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terça-feira, 21 de março de 2023

O legado filosófico de Alexandre Koyré

«Pode muito bem ser que o futuro do mundo, e consequentemente o sentido do presente e o significado do passado, venham a depender em última análise das interpretações contemporâneas da obra de Hegel.» – de Introduction to the Reading of Hegel (1947) por Alexandre Kojève

«O incompreensível em Hegel é a cicatriz deixada pelo pensamento da identidade.» – de Hegel: Three Studies (1963) por Theodor Adorno

Paris, França, 1933. O jornal francês Le Figaro lê-se: «É um pavio para um barril de pólvora» sob a manchete «Hitler é o Novo Senhor da Alemanha». O terror instala-se. A extrema-direita está a crescer. A economia está a sofrer. Há desemprego em massa. Há greves de trabalhadores. O fascismo começa a atrair as classes médias. Em Berlim, os Stormtroopers patrulham as ruas. A Gestapo detém pessoas e assassina-as em caves. Todos os dias chegam de comboio refugiados da Alemanha à procura de asilo. Entre 1933 e 1938, mais de 80.000 políticos, filósofos, comunistas e liberais fogem da Alemanha para França. Há um sentimento anti-alemão. Há protestos contra os imigrantes.

Mas a vida intelectual floresce nos cafés, institutos e academias, à medida que os refugiados constroem uma comunidade no exílio. E na École Pratique des Hautes Études, uma das universidades de investigação mais prestigiadas de França, Alexandre Kojève assumiu o seminário de Alexandre Koyré sobre a Fenomenologia do Espírito (1807) de G. W. F. Hegel. Entre 1933 e 1939, Raymond Aron, Georges Bataille, André Breton, Gaston Fessard, Jacques Lacan, Maurice Merleau-Ponty, Éric Weil, Hannah Arendt, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Frantz Fanon, Raymond Queneau, Emmanuel Levinas vêm todos ouvir as suas palestras. Uma coleção dos pensadores mais renomados da época, que viriam a lançar as bases intelectuais para a filosofia, o pensamento político, a literatura, a crítica, a psicologia e a história do século XX. Diz-se que as palestras de Kojève eram tão intricadas, tão hábeis, que Arendt o acusou de plágio. Bataille adormeceu. Sartre nem sequer se conseguia lembrar de lá ter estado.

Como é que Kojève, esta figura obscura da história, veio a influenciar toda uma geração de pensadores neste momento crucial? Como é que as suas ideias continuam a alimentar os debates políticos e culturais de hoje em torno da identidade, do individualismo, da democracia liberal e do fim da história?

As biografias de Kojève são escassas. Nascido na Rússia, aristocrata, sobrinho do aclamado artista Wassily Kandinsky, funcionário público francês, um dos primeiros arquitetos da União Europeia, professor de filosofia, estudioso de Vedanta, polímata, combatente da resistência francesa, espião soviético? A vida de Kojève é quase demasiado cinematográfica para parecer real, como alguém saído de um romance de John le Carré trazido à vida, ou a encarnação de uma das personagens de Fyodor Dostoyevsky.

Nascido Aleksandr Vladimirovich Kozhevnikov em Moscovo em 1902, há poucas dúvidas de que Kojève é um dos pensadores mais importantes para compreender o nosso mundo contemporâneo. A maioria dos artigos populares escritos sobre ele, que surgem de poucos em poucos anos à medida que emergem novos detalhes da sua vida, começam da mesma forma: é difícil exagerar o legado da obra de Kojève. Mas depois, ele desaparece novamente nas camadas subterrâneas da consciência popular, da história intelectual e daqueles que estudam Hegel.

Fugindo da União Soviética após a revolução em 1920 através da Polónia para a Alemanha, Kojève viveu em Berlim e depois em Heidelberg, onde escreveu a sua tese de doutoramento sob a direção de Karl Jaspers sobre o filósofo, poeta e teólogo russo Vladimir Soloviev. (Soloviev, que tinha sido influenciado por Hegel, defendia que todas as noções de pensamento podiam ser contidas num todo transcendental.) Kojève mudou de nome quando se mudou para Paris em 1926, onde continuou os seus estudos até 1929, quando o colapso da bolsa o deixou na ruína financeira e à procura de trabalho. Foi por acaso que Koyré o convidou a assumir os seminários sobre Hegel em 1933, que deveriam durar apenas um ano e acabaram por durar seis. E em 1941, após a invasão alemã, Kojève fugiu para Marselha, onde viveu até lhe pedirem para se juntar ao gabinete do ministro da Economia francês, ajudando a moldar a política económica como conselheiro na construção do governo francês do pós-guerra. Recrutado para o exército francês, Kojève nunca lutou na guerra. Um autor escreve: «[E]le misteriosamente não se juntou ao seu regimento.» Outro afirma que ele se juntou à Resistência Francesa. E um artigo no Le Monde de 2000, citando um memorando de três páginas, afirmava que ele tinha sido um espião soviético durante os últimos 30 anos da sua vida.

Kojève confessou ter lido Hegel várias vezes na sua vida sem entender uma palavra

Descrito por colegas como charmoso, secreto e aterrorizador – terá Kojève sido um protagonista ou um antagonista? O registo histórico não está estabelecido. Terá sido um espião soviético? Terá combatido na Resistência Francesa? O que queria ele dizer quando escreveu que era a «consciência de Estaline»? Por que razão enviava cartas a Estaline? Terá a filosofia chegado realmente ao fim com Hegel? E por que razão, neste momento particular da história, com o cenário de fundo de uma catástrofe política em curso, estava toda a gente a ler a Fenomenologia do Espírito de Hegel?

A filósofa feminista francesa Simone de Beauvoir dedicou tardes na Bibliothéque Nationale (a Biblioteca Nacional de França) a ler a Fenomenologia. Escreveu no seu diário:

Continuei a ler Hegel, que começava a compreender. Nos pormenores, a riqueza do seu pensamento assoberbava-me: mas o sistema no seu todo deixava-me tonta. Sim, era tentador anularmo-nos em favor do Universal, considerar a nossa própria vida a partir do Fim da História…

O texto de Hegel era tão popular que, se Beauvoir tivesse tentado requisitar o livro alguns meses antes, tê-lo-ia encontrado nas mãos do crítico cultural do século XX Walter Benjamin, que estava a trabalhar nas suas «Teses sobre a Filosofia da História».

Kojève tinha descoberto a obra de Hegel na Alemanha durante os seus tempos de estudante com Jaspers e, tal como outros, ficou cativado pela impenetrabilidade da Fenomenologia. Para ser justo, a obra de Hegel é notoriamente opaca. Consta que as suas últimas palavras foram: «Apenas um me compreendeu, e mesmo esse não me compreendeu.» Theodor Adorno, ele próprio um escritor difícil, disse: «Hegel é sem dúvida o único com quem por vezes literalmente não se sabe, nem se pode determinar conclusivamente, do que se está a falar, e com quem não há garantia de que tal julgamento seja sequer possível.» O filósofo Bertrand Russell comentou que Hegel era «o mais difícil de compreender de todos os grandes filósofos». E quando Kojève aceitou assumir o seminário de Koyré, confessou ter lido Hegel várias vezes na sua vida sem entender uma palavra.

Mas a opacidade de Hegel nunca impediu as pessoas de interpretarem a sua obra, achando-a perspicaz, inspiradora e enfurecedora em igual medida. Numa anedota, o filósofo marxista francês Henri Lefebvre comentou sobre a Fenomenologia: «Hegel tinha a idade mental de uma criança de sete anos.» O crítico literário Maurice Blanchot escreveu: «Não se pode “ler” Hegel, a não ser não o lendo.» Ou seja, mesmo que nunca tenha lido Hegel, já se cruzou com as suas ideias recicladas no pensamento de outros; por muito impenetrável que Hegel possa parecer, a sua obra penetrou profundamente a consciência coletiva.

A opacidade da Fenomenologia de Hegel presta-se a interpretações promíscuas, mas nenhuma leitura foi tão sedutora quanto a de Kojève. Encontramos a sua interpretação de Hegel refletida na obra de uma vasta gama de pensadores, de Leo Strauss, Allan Bloom e Francis Fukuyama a Michel Foucault, Jacques Derrida, Giorgio Agamben e Judith Butler. Ler Kojève a ler Hegel tornou-se um negócio académico por si só. De facto, o comentário de Blanchot poderia ser reescrito assim: hoje em dia não se pode ler Hegel, a não ser lendo Kojève.

Por que razão a leitura de Kojève da Fenomenologia de Hegel exerceu tamanha força de influência em várias disciplinas e linhas políticas?

A resposta curta é que Kojève tornou Hegel acessível ao trazer à superfície um dos elementos essenciais da sua obra: o desejo. Kojève não negou que estava a fornecer uma leitura de Hegel que transformava o texto. A sua interpretação foi descrita como «criativa», «ultrajosamente ousada» e «violenta». A questão que Kojève colocou no centro das suas palestras foi: «O que é a pessoa hegeliana?» E respondeu a esta questão através de uma discussão sobre o desejo humano, centrando-se numa breve secção da Fenomenologia intitulada «Independência e Dependência da Autoconsciência: Dominação e Escravidão», popularmente traduzida como «a dialética do senhor e do escravo». E ao centrar esta secção de nove páginas de uma obra de 640 páginas, Kojève ofereceu aos leitores uma forma de apreender um texto que, de outro modo, seria elusivo.

Poética na sua opacidade, perplexa na sua terminologia, a obra de Hegel oferece uma compreensão da evolução da consciência humana onde a mente finita se pode tornar um veículo para o Absoluto. Mas o que significa isso? Kojève brought a prosa elevada de Hegel dos céus e colocou-a nas mãos humanas, oferecendo uma tradução: este é um livro sobre o desejo humano e a autoconsciência. Ou, como escreve o filósofo Robert Pippin:

Kojève, que basicamente insufla este capítulo até o transformar numa antropologia filosófica autónoma e de pleno direito, defendeu este ponto ao claiming que, para Hegel, a particularidade do desejo humano é poder ter como objeto algo que nenhum outro desejo animal tem: o desejo de outro.

Qual era a leitura de Kojève da dialética do senhor e do escravo?

Na leitura de Kojève, os seres humanos são definidos pelo seu desejo de reconhecimento, e é um desejo que só pode ser satisfeito por outra pessoa que seja o seu igual. A partir desta leitura, Kojève desenrola um processo em várias etapas: duas pessoas encontram-se, há um combate até à morte, um confronto de vontades entre elas, e quem estiver disposto a arriscar a vida triunfa sobre o outro, torna-se o senhor, o outro torna-se um escravo; contudo, o senhor é incapaz de satisfazer o seu desejo, porque é reconhecido apenas por um escravo, alguém que não é o seu igual. E através do trabalho do escravo para satisfazer as necessidades do senhor, aliado ao reconhecimento do senhor, em última análise, o escravo ganha poder.

Como Kojève definiu: «O desejo é a presença de uma ausência»

O que é essencial para Kojève é que se arrisque a vida por algo que não é essencial. Aquele que recua perante o outro por medo da morte torna-se o escravo. Aquele que está disposto a morrer – a enfrentar a inevitabilidade da sua própria não-existência – torna-se o senhor. Por outras palavras, o desejo é um exercício da vontade sobre o desejo do outro. Ou, como o psicanalista francês Jacques Lacan viria a dizer: «O desejo é o desejo do desejo do Outro.» Não é uma tentativa de possuir a outra pessoa fisicamente, mas de forçar a outra pessoa, naquele momento de confronto, a ceder, a curvar a sua vontade, a fim de alcançar a superioridade. E neste momento, escreve Kojève: «O Homem arriscará a sua vida biológica para satisfazer o seu Desejo não biológico.» Para obter reconhecimento neste sentido, é preciso estar disposto a arriscar tudo – incluindo a própria vida. É uma luta pelo domínio de si mesmo.

Em vez da rotunda de autoconsciência de Hegel que existe em si e para si, mas sempre e apenas em relação a outro, Kojève dá-nos: a autoconsciência é o Eu que deseja, e o desejo implica e pressupõe uma autoconsciência. Pensar sobre a relação entre a mente finita e o conhecimento Absoluto é opaco, mas o desejo é humano. As pessoas sabem o que se sente ao desejar, ao querer, ao ansiar por ser visto, ao querer sentir-se compreendido. O desejo é a fome que se sente para preencher a ausência dentro de si mesmo. Ou, como Kojève definiu: «O desejo é a presença de uma ausência.»

E não é um desejo consumível – não pode consumir o objeto do desejo, porque o desejo dirigido a outra pessoa é um desejo de reconhecimento, e consumi-la seria negar, destruir, a possibilidade desse reconhecimento. Precisamos uns dos outros para continuar a existir. Ou, como a autora Simone Weil escreve em Gravity and Grace (1947): «O belo é aquilo que desejamos sem querer comer.» Ou, como a poeta Anne Carson em «Tango XXIX» (2001): «Dizer que a Beleza é a Verdade e parar. / Em vez de a comer. / Em vez de a querer comer.»

Talvez o mais importante seja que o que Kojève compreendeu foi a dimensão em que nós, humanos, desejamos exercer algum controlo sobre a forma como as outras pessoas nos veem de maneira diferente daquela como nos vemos a nós próprios. Por mais ténue ou certa que a nossa noção de identidade própria possa parecer, é o nosso próprio sentido de Eu que devemos arriscar quando aparecemos no mundo perante os outros – a nossa identidade, desejo, medo e vergonha. Não há garantia de que seremos vistos da forma como queremos ser vistos, e sentirmo-nos mal reconhecidos magoa quando acontece, porque fere o nosso sentido de Eu. Mas este risco é vital – faz parte do que nos torna humanos, faz parte da nossa humanidade. E enquanto a leitura de Kojève caminha para um ideal de igualdade social que afirma o sentido pré-existente de Eu de alguém quando confrontado por um outro, para Hegel, deve-se acolher a perceção que o outro tem do Eu – seja ela qual for – de volta na sua própria autoconsciência. Por outras palavras, enquanto para Hegel a liberdade assentava na capacidade de preservar a diferença, para Kojève assentava na capacidade de preservar a própria identidade à custa da diferença.

Ao trazer a linguagem elevada de Hegel dos céus para a terra, Kojève ofereceu aos leitores uma compreensão secular da ação humana, que exige que todos e cada um dos indivíduos se confrontem com a inevitabilidade da sua própria morte, da sua própria ruína. E ao fazê-lo, desviou o foco para o indivíduo como o centro da mudança social, onde a história se desenrola em direção a uma sociedade aristocrática de iguais, onde toda a diferença é destruída. Influenciado pela visão de Karl Marx da luta de classes como o motor da história, e pela compreensão de Martin Heidegger do «ser-para-a-morte», a leitura de Kojève da dialética do senhor e do escravo apresenta outra forma de combate entre opressor e oprimido, onde o domínio sobre o outro a fim de se dominar a si próprio se torna o meio para a igualdade e, em última análise, para a justiça dentro da sociedade. Kojève adotou a dialética do senhor e do escravo para desenvolver o que Michael Roth chamou «um esquema para organizar a mudança ao longo do tempo», para pensar sobre o movimento da história. E a dialética do senhor e do escravo desenrola-se ao nível do indivíduo e ao nível da sociedade, onde o Eu ganha reconhecimento como sujeito desejante através da batalha sem fim pelo reconhecimento ao aparecer no mundo com os outros, e ao nível da sociedade onde todos os movimentos históricos passados serão julgados dentro de uma estrutura de direito, que é o fim da história.

Este tem sido em parte o legado de Kojève. Influenciado pela leitura de Kojève da dialética do senhor e do escravo, Sartre defendeu em Being and Nothingness (1943) que a liberdade do homem se encontra na negação. Em The Second Sex (1949), Beauvoir recorreu a Kojève para pensar a opressão das mulheres em relação ao homem e a necessidade de reconhecimento intersubjetivo. O «estádio do espelho» de Lacan segue a leitura que Kojève faz de Hegel para compreender o papel do desejo como uma falta na formação da subjetividade humana. Bataille recorreu a Kojève para defender que só se podia experienciar a plena soberania do Eu num momento de pura negação. Para Foucault, isso levou à crença de que não há desejo livre de relações de poder – o seu tema central. E para Fukuyama, este confronto histórico de vontades evoluindo ao longo de um plano temporal linear em direção a uma sociedade igual e justa tornou-se a muito ridicularizada tese do «fim da história» – a ideia de que a democracia liberal ocidental evoluiu como a forma final de governo humano no mundo do pós-guerra. O mundo do pós-guerra que o próprio Kojève ajudou a moldar, antes da sua morte prematura em 1968. Em última análise, a tese de Fukuyama capta a diferença entre Hegel e o Hegel de Kojève: para Kojève, o ideal de igualdade universal conquistado através de uma batalha sem fim pelo reconhecimento foi sempre uma noção individualista que exigia dominação quando confrontada pela alteridade. Mas para Hegel, a liberdade humana só podia ser conquistada através da coletividade, abraçando a opacidade da alteridade com que somos constantemente confrontados em nós próprios e no mundo com os outros. É uma aceitação do facto de que o domínio de si mesmo permanecerá sempre uma ilusão.

Quando Kojève tinha 15 anos, foi preso e condenado à morte por vender sabão no mercado negro em Moscovo. Mas, tal como Dostoyevsky, no último momento possível, foi poupado ao pelotão de fuzilamento porque o seu tio, médico pessoal de Lenine, interveio a pedido da mãe. Levado para marchar ao encontro da morte, só se pode tentar imaginar o que acontece a um homem naquele momento, quando está atado a um poste e as armas estão apontadas. A história parece quase apócrifa, como se tivesse sido escrita para transmitir a intensidade com que Kojève compreendia a batalha entre duas vontades num confronto de poder até à morte. Talvez de forma menos quixotesca, ilustra o que está no cerne da obra de Kojève – nunca se pode realmente saber antecipadamente como a história se desenrolará, se é que se desenrola, e tudo o que nós, sujeitos humanos e desejantes, temos é a nossa capacidade de agir dentro de algum contexto histórico.

Fonte

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Não consigo encontrar a esperança - entrevista a John Le Carré


No dia 25 de abril de 2013, quando John Le Carré lançou o seu 23.º romance, o Expresso foi entrevistá-lo a Londres. Agora, que acaba de lançar a coleção de memórias “O Túnel de Pombos - Histórias da Minha Vida”, republicamos a entrevista que lhe fizemos, publicada originalmente na revista de 23 de maio de 2009. Nela fala da sua vida de espião e de escritor, do pai, um burlão de alto coturno que esteve várias vezes preso, da mãe, que saiu de casa quando ele era criança, de governo(s) e de política, nacional e internacional. Da entrevista retirámos as referências ao livro que lhe serviram de mote, por já não fazerem sentido.

Diz-se que no bairro londrino de Hampstead há mais milionários por metro quadrado do que em qualquer outra zona do Reino Unido. Mas a lista de escritores e de artistas que lá moram ou que já lá viveram é provavelmente bem mais impressionante. Lord Byron, T. S. Eliot, Freud, George Orwell, Agatha Christie, Keats são apenas alguns dos nomes que habitaram as suas belas moradias ou caminharam pelas ruas estreitas, pontuadas por velhas chaminés - prova de que a Revolução Industrial passou por ali e que parte dos cenários de Charles Dickens, outro dos famosos moradores, também se encontra sem esforço algum.

John Le Carré (pseudónimo de David Cornwell, n. 1931) vive em Hampstead parte do seu tempo, dividindo-se entre uma dessas moradias que fazem questão de ter uma magnólia à porta e outra construída no cimo de um penhasco da Cornualha. A natureza do escritor parece, contudo, afirmar-se - tanto na deslumbrante Hampstead como na remota Cornualha - como solitária, deixando que a família seja o seu contraponto e o refúgio primordial de um homem que, no auge na Guerra Fria, começou por ser espião dos serviços secretos britânicos.

“Uma das situações mais surpreendentes foi descobrir-me na posição de patriarca”, diz, olhando em redor e imaginando talvez a algazarra mas também a felicidade que será reunir, naquela mesma sala, a quase dezena e meia de netos, os quatro filhos e noras. A sua mulher, cúmplice de longa data, juntara-se à conversa a propósito de uma garrafa de vinho branco que John (ou David) insistiu em abrir quando já estávamos há mais de duas horas numa entrevista e acaba por se intrometer na infância, nas memórias dos pais, nas razões que o levaram a ser escritor. A três falámos de Nick, o filho escritor, rebatemos a pergunta do que pode afinal ser uma infância feliz, e o casal comentou ainda com alegria a existência de um novo neto, acabado de nascer.

Patriota e democrata até "à raiz dos cabelos", John Le Carré é também, sublinhe-se, um homem de boa memória quando fala das suas breves e velhas aventuras em Portugal ou um rosto que se contrai e emociona quando quer saber como vamos nós por cá. A empregada, São, mulher bem-disposta, é, de resto, uma das suas mais fortes ligações ao nosso país e uma inspiração. De onde vêm os portugueses na sua escrita, quis perguntar-lhe, mas a resposta tornou-se óbvia: "São todos amigos da São!"

A falta de fé é um dos assuntos mais importantes da atualidade. Não temos fé na autoridade, nos políticos, no serviço nacional de saúde ou na polícia... Todas as instituições são questionáveis.
Gosto de pensar que eu teria sido suficientemente corajoso para fazer o que eles fizeram. A maior parte de nós não é.

Percebe-se que o protesto é inútil...
Também a morte de Cristo na cruz foi inútil! Protestar é uma obrigação que temos connosco e com a sociedade.

Vivemos num mundo de convencionalismos superficiais, pensamos todos da mesma maneira e queremos todos comprar as mesmas coisas...
Se é verdade que o homem nunca foi tão livre, também nunca esteve tão acorrentado. Não sei onde está a esperança. Gostava de saber. Escrevi para a personagem Smiley ["O Peregrino Secreto", 1990] um discurso em que ele diz aos jovens elementos dos serviços secretos: "Lidámos com o comunismo, agora temos de lidar com o capitalismo e os seus excessos e a seguir saber onde está a esperança." Não consigo encontrar a esperança neste momento. Continuo à procura dela para perceber onde é que os meus filhos e os meus netos irão viver. A grande desvantagem de ser velho é perceber que pouco ou nada muda. Em 1956, 30 pessoas do meu departamento tinham estudado no Eton College. Não poderia imaginar que 60 anos depois iríamos continuar a ser governados por rapazes brancos e chiques de Eton. Para mim, é um mistério que seja assim, porque tivemos vários governos com um rosto aparentemente socialista e oportunidades de nos libertar de imensas coisas... Não aproveitámos. Podemos mudar de classe social por dinheiro ou casamento, mas continuamos a ter classes muito definidas. O establishment é quase sempre definido pelo acesso aos serviços secretos. A elite define-se a ela própria pelo que sabe, e é isso que a separa dos ignorantes. Mas o que a elite sabe não é necessariamente a verdade, como se viu na guerra do Iraque.

O livro é bastante crítico com o New Labour, de Tony Blair. A reação poderá ser diferente agora que a morte de Thatcher trouxe à discussão pública o seu legado?
De facto, o legado de Thatcher contaminou-os a todos. Depois, apaixonaram-se pelo dinheiro. Não percebo bem o que significa na cabeça deles o legado de Thatcher, mas deve estar relacionado com o estilo de liderança. Foi ela própria que confessou que um dos seus grandes feitos foi tornar possível a vida a Tony Blair. Thatcher privatizou tudo neste país, e teria privatizado o ar se pudesse. Blair e o Partido Trabalhista continuaram as privatizações. Suponho que o legado de Thatcher está ainda nas suas convicções, que eram inflexíveis, e no seu amor por Reagan, que era extraordinário. Ela fez da ganância, do dinheiro e da ambição pessoal uma espécie de doutrina. E depois disse aquela célebre frase que ainda hoje me deixa perplexo: "There is no such thing as society." Qual é o legado dela, além disso? Mercado livre? É disso que estamos a falar? A minha impressão depois de ter estado com ela um par de vezes foi a de que tinha duas qualidades que fazem os políticos poderosos: estava-se nas tintas para o que pensavam dela, o que é pouco comum, e estava disponível 24 horas por dia, assumindo-se como líder devota.

Mesmo assim, parece-me que é mais crítico com Blair do que com Thatcher...
A guerra das Malvinas foi vergonhosa e estúpida, mas resultou das convicções de Thatcher e da sua vontade de ter o seu momento 'churchiliano'. Foi um jogo que ela jogou. Napoleão costumava perguntar aos seus oficiais: "És sortudo?" E eles respondiam: "Sim, sou sortudo." Thatcher foi sortuda, nomeadamente na guerra das Malvinas, apesar dos elevados custos. Mas sem essa guerra não teria sido eleita pela terceira vez. Isso influenciou Blair. Ele estava preparado para ir para a guerra onde quer que ela aparecesse. A guerra do Iraque não resultou de um caso de amor com Reagan, mas de um aperto de mão entre Bush e Blair. Tenho quase a certeza de que um dia saberemos que Blair nos comprometeu naquele encontro na casa de campo de Bush. Aquela excitação acontece quando certos 'companheiros' europeus se encontram na presença de um omnipotente Presidente norte-americano, que julgam manipular.

Sabe que há britânicos que se veem como os últimos gregos, que sabem o que dizer aos romanos...
Não há crime maior do que atirar um país para a guerra a partir de falsos pressupostos.

Além da investigação, viaja imenso para escrever... Procura dados reais ou inspiração
Espero que o local se transforme numa personagem e fale por si mesmo. Desde a queda do Muro de Berlim que estou interessado na situação pós-colonial britânica, mas também na soviética e na americana. Gibraltar é um daqueles casos fascinantes em que a história muda mas o local não, como aconteceu noutros sítios sobre os quais já escrevi, como a Tchetchénia, o Panamá, Berlim...

Estava na Alemanha quando o Muro de Berlim começou a ser erguido. Não sentiu atração pelo outro lado?
Naquela altura, era muito novo e facilmente impressionável. A coisa estranha de ser 'soldado raso' na Guerra Fria, naqueles dias, é que facilmente nos apercebemos de que a distância entre os dois lados não é grande. Percebi de onde eles vieram e estava completamente consciente de que se tivesse nascido num local diferente, com pais diferentes, teria sido um deles. Mas, para lhe responder de um modo claro, a resposta é não. No entanto, e tal como eles, combati as paredes dentro das quais cresci.

Tenho de lhe colocar a pergunta que Liz faz a Alec Leamas em "O Espião Que Saiu do Frio": "Em que é que acredita?"
Acredito que o autocarro número 9 me leva a Hammersmith, que é o que Alec lhe responde. Essa questão é a mesma daquela sobre a esperança. Se escrevo é para abordar o dilema, não é necessariamente para o resolver. Costumo citar Scott Fitzgerald e a definição de génio, embora não me considere um génio. Para ele, génio é quem tem dentro de si duas opiniões diferentes e consegue funcionar. E isso também é uma qualidade necessária a um espião... Quando entrei para esse mundo, tinha uma vocação sacerdotal e de irmandade. Éramos uma elite, porque íamos levar a verdade ao poder. Podíamos usar métodos pouco ortodoxos, mas no final tínhamos de chegar à verdade. Tínhamos de provar, cruzar informação, ter testemunhas...

É possível chegar à verdade?
Quando não se sabe, tem de se dizer que não se sabe. Ninguém tem a verdade absoluta, mas pode apontar indicadores, apresentar conclusões, ou deixar que as tirem.

Diz muitas vezes que a memória é mentirosa. Essa qualidade não torna impossível encontrar a verdade em nós próprios?
Sim, sem dúvida. Na minha idade, e com este compromisso profissional de contar histórias, torna-se difícil apontar as diferenças entre a experiência imaginária e a real. Tenho um biógrafo há três anos. Não acredito em biografias autorizadas e expliquei-lhe que não ia ser o seu censor, sentar-me com ele e dizer-lhe com quem devia falar, quem gosta de mim ou quem não gosta. Pedi-lhe que avançasse à sua maneira. Ele volta de tempos a tempos e traz-me memórias de pessoas que me conheceram na escola, com as quais perdi contacto. As memórias que ele me traz são diferentes das minhas, de quem eu fui... E, no entanto, acredito que as pessoas falam sinceramente a partir da memória que têm da nossa relação. Eu era um solitário e não me lembro de muitos dos meus amigos com prazer. Não me recordo como um charmoso, um rapaz social e interessante [risos], ou um bom amigo, como me dizem agora. Nunca senti o abraço de uma mulher durante todos aqueles anos, porque a minha mãe desapareceu quando eu tinha apenas 5 anos.

Sei que foi à procura dela aos 21 anos. Como foi?
Fui com a expectativa de ter uma revelação maravilhosa. Não senti nada. Ela era apenas uma mulher triste. Pouco antes de morrer, e já no hospital, construiu uma vida inteira que nunca vivemos e contou-a às enfermeiras. Era como se nunca tivesse existido interrupção na nossa história.

Houve sempre uma ferida, uma dor...
Fiz coisas horríveis na vida, e creio que a maior parte das pessoas as faz. Mas não posso imaginar como é que se sai de casa a meio da noite, se bate com a porta e se deixa dois filhos para trás, assumindo que nunca mais se vai voltar a vê-los. Ela teve coragem e força suficiente para o fazer. Tinha outro homem e pensou que havia encontrado um verdadeiro protetor. Talvez já estivesse grávida dele, porque rapidamente teve mais filhos. O meu pai acabara de passar quatro anos na prisão. Perguntei à minha mãe como era ele. Ela disse-me: "Oh, querido, ele estava muito mais magro, o que até era bom, e depois tinha um estúpido hábito de parar junto às portas, esperando que eu lhas abrisse..." Costumamos chamar a isto trauma. Mas, qualquer que fosse a relação que eles tinham, creio que havia algo nele que a aterrorizava.



Tenho aqui uma fotografia do seu pai, publicada há muitos anos na revista "The New Yorker". Está com um ar sorridente, parece feliz...
É impressionante, não é? Calculo que, quando tirou esta fotografia, já teria sido preso pelo menos duas vezes e falido outras tantas. Naqueles dias, uma pessoa podia reinventar-se, ir a um banco, abrir uma conta, falir e a seguir ir a outro noutra cidade... Hoje não creio que isso fosse possível.

Era um ator...
Sem dúvida. Mas um ator que escrevia as suas próprias peças - e isso faz uma diferença enorme. Tinha uma capacidade de construção ficcional fantástica. Há uns anos, depois de ele morrer, recebi uma carta de um escritório de advogados de Buffalo, nos Estados Unidos. Era uma carta de partir o coração, e naquele tempo eu não guardava as cartas. Nela, o advogado, que julgo que já teria lido "O Espião Que Saiu do Frio", contava que o meu pai tinha ido ter com ele com um projeto para construir uma cidade-modelo nos arredores de Toronto: "Tinha planos muito interessantes, e passámos com ele mais de um ano a trabalhar neste projeto, captámos clientes, fomos ao Canadá, divertimo-nos bastante e tivemos imenso prazer em estar com ele. Um dia apercebemo-nos de que não era proprietário das terras nem tinha permissão para fazer o que quer que fosse. Era apenas uma enorme e uma brilhante fantasia que ele tinha construído." É admirável que se consiga desenvolver uma fantasia nesta escala, enganando pessoas que não eram propriamente estúpidas. O homem acabava a carta a dizer que não se arrependia e que teria feito tudo na mesma, porque o prazer tinha sido imenso. Foi um fim doce e não me pediu dinheiro... [risos] O que é que o meu pai pensava que iria acabar por acontecer? É um mistério para mim. Mais cedo ou mais tarde, tudo iria acabar por se descobrir. Ele construiu uma personagem para si próprio e tinha uma capacidade de persuasão fantástica. Numa dada altura, estabeleceu-se em Singapura. Era um homem procurado pela polícia, mas ainda assim conseguiu ter acesso a Lee Kuan Yew [o primeiro-ministro], apresentando-se como representante das duas principais organizações de futebol inglesas e dizendo que estas estavam interessadas em criar qualquer coisa como uma lotaria. Lee Kuan Yew ficou de pensar no assunto. O meu pai partiu de seguida para a Malásia e conseguiu falar com Tunku Abdul Rahman [o primeiro-ministro]. Disse-lhe o que ele e Lee Kuan Yew "tinham intenção de fazer". Tunku ter-lhe-á respondido que teoricamente estava interessado. Sendo um homem procurado em todo o lado, foi ainda capaz de regressar a Inglaterra e intitular-se representante de Lee Kuan Yew para criar um clube de futebol e voltar a Singapura para montar a operação... até ser preso pelas autoridades.



Amava-o?
Não me lembro de o amar. Ele era uma força da natureza, um homem extraordinário, e viveu sem o benefício da psicologia. Hoje, de cada vez que fosse preso, teria recebido acompanhamento psicológico, e provavelmente teriam encontrado nele características próprias de uma doença. Seria esquizofrénico?, bipolar? O mais estranho para mim, quando tento percebê-lo - e com a idade penso cada vez mais nos meus pais -, é nunca o ter visto deprimido... Era violento e podia beber metade de uma garrafa de uísque antes de jantar. No fim da vida, foi preso em Zurique. Recebi uma chamada dele a pagar no destino. Precisava de dinheiro. Foi desarmante ouvir a sua voz quebrada dizer: "Filho, não aguento mais a prisão." Mas a seguir era capaz de afirmar que eu ganhava muito e que a minha educação tinha sido cara.

E que tinha de pagar de volta?
Disse-lhe sempre que não lhe pagava, que lhe comprava uma casa em meu nome onde ele pudesse viver.

O seu pai poderia reconhecer-se nos seus livros?
Não. Além de que nunca leu um único livro, nem sequer um dos meus. Contavam-lhe as histórias. Era intelectualmente impaciente. Um fantasista. O que ele podia encontrar numa página nunca lhe seria suficiente. Não os lendo, assinava-os como o pai do autor e oferecia-os.

Apesar de o seu pai ser um homem de grande imaginação, não é para si surpreendente chegar a escritor?
Essa é a parte divertida. Não me parece que colocasse a mesma pergunta a um músico. Quem escreve quer sentir-se diferente. Quer saber qual foi o "momento da ida para Damasco em que disse [ri-se e faz uma voz mais aguda] 'Sou escritor! Sou escritor!'"? O que lhe posso dizer é que nunca fui feliz como rapaz, homem, marido, pai, professor, até começar a escrever. Pintava, escrevia má poesia, fazia ilustração. Gostava de agradar às pessoas, era um mestre do entretenimento, mas cada dia que passava sentia-me mais desgostoso. Comecei a escrever e aí pensei: "Isto é o que sou."

Começou a escrever numa fase má...
Tinha quase 30 anos e havia voltado aos serviços secretos. Trabalhava com um espião que escrevia romances de suspense chamado John Bingham. Viver da escrita não era, até então, uma ideia óbvia. Mas descobri que tinha encontrado uma ponte apropriada entre o que entendia ser a realidade e o que não era a realidade. A partir daí, deixou de haver um problema. Deitei muita coisa fora quando comecei a escrever. Não por falta de ideias, mas por achar que ia na direção errada. Ainda hoje, cada livro é um primeiro livro. Começo sempre com uma enorme quantidade de lixo, caixas e caixas de páginas escritas à mão que nunca irei utilizar. Depois acaba por aparecer gradualmente o reconhecimento de que quero escrever. O prazer e a satisfação está em descobrir o que não sabemos que estamos à procura mas sabemos que procuramos...

O que procura quando escreve?
A primeira pergunta que coloco é: "Porque é que o leitor deve querer saber esta história?" Depois vejo a imagem do fim da história. Num livro como "O Fiel Jardineiro", por exemplo, queria a destruição dos dois. O amor na morte, como em "O Espião Que Saiu do Frio"... Sim. Eu sei como o leitor se vai sentir quando fechar o livro. Se fizermos o filme, quero que a audiência tenha o mesmo sentimento ao sair da sala. Escrevo páginas sem fim até encontrar as personagens. Criá-las implica colocar uma parte de mim nelas, definir a forma como a personagem fala, como se veste, os gestos que faz...

É muito interessante ouvi-lo ler. Teatraliza as vozes, e a verdade é que as suas personagens se revelam pela forma como falam... Faz vozes quando escreve?
Sim. Faço vozes, e a minha querida mulher tem de me ouvir. Para o leitor inglês, é facilmente percetível, espero que também o seja nas traduções.

Famílias felizes produzem escritores?
Bem, o meu filho, Nick, é um escritor bem-sucedido. Assina Nick Harkaway. Os seus livros são de fantasia e não são bem para a minha idade, mas tem ótimas críticas e boas vendas. Creio que teve uma infância feliz e que ele será o primeiro a dizê-lo. Não creio que tenha dúvidas sobre quem é. Tem uma mulher maravilhosa, divertida, e devem ser felizes. De qualquer modo, não conheço escritores...

Era amigo de Graham Greene.
É exagerado dizer que Greene era meu amigo. Depois, estou mais interessado em falar com o jardineiro. Percebe o que quero dizer? Quero conhecer o material da vida em bruto. Não estou interessado em escritores.

Não aprecia prémios, não convive com escritores, não vai a festivais... Não gosta de falar sobre o que escreve?
Só o faço nas entrevistas. E dar entrevistas pode ser muito deformante. Preciso de perceber que o meu interlocutor tem experiência de vida e que não se interessa apenas pelo brilho que se vê ao longe quando se olha para a cidade de Jerusalém. Depois, não sei o que dizer em frente a 200 pessoas...

Escreve há tanto tempo sobre a procura da verdade.... Qual é a verdade?
Concordo consigo que é difícil. Não sabemos onde é que está a verdade.

A idade também o tornou mais direto?
Sim, preciso de ser menos ambivalente. Fiquei mais impaciente. Há coisas que são simplesmente verdade: ir para a guerra a partir de falsos pressupostos é um crime. Quando comecei a escrever, na Guerra Fria, tínhamos de saber que não estávamos do lado errado, e sabíamos isso. Continuo a saber de que lado estou, mas cresci até um estado de ceticismo perante os políticos.

sábado, 16 de janeiro de 2021

Le Carré, o maior escritor britânico do pós-guerra


John le Carré sempre recusou que os seus livros fossem candidatos a prémios e, quando o seu nome apareceu em 2011 na lista do Booker, exigiu que fosse retirado. Hesitava em considerar-se um “autor” e essa estranha modéstia favoreceu que a sua obra fosse acantonada num género entendido como secundário, o romance de espionagem. No entanto, nada de mais injusto. Le Carré foi o maior escritor britânico do pós-guerra e criou uma literatura sem par, inventou um estilo e, em contraste com Fleming e o seu 007, um dandy que brilha pela tecnologia e por um glamour passadista, criou personagens e enredos extraordinários, contraditórios e vivos. Depois da guerra fria, o tema dos seus primeiros grandes livros, Le Carré continuou a pintar um meticuloso inventário da viragem do século e nenhum outro autor se lhe compara nesse monumento.
Um velho espião cansado
Como os obituários recordaram, Le Carré teve uma primeira vida como espião. Por mais de uma década, sob o disfarce primeiro de estudante e depois de diplomata, fez parte do MI5 e do MI6. O princípio não foi heróico: recrutado em Berna em 1948-9, conta que um casal o abordou numa igreja, convencendo-o de que a pátria precisava dos seus serviços, e voltou a Oxford encarregue de espiar esquerdistas na faculdade. Seguiu depois carreira na Alemanha, responsável por entrevistar desertores soviéticos de segunda linha. E começou a escrever os seus primeiros romances, até que o serviço o aconselhou a abandonar funções em 1963, temendo inconfidências ou a liberdade da pena, tanto mais que a sua identidade fora revelada pela mais bem sucedida toupeira dos serviços russos, Kim Philby. Mikhail Lyubimov, que dirigiu a espionagem russa em Londres de 1960 a 1964 e depois se ocupou em Moscovo do departamento britânico ao longo da década seguinte, confirmou que terá sido Philby a revelar a função de David Cornwell, aliás Le Carré.
Por algum tempo e fiel aos seus compromissos anteriores, Le Carré desmentiu esta ligação. No entanto, foi aí que aprendeu o suficiente da profissão para ser rigoroso e detalhado nas suas histórias. Por isso, diz-se que Markus Wolf, o chefe da espionagem da Alemanha de Leste e, provavelmente, o modelo para Karla, já lá vou, teria temido que Le Carré mantivesse contacto com algum informador na sua agência. Ou que Richard Helms, mais tarde chefe da CIA, detestava esta revelação dos métodos dos espiões. Nada que parasse o autor.
Smiley e Karla
O culminar da sua obra é a figura de George Smiley. No primeiro livro em que surge, “Chamada para a Morte”, de 1961, é apresentado pela sua mulher: “Quando a Lady Ann Sercombe casou com George Smiley no fim da guerra, descreveu-o às suas amigas de Mayfair, muito espantadas pela notícia, como um personagem de uma banalidade surpreendente”. Ele já era o “velho espião cansado”, um “solteirão falhado de meia idade” que preferia ter estudado obscuros escritores alemães do século XVII, mas que fora chamado para uma carreira nos serviços de informação. Smiley é o contraponto do misterioso e implacável Karla, que dirige os serviços de Moscovo, com quem joga um xadrez fascinante até ao fim.
Pergunta Borges, em “Notas sobre (para) Bernard Shaw”, incluído em “Outras Inquirições”: “Um autor pode criar personagens superiores a ele? Eu responderei que não e nesta resposta irei abranger o intelectual e o moral. Penso que de nós não sairão criaturas mais lúcidas ou mais nobres do que os nossos melhores momentos”. Pois Le Carré prova o contrário. Smiley, que foi o seu “pai de substituição”, ou o seu “mentor secreto”, é mais verdadeiro para si próprio do que para as conveniências do seu criador. É um poderoso retrato de uma época, de uma atitude, é uma história: “eles (os personagens) foram os veteranos de um conformismo burguês, encontram penosamente o seu lugar e respeitam a estabilidade das instituições burguesas. Parece-me que eram todos uns românticos que sofriam por serem testemunhas da sua morte espiritual na sociedade que defendiam”, escreve Le Carré. Essa decadência é penosa e, quando Smiley regressa, 56 anos depois da sua entrada em cena, foi para invetivar Trump e o Brexit, em “Um Legado de Espiões” (2017), uma vida de desilusão.
O mundo como ele é
O primeiro sucesso de Le Carré foi “O Espião que Saiu do Frio” (1963), mas foi depois “A Toupeira” (1974), que iniciou a trilogia de Karla (1977 e 1979), que o estabeleceu com o mestre do thriller de espionagem. Dez anos depois, a queda do Muro de Berlim deslocou a geopolítica da guerra fria, mas o autor recriou-se como o escritor das sombras, da duplicidade e da manipulação em que assenta o domínio. Percorreu o Ruanda, a Chechénia, a Turquia, o Panamá, voltou à Rússia e Alemanha, foi à Palestina, ao Caribe, ao Líbano, veio a Lisboa e escreveu. As suas duas dúzias de livros constituem um dos melhores retratos, se não o melhor, destas adaptações do poder como crime ao longo do fim do século.
Tratam do conflito israelo-palestino (A Rapariga do Tambor, 1983), dos traficantes de armas (1993, O Gerente da Noite), da mentira (O Alfaiate do Panamá, 1996), das manigâncias da lavagem de dinheiro (Single & Single, 1999), da exploração de África (O Fiel Jardineiro, 2001, O Canto da Missão, 2006), do papel de Tony Blair na invasão do Iraque (Amigos até ao Fim, 2003), das técnicas de sequestro e das prisões clandestinas da CIA (O Homem mais Procurado, 2008, que o New York Times considerou “a sua novela mais poderosa”) e, de novo, uma feroz denúncia do terror a pretexto da guerra ao terror (Uma verdade incómoda, 2013). Foi autobiográfico em “Um Espião Perfeito” (1986), polemizou acidamente com Salman Rushdie no confronto épico entre dois egos (1997) e, em outubro de 2019, com o “Agente em Campo”, deixou o seu testamento. Um livro melancólico, mais uma vez sobre um fracasso. Foi esse o recado de Le Carré: os seus velhos espiões cansados são, como nós, testemunhas do desencantamento do nosso tempo.