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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

A Maioria Frágil e o Regresso ao Quotidiano: Uma Análise da Direita e a Reinvenção da Esquerda


A Direita vive, em grande medida, do espetáculo, da arena e da lógica de reality show - e isso não é bom nem sério numa democracia.
Embora Pedro Passos Coelho e André Ventura convirjam em temas como a segurança, o controlo da imigração e a revisão constitucional, a concretização de um Governo conjunto revelar-se-ia inviável. As propostas populistas de Ventura — como o aumento generalizado de pensões e salários sem sustentabilidade financeira — colidem frontalmente com a inflexibilidade e o rigor orçamental que definem a matriz de Passos Coelho. Uma eventual coligação resultaria no esvaziamento do Chega ou numa instabilidade governativa permanente. A grande diferença entre ambos reside na motivação: enquanto Passos atua por convicção reformista e aceita pagar o preço político de decisões impopulares, Ventura adota uma postura oportunista em que as convicções são moldadas em função da conquista do poder.

A esta fratura somam-se as visões contrastantes do restante espectro à direita. Luís Montenegro insiste na autonomia do PSD e no cumprimento do "não é não" ao Chega, preferindo acordos pontuais para governar. Por outro lado, Nuno Melo, à frente do CDS-PP, atua como o garante institucional e moderador da Aliança Democrática, enquanto a Iniciativa Liberal, sob a liderança de Mariana Leitão, recusa converter-se num apêndice do PSD ou num aliado do populismo estatista do Chega, focando-se em reformas liberais profundas na economia e na fiscalidade.

O resultado é um paradoxo estrutural: o conjunto da Direita (PSD, Chega, IL e CDS) detém uma maioria sociológica e eleitoral indiscutível na sociedade portuguesa, dominando a agenda temática, mas encontra-se profundamente fragmentada e incapaz de traduzir esse peso numa solução de governação estável. Ambos os caminhos radicais se revelam nefastos: alimentam discursos fraturantes, desvalorizam as alterações climáticas e promovem uma visão regressiva da sociedade. O verdadeiro risco para a democracia provém, precisamente, do crescimento destas narrativas extremistas que minam a confiança nas instituições.

Do ruído político à reinvenção da Esquerda
A crise da Esquerda contemporânea prende-se, em grande parte, com o facto de se ter focado em debates identitários e de superioridade moral, descurando o núcleo tradicional da sua ação política: a economia, os salários, a habitação e a defesa dos serviços públicos. Para se reconstruir e sair deste impasse, o caminho passa por adotar uma estratégia assente no materialismo e no quotidiano, abandonando o discurso puramente académico para responder diretamente às dores reais da classe trabalhadora, como o custo de vida, a precariedade laboral e o acesso à saúde.

Em vez de se limitar a reagir ou a indignar-se com as narrativas da Direita e da Extrema-Direita, a Esquerda precisa de ditar a agenda com soluções estruturais, utilizando uma linguagem universal e acessível. Ao substituir o jargão sociológico por uma comunicação clara e inclusiva, torna-se possível reconstruir pontes com o eleitorado popular, reaproximando a ação política das periferias e dos centros urbanos empobrecidos onde historicamente tinha força.

Esta mudança de postura é fundamental para enfrentar as grandes transformações do século XXI, começando pela transição ecológica. Em vez de ser apresentada como um conjunto de restrições ou impostos penalizadores para os mais pobres, a agenda verde deve ser uma alavanca de justiça social, focada no investimento público em transportes coletivos de qualidade, no isolamento térmico das habitações e na criação de emprego verde com direitos laborais.

Da mesma forma, a resposta à aceleração da Inteligência Artificial (IA) não pode passar pela tecnofobia ou pela resignação mercantilista, mas sim pela garantia de que os ganhos de produtividade gerados pela automação servem para financiar o Estado Social, reduzir o horário de trabalho sem perda de rendimento e requalificar os trabalhadores afetados.

Finalmente, para lidar com o sobreturismo que devasta as cidades, a Esquerda deve resgatar o direito à habitação e ao espaço público, regulando de forma estrita o alojamento local, impondo tetos às rendas e protegendo o comércio tradicional. Só ao integrar estes desafios modernos numa matriz económica focada na melhoria real da vida quotidiana das pessoas é que a Esquerda conseguirá apresentar uma alternativa sólida e mobilizadora.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Da estagnação económica ao colapso climático: a ilusão da neutralidade política que ameaça a democracia


Acabei hoje de ler a crónica de Daniel Oliveira - “Não há TINA, há um consenso falhado” - e veio demonstrar aquilo que eu já tenho abordado no meu ensaio sobre a anatomia da extinção anunciada: a crise económica e o colapso ambiental não são dois problemas distintos, mas duas manifestações do mesmo modelo político-económico.

Durante quase meio século, incutiram-nos um dogma cómodo para quem detém o poder: a ideia de que a gestão da sociedade é um assunto puramente técnico. Vendeu-se a ilusão de que a economia e a gestão dos recursos naturais pertencem a uma esfera neutra, habitada por peritos, matemática e leis de mercado inquestionáveis — longe do alcance e da perturbação da escolha política. Hoje, diante de salários estagnados, desigualdade em máximos históricos e alertas científicos cada vez mais dramáticos sobre a degradação da biosfera, a máscara da "inevitabilidade" caiu. A suposta neutralidade técnica foi, e continua a ser, a escolha política mais consequente dos últimos cinquenta anos.

Trinta e cinco anos após a hegemonia do “Consenso de Washington” ter ditado a liberalização desregrada e a privatização sistemática, a revisão crítica operada por debates recentes sobre o chamado “Consenso de Londres” traz à tona uma verdade desconfortável: o modelo económico não falhou por acidente. Ele funcionou exatamente como foi desenhado para funcionar. Ao mesmo tempo, os alertas recorrentes da comunidade científica e da climatologia - que desenham o mapa do esgotamento planetário pós-2050 - demonstram que a degradação ambiental partilha exatamente a mesma génese. A crise social e a emergência ecológica não são dois problemas paralelos; são duas manifestações da mesma opção ideológica.

A falsa neutralidade e a captura do estado
O debate público foi propositadamente afunilado numa falsa dicotomia entre "Estado Mínimo" e "Estado Máximo". A verdadeira questão nunca foi o tamanho do Estado, mas sim ao serviço de quem ele trabalha. Quando o modelo económico desregulamentado colapsou na Grande Crise Financeira de 2007–2009, o suposto "Estado mínimo" transformou-se instantaneamente num Estado intervencionista máximo, injetando biliões em garantias e liquidez para salvar o setor financeiro. Socializaram-se os prejuízos privados e cobrou-se a conta aos cidadãos sob a forma de austeridade.

Esta mesma lógica de captura institucional replica-se com exatidão na esfera ecológica. A omissão governamental perante o esgotamento dos ecossistemas não resulta de ignorância ou falta de dados. Os modelos do GIEC/IPCC há décadas que preveem com precisão milimétrica os cenários de eventos extremos que hoje testemunham. Se os governos hesitam em impor limites estritos à extração de recursos, ao uso de combustíveis fósseis ou à poluição corporativa, é porque a capacidade regulatória do Estado foi subordinada à lógica do lucro de curto prazo. A regulação preventiva foi desmantelada para não perturbar a acumulação de capital, reservando-se ao Estado apenas o papel de absorver os estragos depois dos desastres consumados.

O fetiche do PIB e a desigualdade estrutural
Esta convergência reflete-se com clareza na forma como medimos o sucesso de uma sociedade. O produto interno bruto (PIB) e os indicadores macroeconómicos convencionais tornaram-se métricas cegas: contabilizam a extração desenfreada e a transação financeira de soma zero como "crescimento", enquanto ignoram tanto a destruição do património natural como o esvaziamento do poder de compra de quem trabalha.

Nos últimos quarenta anos, assistimos ao crescimento exponencial da concentração de mercado e à perda de poder negociador dos trabalhadores. O capital desviou-se do investimento produtivo e da inovação real para a engenharia financeira. O resultado traduz-se numa divergência gritante: a produtividade aumentou, mas a quota do rendimento captada pelo 1% mais rico disparou, enquanto os salários médios permaneceram estagnados. À escala global, a livre circulação de capital aliada à competição fiscal entre Estados transferiu o ónus dos impostos para o trabalho e desmantelou o tecido comunitário de regiões inteiras.

Paralelamente, a biosfera - subordinada a limites biofísicos invioláveis - foi tratada como um armazém infinito de recursos e um depósito ilimitado de resíduos. Ao dissociar a economia da física e da ecologia, o sistema financeirizado passou a promover a ilusão de um crescimento ilimitado num planeta finito, tratando a destruição ecológica como uma mera "externalidade" sem valor contabilístico.

O esvaziamento da democracia e a destruição do TINA
As consequências moram ao nosso lado. A estagnação salarial, a degradação dos serviços públicos, o sentimento de abandono regional e a perda de coesão social não são apenas estatísticas económicas; são os motores primordiais da erosão democrática, da fragmentação política e da ascensão do populismo extremista. Quando a população perceciona que as instituições democráticas foram instrumentalizadas para proteger os interesses de quem concentra riqueza, a confiança no sistema representativo desmorona-se.

Durante décadas, a máxima TINA (There Is No Alternative / "Não Há Alternativa") foi utilizada como um espartilho intelectual. Dizia-se que a globalização sem regras, a desregulação laboral e a mercantilização da vida eram forças inelutáveis da natureza às quais restava apenas a resignação.

Contudo, nada disto foi inevitável. As regras da economia foram desenhadas e escritas por escolhas humanas para servir determinados objetivos; por conseguinte, podem ser desmanteladas e reescritas. A física do clima impõe limites reais e invioláveis; a economia, pelo contrário, é uma construção social submetida à vontade política.

Rejeitar o determinismo tecnológico e económico implica devolver a economia ao seu lugar de origem: o da política e da ética. Enfrentar a emergência do século XXI exige um novo compromisso que associe a progressividade fiscal, a valorização do trabalho e a regulação financeira a uma transição ecológica justa baseada nos princípios do decrescimento, na transição para uma economia circular e na regulamentação estrita da inteligência artificial e do consumo de recursos. Reconhecer que a economia é política é o primeiro passo para resgatar a democracia e impedir que a crónica de uma catástrofe anunciada se torne o nosso destino final.

Saber mais:
  1. Interessante escutar este painel de debate How do we fix climate change? promovido pela London School of Economics and Political Science. Conheça os oradores aqui
  2. A ilusão do consumo e o silêncio da extinção: uma crítica da ecologia política ao poder corporativo

domingo, 7 de junho de 2026

The Wild Swans - Bringing Home The Ashes


Melhor som aqui

Letra
[Verse 1]
Goodbye...
Flower of England
The pain never fades away after all this time
World war
And revolution
The heart in the heart of England will never die

[Chorus]
Bringing home the ashes
Is more than I can bear

[Verse 2]
Goodbye
King of sorrow
The curse of a thousand years beneath the gloves
Worn down and hardly breathing
The heart in the heart of England will never die

[Chorus 2]
Bringing home the ashes
Is more than I can bear
When winter lightning flashes
You'll find me lonely there

Significado da canção
A expressão "bringing home the ashes" (trazendo as cinzas para casa) carrega uma dualidade profunda que mistura a melancolia pessoal com o peso da identidade britânica dos anos 80. Por um lado, o título remete subtilmente à famosa competição de críquete entre a Inglaterra e a Austrália, conhecida como "The Ashes", que nasceu de um obituário satírico sobre a morte do desporto inglês. Contudo, no contexto poético da canção, a metáfora adquire um tom muito mais sombrio e espiritual, simbolizando o ato de recolher os destroços, as memórias e o que restou de um passado glorioso após a desilusão ou a destruição. Paul Simpson evoca uma visão romântica, mas cansada, de uma Inglaterra marcada por crises sociais e cicatrizes históricas, sugerindo o fardo quase insuportável de carregar a dor do tempo. Ainda assim, mesmo perante a decadência e o inverno rigoroso, a música recusa-se a ceder ao niilismo total, proclamando com resiliência que o coração da nação nunca morre. Trata-se, no fundo, de um hino sobre a perda da inocência e a maturidade, onde a beleza e a dignidade são resgatadas mesmo quando tudo o que resta são cinzas.
É um daqueles temas que consegue ser incrivelmente luminoso na melodia (pelas guitarras brilhantes), mas profundamente nostálgico e triste na poesia e na voz barítona de Paul Simpson. 
Em resumo, o tom barítono dele contrasta perfeitamente com a envolvência quase celestial das guitarras, criando um ambiente agridoce que é a verdadeira alma da canção. É essa fricção entre a luz da música e a penumbra da voz que a torna tão marcante.
No contexto político a banda tece críticas. A década de 1980 no Reino Unido ficou profundamente marcada pelo governo de Margaret Thatcher, cujas reformas económicas agressivas e de cariz neoliberal transformaram radicalmente o tecido social do país. Cidades industriais e portuárias como Liverpool sofreram um impacto devastador, enfrentando o encerramento de estaleiros, o desemprego em massa e uma forte crispação social, que chegou a culminar em violentos motins urbanos. Foi precisamente neste cenário de sufoco e fratura social que a cena musical local floresceu, utilizando a arte como uma forma de protesto e de fuga à realidade cinzenta. Quando os The Wild Swans lançaram “Bringing Home The Ashes” em 1988, a canção acabou por espelhar de forma perfeita esse ambiente da era "Thatcherista". O contraste entre a melodia luminosa das guitarras e o tom barítono, melancólico e pesado de Paul Simpson traduz a dualidade de uma juventude que se sentia desgastada e sem fôlego face às convulsões políticas da época. Ao evocar imagens de guerras de palavras, revoluções e o peso de carregar as cinzas de um passado glorioso, a letra funciona como um retrato íntimo e político de uma Grã-Bretanha dividida. No entanto, a insistência em cantar que o coração da Inglaterra nunca morre surge como um ato de resistência cultural e de apego à identidade comunitária da classe trabalhadora, que recusava deixar-se abater pela austeridade dos tempos.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Mendes em primeiro, Ventura em último. As notas de todos (mesmo todos) os comentadores: quem ganhou e quem perdeu ao fim de 28 debates


Vinte e oito debates depois (que pode rever, um a um, aqui) é quase consensual para os comentadores que os avaliaram que Luis Marques Mendes foi quem teve uma melhor prestação. Em média. É esta a principal conclusão de uma análise feita pela CNN Portugal a todas as notas quantitativas dadas pelos diferentes analistas da CNN Portugal, da SIC Notícias, do Jornal de Notícias, do Observador e do ECO: o antigo líder do PSD conseguiu uma classificação média de 13 valores e foi o primeiro classificado em quatro destes cinco meios de comunicação social - só na CNN Portugal ficou em segundo e por causa do último debate, até ao qual também liderava.

A tabela seguinte sintetiza as médias de todas as avaliações, por meio de comunicação social, bem como a média de todos eles. Nota: Eco e JN só avaliaram os principais debates. Pode "clicar" em cada meio de comunicação para ver os rankings individuais.

A avaliação a Marques Mendes por parte dos comentadores dos cinco órgãos de comunicação social manteve-se sempre acima dos 12 valores. Nos extremos, o Observador deu, em média, ao candidato a melhor nota (13,6 pontos) e o Eco a mais fraca (12,1 pontos).

Na análise feita pelos comentadores, Marques Mendes venceu praticamente todos os debates que fez, sendo que aqueles em que teve melhor avaliação foram contra António Filipe (média de 14,4 pontos) e João Cotrim de Figueiredo (média de 14,3). O candidato do PSD acabou por perder só um debate, o último, frente a Gouveia e Melo em que teve um resultado de 11,9. Por outro lado, foi contra Catarina Martins que Marques Mendes teve a sua vitória menos expressiva (12,7 vs 12,2 valores).

Na avaliação à prestação dos debates, é António José Seguro quem consegue a segunda melhor nota no cômputo geral. Feitas as contas, o candidato apoiado pelo PS termina com uma média geral de 12,3 valores, tendo alcançado em média um valor superior aos 13 pontos em três canais ou jornais: CNN (13,3), Observador (13,1) e SIC Notícias (13,2). Já os piores resultados para Seguro vieram, em média, do JN (12,8) e do Eco, para quem o candidato termina com uma média negativa: 9,4 pontos.

À semelhança de Luís Marques Mendes, António José Seguro apareceu como vitorioso em seis dos debates em que esteve presente, sendo a sua vitória mais expressiva contra Henrique Gouveia e Melo, por 3,8 valores (14,4 vs. 10,6). Por outro lado, foi com Catarina Martins que Seguro obteve a sua vitória mais curta, por 0,3 valores (12,8 vs. 12,5). A única derrota registada ao longo dos debates eleitorais ocorreu frente a Marques Mendes, tendo perdido por 0,6 valores (12,2 vs. 12,8).

No final do pódio está João Cotrim de Figueiredo. O candidato apoiado pela Iniciativa Liberal obteve uma média de 11,4 pontos, tendo recebido melhores notas do Observador (média de 12,6 pontos) e da CNN Portugal (12,2 valores) e piores vindas dos comentadores do JN (10,9 pontos) e da SIC Notícias.

Foi contra Catarina Martins que João Cotrim de Figueiredo teve a sua melhor média de notas, tendo vencido esse debate por 1,1 valores (13,2 vs. 12,1). Foi uma das cinco vitórias que obteve ao fim de sete debates. Em contrassentido, o antigo líder da Iniciativa Liberal perdeu em dois desses confrontos, sendo a sua pior derrota com Luís Marques Mendes, por 3,5 valores (10,8 vs. 14,3).

Já o Almirante Henrique Gouveia e Melo surge em quarto lugar no ranking de melhores notas dadas pelos comentadores dos cinco órgãos de comunicação social. Termina esta temporada pré-eleitoral com uma média de 11,2 pontos - menos 0,2 valores do que Cotrim Figueiredo. Entre os comentadores das cinco casas, foi na CNN Portugal que o antigo líder da task-force de vacinação obteve a melhor média: 12,6. Manteve-se acima dos 11 valores na SIC Notícias (11,9) e no Observador (11,1) e as notas mais fracas vieram de comentadores do ECO (10,7) e do JN (9,6).

A maior vitória que Henrique Gouveia e Melo registou foi contra Jorge Pinto, tendo obtido uma média de 12,9 contra 10,6. Destaque ainda para os bons resultados contra António Filipe, onde conseguiu vencer por 1,9 valores (12,7 vs. 10,8). O Almirante, de resto, perdeu em três confrontos, tendo o pior resultado contra António José Seguro, por 4,6 valores (9,8 vs. 14,4).

A completar o top 5 está Jorge Pinto, o candidato apoiado pelo Livre que ficou a 0,1 pontos da média final de Henrique Gouveia e Melo. O deputado obtém assim um resultado final de 11,1 valores, tendo recebido a melhor pontuação média junto dos comentadores da CNN Portugal (11,8 valores). Já os piores resultados vieram, em média, dos comentadores do Observador que lhe deram uma pontuação final de 10,4 valores.

Jorge Pinto conseguiu três vitórias, a mais expressiva frente a António Filipe, em que, segundo a avaliação dos comentadores, derrotou o candidato do PCP por 0,9 valores. Saiu derrotado, contudo, em quatro confrontos: contra André Ventura (11,1 vs. 12,0), contra António José Seguro (10,2 vs. 11,8), contra João Cotrim de Figueiredo e contra Luís Marques Mendes, num debate que ficou marcado por ser aquele em que teve a melhor avaliação geral de todos (12,7 vs 14,2).

Após o derradeiro debate desta segunda-feira, Catarina Martins e André Ventura compõem penúltimo e último lugar, respetivamente, no que diz respeito às notas dos comentadores. A antiga líder do Bloco de Esquerda termina com uma média de 10,9 valores, tendo perdido em cinco dos sete debates. A derrota mais pesada foi mesmo frente a João Cotrim de Figueiredo, por mais de um valor (12,1 vs. 13,2). Já o melhor debate foi frente a André Ventura, naquele que foi o debate avaliado como o pior de todos (8,8 vs. 8,0).

O líder do Chega é, de resto, o pior classificado feitas as contas aos 28 debates. Para os comentadores analisados, a média de Ventura não vai além dos 10,8 valores, tendo recebido as melhores notas da CNN Portugal (12,6 em média) e as piores do JN (média de 8,6 pontos).

Em seis debates, André Ventura venceu dois dos sete debates em que participou, ambos por margens reduzidas, frente a Jorge Pinto (12,0 vs. 11,1) e a António Filipe (12,0 vs. 10,9). Perdeu cinco confrontos, incluindo uma derrota mínima frente a Henrique Gouveia e Melo (11,3 vs. 11,4,) e a mais expressiva contra António José Seguro (10,6 vs. 12,8).

O melhor e o pior debate
As notas permitem ainda destacar o melhor e o pior debate dos 28, considerando as médias de todos os comentadores.

O melhor debate, no sentido em que recebeu notas médias mais elevadas, realizou-se entre Luís Marques Mendes e Jorge Pinto:

Já o pior debate, seguindo o mesmo critério, realizou-se entre André Ventura e Catarina Martins:

Esta análise contemplou mais de setecentas notas individuais, dadas por mais de cinquenta "avaliadores". Em média, cada debate recebeu cerca de 14 avaliações de comentadores.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

The Institute of Economic Affairs Banked £640,000 from Oil Giants and Murdoch


The Institute of Economic Affairs (IEA) – the anti-state, anti-climate pressure group – received more than £640,000 from fossil fuel companies and Rupert Murdoch’s media conglomerate between 1957 and 2005, DeSmog can reveal.

Archive records seen by DeSmog show that the group, which has campaigned for more fossil fuel extraction and against government climate action, received more than £150,000 from BP, £124,000 from Esso (owned by ExxonMobil), and £106,000 from Shell.

In total, the IEA accepted £479,992 from oil and gas firms, with the majority (£357,063) coming from 1991 onwards. These fossil fuel giants were among the biggest corporate contributors to the IEA during the period, according to DeSmog’s analysis.

Greenpeace’s investigative outlet Unearthed previously revealed that the IEA had received funding from BP every year from 1967 to 2018, while the IEA also received a £21,000 grant from ExxonMobil in 2005.

However, the IEA does not publicly disclose its donors and this is the first time that its historic funding sources have been revealed in detail – exposing the financial interests that helped the group to become an influential force in British politics.

“This investigation confirms one of the worst-kept secrets in Westminster,” said Ami McCarthy, Greenpeace UK’s head of politics. “This self-styled economic think tank is really a lobbying shop for the harmful and polluting industries that fund it, with fossil fuel giants chief among them.”

McCarthy added that the IEA “spent years downplaying the climate crisis while taking loads of cash from some of the world’s biggest oil and gas companies and one of its most influential climate sceptics, Rupert Murdoch.”

The IEA is part of the Tufton Street network – an orchestrated alliance of radical right-wing groups based in Westminster that lobby to dismantle state services and privatise public bodies. These groups share an opposition to climate action, and have spent decades undermining the scientific consensus behind policies to reduce emissions.

The IEA has also been a prominent advocate for increased fossil fuel extraction. It has called for the ban to be lifted on fracking for shale gas, labelling it the “moral and economic choice”, has lambasted the government for banning new North Sea oil and gas licences, and has celebrated the Conservative Party’s pledge to scrap the 2008 Climate Change Act, which forms the legal basis of the UK’s 2050 net zero target.

DeSmog can also reveal that the IEA received £164,667 in donations from News International – Murdoch’s UK media stable – between 1991 and 2000. This is the first time that one of Murdoch’s companies has been found to have donated to a UK pressure group.

According to David McKnight in Murdoch’s Politics, News International was “deeply involved” with the IEA during this period, with its co-founder Lord Harris of High Cross (Ralph Harris) acting as a director of Murdoch’s Times Newspapers Holdings from 1988 to 2001, and the Sunday Times co-publishing several pamphlets with the IEA.

News International was rebranded in 2013 to News UK and currently owns The Times, Sunday Times, Times Radio, The Sun, TalkTV, talkSport, and Virgin Radio UK.

Murdoch has described himself as a climate change “sceptic”, has given a prominent platform to fossil fuel advocates and narratives, and has been described by leading scientists as a “climate villain”.

His media outlets have also favourably covered IEA findings and narratives, including those calling on the government to ditch climate targets and ramp up fossil fuel extraction, and have given a regular platform to the group’s senior staff members.

“This revelation confirms what many of us suspected: the fossil fuel industry has weaponised its profits to exert undue influence over the policy agenda, through organisations like the IEA,” said Labour MP Clive Lewis. “Without checks on corporate power, the health of our democracy is undermined – and this is one such example.”

Robert Palmer, deputy director of the campaign and research group Uplift, said: “These historic payments give us a window into the enormous fossil fuel lobby that has spent decades trying to shape our politics and media to increase their profits and strip back regulation, regardless of the harm to ordinary people and the natural world.

“Today, the costs to the rest of us are obvious: we have an energy system that impoverishes people through unaffordable bills, as well as mounting climate costs, whether that’s flooded homes, rising food prices or extreme heat and wildfires.

“Thankfully, the influence of the oil and gas companies and their proxies is starting to wane in this country as we shift to renewable energy. People increasingly realise that the oil and gas giants want us – our resources and money – a lot more than we need them.”

The IEA and BP declined to comment. Shell and ExxonMobil did not respond on the record.
The IEA’s Political Influence

The IEA and its Tufton Street counterparts have been effective in shaping political debate and persuading politicians to adopt their causes.

The group is close to former UK prime minister Liz Truss, with former IEA director-general Mark Littlewood claiming in 2022 that Truss had spoken at IEA events more than “any other politician over the past 12 years”.

Despite the economic turmoil caused by Truss’ policies – which former Downing Street advisor Tim Montgomerie claimed had been “incubated” by the IEA – its spokespeople are still regularly given a platform by the BBC and other mainstream media channels. The IEA claimed it was featured in the media over 5,000 times in the year to March 2024 – equivalent to 14 times a day.

In its 2022 annual accounts, the group stated that “the diversification of the UK broadcast landscape, notably the launch of GB News and TalkTV, has increased opportunities for IEA commentary”. GB News and Murdoch-owned TalkTV launched in 2021 and 2022 respectively, and have regularly promoted climate science denial.

The IEA also remains influential within the Conservative Party. Tory leader Kemi Badenoch’s head of policy, Victoria Hewson, is the former head of regulatory affairs at the IEA – a position she held from 2018 to 2022.

In July 2022, Hewson wrote an article for the IEA’s website in which she called the UK’s net zero target a “huge own goal”. Since Hewson’s appointment, Badenoch has ditched the Conservative Party’s commitment to the 2050 target.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

A pobreza gera dinheiro para muitas pessoas e sectores, directa e indirectamente.


A pobreza, além de ser um problema social evidente, é também uma fonte de rendimento para muitos sectores. Existem empresas que dependem diretamente da existência de trabalhadores com poucas alternativas e que, por isso, aceitam salários baixos, como acontece na agricultura intensiva, na restauração, nas limpezas, nas plataformas digitais e nas fábricas de têxteis. Sem pobreza, estes setores teriam custos muito maiores e lucros mais reduzidos. Outros negócios lucram com a fragilidade financeira das pessoas pobres, como bancos e financeiras que oferecem crédito caro ou empréstimos rápidos a juros elevadíssimos, explorando a falta de alternativas. Há ainda empresas de segurança privada, alarmes e serviços de vigilância que prosperam em contextos de maior desigualdade, porque a insegurança cresce quando há fraturas sociais profundas.

No setor social e no Estado, a pobreza cria também um grande número de empregos. Assistentes sociais, psicólogos, técnicos de apoio, gestores de instituições, funcionários de programas estatais, ONGs e IPSS dependem da existência de pessoas que necessitam de ajuda. Não significa que estas pessoas desejem que a pobreza se mantenha, mas é um facto que a existência de pobreza sustenta estas estruturas e gera carreiras inteiras. Algo semelhante acontece com organismos internacionais que lidam com desenvolvimento, desigualdade e exclusão, que movimentam grandes orçamentos devido à persistência dessas condições.

A desigualdade também alimenta setores indiretos, como o imobiliário, que beneficia quando muitas pessoas não têm capacidade para comprar casa e acabam presas a arrendamentos caros. Superfícies comerciais, cadeias de fast food e empresas de produtos baratos lucram quando a população tem poucas alternativas, porque consome aquilo que consegue pagar. Ao mesmo tempo, a pobreza é também rentável politicamente. Partidos de diferentes ideologias constroem discursos, programas e mobilizam eleitores em torno da questão da desigualdade, uns defendendo mais apoio social, outros defendendo incentivos ao trabalho, mas todos a usar a pobreza como parte da sua narrativa. A comunicação social também ganha com isto, porque a desigualdade gera histórias, reportagens, audiências e campanhas solidárias.

Em resumo, a pobreza não é apenas uma condição social; é também um elemento estrutural que alimenta mercados, empregos, discursos e modelos económicos. Há pessoas e instituições que trabalham para a combater, outras que lucram indiretamente com ela, mas o resultado final é o mesmo: a pobreza gera dinheiro para muitos, mesmo que traga sofrimento para quem a vive.

Referências:
Estudo da FFMS - A Pobreza em Portugal (2021)
Vidas em fuga da pobreza: a mobilidade social nas classes trabalhadoras em contextos de realojamento
(2007-2010)

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Num País de rastos e a exigir austeridade para todos, afinal há dinheiro - estudo de caso do Paulo Pedroso


Por muitas justificações que Paulo Pedroso invoque, 46.000 euros é muito dinheiro. Apesar de a decisão ter sido justificada com o “preço mais baixo”, a opção por uma empresa ligada a um ex-governante do PS é favorecimento político com impacto nos negócios com o Estado. Em 13 de Julho PP afirmava o seguinte: "A Iniciativa Liberal, na moção de Mariana Leitão, é um partido conservador liberal, encostado à direita, mas totalmente despido de consciência social. O elogio rasgado a Milei, sintetiza-o."
 
Coerência? Nenhuma! Não sei como quebrar este imbróglio, mas revolta-me.

Cai por terra o que aqui escreve: "Aos liberais que acreditam que a solução para as relações de trabalho é o regresso ao paradigma da igualdade entre as partes não podemos deixar de recordar que essa foi a base do desastre do capitalismo liberal da segunda metade do século XIX, com as insanáveis contradições da “questão social”, o empobrecimento generalizado dos trabalhadores numa sociedade que gerava cada vez mais riqueza. Esse foi o quadro social que gerou as reações críticas de setores tão dispares quanto os movimentos socialistas de vários matizes e a doutrina social da igreja."

Claro que é um pagamento abusivo. O orçamento de Estado para a Ciência, para a Educação e para a Saúde são miseráveis. O da Cultura e Ambiente (quase a zeros)!!! E agora que seja uma equipa que vai trabalhar por 2 meses e 3 semana pedir 46.000 euros é revoltante! Onde está a "consciência social" que ele escreve no artigo da Revista "Solidariedade"? E mais, o referido contrato foi assinado um dia após a data da nova lei do Código dos Contratos Públicos (CCP) - Decreto‑Lei n.º 112/2025, de 23 de outubro de 2025. Houve claramente um aproveitamento político e abuso. 

Nesta nova Lei, os ajustes directos têm a seguinte redacção:
1.Procedimento de consulta prévia simplificada com convite a pelo menos cinco entidades: valor inferior a € 143.000 (quando adjudicante central/Estado) ou € 221.000 (outras entidades)
2. Procedimento de ajuste direto (regime geral): valor igual ou inferior a € 30.00 euros
3. Procedimento de ajuste direto simplificado: valor igual ou inferior a € 15.000

Preparemo-nos: vamos assistir nos próximos meses a situações muito escabrosas. E o nosso erário público e reserva do Banco de Portugal a saque!!!!

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Novo livro de Nancy Fraser denuncia o capitalismo que devora as condições que o sustentam


A filósofa norte-americana Nancy Fraser defende que o capitalismo contemporâneo está a “devorar as próprias condições que o sustentam” e propõe repensar as bases do sistema, no livro intitulado “Capitalismo Canibal”, que chega este mês às livrarias portuguesas.

Com o subtítulo “O capitalismo está a devorar a democracia, os cuidados sociais e o planeta”, o ensaio de Nancy Fraser, publicado originalmente em 2022 e editado agora pela Antígona, alerta para a forma como o capitalismo atual, que descreve como “omnívoro e alarve”, é capaz de canibalizar todas as esferas da vida.

Segundo a autora, trata-se de um sistema que devora as bases que o sustentam, desde a natureza às instituições democráticas, passando pelo que chama de “reprodução social”, ou seja a sustentação material, emocional e relacional da vida humana.

Essa dinâmica manifesta-se na exploração intensiva dos recursos naturais, nas desigualdades de classe e etnia, na precarização do trabalho e no esvaziamento das práticas políticas, como se lê num excerto da obra.

Nancy Fraser defende que as múltiplas crises contemporâneas, sejam económicas, sociais, ambientais ou democráticas, têm como origem comum o apetite insaciável de um modelo económico que consome as próprias condições que o tornam possível.

No livro, a autora parte de uma releitura crítica de Marx para propor uma conceção alargada de capitalismo, que ultrapassa o domínio estritamente económico.

No primeiro capítulo da obra – “Omnívoro: Porque Precisamos de Alargar a Nossa Concepção do Capitalismo” -, sustenta que o sistema não se limita à exploração do trabalho assalariado, apoiando-se também em “fenómenos ‘não-económicos’ como o aquecimento global, o ‘défice das prestações de cuidados’ e o esvaziamento a todos os níveis do poder público”, que são simultaneamente indispensáveis e sistematicamente degradados.

“O capital expande‑se apropriando-se do excedente do tempo de trabalho dos assalariados explorados e igualmente expropriando a riqueza não-capitalizada e subcapitalizada dos prestadores de cuidados, das populações racializadas e da natureza. Por outras palavras, não se expande por si mesmo, mas canibalizando-nos”, apropriando-se do excedente humano e natural, sem reabastecer o que destrói, escreve Nancy Fraser no livro.

Numa entrevista dada em 2022 à revista The New Republic, a filósofa explicou que a metáfora do canibalismo procura inverter o uso colonial e racista original do termo: “Quem se dedica a acumular capital é que é o verdadeiro canibal”.

E acrescenta que o capitalismo destrói as próprias infraestruturas que o sustentam, entre as quais os sistemas políticos, jurídicos e sociais que garantem o funcionamento económico.

Nancy Fraser identifica uma crise global da reprodução social, resultante do neoliberalismo e do “capitalismo financeirizado”, de que são exemplo as mulheres, incluindo com filhos pequenos, que nas últimas décadas foram massivamente integradas na força de trabalho, enquanto os Estados reduziram os apoios públicos, criando uma “tempestade perfeita” de sobrecarga e falta de tempo.

Simultaneamente, o endividamento crescente – por via de hipotecas, cartões de crédito e empréstimos – desvia o rendimento familiar, “que poderia ser dedicado à construção de uma espécie de infraestrutura de cuidado”, para os bancos e para a ‘indústria de crédito’, numa nova forma de expropriação.

Na mesma entrevista, a autora alerta também para uma crise de “hegemonia”, conceito herdado de Antonio Gramsci, segundo o qual uma classe dominante mantém o seu poder não apenas pela força, mas também pelo consentimento.

Esta crise manifesta-se em dissidências e numa polarização, decorrente do “surgimento de narrativas concorrentes, que lutam entre si pelo que será a nova hegemonia”, que “substituirá o senso comum neoliberal de que tudo o que precisamos são mercados mais livres e uma menor interferência do Estado”.

Para a filósofa, a perda de confiança nas instituições e nas elites políticas está a abrir espaço tanto a movimentos emancipatórios, como o socialismo democrático e novas plataformas mediáticas de esquerda, como a forças reacionárias, incluindo o ‘trumpismo’, os movimentos antivacina e os discursos xenófobos.

A dimensão ecológica ocupa igualmente um lugar central na análise de Nancy Fraser, segundo a qual “o capitalismo separou brutalmente os seres humanos dos ritmos naturais e sazonais”, transformando a agricultura e a indústria em sistemas subordinados ao lucro e sustentados por combustíveis fósseis e fertilizantes químicos, descreve a sinopse do livro.

Ao mesmo tempo, o neoliberalismo promete fazer desaparecer a fronteira entre o humano e a natureza, com técnicas reprodutivas e tecnologias ciborgue, que em vez de reconciliar, intensificam a canibalização da natureza pelo capital.

Na entrevista à Common Wealth , a autora reconhece que o sistema capitalista demonstrou grande capacidade de reinvenção, mas considera que a mudança climática representa “um limite objetivo”, podendo tornar “a vida literalmente impossível para um número cada vez maior de populações”.

A filósofa defende a necessidade de imaginar novos sistemas para substituir o modelo atual, reduzindo as emissões, evitando que os custos recaiam sobre as populações mais vulneráveis e reconstruindo as bases da democracia e do cuidado.

Nancy Fraser desafia leitores e decisores a repensarem as estruturas fundamentais da vida social e económica antes que o sistema consuma tudo o que o sustenta.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Iniquidade insustentável - mostra relatório recente no Reino-Unido



O trabalhador médio do Reino Unido levaria 52 anos de rendimento para se juntar aos 10% mais ricos. Um aumento em relação aos 38 anos em 2006-08. Os ricos compram influência política. Os governos ajudam os ricos. Os 20% mais pobres contribuem com uma maior proporção do rendimento do que os 20% mais ricos. As desigualdades obstruem o crescimento económico e alimentam a agitação social. [Fonte]

Isto vai chegar a nós.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Relembrar a fascinante obra de Albert Camus - "O Estrangeiro"


O "estrangeiro" por vezes somos nós próprios!! É essa a grande lição deste livro. Não há fronteiras. Nesta obra profundamente simbólica e do absurdo, alerta-nos que a condição humana é sufocante e "estranha" a toda a gente. Há que alertar para a situação que as pessoas podem ser estrangeiras quando tu és estranho.

E no mundo actual o absurdo regressou. O absurdo é o discurso do ódio, levantar esqueletos do armário do imperialismo dos séculos atrás da nossa civilização, incluindo Portugal. Fazer basófia da barbárie contra os Palestinianos, denegrir a flotilha. Publicar um vídeo piroso do Ventura sobre Bangladesh. Por isso é importante RELER o "Estrangeiro" de Albert Camus.

O "Estrangeiro" é um dos livros da trilogia do absurdo, de Albert Camus. O livro conta a história de Meursault, um homem que vive completamente alheio à importância das coisas ao seu redor. O protagonista é indiferente a tudo, sendo que uma das palavras mais usadas por ele é: “tanto faz”. Albert Camus desenvolve uma história simples, escrita em frases curtas, evidenciando conceitos segundo o qual o homem é livre e seus atos são responsáveis por seu destino.

Meursault, é descrito como “um cidadão da França, homem do Mediterrâneo, um homem que dificilmente compartilha da cultura mediterrânea tradicional”. Semanas após o funeral de sua mãe, ele mata um homem árabe na Argélia francesa, que estava envolvido num conflito com um dos vizinhos de Meursault. Mersault é julgado e condenado à morte. A história é dividida em duas partes, apresentando a visão narrativa em primeira pessoa de Mersault antes e depois do assassinato, respectivamente.

Esta história, cuja narração me fez lembrar um conto ou um texto diarístico, deve ser encarada como uma reflexão acerca da existência humana. Através da indiferença extremada e quase absurda do Sr. Meursault, captamos uma perspetiva diferente da vida, alheia a sobressaltos, à importância das decisões, a questões filosóficas e a figuras transcendentes. Meursault limita-se a viver consoante o que lhe calha na sina, sem se entregar à extravagância das emoções ou à indignação contra o destino. Em vez disso, permanece apático e ultrapassa as reviravoltas da vida através do hábito.

Se há uma sensação que predomina, implacável, nesta obra, essa sensação é o calor. Um calor asfixiante, insuportável, captada pelo autor com tanta autenticidade e intensidade que o leitor se sente tentado a tirar o casaco. Essa impressão prolonga-se pela capa do livro, de um cor de laranja forte que me faz pensar nele como um deserto tórrido comprimido em menos de uma centena de folhas de papel.
Camus serve-se deste personagem principal para mergulhar no absurdo existencial. A vida banal de Mersault até ao momento em que ocorre um crime processa-se dentro do clima do absurdo da vida humana, que não pode ser logicamente explicado, mas simplesmente apreendido e vivido.

Para Camus, a vida é absurda e filosoficamente, isso quer dizer que a situação existencial humana é caracterizada essencialmente pela ausência de sentido e, dessa forma, não existem consistências, certezas e/ou garantias. Não há finalidade última e não há causas primeiras no mundo absurdo.

Para uma melhor compreensão do absurdo é necessário fazer uma análise do próprio quotidiano. As loucuras do dia-a-dia, o corre-corre e a busca do sentido para as coisas e acontecimentos já são indícios do absurdo. O homem cria uma rotina de vida, uma monotonia e acaba deixando levar-se pelo absurdo, perde o sentido da sua existência, passando a não dar mais importância aos factos e acontecimentos no seu trabalho, com os amigos, na família…tudo se torna comum, rotineiro.

Outro ponto que ilustra o absurdo é o facto do homem já não conseguir mais dar conta dos acontecimentos e tudo lhe foge da percepção e ele mesmo constata que o mundo não tem sentido nem razão, e que a vida é absurda e fantasiosa.

É necessário VER esta época, sair do absurdo e criar coragem e buscar inovações e outros caminhos para as atividades do dia-a-dia.

Albert Camus ele próprio dá pistas! Aconselho por isso a leitura "O Homem Revoltado", e em seguida "A Queda". E depois, "A Peste" que é um intermédio entre os dois temas.

domingo, 28 de setembro de 2025

Contra a vontade da direita, é aprovada a criação do Museu da Resistência do Porto


Com a abstenção do PSD/IL e os votos contra do Chega e CDS-PP, a Assembleia da República fez aprovar a proposta do PCP para a criação deste museu no edifício da Rua do Heroísmo, onde esteve instalada a delegação da PIDE.

Na delegação da PIDE/DGS no Porto (instalada na Rua do Heroísmo, ao lado do Cemitério do Prado do Repouso) estiveram presas, ao longo dos 40 anos em que esteve activa, mais de 7600 pessoas, mulheres e homens, que enfrentaram o fascismo. As torturas que eram reiteradamente praticadas no local provocaram a morte de dois resistentes antifascistas, ambos militantes do PCP: o barbeiro Joaquim Lemos de Oliveira, de Fafe, e o operário Manuel Fiúza da Silva Júnior, de Viana do Castelo, antigo editor d'A Voz dos Famintos (um quinzenário anarquista) que acabou por se juntar aos comunistas.

Ambos foram torturados até à morte em 1957, com 16 dias de diferença. Manuel Fiúza da Silva Júnior, de 69 anos, é preso pela PSP enquanto distribuía propaganda que denunciava o assassinato de Joaquim Lemos de Oliveira (de 48 anos) às mãos da PIDE. Depois do 25 de Abril, este edifício ficou sob a tutela do Ministério do Exército que, em 1977, e depois da demolição de parte das instalações prisionais, ali instalou o Museu Militar do Porto.

A proposta apresentada pelo PCP em 26 de Setembro, na Assembleia da República, pretende mudar as instalações do Museu Militar para outro local e criar o Museu da Resistência Antifascista no Porto, instituindo ao mesmo tempo a Rede Nacional de Museus da Resistência, permitindo a articulação entre o Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, de Lisboa, o Museu Nacional da Resistência e da Liberdade, de Peniche, e este novo espaço. Em 2018, o Ministério da Defesa, em resposta aos deputados comunistas, assumiu a inteira disponibilidade para deslocalizar o seu museu, nomeando diversas infra-estruturas que poderiam receber o seu espólio.

O espaço é, desde 2015, partilhado pela URAP e o Museu Militar, estando patente uma exposição com o título Do Heroísmo à Firmeza - Percurso na memória da casa da Pide no Porto - 1934-1974, que não colide com o projecto do Museu Militar.

Direita continua com dificuldade em lidar com o seu passado
«Urge dar um novo passo na valorização deste espaço como local de memória e homenagem às vítimas do fascismo e à luta pela democracia», refere o documento apresentado pelo PCP. A proposta foi aprovada com o votos favoráveis do PS, BE, Livre e PCP, a abstenção do PSD e da Iniciativa Liberal, e os votos contra do Chega e do CDS-PP, incapazes de se libertarem das suas pesadas heranças.

«O edifício do Heroísmo é um símbolo do regime fascista e, como antiga sede da polícia política, é o local adequado e justo para documentar, musealizar e, dessa forma, homenagear a luta pela liberdade daqueles que lá estiveram detidos e ali resistiram para construir no nosso país o 25 de Abril e o seu projeto emancipador de liberdade, progresso e desenvolvimento social», afirmam os comunistas.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Terras de Barroso é notícia em França

A Serra do Barroso, no extremo norte de Portugal, é única na sua história, património, paisagens e biodiversidade. É um dos oito territórios europeus atualmente classificados como Património Mundial da Agricultura pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura [Fonte].

Infelizmente, o seu subsolo é considerado rico em lítio, um elemento essencial no fabrico de baterias para telefones e veículos elétricos. Vendo isto como uma oportunidade económica, o governo português deu luz verde ao seu desenvolvimento. Os habitantes locais lutam contra o projeto, mas sem grande esperança. Uma crónica de um desastre ecológico anunciado. 

A base e a elevação. 
Do topo de um forte que data da Segunda Idade do Ferro, a estátua de pedra de um poderoso guerreiro gaélico, descoberta na região, contempla milhares de anos e uma paisagem de cortar a respiração moldada pela pura paciência do tempo: a do Barroso, uma região de média montanha que se estende pelos concelhos de Boticas e Montalegre, no distrito de Vila Real (região histórica de Trás-os-Montes). Os caminhantes que se aventuram até aqui não estão imunes ao encontro com uma alcateia de lobos ibéricos, numerosos na região e uivantes durante a noite. Mais abaixo, é o gado Barrosã, com a sua pelagem fulva e os seus chifres longos e curvos, cuja herança genética está enraizada nas profundezas do tempo, que domina esta obra-prima.

Em Agosto último, ambientalistas de todo o mundo reuniram-se ali, precisamente na aldeia de Covas do Barroso, no quintal de uma antiga quinta convertida em ecomuseu (um grande número na região ). A sua luta local: a mina de lítio que ameaça desfigurar a área, mais precisamente a exploração de pegmatitos contendo lítio para a produção de concentrado de espodumena, um mineral utilizado no fabrico de lítio para baterias. Segundo um relatório do Serviço Geológico dos Estados Unidos, publicado em 2023, Portugal detém as maiores reservas de lítio da Europa e a oitava maior do mundo. O seu Primeiro-Ministro, António Costa, tem afirmado repetidamente que o país está sentado sobre um tesouro.

"A realidade é que ele não sabe mais do que eu e tu, porque estes são recursos deduzidos", interrompe Carlos Leal Gomes, professor da Universidade do Minho e especialista na matéria. "Quinto, sexto, oitavo lugar, para já não temos absolutamente nada. Só saberemos esta classificação quando começarmos a produzir." O grupo britânico Savannah Resources Plc [Fonte], que obteve a concessão para a operação, apresentava, no entanto, números muito precisos antes do Verão: uma produção de 25.000 toneladas, o equivalente à quantidade de material necessária para fabricar baterias para aproximadamente 500.000 veículos por ano. Mas, mais uma vez, Carlos Leal Gomes modera o entusiasmo que prevalece em Lisboa: "Nesta fase, estes são apenas números indicativos, sabendo que neste campo estão comprovadas muito poucas estimativas." Além disso, os minérios de Barroso não são dos melhores em termos de qualidade. Exigirão muito trabalho para serem exploráveis."

O projeto Barroso Lithium envolve perfurações até 1.700 metros de profundidade numa área de 593 hectares e a criação de uma cratera a céu aberto com 800 metros de diâmetro, a menos de 200 metros das povoações mais próximas! Este é o pior método de extração existente, equivalente ao do gás de xisto, com a sua série de danos colaterais. A extraordinária floresta de pinheiros, que conseguiu o milagre de se regenerar após grandes incêndios há alguns anos, será novamente sacrificada, mas deliberadamente desta vez. Tínhamos lido muito sobre o assunto antes de o virmos visitar in loco, mas quando descobrimos o local, foi o suficiente para nos fazer chorar.

No bar da aldeia, o apropriadamente chamado "O Nosso Café", podíamos sentir os clientes um pouco relutantes em conversar. Não sabemos muito, não acompanhamos de perto e somos sempre encaminhados para outra pessoa. "As pessoas não entendem por que, com o objetivo louvável de reduzir a poluição, vamos destruir florestas, "rios, todo um ambiente e, em última análise, as suas vidas", resume Nelson Gomes, presidente da associação Unidos pela Defesa de Covas do Barroso. "Já estamos a assistir ao colapso climático com os nossos próprios olhos e, para o contrariar, vamos agravá-lo aqui. É uma aberração."

A comunidade intermunicipal do Alto Tâmega, da qual Barroso faz parte, é o ponto de encontro do norte de Portugal. A água está em todo o lado, em abundância, tanto que se pode ouvi-la cantar continuamente o seu fado. O Posto de Turismo fez dela a sua imagem de marca: "O território da água e 
bem-estar." Mas a evisceração da montanha, claro, perturbará este belo e intemporal equilíbrio. "A extracção interferirá inevitavelmente com a irrigação das nossas terras, o que acabará por condenar a produção", lamenta Aida, outra voz de protesto. "No entanto, esta natureza é a nossa única riqueza, a nossa mãe nutritiva." Acima de tudo, são necessários entre 41.000 e 1,9 milhões de litros de água para produzir uma tonelada de lítio.

Então, José promete alguma alegria à cidade distante: "Para além da interrupção do sistema de rega e das projecções de poeiras, todo este lítio terá de ser lavado antes de ser enviado. E é a água daqui que recebem no Porto, em Braga ou em Guimarães." Os promotores do projeto diriam que se trata apenas de fantasias sem base científica, enquanto realizaram estudos muito sérios. Mas os habitantes mais antigos da região recordam que a exploração de volframite, um mineral que contém tungsténio, um metal muito útil para o fabrico de armas, durante a Segunda Guerra Mundial quase condenou a tribo Barrosa.

Portugal é já o maior produtor de lítio da Europa, com 900 toneladas por ano [Fonte]. Este número continua, no entanto, a ser muito modesto em comparação com as 55.000 toneladas da Austrália (46,3% da produção mundial) ou as 26.000 toneladas do Chile (23,9%). Mas as suas reservas estão estimadas — ainda condicionalmente — em 60.000 toneladas. Assim, decidiu-se minerar em seis locais do interior do país, onde tinham sido identificados jazigos. O que salvou Portugal até então? O custo de extracção, duas a três vezes superior na Europa do que no Chile, por exemplo. Mas os avanços tendem a diminuir este fosso e, à medida que se começou a sentir uma certa inquietação quanto a uma possível futura escassez global, a decisão foi rapidamente tomada.

A Savannah Resources já está em casa em Portugal (o seu site está agora disponível em inglês e em português), onde criou uma agência dedicada de relações com os media. De facto, o grupo britânico está a beneficiar de uma impressionante campanha de portas abertas na imprensa portuguesa, onde, através de artigos que fazem lembrar publieditoriais, todos os bons motivos para a próxima operação são reafirmados sobre as suas condições. Boas pessoas, estejam descansadas, o nosso projeto é sustentável e obedece às técnicas mais virtuosas.

Para garantir o seu sucesso, a empresa, claro, cumpriu uma série de requisitos: a promessa de indemnizações às comunidades afetadas, a construção de uma nova estrada para o transporte de lítio para limitar os incómodos aos residentes locais, a proibição de captação de água do Rio Covas, mecanismos de compensação, etc. A Savannah chega mesmo a gabar-se da potencial renaturalização do local após o esgotamento da mina (falamos de uma duração de exploração em dezassete anos).

Com a autorização da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que deu a sua aprovação esta primavera, a Savannah Resources pretende iniciar as escavações até 2026.

"Mas fomos tão enganados desde o início, com argumentos falaciosos, que já não acreditámos neles", diz João, que regressa à sua aldeia natal todos os verões. "Na verdade, só fomos informados depois do lançamento do projeto." E, como sabem, é difícil protestar em Portugal. Recentemente, activistas tentaram erguer um bloqueio na estrada nacional que atravessa o norte do país de leste a oeste, mas em menos de uma hora foram removidos sem cerimónias pelas autoridades. Assim, o protesto limita-se modestamente a inscrições ou faixas com os dizeres: Não à mina, sim à vida  ou, mais simplesmente, "Não à Mina".

Porque a vida tem sentido na região do Barroso, onde os habitantes sempre respeitaram todos os seres vivos. Sentimo-lo em Sofia, cuja família possui uma quinta perto de Chaves, a cerca de vinte quilómetros. De longe, uma genuína admiração por eles: "A vida deles foi difícil durante muito tempo. Muito difícil. Estavam completamente isolados do resto do país. A eletricidade só chegou lá em 1966. Assim, foram organizados em comunidades para a gestão dos recursos." Tal isolamento que, no Concílio de Trento, em 1542, foi pedida uma isenção para permitir que os padres do Barroso se casassem! Tal não aconteceu, mas as aldeias mais remotas, como Vilarinho Seco, não mudaram nada no seu modo de vida, que alguns comparariam, sem dúvida, ao dos Amish.

Na década de 1980, o fotógrafo Gérard Fourel imortalizou esta "terra dos últimos homens", que fala por si. Quarenta anos depois, os seus habitantes ainda lá vivem com os seus animais e cozem pão no forno comunitário, que se assemelha a uma ágora. E os baldios, terras comunais geridas colectivamente, são ainda numerosos na zona. É esta obra-prima da humanidade que a UNESCO mencionou "a forma tradicional de trabalhar a terra, cuidar dos animais e a entreajuda entre os seus habitantes", que David Archer, ex-CEO da Savannah Resources, descreveu em 2021 no Diário de Noticias como uma região moribunda em processo de desertificação, apresentando a sua mina como "a" solução para inverter a tendência e revitalizá-la, prometendo "a procura imobiliária (sic) e a realocação de serviços públicos"[Desde 18 de setembro de 2023 que o português Emanuel Proença é o novo CEO da Savannah Resources Plc ]. Comparada com a carrinha de compras que abastece Covas de Barroso, a perspectiva roça o grotesco. Como sempre acontece com um projecto deste tipo, fala-se na criação de 600 postos de trabalho, mas isso dificilmente afectará a população local, uma vez que a dita mina "inteligente" será parcialmente gerida remotamente.

André, natural de Montalegre, Toulouse, que regressa todos os verões para fazer caminhadas com a filha, faz a triste observação de que "mesmo aqui, onde pensávamos estar em segurança, estamos presos à política do dinheiro". O neoliberalismo europeu tem as suas garras sobre Barroso, e agora será difícil para ele libertar-se. Com a autorização da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que deu o seu aval na primavera, a Savannah Resources pretende iniciar a escavação até 2026. A estrada de trinta quilómetros para transportar o lítio até à autoestrada, no entanto, ainda não está concluída até lá. João vê nisso "talvez uma forma de atrasar o prazo, porque muitos municípios têm de ser atravessados ​​e um certo número de proprietários está recalcitrante". 

Mas mantém-se pessimista: "As pessoas não têm muitas ilusões: o projecto vai avançar porque já foi investido muito dinheiro." No início de setembro, a APA chegou mesmo a dar o seu aval a um segundo projeto, em nome da "importância estratégica do lítio para os objetivos de neutralidade carbónica e a transição energética", este em Montalegre: a construção de uma unidade de refinação do metal extraído pela empresa portuguesa Lusorecursos. Montalegre, "750 anos de história" e "uma ideia de natureza", como gosta de se apresentar. Parte do território do concelho estende-se até à Reserva da Biosfera da Peneda-Gerês.

As associações de defesa de Barroso, no entanto, sustentam que a luta ainda não terminou e prometem recorrer à justiça, se necessário. Desde o verão que António Costa tem aparecido em grandes outdoors de 15x10 cm, a três quartos de distância, a abraçar idosos que imaginamos vulneráveis. "Governar a pensar nas pessoas", diz o lema Quem sabe por que razão os apoiantes de Barroso não se sentem preocupados.

domingo, 7 de setembro de 2025

Chega: Sociologia de um destino


1. Santa Eulália
Nas eleições legislativas de Maio de 2025, na freguesia do Bonfim, no Porto, o Chega teve 1760 votos (12%) e em Arroios teve 1752 (11%). Estas são duas das freguesias do país onde a imigração tem sido apresentada como um problema grave, desencadeando conflitos, insegurança e medo. A votação está longe de exprimir a tão famosa «percepção». Em Monte Gordo, o Chega teve 912 votos (50%) e na freguesia de Odemira a sua votação alcançou os 876 votos (32%). Em contrapartida, na freguesia de Caia, São Pedro e Alcáçova (Elvas) o Chega teve 1215 votos (49%) e na freguesia de Santa Eulália, também em Elvas, teve 286 votos (52%). Entre os vários testemunhos recolhidos, uma notícia da Lusa sobre Elvas refere que há um descontentamento geral da população com as políticas seguidas nos últimos anos: falta de médicos, de transportes, de segurança, isto, claro, no contexto de uma população envelhecida. Numa primeira análise aos resultados das legislativas parece ser mais claro que o fio que une o eleitorado do Chega está longe de se circunscrever, simplesmente, à imigração, tratando-se de uma combinação mais complexa de factores, que têm a crise do Estado e do Estado social em pano de fundo.

2. Portugal rural
De forma genérica, penso que é possível dizer que o Chega não tem uma expressão urbana acentuada, mas tem uma expressão rural forte, sobretudo (mas não só) em zonas do país com uma população substancialmente idosa, onde a presença do Estado (social) entrou em forte contracção nos últimos anos. O Alentejo é, aliás, disso um exemplo maior. Falamos de zonas de estagnação ou depressão económica fruto de um modelo económico hipercentralizado que destruiu a escala social que sustentou e construiu estes lugares durante séculos. A imigração é apenas uma expressão, nem sempre a mais forte ou preponderante, de um sentimento generalizado de perda: do Estado, da economia, da sociedade. Lugares despovoados que foram tornados obsoletos ou reduzidos à condição de simples paragens técnicas ou lugares de «exploração intensiva» (olival, eucalipto) na cadeia logística da grande agricultura industrializada que corre em grande velocidade para os centros urbanos, desfigurando ainda mais estes territórios.

O processo de desenvolvimento de Portugal a seguir ao 25 de Abril assentou numa mudança radical, antropológica, poder-se-ia dizer, que implicou o abandono de todo um modelo económico baseado na agricultura. Enquanto os novos núcleos urbanos e as grandes periferias foram associados à possibilidade de conquista de melhores condições de vida, uma grande parte do interior permaneceu vinculado a uma ideia de «atraso» e «subdesenvolvimento» ligado a uma percepção negativa da «vida rural». A agricultura tornou-se uma coisa do passado, anacrónica, entregue aos mais velhos. O resultado, como se observou, é um grande desequilíbrio demográfico, social e económico entre o «litoral» e o «interior». O interior rural é uma imensa acumulação de ruínas, casas abandonadas, campos por cultivar, extensas manchas de florestas ardidas. Um território vazio e destruído que parece ter sido objecto de uma guerra sem quartel. Uma guerra desencadeada pelo próprio capitalismo contra as populações, os seus lugares e a sua vida.

Ora, o grande fracasso dos 50 anos de democracia foi claramente a regionalização: isto é, a não implementação de políticas locais e regionais capazes de se opor a esse movimento de acumulação e concentração  inerente ao capitalismo. Pelo contrário, acentuou-se uma dependência generalizada, política e económica, do território nacional relativamente a Lisboa e, sobretudo, com a crise de 2007-2013, uma retirada constante e progressiva do Estado, pondo em causa a subsistência de serviços públicos essenciais (centros de saúde, postos de correio, escolas e, até, agências bancárias) e deixando para trás políticas estratégicas de planeamento. As juntas de freguesia, por exemplo, são uma caricatura do poder público. Há lugares em que estão abertas ao público apenas uma ou duas vezes por semana.

3. Uma economia asocial
Uma grande parte da população destes territórios é, de facto, filha do Estado social e das suas promessas: eles são os órfãos da social-democracia. A sua ideologia não é a da CDU ou a do Bloco ou do Livre, nem da Iniciativa Liberal, o seu discurso não lhes diz nada, porque é nos valores da social-democracia que foram formados. E foi a social-democracia quem os traiu. (Essa é a grande ironia política: a sua incapacidade em reconhecer que são esses partidos, o Bloco, o Livre, a CDU, os últimos representantes daquilo que resta da social-democracia e da salvaguarda do seu estatuto.) O Chega é a representação dos revoltados do sistema: aqueles que foram formados a partir das suas promessas irrealizadas e dos seus mitos. O Chega é o inconsciente reprimido da social-democracia, o grande reservatório das promessas que ficaram por cumprir ao longo destes últimos cinquenta anos.

Muitos destes lugares vivem hoje uma espécie de economia asocial ou dessocializada: o dinheiro circula, reproduz-se, mas não constrói uma comunidade, aprofunda desigualdades, isola, desvincula. O modelo da «exploração intensiva», seja na agricultura ou no turismo compreende uma economia separada da realidade social em que existe. Os lucros da sua actividade estão mais pertos dos seus accionistas nas Ilhas Caimão do que da freguesia de Santa Eulália.

A  figura do imigrante é talvez aquela que melhor exprime e torna visível o paradigma desta economia asocial, e, por isso, ele é um bode expiatório. A animosidade relativamente a essa economia destrutiva, esse sentimento de despossessão e de perda que atravessa o Portugal Rural é transferido para o imigrante. Porque aquilo que essas pessoas vêem no imigrante (desenraizado, deslocalizado, empobrecido) é o seu próprio reflexo: também elas se tornaram imigrantes num lugar que se tornou, também para elas, irreconhecível e estranho. Claro que isto não significa desvalorizar a existência de um racismo estrutural, animado de preconceitos relativamente alguém que é identificado como «outro». Curiosamente, em Monte Gordo passa-se o contrário: o turista, maioritariamente branco, não incarna essa lógica, porque é ele quem, desde logo, detém uma posição de superioridade de capital, mas a economia revela-se da mesma forma, isto é, na sua total associalidade e separação.

O neoliberalismo ganhou a batalha da demonização da esquerda parlamentar, aquela que lançou as bases da social-democracia, que fez a constituição de Abril, e que, na verdade, foi sempre a única a saber o que é o capitalismo, como o gerir, como o reformar e como o administrar de forma a fazer dele um sistema social minimamente aceitável. Não é certamente ao liberalismo e aos mitos da «mão invisível» que devemos a consolidação do capitalismo enquanto tal, porque este, sim, nunca teve a capacidade de pensar o capitalismo para além da reprodução imediata e privada do lucro. É por isso que a social-democracia existiu nos termos em que existiu: porque foi a fórmula que tentou, pese embora todas as contradições, construir um equilibro entre a voracidade exploradora do capital e um mínimo de políticas redistribuidoras e sociais.

4. Covas do Barroso
Na freguesia de Covas do Barroso, a Aliança Democrática ganhou com 60% dos votos, o Chega teve apenas 6%. (Há um debate interessante a fazer sobre as diferenças entre norte e sul. Rapidamente, talvez se pudesse dizer que no norte a presença da direita é forte e continua a prevalecer, enquanto no Alentejo não havia um enraizamento forte de um partido de direita capaz de dar voz a esse descontentamento despolitizado das classes médias). No caso de Covas, a exploração das minas de lítio ameaça destruir o frágil, mas rico ecossistema desta freguesia. E a população tem-se mobilizado arduamente contra o gigantesco poder desta multinacional apoiada pelos dispositivos políticos e legais do Estado Português. Ao longo dos últimos anos PS e PSD têm desenvolvido políticas absolutamente contrárias aos interesses desta comunidade e, no entanto, esta acredita que o voto na AD é aquele que melhor defende os seus interesses e a sua existência.

É um caso de estudo, mas sintomático. Contra todas as evidências dos interesses reais do Estado e do governo neste processo, a população continua a depositar o seu voto na AD. A «propriedade», os «valores da cultura local», a «iniciativa individual», são princípios consagrados que caracterizam esta população. Valores construídos certamente nas últimas décadas, talvez com menos base histórica do que aquilo que se poderia imaginar, veja-se a longa história do comunitarismo rural desta zona.

São estes os valores de que a direita se reivindica, mas não são certamente os valores que pratica. Não é a esquerda que persegue valores abstractos universais, é a direita. A abstracção do princípio da propriedade privada, por exemplo, permite num mesmo conceito condensar a pequena propriedade e a grande propriedade, legitimando a concentração e o monopólio fundiário, legitimando políticas que a médio prazo pressupõe a destruição do pequeno proprietário e do seu território. Do mesmo modo, nada há de «conservador» culturalmente na direita: têm sido estes os mais dinâmicos a colocar em causa os valores e o património cultural. Até a ancestral troca de sementes foi proibida em nome do negócio milionário das patentes e das grandes multinacionais do agro-negócio. Assim, paralelamente, nada pode subsistir de iniciativa individual numa economia asocial, numa economia que deixou de ter qualquer vínculo com a comunidade em que se insere. O estado de abandono e degradação, o isolamento em que vive o interior, resulta do conjunto de políticas específicas que foram levadas a cabo, nas últimas décadas, pelo PSD e pelo PS. O Chega recolhe todos estes despojos para construir e levantar outros mitos. Mas o objectivo é sempre o mesmo, em nome dos grandes grupos económicos deixar que o capitalismo possa continuar a trilhar o seu caminho, continuar a isolar, individualizar e atomizar a sociedade, mobilizando o princípio da propriedade como «último bastião de segurança» num mundo cada vez mais inseguro, isto é, tornado cada vez mais inseguro por esses cujo objectivo é apenas a maximização do seu lucro e dos seus rendimentos, nem que seja à custa da destruição da própria sociedade.

5. Esquerda e neoliberalismo
Não há «lições» para dar à esquerda. Há uma prática que precisa de encontrar as suas instituições, os seus instrumentos, as formas de organização e de acção colectiva, capaz de produzir uma crítica partilhável do capitalismo e desencadear um verdadeiro antagonismo diante da auto-confiança ilimitada deste. A crença absoluta no «fim da história» e no triunfo da democracia liberal reduziu a política à sua dimensão puramente gestionária e tecnocrática, isto é: despolitizou e desideologizou a política. Para a classe média, a política reduz-se à gestão do orçamento de Estado. Ela não vê a política como ideologia, porque se situa a si mesmo fora da história e para lá da história. A classe média não tem uma consciência política de si, nem da sociedade, dos antagonismos e das contradições que a atravessam e a produzem no quadro do capitalismo.

A incapacidade de pensar um modo de vida e um modo de organização colectiva da sociedade para além do capitalismo é sintomático de um senso comum que interiorizou plenamente os valores e os princípios do mercado, e que, por isso mesmo, não está habilitado para pensar as crises e o processo de expropriação permanente que hoje tomou conta da sua vida. O domínio do discurso neoliberal e dos seus mitos é hoje total. O direito a ser rico é hoje um direito universal incontestável fruto do «trabalho» e do «mérito» que ninguém se atreve a contestar, quando, na verdade, ele assenta na exploração do trabalho, na extracção de renda e na distribuição de dividendos. Há toda uma visão idílica da política, produzida pela social-democracia para pacificar as massas, que foi aproveitada pelo neoliberalismo e que dissimula hoje a realidade de uma guerra civil em curso. Quantos mais ricos, mais pobres existem. A luta de classes, a luta entre aqueles que detém os meios de produção e os que vivem da venda da sua força de trabalho, não deixou de existir. Bem pelo contrário, as formas de extracção de mais-valia não estão, hoje, apenas no trabalho, tomaram conta de todos os aspectos da vida, da saúde à educação. A desigualdade é a fundação e o destino do capitalismo. É certo que o capitalismo «produz riqueza», mas aquilo que o caracteriza é o modo como ele dissimula, externaliza e adia os custos pesados dessa produção.

Este é talvez o facto mais relevante do presente: a vigência única e absoluta de um capitalismo que absorveu tudo e todos e que não parece precisar de legitimação ou de justificação, precisamente no momento histórico em que se torna evidente como os princípios da economia capitalista baseados no progresso infinito e na exploração infinita dos recursos naturais colocam em causa as condições vitais e básicas da nossa própria existência: do desaparecimento assustador da biodiversidade aos nano-plásticos que fazem já, hoje, parte da composição do nosso corpo. E, no entanto, é a própria catástrofe, sempre prestes a acontecer, que parece hoje animar um neoliberalismo encantado e inebriado com a rentabilidade económica da iminência do próprio fim. E é também enquanto catástrofe iminente que a extrema-direita contribui para a normalização do próprio sistema e das suas políticas neoliberais.