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terça-feira, 5 de abril de 2022

Memórias: Allen Ginsberg



No dia 5 de abril de 1997, morreu Allen Ginsberg. Foi um escritor, filósofo e ativista norte-americano. Fez parte do núcleo duro da Beat Generation: movimento que rejeitava os valores tradicionais e contribuiu para uma revolução cultural, nos anos 1950 e 1960.

Allen Ginsberg nasceu a 3 de junho de 1926, em New Jersey (EUA). O pai era professor, poeta e socialista. A mãe era comunista radical. Em criança, viveu episódios paranóicos da mãe e descobriu que gostava de meninos.

Na Escola Secundária, Ginsberg encantou-se com a obra de Walt Whitman. Depois de findar o secundário, inscreveu-se na Universidade de Columbia (Nova Iorque) graças a uma bolsa da associação Young Men’s Hebrew.

Naquela cidade, tornou-se amigo dalguns jovens (Lucien Carr, Jack Kerouac, William Burroughs e Neal Cassady) interessados em drogas, literatura e sexo. Ginsberg e os seus companheiros foram expulsos da Universidade.

Ginsberg acreditava que aquele grupo se dirigia para uma nova visão poética. Experimentou anfetaminas e marijuana. Frequentou bares gays. E começou uma relação amorosa com Neal Cassady.

Em 1954, Ginsberg mudou-se para São Francisco, cidade onde a Beat Generation estava a ganhar força graças à atividade dos poetas, Kenneth Rexroth e Lawrence Ferlinghetti, fundadores da editora e livraria "City Lights".

Ginsberg tinha escrito muita poesia, mas quase nada tinha publicado. Em 1956, a City Lights Books publicou, "Howl and Other Poems" ("Uivo e Outros Poemas"). Considerado “obsceno”, foi apreendido pelos serviços alfandegários e pela polícia, sendo alvo dum longo processo judicial.

Os argumentos de vários poetas, críticos e professores universitários (Kenneth Rexroth, Walter V. T. Clark e Mark Schorer) convenceram o juiz. Terminado o processo, tornou-se o livro de poesia mais vendido nos EUA.

Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William Burroughs foram o núcleo duro da Beat Generation: movimento que rejeitava os valores tradicionais e contribuiu para uma revolução cultural nos anos 50 e 60.

Ginsberg viajou pelo mundo. Descobriu o budismo. Apaixonou-se por Peter Orlovsky: seu companheiro para o resto da vida. Nos anos 1960, ajudou Timothy Leary a divulgar o LSD. Em 1968, foi um ativista importante contra a Guerra do Vietname.

Ativista durante toda a vida, Ginsberg falava abertamente sobre drogas, homossexualidade e liberdade. 

Manteve uma publicação regular ao longo da vida. Os seus livros constituíam um apelo à paz e à defesa dos mais desfavorecidos.

Ginsberg manteve a sua agenda social ativa até 5 de abril de 1997: dia em que morreu, na sequência de cancro do fígado. Tinha 70 anos. Antes de morrer, ligou aos amigos e familiares dizendo o seu último poema.

Datado de 30 de março, “Things I’ll Not Do" (Nostalgias) era uma lista de coisas que gostaria de fazer: visitar a Bulgária; beber chá de menta em Marrocos; olhar para a Esfinge, enquanto o sol se pusesse no deserto.

Allen Ginsberg and Peter Orlovsky in San Francisco, 1955


quarta-feira, 17 de maio de 2017

Documentário: A Caminho do Leste (Don´t Look Back), 1967


Em Don’t Look Back, D. A. Pennebaker acompanha o jovem Bob Dylan durante uma digressão de três semanas pelo Reino Unido, em 1965. 

Filmado durante o famoso período de transição de Bob Dylan para o rock e para a guitarra elétrica, este documentário acompanha o músico desde a sua chegada a Inglaterra, a 26 de abril de 1965, até ao último concerto da digressão no Royal Albert Hall, a 10 de maio.

O realizador teve acesso aos bastidores, oferecendo um vislumbre da vida pública e privada de Dylan, desde concertos a conversas em quartos de hotel, registando a sua tumultuosa relação com a cantora e compositora Joan Baez durante uma fase crítica da sua carreira musical.

Várias figuras conhecidas aparecem no filme: os agentes de Dylan, Albert Grossman e Bob Neuwirth, os músicos Donovan, Joan Baez, Marianne Faithfull e Alan Price (Animals), e o poeta beat e amigo próximo de Dylan, Allan Ginsberg, entre outros.

O documentário Don’t Look Back (1967), realizado por D.A. Pennebaker, capta Bob Dylan num dos momentos mais cruciais e transformadores da história da música popular: a sua turné de 1965 por Inglaterra. Embora o filme retrate o que seria a sua última digressão inteiramente acústica - com Dylan sozinho em palco acompanhado apenas pela sua guitarra e harmónica -, ele funciona como o registo psicológico, poético e estético de uma metamorfose iminente. O idealismo político e a folk purista do início da década dão lugar a uma urgência agressiva e a um lirismo abstrato, surrealista e profundamente pessoal. Este distanciamento do movimento tradicional é simbolizado no filme pelo afastamento de Joan Baez, a rainha da folk de protesto, e pela rejeição feroz de Dylan em ser rotulado pela imprensa como a "voz de uma geração". Nos bastidores, hotéis e na icónica sequência de abertura de Subterranean Homesick Blues, Dylan já estava a compor e a testar a atitude cínica e a poesia metralhada que definiriam o seu novo som. O choque estético desta transição fica evidente no célebre confronto musical num quarto de hotel com o cantor escocês Donovan Philips Leitch, onde a crueza de "It's All Over Now, Baby Blue" deixou claro que Dylan já operava noutro patamar artístico.

O género musical que nascia ali era o Folk Rock literário, uma fusão revolucionária que levou a complexidade da poesia Beat e do existencialismo para o universo do rock, provando que a música popular podia ser alta literatura. Musicalmente, esta transição consolidou-se nos meses seguintes com a chamada "thin, wild mercury sound" (o som de mercúrio fino e selvagem), caracterizada por guitarras elétricas estridentes e pelo uso vanguardista do órgão Hammond, além de um ritmo frenético e quase falado que antecipou o próprio proto-punk e o garage rock.

Em 20/06/1966, Bob Dylan lançou o disco “Blonde on Blonde” é talvez o mais famoso da sua carreira. O próprio Dylan fala como sendo o “mais próximo ao som que eu ouço na minha mente, esse som fininho de mercúrio selvagem”. São 14 músicas no primeiro disco duplo da história do rock. “Sad-Eyed Lady of the Lowlands”, a ode de 11 minutos de Dylan à sua esposa Sara, também foi a primeira música a ocupar um lado inteiro de um disco: mística e enigmática como a própria Sara Lownds, gravada num só take, essa música é o momento mais suave do disco mais elétrico e eletrizante da carreira de Dylan. O resto é repleto de um cinismo maníaco, um sarcasmo transcendental e uma genialidade dilacerante. É uma obra-prima sem precedentes ou subsequentes, poesia uivada e guitarras hipnóticas que mudaram o mundo da música para sempre. Tudo aqui

Curiosamente, toda esta postura artística e a própria construção visual do documentário alinham-se perfeitamente com os conceitos da Internacional Situacionista de Guy Debord. Ao destruir jornalistas em entrevistas e sabotar as expectativas mediáticas, Dylan operava uma crítica direta ao conceito situacionista do "espetáculo" e à mercantilização da arte. O uso de cartazes manuscritos com trocadilhos e erros propositados no vídeo de abertura surge como um perfeito détournement - a subversão de ferramentas da cultura de massas para criar novos significados críticos -, enquanto a estética documental do Direct Cinema, sem narrador e focada no quotidiano caótico dos bastidores, evoca a experiência urbana da dérive. Sem que Dylan necessariamente lesse os teóricos franceses, Don't Look Back acabou por captar o nascimento do rock de autor moderno e antecipar o espírito de revolta e a urgência contracultural que explodiriam no final dos anos 60.

Embora as filmagens tenham ocorrido em 1965, o longo processo de edição em rolos de 16mm fez com que o documentário só estreasse nos cinemas a 17 de maio de 1967. Pennebaker demorou muito tempo a editar as centenas de horas de filme em rolos de 16mm. Além disso, no final de 1965 e em 1966, a carreira de Dylan explodiu globalmente com a sua fase elétrica e o seu grave acidente de mota, o que mudou o contexto do próprio filme.
Por esta razão, o mês de maio tornou-se o momento ideal para celebrar esta obra fundamental, seja no dia 17 de maio, evocando a sua estreia oficial, seja a 24 de maio, data de aniversário de Bob Dylan, que completou 24 anos precisamente durante aquela histórica e revolucionária digressão britânica.