passado e propondo alternativas baseadas na democracia, na soberania digital e nos bens comuns.

Na vertente da crítica à expansão territorial e financeira do capital, o geógrafo britânico David Harvey formula o conceito de "acumulação por espoliação". Harvey demonstra que a dinâmica contemporânea do mercado já não assenta unicamente na extração de mais-valia fabril, mas na privatização predatória de recursos essenciais como a habitação, a água, a saúde e os espaços urbanos. Como alternativa, o autor reivindica o "Direito à Cidade", defendendo a gestão comunitária dos bens comuns e a desmercantilização do solo e dos serviços básicos. No campo estritamente financeiro, o economista grego Costas Lapavitsas analisa como a financeirização penetrou a reprodução da vida quotidiana, convertendo salários, crédito e endividamento familiar num motor direto de extração de riqueza por parte do sistema bancário. Lapavitsas propõe a criação de controlos públicos estritos sobre o sistema financeiro, a socialização do crédito e a realização de auditorias cidadãs às dívidas.

No âmbito da crise climática, a rutura com o produtivismo tradicional levou ao surgimento do ecossocialismo e das teorias do decrescimento. O filósofo japonês Kohei Saito sustenta que a acumulação infinita de capital é estruturalmente incompatível com os limites biofísicos do planeta. Resgatando as pesquisas ecológicas da maturidade de Karl Marx, Saito propõe o "decrescimento ecossocialista", fundado na redução da produção desnecessária, na redistribuição da riqueza e no redirecionamento da economia para a satisfação das necessidades humanas reais. De forma complementar, o historiador norte-americano Jason W. Moore conceptualiza o capitalismo como uma organização da natureza baseada na apropriação continuada de "natureza barata" - trabalho, energia, alimentos e matérias-primas. Moore argumenta que a superação da crise ecológica exige a transição para modelos agroecológicos e a abolição da fronteira artificial entre a sociedade humana e o mundo natural.

A crítica direta às estruturas do tecnofeudalismo e ao controlo digital é desenvolvida por teóricos como Yanis Varoufakis e Shoshana Zuboff. Enquanto Varoufakis denuncia como os "feudos na nuvem" substituíram os mercados tradicionais por mecanismos de rentismo digital e modificação de comportamento, Zuboff identifica o surgimento do "Capitalismo de Vigilância". Como resposta a este poder privatizado sobre a informação, estes autores e investigadores como Nick Srnicek e Alex Williams advogam a criação de infraestruturas públicas digitais, a afirmação da soberania democrática sobre os monopólios tecnológicos e a apropriação social da automação para reduzir a jornada semanal de trabalho, garantindo a dignidade através de um Rendimento Básico Incondicional.

A reflexão sobre os sujeitos políticos, as estruturas do cuidado e a organização social encontra eco em perspetivas que articulam a política institucional com a autonomia de base. A filósofa belga Chantal Mouffe diagnostica o esvaziamento das democracias e propõe a construção de uma nova hegemonia através do populismo de esquerda, capaz de radicalizar as instituições por meio da agregação de lutas plurais -feministas, ecológicas, antirracistas e laborais. Numa perspetiva focada na reprodução da vida, a filósofa feminista Silvia Federici evidencia que o sistema depende intrinsecamente do trabalho invisibilizado e não pago de cuidados e tarefas domésticas, maioritariamente desempenhado por mulheres. Federici propõe a revalorização e a reorganização comunitária do trabalho de reprodução social, subtraindo os cuidados à lógica da rentabilidade e do extrativismo de dados.

Por sua vez, as correntes antiautoritárias e autonómicas propõem alternativas de base sem mediação estatal. O antropólogo norte-americano David Graeber desferiu duras críticas à burocracia corporativa e à proliferação de empregos desprovidos de sentido útil (bullshit jobs), propondo a ação direta, o cancelamento de dívidas abusivas e formas de organização horizontal. Essa mesma busca por autonomia encontra expressão prática no Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), em Chiapas, no México. Rejeitando a tomada do poder estatal e o autoritarismo ideológico do século passado, o movimento zapatista constrói no quotidiano um modelo de autogoverno comunitário assente no princípio de "mandar obedecendo", onde o rigor da responsabilidade coletiva substitui a dispersão do homem-massa e a submissão aos novos feudos económicos.

O itinerário do pensamento social que vai do diagnóstico inicial de Ortega y Gasset às teorias do tecnofeudalismo revela a constante necessidade de defender a autonomia humana perante as forças de massificação e alienação. Quer perante a barbárie totalitária impulsionada pelo homem-massa no século XX, quer perante a extração invisível promovida pelos feudos digitais no século XXI, a resposta assenta na reconstrução do vínculo comunitário, na democratização da tecnologia e na defesa dos bens comuns.

Referências Bibliográficas
  1. Durand, C. (2020). Technofeudalism: Critique of Digital Economy
  2. Federici, S. (2019). Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação 
  3. Graeber, D. (2018). Bullshit Jobs: A Theory
  4. Harvey, D. (2004). O Novo Imperialismo. .
  5. Lapavitsas, C. (2013). Profiting Without Producing: How Finance Exploits Us All. 
  6. Moore, J. W. (2015). Capitalism in the Web of Life: Ecology and the Accumulation of Capital. 
  7. Mouffe, C. (2018). Por um Populismo de Esquerda. 
  8. Ortega y Gasset, J. (2019). A Rebelião das Massas. 
  9. Saito, K. (2024). O Capital no Antropoceno.
  10. Srnicek, N., & Williams, A. (2015). Inventing the Future: Postcapitalism and a World Without Work. 
  11. Varoufakis, Y. (2023). Technofeudalism: What Killed Capitalism. London: Bodley Head.
  12. Zuboff, S. (2021). A Era do Capitalismo de Vigilância: A Luta por um Futuro Humano na Nova Fronteira do Poder. 
Saber mais:

domingo, 18 de outubro de 2026

Entre a Razão Vital e a Luta de Classes: Os Limites de Ortega y Gasset


José Ortega y Gasset, filósofo, ensaísta, jornalista e ativista político espanhol, faleceu em Madrid a 18 de outubro de 1955, consolidando-se como um dos pensadores mais importantes do século XX e exercendo uma influência duradoura sobre os seus contemporâneos. Tido frequentemente como o "pai do existencialismo espanhol", o seu pensamento ganha verdadeira vida quando percebemos que nunca quis ser um filósofo de torre de marfim. Ortega escrevia para os jornais, falava para a rua e nutria uma obsessão clara: entender a vida tal como ela é vivida no dia a dia, com toda a sua confusão, urgência e imperfeição. Para ele, vivemos sempre numa circunstância, e a vida - a vida autêntica de cada um - consiste precisamente em saber o que fazer com ela, descobrindo o que tem de ser feito para não permitir que o "rebanho" cresça na sua ignorância, orgulhosa da sua própria estupidez.

A grande viragem do seu pensamento começa no modo como olhamos para a nossa existência. Durante séculos, a filosofia dividiu-se entre os idealistas, que juravam que tudo começava na mente, e os realistas, que priorizavam o mundo exterior. Ortega considerava essa discussão estéril, defendendo que a única realidade primordial e indiscutível é a vida humana de cada indivíduo. Esta "vida" não é um mero conceito biológico nem uma abstração teórica; é o drama de nos encontrarmos subitamente atirados para o mundo, sem termos pedido, e sermos forçados a decidir constantemente o que vamos fazer a seguir. Daí nasce a sua célebre máxima: "Eu sou eu e a minha circunstância, e se não a salvo a ela, não me salvo a mim".

Na prática, isto significa que ninguém existe num vácuo. O ser humano não é apenas a sua vontade, o seu caráter ou os seus sonhos, mas também o país onde nasceu, a língua que fala, a sua classe social, o seu momento histórico e até as pequenas contrariedades do quotidiano. Essa é a "circunstância" - o cenário e as cartas atribuídas pela vida. Não é possível simplesmente ignorar o mundo e viver isolado na própria mente; para realizar o seu potencial, o indivíduo tem de agir sobre esse cenário, transformando-o e dando-lhe sentido, numa conversa dramática e ininterrupta entre o "eu" e o meio que o cerca.

Por esta razão, Ortega criticava duramente a "razão pura" - uma razão fria, puramente matemática ou lógica, distante da realidade. A razão humana não serve para construir teorias abstratas e perfeitas que em nada alteram a existência quotidiana; serve, sim, para nos ajudar a navegar no mundo. Trata-se da "razão vital": pensamos porque precisamos de resolver problemas concretos e de nos orientar na selva da vida real. Desta perspetiva surge também o seu perspectivismo. Como a vida de cada pessoa está ancorada numa circunstância única, cada indivíduo ocupa um ponto de vista singular sobre o mundo. Se imaginarmos uma montanha, quem a observa do Norte vê uma paisagem coberta de neve, enquanto quem a olha do Sul contempla vegetação e sol. Ambos têm a verdade, pois a realidade não é uma imagem estática observável de um único ângulo absoluto, mas sim a soma de todas as perspetivas possíveis. O erro surge quando alguém julga que a sua visão individual é a única correta e tenta impô-la aos demais, ou quando se desagua num relativismo em que nenhuma perspetiva parece ter valor.

No entanto, a faceta de Ortega que talvez mais ressoe na atualidade é a sua crítica social, sintetizada na obra A Rebelião das Massas. Ao observar a Europa do início do século XX, o autor identificou a emergência do "homem-massa" - um termo que não designava as classes trabalhadoras ou os mais pobres no sentido económico, mas sim um perfil psicológico e uma atitude mental transversal a operários, académicos ou multimilionários. O homem-massa é o indivíduo que não exige nada de si mesmo, que não busca a excelência nem possui curiosidade intelectual, sentindo-se perfeitamente confortável por ser "igual a todo o mundo". Usufrui dos benefícios imensos da civilização moderna - a tecnologia, a medicina, os direitos políticos e o conforto material -, mas toma-os como garantidos, como se fossem frutos espontâneos da natureza, ignorando o esforço monumental, a disciplina e a cultura necessários ao longo de séculos para construir esses privilégios.

O grande perigo antevisto por Ortega residia na tirania deste conformismo. Ao sentir-se em maioria, o homem-massa perde o respeito pelo pensamento crítico, pelas minorias, pelo debate de ideias e pelas instituições. Em vez de argumentar, recorre à "ação direta" - à força bruta, ao linchamento moral ou à coerção do Estado - para esmagar tudo o que seja diferente ou exigente. Ao abdicar-se da responsabilidade individual, a democracia corre o risco de degenerar e abrir caminho a regimes autoritários, nos quais a multidão entrega o controlo a demagogos que prometem facilidades sem exigir esforço a ninguém.

Para compreender a evolução das sociedades, Ortega introduz ainda o conceito de geração. A história não avança por heróis isolados nem por impulsos cegos da multidão, mas através da sucessão de gerações - grupos de contemporâneos que partilham a mesma época, enfrentam os mesmos problemas e possuem uma "sensibilidade vital" semelhante. O papel de cada nova geração passa por receber a herança da anterior, criticá-la, adaptá-la ao seu tempo e dar o passo seguinte; quando uma geração se recusa a fazer esse trabalho ou se acomoda, a sociedade estagna. No fundo, o pensamento de José Ortega y Gasset configura-se como um apelo urgente à responsabilidade pessoal, lembrando que a liberdade não é um estado passivo, mas um compromisso diário de pensar pela própria cabeça, recusar o comportamento de rebanho e assumir o comando da própria vida dentro das circunstâncias dadas.

Porém, a grande limitação de Ortega reside precisamente na ausência de uma crítica estrutural ao capitalismo. O filósofo espanhol concentrou quase toda a sua análise nos domínios da cultura, da psicologia e da política, ignorando em grande medida a economia política. Embora criticasse o "homem-massa" pelo seu consumismo voraz e pela ilusão de abundância, não chegou a analisar quem lucra com essa alienação, nem a forma como o próprio sistema capitalista produz ativamente essa passividade para perpetuar a exploração. Para os pensadores críticos do capitalismo, como Karl Marx, Antonio Gramsci ou os teóricos da Escola de Frankfurt, não é possível culpar o indivíduo comum por ser "conformista" quando existe todo um aparelho económico, produtivo e publicitário minuciosamente desenhado para o manter submisso e alienado.

Para quem procura uma resposta direta à urgência de romper com a servidão e destruir o capitalismo selvagem através da ação coletiva e popular, a tradição crítica oferece perspetivas diametralmente opostas às de Ortega. Pensadores como Karl Marx e Rosa Luxemburg defenderam rigorosamente que a verdadeira libertação nunca viria de "elites esclarecidas", mas sim da auto-organização e da consciência da própria classe trabalhadora, partindo do princípio de que a emancipação dos trabalhadores terá de ser obra dos próprios trabalhadores. Na mesma linha, Antonio Gramsci analisou de que modo a classe dominante constrói uma "hegemonia cultural" para fazer o povo aceitar a exploração como algo natural e inevitável, sublinhando a necessidade premente de criar uma consciência de classe revolucionária a partir da base. Já no campo pedagógico e social, Paulo Freire contrapôs a visão elitista com a sua pedagogia do oprimido, argumentando que a consciencialização e a libertação têm de ser feitas pelo próprio povo, rejeitando radicalmente a premissa de que a massa é ignorante ou incapaz por natureza.

Ainda assim, mesmo para quem defende a revolução popular, a leitura de pensadores como Ortega y Gasset pode revestir-se de um importante valor estratégico. Conhecer a crítica que o autor faz à dinamização das massas ajuda a antecipar os riscos e desvios que qualquer movimento revolucionário enfrenta no terreno: o perigo de uma revolta legítima ser capturada por demagogos, a facilidade com que o dogmatismo sufoca a crítica interna ou a tragédia de a força da mudança se degenerar numa nova forma de autoritarismo. Como sustentava o filósofo Baruch Spinoza, o objetivo supremo de estudar as ideias dos outros não é "chorar nem rir, mas compreender". Rejeitar a visão de mundo de Ortega é uma posição perfeitamente legítima, pois ela parte de premissas sobre a natureza humana e a organização social que são fundamentalmente incompatíveis com o ideal de uma transformação popular e anticapitalista. Falarei disso numa próxima postagem. 

sábado, 15 de agosto de 2026

As Mulheres da Nova Direita em Portugal - Bases Teóricas e Ameaça Democrática

A emergência de uma nova militância de mulheres conservadoras no espaço público português, vai mais além do   revisionismo do Movimento Nacional Feminista, do Estado Novo e tem como teorização o  manifesto, que passou para o livro Identidade e Família. Este movimento já arquitetado em meados de 2021, junto como o Manifesto Identidade e Família são duas faces da mesma moeda. Trata-se da reorganização de um Novo Conservadorismo que está a moldar a direita em Portugal e na Europa, combinando a mobilização jovem nas redes sociais com o resgate de velhos dogmas morais. Esta aliança une a linha da frente de novas bancadas e ativistas a uma elite intelectual, médica e católica tradicional. Por trás de uma estética moderna e de discursos que apelam a uma suposta "verdadeira emancipação", esconde-se uma estratégia para desmantelar conquistas sociais e, sobretudo, para branquear e apagar a herança de figuras históricas incontornáveis como Maria de Lourdes Pintasilgo.

A ascensão de quadros femininos no campo da nova direita - com destaque para deputadas do Chega como Rita Matias, e em linha com fenómenos europeus protagonizados por figuras como Giorgia Meloni em Itália - veio reconfigurar a paisagem política. Ao contrário do conservadorismo tradicional, estas protagonistas não recusam a presença pública da mulher. Pelo contrário, ocupam o palco político e usam redes digitais como o TikTok e o Instagram para defender que a "verdadeira liberdade" passa pelo regresso ao essencialismo biológico, pelo culto da maternidade e pela defesa intransigente da "família natural". O objetivo passa por disputar a narrativa dos direitos das mulheres, catalogando o feminismo moderno como um "dogma ideológico" e posicionando-se como guardiãs dos valores cristãos perante a secularização e a mudança demográfica.

Movimento de mulheres conservadoras aproxima Chega da agenda evangélica brasileira e do Novo Conservadorismo
Em Julho, o grupo juntou-se em Sintra para um evento que reuniu “mulheres conservadoras”. O lançamento oficial do movimento está anunciado para Novembro.
O pré-lançamento realizou-se a 11 de Julho, no Palácio Valenças, em Sintra, num espaço pertencente à Câmara Municipal. O encontro contou com a presença de deputadas do Chega, entre as quais Rita Matias, Cláudia Estevão e Madalena Cordeiro, e da deputada federal brasileira Priscila Costa, avançou o Diário de Notícias Brasil.

Entre as oradoras estiveram Teresa Nogueira Pinto, que integra o governo-sombra do Chega com a pasta da Cultura; Catarina Nicolau Campos, jurista e chefe de gabinete do grupo parlamentar do CDS-PP; e Rute Sousa, uma das oito influenciadoras que esteve em Israel a convite da Embaixada israelita em Portugal e que soma mais de 108 mil seguidores apenas no Instagram. Destaca-se também no centro com a credencial "REBECA" a jovem Rebeca Batista, uma das fundadoras/embaixadoras do movimento e dirigente de uma fundação evangélica internacional (The Foursquare Church).
Na apresentação das participantes, a organização fez também referência à maternidade e ao número de filhos.

O Movimento Mulheres Conservadoras Portugal ainda tem pouca informação pública disponível, mas, desde Junho, tem vindo a publicar conteúdos nas redes sociais. Entre eles está um vídeo de uma reunião com deputadas do Chega, realizada no gabinete do partido, na Assembleia da República.

A aproximação à direita brasileira ganha particular relevância pelo papel que as igrejas evangélicas desempenham no Brasil como importante base de apoio da direita e do bolsonarismo. Em Portugal, o Chega tem mantido contactos com comunidades evangélicas, mas não tem assumido, até agora, uma estratégia política especificamente dirigida a este eleitorado.

De acordo com os Censos de 2021, entre a população com mais de 15 anos residente em Portugal, cerca de 186 mil pessoas identificaram-se como “protestantes evangélicos”.

Também este movimento está associado internacionalmente aos movimentos pentecostais ou Pentecostalismo, ressurgido com mais intensidade na era MAGA, de Donald Trump (consultar embaixo os textos) 

É no centro desta disputa cultural que o novo ativismo conservador promove o apagamento do legado de Maria de Lourdes Pintasilgo. Primeira e única mulher a chefiar um Governo em Portugal e figura cimeira do movimento O Graal, Pintasilgo provou que a fé católica e o compromisso ético não exigem a submissão ao patriarcado nem o confinamento ao lar. Enquanto Pintasilgo defendeu que a emancipação das mulheres e a igualdade eram exigências do próprio Evangelho, recusando a maternidade como um destino único ou uma gaiola social, o movimento atual tenta colar a defesa da igualdade de género a um "marxismo cultural". Ao fazê-lo, estas novas frentes conservadoras omitem que a maior pioneira do feminismo e da igualdade política em Portugal foi uma mulher de fé católica, cuja ação assentava na libertação e na justiça social - e não na preservação da autoridade masculina ou do papel da dona de casa.

Se este novo ativismo feminino garante o impacto nas redes e  na rua, o livro Identidade e Família - coordenado por António Bagão Félix, Paulo Otero, Pedro Afonso e Victor Gil - serve de pilar doutrinário. A obra compila ensaios que contestam a dita "ideologia de género", o aborto, a eutanásia e o construtivismo social nas escolas. A apresentação da obra na livraria Buchholz por Pedro Passos Coelho, a par da comparência de dirigentes do CDS-PP e do Chega, evidenciou a capacidade deste movimento para cruzar pontes entre o centro-direita católico e a nova extrema-direita parlamentar.

Este processo insere-se numa vaga documentada em toda a Europa, visível na afirmação de lideranças femininas sob o lema "Sou mulher, sou mãe, sou cristã", na reação articulada contra a agenda woke em países como Espanha através do Vox, em França e na Europa Central, e na ligação a movimentos pró-vida das Américas, como a influência do CPAC ou do PL Mulher no Brasil.

Conclusão
A articulação entre a militância de novas mulheres conservadoras e a sustentação teórica do livro Identidade e Família demonstra que o Novo Conservadorismo em Portugal está estruturado. Ao usarem as ferramentas da modernidade para defender o regresso a valores tradicionais, estas frentes procuram reescrever a história recente do país. Contudo, ao fazê-lo, esbarram na memória que tentam branquear: a praxis de Maria de Lourdes Pintasilgo, a prova histórica de que ter fé e combater pela emancipação das mulheres continua a ser uma das maiores forças de libertação da democracia portuguesa.

Ler mais:

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Allen Ginsberg faria hoje 100 anos


"We're beautiful golden sunflowers inside, blessed by our own seed and golden hairy, naked accomplishment-bodies, growing into mad black formal sunflowers in the sunset, spied on by our own eyes, under the shadow of the mad locomotive riverbank sunset Frisco hilly tin can evening sit down vision. " - Allen Ginsberg

Allen Ginsberg (1926–1997) foi a voz mais estridente, célebre e provocadora da Geração Beat — o movimento literário dos anos 50 que funcionou como o rastilho para a contracultura hippie dos anos 60. Poeta, ativista budista e provocador profissional, ele passou a vida a implodir os valores conservadores da América do pós-guerra.

Allen Ginsberg, a força motriz da poesia contracultural. Fonte: Wikipedia
Uma Vida na Vanguarda
Nascido em Nova Jérsia numa família judia, Ginsberg cresceu marcado pela doença mental da mãe (uma comunista convicta) e pela poesia do pai. Na Universidade de Columbia, nos anos 40, conheceu Jack Kerouac e William S. Burroughs. Juntos, formaram o núcleo do que seria a Geração Beat: um grupo focado na espontaneidade, na rejeição do materialismo e na exploração da consciência.

Ginsberg tornou-se o "ministro das relações públicas" do grupo, unindo a literatura ao ativismo político e social até à sua morte em 1997.

Os Factos Mais Polémicos e Contraculturais
O que tornou Ginsberg uma figura magnética (e profundamente odiada pelo establishment) foi a sua recusa absoluta em esconder quem era ou o que pensava.

1. O Julgamento por Obscenidade de "Uivo" (Howl)
Em 1955, Ginsberg leu em público o seu poema mais famoso, "Uivo" (Howl), em São Francisco. O poema abre com o lendário verso: "Eu vi os melhores cérebros da minha geração destruídos pela loucura...".

A polémica: quando o poema foi publicado pelo editor (e também poeta) Lawrence Ferlinghetti, as autoridades apreenderam o livro. O teor explicitamente homossexual e as referências a drogas levaram a um julgamento histórico por obscenidade em 1957.

O desfecho: o juiz declarou que a obra tinha "valor social redentor", transformando o livro num manifesto contracultural e dando a Ginsberg uma plataforma nacional.

2. Homossexualidade Aberta e a NAMBLA
Numa época em que a homossexualidade era considerada crime e doença mental nos EUA, Ginsberg vivia abertamente com o seu parceiro de uma vida, Peter Orlovsky. Ele usava a sua poesia para celebrar o sexo gay e desafiar a hipocrisia puritana.

A maior mancha no seu legado: anos mais tarde, o seu compromisso radical com a liberdade de expressão levou-o a defender e a afiliar-se à NAMBLA (North American Man/Boy Love Association), uma organização que defendia a legalização de relações sexuais entre homens e menores. Embora Ginsberg argumentasse que defendia apenas o direito à livre expressão e ao debate, esta posição continua a ser o ponto mais sombrio e indefensável da sua biografia.

3. O "Evangelista" do LSD e das Drogas Psadélicas
Ginsberg não consumia drogas apenas por recreação; ele via-as como ferramentas de expansão espiritual e política.
Participou nas primeiras experiências científicas com psilocibina em Harvard com Timothy Leary.
Defendeu publicamente o uso do LSD para "libertar a mente humana do controlo do Estado".

Foi deportado de Cuba em 1965 por chamar "atraente" a Che Guevara e criticar a perseguição do regime castrista aos homossexuais. No mesmo ano, foi expulso da Checoslováquia comunista após ser eleito "Rei de Maio" (Královna Máje) pelos estudantes de Praga, por ser considerado uma ameaça corruptora para a juventude.

4. Ativismo Político e o Conceito de Flower Power
Ginsberg esteve na linha da frente dos protestos contra a Guerra do Vietname. Durante os violentos protestos na Convenção Nacional Democrata de 1968, em Chicago, ele passou horas a entoar o mantra budista "Om" para tentar acalmar a tensão entre os manifestantes e a polícia militarizada.

Ele foi o criador do termo Flower Power (Poder das Flores), uma estratégia que desenhou em 1965 sugerindo que os manifestantes anti-guerra distribuíssem flores aos polícias e jornalistas para transformar os protestos políticos em espetáculos de paz e teatro visual.

O Vigilante do FBI: J. Edgar Hoover, o eterno diretor do FBI, considerava Ginsberg uma das maiores ameaças à segurança nacional dos EUA. O FBI manteve um ficheiro detalhado sobre o poeta com centenas de páginas, vigiando de perto os seus passos e as suas ligações à esquerda radical.

Ginsberg conseguiu a proeza rara de começar a carreira no submundo literário, ser perseguido pela polícia e terminar a vida como um membro consagrado da Academia Americana de Artes e Letras, sem nunca ter pedido desculpa por chocar o mundo.

quarta-feira, 29 de março de 2023

Elon Musk e “padrinhos” da Inteligência Artificial pedem "uma pausa" e alertam para riscos para a Humanidade

O crescimento da Inteligência Artificial tem sido notável e a sua utilização tem levantado dúvidas e preocupações. Elon Musk foi o cofundador da Open AI, tendo saído em 2018, e tem sido uma das vozes mais críticas do rápido crescimento desta tecnologia revolucionária.

O dono da Tesla, em conjunto com um grupo de especialistas e executivos da Tecnologia, estão a pedir uma “pausa” de seis meses no desenvolvimento de sistemas mais poderosos que o recém GPT-4, numa carta aberta na qual estão listados os potenciais riscos para a Humanidade.

A carta foi emitida pelo instituto sem fins lucrativos, “Future of Life”, e assinada por mais de 1.100 pessoas que pretendem uma suspensão “consciente” de projetos ligados à Inteligência Artificial. Com isto querem que as empresas tecnológicas implementem protocolos de segurança. Para além disso, entendem como relevante auditar rigorosamente os desenvolvimentos na Inteligência Artificial por especialistas externos independentes.

“Isso não significa uma pausa no desenvolvimento da IA ​​em geral, apenas um retrocesso na corrida perigosa para modelos de caixa preta cada vez maiores e imprevisíveis com capacidades emergentes”, esclarecem na carta.

Sublinha-se que este instituto, “Future of Life”, é financiado principalmente pela Fundação Musk, bem como pelo grupo Founders Pledge e pela Silicon Valley Community Foundation.

Na carta é relatado que os sistemas de Inteligência Artificial podem representar “riscos profundos” para a Humanidade.

“Conforme declarado nos amplamente endossados​​ Princípios de IA de Asilomar , a IA avançada pode representar uma mudança profunda na história da vida na Terra e deve ser planeada e gerida com cuidados e recursos proporcionais”, lê-se.

Quem são os consignatários?
Os consignatários incluíram o CEO da Stability AI, Emad Mostaque, os pesquisadores da DeepMind e os “pesos pesados” da Inteligência Artificial, Yoshua Bengio, muitas vezes referido como um dos "padrinhos da IA", e Stuart Russell, um pioneiro da pesquisa em campo.

Steve Wozniak, cofundador da Apple, Jaan Tallin e Luis Moniz Pereira também foram os conhecidos nomes que assinaram esta carta.

O próprio CEO da OpenAI, Sam Altman, veio a público alertar que o mundo poderá estar próximo de uma Inteligência Artificial “potencialmente assustadora” e sublinha que a regulação para controlar esse avanço da tecnologia é “crítica”.

As críticas
Os críticos acusaram os signatários da carta de promover o "hype da Inteligência Artificial", argumentando que as afirmações sobre o poder desta tecnologia foram muito exageradas.

"Esse tipo de declaração visa aumentar o hype. Serve para deixar as pessoas preocupadas", Johanna Björklund, pesquisadora de IA e professora associada da Universidade de Umeå. “Não acho que haja necessidade de puxar o freio de mão.”

Em vez de interromper a pesquisa, disse Johanna, os pesquisadores de IA devem ser submetidos a maiores requisitos de transparência.

terça-feira, 21 de março de 2023

O legado filosófico de Alexandre Koyré

«Pode muito bem ser que o futuro do mundo, e consequentemente o sentido do presente e o significado do passado, venham a depender em última análise das interpretações contemporâneas da obra de Hegel.» – de Introduction to the Reading of Hegel (1947) por Alexandre Kojève

«O incompreensível em Hegel é a cicatriz deixada pelo pensamento da identidade.» – de Hegel: Three Studies (1963) por Theodor Adorno

Paris, França, 1933. O jornal francês Le Figaro lê-se: «É um pavio para um barril de pólvora» sob a manchete «Hitler é o Novo Senhor da Alemanha». O terror instala-se. A extrema-direita está a crescer. A economia está a sofrer. Há desemprego em massa. Há greves de trabalhadores. O fascismo começa a atrair as classes médias. Em Berlim, os Stormtroopers patrulham as ruas. A Gestapo detém pessoas e assassina-as em caves. Todos os dias chegam de comboio refugiados da Alemanha à procura de asilo. Entre 1933 e 1938, mais de 80.000 políticos, filósofos, comunistas e liberais fogem da Alemanha para França. Há um sentimento anti-alemão. Há protestos contra os imigrantes.

Mas a vida intelectual floresce nos cafés, institutos e academias, à medida que os refugiados constroem uma comunidade no exílio. E na École Pratique des Hautes Études, uma das universidades de investigação mais prestigiadas de França, Alexandre Kojève assumiu o seminário de Alexandre Koyré sobre a Fenomenologia do Espírito (1807) de G. W. F. Hegel. Entre 1933 e 1939, Raymond Aron, Georges Bataille, André Breton, Gaston Fessard, Jacques Lacan, Maurice Merleau-Ponty, Éric Weil, Hannah Arendt, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Frantz Fanon, Raymond Queneau, Emmanuel Levinas vêm todos ouvir as suas palestras. Uma coleção dos pensadores mais renomados da época, que viriam a lançar as bases intelectuais para a filosofia, o pensamento político, a literatura, a crítica, a psicologia e a história do século XX. Diz-se que as palestras de Kojève eram tão intricadas, tão hábeis, que Arendt o acusou de plágio. Bataille adormeceu. Sartre nem sequer se conseguia lembrar de lá ter estado.

Como é que Kojève, esta figura obscura da história, veio a influenciar toda uma geração de pensadores neste momento crucial? Como é que as suas ideias continuam a alimentar os debates políticos e culturais de hoje em torno da identidade, do individualismo, da democracia liberal e do fim da história?

As biografias de Kojève são escassas. Nascido na Rússia, aristocrata, sobrinho do aclamado artista Wassily Kandinsky, funcionário público francês, um dos primeiros arquitetos da União Europeia, professor de filosofia, estudioso de Vedanta, polímata, combatente da resistência francesa, espião soviético? A vida de Kojève é quase demasiado cinematográfica para parecer real, como alguém saído de um romance de John le Carré trazido à vida, ou a encarnação de uma das personagens de Fyodor Dostoyevsky.

Nascido Aleksandr Vladimirovich Kozhevnikov em Moscovo em 1902, há poucas dúvidas de que Kojève é um dos pensadores mais importantes para compreender o nosso mundo contemporâneo. A maioria dos artigos populares escritos sobre ele, que surgem de poucos em poucos anos à medida que emergem novos detalhes da sua vida, começam da mesma forma: é difícil exagerar o legado da obra de Kojève. Mas depois, ele desaparece novamente nas camadas subterrâneas da consciência popular, da história intelectual e daqueles que estudam Hegel.

Fugindo da União Soviética após a revolução em 1920 através da Polónia para a Alemanha, Kojève viveu em Berlim e depois em Heidelberg, onde escreveu a sua tese de doutoramento sob a direção de Karl Jaspers sobre o filósofo, poeta e teólogo russo Vladimir Soloviev. (Soloviev, que tinha sido influenciado por Hegel, defendia que todas as noções de pensamento podiam ser contidas num todo transcendental.) Kojève mudou de nome quando se mudou para Paris em 1926, onde continuou os seus estudos até 1929, quando o colapso da bolsa o deixou na ruína financeira e à procura de trabalho. Foi por acaso que Koyré o convidou a assumir os seminários sobre Hegel em 1933, que deveriam durar apenas um ano e acabaram por durar seis. E em 1941, após a invasão alemã, Kojève fugiu para Marselha, onde viveu até lhe pedirem para se juntar ao gabinete do ministro da Economia francês, ajudando a moldar a política económica como conselheiro na construção do governo francês do pós-guerra. Recrutado para o exército francês, Kojève nunca lutou na guerra. Um autor escreve: «[E]le misteriosamente não se juntou ao seu regimento.» Outro afirma que ele se juntou à Resistência Francesa. E um artigo no Le Monde de 2000, citando um memorando de três páginas, afirmava que ele tinha sido um espião soviético durante os últimos 30 anos da sua vida.

Kojève confessou ter lido Hegel várias vezes na sua vida sem entender uma palavra

Descrito por colegas como charmoso, secreto e aterrorizador – terá Kojève sido um protagonista ou um antagonista? O registo histórico não está estabelecido. Terá sido um espião soviético? Terá combatido na Resistência Francesa? O que queria ele dizer quando escreveu que era a «consciência de Estaline»? Por que razão enviava cartas a Estaline? Terá a filosofia chegado realmente ao fim com Hegel? E por que razão, neste momento particular da história, com o cenário de fundo de uma catástrofe política em curso, estava toda a gente a ler a Fenomenologia do Espírito de Hegel?

A filósofa feminista francesa Simone de Beauvoir dedicou tardes na Bibliothéque Nationale (a Biblioteca Nacional de França) a ler a Fenomenologia. Escreveu no seu diário:

Continuei a ler Hegel, que começava a compreender. Nos pormenores, a riqueza do seu pensamento assoberbava-me: mas o sistema no seu todo deixava-me tonta. Sim, era tentador anularmo-nos em favor do Universal, considerar a nossa própria vida a partir do Fim da História…

O texto de Hegel era tão popular que, se Beauvoir tivesse tentado requisitar o livro alguns meses antes, tê-lo-ia encontrado nas mãos do crítico cultural do século XX Walter Benjamin, que estava a trabalhar nas suas «Teses sobre a Filosofia da História».

Kojève tinha descoberto a obra de Hegel na Alemanha durante os seus tempos de estudante com Jaspers e, tal como outros, ficou cativado pela impenetrabilidade da Fenomenologia. Para ser justo, a obra de Hegel é notoriamente opaca. Consta que as suas últimas palavras foram: «Apenas um me compreendeu, e mesmo esse não me compreendeu.» Theodor Adorno, ele próprio um escritor difícil, disse: «Hegel é sem dúvida o único com quem por vezes literalmente não se sabe, nem se pode determinar conclusivamente, do que se está a falar, e com quem não há garantia de que tal julgamento seja sequer possível.» O filósofo Bertrand Russell comentou que Hegel era «o mais difícil de compreender de todos os grandes filósofos». E quando Kojève aceitou assumir o seminário de Koyré, confessou ter lido Hegel várias vezes na sua vida sem entender uma palavra.

Mas a opacidade de Hegel nunca impediu as pessoas de interpretarem a sua obra, achando-a perspicaz, inspiradora e enfurecedora em igual medida. Numa anedota, o filósofo marxista francês Henri Lefebvre comentou sobre a Fenomenologia: «Hegel tinha a idade mental de uma criança de sete anos.» O crítico literário Maurice Blanchot escreveu: «Não se pode “ler” Hegel, a não ser não o lendo.» Ou seja, mesmo que nunca tenha lido Hegel, já se cruzou com as suas ideias recicladas no pensamento de outros; por muito impenetrável que Hegel possa parecer, a sua obra penetrou profundamente a consciência coletiva.

A opacidade da Fenomenologia de Hegel presta-se a interpretações promíscuas, mas nenhuma leitura foi tão sedutora quanto a de Kojève. Encontramos a sua interpretação de Hegel refletida na obra de uma vasta gama de pensadores, de Leo Strauss, Allan Bloom e Francis Fukuyama a Michel Foucault, Jacques Derrida, Giorgio Agamben e Judith Butler. Ler Kojève a ler Hegel tornou-se um negócio académico por si só. De facto, o comentário de Blanchot poderia ser reescrito assim: hoje em dia não se pode ler Hegel, a não ser lendo Kojève.

Por que razão a leitura de Kojève da Fenomenologia de Hegel exerceu tamanha força de influência em várias disciplinas e linhas políticas?

A resposta curta é que Kojève tornou Hegel acessível ao trazer à superfície um dos elementos essenciais da sua obra: o desejo. Kojève não negou que estava a fornecer uma leitura de Hegel que transformava o texto. A sua interpretação foi descrita como «criativa», «ultrajosamente ousada» e «violenta». A questão que Kojève colocou no centro das suas palestras foi: «O que é a pessoa hegeliana?» E respondeu a esta questão através de uma discussão sobre o desejo humano, centrando-se numa breve secção da Fenomenologia intitulada «Independência e Dependência da Autoconsciência: Dominação e Escravidão», popularmente traduzida como «a dialética do senhor e do escravo». E ao centrar esta secção de nove páginas de uma obra de 640 páginas, Kojève ofereceu aos leitores uma forma de apreender um texto que, de outro modo, seria elusivo.

Poética na sua opacidade, perplexa na sua terminologia, a obra de Hegel oferece uma compreensão da evolução da consciência humana onde a mente finita se pode tornar um veículo para o Absoluto. Mas o que significa isso? Kojève brought a prosa elevada de Hegel dos céus e colocou-a nas mãos humanas, oferecendo uma tradução: este é um livro sobre o desejo humano e a autoconsciência. Ou, como escreve o filósofo Robert Pippin:

Kojève, que basicamente insufla este capítulo até o transformar numa antropologia filosófica autónoma e de pleno direito, defendeu este ponto ao claiming que, para Hegel, a particularidade do desejo humano é poder ter como objeto algo que nenhum outro desejo animal tem: o desejo de outro.

Qual era a leitura de Kojève da dialética do senhor e do escravo?

Na leitura de Kojève, os seres humanos são definidos pelo seu desejo de reconhecimento, e é um desejo que só pode ser satisfeito por outra pessoa que seja o seu igual. A partir desta leitura, Kojève desenrola um processo em várias etapas: duas pessoas encontram-se, há um combate até à morte, um confronto de vontades entre elas, e quem estiver disposto a arriscar a vida triunfa sobre o outro, torna-se o senhor, o outro torna-se um escravo; contudo, o senhor é incapaz de satisfazer o seu desejo, porque é reconhecido apenas por um escravo, alguém que não é o seu igual. E através do trabalho do escravo para satisfazer as necessidades do senhor, aliado ao reconhecimento do senhor, em última análise, o escravo ganha poder.

Como Kojève definiu: «O desejo é a presença de uma ausência»

O que é essencial para Kojève é que se arrisque a vida por algo que não é essencial. Aquele que recua perante o outro por medo da morte torna-se o escravo. Aquele que está disposto a morrer – a enfrentar a inevitabilidade da sua própria não-existência – torna-se o senhor. Por outras palavras, o desejo é um exercício da vontade sobre o desejo do outro. Ou, como o psicanalista francês Jacques Lacan viria a dizer: «O desejo é o desejo do desejo do Outro.» Não é uma tentativa de possuir a outra pessoa fisicamente, mas de forçar a outra pessoa, naquele momento de confronto, a ceder, a curvar a sua vontade, a fim de alcançar a superioridade. E neste momento, escreve Kojève: «O Homem arriscará a sua vida biológica para satisfazer o seu Desejo não biológico.» Para obter reconhecimento neste sentido, é preciso estar disposto a arriscar tudo – incluindo a própria vida. É uma luta pelo domínio de si mesmo.

Em vez da rotunda de autoconsciência de Hegel que existe em si e para si, mas sempre e apenas em relação a outro, Kojève dá-nos: a autoconsciência é o Eu que deseja, e o desejo implica e pressupõe uma autoconsciência. Pensar sobre a relação entre a mente finita e o conhecimento Absoluto é opaco, mas o desejo é humano. As pessoas sabem o que se sente ao desejar, ao querer, ao ansiar por ser visto, ao querer sentir-se compreendido. O desejo é a fome que se sente para preencher a ausência dentro de si mesmo. Ou, como Kojève definiu: «O desejo é a presença de uma ausência.»

E não é um desejo consumível – não pode consumir o objeto do desejo, porque o desejo dirigido a outra pessoa é um desejo de reconhecimento, e consumi-la seria negar, destruir, a possibilidade desse reconhecimento. Precisamos uns dos outros para continuar a existir. Ou, como a autora Simone Weil escreve em Gravity and Grace (1947): «O belo é aquilo que desejamos sem querer comer.» Ou, como a poeta Anne Carson em «Tango XXIX» (2001): «Dizer que a Beleza é a Verdade e parar. / Em vez de a comer. / Em vez de a querer comer.»

Talvez o mais importante seja que o que Kojève compreendeu foi a dimensão em que nós, humanos, desejamos exercer algum controlo sobre a forma como as outras pessoas nos veem de maneira diferente daquela como nos vemos a nós próprios. Por mais ténue ou certa que a nossa noção de identidade própria possa parecer, é o nosso próprio sentido de Eu que devemos arriscar quando aparecemos no mundo perante os outros – a nossa identidade, desejo, medo e vergonha. Não há garantia de que seremos vistos da forma como queremos ser vistos, e sentirmo-nos mal reconhecidos magoa quando acontece, porque fere o nosso sentido de Eu. Mas este risco é vital – faz parte do que nos torna humanos, faz parte da nossa humanidade. E enquanto a leitura de Kojève caminha para um ideal de igualdade social que afirma o sentido pré-existente de Eu de alguém quando confrontado por um outro, para Hegel, deve-se acolher a perceção que o outro tem do Eu – seja ela qual for – de volta na sua própria autoconsciência. Por outras palavras, enquanto para Hegel a liberdade assentava na capacidade de preservar a diferença, para Kojève assentava na capacidade de preservar a própria identidade à custa da diferença.

Ao trazer a linguagem elevada de Hegel dos céus para a terra, Kojève ofereceu aos leitores uma compreensão secular da ação humana, que exige que todos e cada um dos indivíduos se confrontem com a inevitabilidade da sua própria morte, da sua própria ruína. E ao fazê-lo, desviou o foco para o indivíduo como o centro da mudança social, onde a história se desenrola em direção a uma sociedade aristocrática de iguais, onde toda a diferença é destruída. Influenciado pela visão de Karl Marx da luta de classes como o motor da história, e pela compreensão de Martin Heidegger do «ser-para-a-morte», a leitura de Kojève da dialética do senhor e do escravo apresenta outra forma de combate entre opressor e oprimido, onde o domínio sobre o outro a fim de se dominar a si próprio se torna o meio para a igualdade e, em última análise, para a justiça dentro da sociedade. Kojève adotou a dialética do senhor e do escravo para desenvolver o que Michael Roth chamou «um esquema para organizar a mudança ao longo do tempo», para pensar sobre o movimento da história. E a dialética do senhor e do escravo desenrola-se ao nível do indivíduo e ao nível da sociedade, onde o Eu ganha reconhecimento como sujeito desejante através da batalha sem fim pelo reconhecimento ao aparecer no mundo com os outros, e ao nível da sociedade onde todos os movimentos históricos passados serão julgados dentro de uma estrutura de direito, que é o fim da história.

Este tem sido em parte o legado de Kojève. Influenciado pela leitura de Kojève da dialética do senhor e do escravo, Sartre defendeu em Being and Nothingness (1943) que a liberdade do homem se encontra na negação. Em The Second Sex (1949), Beauvoir recorreu a Kojève para pensar a opressão das mulheres em relação ao homem e a necessidade de reconhecimento intersubjetivo. O «estádio do espelho» de Lacan segue a leitura que Kojève faz de Hegel para compreender o papel do desejo como uma falta na formação da subjetividade humana. Bataille recorreu a Kojève para defender que só se podia experienciar a plena soberania do Eu num momento de pura negação. Para Foucault, isso levou à crença de que não há desejo livre de relações de poder – o seu tema central. E para Fukuyama, este confronto histórico de vontades evoluindo ao longo de um plano temporal linear em direção a uma sociedade igual e justa tornou-se a muito ridicularizada tese do «fim da história» – a ideia de que a democracia liberal ocidental evoluiu como a forma final de governo humano no mundo do pós-guerra. O mundo do pós-guerra que o próprio Kojève ajudou a moldar, antes da sua morte prematura em 1968. Em última análise, a tese de Fukuyama capta a diferença entre Hegel e o Hegel de Kojève: para Kojève, o ideal de igualdade universal conquistado através de uma batalha sem fim pelo reconhecimento foi sempre uma noção individualista que exigia dominação quando confrontada pela alteridade. Mas para Hegel, a liberdade humana só podia ser conquistada através da coletividade, abraçando a opacidade da alteridade com que somos constantemente confrontados em nós próprios e no mundo com os outros. É uma aceitação do facto de que o domínio de si mesmo permanecerá sempre uma ilusão.

Quando Kojève tinha 15 anos, foi preso e condenado à morte por vender sabão no mercado negro em Moscovo. Mas, tal como Dostoyevsky, no último momento possível, foi poupado ao pelotão de fuzilamento porque o seu tio, médico pessoal de Lenine, interveio a pedido da mãe. Levado para marchar ao encontro da morte, só se pode tentar imaginar o que acontece a um homem naquele momento, quando está atado a um poste e as armas estão apontadas. A história parece quase apócrifa, como se tivesse sido escrita para transmitir a intensidade com que Kojève compreendia a batalha entre duas vontades num confronto de poder até à morte. Talvez de forma menos quixotesca, ilustra o que está no cerne da obra de Kojève – nunca se pode realmente saber antecipadamente como a história se desenrolará, se é que se desenrola, e tudo o que nós, sujeitos humanos e desejantes, temos é a nossa capacidade de agir dentro de algum contexto histórico.

Fonte

segunda-feira, 30 de maio de 2022

The idea of primitive communism is as seductive as it is wrong

Marx’s idea that societies were naturally egalitarian and communal before farming is widely influential and quite wrong



Karl Marx died on 14 March 1883. At the funeral three days later, Friedrich Engels wasted little time on their 40-year friendship, focusing instead on Marx’s legacy. ‘Just as Darwin discovered the law of development of organic nature,’ Engels said, ‘so Marx discovered the law of development of human history.’ His friend had died ‘beloved, revered and mourned by millions of revolutionary fellow-workers – from the mines of Siberia to California, in all parts of Europe and America … His name will endure through the ages, and so will his work!’

Engels made sure of this. In the following years, he devoted himself to organising and publishing Marx’s ideas. From a mélange of fragments and revisions, he produced the second and third volumes of Das Kapital, in 1885 and 1894 respectively. He meant to publish a fourth but died before he got to it. (It was later published as Theories of Surplus Value.) Still, the most peculiar project born from Marx’s notes was released a year after his death. Engels titled it The Origin of the Family, Private Property and the State. I’ll call it The Origin, for short.

The Origin is like Yuval Noah Harari’s blockbuster Sapiens (2014) but written by a 19th-century socialist: a sweeping take on the dawn of property, patriarchy, monogamy and materialism. Like many of its contemporaries, it arranged societies on an evolutionary ladder from savagery to barbarism to civilisation. Although wrong in most ways, The Origin was described by a recent historian as ‘among the more important and politically applicable texts in the Marxist canon’, shaping everything from feminist ideology to the divorce policies of Maoist China.

Of the text’s legacies, the most popular is primitive communism. The idea goes like this. Once upon a time, private property was unknown. Food went to those in need. Everyone was cared for. Then agriculture arose and, with it, ownership over land, labour and wild resources. The organic community splintered under the weight of competition. The story predates Marx and Engels. The patron saint of capitalism, Adam Smith, proposed something similar, as did the 19th-century American anthropologist Lewis Henry Morgan. Even ancient Buddhist texts described a pre-state society free of property. But The Origin is the idea’s most important codification. It argued for primitive communism, circulated it widely, and welded it to Marxist principles.

Today, many writers and academics still treat primitive communism as a historical fact. To take an influential example, the economists Samuel Bowles and Jung-Kyoo Choi have argued for 20 years that property rights coevolved with farming. For them, the question is less whether private property predated farming, but rather why it appeared at that time. In 2017, an article in The Atlantic covering their work asserted plainly: ‘For most of human history, there was no such thing as private property.’ A leading anthropology textbook captures the supposed consensus when it states: ‘The concept of private property is far from universal and tends to occur only in complex societies with social inequality.’

Historical narratives matter. In his bestseller Humankind (2019), Rutger Bregman took the fact that ‘our ancestors had scarcely any notion of private property’ as evidence of fundamental human goodness. In Civilized to Death (2019), Christopher Ryan wrote that pre-agricultural societies were defined by ‘obligatory sharing of minimal property, open access to the necessities of life, and a sense of gratitude toward an environment that provided what was needed.’ As a result, he concluded: ‘The future I imagine (on a good day) looks a lot like the world inhabited by our ancestors…’

Primitive communism is appealing. It endorses an Edenic image of humanity, one in which modernity has corrupted our natural goodness. But this is precisely why we should question it. If a century and a half of research on humanity has taught us anything, it is to be sceptical of the seductive. From race science to the noble savage, the history of anthropology is cluttered with the corpses of convenient stories, of narratives that misrepresent human diversity to advance ideological aims. Is primitive communism any different?

According to the Aché, former hunter-gatherers living in Paraguay, they first met Kim Hill when he was a child. They adopted him, raised him, and taught him their language. Hill, however, remembers their first encounter differently. It was Christmas of 1977. He was 24 years old. He had persuaded the Peace Corps to fly him out to a Catholic mission with newly contacted hunter-gatherers. A priest welcomed Hill, but ‘he had a lot of duties across the border in Brazil,’ Hill told me. ‘So he drove me into the mission, dropped me off, and said “Here’s the keys to my house.”’ Then the priest left for two weeks. Thus began ‘the most exciting, fun adventure I could imagine’.

The Aché that Hill first met had recently been contacted and settled at the mission. They didn’t know how to farm, so they regularly packed up and headed to the forest, sometimes for weeks at a time. The priest warned Hill not to join them. ‘He said: “You don’t have enough skills – it’s really rough – they’re going to walk really far – you won’t be able to eat the food” – blah blah blah.’ So, ‘of course, the first thing I did was ignore his advice completely.’

The first trip was tough. The Aché didn’t have clothes, so Hill went barefoot and wore nothing but gym shorts. The forest shredded his feet. Vines and spiny plants lacerated his legs. He later wrote in his diary: ‘I have seen my blood every single day for the past month.’ At night, the Aché slept on the ground. Struggling to keep warm, children crawled on Hill, making it hard to catch more than 10 minutes of sleep. He enjoyed hunted meat, but he was less prepared for the hundreds of fat palm larvae sitting between him and starvation.

It was on that first trip that Hill saw the Aché share their meat. A man returning from a hunt dropped an animal in the middle of camp. Another person, the butcher, prepared piles for each family. A third person distributed. ‘At the time, it seemed kind of logical to me,’ Hill said. The scene reminded him of a family barbecue where everyone gets a plate.

Yet the more he lived among the Aché, the more astonishing food-sharing seemed. Men were forbidden from eating meat they’d acquired. Their wives and children received no more than anyone else. When he later built detailed genealogies, he discovered that, contrary to his expectations, bandmates were often unrelated. Most importantly, food-sharing didn’t just happen on special days. It was a daily occurrence, a psychological and economic centrepiece of Aché society.

What he started to see, in other words, was ‘almost pure economic communalism – and I really didn’t think that was possible.’

Hill’s first trip to Paraguay got him hooked on anthropology. After the Peace Corps, he returned to the United States and wrote a PhD thesis on Aché foraging. Now, four decades later, he is professor of anthropology at Arizona State University and renowned for his work on hunter-gatherers and remote peoples. According to his CV, he has spent 190 months – nearly 16 years – conducting fieldwork.

Not all of that has been with the Aché. In 1985, he started working with another group, the Hiwi of Venezuela. He didn’t expect dramatic differences from the Aché. The Hiwi, too, were hunter-gatherers. The Hiwi, too, lived in lowland South America. Yet Hiwi society felt like a new world. The Aché lived in mobile bands of 20 to 30 people. The Hiwi lived in villages of more than 100 people for most of the year. The Aché neither did drugs nor danced. The Hiwi snorted hallucinogens and had tribal dances near-daily. The Aché spent most of each day strenuously getting food. The Hiwi foraged for barely a couple hours, preferring to relax in hammocks. The Aché divorced constantly. The Hiwi, virtually never.

Then, there was food-sharing. In the primitive communism of the Aché, hunters had little control over distributions: they couldn’t favour their families, and food flowed according to need. None of these applied to the Hiwi. When meat came into a Hiwi village, the hunter’s family kept a larger batch for themselves, distributing shares to a measly three of 36 other families. In other words, as Hill and his colleagues wrote in 2000 in the journal Human Ecology, ‘most Hiwi families receive nothing when a food resource is brought into the village.’

Hiwi sharing tells us something important about primitive communism: hunter-gatherers are diverse. Most have been less communistic than the Aché. When we survey forager societies, for instance, we find that hunters in many communities enjoyed special rights. They kept trophies. They consumed organs and marrow before sharing. They received the tastiest parts and exclusive rights to a killed animal’s offspring.

The most important privilege hunters enjoyed was selecting who gets meat. Selective sharing is powerful. It extends a bond between giver and recipient that the giver can pull on when they are in need. Refusing to share, meanwhile, is a rejection of friendship, an expression of ill will. When the anthropologist Richard Lee lived among the Kalahari !Kung, he noticed that a hunter named N!eisi once ignored his sister’s husband while passing out warthog meat. When asked why, N!eisi replied harshly: ‘This one I want to eat with my friends.’ N!eisi’s brother-in-law took the hint and, three days later, left camp with his wives and children. By exercising control over distributions, hunters convert meat into relationships.

To own something, we say, means excluding others from enjoying its benefits. I own an apple when I can eat it and you cannot. You own a toothbrush when you can use it and I cannot. Hunters’ special privileges shifted property rights along a continuum from fully public to fully private. The more benefits they could monopolise – from trophies to organs to social capital – the more they could be said to own their meat.

Compared with the Aché, many mobile, band-living foragers lay closer to the private end of the property continuum. Agta hunters in the Philippines set aside meat to trade with farmers. Meat brought in by a solitary Efe hunter in Central Africa was ‘entirely his to allocate’. And among the Sirionó, an Amazonian people who speak a language closely related to the Aché, people could do little about food-hoarding ‘except to go out and look for their own’. Aché sharing might embody primitive communism. Yet, Hill admits, ‘the Aché are probably the extreme case.’

Hunters’ privileges are inconvenient for narratives about primitive communism. More damning, however, is a starker, simpler fact. All hunter-gatherers had private property, even the Aché.

Individual Aché owned bows, arrows, axes and cooking implements. Women owned the fruit they collected. Even meat became private property as it was handed out. Hill explained: ‘If I set my armadillo leg on [a fern leaf] and went out for a minute to take a pee in the forest and came back and somebody took it? Yeah, that was stealing.’

Some proponents of primitive communism concede that foragers owned small trinkets but insist they didn’t own wild resources. But this too is mistaken. Shoshone families owned eagle nests. Bearlake Athabaskans owned beaver dens and fishing sites. Especially common is the ownership of trees. When an Andaman Islander man stumbled upon a tree suitable for making canoes, he told his group mates about it. From then, it was his and his alone. Similar rules existed among the Deg Hit’an of Alaska, the Northern Paiute of the Great Basin, and the Enlhet of the arid Paraguayan plains. In fact, by one economist ’s estimate, more than 70 per cent of hunter-gatherer societies recognised private ownership over land or trees.

The respect for property rights is clearest when someone violates them. To appreciate this, consider the Mbuti, one of the short-statured (‘pygmy’) hunter-gatherers of Central Africa.

Much of what we know about Mbuti society comes from Colin Turnbull, a British-American anthropologist who stayed with them in the late 1950s. Turnbull was kind, strong and courageous. From 1959 until his death, he lived in an openly gay, interracial relationship, eventually resigning from the American Museum of Natural History under charges of discrimination against him and his partner. He spent his later years campaigning for death row inmates and, upon his death, donated his entire estate and savings to the United Negro College Fund. ‘Throughout his life,’ wrote a biographer, ‘Turnbull was motivated by a deep-seated wish to find goodness, beauty and power in the oppressed or ridiculed and, by making those qualities known to the world, reveal the evils of Western civilisation.’

For some, these motivations clouded Turnbull’s descriptions of the Mbuti. He has been criticised for painting an ‘idealised picture’ of the Mbuti as ‘simple and childlike creatures’ living ‘a romantic and harmonious life in the bountiful rain forest.’ Yet, even if he did idealise, his writings still undermine claims of primitive communism. He described a society in which theft was prohibited, and where even the most desperate members suffered for violating property rights.

Take, for instance, Pepei, a Mbuti man who in 1958 was 19 years old and still unmarried. Unlike most bachelors, who slept next to the fire, Pepei lived in a hut with his younger brother. But instead of collecting building materials, he swiped them. He snuck around at night, plucking a leaf from this hut and a sapling from that. He also filched food. He was an orphan after all, and a bachelor, so he had few people to help him prepare meals. When food mysteriously disappeared, Pepei always claimed to have seen a dog snatch it.

‘Nobody really minded Pepei’s stealing,’ wrote Turnbull, ‘because he was a born comic and a great storyteller. But he had gone too far in stealing from old Sau.’

Old Sau was a skinny, feisty widow. She lived a couple of huts down from Pepei, and one night caught him skulking around in her hut. As he lifted the lid of a pot, she smacked him with a pestle, grabbed his arm, twisted it behind his back, and shoved him into the open.

Justice was brutal. Men ran out and held Pepei, while youths broke off thorny branches and thrashed him. Eventually Pepei broke away and ran into the forest crying. After 24 hours, he returned to camp and went straight to his hut unseen. ‘His hut was between mine and Sau’s,’ wrote Turnbull, ‘and I heard him come in, and I heard him crying softly because even his brother wouldn’t speak to him.’

Other foragers punished stealing, too. The Ute of Colorado whipped thieves. The Ainu of Japan sliced their earlobes off. For the Yaghan of Tierra del Fuego, accusing someone of robbery was a ‘deadly insult’. Lorna Marshall, who spent years living with the Kalahari !Kung, reported that a man was once killed for taking honey. Through violence towards offenders, foragers reified private property.

Is primitive communism another seductive but incorrect anthropological myth? On the one hand, no hunter-gatherer society lacked private property. And although they all shared food, most balanced sharing with special rights. On the other hand, living in a society like the Aché’s was a masterclass in reallocation. It’s hard to imagine farmers engaging in need-based redistribution on that scale.

Whatever we call it, the sharing economy that Hill observed with the Aché does not reflect some lost Edenic goodness. Rather, it sprang from a simpler source: interdependence. Aché families relied on each other for survival. We share with you today so that you can share with us next week, or when we get sick, or when we are pregnant. Hill once saw a man fall from a tree and break his hip. ‘He couldn’t walk for three months, and in those three months, he produced zero food,’ Hill said. ‘And you would think that he would have starved to death and his family would have starved to death. But, of course, nothing happened like that, because everybody provisioned him the whole time.’

This is partly about reciprocity. But it’s also about something deeper. When people are locked in networks of interdependence, they become invested in each other’s welfare. If I rely on three other families to keep me alive and get me food when I cannot, then not only do I want to maintain bonds with them – I also want them to be healthy and strong and capable.

Interdependence might seem enviable. Yet it begets a cruelty often overlooked in talk about primitive communism. When a person goes from a lifeline to a long-term burden, reasons to keep them alive can vanish. In their book Aché Life History (1996), Hill and the anthropologist Ana Magdalena Hurtado listed many Aché people who were killed, abandoned or buried alive: widows, sick people, a blind woman, an infant born too soon, a boy with a paralysed hand, a child who was ‘funny looking’, a girl with bad haemorrhoids. Such opportunism suffuses all social interactions. But it is acute for foragers living at the edge of subsistence, for whom cooperation is essential and wasted efforts can be fatal.

Consider, for example, how the Aché treated orphans. ‘We really hate orphans,’ said an Aché person in 1978. Another Aché person was recorded after seeing jaguar tracks:
Don’t cry now. Are you crying because you want your mother to die? Do you want to be buried with your dead mother? Do you want to be thrown in the grave with your mother and stepped on until your excrement comes out? Your mother is going to die if you keep crying. When you are an orphan nobody will ever take care of you again.

The Aché had among the highest infanticide and child homicide rates ever reported. Of children born in the forest, 14 per cent of boys and 23 per cent of girls were killed before the age of 10, nearly all of them orphans. An infant who lost their mother during the first year of life was always killed.

(Since acculturation, many Aché have regretted killing children and infants. In Aché Life History, Hill and Hurtado reported an interview with a man who strangled a 13-year-old girl nearly 20 years earlier. He ‘asked for our forgiveness’, they wrote, ‘and acknowledged that he never should have carried out the task and simply “wasn’t thinking”.’)

Hunter-gatherers shared because they had to. They put food into their bandmates’ stomachs because their survival depended on it. But once that need dissipated, even friends could become disposable.

The popularity of the idea of primitive communism, especially in the face of contradictory evidence, tells us something important about why narratives succeed. Primitive communism may misrepresent forager societies. But it is simple, and it accords with widespread beliefs about the arc of human history. If we assume that societies went from small to big, or from egalitarian to despotic, then it makes sense that they transitioned from property-less harmony to selfish competition, too. Even if the facts of primitive communism are off, the story feels right.

More important than its simplicity and narrative resonance, however, is primitive communism’s political expediency. For anyone hoping to critique existing institutions, primitive communism conveniently casts modern society as a perversion of a more prosocial human nature. Yet this storytelling is counterproductive. By drawing a contrast between an angelic past and our greedy present, primitive communism blinds us to the true determinants of trust, freedom and equity. If we want to build better societies, the way forward is neither to live as hunter-gatherers nor to bang the drum of a make-believe state of nature. Rather, it is to work with humans as they are, warts and all.

Fonte: Aeon