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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Peter Thiel: o homem por trás da Palantir, da cidade privada em Honduras e da nova experiência libertária na Argentina



O bilionário que acredita que a democracia pode ser incompatível com a liberdade está ligado a uma empresa que trabalha com governos e forças militares, financia experiências de “cidades privadas”, reúne algumas das pessoas mais poderosas do mundo numa organização reservada e agora está a viver na Argentina de Javier Milei. Pelo caminho, começou também a dar conferências privadas sobre o Anticristo.

Peter Thiel é uma daquelas figuras que parecem ter sido retiradas de um romance de ficção científica.

É bilionário, cofundou o PayPal e a Palantir, foi um dos primeiros grandes investidores do Facebook, financiou políticos norte-americanos como Donald Trump e J. D. Vance, apoia experiências de novos modelos de governação e é uma das figuras mais influentes do chamado tecno-libertarianismo.

Mas, nos últimos dois anos, Thiel tornou-se conhecido por algo ainda mais peculiar.

Começou a dedicar uma série de conferências privadas ao Anticristo, defendendo uma visão apocalíptica na qual uma tentativa de resolver grandes problemas globais – como alterações climáticas, inteligência artificial ou guerra nuclear – poderia acabar por conduzir a um governo mundial totalitário.

Em 2026, levou essas conferências para Roma, a poucos quilómetros do Vaticano.

Entretanto, uma fuga de informação revelou pela primeira vez uma visão muito mais detalhada do funcionamento de Dialog, uma organização privada que Thiel ajudou a fundar em 2006 e que durante cerca de duas décadas manteve os seus membros e encontros longe do escrutínio público.

E, enquanto tudo isto acontecia, Thiel instalou temporariamente a família na Argentina de Javier Milei.

Não se trata de acontecimentos isolados.

Existe uma linha de pensamento que atravessa todos eles: a desconfiança em relação às instituições democráticas tradicionais, a defesa da inovação tecnológica sem demasiadas restrições, a concentração de poder em indivíduos altamente capazes e a procura de novos modelos de organização da sociedade.

Quem é Peter Thiel?
Nascido em Frankfurt, na Alemanha, em 1967 e criado posteriormente nos Estados Unidos, Thiel estudou Filosofia e Direito em Stanford.

A sua carreira começou no mundo financeiro e jurídico, mas ganhou uma dimensão completamente diferente quando cofundou, em 1998, a PayPal com um grupo de empreendedores que viria a ficar conhecido como a “PayPal Mafia”.

Depois da venda da empresa ao eBay, em 2002, Thiel começou a investir em tecnologia.

Um dos seus investimentos mais famosos foi o Facebook: em 2004, tornou-se o primeiro grande investidor externo da empresa, colocando cerca de 500 mil dólares na então pequena rede social.

O investimento acabaria por valer milhares de milhões.

Mas seria outra empresa que definiria a sua influência política e tecnológica.

A infância em África
Thiel nasceu na Alemanha, mas a sua família mudou-se para África quando ele ainda era criança.

Durante alguns anos viveu na África do Sul e no então Sudoeste Africano, território administrado pela África do Sul que viria a tornar-se a Namíbia.

Em Swakopmund, cidade costeira de forte herança alemã, Thiel frequentou uma escola de língua alemã enquanto o seu pai trabalhava numa mina de urânio em Rössing. Aos dez anos, deixou África e mudou-se com a família para os Estados Unidos.

A época e o lugar são importantes.

Thiel cresceu numa sociedade organizada pelo apartheid, num sistema em que a população branca ocupava uma posição privilegiada e a população negra era submetida a uma complexa estrutura de segregação racial e desigualdade.

Swakopmund tinha ainda uma característica particularmente invulgar: décadas depois da derrota da Alemanha nazi, a cidade conservava uma forte presença da cultura alemã e, segundo relatos recolhidos pelo Guardian, existiam naquele período manifestações abertas de nostalgia nazi.

O contexto familiar também estava ligado à indústria extractiva.

O pai de Thiel trabalhava numa mina de urânio, enquanto a população negra empregada nas minas vivia em condições muito diferentes das dos gestores brancos. O Guardian descreve uma estrutura em que os trabalhadores negros recebiam salários baixos e viviam em condições precárias, enquanto os gestores brancos beneficiavam de um estilo de vida muito mais confortável.

África como origem do seu libertarianismo?
Não é possível dizer simplesmente que o apartheid “criou” o pensamento político de Peter Thiel.

Mas existe uma ligação que o próprio Thiel estabeleceu retrospectivamente.

Ele descreveu a escola que frequentou em Swakopmund como extremamente rígida e disse que essa experiência lhe criou uma forte aversão à regimentação e à conformidade, algo que posteriormente contribuiu para a sua aproximação ao libertarianismo.

Essa interpretação é particularmente interessante porque a oposição à conformidade se tornou uma característica central da sua personalidade intelectual.

Na universidade, Thiel viria a construir uma reputação de pensador contrarian – alguém que procura deliberadamente ideias que contradigam o consenso.

Uma biografia de Thiel publicada em 2021, The Contrarian, alegou que, quando era estudante em Stanford, ele teria descrito o apartheid como “economicamente sólido”. Thiel negou ter apoiado o apartheid. O Guardian apresenta esta alegação como parte de uma controvérsia sobre as suas posições durante a juventude.

O que se sabe é que Thiel cresceu dentro de uma sociedade profundamente desigual, beneficiando da posição privilegiada da população branca, e que essa experiência marcou a sua relação com autoridade, conformidade e liberdade individual.

A coincidência com Elon Musk
Thiel não é o único membro da chamada “PayPal Mafia” com uma infância ligada à África Austral.

Elon Musk cresceu na África do Sul e David Sacks nasceu em Cape Town. Roelof Botha, outro antigo executivo do PayPal, é neto de Pik Botha, ministro dos Negócios Estrangeiros do regime do apartheid.

O paralelismo chamou a atenção de jornalistas e historiadores precisamente porque alguns dos homens que viriam a adquirir enorme influência na tecnologia e na política norte-americanas foram formados, durante a infância ou juventude, dentro ou próximo de uma sociedade marcada por desigualdade extrema, segregação e uma profunda desconfiança em relação ao Estado e às instituições.
Palantir

Em 2003, Thiel, Alex Karp e outros associados criaram a Palantir Technologies.

A empresa desenvolveu software capaz de integrar e analisar enormes quantidades de dados provenientes de diferentes fontes.

O princípio é relativamente simples de explicar. Imagine milhares de bases de dados que normalmente não comunicam entre si: imigração, polícia, informação financeira, viagens, comunicações, empresas, mapas, redes sociais ou registos governamentais.

A tecnologia da Palantir permite juntar essas informações e encontrar relações, padrões e ligações que seriam difíceis de identificar manualmente.

É uma ferramenta extremamente poderosa. E é precisamente isso que está no centro da controvérsia.

A Palantir trabalha com governos, forças armadas, serviços de inteligência, empresas e sistemas de saúde. Entre os seus clientes estão instituições norte-americanas e europeias.

A empresa tornou-se particularmente importante nos setores da defesa e segurança.

O nome, aliás, vem de O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien: os palantíri eram pedras que permitiam ver acontecimentos e pessoas a grande distância.

Peter Thiel não é o CEO da Palantir
Apesar de Peter Thiel ser frequentemente apresentado como a figura por trás da Palantir, não é ele quem dirige a empresa no dia a dia. Thiel é cofundador e chairman. O CEO é Alex Karp.

E compreender Karp é importante porque a Palantir não é apenas uma empresa criada por Thiel que entretanto ficou entregue a outra pessoa. Karp tem uma visão própria e bastante explícita sobre a relação entre tecnologia, poder e segurança nacional.

Em 2026, essa visão tornou-se particularmente evidente com a publicação de The Technological Republic, o livro de Karp.

O livro começa com uma frase reveladora: “Silicon Valley perdeu-se.”

Karp argumenta que a indústria tecnológica norte-americana se afastou das necessidades estratégicas dos Estados Unidos e que Silicon Valley deveria voltar a trabalhar mais directamente com o Estado, sobretudo em áreas como defesa, inteligência e segurança.

A própria Palantir publicou posteriormente um resumo do livro organizado em 22 teses, num texto que assumia claramente um tom político e geopolítico.

E uma das ideias centrais é particularmente significativa: a inteligência artificial está a transformar a própria natureza da guerra.

Num manifesto publicado pela empresa, a Palantir defende que está a começar uma nova era de dissuasão militar baseada em inteligência artificial.

A pergunta, segundo o documento, já não é se serão construídas armas de IA. É quem as construirá e com que finalidade.

Karp defende, assim, uma relação muito mais próxima entre Silicon Valley e o aparelho de defesa norte-americano.

A Palantir chega a afirmar que a indústria tecnológica tem uma “dívida moral” para com o país que tornou possível a sua ascensão e que Silicon Valley deveria ir além das aplicações para consumidores e contribuir directamente para o crescimento económico e a segurança nacional.

Esta posição ajuda a explicar por que razão Karp é tão vocal na defesa da utilização de inteligência artificial em operações militares.

Tecnologia ou infraestrutura de poder?
A Palantir desenvolve sistemas capazes de juntar enormes quantidades de informação provenientes de fontes diferentes – imagens de câmaras, redes sociais, dados públicos, registos policiais, drones e outras bases de dados – e transforma-as em informação utilizável para investigação ou tomada de decisões.

Para os defensores da empresa, isto permite que governos e forças militares tomem decisões mais rápidas e informadas.

Para os críticos, significa outra coisa: a criação de uma infraestrutura tecnológica que pode tornar a vigilância, a identificação de pessoas e a utilização militar de dados muito mais poderosas.

O debate tornou-se ainda mais intenso porque os clientes da Palantir incluem precisamente algumas das instituições com maior capacidade coerciva do Estado. Nos Estados Unidos, a empresa trabalha com o Pentágono, a CIA e o ICE. Na Europa, os seus sistemas também são utilizados por forças policiais e outras autoridades.

E existe uma diferença fundamental entre dizer que uma empresa fornece uma ferramenta e perguntar o que essa ferramenta permite fazer quando colocada nas mãos de um Estado.

A Palantir responde que o software não toma sozinho decisões políticas ou militares. Mas essa defesa não elimina a questão mais ampla: quanto mais poderosa for a ferramenta, mais importante se torna saber quem decide como utilizá-la.

É por isso que a posição de Karp é tão relevante para compreender a Palantir.

Ele não apresenta a empresa como uma simples fornecedora neutra de software. Apresenta-a como parte de uma transformação mais profunda na relação entre tecnologia, Estado e poder militar. E isso aproxima, de forma bastante evidente, a Palantir do universo político e intelectual de Peter Thiel.
Da inteligência artificial à vigilância

A controvérsia tornou-se particularmente forte na Europa. No Reino Unido, a Palantir tem um contrato de cerca de 330 milhões de libras e sete anos com o NHS, o sistema público de saúde britânico, para desenvolver a Federated Data Platform. A plataforma pretende ligar diferentes conjuntos de dados do NHS e melhorar a gestão dos serviços.

Para os defensores, é precisamente o tipo de tecnologia que pode tornar um sistema gigantesco mais eficiente.

Para os críticos, a questão é outra: deverá uma empresa tecnológica norte-americana, com fortes ligações ao setor militar e de inteligência dos EUA, ocupar uma posição tão importante na infraestrutura digital de um serviço público europeu?

Em 2026, a pressão aumentou. Parlamentares britânicos passaram a defender que o contrato deveria ser abandonado, enquanto o Governo britânico iniciou uma revisão do acordo e pondera utilizar uma cláusula que permitiria terminar o contrato em 2027.

O problema não é apenas a privacidade. É também a soberania tecnológica.

Se um país depende de uma empresa estrangeira para uma parte crítica da sua infraestrutura digital, quem controla realmente essa infraestrutura? Essa pergunta tornou-se particularmente importante na Europa desde o regresso da guerra à Europa e o aumento das tensões entre os EUA e os seus aliados.

A Europa procura alternativas à Palantir
A Europa começou a procurar alternativas próprias. Em França, a agência de segurança interna DGSI escolheu a empresa francesa ChapsVision para substituir progressivamente a Palantir. A decisão foi apresentada pelo Governo francês como parte de uma estratégia de soberania tecnológica.

A ChapsVision é uma empresa relativamente pequena comparada com a Palantir, mas está a tentar ocupar precisamente esse espaço: integração de dados, inteligência artificial, investigação e segurança.

A Palantir tinha sido utilizada pelos serviços franceses desde os atentados terroristas de 2015. Agora, França quer demonstrar que pode construir uma alternativa europeia. E não está sozinha.

A Alemanha, os Países Baixos, a Suíça, a Dinamarca e outros países têm debatido a dependência de tecnologias norte-americanas. O secretário de Estado neerlandês da Defesa afirmou em 2026 que deveria existir uma alternativa plenamente funcional à Palantir num prazo de dois anos.

A própria discussão já criou um novo mercado: “o Palantir europeu”. ChapsVision é provavelmente o candidato mais evidente neste momento, embora empresas como Quantexa, Adarga, DataWalk, Ripjar e Siren também sejam apontadas como alternativas em diferentes áreas.

Thiel quer muito mais do que tecnologia
Para perceber Peter Thiel é preciso sair do mundo empresarial. Thiel tem uma visão política e filosófica muito própria.

É associado ao libertarianismo tecnológico (“tecno-libertarianismo”), embora as suas ideias sejam mais radicais do que o libertarianismo económico tradicional.

Uma das suas frases mais conhecidas surgiu num ensaio de 2009: “I no longer believe that freedom and democracy are compatible.”

Thiel argumenta que as democracias tendem a criar maiorias políticas que podem limitar a liberdade individual, enquanto o capitalismo e a inovação tecnológica podem ser travados por regulamentação.

Isto é relevante para se compreender o fascínio de Thiel por experiências que procuram criar espaços onde as regras sejam diferentes. É aqui que se entra em Próspera.

Próspera: a “cidade tecnológica” de Peter Thiel

Imagine poder construir uma cidade praticamente do zero. Agora imagine que, em vez de estar sujeita às mesmas regras fiscais, regulatórias e administrativas do país onde se encontra, essa cidade dispõe de uma enorme autonomia. Essa é, em termos simplificados, a ideia por trás de Próspera, na ilha de Roatán, nas Honduras.

Próspera é uma ZEDE – Zona de Emprego e Desenvolvimento Económico. O projeto nasceu no contexto de uma legislação hondurenha que permitia a criação de zonas com elevado grau de autonomia. A ideia era criar uma espécie de “startup city”: um laboratório onde novas formas de governação, tributação, regulação e tecnologia pudessem ser testadas.

Próspera possui um sistema jurídico e regulatório próprio, utiliza mecanismos privados de arbitragem e foi concebida para atrair empreendedores e investidores internacionais.

E aqui entra o dinheiro do Silicon Valley. Próspera recebeu financiamento de investidores ligados a figuras como Peter Thiel, Sam Altman e Marc Andreessen. A própria empresa responsável pelo projeto afirma ter captado mais de 120 milhões de dólares junto de quase 100 investidores; outras reportagens apontam para valores próximos dos 200 milhões.

Não é correto, contudo, dizer que Peter Thiel “é dono de Próspera”. A estrutura é mais complexa e a composição exata dos investidores privados não é totalmente pública. O que é indiscutível é que Thiel está ligado ao ecossistema financeiro e ideológico que apoiou o projeto. [Fonte]

domingo, 15 de maio de 2022

Música do Bioterra: Coldplay - When I Need A Friend


Ao vivo, na Jordânia

[Verse]
Holy, Holy
Dove descend
Soft and slowly
When I'm near the end
Holy, Holy
God defend
Shield me, show me
When I need a friend

[Chorus]
Slowly, slowly
Violence, end
Love reign o'er me
When I need a friend

[Outro: Don Agustín]
Hombre, mire
Ah, propiamente
Para toda la gente ha sido motivo de burla
Por que todo el mundo piensa que es una cosa imposible
Que es cuestión de locos
El problema es que todo es increíble
Y la gente no lo acepta

Em "When I Need A Friend", do Coldplay, a presença do trecho em espanhol ao final da música adiciona uma dimensão importante ao seu significado. A fala de Don Agustín, que dedicou sua vida a um sonho considerado impossível, reforça a ideia de que a fé e a esperança muitas vezes são vistas como loucura por quem não entende a profundidade dessas motivações. Isso conecta a busca espiritual da letra à resiliência diante do julgamento e da incompreensão dos outros.

Baseado no documentário  Everything Is Incredible, que conta a história sobre o falecido Don Agustín López Pacheco

A letra principal traz versos como “Holy, Holy / Dove descend / Soft and slowly / When I'm near the end” (“Santo, Santo / Pomba desce / Suave e devagar / Quando estou perto do fim”), usando símbolos religiosos para expressar um pedido de proteção e conforto em momentos de vulnerabilidade. A pomba, símbolo do Espírito Santo e da paz, representa uma força serena e protetora. A repetição de “Holy, Holy” reforça o tom de oração, enquanto “Dark defend / Shield me, show me / When I need a friend” (“Defenda-me da escuridão / Me proteja, me mostre / Quando eu preciso de um amigo”) deixa claro o desejo de amparo diante das dificuldades. O pedido para que “violence end” (“a violência acabe”) e “love reign o'er me” (“o amor reine sobre mim”) amplia o significado da música, sugerindo uma aspiração por paz e amor universais.

Assim, "When I Need A Friend" vai além de um simples pedido de ajuda espiritual. A música se transforma num um hino à coragem de manter a fé e buscar apoio, mesmo quando o mundo duvida ou não compreende.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Extrativismo e soberania na América Latina. Uma conversa entre Eduardo Gudynas, Michael Löwy, Sabrina Fernandes e René Ramírez Gallegos


Uma conversa sobre progressismo e extrativismo, na América Latina, com Sabrina Fernandes, doutora em Sociologia pela Carleton University (Canadá) e editora da Jacobin Brasil, Eduardo Gudynas, pesquisador do Centro Latino-Americano de Ecologia Social (CLAES), Michael Löwy, diretor de pesquisa do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), e René Ramírez Gallegos, economista especializado em políticas públicas sociais, desigualdade, pobreza, que foi secretário de Educação, Ciência e Tecnologia do Equador, durante o governo de Rafael Correa.

A entrevista é de Thea Riofrancos, publicada originalmente por Jacobin América Latina e reproduzida por Observatorio de la crisis.

Eis a entrevista.

Governos progressistas, nas últimas décadas, fizeram alguns avanços importantes em termos de “políticas de soberania”: bancos, gastos públicos, política externa etc. No entanto, em questões socioambientais eles têm sido questionados sob vários ângulos. Talvez a questão mais espinhosa seja que tipo de soberania eles conseguiram —ou tentaram— promover com um modelo econômico centrado na extração e exportação de matérias-primas, ou seja, em uma base produtiva que, como foi apontado, leva mais ao aprofundamento da dependência do que à extensão da soberania. Qual é a sua leitura do tipo de desenvolvimento empreendido durante o chamado “ciclo progressista”?

Michael Löwy: A principal conquista dos governos progressistas girou em torno da redistribuição de renda, com medidas sociais em favor das camadas mais pobres da população. Aqui é preciso distinguir dois tipos de governos progressistas: os “social-liberais” (como Brasil e Uruguai), que desenvolveram uma importante política social, mas sem alterar o modelo neoliberal, e os anti-imperialistas (Venezuela e Bolívia), que enfrentaram a oligarquia e o imperialismo buscando alternativas soberanas. Em ambos os casos, porém, deparamo-nos com um modelo de desenvolvimento baseado na extração e exportação de matérias-primas, o que levou a uma nova forma de dependência do mercado internacional.

Além disso, o extrativismo é negativo sob outros pontos de vista: em primeiro lugar, é contraditório à soberania alimentar, que exige a produção de alimentos para o mercado interno e não produtos para exportação. Em segundo lugar, muitas vezes tem consequências ambientais extremamente negativas para as populações indígenas ou camponesas locais. E terceiro, no caso da extração de combustíveis fósseis – particularmente petróleo -, contribui para o catastrófico processo planetário de mudança climática.

Sem dúvida, os governos progressistas adotaram medidas sociais importantes em termos de redistribuição social. Mas eles não questionaram o modelo econômico capitalista de exportação. É verdade que é difícil para países como Equador, Venezuela ou Bolívia interromper a produção de petróleo ou gás de uma só vez. Mas há medidas intermediárias, como a proposta do Parque Nacional Yasuní promovida pelo governo de Rafael Correa no Equador (embora mais tarde o tenha abandonado): em uma região de florestas altamente biodiversas, deixar o petróleo no subsolo exigindo indenização dos países ricos.

Este projeto foi o símbolo de uma opção radical: preferir a natureza ao mercado, a vida ao lucro. Os países capitalistas industriais não se entusiasmaram com o projeto, não só porque não tem nada a ver com os “mecanismos de mercado” onde têm sua preferência, mas porque temiam o efeito estimulante dessa iniciativa: outros países poderiam apresentar propostas semelhantes.

Eduardo Gudynas: A avaliação das estratégias de desenvolvimento do progressismo está se mostrando não fácil. Dentro dos países são reivindicados, mas ao mesmo tempo são muitos os protagonistas desse ciclo que os atrapalham, seja por sua sincera convicção de ter feito a coisa certa, seja pela intenção de esconder erros. As recentes campanhas eleitorais, por exemplo, na Bolívia e no Equador, as condicionaram ainda mais, porque as energias estavam voltadas para conquistar novamente o governo. Mas a isso se sobrepõe uma rede de opiniões e analistas transnacionalizados, tanto de dentro quanto de fora da América Latina, que abusam de simplificações e slogans.

Por exemplo, você me diz que o progressismo alcançou “políticas de soberania” no setor bancário e noutros setores. Esses tipos de ditados são muito comuns, especialmente no Norte Global. Mas eles estão um pouco errados. Na realidade, sob o progressismo, o banco privado vivia num paraíso: a sua cobertura da população aumentava e a financeirização se diversificava. Isso aconteceu nos governos de Correa no Equador, Lula da Silva no Brasil ou da Frente Ampla no Uruguai, entre outros. Isso explica a bancarização obrigatória no Uruguai ou a expansão da financeirização para setores como consumo popular, educação ou saúde no Brasil.

Na realidade, os progressismos estavam cheios de claro-escuro. Tiveram avanços, estagnações e retrocessos dentro de cada setor. Devemos comemorar que reduziram a pobreza e a marginalidade, porque aliviou milhões de famílias; mas isso não quer dizer que não devamos deixar de reconhecer as limitações que tinham em sua acentuada dependência da ajuda monetária condicionada aos mais pobres ou do crédito para consumo popular. Devemos também parabenizar seus investimentos em infraestrutura, que por exemplo no Equador são evidentes em suas estradas e pontes. Mas, ao mesmo tempo, devemos entender que muito dinheiro foi perdido dentro dos labirintos do Estado, seja por meios legais, mas ineficientes, bem como por corrupção.

Essas contradições se deviam ao fato de que os progressismos —em termos gerais e muito esquemáticos— estavam orientados para uma variedade de capitalismo que buscava capturar uma proporção maior do excedente para tentar a redistribuição económica. Mas ele recorreu a práticas específicas que, como o extrativismo e o consumo de massa, exigiam sua subordinação ao capital. E isso aconteceu de várias formas: blindaram o setor financeiro, aprofundaram a exportação de matérias-primas, atraíram investimentos estrangeiros e aderiram plenamente a instituições globais (como a Organização Mundial do Comércio).

Tal operação se dava por meio de tênues balanças em que os Estados progressistas procuravam, por um lado, regular o capital e, por outro, tinham que ceder a ele. Esses equilíbrios eram instáveis, mas enquanto os preços das commodities eram altos, o excedente apropriado era capaz de sustentar as medidas de compensação e de amortecimento. Quando os preços das commodities caíram, tal coisa deixou de ser possível. E, pior ainda, isso ocorreu ao mesmo tempo em que se exauriu a capacidade de renovação política do progressismo.

René Ramírez Gallegos: A superação do modelo extrativista, e com ele da acumulação como tal, sempre foi o horizonte. Mas o fundamental é não perder a noção de temporalidade: primeiro, porque é um debate que não pode deixar de lado a subjetividade; segundo, porque há reformas do presente e reformas transitórias que apontam para uma mudança quantitativa (como a satisfação de necessidades) e para um salto qualitativo (como a transformação para uma sociedade do «bem viver»).

Nessa perspectiva, é preciso destacar que “outra acumulação” (que inclui a “não acumulação” como horizonte) implica e exige que haja muita acumulação hoje (obviamente, para fins ecossociais). Isso não é algo que uma certa esquerda gosta de ouvir. Mas vivemos dentro do capitalismo e, embora o horizonte seja superá-lo, devemos pensar na “grande transição” para essa “grande transformação estrutural”. Não pensar na ponte temporária é escrever ficção científica.

A opção de transformação social deve ser sustentável ao longo do tempo, pois acumular para benefício social em larga escala leva décadas, mas esbanjar acumulação em benefício de poucos é muito fácil (e assim foi visto ou é visto nos governos neoliberais de Bolsonaro, Macri ou Moreno). A opção que os governos progressistas tinham para essa acumulação eram os recursos naturais. E aqui devemos nos perguntar pelo menos duas coisas: a acumulação obtida com a exploração dos recursos naturais serviu para redistribuição de renda e democratização de direitos? Claramente sim.

Segundo a CEPAL, sob governos progressistas houve uma clara redução da pobreza, da desigualdade e da cobertura dos direitos sociais. Em segundo lugar, cabe perguntar se os recursos obtidos foram utilizados para uma mudança na matriz produtiva (o modo de produção). Do meu ponto de vista, não é suficiente. Em alguns países, a necessidade de tal transformação nem sequer foi discutida.

Independentemente da situação política, todas as economias latino-americanas continuam partilhando certas características centrais: os setores econômicos predominantes são baseados na extração de recursos, agricultura de monocultura e indústria de baixos salários; em termos de emprego, a região é marcada por um grande setor informal, bem como pela prática enraizada de precarização e terceirização, resultando numa classe trabalhadora que trabalha em extrema precariedade sem rede de proteção social; e em termos de inserção no sistema mundial, a região encontra-se em um lugar de dependência caracterizado por exportações de baixo valor agregado, plena integração aos mercados globais e altos níveis de dívida soberana. O que a pandemia e a crise económica revelaram sobre o modelo de acumulação na região? Que abordagem deve orientar a recuperação latino-americana e em que escala ela deve ser concebida e implementada?

Sabrina Fernandes: A pandemia revelou que as classes capitalistas do continente não têm vergonha em seu espírito de maximizar seus lucros quando a população mais pobre vive o risco diário de morrer, seja de fome ou de COVID. Com o aumento da informalidade do emprego e da pobreza, esperamos que as organizações de esquerda em todos os continentes percebam de uma vez por todas que o atual modelo de desenvolvimento nos mantém vulneráveis e que não é possível derrotar a direita sem políticas mais radicais.

Nossa história é uma história de golpes e intervenções imperialistas. A memória do atentado a Salvador Allende, por exemplo, vive como um aviso melancólico de que “não podemos pedir muito”. Esse é um caminho perigoso de aceitação do sistema capitalista. Mas então o que fazer? Primeiro, entenda que a burguesia se fortalece quando pode governar tanto com a direita quanto com a esquerda. O golpe contra o governo de Dilma Rousseff, nesse sentido, foi um golpe duplo: veio de fora (como sabemos, pela influência dos Estados Unidos), mas também de dentro, dos mesmos grupos aliados dos governos de Dilma e de Lula um pouco antes.

Por outro lado, é preciso nos convencer de que os governos de esquerda devem investir muito mais num projeto de mudança ecológica como força de criação de novos empregos, numa rede energética o máximo autónoma possível, bem como em caminhos para uma agricultura agroecológica reformada. Os investimentos devem ser públicos, estaduais ou comunitários: bem diferente dos acordos de fomento, que estimulavam projetos de 20 ou 30 anos de lucro para corporações que nem sequer garantem um bom serviço.

Para que a recuperação nada mais seja do que um novo pacote de estímulos econômicos no capitalismo, as organizações sindicais devem ser incluídas no processo de planejamento, assim como a comunidade de professores e pesquisadores deve opinar sobre mudanças importantes nos conteúdos das universidades e da direção de pesquisa e desenvolvimento tecnológico. E esse investimento com dinheiro público deve incluir também as comunidades, pois elas estão mais aptas a saber se o problema local da fome é melhor resolvido com hortas comunitárias ou com mais comida na escola das crianças.

A crise atual se sobrepõe a várias crises que já estavam em andamento em 2019 e antes. Por sua vez, embora existam semelhanças, as diferenças entre os países também são muito importantes. O que acontece, por exemplo, no Brasil não é o mesmo que acontece no Chile, México ou Colômbia. Após esse alerta, pode-se dizer que diferentes graus de colapso, colapso ou miséria são observados na política e no papel dos governos. Em alguns casos, isso é extremo, como pode ser visto com a inação e o autoritarismo de Jair Bolsonaro no Brasil. Sem atingir esse nível, outras situações também são dramáticas. É o caso, por exemplo, do Peru, onde enquanto os contágios avançavam, a política partidária desmoronava.

Nesse desespero, os governos recorrem novamente ao extrativismo como forma de aliviar a crise econômica. Todos os países sul-americanos, sem exceção, tentam aumentar suas exportações de matérias-primas e ao mesmo tempo agregar novos setores (como a mineração de lítio ou a expansão das monoculturas transgênicas).

René Ramírez Gallegos: A pandemia de COVID-19 exigiu uma mudança radical nos sistemas agroindustriais de alimentos, única forma de reduzir ou eliminar a possibilidade de novas zoonoses. Isso foi alertado há muito tempo pelos movimentos ambientalistas. Da mesma forma, a importância do papel da mulher na reprodução da vida tem feito parte das lutas dos movimentos feministas. Mais ainda: todo o modelo de relação entre o ser humano e a natureza deve ser transformado, pois é o imperativo da acumulação que tem levado à depredação do meio ambiente e aos desequilíbrios ecológicos que permitem a atual pandemia.

Embora a região tenha que consolidar um estado de bem-estar social que coloque o público e o comum antes do privado ou do comercial, conseguir isso não leva à superação dos problemas colocados pela pandemia. Deixar de ser “periferia” e passar a fazer parte do “centro” não é a solução para os países da nossa região. A Europa, sendo o continente com os maiores níveis de bem-estar do mundo, não escapou dos impactos da pandemia. O objetivo deve ser construir alternativas ao desenvolvimento. Porque o desenvolvimento como o conhecemos nos leva a aprofundar a crise sanitária, e esse tipo de ameaça se tornará cada vez mais frequente no mundo.

Além do momento da recuperação, qual é o horizonte político da esquerda? Se entendermos a pandemia do COVID-19 como a primeira grande crise ecológica global, é hora de um paradigma que aborde mais explicitamente as questões entrelaçadas de extração de recursos, danos ecológicos e mudanças climáticas? Em outras palavras, é hora de passar do “socialismo do século 21” para a discussão do ecossocialismo, um novo pacto ecossocial, uma economia democrática verde ou alguma outra formulação? Como você define sua visão de uma alternativa radical ao modelo econômico predominante e como você acha que as conexões fundamentais entre a economia e a natureza poderiam ser articuladas?

Sabrina Fernandes: Vivemos um momento frágil para a esquerda revolucionária, e a direita continua avançando em nosso continente. Não podemos simplesmente esperar o momento da revolução, porque o risco de chegarmos tarde é grande. Um grande pacto ecossocial ou um green new deal, qualquer que seja o nome de um sério projeto de descarbonização enraizado na justiça social, deve fazer parte da construção do ecossocialismo na América Latina.

Mas um pacto não será suficiente, e os ecocapitalistas sabem disso e tentam sequestrar as discussões sobre investimento e as políticas em torno dele. Assim, a tarefa é impulsionar ,medidas de descarbonização focadas no setor público, juntamente com um projeto de autonomia energética e investimento tecnológico. Um novo ciclo progressivo pode ser capaz de fazê-lo. A esquerda mais radical deve partir dessa base para trabalhar a consciência da classe trabalhadora em direção a uma ruptura secular. E só o ecossocialismo apresenta a possibilidade de uma síntese entre os debates do pós-extrativismo, descarbonização, direito à cidade, bem viver, ecofeminismo, soberania e internacionalismo, antirracismo e decrescimento.

René Ramírez Gallegos: Os paradigmas não nascem de grandes think tanks, mas de lutas históricas, de processos democráticos, de resistências criativas. Mas são necessários quadros analíticos para acompanhar e fornecer ferramentas para essas grandes disputas civilizatórias. No Equador, em um movimento constituinte entre 2007 e 2008, surgiu do intelecto social coletivo o pacto social que se denominou “bem viver” ou Sumak Kawsay. Do meu ponto de vista, essa proposta vai além do chamado “socialismo do século XXI” e até do ecossocialismo: é uma proposta nascida de um amplo processo constituinte.

É uma proposta de mudança social epistêmica e é, voltando ao exposto, uma alternativa social ao desenvolvimento. Não veio de nenhuma cabeça, de nenhum think tank. Tem suas raízes em uma frente social antineoliberal que foi canalizada para um processo constituinte, que se nutriu dos saberes ancestrais dos povos indígenas, do feminismo, da economia social e solidária, do ambientalismo, das lutas estudantis, das classes médias, dos pobres, etc. Esse quadro analítico propõe que o conceito de “bem viver” deve ser lido a partir do que está consagrado no pacto de convivência assinado pelos equatorianos na Constituição de 2008. Algo semelhante aconteceu na Bolívia, enquanto se construía um processo constituinte com paradigmas alternativos.

As políticas públicas, é claro, não surgem no vácuo ou são concedidas livremente pelas elites políticas. Os Estados são condensações da luta de classes, e as políticas que decretam refletem o equilíbrio de poder predominante na sociedade em geral. Dadas suas respostas acima, como essa mudança de paradigma poderia ocorrer? Que atores coletivos, forças de classe e movimentos sociais estão preparados para atuar como protagonistas na próxima batalha pelo modelo de recuperação econômica e social, e além? Que alianças e blocos poderiam reunir diferentes grupos em uma força com potencial hegemônico, capaz de transformar o modelo de acumulação vigente?

René Ramírez Gallegos: Um problema grave nessas duas décadas do século XXI é que na América Latina tem havido um processo de desindustrialização com a transição para uma sociedade centrada no setor de serviços, muitas vezes deslocalizada (isso no quadro de uma sociedade heterogênea, informal, com alta níveis de subemprego). Isso torna muito mais complexa a lógica da ação coletiva em torno das lutas pelo trabalho decente.

Há algumas semanas, li um tuíte que, seguindo Chico Mendes, dizia: «ambientalismo sem luta de classes é jardinagem; o feminismo sem luta de classes é a guerra dos sexos; anticolonialismo sem luta de classes é (potencial) fascismo». É claro que a lógica também deve ser lida de trás para frente; ou seja, não se deve pensar em luta social sem luta feminista, ambientalista ou pós-colonial, nem ambientalismo sem luta feminista etc. O que é preciso é a convergência de todas essas lutas sociais. A forma que a convergência assume depende de cada contexto: na Argentina, por exemplo, é liderada por trabalhadores e mulheres; no Equador, agora, pelo movimento indígena. E esses setores terão que se articular com os movimentos políticos que disputam eleitoralmente o Estado.

Michael Löwy: Atualmente, acho que as forças mais ativas na luta por uma mudança de paradigma na América Latina são os jovens, as mulheres, os camponeses e as comunidades indígenas. Movimentos como a Via Campesina têm um papel muito importante, pois procuram associar a luta camponesa pela terra com uma perspectiva ecológica. E as comunidades indígenas estão na linha de frente da luta contra o extrativismo, em defesa das florestas e dos rios. “Água sim, ouro não!” é a palavra de ordem dos camponeses e indígenas do Peru contra a mineração de ouro que envenena os rios. Muitas vezes as mulheres são as mais ativas nessas mobilizações, mesmo à custa de suas próprias vidas, como Berta Cáceres em Honduras.

No entanto, não conseguiremos criar uma força hegemônica capaz de romper com o modelo dominante sem o apoio da classe trabalhadora, do proletariado rural e urbano. Também precisamos incluir intelectuais, artistas, cristãos da libertação e a massa do “pobretariado”, os excluídos do sistema. A tarefa fundamental da esquerda socialista é organizar esse bloco de classes e camadas sociais. E fazendo isso de baixo: nos bairros, nas fábricas, nas escolas, no campo, nas florestas. A partir de demandas concretas e imediatas, como não pagar a dívida externa, reforma agrária, etc., mas tentar impulsionar, no mesmo movimento, uma dinâmica antissistêmica, anticapitalista.

Por fim, diante da possibilidade de um novo superciclo de commodities e com o retorno de vários governos progressistas, que conselho você daria aos governos de esquerda ou centro-esquerda —atuais e futuros— na região? Como devem se orientar em um contexto de crise multidimensional, em que outro boom de commodities pode trazer maior pressão para expandir a fronteira agrícola e extrativista? Como suas economias nacionais poderiam mudar para a transição para energia renovável, maior proteção social, agricultura regenerativa e outras alternativas econômicas ao extrativismo? Essa transição poderia ser financiada? É possível traçar um caminho nessa direção sem a coordenação dos governos do Sul Global para acabar com o regime de dívida e austeridade imposto pelas instituições financeiras?

Sabrina Fernandes: Se não há socialismo em um único país, também não pode haver ecossocialismo, pois reconhece que para a natureza não há fronteiras. Por outro lado, é perigoso para o progressismo ver um novo superciclo de mercadorias como uma janela de possibilidade para mais investimentos nos setores extrativistas, em colaboração com os grandes capitalistas.

Nunca devemos abandonar a luta pela distribuição justa da propriedade da terra e dos direitos originários e tradicionais aos territórios. Os governos de esquerda devem começar corrigindo a enorme desigualdade no acesso à terra se quiserem realmente evitar que o superciclo resulte em maior concentração de riqueza e ativos. E isso também está relacionado à discussão sobre o mercado financeiro e o papel que ele desempenha na garantia de lucros com commodities, quando diferenças de preços e barreiras de concorrência colocam em risco o trabalhador rural.

Mas há outra coisa que precisamos discutir: por que a transição para energia renovável é tão importante. Toda produção de energia em larga escala tem impactos ambientais e sociais. Nossa tarefa é minimizar os impactos atendendo às demandas das comunidades ameaçadas. Não é possível pensar – como algumas das grandes potências econômicas acreditam hoje – que se trata apenas de crescimento e desenvolvimento econômico, mas agora com energias renováveis. Dessa forma, os impactos que o sistema industrial extrativista tem são esquecidos, mesmo quando se trata de investimentos em tecnologia verde.

Para alguns desses governos, a busca por lítio e outros minerais já é vista como uma nova oportunidade de crescimento. Na Bolívia, Luis Arce disse desde sua campanha que aspira fazer do país uma grande energia solar com seu próprio lítio. Declarações como essas não levam em conta os limites do lítio boliviano, as exigências de proteção ambiental na área e o grande desafio da transferência de tecnologia. Explorar o lítio e exportá-lo sem acesso direto à tecnologia não resulta no desenvolvimento verde da Bolívia, mas de outros, seja da União Europeia ou da China.

Michael Löwy: Não existe “receita milagrosa” para sair dos impasses da crise atual. Mas uma coisa é certa: os governos progressistas não tomarão o caminho de uma mudança de paradigma se não houver pressão social e política “de baixo” que os leve a fazê-lo. É por isso que a tarefa prioritária dos ecossocialistas passa pela organização do movimento, pela aliança de classes e grupos sociais interessados em uma mudança radical.

Mas para isso não podemos sentar e esperar que todos os governos do Sul Global se juntem. Com mais um ou dois governos avançados, que servem de exemplo e estimulam outras experiências, já teremos dado um grande passo em direção ao objetivo final: uma agenda latino-americana para uma mudança de paradigma, capaz de criar uma relação de forças no continente nível.

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Nunca o mundo foi tão perigoso para quem defende a natureza, revela a Global Witness



Em 2020, pelo menos 227 pessoas morreram por defenderem a natureza, revela hoje o novo relatório da Global Witness. Os países mais perigosos foram a Colômbia, o México e as Filipinas.

“Em 2020 registámos 227 ataques letais, uma média de mais de quatro pessoas por semana”, escreve a organização em comunicado. Em 2019 tinham sido registadas 121 mortes.

Assim, o ano passado foi “o ano mais perigoso desde que há registos para quem defende as suas casas, terras, meios de subsistência e ecossistemas vitais para a biodiversidade e o clima”.

Estes ataques acontecem num contexto de inúmeras ameaças, como intimidação, violência sexual, crime e perseguição.

Ainda assim, sublinha a organização no relatório “Last Line of Defense – the industries causing the climate crisis and attacks against land and environmntal defenders“, “os nossos números estão, seguramente, subestimados e muitos ataques contra defensores da natureza não são denunciados”.

No ano passado, mais de metade dos ataques aconteceram em apenas três países: Colômbia (65), México (30) e Filipinas (29). Pelo segundo ano consecutivo, a Colômbia registou o maior número de mortes, com 65 activistas assassinados. Estas mortes aconteceram num “contexto de ataques aos direitos humanos dos activistas e de líderes de comunidades locais por todo o país”. Os povos indígenas foram especialmente afectados e a pandemia só agravou a situação. Isto porque o Governo cortou nas medidas de protecção a estas pessoas e porque o confinamento tornou os ataques mais fáceis.

O México registou um aumento de 67% no número de ataques em relação a 2019, acabando o ano com 30 mortes. O abate ilegal de árvores foi ligado a quase um terço dos ataques e quase metade foi dirigido contra comunidades indígenas.

“De forma chocante, a impunidade por crimes contra activistas continua extremamente elevada. Cerca de 95% dos assassinatos não resultaram em condenações.”

Nas Filipinas, a luta contra indústrias destruidoras do mundo natural – como projectos ligados a barragens, explorações mineiras e desflorestação – foi a razão que colocou os activistas em maior perigo.

Na lista dos cinco países com mais mortes estão ainda o Brasil (20 mortes) e as Honduras (17).

Se olharmos para as situações em que os activistas foram atacados por proteger um ecossistema em particular, 70% estavam a trabalhar para defender as florestas da desflorestação e do desenvolvimento industrial. No Brasil e no Peru, quase três quartos dos ataques registados aconteceram na região da Amazónia de cada país.

No total, quase 30% dos ataques estavam ligados à exploração de recursos naturais – abate ilegal de árvores, exploração mineira e projectos agrícolas de larga escala – e barragens hidroeléctricas e outras infraestruturas. Destes, o abate ilegal de árvores foi o sector onde se registaram mais mortes, num total de 23. O México viu aumentar o número de mortes relacionadas com a desflorestação, atingindo nove em 2020.

“Em demasiados países, ricos em recursos naturais e com biodiversidade crucial para combater as alterações climáticas, há indústrias a operar com quase total impunidade”, lamenta a Global Witness. “É raro alguém ser detido ou levado à Justiça por matar activistas.”

Assim como o que acontece com os impactos da crise climática, também os impactos da violência contra activistas não são sentidos de forma igual no mundo. A Global Witness denuncia o “desproporcionado número de ataques contra os povos indígenas”, representando mais de um terço dos ataques fatais, mesmo quando as comunidades indígenas representam apenas 5% da população mundial.

Esta organização, que faz este levantamento desde 2012, pede aos Estados para garantirem políticas nacionais de protecção do ambiente e de quem o defende, que exijam às indústrias que investiguem e condenem todos os responsáveis pela violência e outras ameaças contra os activistas.

“Os activistas são a nossa última linha de defesa contra a crise climática”, comenta a Global Witness. “Mesmo depois de décadas de violência, as pessoas continuam a defender as suas terras e o nosso planeta. Em cada história de desafio ao roubo e apropriação de terras perpetrado por empresas, contra desastres ambientais, há a esperança de podermos virar esta maré e aprender a viver em harmonia com o mundo natural. Até aprendermos, a violência vai continuar.”

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Quais são os países mais afetados pela mudança climática


Segundo organização germânica, em primeiro lugar na categoria de risco estão os países insulares ou mais próximos à costa: Honduras, Mianmar e Haiti. Brasil está em zona de risco moderado.
Por Juliana Winkel, da Agência Jovem de Notícias, via Envolverde
Nesta terça-feira (12 de Novembro de 2013), a COP19 sediou a discussão a respeito dos índices da organização não-governamental Germanwatch, dedicada a analisar onde e como têm ocorrido os principais danos ambientais ao longo dos últimos anos, em especial ligados a fenómenos bruscos e de consequências violentas (inundações, tufões, ondas de calor e outros). Foram divulgados os dados mais recentes apurados pela organização, abrangendo o período entre 1993 e 2012. Em primeiro lugar na categoria de risco, estão os países insulares ou mais próximos à costa: Honduras, Mianmar e Haiti. Olhando para o último ano, os mais afectados foram as Filipinas, Paquistão e novamente o Haiti.

Outros países com índices altos de incidência ou risco de catástrofes, na América Latina, são Nicarágua, República Dominicana e Guatemala – dividindo a classificação com Banladesh, Vietnam, Mongólia e Tailândia. O Brasil está em zona de risco moderado – entre 51 e 100, em uma escala de zero a 100, embora também apresente potencial de risco especialmente em suas áreas litorâneas. De acordo com os especialistas do Germanwatch, é preciso uma união de tecnologia, recursos financeiros e conhecimento científico para enfrentar as mudanças climáticas.
Confira o relatório completo do Germanwatch (em inglês) neste link.

sábado, 10 de setembro de 2005

Citizen scientists locate plastic pollution hotspot


Big Microplastic Survey gathers data from 39 countries, uncovering widespread nurdle and bio-bead contamination.

Plastic pellets, bio-beads and other microplastics are polluting coastlines around the world, with new research showing sharp regional differences in the types and concentrations of plastic found.

The findings come from a study by the University of Portsmouth using data from the Big Microplastic Survey (BMS) – one of the largest citizen science projects of its kind – which analysed 1,089 surveys carried out by volunteers across 39 countries between 2018 and 2024.

The study, published in Environmental Monitoring and Assessment, examined nearly 59,000 pieces of plastic to map global patterns of coastal pollution.

Shipping
Lead author Dr David Jones from the University of Portsmouth said: “Our results show that plastic pollution is not just a local problem, it’s a global crisis, with different regions facing different challenges.

"Several thousand volunteers have taken part in the Big Microplastic Survey, which demonstrates the power of citizen science to gather data on a scale that traditional methods alone could never achieve.”

The research revealed that nurdles - pre-production plastic pellets - were the most common type of plastic recorded.

The Netherlands reported the highest counts, with levels 14 times greater than the next worst-affected country - primarily the result of a shipping container disaster.

Bio-beads, which are widely used in wastewater treatment, were also heavily concentrated in the Netherlands and Honduras, with Britain ranking third, based on average counts per sample.

Negotiation
In contrast, secondary plastics - fragments that break down from larger items - were more commonly found in Kenya and Honduras. Expanded polystyrene was particularly prevalent in Thailand, Indonesia and Portugal. Across all countries, white plastics dominated, followed by clear or opaque, blue and green.

Alongside the pollution data, the study demonstrated how citizen science can work on a global scale. There were more than 1,000 registrations to participate in the project from 66 countries, with Britain, the United States and Australia providing the highest numbers.

However, fewer than one in five registrants went on to submit data, underlining the challenges of sustaining volunteer engagement.

Where projects did succeed, they were often driven by non-governmental organisations, which proved to be the most effective contributors and were frequently responsible for the bulk of surveys within their regions.

The research highlights the growing importance of citizen science in supporting international efforts to tackle plastic pollution. In 2022, the United Nations Environment Assembly agreed to a legally binding treaty to end plastic pollution, which calls on member states to improve monitoring and reporting. The treaty is still under negotiation.

Inclusive
Dr Michelle Hale, Head of School of the Environment and Life Sciences at the University of Portsmouth, added: “While there are limitations to volunteer-collected data, citizen science can fill critical gaps, particularly in regions where resources for environmental monitoring are limited. It also helps build community engagement - a vital step in tackling plastic pollution at its source.”

The study concludes that combining citizen science with traditional scientific methods could offer the most effective approach to tracking the spread of microplastics and shaping policies to reduce them.

The University of Portsmouth is home to the Revolution Plastics Institute which is dedicated to finding solutions that address plastic pollution and generating a globally-relevant community of plastics researchers.

The Institute aims to urgently confront the global plastics crisis through inclusive, solutions-focused research and innovation to support the transition to a sustainable plastics future. Projects span across all disciplines combining creativity, research and innovation to address the impact of plastic.