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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Aves migradoras estão a conseguir adaptar-se a um Ártico mais quente. Mas não será para sempre.


As aves aquáticas migradoras que viajam para o Ártico para se reproduzirem têm alguma capacidade para anteciparem as suas longas jornadas para coincidirem com a chegada cada vez mais precoce da primavera ao pólo norte da Terra. Contudo, há limites.

Num artigo publicado na revista ‘Nature Climate Change’, mais de duas dezenas de cientistas acompanharam, via GPS, as migrações de cinco espécies: o ganso-de-faces-pretas (Branta bernicla bernicla), o ganso-de-faces-brancas (Branta leucopsis), o ganso-grande-de-testa-branca (Anser albifrons), o ganso-de-bico-curto (Anser brachyrhynchus) e o cisne-de-bewick (Cygnus columbianus bewickii).

A equipa percebeu que estas aves são capazes de reduzir o tempo que passam a alimentar-se, e a abastecerem as suas reservas de energia e gordura, em preparação para a migração, e, dessa forma, lançarem-se aos céus mais cedo para chegarem ao Ártico quando a primavera precoce começa a brotar.

“Os nossos resultados são tanto encorajadores como preocupantes”, admite, citado em comunicado, Hans Linssen, da Universidade de Amesterdão e primeiro autor do estudo.

“Mostramos que estas aves podem migrar mais rapidamente ajustando as paragens que fazem e os tempos de alimentação”, explica o investigador, mas avisa que esta flexibilidade só será vantajosa “durante mais umas décadas”, entre 18 e 28 anos, mais precisamente. Depois disso, adiantar as migrações, por si só, não será suficiente.

Isto, porque as aves precisam de estar bem alimentadas antes de percorrerem milhares de quilómetros até ao Ártico, e isso exige paragens ao longo do caminho para descansarem e recuperarem energias. Além disso, para partirem mais cedo e poderem coincidir a sua chegada com a de primaveras cada vez mais antecipadas, fruto das alterações climáticas, as aves precisam de alimentos de alta qualidade e condições favoráveis, o que nem sempre acontece.

Por isso, é possível que muitas aves acabem por chegar ao Ártico em más condições de saúde, o que poderá afetar a sua reprodução e, em última análise, o futuro das suas populações.

“Estas aves estão a mostrar uma adaptabilidade incrível”, refere Linssen. “Mas, em meados do século, elas precisarão de outras estratégias, como mudarem os seus locais de invernada ou alterarem completamente as rotas de migração, para conseguirem estar sincronizadas com a primavera ártica.”

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Aves migradoras estão a conseguir adaptar-se a um Ártico mais quente. Mas não será para sempre


As aves aquáticas migradoras que viajam para o Ártico para se reproduzirem têm alguma capacidade para anteciparem as suas longas jornadas para coincidirem com a chegada cada vez mais precoce da primavera ao pólo norte da Terra. Contudo, há limites.

Num artigo publicado recentemente na revista ‘Nature Climate Change’, mais de duas dezenas de cientistas acompanharam, via GPS, as migrações de cinco espécies: o ganso-de-faces-pretas (Branta bernicla bernicla), o ganso-de-faces-brancas (Branta leucopsis), o ganso-grande-de-testa-branca (Anser albifrons), o ganso-de-bico-curto (Anser brachyrhynchus) e o cisne-de-bewick (Cygnus columbianus bewickii).

A equipa percebeu que estas aves são capazes de reduzir o tempo que passam a alimentar-se, e a abastecerem as suas reservas de energia e gordura, em preparação para a migração, e, dessa forma, lançarem-se aos céus mais cedo para chegarem ao Ártico quando a primavera precoce começa a brotar.

“Os nossos resultados são tanto encorajadores como preocupantes”, admite, citado em comunicado, Hans Linssen, da Universidade de Amesterdão e primeiro autor do estudo.

“Mostramos que estas aves podem migrar mais rapidamente ajustando as paragens que fazem e os tempos de alimentação”, explica o investigador, mas avisa que esta flexibilidade só será vantajosa “durante mais umas décadas”, entre 18 e 28 anos, mais precisamente. Depois disso, adiantar as migrações, por si só, não será suficiente.

Isto, porque as aves precisam de estar bem alimentadas antes de percorrerem milhares de quilómetros até ao Ártico, e isso exige paragens ao longo do caminho para descansarem e recuperarem energias. Além disso, para partirem mais cedo e poderem coincidir a sua chegada com a de primaveras cada vez mais antecipadas, fruto das alterações climáticas, as aves precisam de alimentos de alta qualidade e condições favoráveis, o que nem sempre acontece.

Por isso, é possível que muitas aves acabem por chegar ao Ártico em más condições de saúde, o que poderá afetar a sua reprodução e, em última análise, o futuro das suas populações.

“Estas aves estão a mostrar uma adaptabilidade incrível”, refere Linssen. “Mas, em meados do século, elas precisarão de outras estratégias, como mudarem os seus locais de invernada ou alterarem completamente as rotas de migração, para conseguirem estar sincronizadas com a primavera ártica.”

terça-feira, 27 de maio de 2025

A migração espectacular de um falcão fêmea


Um falcão fêmea equipada com um rastreador GPS, fez uma jornada da África do Sul até a Finlândia, percorrendo cerca de 230 km por dia.
Ela voou em linha reta pelas terras africanas até chegar ao deserto no norte, depois seguiu o caminho do Rio Nilo pelo Sudão e Egito e evitou sobrevoar o Mar Mediterrâneo.
Ela cruzou a Síria e o Líbano e também evitou sobrevoar o Mar Negro, pois se tivesse sede, não poderia beber dele.
Ela continuou em linha reta e chegou à Finlândia depois de 42 dias.

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Como um gene de cão pode ter ajudado o lobo-ibérico a sobreviver: uma história com 3.000 anos


Ao contrário de várias populações de lobo que se extinguiram na Europa, o lobo-ibérico tem resistido e apresenta uma característica muito singular. Esta história começou há mais de 3000 anos e há um gene de cão “perdido” que ajuda a contar o que aconteceu.
“Quando estamos sozinhos na montanha e sentimos um arrepio repentino na nuca é porque o lobo está perto.” Imaginem ouvir isto numa aldeia cheia de gente, onde as crianças brincam na rua, os mais velhos fazem da agricultura o seu sustento, e o som da Natureza se sobrepõe a todos os outros... Assim era a aldeia minhota de Aboim da Nóbrega nos anos 90, onde cresci.

Nos nossos serões em família, os meus avós contavam muitas histórias do passado na aldeia, e o lobo assumia o papel de personagem principal em muitas delas — e não era o de herói. Diziam-me que durante a sua juventude era frequente os lobos descerem da montanha para se alimentarem dos rebanhos: as pessoas assustavam-se e os homens juntavam-se para caçar estes impiedosos predadores. Conseguia perceber nas suas vozes e olhares o medo e o ódio que estas criaturas esquivas e misteriosas despertavam. E eu, ainda com seis anos, dava por mim a temer o lobo e a não o querer por perto.

A verdade é que a situação tinha mudado e o frequente avistamento de lobos tornara-se algo quase fantasioso. Nunca vi um lobo na aldeia, nem indícios da sua presença…

Pode parecer um sentimento inofensivo, mas este medo generalizado na população é fruto de uma história antiga de perseguição ao lobo que quase levou à sua extinção na década de 70. O declínio da população foi muito acentuado: nos anos 50, o lobo existia em praticamente toda a Península Ibérica; vinte anos mais tarde, ficou reduzido a poucas centenas na região Norte.

Há marcos históricos desta perseguição ainda visíveis nas nossas paisagens, como é o caso dos impactantes fojos do lobo – muros em pedra, em forma de “V”, com uma extensão que pode chegar aos dois quilómetros. Os lobos eram atraídos para dentro destas muralhas e perseguidos até uma armadilha: um fosso, onde ficavam aprisionados.

Ao longo dos anos, fui percebendo que o lobo é mais vítima do que vilão — e é importante desmistificar que muito deste medo é infundado.

E, apesar de toda a perseguição, a que se juntava a destruição de habitat, o lobo-ibérico foi capaz de sobreviver e recuperar, contrariando a extinção de várias populações de lobo na Europa. Mas como é que se tornou capaz de sobreviver nestes ambientes tão hostis?

A Diana Lobo que estuda lobos – uma coincidência quase predestinada
Quando era pequena, e ouvia as histórias assustadoras sobre lobos, não imaginava que um dia viria a estudá-los. O receio foi-se transformando em fascínio e essa foi uma das razões, assim como o meu interesse pela evolução das espécies, que me levaram a fazer o mestrado no Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (Cibio- Ecogen).

Durante as aulas, a investigadora Raquel Godinho, que liderava projectos de investigação do lobo, e que mais tarde viria a ser minha orientadora de doutoramento, explicava como utilizava ferramentas genéticas – que explicarei mais em detalhe nos parágrafos seguintes – para estudar o lobo-ibérico (Canis lupus signatus). Mas foi uma das muitas conversas que se seguiram no laboratório com a Raquel que aguçou a minha curiosidade: “O nosso lobo não se mexe muito!”, dizia-me ela, enquanto mostrava mapas da Península Ibérica com trajectórias dos lobos, obtidas por colares GPS.

Isto era sem dúvida algo único: estava habituada a ouvir casos de lobos que percorrem centenas de quilómetros, não o oposto.

Começámos a questionar-nos se este comportamento poderia estar associado à capacidade de o lobo-ibérico sobreviver; e, se sim, qual seria a razão para o terem desenvolvido? Foram estas questões que deram origem à minha tese de doutoramento e é neste momento que os cães entram na história! Mas para tudo fazer sentido, vamos fazer uma (longa) viagem ao passado…

A domesticação dos nossos melhores amigos
Vamos viajar no tempo e andar uns 40.000 a 20.000 anos para trás, algures entre o continente Europeu e Asiático. Foi aqui que os nossos antepassados fizeram algo que mudaria para sempre a forma como vivemos – domesticaram uma população de lobos, que viria a dar origem aos cães.

Provavelmente, estão a pensar que os vossos cães não podiam ser mais diferentes de um lobo, sobretudo se tiverem um pequeno caniche, como eu. Mas o processo de domesticação (e consequente evolução) não foi instantâneo. Muita coisa mudou…

Os cães desenvolveram uma série de comportamentos, em resposta a uma forte selecção artificial imposta pelos humanos, como a docilidade e a capacidade de se manterem por perto, que os tornou muito díspares dos lobos, mas perfeitamente adaptados a viver com as pessoas. Do ponto de vista evolutivo, 40.000 anos é muito pouco tempo, o que faz com que lobos e cães partilhem cerca de 99% do seu ADN (incluindo os cães mais pequenos).

Esta proximidade genética permite que lobos e cães se possam reproduzir e que os híbridos resultantes deste cruzamento sejam férteis. Em Portugal e Espanha, estes casos de hibridação são eventos raros, mas sabemos que acontecem e, muito provavelmente, sempre aconteceram.

Quando os híbridos se reproduzem novamente com os lobos, há porções de ADN dos cães – os bocadinhos a que chamamos genes – que passam para o ADN dos lobos. Pensem nos genes como uma receita no livro de culinária da vida. Os genes contêm as instruções que dizem ao nosso corpo como fazer proteínas, que são os “ingredientes” necessários para manter o nosso corpo a funcionar, desde os músculos até ao cabelo.

Se genes dos nossos cães passam para o ADN dos lobos, será que alguns comportamentos típicos de cão também podem passar? Esta questão fez-me acreditar que talvez a adaptabilidade do lobo-ibérico e o seu comportamento peculiar de não se dispersar por longas distâncias estivessem associados a genes de cão adquiridos através de hibridação.

À procura do gene perdido
Como fazemos para encontrar genes de cão no ADN dos lobos? É uma tarefa difícil, diria mesmo que é como procurar uma agulha num palheiro de agulhas, porque o ADN de ambos é quase idêntico. Mas, através de técnicas recentes, é possível analisar todo o ADN – o genoma – de vários organismos de forma relativamente rápida.

Foram várias as horas que passei no laboratório, e tantas outras em frente ao computador, para conseguir analisar centenas de amostras de lobo-ibérico. Estas amostras, que normalmente são tecidos extraídos da pele ou do músculo, chegam-nos, sobretudo, de animais encontrados mortos.

No caso dos lobos que vivem nos dias de hoje, obter amostras é relativamente fácil. Mas como podemos estudar os lobos que viveram no passado e analisar o seu genoma? Infelizmente não é possível viajar no tempo, mas há algo muito próximo disso: as colecções de história natural.

Visitei vários museus em Portugal e Espanha onde encontrei colecções muito ricas de grandes carnívoros, que outrora viveram em abundância nas nossas paisagens. E uma quantidade de peles de lobo impressionante!

Foi impossível não ficar fascinada com tudo o que vi e imaginar o que aqueles animais viveram no passado... Tive acesso a amostras de lobos que viveram ainda noutro século e em regiões do país onde seria actualmente inimaginável, como Setúbal e Alentejo.

Seguiu-se um trabalho intensivo no laboratório, e finalmente, a análise dos genomas e a procura de genes de cão no genoma do lobo-ibérico...

Alerta de “spoiler”: encontrámos!

Os resultados dos testes estatísticos eram convincentes e apontavam na mesma direcção: um gene de cão tinha passado para o genoma do lobo-ibérico! A primeira coisa que me ocorreu foi: “Mas, então, qual será a função deste gene?”.

Como muitos genes são idênticos e partilhados entre mamíferos, fui investigar este gene no catálogo genómico dos humanos, visto que somos o organismo mais bem estudado de todos. Descobri que está associado a mecanismos cognitivos e de desenvolvimento, o que me fez pensar que pode ter afectado o comportamento do lobo-ibérico, tornando-o mais juvenil. Ou seja, o lobo-ibérico retém na idade adulta características típicas da sua forma mais jovem, como o facto de não se dispersar por longas distâncias. Este processo é típico de animais domésticos, como o cão.

A longo prazo, este comportamento poderá ter levado a que o lobo se mantivesse mais próximo das alcateias de origem – o que acaba por aumentar as chances de sobrevivência, uma vez que diminui os encontros indesejados com os humanos. Et voilà, tudo parecia fazer sentido!

Ainda assim, faltava responder a uma pergunta: quando é que este evento de hibridação aconteceu?

A próxima parte da história tem mais de 3000 anos
Se tivessem de viver em terras muito áridas, onde a água escasseia e as temperaturas são altas, para onde iriam? Este foi o cenário que os povos da Península Ibérica enfrentaram há cerca de 4000 anos, quando um evento climático extremo atingiu a bacia do Mediterrâneo. Estas condições levaram a que as pessoas (e os seus cães) migrassem para a costa, e regressassem para o interior apenas centenas de anos mais tarde, quando as condições climatéricas normalizaram. Acreditamos que o mesmo tenha acontecido com o lobo.

Sabemos que a hibridação com o cão é mais frequente em locais para onde o lobo se está a expandir, uma vez que são tipicamente indivíduos solitários e não têm par reprodutor. Por isso, o momento de regresso para terras do interior reunia as condições perfeitas para a hibridação acontecer. Através de ferramentas bioinformáticas – programas e algoritmos que usamos para analisar dados biológicos e moleculares –, consegui estimar uma data para este evento de hibridação que pode ter mudado para sempre o comportamento do lobo-ibérico: 3000 anos!

De repente, tudo fez sentido. Esta data coincidia com a expansão após o período de aridez, e as peças do puzzle encaixaram na perfeição. Para mim, este foi o verdadeiro momento “eureka” deste trabalho – o que é um privilégio enquanto cientista, porque nem sempre chegamos a momentos de conclusões evidentes. Ainda temos um longo trabalho pela frente para perceber melhor este fascinante animal, mas essas futuras descobertas ficam para uma próxima história. A verdade é que o lobo tem um papel fundamental no ecossistema e é nosso dever assegurar a protecção de todas as espécies do nosso planeta.

Comecei esta história a dizer que nunca tinha visto nem um lobo na aldeia, nem indícios da sua presença... Pois bem, quero dizer-vos que isso mudou com um belo uivo longínquo que ouvi numa aldeia, perto de Aboim da Nóbrega, numa noite de Verão do ano passado.

Para mim, não foi só um uivo: trazia consigo a mudança dos tempos e a certeza de que os lobos estão de volta. E, desta vez, espero que seja para ficar.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Invasão russa lançou mais 175 milhões de toneladas de CO2 para atmosfera


Bruxelas, 13 jun 2024 (Lusa) - Dois anos de conflito na Ucrânia devido à invasão pela Rússia lançaram mais 175 milhões de toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera, o equivalente às emissões anuais de 90 milhões de automóveis, segundo um relatório divulgado hoje.

De acordo com o relatório, divulgado por uma iniciativa para a contabilização das emissões de gases com efeito estufa em guerra, com o patrocínio do Ministério da Proteção Ambiental e Recursos Naturais da Ucrânia, para a emissão adicional de 175 milhões de toneladas de dióxido de carbono contribuíram “milhares de milhões de litros de combustível utilizados pelos veículos militares, aproximadamente um milhão de hectares de terrenos e florestas incendiados, centenas de estruturas de petróleo e gás destruídas e grandes quantidades de ferro e betão utilizados para fortificar as linhas defensivas ao longo de centenas de quilómetros".

O documento dá conta de que de que estas emissões, comparáveis às produzidas por 90 milhões de automóveis em apenas um ano, aumentam em 32 mil milhões de euros as reparações que estão a ser imputadas a Moscovo para reconstruir a Ucrânia depois da guerra.

Os dados foram recolhidos em grande parte com recurso a informações de satélite do Governo da Ucrânia e outros publicamente disponíveis, já que a verificação no terreno está dificultada e em alguns casos impossibilitada pelas operações militares.

“As imagens de satélite demonstram que houve pelo menos 27.000 incêndios” desde o início da invasão russa e 150 milhões de metros cúbicos de gás desapareceram por causa da ofensiva russa no território ucraniano.

O relatório também dá conta das consequências de desviar voos que atravessavam o território ucraniano e russo desde 24 de fevereiro de 2022, que terão contribuído para mais horas de voo e mais consumo de combustível.

Os investigadores que participaram no estudo alertam também que o aumento do investimento em defesa acarreta consequências ambientais, assim como o transporte de armamento.

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Portugal recicla apenas 13% das embalagens de plástico que coloca no mercado


Em Portugal, a maioria do plástico que compramos, e pensamos que estamos a reciclar quando o separamos do vidro, do papel e do lixo comum, acaba, longe da vista, enterrado ou queimado em incineradores potencialmente tóxicos, adiando o problema para o futuro.

Os europeus produzem, em média, 35kg de resíduos de embalagens de plástico por ano. E a tendência está a aumentar. De acordo com a OCDE, o consumo de plástico triplicará até 2060. Ao contrário do que muitos pensam, a maioria das embalagens não é reciclada. Em vez disso, acaba em aterros sanitários ou em incineradores potencialmente tóxicos. Estima-se que, no máximo, 40% das embalagens de plástico produzidas na Europa sejam recicladas.

Exportada legalmente para Espanha, para onde vai a maioria das 2250, 78 toneladas de resíduos de plástico de que Portugal se viu livre no ano passado. Em Espanha, a mesma carga pode ter sido vendida para outro país qualquer. E, pelo caminho, ser apanhada por uma das lucrativas “máfias do lixo”, que as retira da vista e das estatísticas oficiais.

O plástico é produzido a partir do petróleo e do gás, combustíveis fósseis que estão na origem da crise climática. Investigadores dos Estados Unidos prevêem que a produção e a eliminação de plástico serão responsáveis por 15% das emissões globais de CO2 até 2050. O plástico está também a acelerar uma catástrofe ambiental sem precedentes.

A verdadeira resposta deve ser evitar os resíduos de plástico. (…)Isso seria o início de um caminho para uma economia circular mais pequena, com menos produção e de onde sairia menos plástico. Porque é difícil viver sem plástico, devemos ser conscientes, e quando compramos coisas, evitar plásticos, e usar pequenos truques como levar sacos de casa, usar garrafas de vidro.

Investigação: Público

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Um icebergue com mais de 1.500 quilómetros quadrados destaca-se da Antártida


Há dois anos, um icebergue de dimensão praticamente idêntica tinha-se formado na mesma zona, batizada Barreira de Brunt, sobre a qual está instalada a estação de investigação britânica Halley VI.
Um imenso icebergue, com uma área equivalente a 15 vezes a de Paris, destacou-se da Antártida no domingo, indicaram cientistas britânicos.

O bloco de gelo, que totaliza 1.550 quilómetros quadrados, destacou-se do bloco de gelo no domingo, entre as 19:00 e as 20:00 horas de Lisboa, durante uma maré que aumentou uma fissura existente, detalhou a British Antarctic Survey (BAS), um organismo de investigação sobre as zonas polares, em comunicado.

Os glaciólogos, que estão no terreno de novembro a março, constatam desde há uma década o aumento de vastas fissuras no gelo.

Em 2016, o BAS tinha decidido deslocar a sua estação em 20 quilómetros, por receio de acabar por ficar num icebergue à deriva, devido à fusão dos gelos.

“O destaque era esperado e constitui um comportamento natural da Barreira de Brunt. Não está ligado às alterações climáticas”, disse o glaciólogo Dominic Hodgson, citado no texto.

Porém, o continente sofre o impacto do aquecimento global, com temperaturas inéditas registadas em 2022, como de resto no conjunto do planeta.

A extensão do gelo atingiu em fevereiro de 2022 o mínimo de 44 anos de registos via satélite, indicou recentemente o relatório anual do programa europeu sobre as alterações climáticas, o Copernicus.

Em 2021, o degelo total de um icebergue, a quatro mil quilómetros do local de onde se destacou do bloco de gelo, em 2017, tinha libertado mais de 150 mil milhões de toneladas de água doce misturada com nutrientes e reforçado a inquietação dos cientistas quanto ao impacto do fenómeno num ecossistema frágil.


quarta-feira, 2 de novembro de 2022

American historian Timothy Snyder becomes an ambassador for the United24 platform, launching the ‘Shahed Hunter’ fundraiser


Professor of History at Yale University, Timothy Snyder, has joined the United24 team, becoming the second ambassador after actor Mark Hamill who will focus his efforts on fundraising for Defence and Demining.

Recently, the famous historian made his course of Yale University lectures, "The Making of Modern Ukraine," available for everyone. The lectures have already gained almost three million views. Now he will be supporting Ukraine in his new role as United24 ambassador. Snyder will raise funds for an anti-drone system to counter the UAVs constantly used by Russia to attack Ukraine's critical infrastructure 

Timothy Snyder met with the President of Ukraine, Volodymyr Zelenskyy, in person, during his September visit to Kyiv.

"Timothy Snyder is an outstanding historian and a true friend of Ukraine, who tells the whole world about the importance of Ukraine, its true history, values, the way they were shaped, and why we need to protect them, in his works. I am also grateful that more people will understand, not only about the reasons and preconditions of our fight, but also learn about how they can help us," said Zelenskyy.

"I'm supporting Ukraine because Ukraine must win this war. Ukraine must win to lead the way into a better century. Ukrainian victory will open the region and the world to democracy and give us all hope. But for now, Ukraine is threatened. Much of Ukraine is under occupation. Ukraine's attackers, breaking all the laws of war, seek to kill civilians and to deprive them of the basic means of existence such as food, water, and electricity. To protect Ukrainians, to protect Ukraine, and thereby to defend all these values, we must be able to stop these attacks. I'm a historian and a scholar and in the long run I want to be raising money to rebuild libraries, schools, and universities. But right now, we have to do what is more urgent, which is to raise money to help Ukraine to defend itself from murderous drones. That is why I have set my goal as raising 1.25 million dollars for anti-drone defense," said Snyder.

United24 is a fundraising platform, initiated by the President of Ukraine. It is the central venue for charitable donations in support of Ukraine. During the first six months of operation, United24 collected $213 million from citizens of 110 countries worldwide. Among United24 ambassadors are famous athletes – Andriy Shevchenko, Elina Svitolina and Oleksandr Usyk, creative director of Balenciaga – Demna, American actors – Liev Schreiber and Mark Hamill, music band Imagine Dragons, singer and actress Barbra Streisand, astronaut Scott Kelly.

What is the «Shahed Hunter»?

It is an anti-drone system that will:

  • help detect and intercept enemy drones;
  • jam enemy drones GPS signals when they approach infrastructure or cities;
  • release ultra-fast drones that will follow and destroy enemy UAVs in the sky;
  • increase the overall effectiveness of the Ukrainian Air Force.

domingo, 20 de março de 2022

Engenhosa e solidária, a pega australiana frustra experiência científica


A pega australiana (Cassican Magpie) é uma das aves mais inteligentes do planeta.

Tem uma bela canção de extraordinária complexidade.

Ela pode reconhecer e memorizar até 30 rostos humanos diferentes.

Estas pegas não são convenientes; as crianças em seu território que se atrevam a perturbá-las mantêm alguns vestígios disso!

Mas acima de tudo, a sua inteligência é surpreendente.



Na verdade, o primeiro rastreador desligou meia hora depois de configurá-lo!

Num notável ato de cooperação, a pega que usava o rastreador parou enquanto outra pegava o arnês com o bico. Em 20 minutos, a pega auxiliar encontrou o único ponto fraco - um único fecho, com apenas um milímetro de comprimento - e o cortou com o bico!

Em três dias, as pegas removeram todos os dispositivos!

Esta combinação particular de altruísmo e capacidade cognitiva de resolver quebra-cabeças é extremamente rara. Foi observado quando as toutinegras das Seychelles ajudaram outros membros de seu grupo social a escapar do lodo em que estavam enredados.

domingo, 16 de janeiro de 2022

Os filhos da pandemia. O aflitivo retrato de uma professora sobre os efeitos dos confinamentos nos alunos

Os filhos da pandemia não escrevem, não falam, não lêem, não compreendem, não interpretam, não pensam…Retirem-lhes o telemóvel e as redes sociais e ficaremos perante seres desprovidos de qualquer interesse. O retrato de uma geração profundamente afetada pela pandemia, traçado pela professora Carmo Machado.

A geração de professores a que pertenço, nascida na década de sessenta, foi marcada pela utopia e pelo sonho. Acreditávamos que a escola podia fazer a diferença na vida dos nossos alunos, que podia mudar vidas. Recordo com enorme prazer todos os momentos em que tudo – literalmente, tudo – fazíamos pela escola pública, desde gastarmos resmas de papel e tinteiros do nosso parco ordenado, ou dedicarmo-nos – noites a fio – a preparar atividades e instrumentos de avaliação, a organizarmos visitas de estudo, a arquitetar celebrações para isto e para aquilo e a procurar que a escola fosse – e era – um local de prazer para todos.

Esta geração da utopia era constituída por todos aqueles que seguiram a carreira docente por paixão, mesmo quando estavam outras opções em cima da mesa. Depois da licenciatura de quatro anos e de uma formação universitária de especialização em ensino de dois anos, muitos de nós ainda avançámos na pesquisa e tirámos mestrados e doutoramentos, aos quais dedicámos uma boa parte do nosso tempo e do nosso (pouco) dinheiro. Entrámos na carreira docente com amor e foi a ela que dedicámos grande parte da nossa vida.

Depois… Depois começaram as alterações às regras na carreira sem qualquer aviso prévio, tentaram dividir-nos em professores titulares e professores não titulares, anularam direitos consagrados no nosso estatuto, congelaram-nos os ordenados e a imaginação e, por fim, roubaram-nos descaradamente muitos anos de serviço que, não sendo a solução para o nosso baixo poder de compra, podiam no mínimo permitir-nos uma maior – ainda que leve – dignidade profissional e pessoal. Com que tristeza ouço com frequência dizer a um professor que raramente compra livros ou vai ao teatro. De facto, fizeram de nós meros funcionários e das escolas meras repartições públicas de ensino de massas, transformadas em verdadeiras fábricas de papel!

Não querendo aqui balizar o primeiro grande momento da derrocada da dignidade docente, talvez me atrevesse a referir os quatro anos e sete meses de má memória em que Maria de Lurdes Rodrigues foi ministra da Educação (a ministra que cumpriu o maior mandato à frente da Educação em Portugal). Mas muitos outros se seguiram e parece não se prever um fim. Entretanto, e se estivermos – como estamos – atentos à comunicação social, raro é o dia em que os temas relacionados com os professores (ou a falta deles), os alunos, as escolas e o ensino em geral não estão na ordem do dia.

Vários estudos têm vindo a lume sobre duas problemáticas de grande atualidade: por um lado, a já existente escassez de professores e, por outro, sobre os efeitos da pandemia nas aprendizagens dos alunos. De facto, sobre a primeira, sabemos que nos próximos anos, praticamente quase todos os professores que são referência nas nossas escolas – pela sua entrega à profissão, pela sua humanidade, pelo seu espírito de missão, pelos cargos desempenhados com competência, pela pedagogia, pelo amor ao ensino e ao alunos, ter-se-ão reformado. A escola, como eu a conheci, está a desaparecer todos os dias. Recordo com saudade e um sorriso no rosto os jantares de Natal, os almoços de Páscoa, as sardinhadas pelo Santo António seguidas de baile com acompanhamento musical a preceito, as castanhas e a jeropiga deixada na sala dos professores, os lanches de cada turma no final de período, com mesas repletas de tudo um pouco, as viagens e as visitas de estudo organizadas e feitas com tanta alegria e companheirismo, a amena cavaqueira entre alunos e professores, nos intervalos das aulas, pelos corredores, no bar ou na sala de convívio… Até recordo com carinho as muitas aulas dadas de luvas e gorro, quando o frio era insuportável e entrava pelas janelas que mal fechavam, os aquecedores que trazíamos de casa e colocávamos, às escondidas, para nos aquecermos todos, professores e alunos. Nesses tempos, fazíamos tudo pela escola e éramos felizes. Quem matou a escola pública? Quem nos matou?

Mas é sobre os efeitos da pandemia nos nossos alunos que hoje importa falar. Chegámos ao final do primeiro período de mais um ano escolar atípico, em que os alunos apesar de estarem presencialmente nas nossas salas de aula, transportam às costas pesadas mochilas carregadas de profundos traumas provocados pelo confinamento e pelos dois anos letivos anteriores, vividos com muito esforço pessoal e familiar, entre ensino à distância e confinamento. O estudo "Efeitos da Pandemia Covid-19 na Educação: desigualdades e medidas de equidade”, solicitado pelo Parlamento ao Conselho Nacional de Educação, veio apenas clarificar junto da opinião pública algumas das consequências observadas, sentidas e vividas pelos professores e decorrentes do contacto diário com os alunos. Se o aumento da ansiedade e de estados de depressão foram uma realidade constatada por todos nós, é sobretudo nas aprendizagens que situação é preocupante.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Helheim Glacier study to focus on the power and mysteries of water

A new $2.2 million project will explore how water moves through Helheim Glacier, influencing how fast the glacier sheds ice into the sea
By Charlotte Hsu
Release Date: March 25, 2021

Kristin Poinar standing in front of a white board. 
“When we talk about glaciers in Greenland, sometimes we refer to the ‘Big Three.’ Helheim Glacier is one of the three largest contributors of ice from Greenland to the ocean. ”
Kristin Poinar, assistant professor of geology and faculty member in the 
UB RENEW Institute
Department of Geology
College of Arts and Sciences

BUFFALO, N.Y. — On the surface of Greenland’s mighty Helheim Glacier, huge, narrow cracks called crevasses act as a conduit to the subglacial world.
Meltwater flows into these fissures from a massive aquifer enclosed in the ice, and the weight of this liquid causes the fractures to grow ever deeper, until the cracks reach all the way down to the glacier bed. There, beneath a kilometer of ice, the falling water feeds a complex network of moving water channels that helps determine the speed at which Helheim Glacier sheds ice into the sea.
How does all of this happen? How fast do the crevasses grow? And what does the water system look like at the glacier bed?


This movement of water through and under Helheim Glacier — called hydrology — is the topic of a $2.2 million project that brings together researchers from the University at Buffalo, Georgia Institute of Technology (Georgia Tech) and Dartmouth University. Funded by the Heising-Simons Foundation, the research has implications for predicting global sea level rise.
“When we talk about glaciers in Greenland, sometimes we refer to the ‘Big Three.’ Helheim Glacier is one of the three largest contributors of ice from Greenland to the ocean,” says Kristin Poinar, PhD, assistant professor of geology in the UB College of Arts and Sciences and a researcher in the UB RENEW Institute. “The subglacial hydrology of this glacier is not very well known, and we are trying to learn about it so we can understand how it might change in the future, and how the glacier will contribute to future sea level rise.”
Poinar is leading the effort with Winnie Chu, PhD, assistant professor of earth and atmospheric sciences at Georgia Tech, and Colin Meyer, PhD, assistant professor of engineering at Dartmouth.

Understanding how quickly deep canyons grow from new cracks in the ice
Kristin Poinar speaks at TED2017 - The Future You, April 24-28, 2017, Vancouver, BC, Canada. Poinar discusses crevasses and how they contribute to sea level rise.
Poinar’s portion of the grant — $770,000 — will be devoted to understanding how fast the crevasses reach the glacier bed after they form, and how this changes the patterns of water flow and ice flow.
This work will help scientists understand whether water flows in a fairly consistent manner to the glacier bed from the aquifer, which lies about 15-20 meters below Helheim’s surface at the study site, about 35 kilometers upstream of where the glacier starts shedding ice into the ocean.


As Poinar explains, outlet glaciers like Helheim aren’t just stagnant towers of ice and snow. Instead, they are akin to rivers, their frozen contents flowing toward the sea. The crevasses that form in the glacier travel with the ice, slowly edging downstream.

But the aquifer largely stays put.
“The whole glacier is moving, and the aquifer is basically staying in the same place,” Poinar explains. “So if you have a crevasse that reaches all the way down to the glacier bed, this crevasse is going to leave the aquifer behind one day, and the glacier bed below it will be cut off from this water source.”
Additionally, when new cracks that form upstream get deep enough to reach the aquifer, they will begin to draw from the water, and can block the water from reaching the deeper crevasses that feed the glacier bed.
“What we want to know is how fast new crevasses that form on the surface take to reach the glacier bed," Poinar says. "It’s important to know the time-scale of this process of hydrofracture. If the glacier bed is without a water source for a few days, that’s one thing. But if it’s without a water source for a couple of months, that has a good chance of changing the ice flow rates above it and downstream below it.”
Field team to include scientists, mountaineers
Kristin Poinar conducting field research in Greenland several years ago. Poinar, a faculty member and researcher in the University at Buffalo Department of Geology and RENEW Institute, will lead field expeditions to Greenland to study Helheim Glacier starting in the summer of 2022. 


Poinar will lead field expeditions to Greenland over three summers, starting in 2022. The teams will include UB scientists, including students, as well as mountaineers who will help to navigate the difficult terrain.
The researchers will install GPS units on either side of various crevasses to monitor their movement downstream and also measure how fast the cracks grow (as the fractures get deeper, they also tend to widen at the surface).
Poinar, along with teams led by Chu and Meyer, plans to install other instruments at Helheim Glacier to measure weather conditions including air temperature, wind speed, humidity, atmospheric pressure and snow accumulation. The team will also use various radars, geophysical techniques and models to learn more about what the aquifer and the water networks at the glacier bed look like.
This knowledge will enable scientists to better understand many aspects of the hydrology of Helheim Glacier, impacting the flow of ice to the sea.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Podcast "Assim Fala A Ciência"- Ângela Crespo e o combate do sistema imunitário contra a covid-19





Quais são as “armas” usadas pelo sistema imunitário para combater o coronavírus? O que sabemos acerca da imunidade após infecção por SARS-CoV-2? Quem nos responde é a bióloga Ângela Crespo, investigadora no Boston Children’s Hospital (EUA), que se tem dedicado, no último ano, a investigar os processos de inflamação associados à covid-19. Em conversa com o bioquímico David Marçal, Ângela Crespo explica os mecanismos desencadeados pelas actuais vacinas contra a covid-19 e as características dos medicamentos aprovados para o combate a esta doença, que pode provocar uma resposta “exagerada” do sistema imunitário.

Assim Fala a Ciência é o podcast de ciência do PÚBLICO. A cada duas semanas, aos sábados, o físico Carlos Fiolhais e o bioquímico David Marçal conversam com investigadores da rede GPS - Global Portuguese Scientists, dando voz à ciência para furar o ruído da desinformação.

sábado, 28 de março de 2020

O Mito da Meritocracia…A Piada Que se Transformou num Dogma



O termo “meritocracia” foi criado por Michael Young, quando escreveu o romance satírico em 1958, “The Rise of Meritocracy”. No livro, Young descrevia um tipo de auto-ilusão em que as pessoas ricas se convenciam que a sua riqueza era evidência da sua superioridade moral. A piada é que a sátira virou dogma. Hoje vivemos da meritocracia. Onde nos convenceram que aquilo que alcançamos depende apenas da nosso trabalho árduo e perseverança. Se não consegues, a culpa é tua. Não te esforçaste o suficiente.

Não só isso, como se criou outra piada interessante. A ideia da meritocracia começou por ser uma ideia anti-aristrocrática já que, cada um de nós, independentemente das nossas origens, poderia ser rico, famoso e bem sucedido dependendo apenas do nosso mérito. No entanto, esta atitude/ideologia transformou-se num modelo de perpetuação de uma nova aristrocacia, já que um dos maiores fatores para ser bem sucedido na vida é ser filho de pessoas bem sucedidas. Mesmo que tenham más notas na escola.

E ser filho de pessoas bem sucedidas influencia o nosso futuro sucesso de duas formas. Os genes que herdamos e o ambiente familiar e sócio-económico em que somos criados. Dado que ninguém escolhe o seu próprio genoma, não estou a ver onde está o mérito disso. E como ninguém escolhe a família onde nasce – se rica se pobre, com bom ou mau aporte nutricional, se bem conectada em termos sociais ou nem por isso, se numa família estruturada ou não – também não me parece que seja possível atribuir o nosso mérito a essas ocorrências.

Aliás, uma das passagens do Behave, do Salpolsky, que mais me impressionou, foi esta:

“A conexão entre a adversidade infantil e a maturação frontocortical é visível quando se estuda a pobreza infantil. O trabalho de Martha Farah, da Universidade da Pensilvânia, Tom Boyce, da UCSF, e outros demonstra algo ultrajante: aos cinco anos, quanto menor o estatuto socioeconómico de uma criança, em média, (a) maiores os níveis basais de glicocorticóides e/ou mais reativa a resposta ao stresse glicocorticóide, (b) mais fino é o córtex frontal e menor o seu metabolismo, e (c) mais fraca é a função frontal em relação à memória operacional, regulação das emoções, controlo de impulsos e tomada de decisões executivas; além disso, para obter uma regulação frontal equivalente, as crianças com estatuto socioeconómico mais baixo devem ativar mais o córtex frontal do que as crianças com estatuto socioeconómico mais alto. Além disso, a pobreza infantil prejudica a maturação do corpo caloso, um feixe de fibras axonais que conectam os dois hemisférios e integram a sua função. Isso é tão errado – escolha estupidamente uma família pobre para nascer e, no jardim de infância, a probabilidade de ter sucesso nos testes de marshmallow da vida já estão contra si.

Pesquisas consideráveis ​​concentram-se em como a pobreza “penetra na pele”. Alguns mecanismos são específicos para o ser humano – se é pobre, é mais provável que cresça próximo de toxinas ambientais, num bairro perigoso, com mais lojas de bebidas alcoólicas do que os mercados que vendem vegetais; é menos provável que frequente uma boa escola ou tenha pais com tempo para ler para si. É provável que na sua comunidade tenha pouco capital social e você, baixa auto-estima.”

Mas estas pessoas, para além de terem nascido numa família com condições sócio-económicas favoráveis e terem a bênção genética, também conseguiram ter o “mérito” de nascer num país, numa sociedade, capaz de aproveitar todo o seu esforço e mérito. Como exemplo, se fossem mulheres e nascessem na Arábia Saudita, dificilmente iriam conseguir alcançar alguma coisa de relevante, dadas as limitações impostas às mulheres nessa sociedade. Ou se tivessem nascido numa aldeia na Nigéria e a vossa aldeia fosse dizimida pelo Boko Haram e vocês transformados em Crianças-Soldado, dificilmente iriam ter capacidade para criar uma Startup fantástica na área da Inteligência Artificial. Portanto, parabéns pela vossa sorte.

Os “Meritocráticos” Versus Instituições Governamentais
A coisa mais perversa associada a esta ideia da meritocracia, é que levou a uma corrente liberal anti-Estado. No fundo, a lógica é a seguinte: “se eu fui bem sucedido na vida à conta do meu esforço e tu não foste bem sucedido porque és um preguiçoso e não te esforçaste o suficiente, porque é que eu tenho que pagar mais impostos para te sustentar a ti?”

Surge assim a ideia do “Self Made Man” criado no vazio, como se não tivesse sido o Estado (ou seja, todos nós), os responsáveis pela criação das infraestruturas, das instituições e serviços que permitiram ao “Self Made Man” prosperar. Mas o mais importante, é que o Estado é dos poucos mecanismos que poderá impor um verdadeiro sistema meritocrático, ajudando a reduzir as desvantagens existentes entres os diferentes estratos sociais, para que as crianças que tiveram o azar de ser menos afortunadas nos ambientes em que nasceram, tenha menos desvantagens em comparação às crianças que nasceram em “berços de ouro”. Um estudo da OCDE mostra quantas gerações são necessárias para subir no estrato sócio-económico. E não há surpresas…países nórdicos, conhecidos pela sua menor desigualdade sócio-económica, permite uma mais rápida mobilidade social.


Não só isso, como o desrespeito pelo Estado demonstrado por esta ala meritocrática é um pontapé na boca a todos nós, já que o investimento público em investigação, inovação, tecnologia é um dos grandes pilares que permite que estes “Self Made Man” vão surgindo. O telemóvel que temos na mão, é graças ao investimento do Estado. Mesma coisa para GPS, baterias de lítio, airbags e a Internet. E a mesma coisa para muitos dos fármacos que consumimos hoje em dia (1, 2, 3).

Mas não é apenas isso. É a sociedade e todas as instituições criadas pela sociedade que permitiram a evolução cultural e a acumulação de conhecimento. Portanto, quando um “Self Made Man” cria alguma tecnologia revolucionária, o mérito dele é uma ínfima parte de todo o processo de criação, já que assenta em conhecimento produzido por milhares de pessoas que o antecederam. Aliás, hoje em dia grandes descobertas são feitas por equipas de pessoas e não por uma pessoa só, dada a complexidade cada vez maior em fazer avançar o conhecimento e produzir tecnologia.

Mas mais…estes Meritocratas não seriam nada, na ausência das pessoas “sem grande mérito” ou status social, que lhes produzem a comida, constroem a casa, mantém os sistemas de canalização, de eletricidade e aquecimento, fazem recolha do lixo, etc. Aqueles funcionários sem mérito que recebem pouco, mas que mantêm todas as nossas infrastruturas a funcionar.

Citando o Ricardo Lopes, do Canal Dissenter, esta atitude dos meritocratas “é uma falta de respeito abjecta pela sociedade em que vivem, pela longa história da humanidade e o nível mais alto de arrogância e egocentrismo que alguém pode atingir.“

O Meritocrata não é nada sem a sociedade em que está inserido e as condições que essa sociedade lhe proporcionou para se transformar neste “Self Made Man”, super empreendedor, que enriqueceu imenso graças a uma ideia genial criada às costas de milhares de pessoas que contribuíram para que essa ideia genial pudesse ter surgido.

Conclusão
Portanto, o nosso mérito será qualquer coisa como 90% sorte, 10% esforço. Certamente que ver as coisas desta forma tira muito glamour a todas as nossas conquistas sociais. Mas é a realidade.

Que fique claro, não se está a falar contra os empreendedores. Eles têm mérito e alguns deles revolucionaram a sociedade em que vivemos. Agora, que se acabe com esta ideia que surgem no vazio, que o seu mérito é exclusivamente seu e que os com pouco mérito o são por “preguiça” e “não se terem esforçado o suficiente”. Obviamente que também existem os preguiçosos, mas a generalização como forma de atacar o Estado Social para reduzir a contribuição do “Self Made Man” via impostos para a sociedade, é só ridícula.

E, para quem acha que o “Self Made Man” conseguiu erguer-se à custa de um trabalho imenso, investindo 100 horas por semana na sua carreira, desengane-se. Os CEOs trabalham em média 60 horas por semana. Não é mau…mas agora vamos imaginar a mãe solteira com dois empregos, a receber o ordenado mínimo, sem ajuda em casa para tomar conta dos filhos, o que significa que ainda tem que fazer a lida doméstica e acompanhar as crianças na escola…faltará esforço a esta pessoa? Onde está a sua recompensa por este esforço? Ou terá tido azar relativamente às suas condicionantes de vida?

E terminamos com um vídeo do Rationality Rules, que devia ser visto por todos estes Self Made Man liberais, que pensam no Estado como um sorvedouro de impostos inútil, que apenas serve para matar a iniciativa privada:

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Vida secreta do gato: como é que nossos companheiros felinos sobrevivem nas nossas cidades?


Já muitas vezes perguntou como é o que seu gato de cidade passa  o seu tempo fazendo quando não está por perto? 
Onde é que os nossos animais de estimação ronronantes quando eles desaparecem da nossa vista? Armados com dispositivos de GPS e micro-câmaras, uma equipa da BBC Two programa da Horizon em colaboração com o Royal Veterinary College partiu para a aldeia Surrey para descobrir e responder a estas questões.