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domingo, 16 de abril de 2023

Boaventura: Em nome dos nossos valores, não!


Sobre o Me Too fui expondo esperanças num movimento emancipatório e receios pelos riscos para o direito à defesa e à presunção de inocência. “A vítima tem sempre razão” é um argumento que nunca me conquistou porque não pode conquistar quem acredite no Estado de Direito. O estatuto de vítima não é prévio. Uma portuguesa, uma belga e uma norte-americana, que têm em comum a passagem pelo CES de Coimbra, publicaram um artigo em que, não identificando a instituição ou os alegados assediadores, tornaram facílimo lá chegar. Levantam-se dúvidas quanto ao “anonimato frágil” que permitiu identificar sem consequências, à mistura de casos vividos pelas próprias com a reprodução de “rede de murmúrios”, a pouca clareza da natureza dos vários assédios e abusos ou tudo isto ser feito a coberto de um artigo académico. Mas é impossível ignorar. 
A Academia é um espaço propenso ao abuso de poder. Por ser fortemente hierarquizada, pelo domínio intelectual e funcional do “mestre”, pela crescente precariedade e porque a fratura geracional e de poder tende a coincidir com a de género. O CES já anunciou uma comissão independente. Sabem que os efeitos de uma reação menos do que exemplar não serão os que se sentiram perante o comportamento vergonhoso da FDUL. A cultura é outra, é outra a exigência e serão outras as consequências. A inclinação política do Boaventura Sousa Santos e do CES tornou este episódio interessante, mesmo para os que têm mostrado desprezo pelo Me Too. É inevitável. Também somos julgados pela incoerência. É um dos elementos centrais do artigo: “o fosso entre a teoria e a prática”. Mas só escrevo sobre o tema por causa da utilização que BBS fez, na resposta ao DN, das suas convicções políticas para se defender de acusações que não são políticas. Não resiste a desacreditar uma das autoras. Socorrendo-me da sua linguagem, sabe bem a "linha abissal" que o separa daquela que, como subalterna, chama “insolente”. 
Depois, tenta puxar a esquerda para o seu lado: “O objetivo é lançar lama sobre quem se distingue e luta por um mundo melhor. O neoliberalismo está a roubar a alma da solidariedade e da coesão social e criar subjetividades que canalizam os seus ressentimentos para acusações de que sabem não poder haver contraditório eficaz.” Apesar das suspeitas sobre ele parecerem mais generalizadas do que este artigo, BSS é tão inocente como qualquer outro e assim tenho tratado todos os casos (incluindo os padres suspeitos de abusos, que apenas têm de ser suspensos por causa da idade das suas potenciais vítimas). Já vi alguns inocentes serem crucificados e, no fim, ninguém lhes pedir desculpa. 
Mas a defesa de Boaventura é de Boaventura. Só sua. Se usa as causas da esquerda e o neoliberalismo para se defender de uma acusação de abuso, faz dos que estão nestes combates seus reféns. E aí, desculpem-me, tenho de dizer: em nosso nome, não! Pelo menos não em meu nome. Até porque não há qualquer indício de uma motivação política para a acusação que lhe é feita. Se existe, é em sentido inverso: a vontade de construir um pensamento verdadeiramente “pós-abissal”.

Saber mais:

sábado, 6 de agosto de 2022

Boaventura: As transições opostas do século 21

Ambas ocorrem simultaneamente. A democracia cede a “novas” ditaduras. Mas em vez da ideia positivista de “progresso” surge a de justiça social e ambiental. Só uma destas transformações perdurará. Quem quer a segunda precisa frear a primeira.


Ao longo dos últimos cem anos falou-se muito de transições entre tipos de sociedade e entre civilizações, e construíram-se muitas teorias da transição. Segundo o antropólogo francês Maurice Godelier, a transição é a fase particular de uma sociedade que encontra cada vez mais dificuldades em reproduzir o sistema económico e social sobre o qual se funda e começa a reorganizar-se sobre a base de outro sistema que se transforma na forma geral das novas condições de existência. As transições mais estudadas nas ciências sociais foram as seguintes: da idade medieval para a idade moderna, do feudalismo para o capitalismo, do capitalismo para o socialismo, da ditadura para a democracia. Nas últimas décadas, com o colapso da União Soviética, têm sido muito estudadas as transições do socialismo de tipo soviético para o capitalismo.

Os sinais dos tempos obrigam-nos a pensar em dois tipos de transição ainda pouco estudados: a transição da democracia para ditaduras de tipo novo; e a transição epocal do paradigma moderno da exploração sem limites dos recursos naturais (a natureza nos pertence) para um paradigma que promova a justiça social e ecológica, tanto entre os humanos como entre os humanos e a natureza (pertencemos à natureza). A primeira transição aponta para uma profunda crise da democracia, enquanto a segunda aponta para a crise profunda dos modelos de desenvolvimento económico-social que têm dominado nos últimos cinco séculos. São transições de sinal contrário porque, se a primeira transição se consumar, é difícil imaginar que a segunda possa ocorrer. É bom ter isto presente, uma vez que, quem quiser que a segunda transição ocorra, tem de lutar para que a primeira não ocorra. Explicarei por quê.

A crise da democracia
O modelo de capitalismo que hoje domina é cada vez mais incompatível com a democracia, mesmo com a democracia de baixa intensidade em que vivemos, uma democracia centrada em democratizar as relações políticas e deixando que continuem a imperar os despotismos nas relações econômicas, sociais, raciais, etnoculturais e de gênero. Refiro-me à prioridade dos mercados sobre os Estados na regulação económica e social; à transformação em mercadoria de tudo o que puder gerar lucro, incluindo o nosso corpo e a nossa mente, as nossas emoções e sentimentos, as nossas amizades e os nossos gostos; relações internacionais dominadas pelo capital financeiro e pelos super-ricos.

O crescimento global das forças de extrema direita é o mais visível sintoma da crise profunda da democracia. Mas há outros: a facilidade com que a guerra de informação impede o pensamento e excita as emoções que incitam ao conformismo ou à revolta contra os falsos agressores; a recorrente eleição de governantes medíocres incapazes de governar e de pensar estrategicamente; o contra-reformismo conservador dos tribunais e a impunidade dos poderosos; a criação artificial de um ambiente de crise permanente cujos custos são sempre suportados pelas classes sociais mais vulneráveis; é o comportamento dos partidos de extrema direita que quanto mais antidemocrático e violento mais lhes permite subir nas sondagens. Não se pode excluir a possibilidade de o agravamento da crise socioeconómica levar ao colapso das instituições democráticas. O que aconteceu no Sri Lanka no passado dia 9 de julho é um aviso perturbador: inconformados com a carestia de vida e o colapso da economia, a multidão invadiu o palácio presidencial e o presidente, incapaz de resolver os problemas do país, fugiu para o estrangeiro.

A desfiguração da democracia é cada vez mais patente. Tendo como original objetivo garantir o governo das maiorias para benefício das maiorias, a democracia está a ser convertida num governo de minorias para benefício das minorias. Se no início da invasão da Ucrânia se fizesse um inquérito à opinião pública europeia sobre a continuidade da guerra ou a imediata negociação da paz, estou certo que a resposta a favor da paz seria avassaladoramente maioritária. No entanto, aí está a continuidade da guerra com a sua incontestável e, até agora, única certeza: os grandes derrotados são o povo ucraniano e os restantes povos europeus. Nada disto vai ocorrer em vão. Será bom tomar nota desde já que foram os governos mais autoritários (Hungria, Turquia) e os partidos de extrema-direita os que menos entusiasmo mostraram pela vertigem bélica e antirrussa que os neoconservadores norte-americanos conseguiram impor na Europa através de uma guerra de informação sem precedentes. É assim que, em nome da democracia, se promove a autocracia.

As novas ditaduras que se vão anunciando no horizonte não proíbem a diversidade política partidária; eliminam antes a diversidade ideológica entre as diferenças partidárias. Não eliminam a liberdade; reduzem esta a um menu de liberdades autorizadas. Não hostilizam o exercício da cidadania; induzem os cidadãos a hostilizá-lo ou a ser-lhe indiferente. Não reduzem a informação; aumentam-na até à exaustão pela repetição sempre igual e sempre diferente do mesmo. Não eliminam a deliberação política; fazem com que ela seja tanto mais dramática quanto mais irrelevante for a deliberação, deixando para entidades não democráticas as “verdadeiras” decisões, sejam tais entidades Bilderberg, Google, Facebook, Twitter, BlackRock, Citigroup, deep state, etc.

A crise ecológica e o extrativismo
As regiões do mundo que mais intensamente sofrem com a crise ecológica são a África, algumas ilhas do Pacífico e alguns países do sul da Ásia (Bangladesh), mas onde ela tem sido mais vivamente discutida é na Europa e na América Latina. Perante a atual onda de calor e suas consequências, o Secretário-Geral da ONU declarou recentemente que a humanidade está perante uma escolha existencial: “ou ação coletiva ou suicídio coletivo”. Já em fins de maio de 2020, a temperatura no norte do Círculo Polar Ártico chegou aos 26ºC. Um pouco mais ao sul, na Sibéria – aquela região do mundo que se usa como referência de algo muito frio – as temperaturas atingiram 30°C. O gelo do Oceano Glacial Ártico conheceu em 2020 o maior declínio já registado em apenas um mês.

Entretanto, está em construção um novo continente, o continente dos plásticos em pleno Oceano Pacífico, estendendo-se da Califórnia ao arquipélago do Havaí. Ao longo de muitos milhares de anos, os seres humanos têm-se concentrado nas regiões tropicais e temperadas da Terra. A manter-se o atual ritmo de aquecimento global, entre 1 e 3 biliões de pessoas estarão nos próximos 50 anos fora do nicho climático onde se concentra atualmente a maioria da população mundial – a zona sul-oriental do continente asiático. Um dos países mais gravemente atingidos pelas cheias associadas às monções é Bangladesh, com cerca de um quarto do seu território inundado, uma situação que afeta mais de 4 milhões de pessoas.

A injustiça ambiental é hoje uma das mais sérias e talvez a menos discutida. O dióxido de carbono (CO2) responsável pelo aquecimento global permanece na atmosfera por muitos milhares de anos. Calcula-se que 40% do CO2 emitido pelos humanos desde 1850 continua na atmosfera. Assim, embora a China seja hoje o maior emissor de CO2, a verdade é que, se tomarmos como referência o período 1750-2019, a Europa é responsável por 32,6% das emissões, os EUA, 25,5%, a China, 13,7%, a África 2,8% e a América Latina, 2,6%. Torna-se cada vez mais evidente que a ação coletiva pedida por António Guterres não pode deixar de ter em conta esta dimensão da injustiça histórica (quase sempre sobreposta à injustiça colonial).

Os modelos de desenvolvimento industrial em vigor desde o final do século XVIII assentam na exploração sem limites dos recursos naturais. As suas duas versões históricas – o capitalismo e o socialismo soviético (entre 1917 e 1991) – foram muito semelhantes na sua relação com a natureza. O produtivismo foi o outro lado do consumismo, e ambos assentaram no crescimento económico infinito. A Europa recorreu ao colonialismo e ao neocolonialismo para se apropriar dos recursos naturais de que carecia e que abundavam noutras regiões do mundo. Nestas, as elites económicas e os Estados encontraram na intermediação da exploração nos recursos naturais uma das principais fontes do seu poder económico. Até hoje.

Na América Latina, este modelo económico é atualmente designado por neoextrativismo para o distinguir do extrativismo que dominou durante o período do colonialismo histórico. Neste continente, está aberto o debate sobre a transição deste modelo de desenvolvimento para outro, ecologicamente sustentável, designado por bem viver, uma expressão trazida ao debate pelo movimento indígena. É ele que mais se tem distinguido na luta por uma outra concepção de natureza assente na ideia de que a natureza é a fonte de toda a vida, incluindo a vida humana, devendo, por isso, ser respeitada, sob pena de cometermos o “suicídio coletivo” de que fala Guterres. Uma das principais linhas de fratura no interior das forças políticas de esquerda é entre aqueles que querem manter o modelo neoextrativista para gerar recursos que melhorem as condições de vida da maioria da população empobrecida, e aqueles para quem este modelo não só destrói a já precária sobrevivência das populações das regiões onde são explorados os recursos, como também perpetua o poder das elites rentistas, agrava ainda mais a desigualdade social e produz o desastre ecológico.

Na Europa, o debate parece limitar-se às modalidades da transição energética. Não está no horizonte a alteração dos modelos consumo. É uma ecologia dos ricos que se satisfaz com carros elétricos, desde que cada família de classe média continue a ter dois carros, esquecendo, aliás, que as baterias dos carros elétricos usam recursos minerais não renováveis (lítio). Para a perspectiva dominante, é anátema diminuir o consumo não essencial ou propor uma economia de não-crescimento.

Referi acima que a crise da democracia e a crise ecológica estão ligadas. A guerra da Ucrânia, ao implicar o aprofundamento da crise da democracia, implica também o aprofundamento da crise ecológica. Basta ter presente como a crise da energia fóssil provocada pela guerra fez evaporar todos os bons propósitos da transição energética e das energias renováveis. O carvão regressou do exílio e o petróleo e a energia nuclear estão a ser reabilitados. Por que é que perpetuar a guerra é mais importante do que avançar na transição energética? Que maioria democrática decidiu nesse sentido?

quinta-feira, 31 de março de 2022

Pela paz contra a criminalização do pensamento

Carta aberta de 20 personalidades


A denúncia vigorosa da guerra não é incompatível com a necessidade de procurar entender a natureza do conflito, as interpretações que ele suscita, e de como se chegou a esta situação

Não escolhemos o tempo em que vivemos, só escolhemos como reagimos contra a barbárie.

Os signatários reafirmam o inequívoco repúdio de qualquer violação dos acordos internacionais que ameace a integridade e a soberania dos povos, tal como hoje acontece na Ucrânia onde urge parar a guerra e fazer cumprir os princípios da Carta da ONU e da Acta Final da Conferência de Helsínquia.

O que melhor defende a civilização da selvajaria da guerra é o apelo incessante e incondicional à paz.

Os signatários observam com grande apreensão a criação de um ambiente tóxico, em muitos casos vinculado e estimulado por meios de comunicação social e por responsáveis do poder político, de hostilização, desacreditação pessoal e intimidação de todos os que não sigam a cartilha de uma opinião que se arvora ao estatuto de pensamento único.

Pensar traz consequências. O poder político sente-se proprietário das formas de pensar. Os que pensam contra a corrente, são objeto de escárnio, desacreditação social e pressões.

Em seu lugar, privilegiam-se discursos vazios e personagens para todo o serviço. Tudo é superficialidade numa sociedade onde o conhecimento é uma desvantagem e o saber não ocupa lugar.

Pensar não é uma tarefa fácil. Prevalece o elogio da mediocridade, da encenação e da informação espetáculo. Se o discurso não é o oficial é um pensamento subversivo que põe em causa a ordem das coisas - logo deve ser perseguido, deturpado, criminalizado.

Assiste-se por toda a Europa a uma “censura necessária” onde, à revelia de todos os proclamados valores ocidentais, se afastam desportistas, fecham exposições, retiram temporadas teatrais, despedem-se encenadores, professores e maestros, suspendem concertos e ballets, cursos universitários de literatura e ciclos de cinema.

Os signatários recusam alinhar com os que colocaram de quarentena a faculdade de pensar e perseguem todos os que recusam a lógica da confrontação, o elevar das tensões, e o desejo patológico de que a guerra se alastre à escala global.

A denúncia vigorosa da guerra não é incompatível com a necessidade de procurar entender a natureza do conflito, as interpretações que ele suscita, e de como se chegou a esta situação.

Pensar historicamente ajuda a combater os estereótipos e os preconceitos históricos que obstaculizam a compreensão do mundo em que vivemos de forma critica. Os factos históricos nunca são isolados, nem de geração espontânea, arbitrária e inesperada.

Repudiamos que se tenha aceitado, sem qualquer espírito critico nem sentido de soberania, uma diretiva da União Europeia que é contrária à Constituição Portuguesa, promovendo a flagrante e grosseira violação dos direitos de liberdade de expressão e informação expresso no artigo 37 - e o de liberdade de imprensa referido no artigo 38.

De forma acéfala, decidiu-se censurar todos os meios que vinculassem informações contrárias às decretadas como oficiais, restringindo o acesso ao conhecimento, e a uma informação isenta e plural, tentando dessa forma impedir a criação de qualquer outra opinião alternativa.

Isto criou um perigoso precedente sobre o qual tombou um silencio submisso e cúmplice. Esta é uma situação em que o Tribunal Constitucional deveria reverter de imediato.

A criminalização da pluralidade do pensamento promove um mundo sem reflexão critica, sem uma cidadania exigente e participativa. Em seu lugar temos opiniões irrelevantes e banais, sem referências éticas e uma maneira de ser flexível e fútil. O mundo torna-se instantâneo. Pode-se mudar mil vezes de princípios.

A forma maniqueísta de olhar a realidade, a opção da propagada em detrimento do conhecimento, assentam na tentação de uma deriva totalitária, num ambiente público de crescente intolerância, censura e perseguição ao outro que ousa pensar diferente.

A solução não é o aumento da escalada armamentista, nem os apelos à globalização da guerra. A solução está na coragem de avançar para a paz e a obrigatória cooperação entre todos os povos, no enfrentar de tantas ameaças que a todos afectam.

Os signatários:
1- Ana Margarida Carvalho, escritora;
2- Artur Pereira, consultor de comunicação;
3- Boaventura Sousa Santos, sociólogo e professor catedrático jubilado; 
4- Carmo Afonso, advogada;
5- César Viana, compositor e maestro;
6- Cíntia Gil, programadora de cinema;
7- Constança Cunha e Sá, jornalista;
8- Dino Santiago, músico;
9-Francisco Baptista, capitão de mar e guerra (ref);
10-Francisco Mangas, escritor;
11- Gustavo Namorado, advogado;
12- Isabel do Carmo, médica;
13- João Rodrigues, economista e professor universitário; 
14- Júlio Cardoso, actor e encenador;
15- Miguel Januário, artista;
16- Nuno Ramos de Almeida, jornalista;
17- Paula Godinho, antropóloga e professora universitária;
18 -Pedro Tadeu, jornalista;
19- Raul Cunha, major-general (ref);
20 - Viriato Soromenho-Marques, filósofo e professor universitário

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Os ásperos tempos de acédia

Edvard Munch, Melancolia (1891)
Fonte: Outras Palavras29/01/2022
Não conseguimos superar as condições de uma época, mas nunca tais condições nos anulam completamente. Impõe-se refletir profundamente sobre essas condições, sabendo que refletimos com elas. Em O Futuro Começa Agora: da Pandemia à Utopia (Edições 70, 2020), defendo que estamos a entrar num período de pandemia intermitente, ou seja, que a pandemia vai continuar a condicionar a nossa vida pessoal e social por muito tempo. Um ano depois de ter publicado o livro, tudo leva a crer que essa previsão, vaga como é, se vai confirmando. Vamos saindo da fase aguda da pandemia e entrando na sua fase crónica com sequelas difíceis de prever. Em que medida é que essa intermitência se vai refletir na vida pessoal e social dos humanos (para não falar dos seres vivos não humanos)? O impacto da pandemia será muito diverso e desigual nas diferentes sociedades e no interior de cada uma delas.

Proponho-me iniciar uma resposta tendo em mente os seguintes grupos sociais: os que me podem ler, porque têm suficiente instrução formal para ler e escrever; os que têm dinheiro para comprar o JL[Jornal das Letras, no qual este artigo originalmente foi publicado] ou a revista do seu país que publicar este texto; os que têm tempo para ler porque não têm de se preocupar com a comida e a água que eles e suas famílias vão consumir hoje e nos próximos tempos; os que estão suficientemente tranquilos para poder ler, porque não estão ameaçados na sua segurança pessoal por nenhuma guerra irregular entre grupos armados; os que não vivem em nenhuma sociedade em que estar a ler um jornal (ou um certo jornal) é proibido e pode ser punido; os que pertencem a uma cultura em que faz sentido e é possível refletir individualmente sobre temas tão gerais sem consultar a comunidade relevante (incluindo os antepassados), sem ter específica autoridade para fazer reflexão ou sem ter de cumprir certos rituais. Se juntarmos todas estas condições, pode facilmente concluir-se que a minha pergunta e a minha reflexão se referem a uma pequena parcela da população mundial. É bom termos isto presente. É que toda a reflexão teórica no mundo Ocidental desde o século XVII se construiu sobre o pressuposto de dizer respeito a toda a humanidade e ser, por isso, universal, apesar de ter por referência apenas a experiência das classes nobres e instruídas do pequeno canto da Eurásia que era (e é) a Europa. Tendo isto em mente, posso avançar na minha reflexão consciente dos limites do seu alcance.

O monge João Cassiano, em escrito do século V, é o primeiro a chamar a atenção para a condição psicológica de muitos monges da Palestina, Síria e Egito dos primeiros tempos do cristianismo, uma condição a que chamou acédia (do grego: akedia, indiferença, ausência de cuidado). Tratava-se de um estado de letargia permanente, incapacidade de se concentrar em objetivos de estudo ou de culto, exaustão mental e espiritual, apatia, melancolia, torpor, dispersão ou extravio do pensamento (a peruagatio cogitacionum da retórica medieval). Evágrio Pôntico designa a acédia por “demónio do meio-dia”, porque era ao meio-dia, com o sol a pique e imóvel, que os monges ficavam mais inquietos nas suas celas, o dia parecia durar cinquenta horas e a sua vida parecia não ter sentido. Cassiano atribuía a acédia às condições monásticas de isolamento social, de confinamento espacial e de silêncio monacal, uma enorme privação que contrastava com a imensa tarefa de chegar mais próximo de Deus. Mais tarde, a acédia chegou a ser convertida num dos sete pecados capitais, a preguiça. Mas foi sempre muito mais que isso. Hoje será fácil assimilar acédia a burnout, à depressão, como em período anterior foi assimilada ao ennui ou à Weltschmerz. Penso que tais designações, embora corretas em si, não passam da superfície do contexto em que hoje é pertinente falar da acédia. Em meu entender, a acédia é um dos sintomas deste novo tempo, diferente segundo os contextos e os grupos sociais, uma condição que muitos sofrerão e de que outros se aproveitarão. Não se trata de um tempo totalmente novo (se é que tal seria possível), mas antes de um acentuar qualitativamente diferente de tendências que vinham a acumular-se desde meados do século passado. Proponho-me iniciar uma reflexão sobre as causas da acédia no nosso tempo, a sua diversificada fenomenologia e o seu impacto nas relações sociais e políticas.

Do mundo em pausa ao mundo intermitente
Desde há dois anos, a vida pessoal e social vive-se em registo de pausa. Estar em pausa, tal qual no computador, é ter a tarefa momentaneamente interrompida. Nem abandonada, nem concluída. Os planos pessoais e sociais sempre passam por momentos de pausa. E durante estes anos temos recorrido permanentemente ao registo de pausa nas nossas relações e nas nossas expressões. Despedimo-nos dos amigos numa mensagem mandando beijos ou abraços, mesmo sabendo que, se estivéssemos agora na presença deles, não nos poderíamos beijar ou abraçar em face dos riscos de contaminação que isso envolveria. Vibramos com a antecipação de um encontro íntimo com alguém que não está fisicamente próximo, mesmo sabendo que tal encontro não pode ter, por agora, dia marcado e poderia ter consequências fatais se ocorresse. Planeamos convívios e atividades sociais e profissionais sempre sujeitos à intermitência da pandemia. Planear para a intermitência não é o mesmo que planear para a linearidade. E isto é válido tanto no plano pessoal como no coletivo, tanto no âmbito privado como no público. Se for recorrente, a intermitência da pausa cria uma discrepância com a experiência existencial: vivemos continuamente e não intermitentemente. Se o registo da pausa se instalar, teremos de passar a planear como nunca para poder viver como sempre. Com o passar do tempo, é possível que tal planeamento se transforme em planear como sempre, e a vida, já transformada por ele, se transforme em vida como sempre. Essa possível transformação está expressa na ideia do “novo normal”. Uma ideia, em si, contraditória: se uma condição é normal, não é nova e, se é nova, não é, de imediato pelo menos, normal.

Se o registo de pausa se mantiver, perde a natureza de pausa. Como será vivermos depois de esquecidos de que tudo começou vivendo em pausa, interrompendo-se o que, em princípio, não seria interrompido? Como serão as relações “profundas” ou “duradouras”? Serão duradouras e profundas as relações que se adaptarem melhor à intermitência, numa espécie de lógica de seleção darwiniana das espécies? Como se reinventam os conceitos de progresso e de regresso ou de retrocesso? Como planear uma carreira profissional ou uma família? Como conceber a satisfação das necessidades e a felicidade? A recompensa instantânea passa a ocupar o lugar dos “grandes objetivos”? O corpo adaptar-se-á melhor à intermitência que a mente ou vice-versa? Dos nossos cinco sentidos, qual será o mais afetado pela intermitência? A visão só vê com alguma (mínima) distância, pois, como dizia Nietzsche, sempre tão preocupado com os seus olhos, os olhos veem tudo, só não se veem a si próprios. Mas, e o tato ou o paladar, que parecem exigir o oposto? E o olfato, numa posição intermédia? A memória da intermitência torna-se, ela própria, intermitente? A hiperproximidade dos corporalmente próximos como regra de segurança conduzirá a novos tribalismos, bolhas de likes corporais, como já existem hoje nas redes sociais?

Todas estas perguntas e todas as outras que se poderiam juntar podem parecer à superfície das coisas como pura imaginação e certamente ninguém terá tempo para lhes dedicar muita atenção. Em meu entender, o problema reside aí. A pandemia está a ser uma vivência mais profunda na vida das pessoas e das sociedades do que se pode imaginar, mas só temos suspeita disso através de sintomas que, como todos os sintomas, são ambíguos. Tais sintomas são aflorações de questionamentos existenciais e quem os experiencia faz a sua tradução para a sua vida pessoal e coletiva da forma que lhe pareça menos disruptiva. Não o faz sozinho. Fá-lo nas condições que a sociedade lhe permite. Vejamos, pois, como pode estar a acontecer o processo de tradução.

Nas centenas de intervenções online que tenho tido nestes dois últimos anos (seminários e debates em meio universitário, na comunicação social, em meios artísticos e culturais, com grupos políticos e movimentos sociais) tenho-me apercebido da transformação da condição de suspensão pessoal e social causada pela pandemia, uma condição que vai criando estados de espírito específicos, alguns dos quais se cristalizam enquanto outros se desvanecem. A transformação pode resumir-se assim: da pausa/suspensão à intermitência, da intermitência à bifurcação entre resistência ou desistência, com um longo período de hesitação na encruzilhada da bifurcação. Esta transformação é epocal e reside existencialmente no modo como a pandemia exterior se vai metamorfoseando em pandemia interior. As camadas mais jovens estão talvez a viver com mais intensidade esta transformação. A acédia – vivida de múltiplas maneiras – é a expressão da dificuldade desta transformação. A transformação começa quando subliminarmente se vai insinuando a suspeita de que a pausa, mais que um momento de interrupção, pode ser o sinal de um novo estado e de uma nova permanência, a permanência da intermitência. Os imponderáveis e as incertezas aumentam assim exponencialmente. Se a tarefa ou o plano não estão apenas interrompidos, significa que talvez não possam ser concluídos e, consequentemente, terão de ser abandonados. E se assim for, o menu é vasto: reavalia-se e desvaloriza-se a tarefa ou o plano específico (síndrome dos sour grapes, o estão verdes, em bom português), recusa-se o abandono, aceita-se, esquece-se ou substitui-se por outras tarefas e planos menos sensíveis às variações da intermitência, pondera-se a resignação, opta-se pela revolta e pelo inconformismo perante a situação, mas sem alternativas e com possíveis transferências para gratificações-à-mão. O que resulta de múltiplas trocas e debates é uma outra suspensão, a mais difícil de todas: os jovens não sabem o que escolher perante tão vasto menu. Nisso reside a causa próxima da acédia deste começo de século.

Não sou psicólogo nem psiquiatra e por isso não me aventuro sobre a avaliação da acédia enquanto condição mental. Tão pouco sou teólogo para poder avaliar se a acédia é um pecado (como já foi) e que tipo de pecado. Não tenho, pois, de me ocupar da possível cura individual ou, muito menos, da absolvição. Enquanto sociólogo, penso que nem a psicologia nem a psiquiatria ajudarão os mais jovens (talvez ajudem os mais velhos) a negociar as transformações em curso com menos custos pessoais e com eventuais ganhos sociais. E se a acédia fosse o sinal de uma oportunidade social nova? É uma questão para o futuro. Intermitente?

terça-feira, 16 de março de 2021

A força de um hábito, estranha forma de vida

Há tanta coisa para dizer sobre esta pandemia e os enigmas políticos, económicos, ambientais, filosóficos que ela arrasta mas hoje quero falar-vos do perigo do hábito. Estamos feitos.


Conta-se uma história na Serra do Caldeirão de um espanhol que comprou um burro mas que não podia, nem queria, ter muita despesa com ele. Apercebeu-se que quanto mais comida lhe dava mais ele queria comer e também do seu inverso. Assim decidiu reduzir a quantidade de feno e chegou ao ponto em que o submeteu ao jejum. O burro terá vivido uma semana sem comer e acabou por morrer. As histórias que se contam na serra são um bocado cruéis e esta não será verdadeira. Não há notícias de espanhóis por lá e a escolha de um protagonista espanhol não parece inocente. Adiante. O homem ficou triste com a perda do burro mas ficou sobretudo revoltado por o animal ter morrido quando finalmente estava habituado a não comer. A miséria era muita e não só a económica e, sendo ou não uma história verdadeira, fica sempre aqui demonstrada. Quem a inventou não o teria feito na abundância, quem a foi repetindo também não.

Estamos privados de quase tudo o que caracteriza a vida tal qual a conhecemos e direi que estranhamente habituados. Há saudades mas o hábito instalou-se; o das máscaras, o do distanciamento físico, da permanência em casa, das reuniões online, do próprio isolamento, dos horários e o de várias limitações severas das liberdades. Este é um facto. Se foi ou não absolutamente necessário fazer tudo o que foi feito é um aspecto que poucas pessoas terão efectivas possibilidades de avaliar. Fui a favor do primeiro confinamento e fui também a favor do segundo, serei a favor de um terceiro se novamente se concluir que a situação está descontrolada ou em vias de estar. A ideia da fragilidade dos mais velhos é insuportável. Sou a favor por, na dúvida (e só é possível ter dúvidas), confiar no que dizem os cientistas e os governos e por privilegiar a saúde pública. Não se deverá ter a pretensão de perceber mais disto do que aquilo que se percebe, e que normalmente é pouco, e do que aquilo que parece ser unânime a um nível global.

Tenho algumas reservas relativamente a muitas das limitações que foram impostas como horários para comprar álcool ou a proibição de aquisição de quaisquer líquidos no espaço público. Sei que seria inevitável que algumas restrições padecessem de falta de lógica. Foi tudo muito novo. Claro que alguns terão escolhido o que achavam que não fazia sentido e criaram a sua própria transgressão que podia passar por uma combinação com o café do bairro para ter efetivamente um café embrulhado num saco de papel ou outra coisa qualquer. Há quem não tenha transgredido de todo. E há quem tenha uma posição de grande crítica relativamente a quem não cumpriu alguma das regras. Há também quem tenha mudado de ideias e de postura. É verdade que muitos portugueses gostam de obedecer desde que possam dar uma facadinha na regra. Diria que se devem tentar respeitar todas as posições que reflitam algum compromisso com a razoabilidade. O radicalismo é fundamental mas, caramba, aqui é ser radical no desconhecido e pode também implicar ser radical no moralismo, o que nunca deu sorte a ninguém. O compromisso com a razoabilidade deverá excluir exemplos como os do “Lapo”. Tinha que ficar dito.

Temos entre nós negacionistas da pandemia. Normalmente trazem consigo um discurso ignorante associado ao populismo do anti-sistema ou às mais diversas conspirações. Não há assim tanto a dizer sobre isto. É que não há como negar a existência de uma pandemia que matou milhares de pessoas. Existe um vírus e é cada vez mais provável que as condicionantes decorrentes da sua existência nos acompanhem nos próximos tempos. É sempre difícil quando a um advogado alguém pergunta: “Quanto tempo vai demorar até termos uma decisão?” A resposta comporta sempre uma margem de imprecisão suficiente para não se arriscar a indicação de uma data. Vejo o mesmo aqui. Temos vacinas de um lado e o aparecimento de novas estirpes do outro mas, neste caso, a tradicional má distribuição das primeiras poderá potenciar as segundas. Não há fim à vista. Teremos fases melhores e fases piores mas isto exige que seja encarada, e o mais rapidamente possível, a profundidade da mudança.

Sucede que a aversão generalizada ao negacionismo, o ambiente de medo e a possibilidade de uma vida através dos meios digitais, têm levado a uma postura acrítica, até indiferente, relativamente ao significado deste estágio que estamos todos a fazer para um modo novo de estar na vida. A este propósito recomendo a leitura da entrevista de Boaventura Sousa Santos à Sapo 24.

Grande parte da população mundial vive uma vida em que abdicou de muito em nome do bem colectivo. O princípio está correcto. O ponto a que chegámos é que já deve suscitar reflexão. Esta é uma afirmação muito sensível. Tem em si vários perigos: o de ser confundida com a defesa das liberdades individuais e económicas numa lógica em que, com todo o respeito, não me incluo, o de ferir a susceptibilidade de quem tem travado a tal batalha na “linha da frente” ou de quem viveu processos de perda relacionados com a covid. São apenas exemplos, há mais perigos. Espero que não seja o caso.

A reflexão deve mesmo ser feita. É uma nova forma de vida que está em causa e numa escala absolutamente global. Tornámo-nos pessoas diferentes e este processo, que pode parecer individual, é transversal e colectivo. Passou um ano. Que pessoas seremos se passarmos mais dois anos assim? Quais os efeitos que este isolamento físico terá nos adultos? E nos adolescentes? Que oportunidade está aqui criada para a prepotência de Estados sobre os cidadãos ou, pior, para o acentuar da prepotência tecnológica? Quem defende os cidadãos mais desprotegidos do exercício da autoridade, por parte das forças de segurança, que não os tratam como iguais neste processo? Não são perguntas novas mas devem ser mesmo feitas e seria importante que se tentasse efetivamente respondê-las. Não se deve confiar em quem pensa que tem consigo a verdade sobre estes temas mas deve-se sobretudo desconfiar de quem não a procura. Isto é importante.

Há tanta coisa para dizer sobre esta pandemia e os enigmas políticos, económicos, ambientais, filosóficos que ela arrasta mas hoje quero falar-vos do perigo do hábito.

Estamos feitos.

Há um aspecto no hábito que ajuda a definir o seu perigo: é que não se distingue bem o momento em que ele se instala, porque o apego não é inicialmente aparatoso, do momento em que é tão forte que já integra o que é considerado essencial para existir. Podemos pegar no exemplo de práticas que dão prazer, como fumar ou tomar café. Há ali um momento, e é certo que nunca sabemos com rigor qual foi, em que a vida passa a ser muito difícil sem a manutenção do hábito. Essa consciência acaba por chegar e não é preciso um episódio de carência. É simples. Torna-se evidente que é preciso fumar um cigarro e tomar um café e que, sem aquilo, o dia pode ser um pesadelo. O hábito das coisas que dão prazer costuma ser chamado de vício.

Quando chegamos ao hábito do que é desagradável ou penoso o fenómeno é mais interessante mas também mais terrível. Um indivíduo que viva algum tempo em circunstâncias traumáticas e penosas pode mesmo habituar-se, e ganhar apego, a elas. Os exemplos são vários e estão estudados até como quadros clínicos de que é conhecido exemplo o “síndrome de Estocolmo”. Quem padece do síndrome também nunca se apercebe do momento em que inverteu o processo e em que passou a sentir afecto pelo seu agressor ou opressor.

No filme de Pedro Almodóvar “Ata-me” a protagonista “Marina”, Victoria Abril, apaixona-se pelo seu sequestrador “Ricky”, Antonio Banderas, e depois de ter sido libertada pela irmã, volta a procurá-lo para casar com ele. Existem muitas histórias na literatura e no cinema que reflectem esta inversão de sentimentos mas quero lembrar-vos de uma, dura, que nos encaixa como uma luva: no filme “Os Condenados de Shawshank”, de Frank Darabont, encontramos a visão da ausência de liberdade e da vigilância, da repetição tortuosa de rotinas, da sucessão de dias perdidos, dos muros altos do isolamento de centenas de homens, da vida em condições miseráveis, da injustiça e da violência. É depois de várias décadas de uma vida assim que “Brooks”, James Whitmore, é libertado. Está velho e tem medo do mundo cá fora. É um homem institucionalizado. Não consegue enfrentar uma vida de liberdade e, como alguns fazem, na situação inversa em que chegam a uma prisão para cumprir uma pena longa, Brooks pendura uma corda na viga de madeira do quarto que lhe foi dado e suicida-se. Também “Red”, Morgan Freeman, sofre com a liberdade quando ao fim de trinta anos (a noção da passagem do tempo não é óbvia para quem vê o filme), e quando já não a deseja, a consegue.

É humano e isso somos todos. A nossa essência é mais do que um elemento individual e irredutível que cada um traz dentro de si, ela tem a vocação de se deixar abalroar pelas circunstâncias. Somos aquilo que fazemos muitas vezes ou transformamo-nos nisso. Está a acontecer. Há excepções, há bolsas de resistência – e tantas vezes são ingénuas aventuras por caminhos piores do que aqueles dos quais se está a fugir -, mas há sobretudo um processo de transformação em curso, um processo de normalização que traz consigo um robe e um par de pantufas. Esta pode ser também uma causa de morte. Algo morre quando isto acontece.

A força deste processo de habituação está a ser muito ajudada pela adição às tecnologias. Sim, como aos miúdos nos restaurantes, no tempo em que estavam abertos, deram-nos uns aparelhos para as mãos que nos entretêm e que deixam os nossos “pais” jantar em paz e sossego.

Lamentavelmente não será a consciência de que estamos a ficar habituados a trabalhar a partir de casa ou a não recebermos amigos ou a levarmos o dia sem calçar um par de sapatos que resolverá este problema. Desta vez não é assim. Não adianta dizer a um fumador que tem um vício, ele provavelmente já sabe e esse conhecimento não fez dele uma pessoa nova.

É insuportável imaginar a continuidade uma vida sem liberdade. Mas muito mais insuportável será quando já não sentirmos falta da liberdade, quando só quisermos segurança e sossego. Cada um saberá em que ponto está deste processo mas dificilmente alguém poderá afirmar-se totalmente excluído. “O hábito é uma segunda existência que anula a primeira” disse Blaise Pascal. Acertou tanto.

Nota: Este artigo não fala sobre os profissionais de saúde ou sobre outros profissionais que, tendo mantido o país a funcionar (levando, por exemplo, comida às casas ou trabalhando em supermercados) nem ao menos conhecem a expressão do agradecimento colectivo. Também não fala dos trabalhadores sem trabalho ou de confinados que não conseguem pagar as rendas de casa. Há quem esteja a salvo do hábito de ficar assim, a salvo de uma morte por robe e pantufas. Raio de salvamento. E quanto ao burro, morreu mesmo de fome.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Para o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, “as universidades só ensinam o conhecimento dos vencedores, e não dos vencidos”

Fonte: O Povo
Ao tentar definir Ecologia de Saberes, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, um dos mais prestigiados do mundo, afirmou ser um apelo por mais justiça aos conhecimentos. Ele referia-se ao conhecimento que vem das populações rurais, urbanas, ribeirinhas. Ao conhecimento nascido da luta, dos oprimidos, dos discriminados. “As universidades só ensinam o conhecimento dos vencedores, e não dos vencidos. (...) O conhecimento universitário, científico, é importante, mas não basta”, afirmou.
Na noite de ontem, Boaventura ministrou palestra durante o Encontro Internacional Ecologia de Saberes: Construindo o Dossiê Sobre os Impactos dos Agrotóxicos na América Latina. A aula de abertura do evento ocorreu na Concha Acústica da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Na ocasião, ele defendeu que há uma injustiça cognitiva extraordinária, uma ciência que coloca uma grande parcela da população na condição de bárbaro. “A ciência fez com que muita gente no mundo viva exilada, quando ela tem outro conhecimento, outro saber”, argumentou.

Responsabilidade
Para o sociólogo, aqueles que têm o conhecimento científico têm a grande responsabilidade de trazer outros conhecimentos para a universidade e respeitá-los. Por isso, ele propõe, por exemplo, o diálogo entre agricultores e engenheiros agrônomos. “Precisamos conhecer as lutas uns dos outros. Temos que fazer tradução intercultural”, disse, sobre o caminho para se fazer justiça. Em vez do conceito de desenvolvimento - “face do capitalismo neoliberal no mundo” -, para promover o diálogo, ele propôs os de dignidade, economia familiar, reforma agrária, economia social e solidária, soberania alimentar, reserva de território. “Os termos são esses, que podem ser alternativos ao desenvolvimento”, disse.

Segundo ele, a democracia representativa foi derrotada pelos capitalistas e esse seria o motivo para tantos protestos pelo mundo, inclusive no Brasil. “São revoltas de indignação contra algo que não é claro. Não se sabe o que quer, mas sabe-se o que não quer”, disse. Por isso, ele afirma que Ecologia do Saber é uma tentativa de se criar uma outra conversa para a sociedade. “Se não fizermos isso, a alternativa é o fim do planeta”.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Desmercadorizar

Retirada do Politeia
Nem a propósito do que já escrevi aqui

Fui à manifestação 19 de Junho no Porto...uma decepção: nada organizado, tímida, tímida.Pouca gente. Bem, nem comentei nas redes sociais nem no blogue, mas só agora, porque já "digeri" o momento.

Será que caímos em Portugal na clicodemocracia de vez? Do faz de conta da "democracia" do sofá? Não falar nada deste roubo legalizado e maldade em todo o lado ? Ou afinal os "indignados" portugueses ainda contam com a fundação pais? Que não confiem nos políticos, já não gostem dos sindicatos, já não acreditam nas cooperativas, então estão à espera de quê? Que se lhes ofereçam tudo, e não fazerem nada- nadismo? Ou então estarão à espera de ser um Mourinho ou Ronaldo? Ou na esperança em chegar à política através de um carreirismo profisisonalizante como temos actualmente a lição final de dois diletantes licenciados e que chegaram um a PM: Passos Coelho e outro a braço direito: Miguel Relvas.
Ou então submetidos a um cinismo reinante, fruto de massificação explosiva de publicidade e vida consumista que lhes retirou a força de encarar a vida no TODO, com TODOS e para TODOS seres vivos humanos e não humanos!
Vejam os filmes

E leiam a crónica de Boaventura dos Santo embaixo.
Se nada fizermos...será tarde demais.

Segunda feira, 6 de Jun de 2011

Desmercadorizar é um imperativo incontornável na busca de uma sociedade melhor. Sobrepostas às crises financeira, económica e social que acompanham o capitalismo desde o seu início, as crises ecológica, energética e alimentar vieram conferir um grau de convicção maior a algumas constatações que até agora não tinham merecido a atenção do cidadão comum. Eis algumas dessas constatações.

Primeiro, conceber o desenvolvimento como crescimento infinito assente na apropriação intensa da natureza é uma conceção que nos conduz ao desastre. A natureza está dar múltiplos sinais de que os seus ciclos de regeneração vital têm vindo a ser violados muito para além do que é sustentável. A natureza aguenta bem o uso por parte dos humanos mas não o abuso. O planeta não é inesgotável. O estilo de vida nos países desenvolvidos é energívoro e submete as energias não renováveis a uma pressão insustentável.

Segundo, a redução do bem-estar ao bem-estar material, baseado no consumo de bens disponíveis no mercado, deixa de lado muitas dimensões da vida (a espiritualidade, o cuidado, a solidariedade, os valores éticos) essenciais ao florescimento humano. Tornam-se necessários outros indicadores de bem-estar.

Soa hoje menos absurda ou exótica a iniciativa de um pequeno país budista entalado nos Himalaias, Butão, que, em 1972, decidiu criar um índice de Felicidade Interna Bruta (por analogia com Produto Interno Bruto) para medir o desenvolvimento humano com base nos valores da sua cultura.

Terceiro, como qualquer outro fenómeno histórico, se o capitalismo teve um início, certamente terá um fim. Aliás, a crise ecológica está a mudar os termos dos desafios que enfrentamos: se o problema não for o de saber se o capitalismo sobreviverá, é certamente o de saber se sobreviveremos ao capitalismo.

Quarto, o capitalismo, por mais dominante, não conseguiu nunca erradicar totalmente outras lógicas de relações económicas que não passam nem pela acumulação infinita de riqueza nem pelo lucro a qualquer preço; essas lógicas (algumas existiam antes do capitalismo e sobreviveram, outras surgiram com o capitalismo e para lhe resistir) contêm um repertório de inovação social e económica que pode ser precioso num contexto em que se aprofundam as crises social, ecológica, alimentar e energética.

Refira-se, a título de exemplo, o conceito de "viver bem", Sumak Kawsay em quéchua, que os indígenas do Equador lograram transformar em imperativo constitucional, ao mesmo que atribuíram à natureza (Pachamama, a terra mãe) a titularidade de direitos próprios dela e não dos humanos.

Desmercadorizar significa impedir que a economia de mercado estenda o seu âmbito a tal ponto que transforme a sociedade no seu todo numa sociedade de mercado, numa sociedade onde tudo se compra e tudo se vende, inclusive os valores éticos e as opções políticas.

O imperativo de desmercadorizar envolve a promoção do mais amplo conjunto de iniciativas, muitas delas já testadas pelo tempo e pela capacidade de criar bem-estar para os que nelas participam. Com algumas adaptações, as propostas pela desfinanceirização da Europa estão hoje a ser avançadas a nível mundial.

Constituem um dos núcleos centrais do objetivo de desmercadorizar a vida pessoal, social, política, cultural.

Com o mesmo objetivo, muitas outras propostas e iniciativas têm vindo a ser apresentadas. Fazem parte da consciência antecipatória do mundo e vão esperando a hora da vontade política para as levar à prática. Entre muitíssimas outras, eis algumas:
  • Promover formas de economia social tais como cooperativas, economia solidária, sistemas de entreajuda e de troca de tempo e de trabalho
  • Submeter ao controlo público (não necessariamente estatal) democrático (não burocrático) a exploração e gestão de recursos e de serviços essenciais ou estratégicos
  • Desmercadorizar a natureza na medida do possível - de que é bom exemplo o pacto internacional da água, há algum tempo em discussão -promovendo uma nova relação entre seres humanos e natureza assente na ideia de que os primeiros são parte da segunda (não existem à parte dela) e que por isso deverão respeitar os ciclos vitais de regeneração da natureza, sob pena de suicídio coletivo
  • Definir uma nova geração de direitos fundamentais: os direitos da natureza, os direitos humanos à água, à terra, à biodiversidade e a consequente consagração de novos bens comuns insuscetíveis de serem privatizados
  • Interditar a especulação financeira sobre a terra e os produtos alimentares a fim de evitar a concentração de terra (está em curso uma contrarreforma agrária) e a subida artificial dos preços dos alimentos
  • Transformar a soberania alimentar em eixo de políticas agrárias para que os países deixem de ser, na medida do possível, dependentes da importação de alimentos
  • Regular estritamente os agrocombustiveis pelo impacto que têm na segurança alimentar e na soberania alimentar. O impacto destes projectos na agricultura e na vida dos camponeses não é difícil de imaginar
  • Aumentar a vida média dos produtos manufaturados. Um carro ou uma lâmpada podem durar muito mais tempo sem acréscimo de custos
  • Tributar de forma agravada alguns produtos agrícolas que viajam mais de 1000 km entre o produtor e o consumidor, criando com a arrecadação um fundo para apoiar o desenvolvimento local dos países menos desenvolvidos -Incluir a diminuição do tempo de trabalho entre as políticas de promoção de emprego
  • Proibir o patenteamento de saberes tradicionais e reduzir drasticamente a vigência de direitos de propriedade intelectual na área dos produtos farmacêuticos e agrícolas
  • Aproveitar ao máximo as potencialidades democráticas da revolução digital para promover uma cultura livre que recompense coletivamente a criatividade de artistas e investigadores, generalizando a inovadora experiência do movimento do Open Source Software, e da Wikipedia.
Estas são algumas imagens da consciência antecipatória do mundo.
Dir-se-á que são utópicas ou eivadas de romantismo. Sem dúvida. Mas devemos ter em conta algumas cautelas ao estigmatizar a utopia. Muitas destas propostas, quando detalhadas tecnicamente, dispõem de medidas de transição e são susceptíveis de aplicações parciais.

Acresce que uma ideia inovadora é sempre utópica antes de se transformar em realidade. Finalmente, porque muitos dos nossos sonhos foram reduzidos ao que existe e o que existe é muitas vezes um pesadelo, ser utópico é a maneira mais consistente de ser realista no início do século XXI.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

COP15- Cimeira de Copenhaga



De 7 a 18 de Dezembro, os olhos do planeta viram-se para Copenhaga. Neste dossier, destacamos as actividades dos movimentos sociais à margem da cimeira e revelamos as consequências do mercado de emissões de carbono e da irresponsabilidade do governo português. Leia também as opiniões de Naomi Klein, Marisa Matias e Boaventura de Sousa Santos, a declaração do e a resposta de George Monbiot aos teóricos da conspiração "anti-aquecimentista". Para além da selecção de videoclips de combate às alterações climáticas, publicamos os fundamentos da alternativa ecosocialista, entre outros conteúdos. Acompanhe também o Diário de Copenhaga e as notícias da cimeira.