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terça-feira, 21 de julho de 2026

Dave Eggers - "O ChatGPT está a silenciar uma geração inteira"


O CEO da OpenAI, Sam Altman, convidou o escritor e jornalista norte-americano, Dave Eggers, a falar perante os funcionários da empresa e, fiel ao que tem sido o seu percurso, o autor não perdeu a oportunidade para tecer duras críticas à Intenligência Artificial enquanto tecnologia.

Eggers, conhecido sobretudo pelo romance “The Circle” de 2013 onde faz críticas à indústria tecnologia, declarou que os textos gerados pelo ChatGPT, o resultado é uma “colagem sem sentido” - argumentando que ninguém terá interesse em ler livros criados com Inteligência Artificial.

Contou Eggers ao Financial Times que estas críticas levaram Altman a convidá-lo para uma pequena palestra na OpenAI, uma oportunidade que aproveitou para afirmar que a Inteligência Artificial seria devastadora para toda uma geração de jovens.

“O efeito que o ChatGPT está a ter na vida dos educadores é catastrófico”, declarou Eggers. “Intencional ou não, tornaram a vida de todos os professores infinitamente mais difícil do que era há dois anos. Pensem nisso.Se os estudantes estão a usar [o ChatGPT] para escreverem, que é uma grande tragédia, nunca aprenderão a escrever. E a voz ser-lhes-á roubada. Nunca terão a capacidade para comunicarem as suas verdades e contarem as suas próprias histórias. E isso é silenciar uma ou duas gerações inteiras”.

A afirmação de Eggers deve ser classificada como um aviso preventivo contra a dependência cognitiva.

Ele não está necessariamente a prever o fim da civilização, mas sim a questionar se estamos dispostos a trocar a dificuldade (e a beleza) do pensamento humano pela conveniência (e esterilidade) da resposta algorítmica. É uma crítica que serve de "freio" necessário num momento de euforia tecnológica desmedida, lembrando-nos de que a tecnologia, se mal utilizada, pode tornar-nos espectadores, em vez de criadores.

Para além de Dave Eggers, o debate contemporâneo sobre os impactos profundos da Inteligência Artificial conta com vozes influentes que abordam o tema sob prismas filosóficos, sociais e científicos. O historiador Yuval Noah Harari, por exemplo, foca-se no perigo existencial da perda de agência cultural, argumentando que a IA é a primeira tecnologia da história capaz de criar conceitos, narrativas e arte de forma totalmente autónoma. Para Harari, ao dominar a linguagem, a tecnologia adquire a capacidade de "hackear" o sistema operativo da própria civilização, o que pode resultar na manipulação em massa e no colapso da confiança nas instituições democráticas. Numa linha de pensamento focada na natureza da mente e do conhecimento, o linguista Noam Chomsky adota uma postura cética quanto à suposta inteligência destes sistemas, classificando a IA generativa como uma forma de plágio de alta tecnologia. Chomsky defende que os modelos de linguagem funcionam apenas com base em correlações estatísticas e probabilidades, carecendo de uma compreensão real sobre a moralidade, a verdade ou as relações de causa e efeito, o que os afasta irremediavelmente da verdadeira capacidade de pensamento crítico e criatividade do ser humano.

Noutro espectro da crítica encontram-se os cientistas que ajudaram a construir as bases desta revolução tecnológica e que hoje manifestam profundos arrependimentos. Geoffrey Hinton, frequentemente apelidado de um dos padrinhos da IA devido ao seu trabalho pioneiro em redes neuronais, demitiu-se do seu cargo na Google para poder alertar o mundo livremente sobre os riscos iminentes da tecnologia. Hinton manifesta um temor genuíno de que a inteligência digital ultrapasse a biológica muito mais cedo do que a comunidade científica previa, criando cenários propícios para a disseminação descontrolada de desinformação e para o desenvolvimento de armas autónomas letais. Alinhado no ceticismo tecnológico, o pioneiro da realidade virtual Jaron Lanier critica a própria designação de Inteligência Artificial, considerando-a um mito comercial perigoso que mascara a realidade. Para Lanier, estes sistemas são, na verdade, ferramentas de colaboração social massiva que extraem e reconfiguram o trabalho de milhões de criadores humanos reais, alertando que a humanização das máquinas resulta inevitavelmente na desvalorização do esforço e da singularidade das pessoas.

Por fim, as correntes focadas na justiça social e na ética prática expõem os danos imediatos e palpáveis que a IA já está a causar no quotidiano. A investigadora Timnit Gebru, antiga líder da equipa de ética da Google, cunhou o termo papagaios estocásticos para descrever os grandes modelos de linguagem, demonstrando que estes sistemas se limitam a repetir padrões linguísticos de forma mecânica e sem consciência. Gebru e os seus pares alertam para o facto de estes modelos refletirem, amplificarem e perpetuarem os preconceitos raciais, de género e de classe já presentes nos dados históricos da internet, servindo os interesses financeiros de grandes monopólios tecnológicos enquanto prejudicam as populações marginalizadas. Assim, quer seja através do medo da obsolescência cognitiva partilhado por Eggers e Chomsky, do alarmismo existencial de Hinton e Harari, ou da denúncia política de Gebru e Lanier, o pensamento crítico atual converge na ideia de que a IA exige uma regulação urgente e uma reflexão profunda sobre os limites que a humanidade deve impor às suas próprias criações.

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quarta-feira, 8 de julho de 2026

O debate sobre a IA vai além do desemprego. Segundo os especialistas, o perigo real está na perda da nossa capacidade de raciocínio sem o auxílio da ferramenta


Já se apercebeu de que a inteligência artificial generativa altera o seu raciocínio antes mesmo de alterar o seu trabalho? Esta é a grande mudança que escapa ao debate superficial sobre a perda de empregos. A IA generativa já encerrou a sua fase de curiosidade.

Segundo o Stanford AI Index de 2026, atingiu 53% de adoção populacional em apenas três anos - um ritmo mais rápido do que o do computador pessoal e da internet. Entrou definitivamente na nossa rotina mental. O ponto central, portanto, é bem mais profundo: a IA está a redefinir o próprio conceito de inteligência.

Kai-Fu Lee, um dos gurus da tecnologia, compreendeu esta viragem após enfrentar um cancro e deslocou a sua visão da eficiência corporativa para uma questão civilizacional: de que serve a produtividade se esta passa ao lado da educação e da desigualdade? Para ele, a IA deve ser um amplificador da capacidade humana.

Na medicina, por exemplo, modelos de apoio ao diagnóstico analisam padrões em exames com uma precisão absurda, mas o médico continua responsável pela decisão clínica. A máquina amplia a visão; o humano decide. Substituir o trabalho humano por cálculo é uma coisa. Aumentar a qualidade da decisão humana com cálculo é outra, bem mais interessante.

Mas há um ponto cego nesta facilidade. Pensadores como Yuval Harari e Nick Bostrom alertam para o risco de criarmos burocracias algorítmicas incompreensíveis ou superinteligências eficientes, porém moralmente desastrosas.

No entanto, o nó mais incómodo vem do Prémio Nobel Daron Acemoglu: ao delegarmos a mediação, o filtro e a síntese para sistemas globais, criamos lacunas na aprendizagem social.
A ameaça real não é cinematográfica, é cognitiva. Nós externalizamos o pensamento e, em breve, iremos estranhar a perda de reportório.
Como aponta a cientista de dados Cassie Kozyrkov, a IA democratizou a decisão sofisticada. Um profissional sem formação analítica agora testa hipóteses complexas. O problema começa quando a facilidade se transforma em confiança automática. Um modelo fluente esconde premissas frágeis. Quem usa IA sem método troca o raciocínio pelo acabamento. E o acabamento costuma enganar pessoas inteligentes.

Esta mudança já está a redesenhar o mercado. Dados recentes de uma consultora global que analisou mais de mil milhões de ofertas de emprego mostram um cenário com dois caminhos. As funções em que a IA profissionaliza o trabalho crescem duas vezes mais e pagam salários 42% mais altos.

Em contrapartida, os cargos de entrada exigem agora competências seniores - como liderança e criatividade - sete vezes mais do que antes. Eis a consequência menos óbvia: a IA encurtou a escada de aprendizagem. O principiante perde o treino repetitivo que formava o seu critério. Ganha a ferramenta, mas perde o rito.

O FMI corrobora esta pressão, apontando que 40% dos empregos globais estão expostos. Mas o pânico é desnecessário. O profissional de excelência será aquele que for capaz de formular boas perguntas, desconfiar de boas respostas e assumir o risco de decidir quando a máquina sugerir o caminho mais cómodo.

Casos reais do Fórum Económico Mundial impressionam, como o de empresas que reduziram análises fiscais complexas de semanas para três dias. Mas estes sucessos dependeram do redesenho de processos, de dados limpos e de governança. Sem isso, a automação torna-se apenas num verniz. Além disso, precisamos de descartar a fantasia de que a produtividade se transforma em tempo livre por gravidade.

O economista Adam Shaw lembra que a estrutura económica costuma absorver estes ganhos antes que se transformem em lazer. A tecnologia abre a possibilidade; as instituições e a cultura decidem o destino.

Por isso, investir em IA sem educação crítica aumenta a velocidade, mas reduz o discernimento. As empresas e escolas que treinarem pessoas apenas para usar ferramentas terão operadores rápidos.

As que ensinarem limites, critérios e responsabilidade formarão profissionais ampliados. O conhecimento deixará de ser acumulação e passará a ser a capacidade de orientar máquinas, avaliar respostas e sustentar escolhas sob incerteza.

A IA não vai substituir a nossa mente por decreto; fá-lo-á por escolha nossa. Se lhe entregarmos o esforço de pensar, perderemos algo muito mais íntimo do que os nossos empregos: perderemos a musculatura moral que nos permite decidir quem queremos ser quando a máquina souber responder melhor do que nós.

Ler mais: "Ilegal por Conceção" e Tóxica para o Planeta: A Amnistia Internacional Desmascara a IA

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Ensaio - O mundo com IA e As Mãos


"Ouvi umas quantas conferências do Y. Harari e, pese embora o brilho, comecei a vê-lo como um comerciante de ideias, como alguns dos seus antepassados terão sido de peles, de dinheiro ou de prata. A obsessão com a Inteligência Artificial parecia-me mais uma oportunidade de negócio no grande mercado da fitness do intelecto do que uma preocupação genuína de um académico.
Mudei de opinião.
A penetração da IA é cada vez mais profunda e omnipresente; vejo-a por todo o lado. Não me sinto competente para analisar e antecipar, ao detalhe, o impacto deste tandem “IA + dependência de dopamina via redes sociais” no funcionamento das sociedades atuais. Porém, uma conversa noturna, ontem, deixou-me a pensar. Dizia-me a minha interlocutora que, na empresa X, os informáticos já não escrevem código; esse trabalho ficou para o Claude.
Posso estar errado, mas suspeito que estes senhores que agora observo pela janela da pastelaria, de aparafusadora em punho, têm mais futuro nas sociedades pós-IA do que os jovens que penam nos gabinetes de contabilidade, no largo mais adiante.
Identifico uma gigantesca dissonância entre aquilo que o sistema de ensino ensina e aquilo de que esta sociedade estruturalmente complexa e em radical mudança necessita: manutenção permanente (porque a 2.ª lei não perdoa). As famílias, com o beneplácito dos governos e da classe dos professores, apostam em formações liberais e de colarinho branco, no papel e no lápis, hoje evoluídos para Word, Excel e Photoshop, áreas que serão em breve devastadas pela IA.
Assim como um pianista com futuro tem de exercitar, desde tenra idade, a conexão mão-cérebro — esse poderoso instrumento de ação sobre a matéria herdado dos ancestrais caçadores-recolectores —, o mesmo exigem os trabalhos com futuro. As sociedades vão remanualizar-se e ninguém, nem pessoas nem instituições, está preparado para isso.
Em resumo: prometeram-nos que as máquinas fariam o trabalho sujo para para nos dedicarmos ao lazer. Ironicamente, o Claude e o ChatGPT escrevem música, poesia e o código informático, desenham a publicidade e as artes gráficas, e, no final, fazem a contabilidade e responsabilizam-se pelas interações com a máquina do estado —, mas continuamos a precisar desesperadamente de quem nos desentupa os canos, conserte a máquina de lavar e cuide dos mais velhos.
Talvez as escolas do futuro devessem trocar metade das aulas de literacia digital e mais teorias por oficinas de carpintaria, mecânica, eletricidade e agricultura. Ensinar as nossas crianças a reaprender o peso e a textura da matéria, o desconforto e a cor do sangue, antes que se tornem obsoletas num mundo de ecrãs e memórias virtuais.
P.S. Fosse eu novo e com jeito para o negócio e investiria numa empresa de tempos livres que se poderia chamar, sei lá, “Academia do Eletricista e do Canalizador”, ou algo do género. Mais proveitoso do que o futebol, a natação, o ballet, o teatro …, parece-me." - Carlos Aguiar

Nota Pessoal
Paul Krugman no início dos anos 90 escreveu por diversão uma especulação sobre o que seria a economia daí a 100 anos. A IA ainda não era a palavra de ordem, mas a automação em geral já constava das suas projeções. Ele afirmava que tal como a era industrial tinha tornado menos valiosos os produtos da indústria, a era da informação que se desenhava iria tornar menos valioso tudo o que tivesse que ver com informação, desde jornalismo a ciência, ou a informática. Assim, no futuro deste modo projetado as fontes de riqueza seriam a posse de recursos naturais, para as nações, e a capacidade de trabalhar com as mãos, para as pessoas.
Embora não seja líquido que tudo isto esteja a salvo da IA, coisas como cuidar de idosos, fabricar móveis em madeira, ou instalar/reparar canalizações seriam o tipo de atividades ainda valorizadas depois de automatizarmos tudo o que pode ser automatizado.
O problema é que hoje em dia há pessoas em posição de ditar o que deve ser automatizado, mesmo que com prejuízo para a humanidade em geral. A IA está a transformar-se rapidamente num sistema endogâmico, em que se alimenta de si mesma, já que uma cada vez maior proporção da informação disponível é gerada por IA.

Por outro lado nunca antes o biorregionalismo está ser posto em causa como agora, bem como aceleramos cegamente no Business to Business em que há muitas reticências, como bem referes Back to Basics. O impacto ambiental da IA é, atualmente, muito superior e mais preocupante do que o das práticas artesanais e biológicas. O Back to Basics não é apenas uma escolha estética; é, talvez, a única estratégia de sobrevivência ecológica a longo prazo.

A questão agora é: a sociedade estará disposta a "pagar o preço" (em tempo e esforço) para manter essas práticas manuais vivas, ou a conveniência da IA acabará por atropelar até mesmo esses redutos artesanais?

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Natalie Portman e Yuval Noah Harari em conversa


"Os humanos não pensam em gráficos ou estatísticas – pensamos em histórias. Os factos por si só não convencem as pessoas sobre as alterações climáticas; contar histórias é essencial para compreender as nossas maiores crises."~ Yuval Noah Harari 

Natalie Portman - Atriz vencedor do Academy Award, produtora, diretora e ativista social entrevista Yuval Noah Harari ao vivo para o público em Londres. Numa conversa que abrange uma ampla gama de questões contemporâneas, eles discutem mitos X realidade, o papel da religião, a relação entre IA e Arte e muito mais.

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Entrevista a Yuval Noah Harari - Humanidade, não é assim tão simples


Pela primeira vez ao vivo em Portugal, o historiador e escritor Yuval Noah Harari, autor de «Sapiens» e «Homo Deus», reflete sobre os avanços da humanidade, as suas grandes ameaças e a forma como a inteligência artificial tem de ser regulada para evitar que se torne um «T-Rex» que destruirá a humanidade como a conhecemos.

Nesta entrevista, moderada por Pedro Pinto, aborda questões como a preservação da democracia liberal, o confronto com a inteligência artificial, o equilíbrio entre a humildade humana e a definição do futuro da vida na Terra, além das possibilidades de conflito e paz entre o Ocidente e a China.

Na primeira pergunta, o entrevistador pergunta a Yuval Harari como vê a humanidade atualmente e porque acha difícil prever o futuro, ao que Yuval responde:

«Atualmente, somos quase como deuses em termos de poderes de criação e destruição, agora temos o poder de criar novas formas de vida, mas também de destruir grande parte de vida na Terra, incluindo nós mesmo. 

Enfrentamos dois desafios enormes, por um lado, a ameaça do colapso ecológico, por outro lado, a ameaça da rutura tecnológica. Estamos a criar ferramentas extremamente poderosas como a IA que podem minar a civilização humana. 

E talvez o pior seja que, em vez de nos unirmos para enfrentar estes desafios comuns à nossa espécie, estamos a dividir-nos, estamos a lutar uns contra os outros cada vez mais.  Há tensões crescentes a nível internacional, há tensões crescentes dentro das sociedades, uma após a outra, as sociedades estão a entrar em colapso. 

Então talvez a pergunta mais importante a ser feita sobre os humanos, sobre a humanidade, é: "Se somos tão inteligentes, por que estamos a fazer tantas coisas estúpidas?"

"Se somos tão inteligentes, por que estamos a fazer tantas coisas estúpidas?" Chamamos à nossa espécie Homo sapiens, humanos sábios e, no entanto, estamos envolvidos em tantas atividades autodestrutivas atividades e parecemos incapazes de nos pararmos.»

Destaco ainda a seguinte frase de Yuval na entrevista: 
«A inteligência artificial (IA) é a primeira tecnologia que é capaz de tomar decisões, por isso, pode tomar decisões sobre nós e tirar-nos o poder."

E a resposta à pergunta "Qual foi a sua aprendizagem mais importante até hoje?"
«Meditação, para observar como a minha mente cria constantemente histórias de ficção, e ser capaz de abandoná-las por um tempo e simplesmente entrar em contato com a realidade como ela é»

sexta-feira, 31 de março de 2023

O custo real da prevenção do colapso climático


Ninguém sabe ao certo quanto custaria evitar os piores impactos das mudanças climáticas. No entanto, a análise do historiador Yuval Noah Harari, baseada no trabalho de cientistas e economistas, indica que a humanidade pode evitar uma catástrofe investindo o equivalente a apenas 2% do PIB global em soluções climáticas. Ele argumenta que a prevenção do cataclismo ecológico não exigirá as grandes perturbações globais que muitos temem e explica que já temos os recursos de que precisamos - é apenas uma questão de mudar nossas prioridades.

sábado, 31 de dezembro de 2022

Bom 2023

O Homem tem que interagir sobre o ambiente mas devia ser de uma forma mais espiritual e não da forma tão depredadora como está a proceder. Devia contemplá-la e fazer parte da Natureza, da GeoTerra e não contra ela. Reduzir o desperdício, percepcioná-la e cuidar dela. Agir para além da papelada técnica e maçadoramente doentia assim como mitigar o consumismo e virtualidades. Uma simples folha num campo e/ou pousada no meu rosto é para mim um encanto e de uma intensa felicidade. Ou estar rodeado das nossas irmãs árvores, como as adoro. Uma vivência mais frugal, próxima da Natureza. Simplicidade voluntária. Decrescimento. 
Que 2023 vos traga o que mais vos iluminar e nutrir! Amor, Saúde, Paz, Alegria, Abundância, Luz!




segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

O fim da Nova Paz — Ensaio de Yuval Noah Harari


Ao longo da era da Nova Paz os políticos procuraram deixar a sua marca lançando reformas dos sistemas de Saúde, e não pilhando cidades estrangeiras. Líderes de todo o mundo — influenciados pelo receio de uma guerra nuclear, pelas mudanças na natureza da economia e pelas novas tendências culturais — juntaram forças para construir uma ordem global que funcionasse. Esta ordem global tem-se baseado nos ideais liberais e humanistas, nomeadamente em que todos os seres humanos merecem as mesmas liberdades fundamentais. 
Apesar de esta ordem global estar longe de ser perfeita, melhorou a vida de muita gente, não apenas em antigos pólos imperiais, como o Reino Unido ou os EUA, mas também em muitas outras partes do mundo, da Índia ao Brasil e da Polónia à China. Não foram apenas a Dinamarca e o Canadá a desviar recursos da compra de tanques para formação de professores — a Nigéria e a Indonésia fizeram a mesma coisa.
Qualquer pessoa que discurse acerca das falhas da ordem liberal global deveria antes responder a uma simples pergunta: consegue indicar uma década na qual a humanidade tenha estado em melhor condições do que nos anos 2010? Que década é a sua época dourada? Os anos 1910, com a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Bolchevique, as leis de segregação racial nos Estados Unidos, e os impérios europeus a explorar brutalmente a maior parte de África e da Ásia? Talvez os anos 1810, com Napoleão no pico das suas campanhas sangrentas, os camponeses russos e chineses esmagados pelos seus senhores aristocratas, a Companhia das Índias Orientais a assegurar o controlo da Índia, e a escravidão ainda legal nos Estados Unidos, no Brasil e na maior parte do mundo? Talvez sonhe com os anos 1710, com a Guerra da Sucessão de Espanha, a Grande Guerra do Norte, as guerras de sucessão do Império Mongol, e um terço das crianças a morrer de má nutrição e doenças antes de atingirem a idade adulta?
A Nova Paz não foi o resultado de um qualquer milagre divino. Foi alcançada por seres humanos. Infelizmente, demasiadas pessoas tomaram este feito como um dado adquirido. Talvez achassem que a Nova Paz estava garantida e que poderia sobreviver até sem a ordem global. Consequentemente, essa ordem foi primeiro negligenciada, e depois atacada com uma ferocidade crescente.
O ataque iniciou-se através de Estados-pária como o Irão e líderes-pária como Putin, mas sozinhos não seriam suficientemente fortes para acabar com a Nova Paz. O que de facto minou a ordem global foi que tanto os países que mais beneficiaram com ela (incluindo a China, a Índia, o Brasil e a Polónia) como os países que iniciaram a sua construção (nomeadamente o Reino Unido e os EUA) lhe voltaram as costas. O voto pelo “Brexit” e a eleição de Donald Trump em 2016 simbolizaram esta viragem.
Os que desafiaram a ordem global não desejavam a guerra. Apenas queriam avançar naquilo que acreditavam ser os interesses do seu país, e argumentavam que cada Estado-nação devia defender a sua identidade e tradições sagradas. O que nunca chegavam a explicar é como todas essas diferentes nações iriam lidar umas com as outras na ausência de valores universais e instituições globais. Os oponentes da ordem global não ofereciam qualquer alternativa clara. Pareciam pensar que as várias nações iriam dar-se bem e que o mundo iria tornar-se uma rede de fortalezas muradas, mas amistosas . Mas as fortalezas raramente são amistosas. Cada fortaleza nacional quer um pouco mais de prosperidade para si própria, à custa dos seus vizinhos, e sem a ajuda de valores universais não conseguem chegar a acordo em relação a qualquer regra comum. O modelo de rede de fortalezas era um caminho para o desastre. E o desastre não demorou a surgir. A pandemia demonstrou que, na ausência de uma cooperação global eficaz, a humanidade não se consegue proteger de ameaças comuns, como os vírus. Então, talvez por ter observado como a covid-19 diminuiu ainda mais a solidariedade global, Putin concluiu que poderia levar a cabo o golpe de misericórdia, quebrando o maior dos tabus da era da Nova Paz. [Pensou] que se conquistasse a Ucrânia e a absorvesse na Rússia, alguns países poderiam mostrar-se espantados e indignados e condená-lo — mas que ninguém tomaria alguma acção efectiva contra si.
O argumento de que Putin foi empurrado para invadir a Ucrânia e assim antecipar-se a um ataque por parte do Ocidente é propaganda sem qualquer sentido. Alguma vaga ameaça ocidental não é uma razão legítima para destruir um país, pilhar as suas cidades, violar e torturar os seus cidadãos. Quem acredita que Putin não tinha alternativa deve dizer que país se estava a preparar para invadir a Rússia. O exército alemão estava a reunir forças para passar a fronteira? Napoleão levantou-se do túmulo para mais uma vez liderar a Grande Armée até Moscovo, e que Putin não tinha outra alternativa a não ser antecipar-se ao massacre iminente por parte dos franceses? Putin preparou a sua invasão ao longo de muito tempo. Nunca aceitou o desmantelamento do Império Russo, e nunca viu a Ucrânia, a Geórgia ou qualquer das repúblicas pós-soviéticas como nações independentes e legítimas. Enquanto — como referi antes — os gastos com as Forças Armadas eram, em média, de 6,5% dos orçamentos dos governos pelo mundo fora, e de 11% nos Estados Unidos, na Rússia têm sido muito mais elevados. Não sabemos exactamente quanto mais elevados, porque são um segredo de Estado. Mas algumas estimativas põem o número algures pelos 20% por cento, e poderá até chegar a mais de 30%.
Se a aposta de Putin for bem sucedida, o resultado poderá ser o colapso final da ordem global e da Nova Paz. Autocratas um pouco por todo o mundo irão perceber que guerras de conquista são de novo uma possibilidade, e as democracias também serão forçadas a militarizarem-se para se protegerem. Já vimos que a agressão da Rússia levou a um aumento imediato das verbas para a Defesa em países como a Alemanha, e a que países como a Suécia voltassem a impor o serviço militar obrigatório. O dinheiro que devia ser destinado a professores, enfermeiros e assistentes sociais irá para a compra de tanques, mísseis e ciberarmas. Aos 18 anos, jovens de todo o mundo irão cumprir o serviço militar obrigatório. O mundo inteiro irá ficar parecido com a Rússia — um país com um Exército desmesuradamente grande e hospitais com falta de pessoal. O resultado será uma nova era de guerra, pobreza e doença. Mas há uma alternativa: se Putin for parado e punido, a ordem global não será destruída por aquilo que ele fez, mas reforçada. Quem quer que tivesse ideias perceberia que simplesmente não pode fazer coisas destas.
Qual destes dois cenários irá concretizar-se? Felizmente para todos nós, e apesar de todos os seus preparativos militares, Putin estava imensamente mal preparado para uma coisa crucial: a coragem do povo ucraniano. Os ucranianos repeliram os russos numa série de espantosas vitórias perto de Kiev, Kharkiv (Carcóvia) e Kherson. Mas até agora Putin tem-se recusado a reconhecer o seu erro, e reage à derrota com crescente brutalidade. Ao ver que o seu Exército não consegue vencer os soldados ucranianos na frente de batalha, Putin está a tentar matar de frio os civis ucranianos nas suas casas. É impossível prever como vai acabar esta guerra, tal como o destino da Nova Paz.
A História nunca é determinista. Após o final da Segunda Guerra Mundial, muita gente acreditou que a paz era inevitável, e que iria manter-se, mesmo que negligenciássemos a ordem global. Após a Rússia ter invadido a Ucrânia, alguns viraram-se para o extremo oposto. Agora afirmam que a paz sempre foi uma ilusão, que a guerra é uma incontrolável força da Natureza, e que a única escolha que os seres humanos têm é ser a caça ou o caçador. Ambas as posições estão erradas. A guerra e a paz são decisões, não são inevitabilidades. As guerras são feitas por pessoas, não por uma lei da Natureza. E tal como os seres humanos fazem a guerra, também podem fazer a paz. Mas fazer a paz não é uma decisão isolada. É um esforço a longo prazo para proteger normas e valores universais, e para criar instituições de cooperação.
Reconstruir a ordem global não significa regressar ao sistema que se desintegrou nos anos 2010. Uma nova e melhor ordem global deveria atribuir papéis mais destacados a poderes não ocidentais que estejam dispostos a fazer parte dela. Também deverá reconhecer a importância das lealdades nacionais. A ordem global desintegrou-se principalmente devido ao assalto das forças populistas, que argumentam que as lealdades patrióticas são incompatíveis com a cooperação global. Os políticos populistas declaram que quem é patriota deve opor-se às instituições globais e à cooperação global. Mas não existe qualquer contradição intrínseca entre patriotismo e globalismo, porque patriotismo não significa odiar os estrangeiros. Patriotismo significa amar os nossos compatriotas. E no século XXI, se queremos proteger os nossos compatriotas da guerra, pandemias e colapso ecológico, a melhor forma de o fazer é cooperando com os estrangeiros.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Yuval Noah Harari - Reflexões sobre a crise sanitária, covid-19 e pandemia


Yuval Noah Harari é dos historiadores contemporâneos mais conceituados e mais lidos. Nascido em Israel, é lá professor, na Universidade Hebraica de Jerusalém. No entanto, e para além do seu currículo académico, a sua reputação começou a desenhar-se desde os inícios da década de 2010, quando escreveu “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade” (2011). A esse, seguiu-se “Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã” (2015) e “21 Lições para o Século XXI” (2018). É um estudo acessível a qualquer leitor, abordando temas de capital importância, como a felicidade, a inteligência, a consciência, o livre arbítrio, atravessando desde a fase de surgimento do homo sapiens (homem sábio) – que classifica como a revolução cognitiva – até à atualidade e ao futuro. O desenvolvimento da linguagem, das sociedades e da ciência encaminham o ser humano para um progresso desenfreado. Contudo, são várias as perguntas e os desafios deixados em aberto pelo historiador na sua bibliografia, especialmente com a ascensão da tecnologia, que, pelo menos, equaciona o cenário de ultrapassar o próprio homo sapiens.

O percurso de Harari

Yuval Noah Harari nasceu a 24 de fevereiro de 1976, em Kiryat Ata, em Haifa, Israel. Cresceu numa família laica, judaica, mas não-praticante, com origens libanesas e da própria Europa do Leste. A sua especialização académica foi feita na Universidade Hebraica de Jerusalém, entre 1993 e 1998, em História Medieval e História Militar, completando o seu doutoramento em 2002, em Oxford, e fazendo estudos pós-doutorais até 2005. Harari casou-se no Canadá, entretanto, com o seu agente pessoal, Itzik Yahav, que conheceu no ano em que fez o doutoramento. O casal vive num moshav, que não é mais do que uma pequena cooperativa agrícola organizada em pequenos terrenos individuais. A sua fama bibliográfica levou-o já a Davos, na Suíça, onde discursou por duas ocasiões no Fórum Económico Mundial, para lá de outros galardões e de recordes de vendas.

Em Oxford, tornou-se um profundo adepto da meditação Vipassana, um ramo do Budismo que sentiu as influências do Ocidente, após sua divulgação. É dele que partem as origem do agora conhecido mindfulness. O conceito de vipassana refere-se a uma visão especial, introspetiva, que parte das práticas meditativas assentes na tranquilidade da mente (samatha), na libertação e no desapego da própria mente em relação ao mundo que a rodeia. Esta vipassana deve esclarecer as três amarras da existência, que não são mais do que ilusórias: a impermanência (anicca), a insatisfação (dukkha) e o não-ser, a não-essência (anatta). Só isso permite que se possa despertar para um caminho mais livre e para a primeira das quatro etapas da iluminação: do sotapanna, que se liberta da visão identitária, dos ritos e rituais e das dúvidas, chega-se à sakadagamin (atenuação do desejo sexual e da má vontade), seguindo-se um reforço desta com a anagami e concluindo com a arahant (o estado máximo de iluminação, no qual se alcança o estado pleno meditativo e uma elevação espiritual).

Harari vem fazendo, desde o ano de 2000, duas horas diárias de meditação – a qual considera um bom método de investigação -, para além de fazer um retiro anual, ausente da vida social, resguardado no silêncio sem redes sociais ou literatura. De igual modo, assume-se como vegan e não tem nenhum smartphone. Voltando para aquilo que é o seu trabalho, a sua bibliografia é numerosa e muito técnica, em especial os diferentes artigos e livros que redigiu antes no ano de 2010. São obras que estudam temas associados à História Militar da Idade Média e da Idade Moderna, procurando fazer um percurso cronológico sobre a evolução dos métodos e das ferramentas da guerra, um fenómeno persistente durante o último século. Porém, e desde esse ano de 2010, a sua visão passou a ser bem mais ampla, procurando um estudo mais generalizado sobre a evolução da humanidade até ao presente.

O foco, assim, direcionou-se para o homo sapiens, na tentativa de entender a sua condição presente e futura. A direção da história e a relação do próprio homo sapiens com os restantes seres vivos, numa perspetiva biológica, foram tónicas que direcionaram o seu estudo daí em diante. A preocupação com o progresso tecnológico e com os avanços da inteligência artificial levantaram alertas para Harari, atenções que se direcionam para esse futuro político, social, económico, um desafio que considera preponderante para o futuro da humanidade. O desafio já se coloca atualmente, nesta economia de dados, em que os governos e as corporações conhecem cada vez melhor o indivíduo, e, quanto mais o conhecerem, maior possibilidade para manipulá-lo e ao seu livre-arbítrio começa a existir. Esse livre-arbítrio já é problematizado pelo historiador, já que cada decisão feita depende de condições sociais e biológicas, para lá das pessoais: são do foro genético, bioquímico, familiar, cultural, anatómico. Em suma, todos eles não são escolha de quem as vivencia. É crítico, de igual modo, da indústria alimentar, especialmente da de origem animal, que lhe suscita questões éticas. Embora reconhecedor do progresso até à atualidade, procura não fechar os olhos ao rumo do futuro, necessário para que se possa melhorar aquilo que continua mal.

Os livros que revelaram Harari ao mundo



Em 2011, chega às bancas israelitas o livro “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”, inicialmente editado somente em hebraico. Foi baseado em vinte aulas que deu a uma turma de História Mundial, inspirado na obra do biólogo norte-americano Jared Diamond, de seu título “Armas, Germes e Aço – Os Destinos das Sociedades Humanas”. Aqui, a grande tese deste Prémio Pulitzer orbita sobre a ideia da superioridade das civilizações europeias e asiáticas ser originada no peso da geografia em relação às sociedades e às culturas, o que as valorizava. Três anos depois, foi editado em inglês e, daí, traduzido para mais de quarenta idiomas diferentes. É um livro aprofundado sobre a história humana, percorrendo o tempo que dista da Pré-História até às transformações tecnológicas da atualidade. Não se trata de um livro que se propõe a revelar descobertas feitas no seu percurso investigativo, mas sim a fazer uma viagem pela evolução do ser humano. Desde as primeiras espécies arcaicas humanas da Idade da Pedra, vai-se à boleia das ciências naturais, nomeadamente da biologia e da antropologia evolucionárias e da psicologia, procurando perceber como é que a atividade humana viu limitada a sua conduta e a sua atividade, para além de perceber como evoluíram esses limites.

A biologia recebe o grande protagonismo desta narrativa histórica, assim como o próprio papel da ciência nos quatro grandes momentos em que estrutura a história do homo sapiens: a Revolução Cognitiva, por volta de 70 mil anos a.C., em que desenvolveu a imaginação; a Revolução Agrícola, por volta de 10 mil anos a.C.; a unificação da humanidade, em várias fases da Antiguidade Clássica, numa altura em que as organizações políticas se tornaram orientadas para um grande império global; e, por fim, a Revolução Científica, já no século XVI, com o surgimento da ciência objetiva. Para Harari, o domínio da espécie humana do mundo só se tornou realidade por ser o único flexível o suficiente para cooperar em grandes grupos.

A sua capacidade única de acreditar em coisas produto da sua imaginação, em conceitos que, embora, no presente reais, começaram de forma abstrata e imaginária (leia-se o dinheiro, as nações, os direitos humanos e a própria crença religiosa), permitiu que as primeiras formas de sociedade se fossem formando. Porém, isso levantou a emergência da discriminação a vários níveis, desde racial, sexual ou política, fechando o espaço a uma sociedade idílica, totalmente igualitária e equitativa. Todos os grandes sistemas de cooperação humana, desde as religiões e as estruturas políticas, económicas, comerciais e legais, têm a sua origem, assim, na capacidade cognitiva do homo sapiens para a ficção. O dinheiro foi criando um papel de um autêntico sistema de confiança mútua entre indivíduos e grupos de indivíduos, com um peso significativo com as pseudo-religiões que se foram formando a partir deste: os grandes sistemas económicos, para além dos políticos.

Sobre a Revolução Agrícola, o israelita menciona que, apesar de ter contribuído para a reprodução de novas espécies biológicas, desde animais a outras fontes de alimentação, e para o aumento significativo da população, conduziu a um deteriorar das condições de vida dos seres humanos, tornando a sua alimentação bem mais unidimensional. Quanto à unificação da humanidade, Harari percebe que o homo sapiens se tornou cada vez mais disposto a uma interdependência política e económica, assente em impérios que têm repercussões na atualidade, quando se olha para uma espécie de império global que é a globalização. Na sua base, indica o dinheiro, as religiões universais e esses primeiros impérios como os grandes condutores deste processo global.

No que toca à Revolução Científica, considera que se tratou de um momento que permitiu a crescente convergência das culturas humanas, sustentado no instinto inovador do pensamento europeu. Aqui, porém, as grandes elites sociais tornaram-se conscientes da sua ignorância, conduzindo a uma necessidade de abrir portas a um imperialismo desenfreado, destinado a fazer valer a sua supremacia moral e cultural. Todavia, e apesar de todas estas condicionantes, o historiador acredita que a felicidade não está mais presente na atualidade que nesse período. Em muito contribui o peso da tecnologia moderna, que considera comportar riscos para o futuro da espécie humana, tendo em conta o seu sentido direcionado para a engenharia genética e para as formas de vida não-orgânicas, para além da própria ideia de mortalidade. Os seres humanos são, agora, capazes de criar outras espécies: são, assim, os novos deuses.

Já em 2015, e após uma fama que não foi consensual (a comunidade científica foi muito crítica da obra, tendo em conta a pouca substância histórica e metodológica associada a este trabalha), chega “Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã”. Aqui, o objetivo de Harari é olhar para a frente, para o futuro, explorando algumas premissas que havia deixado por escrito no seu livro anterior. Para o historiador, a humanidade, no futuro, tentará alcançar a felicidade a imortalidade, beneficiando dos seus poderes quase divinos. Os sistemas políticos e sociais são, cada vez mais, sistemas de processamento de dados, originando um conceito a que chamou de “dataísmo”. Este dataísmo declara o Universo como composto por uma série de fluxos de dados e o valor de cada fenómeno ou de cada entidade é definido pela sua contribuição para o processamento desses dados. A espécie humana é, assim, cada vez mais, toda ela, um sistema de processamento de dados, sendo cada um um chip. O objetivo de um dataísmo é o de maximizar o fluxo de dados numa conexão cada vez maior com meios tecnológicos e audiovisuais.



Harari prevê que a conclusão lógica de todo este processo desenfreado será um em que os seres humanos darão algoritmos às instâncias de poder para tomarem as decisões mais importantes da sua vida por eles, desde a nível profissional, como até pessoal e íntimo. O suicídio do programador e “hacktivista” Aaron Swartz é visto como a primeira martirização deste processo. Ele que foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento do RSS (um fluxo de informação na web que permite aos utilizadores aceder a atualizações de um conjunto de websites de forma sintetizada e estandardizada) e da Creative Commons (uma organização sem fins lucrativos vocacionada para um maior acesso livre a uma série de trabalhos criativos e a poder partilhá-los, para além de usá-los para diferentes fins). Era, assim, alguém que procurava a liberalização da informação para o público, usando as suas capacidades informáticas com um sentido sempre social e científico.

Assim, o enfoque desta obra direciona-se para o sentido da experiência humana individual com as novas competências adquiridas durante a sua existência, no decurso da evolução da espécie. Harari faz o estado da arte da humanidade e, com ela, procura prever o futuro. O livro em si estrutura-se, então, em três partes: a conquista do mundo por parte do homo sapiens, em que estuda a relação entre os seres humanos e os animais e os fundamentos da dominação humana em relação ao animal. A segunda refere-se à atribuição de significado(s) ao mundo por parte do homo sapiens, desde a revolução da linguagem, datada de há 70 mil anos atrás, em que os humanos se tornaram, cada vez mais, parte de uma realidade intersubjetiva; ligada pelas regiões, pelos países e suas fronteiras, pelo dinheiro e pela religião. Isto abriu portas a que se pudesse constituir uma cooperação em larga escala, maleável o suficiente para envolver diferentes seres humanos. A crença nas construções intersubjetivas que só existem na mente humana são reforçadas por uma fé que é coletiva, atribuindo valores e significados às suas ações e aos seus pensamentos, conquistando, com isso, várias proezas.

Para Harari, o humanismo é uma forma de religião que, ao invés de louvar um Deus, louva a humanidade. A prioridade de todo o mundo passa a ser a espécie humana e a satisfação dos seus desejos como seres dominantes. Neste plano, os valores éticos e morais partem de dentro para fora, do individual para o geral, ao invés do oposto, e a sede pela imortalidade e pelo poder é cada vez mais crescente na visada obtenção da felicidade. Por fim, assiste-se à perda de controlo do homo sapiens, perante o desenvolvimento tecnológico que coloca em risco a capacidade dos seres humanos de atribuir significados à sua vida. É aqui que Harari sugere a possibilidade de existir a substituição da espécie humana pelo homo deus, munido da vida eterna e de capacidades divinas que lhe permitam ser uma espécie de super-homem. Sugere, de igual modo, os seres humanos na forma de algoritmos, que deixam, gradualmente, de ser a espécie dominante.


O último dos três grandes livros que projetaram Harari para o conhecimento geral foi “21 Lições para o Século 21”, publicado em 2018. Trata-se de uma coleção de vários ensaios soltos, uns publicados em revistas científicas, outros publicados em revistas para o público geral e outros inéditos. Para o presente e para o futuro, procura enumerar e apresentar aquelas que são as grandes problemáticas da atualidade: na tecnologia, a desilusão, o trabalho, a liberdade, a igualdade; na política, a comunidade, a civilização, o nacionalismo, a religião e a imigração; no desespero e na esperança, o terrorismo, a guerra, a humildade, Deus e o secularismo; na verdade, a ignorância, a justiça, a pós-verdade e a ficção científica; na resiliência, a educação, o sentido e a meditação. Cada lição é um ensaio científico, organizado nessas cinco partes, e ambiciona ver até onde se chegou e até onde se tenciona ou se prevê ir.

As ambiguidades de cada tema leva as suas vantagens e desvantagens, que culminam na sua grande questão, a que interroga sobre como viver numa fase em que as histórias antigas, aquelas que condicionavam as vivências dos seres humanos, se transformaram. Das luzes da religião, o núcleo do mundo passou para outras esferas centrais, como as leis e o dinheiro, na forma de mitos coletivos. São os responsáveis pela edificação dessas sociedades complexas e burocráticas de grandes proporções, que extrapolam das limitações biológicas humanas. Perante a queda da religião e da própria noção de Estado-nação neste planeta cada vez mais globalizado, a pergunta continua sem resposta.

O desafio tecnológico assume proporções amplas com a crise do liberalismo económico, sem antever o surgimento de algo melhor, que se consiga ajustar aos desafios científicos, nomeadamente dos limites (ou falta deles) do desenvolvimento da inteligência artificial e da biotecnologia. O desafio político é desferido com centralidade nos nacionalismos, que são incapazes de fazer frente à toada do desenvolvimento tecnológico a que se assiste. O rumo que se perspetiva é o de uma abertura de vias mais numerosas e mais desafogadas, que permitam fomentar a cooperação global. Perante estes desafios, existem ainda mais discórdias que consensos sobre como respondê-los, embora apele à serenidade e à moderação nas crenças e nas perspetivas futuras, sustentando-se no laicismo.

O valor de verdade daquilo que é a informação veiculada é algo que também problematiza a realidade, tendo em conta o denso volume de desinformação criada. Para tal, Harari propõe uma resposta assente na abdicação de valores que possam enviesar aquilo que motiva cada um a procurar informar-se e fazê-lo a partir de fontes fiáveis e credíveis. É importante de forma a que se possa distinguir a ficção da realidade, sendo o único caminho capaz de elucidar o rumo de vida uma plena e de uma sociedade capaz de enfrentar as adversidades existenciais que se levantam. Para tal, volta a socorrer-se da meditação como uma proposta plausível para poder tornar a visão sobre a realidade mais plena e esclarecida, para poder distinguir aquilo que é produto da mente em relação àquilo que, efetivamente, é real.

Yuval Noah Harari é um dos historiadores mais conhecidos da atualidade, principalmente desde 2011 para cá. Os seus três livros debruçados sobre a espécie humana marcaram o seu percurso, até então quase anónimo para lá da comunidade académica de Israel. No entanto, as suas principais obras não foram acolhidos de forma totalmente positiva por parte desta, assim como da comunidade académica dispersa um pouco por toda a parte. O seu discurso leve, por vezes superficial, foi criticado, assim como a carência de grande suporte científico e até de ser um tanto ou quanto especulativo. Porém, também parte da crítica foi positiva, apoiando a forma lúcida e credível como detetou as grandes problemáticas presentes e futuras, ao denunciar as potencialidades nefastas da tecnologia. Porém, e aos olhos do presente, Harari é um destacado comunicador da história, fazendo das suas visões retrospetivas um importante berço introspetivo para o horizonte do futuro, que questiona o papel que todos nós, sem exceção, assumimos e assumiremos.

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terça-feira, 18 de outubro de 2022

Livro- "21 Lições para o Século XXI" de Yuval Noah Harari


“Previously, we learned to manipulate rivers, forests, animals… but we didn’t fully understand the ecological system of the planet, and completely destabilized it. Now, because we don’t understand the human mind, danger is that Biotechnology (manipulating our bodies and brains) will destabilize our internal – our mental – ecological system.

“No passado, aprendemos a manipular rios, florestas, animais… mas não compreendemos totalmente o sistema ecológico do planeta, e o desestabilizamos por completo. Agora, pelo fato de não compreendermos a mente humana, corremos o risco da Biotecnologia (por meio da manipulação dos nossos corpos e cérebros) desestabilizar o nosso sistema ‘ecológico’ interno (nosso sistema mental).” - Yuval Noah Harari

Resenhas

Curta-Metragem

O Futuro frente aos avanços da IA e da BioTecnologia - Prof. Yuval Harari


Roda Viva | Yuval Harari | 11/11/2019

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Contra a Gerontofobia

Sarah Jessica Parker's no makeup photo.
She' s 57.

Mariza - She´s 47

Duas celebridades. Duas atitudes. Sarah, natural, aceitando a velhice, sem artificialismos.
Mariza, o oposto. Anos atrás já fez botox. E agora esta transformação. Nota-se que fez plástica aos lábios. "Por vezes, mudamos tanto por dentro que precisamos de uma mudança por fora… ou não 
Se me vissem assim na rua, reconheciam?" pergunta ela na sua conta de .Instagram. Eu respondo que só ela é que sabe porque faz plásticas e não precisa do aval do público. Há ma coisa artificial que me incomoda. E depois, mordaz, a Mariza pensa que dá um golpe certo no mershandising. A não aceitação que o corpo envelhece, mas é no interior que está a juventude. A Mariza cobra cerca de 6.000 a 8.000 euros em contratos directos com as câmaras. Como diz o Massado de Assis "O dinheiro não traz felicidade — para quem não sabe o que fazer com ele.". Perdeste um fã, definitivamente.

Saiba mais:

domingo, 7 de agosto de 2022

Slavoj Žižek & Yuval Noah Harari | Should We Trust Nature More than Ourselves?


Estamos acima da natureza? Como podemos combater o extremismo? Como as ideologias extremas muitas vezes se tornam o seu oposto?

Em uma animada discussão entre Slavoj Žižek e Yuval Noah Harari, os dois pensadores debatem a ideologia extremista, nosso papel na natureza, as noções de bem e mal e catástrofes do passado. 

A conversa é moderada por Günes Taylor e foi filmada em 2 de junho de 2022 como parte do Festival How The Light Gets In.

Se existem intelectuais de celebridades, Yuval Noah Harari e Slavoj Žižek se encaixam melhor do que a maioria - mesmo que o último vacile ao ser chamado de um. Ambos os pensadores encontraram sucesso popular além dos limites estreitos de suas especializações acadêmicas – história medieval para Harari, filosofia hegeliana e psicanálise lacaniana para Žižek. O mundo, ao que parece, quer saber o que eles pensam sobre todas as questões mais urgentes de nossos tempos, desde a guerra na Ucrânia até a crise climática e nosso futuro pós-humano. Foi isso que os levou ao How The Light Gets In em Hay, o maior festival de filosofia do mundo, para debater a questão da natureza: amiga ou inimiga.

A resposta é surpreendentemente matizada: a natureza não é nossa amiga nem nossa inimiga. Como Zizek e Harari frequentemente afirmam, todos estão deixando de fazer as perguntas certas. Porque estamos prestes a entrar em uma era pós-natureza, e isso mudará tudo.

Depois de um longo período de pensamento iluminista que viu a natureza conquistada pela razão e domesticada pela tecnologia, seu lugar na sociedade volta à ordem do dia em grande estilo. A pandemia do COVID e a crise climática são lembretes de que não entendemos completamente a natureza, nem assumimos propriedade e controle conclusivos sobre ela. Mas ser confrontado com isso mais uma vez significou que as pessoas interpretaram a natureza como inerentemente boa, em contraste com os humanos moralmente corruptos, ou como vingativa, punindo-nos por nossa arrogância na exploração do meio ambiente. Bobagem, proclamaram Harari e Žižek concordando. A natureza não é boa nem má – está fora da moralidade. Žižek foi ainda mais longe e, com seu jeito colorido de sempre, minou a imagem de uma natureza carinhosa com a frase “Se a natureza é nossa mãe, então ela é uma cadela!” Quanto à parte da vingança, o universo é indiferente a nós.

O acordo, que surpreendeu os oradores (“Quando vão sair as facas?” perguntou-se Žižek) continuou quando ambos pareciam argumentar que a distinção entre o natural e o não natural era ela mesma, bem, artificial. A ideia de que tudo o que existe pode ser entendido como parte da natureza existe desde a antiguidade, mas ainda anima muita filosofia contemporânea. Apesar de ser um hegeliano autoproclamado, até Žižek disse: “Não sou um idealista, sou um naturalista!” Pode não parecer um pensamento tão original, mas ao longo dos últimos séculos, nossos sucessos científicos e tecnológicos nos convenceram de que os humanos estão de alguma forma acima da natureza, mestres do universo. Ainda hoje soa estranho aos nossos ouvidos chamar um reator nuclear ou a vacina COVID, ou a guerra na Ucrânia de “natural”. Mas, em certo sentido, eles são. Sua existência não viola nenhuma lei natural e são feitos do mesmo material físico que todo o resto.

Por outro lado, enfatizou Žižek, o que chamamos de “natureza” é sempre culturalmente mediado. O que chamamos de “natureza” hoje e o que chamamos de “natureza” no século XVI não são a mesma coisa. E a forma como apelamos à natureza é profundamente ideológica. Quando a homossexualidade era considerada “antinatural”, Harari lembrou ao público que era uma declaração política e equivocada: a natureza por si só não produz regras morais, não nos diz o que é certo e o que é errado. A natureza simplesmente é.

Mas tudo isso pode estar prestes a ser posto à prova. Estamos prestes a criar o que Harari chamou de “formas de vida inorgânicas”, referindo-se à Inteligência Artificial avançada. Ainda seremos capazes de entendê-los como naturais? Como parte de uma trajetória semelhante, estamos prestes a começar a mudar nossa composição biológica, mudando nossa natureza, se preferir, de maneira radical. Isso pode excitar alguns transumanistas, que sonham sonhos utópicos, e os cientistas que estão focados em usar essas ferramentas para resolver problemas estreitos e específicos em seus campos, mas Harari dá um tom mais sombrio. Isto é o que os ditadores implacáveis ​​têm sonhado. No passado, quando os ditadores caíram do poder, pelo menos o que eles deixaram para trás ainda era humano. No futuro, isso pode não ser mais o caso.

Stalin, interrompe Žižek, queria fazer exatamente isso! Crie um exército de trabalhadores geneticamente modificados que possam trabalhar além dos limites de qualquer humano e sobreviver com algum sustento básico. A maneira como Stalin tentou fazer isso, é claro, envolveu uma anedota que apenas Žižek poderia se safar contando.

Então, se estamos prestes a entrar nesta era pós-humana, e a natureza? A vida 2.0, Žižek nos alertou, também mudará a vida 1.0. A natureza não será mais natureza, que também será fundamentalmente alterada. Harari gesticulou na mesma direção. Aprimorar os humanos também terá o efeito de rebaixar a humanidade em sua configuração atual. Se nós projetarmos humanos geneticamente para serem mais inteligentes, mais corajosos, mais eficientes.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

The idea of primitive communism is as seductive as it is wrong

Marx’s idea that societies were naturally egalitarian and communal before farming is widely influential and quite wrong



Karl Marx died on 14 March 1883. At the funeral three days later, Friedrich Engels wasted little time on their 40-year friendship, focusing instead on Marx’s legacy. ‘Just as Darwin discovered the law of development of organic nature,’ Engels said, ‘so Marx discovered the law of development of human history.’ His friend had died ‘beloved, revered and mourned by millions of revolutionary fellow-workers – from the mines of Siberia to California, in all parts of Europe and America … His name will endure through the ages, and so will his work!’

Engels made sure of this. In the following years, he devoted himself to organising and publishing Marx’s ideas. From a mélange of fragments and revisions, he produced the second and third volumes of Das Kapital, in 1885 and 1894 respectively. He meant to publish a fourth but died before he got to it. (It was later published as Theories of Surplus Value.) Still, the most peculiar project born from Marx’s notes was released a year after his death. Engels titled it The Origin of the Family, Private Property and the State. I’ll call it The Origin, for short.

The Origin is like Yuval Noah Harari’s blockbuster Sapiens (2014) but written by a 19th-century socialist: a sweeping take on the dawn of property, patriarchy, monogamy and materialism. Like many of its contemporaries, it arranged societies on an evolutionary ladder from savagery to barbarism to civilisation. Although wrong in most ways, The Origin was described by a recent historian as ‘among the more important and politically applicable texts in the Marxist canon’, shaping everything from feminist ideology to the divorce policies of Maoist China.

Of the text’s legacies, the most popular is primitive communism. The idea goes like this. Once upon a time, private property was unknown. Food went to those in need. Everyone was cared for. Then agriculture arose and, with it, ownership over land, labour and wild resources. The organic community splintered under the weight of competition. The story predates Marx and Engels. The patron saint of capitalism, Adam Smith, proposed something similar, as did the 19th-century American anthropologist Lewis Henry Morgan. Even ancient Buddhist texts described a pre-state society free of property. But The Origin is the idea’s most important codification. It argued for primitive communism, circulated it widely, and welded it to Marxist principles.

Today, many writers and academics still treat primitive communism as a historical fact. To take an influential example, the economists Samuel Bowles and Jung-Kyoo Choi have argued for 20 years that property rights coevolved with farming. For them, the question is less whether private property predated farming, but rather why it appeared at that time. In 2017, an article in The Atlantic covering their work asserted plainly: ‘For most of human history, there was no such thing as private property.’ A leading anthropology textbook captures the supposed consensus when it states: ‘The concept of private property is far from universal and tends to occur only in complex societies with social inequality.’

Historical narratives matter. In his bestseller Humankind (2019), Rutger Bregman took the fact that ‘our ancestors had scarcely any notion of private property’ as evidence of fundamental human goodness. In Civilized to Death (2019), Christopher Ryan wrote that pre-agricultural societies were defined by ‘obligatory sharing of minimal property, open access to the necessities of life, and a sense of gratitude toward an environment that provided what was needed.’ As a result, he concluded: ‘The future I imagine (on a good day) looks a lot like the world inhabited by our ancestors…’

Primitive communism is appealing. It endorses an Edenic image of humanity, one in which modernity has corrupted our natural goodness. But this is precisely why we should question it. If a century and a half of research on humanity has taught us anything, it is to be sceptical of the seductive. From race science to the noble savage, the history of anthropology is cluttered with the corpses of convenient stories, of narratives that misrepresent human diversity to advance ideological aims. Is primitive communism any different?

According to the Aché, former hunter-gatherers living in Paraguay, they first met Kim Hill when he was a child. They adopted him, raised him, and taught him their language. Hill, however, remembers their first encounter differently. It was Christmas of 1977. He was 24 years old. He had persuaded the Peace Corps to fly him out to a Catholic mission with newly contacted hunter-gatherers. A priest welcomed Hill, but ‘he had a lot of duties across the border in Brazil,’ Hill told me. ‘So he drove me into the mission, dropped me off, and said “Here’s the keys to my house.”’ Then the priest left for two weeks. Thus began ‘the most exciting, fun adventure I could imagine’.

The Aché that Hill first met had recently been contacted and settled at the mission. They didn’t know how to farm, so they regularly packed up and headed to the forest, sometimes for weeks at a time. The priest warned Hill not to join them. ‘He said: “You don’t have enough skills – it’s really rough – they’re going to walk really far – you won’t be able to eat the food” – blah blah blah.’ So, ‘of course, the first thing I did was ignore his advice completely.’

The first trip was tough. The Aché didn’t have clothes, so Hill went barefoot and wore nothing but gym shorts. The forest shredded his feet. Vines and spiny plants lacerated his legs. He later wrote in his diary: ‘I have seen my blood every single day for the past month.’ At night, the Aché slept on the ground. Struggling to keep warm, children crawled on Hill, making it hard to catch more than 10 minutes of sleep. He enjoyed hunted meat, but he was less prepared for the hundreds of fat palm larvae sitting between him and starvation.

It was on that first trip that Hill saw the Aché share their meat. A man returning from a hunt dropped an animal in the middle of camp. Another person, the butcher, prepared piles for each family. A third person distributed. ‘At the time, it seemed kind of logical to me,’ Hill said. The scene reminded him of a family barbecue where everyone gets a plate.

Yet the more he lived among the Aché, the more astonishing food-sharing seemed. Men were forbidden from eating meat they’d acquired. Their wives and children received no more than anyone else. When he later built detailed genealogies, he discovered that, contrary to his expectations, bandmates were often unrelated. Most importantly, food-sharing didn’t just happen on special days. It was a daily occurrence, a psychological and economic centrepiece of Aché society.

What he started to see, in other words, was ‘almost pure economic communalism – and I really didn’t think that was possible.’

Hill’s first trip to Paraguay got him hooked on anthropology. After the Peace Corps, he returned to the United States and wrote a PhD thesis on Aché foraging. Now, four decades later, he is professor of anthropology at Arizona State University and renowned for his work on hunter-gatherers and remote peoples. According to his CV, he has spent 190 months – nearly 16 years – conducting fieldwork.

Not all of that has been with the Aché. In 1985, he started working with another group, the Hiwi of Venezuela. He didn’t expect dramatic differences from the Aché. The Hiwi, too, were hunter-gatherers. The Hiwi, too, lived in lowland South America. Yet Hiwi society felt like a new world. The Aché lived in mobile bands of 20 to 30 people. The Hiwi lived in villages of more than 100 people for most of the year. The Aché neither did drugs nor danced. The Hiwi snorted hallucinogens and had tribal dances near-daily. The Aché spent most of each day strenuously getting food. The Hiwi foraged for barely a couple hours, preferring to relax in hammocks. The Aché divorced constantly. The Hiwi, virtually never.

Then, there was food-sharing. In the primitive communism of the Aché, hunters had little control over distributions: they couldn’t favour their families, and food flowed according to need. None of these applied to the Hiwi. When meat came into a Hiwi village, the hunter’s family kept a larger batch for themselves, distributing shares to a measly three of 36 other families. In other words, as Hill and his colleagues wrote in 2000 in the journal Human Ecology, ‘most Hiwi families receive nothing when a food resource is brought into the village.’

Hiwi sharing tells us something important about primitive communism: hunter-gatherers are diverse. Most have been less communistic than the Aché. When we survey forager societies, for instance, we find that hunters in many communities enjoyed special rights. They kept trophies. They consumed organs and marrow before sharing. They received the tastiest parts and exclusive rights to a killed animal’s offspring.

The most important privilege hunters enjoyed was selecting who gets meat. Selective sharing is powerful. It extends a bond between giver and recipient that the giver can pull on when they are in need. Refusing to share, meanwhile, is a rejection of friendship, an expression of ill will. When the anthropologist Richard Lee lived among the Kalahari !Kung, he noticed that a hunter named N!eisi once ignored his sister’s husband while passing out warthog meat. When asked why, N!eisi replied harshly: ‘This one I want to eat with my friends.’ N!eisi’s brother-in-law took the hint and, three days later, left camp with his wives and children. By exercising control over distributions, hunters convert meat into relationships.

To own something, we say, means excluding others from enjoying its benefits. I own an apple when I can eat it and you cannot. You own a toothbrush when you can use it and I cannot. Hunters’ special privileges shifted property rights along a continuum from fully public to fully private. The more benefits they could monopolise – from trophies to organs to social capital – the more they could be said to own their meat.

Compared with the Aché, many mobile, band-living foragers lay closer to the private end of the property continuum. Agta hunters in the Philippines set aside meat to trade with farmers. Meat brought in by a solitary Efe hunter in Central Africa was ‘entirely his to allocate’. And among the Sirionó, an Amazonian people who speak a language closely related to the Aché, people could do little about food-hoarding ‘except to go out and look for their own’. Aché sharing might embody primitive communism. Yet, Hill admits, ‘the Aché are probably the extreme case.’

Hunters’ privileges are inconvenient for narratives about primitive communism. More damning, however, is a starker, simpler fact. All hunter-gatherers had private property, even the Aché.

Individual Aché owned bows, arrows, axes and cooking implements. Women owned the fruit they collected. Even meat became private property as it was handed out. Hill explained: ‘If I set my armadillo leg on [a fern leaf] and went out for a minute to take a pee in the forest and came back and somebody took it? Yeah, that was stealing.’

Some proponents of primitive communism concede that foragers owned small trinkets but insist they didn’t own wild resources. But this too is mistaken. Shoshone families owned eagle nests. Bearlake Athabaskans owned beaver dens and fishing sites. Especially common is the ownership of trees. When an Andaman Islander man stumbled upon a tree suitable for making canoes, he told his group mates about it. From then, it was his and his alone. Similar rules existed among the Deg Hit’an of Alaska, the Northern Paiute of the Great Basin, and the Enlhet of the arid Paraguayan plains. In fact, by one economist ’s estimate, more than 70 per cent of hunter-gatherer societies recognised private ownership over land or trees.

The respect for property rights is clearest when someone violates them. To appreciate this, consider the Mbuti, one of the short-statured (‘pygmy’) hunter-gatherers of Central Africa.

Much of what we know about Mbuti society comes from Colin Turnbull, a British-American anthropologist who stayed with them in the late 1950s. Turnbull was kind, strong and courageous. From 1959 until his death, he lived in an openly gay, interracial relationship, eventually resigning from the American Museum of Natural History under charges of discrimination against him and his partner. He spent his later years campaigning for death row inmates and, upon his death, donated his entire estate and savings to the United Negro College Fund. ‘Throughout his life,’ wrote a biographer, ‘Turnbull was motivated by a deep-seated wish to find goodness, beauty and power in the oppressed or ridiculed and, by making those qualities known to the world, reveal the evils of Western civilisation.’

For some, these motivations clouded Turnbull’s descriptions of the Mbuti. He has been criticised for painting an ‘idealised picture’ of the Mbuti as ‘simple and childlike creatures’ living ‘a romantic and harmonious life in the bountiful rain forest.’ Yet, even if he did idealise, his writings still undermine claims of primitive communism. He described a society in which theft was prohibited, and where even the most desperate members suffered for violating property rights.

Take, for instance, Pepei, a Mbuti man who in 1958 was 19 years old and still unmarried. Unlike most bachelors, who slept next to the fire, Pepei lived in a hut with his younger brother. But instead of collecting building materials, he swiped them. He snuck around at night, plucking a leaf from this hut and a sapling from that. He also filched food. He was an orphan after all, and a bachelor, so he had few people to help him prepare meals. When food mysteriously disappeared, Pepei always claimed to have seen a dog snatch it.

‘Nobody really minded Pepei’s stealing,’ wrote Turnbull, ‘because he was a born comic and a great storyteller. But he had gone too far in stealing from old Sau.’

Old Sau was a skinny, feisty widow. She lived a couple of huts down from Pepei, and one night caught him skulking around in her hut. As he lifted the lid of a pot, she smacked him with a pestle, grabbed his arm, twisted it behind his back, and shoved him into the open.

Justice was brutal. Men ran out and held Pepei, while youths broke off thorny branches and thrashed him. Eventually Pepei broke away and ran into the forest crying. After 24 hours, he returned to camp and went straight to his hut unseen. ‘His hut was between mine and Sau’s,’ wrote Turnbull, ‘and I heard him come in, and I heard him crying softly because even his brother wouldn’t speak to him.’

Other foragers punished stealing, too. The Ute of Colorado whipped thieves. The Ainu of Japan sliced their earlobes off. For the Yaghan of Tierra del Fuego, accusing someone of robbery was a ‘deadly insult’. Lorna Marshall, who spent years living with the Kalahari !Kung, reported that a man was once killed for taking honey. Through violence towards offenders, foragers reified private property.

Is primitive communism another seductive but incorrect anthropological myth? On the one hand, no hunter-gatherer society lacked private property. And although they all shared food, most balanced sharing with special rights. On the other hand, living in a society like the Aché’s was a masterclass in reallocation. It’s hard to imagine farmers engaging in need-based redistribution on that scale.

Whatever we call it, the sharing economy that Hill observed with the Aché does not reflect some lost Edenic goodness. Rather, it sprang from a simpler source: interdependence. Aché families relied on each other for survival. We share with you today so that you can share with us next week, or when we get sick, or when we are pregnant. Hill once saw a man fall from a tree and break his hip. ‘He couldn’t walk for three months, and in those three months, he produced zero food,’ Hill said. ‘And you would think that he would have starved to death and his family would have starved to death. But, of course, nothing happened like that, because everybody provisioned him the whole time.’

This is partly about reciprocity. But it’s also about something deeper. When people are locked in networks of interdependence, they become invested in each other’s welfare. If I rely on three other families to keep me alive and get me food when I cannot, then not only do I want to maintain bonds with them – I also want them to be healthy and strong and capable.

Interdependence might seem enviable. Yet it begets a cruelty often overlooked in talk about primitive communism. When a person goes from a lifeline to a long-term burden, reasons to keep them alive can vanish. In their book Aché Life History (1996), Hill and the anthropologist Ana Magdalena Hurtado listed many Aché people who were killed, abandoned or buried alive: widows, sick people, a blind woman, an infant born too soon, a boy with a paralysed hand, a child who was ‘funny looking’, a girl with bad haemorrhoids. Such opportunism suffuses all social interactions. But it is acute for foragers living at the edge of subsistence, for whom cooperation is essential and wasted efforts can be fatal.

Consider, for example, how the Aché treated orphans. ‘We really hate orphans,’ said an Aché person in 1978. Another Aché person was recorded after seeing jaguar tracks:
Don’t cry now. Are you crying because you want your mother to die? Do you want to be buried with your dead mother? Do you want to be thrown in the grave with your mother and stepped on until your excrement comes out? Your mother is going to die if you keep crying. When you are an orphan nobody will ever take care of you again.

The Aché had among the highest infanticide and child homicide rates ever reported. Of children born in the forest, 14 per cent of boys and 23 per cent of girls were killed before the age of 10, nearly all of them orphans. An infant who lost their mother during the first year of life was always killed.

(Since acculturation, many Aché have regretted killing children and infants. In Aché Life History, Hill and Hurtado reported an interview with a man who strangled a 13-year-old girl nearly 20 years earlier. He ‘asked for our forgiveness’, they wrote, ‘and acknowledged that he never should have carried out the task and simply “wasn’t thinking”.’)

Hunter-gatherers shared because they had to. They put food into their bandmates’ stomachs because their survival depended on it. But once that need dissipated, even friends could become disposable.

The popularity of the idea of primitive communism, especially in the face of contradictory evidence, tells us something important about why narratives succeed. Primitive communism may misrepresent forager societies. But it is simple, and it accords with widespread beliefs about the arc of human history. If we assume that societies went from small to big, or from egalitarian to despotic, then it makes sense that they transitioned from property-less harmony to selfish competition, too. Even if the facts of primitive communism are off, the story feels right.

More important than its simplicity and narrative resonance, however, is primitive communism’s political expediency. For anyone hoping to critique existing institutions, primitive communism conveniently casts modern society as a perversion of a more prosocial human nature. Yet this storytelling is counterproductive. By drawing a contrast between an angelic past and our greedy present, primitive communism blinds us to the true determinants of trust, freedom and equity. If we want to build better societies, the way forward is neither to live as hunter-gatherers nor to bang the drum of a make-believe state of nature. Rather, it is to work with humans as they are, warts and all.

Fonte: Aeon