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terça-feira, 27 de maio de 2025

Jovens receiam não ter green skills necessárias para combater eficazmente as alterações climáticas


O novo estudo do Research Institute da Capgemini e do Generation Unlimited da UNICEF analisou as perspetivas dos jovens sobre a crise climática. O estudo inclui os seus pontos de vista sobre as green skills, a obtenção de diplomas que os capacitem para os green jobs, e a forma como as empresas e os governos podem trabalhar com os jovens para impulsionar uma maior consciência sobre as questões climáticas e a defesa do ambiente.

De acordo com a investigação, a maioria dos jovens está preocupada com as mudanças climáticas, com mais de dois terços em todo o mundo a reconhecer que estão apreensivos com a forma como as alterações climáticas podem afetar o seu futuro, o que representa um aumento face aos dados recolhidos em 2023, quando um inquérito da UNICEF nos EUA revelou que 57% dos jovens a nível mundial sofriam de «ansiedade ambiental». Neste âmbito, os jovens do hemisfério norte reportaram àquela data níveis mais elevados de ansiedade relacionados com as alterações climáticas (76%), por comparação com os seus colegas do hemisfério sul (65%).

A divisão entre os mundos rural e urbano apresentava-se então também de forma evidente, com 72% dos jovens a viverem em zonas urbanas e suburbanas a manifestarem preocupação com o impacto das alterações climáticas no seu futuro, contra apenas 58% dos seus homólogos das zonas rurais.

Jovens acreditam que ainda há tempo para resolver problemas causados pelas alterações climáticas
Não obstante os elevados índices de ansiedade ambiental/climática, a maioria dos jovens acredita que as green skills são essenciais para que o futuro possa ser melhor, e 61% consideram mesmo que ao desenvolverem-nas estão a potenciar as suas possibilidades de acesso a mais oportunidades profissionais. Os jovens querem, além disso, alinhar as suas carreiras profissionais com os seus valores climáticos/ambientais: mais da metade dos jovens (53%) em todo o mundo, e quase dois terços (64%) no hemisfério norte, estão interessados em ter um emprego e uma carreira na área ambiental.

“Os jovens em todo o mundo, e particularmente nos EUA, estão profundamente conscientes dos desafios urgentes que as alterações climáticas nos colocam. É claro que eles também estão ansiosos por fazerem parte da solução”, afirma Sarika Naik, Group Chief Corporate Responsibility Officer da Capgemini. “Temos de ajudar os jovens a transformar esta paixão em ações concretas e com impacto positivo, investindo em capacitá-los com as competências ambientais necessárias. Este estudo evidencia o quão importante é que as empresas, os governos e os líderes da área da educação trabalhem em conjunto para colmatar o défice de competências, dando voz e habilitando os jovens, criando vias de acesso a carreiras profissionais com impacto positivo a nível ambiental”.

“Os jovens estão a criar e a implementar soluções inovadoras que respondem às alterações climáticas que as suas comunidades enfrentam”, refere Kevin Frey, CEO, Generation Unlimited da UNICEF, sublinhando que ”a Green Rising com o seu ecossistema de parceiros dos setores público e privado, está a ajudar os jovens a adquirirem as competências e as oportunidades de que necessitam para poderem agir no combate às alterações climáticas, criarem empresas ambientalmente sustentáveis, terem acesso a empregos e carreiras na área do ambiente e a colocarem em prática soluções verdes”.

Jovens não possuem competências ambientais necessárias
Os jovens são uma reserva de talento fundamental para assegurar o combate às alterações climáticas, mas a transição verde exige mão-de-obra altamente qualificada e especializada. De acordo com a OCDE – Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico, a competência em matéria de sustentabilidade ambiental assenta numa base científica sólida, na compreensão das alterações climáticas, no compromisso de proteger o ambiente, na confiança na explicação dos problemas ambientais e na motivação para agir de forma sustentável.

No entanto, o estudo conclui que só menos de metade dos jovens em todo o mundo (44%) acredita possuir as competências ambientais necessárias para poder ser bem-sucedido no atual mercado de trabalho. Neste contexto, verifica-se igualmente que os jovens das zonas rurais estão ainda mais atrasados do que os das zonas suburbanas e urbanas. A percentagem também varia conforme as regiões. No hemisfério sul, cerca de seis em cada dez jovens brasileiros afirmam possuir competências ambientais, um valor que contrasta fortemente com os 5% dos jovens etíopes que dizem possuí-las.

A verdade é que os conhecimentos dos jovens no que diz respeito às competências ambientais regrediram desde 2023, quando foi realizado o estudo anterior pelo Research Institute da Capgemini. Entre os jovens com idades compreendidas entre os 16 e os 18 anos na Alemanha, Áustria, EUA, França, Japão e Reino Unido, a reciclagem e a redução de resíduos continuam a ser as competências ambientais mais difundidas.

Mas a proporção de jovens com conhecimentos de design sustentável, energia e transportes diminuiu significativamente desde 2023. Já no hemisfério sul, os jovens têm mais conhecimentos sobre reciclagem e redução de resíduos, conservação de energia e água, mas menos sobre tecnologias verdes, análise de dados e design sustentável.

A maioria dos jovens em todo o mundo (71%) concorda que devem ter uma forte influência na política e na legislação ambiental. No entanto, consideram que os líderes empresariais e políticos em todo o mundo não estão a desempenhar o seu papel e devem contribuir mais para o combate contra as alterações climáticas. Quase dois terços dos jovens sentem-se suficientemente confiantes para falarem com os seus líderes locais sobre a ação climática. No entanto, só menos de metade acredita que as suas opiniões são realmente tidas em conta.

O estudo incita os líderes locais a apoiarem os jovens na promoção das soluções e das competências ambientais. O Young People’s Perspetives on Climate: Preparing for a Sustainable revela igualmente que integrar a educação ambiental, expandir o acesso à formação e alinhar os objetivos climáticos com as estratégias de emprego dos jovens, são aspetos que devem ser parte da solução a ser implementada pelos decisores políticos. Também os líderes empresariais devem ser incentivados a colaborar na criação dos green jobs, a investirem em iniciativas lideradas por jovens e a integrarem as suas vozes nas estratégias de RSE, ESG e clima das suas empresas com o objetivo de reforçar a confiança e estimular a inovação sustentável.

Movimentos globais como o Green Rising (que tem como objetivo apoiar 20 milhões de jovens até 2026, capacitando-os para poderem participar no combate às alterações climáticas e para conseguirem agir localmente nas suas comunidades, proporcionando-lhes oportunidades de voluntariado, de ativismo, de trabalho remunerado e de empreendedorismo), respondem ao anseio crescente dos jovens de melhorarem as suas competências ambientais. Esta iniciativa é liderada pela Generation Unlimited da UNICEF e é apoiada por várias organizações dos setores público e privado, incluindo a Capgemini.

sábado, 24 de maio de 2025

Lucros da banca: riqueza para uns, sacrifício para o povo

Os números falam por si: os grandes bancos portugueses anunciaram lucros astronómicos. Milhões e milhões acumulados — não por mérito produtivo, mas à custa do aperto que o povo enfrenta todos os dias.

Enquanto as famílias vivem com salários estagnados, enfrentam rendas insustentáveis e veem os serviços públicos a degradar-se, os bancos celebram em festa. Crescem comissões, aumentam juros nos créditos à habitação, e lucra-se com a dívida de quem só quer viver com dignidade.

É o retrato de um sistema invertido: os que produzem riqueza são penalizados, os que a acumulam sem produzir são premiados. Um sistema onde a especulação vale mais do que o trabalho, onde os direitos de quem trabalha são tratados como obstáculos, enquanto os lucros dos acionistas são tratados como intocáveis.

Esta situação não é inevitável. É o resultado de escolhas políticas:
– Escolhas que protegem o grande capital.
– Que alimentam desigualdades.
– Que empobrecem a maioria para enriquecer uma minoria.

É inaceitável que se continue a tratar a banca como se fosse um setor “sagrado”, imune a qualquer responsabilização social ou fiscal. O que hoje existe não é economia — é um sistema de extração, onde os bancos funcionam como máquinas de sugar o pouco que resta às famílias trabalhadoras.

A solução não é dar mais benefícios aos banqueiros.
A solução é romper com a política de direita que desmantela o Estado social e entrega o país aos interesses financeiros.

Está na hora de dizer basta.
Está na hora de valorizar quem trabalha, de garantir direitos, de regular a banca com coragem, e de reconstruir um país onde o lucro de uns não se faça à custa da miséria dos outros.

O povo não pode continuar a pagar a fatura do privilégio

sábado, 7 de dezembro de 2024

Due diligence: o que é e como aplicar no contexto ambiental?


Due diligence, ou diligência prévia, é um processo de investigação minuciosa para avaliar a conformidade de uma empresa ou ativo com determinadas normas e requisitos. No contexto ambiental, torna-se uma ferramenta essencial para identificar e mitigar riscos associados à contaminação do solo, da água e do ar, além de garantir a conformidade com a legislação ambiental vigente. 

Neste artigo, nos aprofundaremos sobre due diligence ambiental, uma prática que vem ganhando cada vez mais importância diante de algumas regulamentações, como a adequação das empresas para atendimento ao Regulamento para Produtos Livres de Desmatamento da União Europeia (EUDR). 

O que é Due diligence?
Due diligence é um conceito amplo que abrange uma série de ações destinadas a coletar e analisar informações relevantes sobre uma determinada situação. No âmbito empresarial, por exemplo, uma declaração de diligência pode ser utilizada para avaliar a viabilidade de um investimento, a reputação de um parceiro comercial ou a conformidade de uma operação com as leis e regulamentos aplicáveis. 

Due diligence ambiental
Due diligence ambiental é um processo de investigação que visa identificar e avaliar os potenciais impactos ambientais de uma empresa, seus produtos ou projetos. Por meio de uma declaração de diligência ambiental, é possível verificar a origem das matérias-primas, garantir a conformidade com as leis ambientais e sociais em cada etapa da produção, bem como confirmar que não houve desmatamento ou degradação ambiental associado à produção dessas matérias-primas. 

Nesse sentido, uma Due Diligence ambiental pode ser produzida a partir da análise documental (contendo a revisão de licenças ambientais, relatórios de auditoria e outros documentos relevantes), visitas in loco (inspeção das instalações da empresa e de seus fornecedores), análises geográficas (utilização de ferramentas de geoprocessamento, como o Sensoriamento Remoto, para mapear áreas de risco e rastrear a origem das matérias-primas), dentre outras técnicas. 

Por meio da due diligence ambiental, as empresas são capazes de garantir a conformidade com as regulamentações ESG (sigla em inglês para Environmental, Social and Governance, traduzida como Ambiental, Social e Governança):
  1. Comprovar a conformidade com as normas socioambientais e de governança corporativa;
  2. Rastrear a origem dos produtos;
  3. Evidenciar a ausência de desmatamento em toda a cadeia de suprimentos.
  4. Dessa forma, é possível garantir que a empresa esteja em conformidade com boas práticas ambientais, de governança e de responsabilidade social, ampliando sua atuação em mercados estratégicos. 
Veja exemplos nos quais a diligência prévia é aplicada:
  1. Identificar riscos de desmatamento ilegal:
  2. Detalhar as origens das matérias-primas utilizadas, verificando se há associação a áreas de desmatamento ilegal ou degradação florestal. 
Avaliar a cadeia de suprimentos:
Analisar os elos da cadeia de valor (produção à distribuição), buscando garantir que todos os fornecedores estejam de acordo com as leis ambientais e sociais.

Implementar medidas de mitigação:
Criar planos de ação para mitigar os impactos ambientais identificados, como a aquisição de matérias-primas de fontes certificadas e o apoio a projetos de restauração florestal.

Licenciamento ambiental:
Pode ser utilizada como ferramenta para auxiliar no processo de licenciamento ambiental, fornecendo informações relevantes para a elaboração dos estudos ambientais.

Financiamento de projetos:
Instituições financeiras costumam exigir a realização desse processo como condição para a concessão de crédito, visando mitigar os riscos associados a projetos com potencial impacto ambiental.

Benefícios da due diligence ambiental
A realização da due diligence ambiental oferece diversos benefícios, como:
  1. Redução de riscos: a identificação de potenciais passivos ambientais permite que sejam tomadas medidas para mitigar os riscos e evitar problemas futuros.
  2. Proteção legal: prova de que a empresa adotou medidas razoáveis para identificar e prevenir danos ambientais, o que pode ser fundamental em caso de litígios.
  3. Melhoria da reputação: demonstra um compromisso com a sustentabilidade e a responsabilidade ambiental, podendo fortalecer a imagem da empresa e atrair investidores.
  4. Conformidade com a legislação: garantia de que a empresa esteja conforme a legislação ambiental vigente, evitando multas e sanções.
  5. Adequação ao EUDR: a realização da due diligence ambiental é um passo fundamental para que as empresas se adequem às exigências do novo Regulamento Europeu sobre Due Diligence para Produtos Livres de Desmatamento.
  6. Acesso a mercados estratégicos: alguns países exigem que as exportadoras comprovem a origem da matéria-prima e a conformidade com suas regulamentações ambientais. Assim, a aplicação de due dilligence é crucial para ampliar a atuação em mercados-chave, bem como necessária para efetuar determinadas transações comerciais.
Due diligence ambiental e EUDR
Frente ao avanço das regulamentações de ESG, a aplicação de due diligence ambiental tornou-se imprescindível para os aspectos de compliance corporativo. Em especial, o Pacto Ecológico Europeu, que prevê objetivos de neutralidade climática e proteção da biodiversidade, vem impulsionado a criação de regulamentações cada vez mais rigorosas, como o Regulamento Europeu sobre Desmatamento (EUDR).

O EUDR proíbe a importação e comercialização na União Europeia de produtos derivados de commodities associadas ao desmatamento. Assim, essa regulamentação exige que as empresas demonstrem que suas cadeias de suprimentos são livres de desmatamento e degradação florestal por meio de uma declaração de diligência. 

Conclusão:
A due diligence ambiental é uma ferramenta imprescindível para empresas que buscam operar de forma sustentável e seguindo a legislação. Ao identificar e mitigar os riscos ambientais, contribui para a proteção do meio ambiente, para a segurança jurídica e a reputação empresarial. 

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Há cada vez mais conselhos de administração a procurar CEO com esta competência


Actualmente, os conselhos de administração procuram CEOs com elevados níveis de inteligência emocional, ou seja, a capacidade de ler e interpretar os sentimentos dos outros e reagir em conformidade na tomada de decisões, de acordo com o Insider.

Especialistas em diversidade e inclusão afirmam que a pressão sobre os CEOs para implementarem mudanças sociais nas empresas significa que cada vez mais líderes serão julgados pela sua inteligência emocional.

Para muitos conselhos de administração, contratar executivos de topo já não se trata de priorizar capacidades “úteis na obtenção de lucro”. Um estudo da Harvard revela que uma nova competência se sobrepõe às demais: inteligência emocional/social skills.

Investigadores analisaram cerca de cinco mil descrições de cargos executivos da Russell Reynolds, empresa de consultoria em liderança, entre 2000 a 2019 e descobriram que as palavras-chave mais mencionadas andam à volta de inteligência emocional, autoconsciência e a capacidade de trabalhar bem com os outros.

Este estudo junta-se a outros, reforçando a crescente importância desta competência. Um inquérito da plataforma Capterra, publicado em Janeiro, mostrava que líderes com elevada inteligência emocional eram 11% mais bem sucedidos na concretização de projectos, comparativamente aos que afirmaram ter menor inteligência emocional. Um estudo de 2009, divulgado no Leadership & Organization Development Journal, indicava que os executivos com níveis mais altos de empatia e auto-estima eram mais propensos a gerar altos lucros para as empresas.

«É uma competência de liderança que não pode faltar e será cada vez mais falada no futuro», revela Arquella Hargrove, consultora de Diversidade e Inclusão e Leadership coach, à Insider.

Entre os temas da igualdade, diversidade e inclusão, os consultores esperam que a procura por competências de inteligência emocional aumente nos próximos anos. «Estamos a lidar com pessoas e queremos humanizar estes temas. As emoções estão incluídas», acrescenta a consultora.

«Se estamos a tentar focar-nos na humanidade e aceitar as pessoas como são, competências de compreensão e empatia são fundamentais», declara Doris Quintanilla, directora executiva e cofundadora da consultora The Melanin Collective.

Qualquer líder (e gestores no geral) pode trabalhar para desenvolver a sua inteligência emocional. Uma das vertentes é a consciência social, ou seja, a capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa. É ter empatia, escrevem Daniel Goleman, autor de “Emotional Intelligence 2.0”, e Richard E. Boyatzis, professor de Psicologia na Case Western Reserve University, na Harvard Business Review.

Para trabalhar o tema da empatia, Arquella Hargrove e Doris Quintanilla recomendam que os líderes passem mais tempo com os seus colaboradores de backgrounds mais sub-representados, convidando-os a partilhar as suas histórias e experiências. «Quando os líderes ouvem os seus colaboradores de diferentes origens, começam a valorizar essas diferenças e fazem as pessoas sentir-se incluídas na equipa», disse Arquella Hargrove.

Outro lado importante da inteligência emocional é a forma como se gerem relações ou a capacidade de comunicar eficazmente e trabalhar com os outros. «Ter inteligência emocional é também pedir feedback e ser capaz de o aceitar, seja positivo ou negativo. Esta capacidade torna-nos melhores líderes e gestores», acrescenta.

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Menos 40% de andorinhas em Portugal em 20 anos


Proteja as andorinhas.
Elas pesam cerca de 20 gramas, mas voaram mais de 5.000Km e atravessaram o deserto do Sahara para cá chegar.
Elas sobrevoaram o mar Mediterrâneo sem nunca conseguir descansar.
Lutaram contra ventos e tempestades.
Elas regressam a Portugal no local onde nasceram. Não remova os ninhos.
Consomem centenas de mosquitos e moscas por dia! 
Se tivermos a sorte de abrigar um ninho desta espécie no nosso ambiente familiar, um casal sozinho pode eliminar cerca de 1.700 moscas e mosquitos por dia.
Não existe insecticida mais eficaz e ecológico.
Vamos fazer com que se sintam bem vindas.

Saber mais:
Relatório do Censo das Aves Comuns 2004-2020

Fontes: Jornal de Notícias; Wilder

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Inteligência artificial vai criar muito desemprego

A rede X anda muito silenciosa com a nova revolução tecnológica: a IA. O nosso patrão Elon Musk vai muito à frente e investe puro e duro na IA. Aqui vai um cartoon, para refletirmos. 
"- Que fazia antes de se encontrar desempregada? 
- Ocupava o seu emprego!"

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Relembrar Teófilo Braga - o Presidente da República que disse não ao automóvel


O Centenário da morte de Teófilo Braga (24.2.1843 - 28.1.1924) passou despercebido. Era açoriano e foi presidente da República durante dois mandatos, entre 1910 e 1915. Recusou automóvel oficial, considerando que isso seria um símbolo de ostentação e de distanciamento do povo. Ao tomar posse, recusou o automóvel oficial que lhe foi oferecido, preferindo usar o transporte público ou andar a pé, para poder estar mais próximo das pessoas. Excerto de um discurso de Teófilo Braga, em que ele explica a sua recusa do automóvel oficial: "Não quero automóvel. Não quero automóvel porque sou pobre. Não quero automóvel porque sou um homem do povo. Não quero automóvel porque não quero que me vejam como um aristocrata ou um monarca. Quero que me vejam como um companheiro, como um amigo, como um irmão."

A obra literária de Teófilo Braga é imensa e portanto impossível de a enumerar exaustivamente num documento resumo, como este pretende ser. Não queremos é deixar de mencionar alguns exemplos, quanto mais não seja para ilustrar a diversidade das áreas sobre que se debruçou. Assim, Folhas Verdes, de 1859, Stella Matutína, de 1863, Visão dos Tempos e Tempestades Sonoras, de 1864, A Ondina do Lago, de 1866, Torrentes, em 1869, Miragens Seculares de 1884, representam incursões no campo da poesia. Ainda neste campo escreve a História da Poesia Popular Portuguesa, em 1867, abrangendo o Romanceiro Geral e Cancioneiro Popular e A Floresta de Vários Romances de 1868.

Como investigador das origens dos povos, seguiu a linha da análise dos elementos tradicionais desde os mitos, passando pelos costumes e terminando nos contos de tradição oral, que lhe permitiram escrever obras como Os Contos Tradicionais do Povo Português, de 1883, O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições, em 1885, e História da Poesia Portuguesa, que lhe levou anos a escrever, procurando as suas origens através das várias épocas e escolas.

As áreas restantes das suas 360 obras, abrangem campos tão diversos como o da História Universal, História do Direito, da Universidade de Coimbra, do Teatro Português, da influência de Gil Vicente naquela forma de manifestação artística, da Literatura Portuguesa, das Novelas Portuguesas de Cavalaria, do Romantismo em Portugal, das Ideias Republicanas em Portugal, passando pelos folhetos de polémica literária e política e ensaios biográficos, como o que respeita a Filinto Elísio.
Além desta verdadeira enxurrada literária, nem sempre abordada com o rigor exigido, o que lhe valeu várias críticas dos meios literários da época, não se pode esquecer o seu contributo para a coordenação das obras de Camões, Bocage, João de Deus e Garrett, os prefácios para tantas obras dos escritores mais representativos e um sem-número de artigos escritos para os jornais do seu tempo.

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Democracia Liberal? Não, obrigado


Democracia liberal? Nunca existirá. Porque os mecanismos institucionais de intervenção nas leis do mercado serão reduzidas quase a zeros. Responsabilidade social das empresas será zero. Por outro lado depende muito da literacia política de um povo. Existem outras críticas em relação aos participantes da liderança política como uma forma de ter poder e, em alguns cenários, ter representantes muito concentrados na elite — a qual, por possuir maiores recursos financeiros, consegue investir na própria candidatura. Sim, jamais Pol Pot, Estaline, Hitler e outros torcionários.
Porém, os 1% DDT estão a massacrar todas as formas de democracia e estimulam o discurso do ódio. Estamos em Portugal cansados dos socialistas, é certo. Contudo, vejam a votação deste projecto, por acaso proposto pelo nosso PCP e digam-me o que são a IL e o CH. Uns vermes.



sábado, 28 de outubro de 2023

Uma rara entrevista de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa, por António Faria

O escritor Fernando Pessoa expõe-nos as suas ideias sobre os vários aspectos da arte e da literatura portuguesa.

Entrevistar Fernando Pessoa não é fácil. Só é fácil entrevistar os que não pensam, os que não se importam de jogar palavras, ao acaso, atirando-as impudicamente ao vento.
Fernando Pessoa, quer como Fernando Pessoa, quer como Álvaro de Campos – o engenheiro alucinado que comporta o seu segundo eu, e que aparece em toda a parte, enchendo a voz de louvores e raios para a Vida – raios partam a Vida e quem lá ande! -é sempre um voluptuoso do raciocínio, um amante da inteligência, podemos dizer: um criador duma nova Razão. Paradoxal? Sem dúvida. Mas há tantas maneiras de ser paradoxal!

A entrevista que se segue, toda escrita por Fernando Pessoa – nem podia deixar de ser, visto Fernando Pessoa possuir uma sintaxe própria para a lógica própria dos seus pensamentos, misto de seriedade e de ironia, vai decerto prender o espírito dos leitores…

Atenção! Fernando Pessoa vai responder às perguntas que lhe fizemos:

– Que pensa da nossa crise? Dos seus aspectos – político, moral e intelectual?
– A nossa crise provém, essencialmente, do excesso de civilização dos incivilizáveis. Esta frase, como todas que envolvem uma contradição, não envolve contradição nenhuma. Eu explico.

Todo povo se compõe de uma aristocracia e de ele mesmo. Como o povo é um, esta aristocracia e este ele mesmo têm uma substância idêntica; manifestam-se, porém, diferentemente A aristocracia manifesta-se como indivíduos, incluindo alguns indivíduos amadores; o povo revela-se como todo ele um indivíduo só. Só colectivamente é que o povo não é colectivo.

O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo. Ora ser tudo num indivíduo é ser tudo; ser tudo numa colectividade é cada um dos indivíduos não ser nada. Quando a atmosfera da civilização é cosmopolita, como na Renascença, o português pode ser português, pode portanto ser indivíduo, pode portanto ter aristocracia. Quando a atmosfera da civilização não é cosmopolita – como no tempo entre o fim da Renascença e o princípio, em que estamos, de uma Renascença nova – o português deixa de poder respirar individualmente. Passa a ser só portugueses. Passa a não poder ter aristocracia. Passa a não passar. (Garanto-lhe que estas frases têm uma matemática íntima.)

Ora um povo sem aristocracia não pode ser civilizado. A civilização, porém, não perdoa. Por isso esse povo civiliza-se com o que pode arranjar, que é o seu conjunto. E como o seu conjunto é individualmente nada, passa a ser tradicionalista e a imitar o estrangeiro, que são as duas maneiras de não ser nada. É claro que o português, com a sua tendência para ser tudo, forçosamente havia de ser nada de todas as maneiras possíveis. Foi neste vácuo de si próprio que o português abusou de civilizar-se. Está nisto, como lhe disse, a essência da nossa crise.

As nossas crises particulares procedem desta crise geral. A nossa crise política é o sermos governados por uma maioria que não há. A nossa crise moral é que desde 1580 – fim da Renascença em nós e de nós na Renascença – deixou de haver indivíduos em Portugal para haver só portugueses. Por isso mesmo acabaram os portugueses nessa ocasião. Foi então que começou o português à antiga portuguesa, que é mais moderno que o português, e é o resultado de estarem interrompidos os portugueses. A nossa crise intelectual é simplesmente o não termos consciência disto.

Respondi, creio, à sua pergunta. Se V. reparar bem para o que lhe disse, verá que tem um sentido. Qual, não me compete a mim dizer.

– Que pensa dos nossos escritores do momento, prosadores poetas e dramaturgos?
– Citar é ser injusto. Enumerar é esquecer. Não quero esquecer ninguém de quem me não lembre. Confio ao silêncio a injustiça. A ânsia de ser completo leva ao desespero de o não poder ser. Não citarei ninguém. Julgue-se citado, quem se julgue com direito a sê-lo. Resolvo assim todos. Lavo as mãos, como Pilatos; lavo-as, porém, inutilmente, porque é sempre inutilmente que se faz um gesto simplificador. Que sei eu do presente, salvo que ele é já o futuro? Quem são os meus contemporâneos? Só o futuro o poderá dizer. Coexiste comigo muita gente que vive comigo apenas porque dura comigo. Esses são apenas os meus conterrâneos no tempo; e eu não quero ser bairrista em matéria de imortalidade. Na dúvida, repito, não citarei ninguém.

– Estaremos em face de uma renascença espiritual?
– Estamos tão desnacionalizados que devemos estar renascendo. Para os outros povos, na sua totalidade eles próprios, o desnacionalizar-se é o perder-se. Para nós, que não somos nacionais, o desnacionalizar-se é o encontrar-se. Apesar dos grandes obstáculos à nossa regeneração – todas as doutrinas de regeneração – estamos no início de tornar a começar a existir. Chegámos ao ponto em que colectivamente estamos fartos de tudo e individualmente fartos de estar fartos. Extraviámo-nos a tal ponto que devemos estar no bom caminho. Os sinais do nosso ressurgimento próximo estão patentes para os que não vêem o visível. São o caminho-de-ferro de Antero a Pascoaes e a nova linha que está quase construída. Falo em termos de vida metálica porque a época renasce nestes termos. O símbolo, porém, nasceu antes dos engenheiros.

Nada há a esperar, é certo, das classes dirigentes, porque não são dirigentes; e ainda menos da proletariagem, porque ser inferior não é uma superioridade. Com razão lhes chamei eu, a estes, subgente, num artigo da antiga Águia – da Águia que voava. Só a burguesia, que é a ausência da classe social, pode criar o futuro. Só de uma classe que não há pode nascer uma classe que não há ainda. Seja como for, avancemos confiadamente. Todos os caminhos vão dar à ponte quando o rio não tem nenhuma.

– O que se deve entender por arte portuguesa? Concorda com este termo? Há arte verdadeiramente portuguesa?
– Por arte portuguesa deve entender-se uma arte de Portugal que nada tenha de português, por nem sequer imitar o estrangeiro. Ser português, no sentido decente da palavra, é ser europeu sem a má-criação de nacionalidade. Arte portuguesa será aquela em que a Europa – entendendo por Europa principalmente a Grécia antiga e o universo inteiro – se mire e se reconheça sem se lembrar do espelho. Só duas nações – a Grécia passada e Portugal futuro – receberam dos deuses a concessão de serem não só elas mas também todas as outras. Chamo a sua atenção para o facto, mais importante que geográfico, de que Lisboa e Atenas estão quase na mesma latitude.

– O regionalismo na literatura e na pintura?
– O regionalismo é uma degeneração gordurosa do nacionalismo, e o nacionalismo também. E como o nacionalismo é antiportuguês (sendo bom, cá no Sul, só para os povos latinos e ibéricos), o regionalismo em Portugal é uma doença do que não há. Amar a nossa terra não é gostar do nosso quintal. E isto de quintal também tem interpretações. O meu quintal em Lisboa está ao mesmo tempo em Lisboa, em Portugal e na Europa. O bom regionalismo é amá-lo por ele estar na Europa. Mas quando chego a este regionalismo, sou já português, e já não penso no meu quintal. (O facto de o meu quintal ser inteiramente metafórico não diminui a verdade de tudo isto: Deus, e o próprio universo, são metáforas também.)

– Teriam existido em toda a nossa história literária períodos de criação?
– O nosso único período de criação foi dedicado a criar um mundo. Não tivemos tempo para pensar nisso. O próprio Camões não foi mais que o que esqueceu fazer. Os Lusíadas é grande, mas nunca se escreveu a valer. Literariamente, o passado de Portugal está no futuro. O Infante, Albuquerque e os outros semideuses da nossa glória esperam ainda o seu cantor. Este poderá não falar deles; basta que os valha em seu canto, e falará deles. Camões estava muito perto para poder sonhá-los. Nas faldas do Himalaia o Himalaia é só as faldas do Himalaia. É na distância, ou na memória, ou na imaginação que o Himalaia é da sua altura, ou talvez um pouco mais alto. Há só um período de criação na nossa história literária: não chegou ainda.

– Continuará sendo o lirismo a nossa feição literária predominante?
– Há duas feições literárias -a épica e a dramática. O lirismo é a incapacidade comovida de ter qualquer delas. O que é ser lírico? É cantar as emoções que se têm. Ora cantar as emoções que se têm faz-se até sem cantar. O que custa é cantar as emoções que se não têm. Sentir profundamente o que se não sente é a flâmula de almirante da inspiração. O poeta dramático faz isto directamente; o poeta épico fá-lo indirectamente, sentindo o conjunto da obra mais que as partes dela, isto é, sentindo exactamente aquele elemento da obra de que não pode haver emoção nenhuma pessoal, porque é abstracto e por isso impessoal. Fomos esboçadamente épicos. Seremos inviolavelmente dramáticos. Fomos líricos quando não fomos nada. O lirismo só continuará sendo a nossa feição predominante se não formos capazes de ter feição predominante.

– O que calcula que seja o futuro da raça portuguesa?
-O Quinto Império. O futuro de Portugal —que não calculo mas sei —está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra, e também nas quadras de Nostradamus. Esse futuro é sermos tudo. Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeismo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade.

13-10-1923
Ultimatum e Páginas de Sociologia Política . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. – 3.
1ª publicação. in Revista Portuguesa, nº 23-24. Lisboa: 13-10-1923.
Fonte: Arquivo Pessoa

quarta-feira, 19 de julho de 2023

Vaclav Havel dixit


“The salvation of this human world lies nowhere else than in the human heart, in the human power to reflect, in human meekness and human responsibility.” ~ Vaclav Havel

Vaclav Havel (página oficial)

Vaclav Havel (biografia)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Livro: "O Preço da Desigualdade" de Joseph Stiglitz



Stiglitz argumenta que a desigualdade se auto-perpetua e que é gerada pela grande dimensão de poder político de que a riqueza dispõe para controlar a atividade legislativa e regulatória. Ele não acredita que a globalização e as mudanças tecnológicas estejam no cerne das diferenças de riqueza nos EUA. "Ainda que possa haver forças económicas subjacentes em ação," escreve ele, "a política moldou o mercado e fê-lo de tal forma que deu vantagem ao topo à custa de todos os outros."

Stiglitz culpa os que apenas procuram capturar o excedente económico (Rent-seekings) de causar a desigualdade, usando os ricos o seu poder para gerar monopólios, receber tratamento favorável por parte do estado e pagar impostos reduzidos. O resultado final não só é moralmente errado, como também prejudica a produtividade da economia.

Stiglitz critica muitos comentadores conservadores que pensam que a solução está na liberdade dos mercados ao salientar que reduzir os impostos sobre o património e desregular as contribuições para campanhas eleitorais é agir no sentido de restringir a concorrência e dar aos grupos empresariais um poder indevido na política. Ainda que defenda a ideia que um mercado livre é bom para a sociedade se for concorrencial, ele afirma que é preciso que o governo o regule para ser benéfico. Se isso não acontecer, os poderosos grupos empresariais irão influir para lucrar à custa da maioria. De acordo com Stiglitz, concentrar o poder de mercado em poucas mãos é tão mau como o excesso de regulação.

No New York Times, o professor de jornalismo Thomas B. Edsall classificou o livro como "o mais abrangente rebate tanto do neoliberalismo dos Democratas como das teorias de laissez-faire dos Republicanos". Edsall acrescentou que "pode vir a provar-se que Stiglitz estava certo quando avisou sobre uma sociedade regida por 'regras de jogo que enfraquecem a força negocial do trabalhadores face ao capital'."

Uma resenha no Economist foi geralmente positiva, salientando que "Stiglitz é (principalmente) hábil a elaborar o seu argumento." No entanto, escreveu o crítico, "a argumentação do senhor Stiglitz beneficiaria com um melhor sentido de história e geografia," e criticou a sua referência para a baixa da desigualdade nas décadas de 1950 a 1980 como uma protuberância na ampla planície da história americana. "Tenha ou não as respostas certas, o senhor Stiglitz tem toda a razão em focar a questão", concluiu o comentador.

Yvonne Roberts, no The Guardian, classificou o livro como "um argumento poderoso para a implementação do que Alexis de Tocqueville denominou de "interesse pessoal devidamente compreendido"."

A obra recebeu o Prémio de Livros de 2013 do Centro Robert F. Kennedy para a Justiça e Direitos Humanos.

Saber mais:
Joseph Eugene Stiglitz - biografia
Página Oficial: Joseph Stiglitz

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Vivienne Westwood- a anarquista na moda e ambientalista


Extraordinariamente excêntrica mas que talento, que audácia e - para o prazer dos olhos - a cor! Além disso um intenso activismo ambiental!
R.I.P. Dame Vivienne Westwood - the godmother of punk. Also a giant environmentalist soul.

Biografia:



"Existe uma conexão real entre cultura e mudança climática. Todos nós temos uma parte a jogar e se você se envolver com a vida, você terá um novo conjunto de valores, sair da esteira do consumidor, e começar a pensar, e são esses grandes pensadores que resgatarão o planeta."

domingo, 18 de dezembro de 2022

Homo Solidaricus — Derrubando o Mito do Ser Humano Egoísta


A solidariedade e o comportamento social não se aprendem, encontram-se no nosso material genético. Portanto, temos potencial para criar um mundo mais justo. Podemo-nos tornar Homo solidaricus , se organizarmos a sociedade de forma a que ela estimule nosso lado empático. 

Novos insights da biologia, ciência comportamental e economia mudaram as ideias sobre os seres humanos nos últimos 50 anos. Especialmente a noção de Homo Economicus , a ideia de que todos nós temos um interesse próprio estreito como nosso objetivo em tudo o que fazemos, mudou.

Neste livro, Wegard Harsvik e Ingvar Skjerve nos apresentam um oposto ao Homo Economicus : o Homo Solidaricus .

Introduz novos conhecimentos que mostram que a cooperação é fundamental para nós como espécie. Os autores nos permitem ver como isso também deve ter consequências para a maneira como discutimos política e criamos boas sociedades. Solidariedade e comunidade não é uma luta contra a natureza humana. Eles estão profundamente enraizados em nós.

A Noruega vem liderando os países de maior qualidade de vida do mundo há décadas. O que este livro procura esclarecer são as razões disso ― razões geralmente ignoradas pelo mesmo noticiário que se apressa em anunciar esse ranking como se não tivesse nem causas nem consequências.

A combinação de IDH alto, educação pública de qualidade, distribuição de salários equânime, participação ativa do Estado na economia, responsabilidade ambiental e outros anátemas do neoliberalismo selvagem que grassa noutros países produz resultados benéficos, afinal. Que isso ocorra numa democracia capitalista ocidental não é coincidência, mas premissa.

Harsvik e Skjerve, dois militantes trabalhistas, esmiúçam motivos (e contradições) desse modelo dando ênfase à solidariedade, virtude decisiva para esse cenário de bem-estar social, a partir de uma constatação singela: é melhor viver em lugares em que o outro pode ser visto como um igual. Seja confiando no vizinho ou nas instituições, a hipótese de ser desapontado é menor.

Sobre os autores
Wegard Harsvik (1967) é chefe de relações públicas e estratégia do Partido Trabalhista norueguês. Possui longa experiência política, inclusive como secretário do Ministério da Saúde e assessor no Ministério da Educação. É mestre em Economia Social, Sociologia e História pela Universidade de Oslo.

Ingvar Skjerve (1978) é enfermeiro e escritor com mestrado em Ética Profissional e Diaconia. Trabalha atualmente como assessor político.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Curta- Metragem - "Don't Tell Me to Just Breathe"


Toda sociedade se apega a um mito pelo qual vive. O nosso é o mito do crescimento económico. Nas últimas seis décadas, a busca do crescimento tem sido o objetivo político mais importante em todo o mundo.

No entanto, o sistema económico ao qual estamos escravizados nos desequilibra. De acordo com estatísticas recentes do NHS, um em cada quatro adultos e uma em cada 10 crianças sofrem de doença mental, e muitos de nós conhecemos e cuidamos de pessoas que sofrem. Ao não atender às nossas necessidades mais essenciais, a economia baseada no crescimento está fadada a nos miserar e, em última análise, nos adoecer.

Esta oportuna animação de curta-metragem fala sobre os níveis crescentes de ansiedade e depressão que tantas pessoas no Reino Unido e em outras nações ricas estão experimentando, revelando as ligações muitas vezes silenciadas entre essas crises de saúde mental e o atual sistema económico, incluindo não apenas a pressões crescentes sobre as necessidades básicas das pessoas, mas também o 'realismo capitalista' que permite que o colapso climático se desenrole diante de nossos olhos.

Através dos olhos de um jovem trabalhador do setor de saúde, o filme explora criativamente a interação entre as dimensões interna e externa da mudança do sistema e da saúde mental. A segunda metade apresenta os pilares fundamentais de uma Economia do Bem-Estar como conjunto de soluções, destacando que a saúde mental coletiva só pode ser assegurada por um sistema que respeite os limites do bem-estar das pessoas e da natureza, e onde o Futuro não seja mais sacrificado altar do eterno crescimento económico.

O projeto, criado pela Swarm Dynamics em conjunto com o CUSP, também incentiva grupos da sociedade civil a explorar os potenciais de comunicação de pesquisas sobre as correlações entre mudanças climáticas, capitalismo tardio e resultados de saúde mental, para ajudar a fortalecer os movimentos sociais, quebrar silos e reduzir o estigma decorrente de a narrativa dominante de 'responsabilidade pessoal'.

Os problemas de saúde mental num mundo fragmentado geralmente não são uma doença, mas uma resposta. Precisamos urgentemente recuperar uma compreensão mais rica e satisfatória de nós mesmos e de nosso lugar no mundo.

Saber mais 
Swarm Dynamics
Dia Mundial da Saúde Mental

domingo, 18 de setembro de 2022

Yvon Chouinard - Earth is now our only shareholder

I never wanted to be a businessman. I started as a craftsman, making climbing gear for my friends and myself, then got into apparel. As we began to witness the extent of global warming and ecological destruction, and our own contribution to it, Patagonia committed to using our company to change the way business was done. If we could do the right thing while making enough to pay the bills, we could influence customers and other businesses, and maybe change the system along the way.

We started with our products, using materials that caused less harm to the environment. We gave away 1% of sales each year. We became a certified B Corp and a California benefit corporation, writing our values into our corporate charter so they would be preserved. More recently, in 2018, we changed the company’s purpose to: We’re in business to save our home planet.

While we’re doing our best to address the environmental crisis, it’s not enough. We needed to find a way to put more money into fighting the crisis while keeping the company’s values intact.

“Truth be told, there were no good options available. So, we created our own.”

One option was to sell Patagonia and donate all the money. But we couldn’t be sure a new owner would maintain our values or keep our team of people around the world employed.

Another path was to take the company public. What a disaster that would have been. Even public companies with good intentions are under too much pressure to create short-term gain at the expense of long-term vitality and responsibility.

Truth be told, there were no good options available. So, we created our own.
Instead of “going public,” you could say we’re “going purpose.” Instead of extracting value from nature and transforming it into wealth for investors, we’ll use the wealth Patagonia creates to protect the source of all wealth.

Here’s how it works: 100% of the company’s voting stock transfers to the Patagonia Purpose Trust, created to protect the company’s values; and 100% of the nonvoting stock had been given to the Holdfast Collective, a nonprofit dedicated to fighting the environmental crisis and defending nature. The funding will come from Patagonia: Each year, the money we make after reinvesting in the business will be distributed as a dividend to help fight the crisis.

It’s been nearly 50 years since we began our experiment in responsible business, and we are just getting started. If we have any hope of a thriving planet—much less a thriving business—50 years from now, it is going to take all of us doing what we can with the resources we have. This is another way we’ve found to do our part.

Despite its immensity, the Earth’s resources are not infinite, and it’s clear we’ve exceeded its limits. But it’s also resilient. We can save our planet if we commit to it.

sábado, 11 de junho de 2022

Fast-fashion giant Shein pledges $15m for textile waste workers in Ghana



Chinese fashion behemoth Shein might be the organisation least expected to win applause at an international conference on fashion sustainability, but that’s what happened at this week’s global fashion summit in Copenhagen.

The industry’s largest forum for sustainable progress saw the ultra-fast fashion brand praised for making a donation of $15m (£12m) over three years to a charity working at Kantamanto in Accra, the world’s largest secondhand clothing market.

Liz Ricketts, director of the Or Foundation, a Ghana- and US-based not-for-profit working with Accra’s textile waste workers, announced the fund, tearfully telling the audience that the workers are doing “backbreaking” work.

“They are economic migrants from north Ghana, and are often women and children, some as young as six. They’re carrying clothing bales on their heads which weigh 55kg, being paid a dollar a trip, and coming home to sleep on concrete floors.

“Some carry their babies on their back. Sometimes they fall backwards because of the weight of the bales, and their children are killed [underneath them].”

Ricketts said that 15m secondhand garments arrive in Ghana every week, 40% of them waste. “Ghana doesn’t have landfill or incinerators,” she said. “The clothing enters the environment; some of it goes into the oceans – there are millions of garments on the ocean floor, and the currents push the garments on to the beach.

“There’s a narrative in sustainable fashion that says: ‘There is no ‘away’’. This is the ‘away’.”

Not everyone was convinced by the gesture. “This was public greenwashing,” said one attendee who asked to remain anonymous but echoed the sentiment of several at the summit who believe reduced production of fast fashion is the answer. “This is too easy for Shein; it’s too soon to call them a leader here. They have been valued at $100bn [£80bn] – they have millions to spare. They should be addressing the root cause of the problem.”

The Or Foundation runs a weekly clinic for waste workers in Ghana, assessing the physical damage done by carrying these heavy clothing bales. “We can see the harm this work is doing to their bodies but we can’t do anything to help them,” said Ricketts. She said the Shein fund was not a substitute for responsible behaviour, but part of its extended producer responsibility.

The money promised is from a $50m pot that the firm says is intended to address the ecological and social problems of the global clothing trade.

The foundation says the money will fund an apprenticeship programme for Kantamanto women, help community businesses recycle textile waste and improve working conditions at the market.

Ricketts called on other brands to be honest about their involvement in the waste crisis: “We have been calling on brands to pay the bill that is due to the communities who have been managing their waste, and this is a significant step towards accountability.

“What we see as truly revolutionary is Shein’s acknowledgment that their clothing may be ending up in Kantamanto, a simple fact no other major fashion brand has been willing to state as yet.”

Adam Whinston, head of ESG at Shein, said the company had an “ambitious” impact agenda. “Addressing secondhand waste is an important part of the fashion ecosystem that is often overlooked. We have an opportunity to make change in this space, and we look forward to working with the Or Foundation on this first-of-its-kind effort.”

sexta-feira, 13 de maio de 2022

The corporate blind money-making


The world is rightly worried about the pandemic, as it is causing millions of deaths and suffering for hundreds of millions. But it is so obvious that, instead of richer countries fighting to grab the first vaccines, and the big pharma prioritizing patents, a collaborative effort to face what clearly is a global issue would save many lives, and indeed not only reduce suffering but also stimulate the economy. There was a time when challenges were faced at the village level, then they became national issues, but nowadays the world is facing obvious global challenges, and the pandemic is just one of them. We need corporations to update their priorities.

The G20 meetings are interesting, and the Davos events certainly brilliant – they remind me of the ancient Versailles and Vienna gatherings – but a key agent of change are the global corporations. Many economists have brought to our attention the huge power of the asset management industry. They are key deciders on where the money goes. Better said, they control the algorithms. An editorial from The Guardian sounds realistic: “Computers run investment portfolios offering cheap ‘exchange-traded funds’ that automatically track indices of shares and bonds. This has been so successful that the big three – US firms BlackRock, Vanguard and State Street – now manage $19 trillion dollars in assets, roughly a tenth of the world’s quoted securities… Markets are supposed to allocate capital efficiently. They plainly do not. Society is experiencing inequality and financial instability. Minsky contended that market behavior had to be constrained to ensure the ‘economic underpinnings of democracy’. His advice seems truer today than ever.”1

As of 2022, BlackRock manages over $10 trillion dollars, while the budget of the US government is around $6 trillion dollars, with variations depending on the whim of a few senators and their corporate links. The $19 trillion dollar figure mentioned above can be compared to the US GDP of $21 trillion dollars. A great part of the US budget itself will be directed according to corporate interests. Frédéric Pierucci, an ex-executive for the energy giant Alstom, published an important book, The American Trap, on how the big corporations and politics work, in his area of expertise: “whoever occupies the seat of President of the United States, a democrat or republican, charismatic or detestable, the administration in Washington will always respond to the interests of the same group of industrials: Boeing, Lockheed Martin, Raytheon, Exxon Mobil, Halliburton, Northrop Grumman, General Dynamics, GE, Bechtel, United Technologies, among others.” And the financial giants manage the financial assets of all of them. Money does make the world go around.

The world is presently aware of the catastrophic management of global environment issues, the explosive inequality, the absurd growth of fortunes at the very top and the erosion of democracy. The corporate world, deeply involved in these disasters, is claiming it is changing the rules. An elite of 130 banks published their key guidelines in 2019. UN Secretary-General António Guterres commented that “the UN Principles for Responsible Banking are a guide for the global banking industry to respond to, drive and benefit from a sustainable development economy. The Principles create the accountability that can realize responsibility, and the ambition that can drive action.”2

Banking guidelines



The adopted guidelines are positive, but not real. We do need banking to “contribute to individuals’ and society’s goals”, and be “transparent and accountable,” but they are the channels for the corporations to put their money in tax havens, not to speak of the illegal money transactions, and the astounding profits of the asset management corporations. The contrast between discourse and practice is glaring.

Also in September 2019, 181 of the world’s largest corporations signed a letter of agreement, redefining their goals and formally leaving behind their decades-long creed to increase the wealth of their shareholders without care for the systemic consequences, comfortably qualified as “externalities.” The text, agreed upon and disclosed by the BRT (Business Roundtable), is short; basically five paragraphs. Below is the original text, updated on the 6th September 2019.3
  • While each of our individual companies serves its own corporate purpose, we share a fundamental commitment to all of our stakeholders. We commit to:
  • Delivering value to our customers. We will further the tradition of American companies leading the way in meeting or exceeding customer expectations.
  • Investing in our employees. This starts with compensating them fairly and providing important benefits. It also includes supporting them through training and education that help develop new skills for a rapidly changing world. We foster diversity and inclusion, dignity and respect.
  • Dealing fairly and ethically with our suppliers. We are dedicated to serving as good partners to the other companies, large and small, that help us meet our missions.
  • Supporting the communities in which we work. We respect the people in our communities and protect the environment by embracing sustainable practices across our businesses.
  • Generating long-term value for shareholders, who provide the capital that allows companies to invest, grow and innovate. We are committed to transparency and effective engagement with shareholders. Each of our stakeholders is essential. We commit to deliver value to all of them, for the future success of our companies, our communities and our country.
Apparently, this is not deeply revolutionary, just plain good sense. But after 40 years of corporations hiding behind highly convenient theories like that of Milton Friedman’s “The business of business is business,” entirely dedicated to bringing wealth to their shareholders, this letter calls attention. The large conglomerates have decided to take a turn. Or so they say.

According to the WHO, "Tobacco kills more than 8 million people each year. More than 7 million of those deaths are the result of direct tobacco use, while around 1.2 million are the result of non-smokers being exposed to second-hand smoke. Over 80% of the world's 1.3 billion tobacco users live in low and middle-income countries.”4 Well, we know, they are the bad guys. But also, “ambient air pollution accounts for an estimated 4.2 million deaths per year due to stroke, heart disease, lung cancer, acute and chronic respiratory diseases. Around 99% of the world's population live in places where air quality levels exceed WHO limits.” Didn’t Volkswagen know about air pollution when tinkering with their vehicles emissions? With the scandal, we learned that other corporations do not behave much differently.

Take obesity, a fast-expanding tragedy. “According to data from the Centers for Disease Control and Prevention (CDC), 36.5 percent of all adults and around 17 percent of all children and adolescents in the United States have obesity… Obesity is associated with higher healthcare costs and a lower quality of life, as well as disability and premature mortality. Currently, obesity contributes to more than 5 million deaths each year, globally.”5 We all know about the impact of SSBs (Sugar Sweetened Beverages), ultra-processed food and unhealthy food promoted by so many corporations. Are we supposed to read the small letters on the supermarket shelves? Do they not know how to make healthy food?

The chemical corporations follow similar short-term profit maximization. “There are an estimated 350,000 chemicals (or mixtures of chemicals) on the global market. Nearly 70,000 have been registered in the past decade… A compelling reason to consider total chemical production as a control variable is that it exposes the vexing supply side issue of the ‘lock-in’ effect, where economic, technical, political, and bureaucratic inertia maintain production despite imperatives for reduction.”6 The impact on climate, on toxic chemicals in our food and so many other challenges are quite evident, since only a small part of the new chemicals are submitted to adequate toxicity analysis. Contaminated water is responsible for 3.6 million deaths per year, according to the WHO.

The corporations contributing to this tragedy – we have more than 20 million deaths a year in the areas mentioned above, compared with the roughly 6 million Covid-19 deaths as of writing this paper – are perfectly aware of the impacts of the products they spread, but spend huge sums simply to deny responsibility. Most of them are signatories of ESG principles. Remember how long it took to take lead out of our gas tank? Or the Teflon battles? Or how long the tobacco industry managed to hide the fact they knew smoking was linked to cancer?

The giant banks operating in Brazil pay for numerous TV campaigns stating that the population should learn how to manage their finances, as if it was a problem of customers’ education. How do you manage finance in the face of disinformation campaigns and when credit card interest rates reach 349% a year, to mention the most scandalous figure? John Naughton brings the key issue of who is responsible: “It’s what oil companies came up with when they invented the idea of the ‘carbon footprint’ – i.e. your footprint on the biosphere, not theirs. It’s the displacement of responsibility strategy: since it’s a free country, nobody’s forcing you to do the thing that’s bad for you. Childhood obesity is the responsibility of the child or of his or her parents. Alcoholism happens because you don’t ‘drink responsibly’. Radicalization of the mass shooter is not YouTube’s responsibility. It’s always your fault, not that of the manufacturer of the addictive product.”7

It certainly is also a question of divided responsibility. We should draw a line on our private shopping behavior, government should provide basic social services with universal access and ensure regulation, but the fact is that with big-corporation take-over on politics and the impressive information control modern algorithms allow them – Shoshana Zuboff, in her The Age of Surveillance Capitalism does not exaggerate – we are all in the hands of irresponsible money-making machine managers. If corporations do not change, the destructive trends will continue. Sweetening the pill by means of TV campaigns with soft-spoken messages will not solve the real issues. Neither will the repeated ‘commitments,’ ‘guidelines’ and pushing-over of responsibility.

How does Brazil fare in these circumstances? Well, we have 31% youth unemployment, 47% of young people want to leave the country, and the Amazon is melting down. And we have Covid, of course, and a President who is against vaccination. But banking profits are booming.

Notes

2 Banking Principles – UNEP – Sept. 23, 2019 – Assets 47tri$. The Principles for Responsible Banking – See also: UNEPFI.
3 Released: August 19, 2019. Updated with New Signatures: September 6, 2019.
4 WHO - Deaths from smoking - Access July 26, 2021.
5 Jonathan W. Raymond - Medical News Today, November 11, 2021.
6 Environmental Science and Technology – January 18, 2022 Outside the Safe Operating Space of the Planetary Boundary for Novel Entities – Environmental Science & Technology (acs.org).
7 John Naughton - As a new Year Dawns - Guardian, 1 Jan. 2022 – “We underestimated the cunning and ruthlessness of corporations, the feebleness of governments and the fact that many of our fellow humans were content to be passive couch potatoes”.

sábado, 7 de maio de 2022

Amazon: dança para o ditador das estrelas, que és livre de ser escravo


«A Amazon, de Jeff Bezos, só não é das empresas mais obscenas porque, nesta matéria, o inferno é o limite. Estas empresas globais são o que mais se aproxima da fase inicial da industrialização. A total amoralidade dos seus proprietários resulta de taxas de lucro que a história nunca conheceu e de uma acumulação de riqueza (e de poder) que torna os Estados incapazes de lhes impor as regras mais básicas.

A falsa autonomia dos que já nem têm direito a ter vínculo com aqueles para quem realmente trabalham – cinicamente tratados como empresários da sua miséria ou ao serviço de pequenas empresas que dependem de um único cliente – resulta da ideia de que a nossa liberdade individual depende da absoluta liberdade do patrão nos escravizar. Começando por recusar ser nosso patrão.

No caso da Amazon, são conhecidas as condições de trabalho indignas exigidas aos seus entregadores. Por falta de tempo, pausas e instalações sanitárias que possam usar têm de urinar em garrafas de água. São responsabilizados quando ficam presos num nevão. Sacrificam a sua segurança quando os tempos de entrega exigidos são virtualmente impossíveis de cumprir.

TikToker asks Amazon delivery driver to dance [Fonte: aqui]
Mas como se não bastasse a exploração levada ao extremo, apareceu, nos Estados Unidos, uma nova moda: clientes que põem nas suas portas pedidos para que os entregadores dancem ou façam algumas graças. Para quê? Para os filmarem através de câmaras de vigilância doméstica como o Ring e publicarem no TikTok.

Alguns dos entregadores fazem o que os clientes pedem com medo de reclamações. Os motoristas são rastreados por câmaras com inteligência artificial e aplicações que os monitorizam e atribuem uma pontuação no fim de cada semana. E são avaliados pelos clientes. Se houver muitas críticas negativas, podem ser demitidos. “Tecnicamente, se o associado de entrega não seguir as instruções, pode ser prejudicado nas suas métricas”, disse um proprietário de uma empresa de entregas do Midwest dos EUA à Vice. Para além da humilhação, perdem o pouco tempo que têm para as entregas.

Entre as muitas publicações que se tornaram virais, fica esta: "Deixei uma placa pedindo aos motoristas para dançarem. Este tipo foi incrível! Alguém o conhece?" Há pessoas estupidas em todo o lado e a empresa não tem culpa disso. Por acaso até poderia banir aquele cliente, diria eu, se a coisa não fosse bem mais grave. É que a própria conta oficial da Amazon deixa comentários nestas contas: “poppin’ and lockin’ while box droppin’” (numa tradução muitíssimo livre, “a dançar e a gingar na hora de entregar”). Ou seja, é a Amazon a incentivar, porque o cliente tem sempre razão mesmo quando é um animal, a humilhação daqueles que lhes entregam as encomendas.

É verdade que ninguém força estes trabalhadores a dançarem. Como escreve Arwa Mahdawi, no jornal "The Guardian", “há uma linha ténue entre exigir oficialmente algo aos seus funcionários e incentivá-lo fortemente”. Também ninguém os força a trabalharem para a Amazon. Esta é a “beleza” deste tempo: ninguém força ninguém a nada. Todos são absolutamente livres de serem escravos ou morrerem de fome. A liberdade deste capitalismo sem freios é essa mesmo: todos somos absolutamente livres, sem qualquer limite. Quem tiver mais poder esmaga o outro, porque assim dita a liberdade de cada um. Tanto pode ser cliente como patrão. Exatamente como na selva.

E esta é uma das razões pelas quais, para além do desprezo que tenho por tudo o que simule empreendedorismo para fugir aos deveres de uma relação assalariada, sou militantemente contra todas as formas de avaliação particular de trabalhadores (diferente da avaliação do serviço de uma empresa). É um sistema perverso que transforma cada cliente num pequeno ditador mimado. A China já transferiu isto para a convivência geral, com os seus créditos sociais. As ditaduras estão a aprender bem com as técnicas de vigilância orwelliana coletiva que o nosso “mundo livre” tem para oferecer. Entre a selva e a tirania, o passo é menor do que parece.

Claro que haverá sempre selvagens que abusam do poder que têm. É por isso que temos leis e vínculos laborais. E é por isso que o despedimento não é livre. Para que as empresas para as quais trabalhamos tenham deveres e os nossos patrões não se tornem nossos proprietários. E quando a alternativa é o desemprego, não me venham dizer que somos livres de aceitar a fome no lugar da escravatura.

Mas a coisa chegou a outro ponto: o cliente passou a ser, ele próprio, um pequeno déspota. E pode fazer o que desde criança aprendemos a reprimir em nós: usar o poder arbitrário para diminuir o outro. Com as redes sociais, até o pode exibir a um mundo que, mesmo que condene, garantirá a viralidade e a fama. Nas empresas, havia a possibilidade do trabalhador dizer não e ninguém o poder despedir por isso. Agora, está nas mãos do ditador das estrelas. No fundo da cadeia alimentar, ponto para ser servido à turba que sempre aí esteve, faminta pela indignidade do mais fraco.»