quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Peter Singer- Libertação Animal

E-livro aqui
Como muitos dos debates internacionais que animam a opinião pública, as universidades e os intelectuais dos países mais desenvolvidos, o problema dos direitos dos animais tem passado despercebido em Portugal. Temos até o caso de Barrancos a lembrar-nos até onde a crueldade portuguesa pode ir em nome da tradição (como se qualquer tradição, só por ser uma tradição, devesse ser respeitada — afinal, também a escravatura era uma tradição milenar e foi abandonada). Com a publicação em Portugal da obra Libertação Animal, de Peter Singer, a Via Óptima vem dar aos portugueses a possibilidade de participar no debate internacional de ideias e de repensar algumas das suas convicções mais enraizadas. Esta obra foi originalmente publicada em 1975 e foi responsável pela vitalidade dos mais importantes movimentos em prol dos direitos dos animais. A edição a que agora temos acesso em português, traduzida por Maria de Fátima St. Aubyn, é a edição revista de 1990.

O livro tem 6 capítulos, dois prefácios (referentes às edições de 1975 e de 1990), três apêndices e várias fotografias ilustrativas do modo como os animais são tratados. Os apêndices apresentam uma útil bibliografia comentada, indicações que ajudam a viver sem pactuar com a crueldade para com os animais, e ainda uma listagem de organizações que, um pouco por todo o mundo, lutam contra o modo como tratamos os animais. O editor português incluiu nesta lista, e bem, referências a organizações congéneres portuguesas.

O primeiro capítulo é semelhante ao capítulo 2 da obra Ética Prática e tem por título "Todos os animais são iguais". Trata-se de discutir a ideia de igualdade e de mostrar que restringir esta ideia aos seres humanos é uma forma de "especismo" — um preconceito indefensável e semelhante em tudo ao racismo. A ideia de igualdade é muitas vezes mal compreendida pelo grande público. Pensa-se que as mulheres e os negros ou os ciganos têm os mesmos direitos que as outras pessoas por serem iguais às outras pessoas. Mas isto esconde ainda uma forma de racismo e de sexismo. Em primeiro lugar, os homens são muito diferentes das mulheres: têm sexos diferentes. Mas daí não se segue que os direitos das mulheres se subordinem aos direitos dos homens. Em segundo lugar, é óbvio que há pessoas mais inteligentes que outras. Newton ou Einstein ou Descartes foram mais inteligentes do que a maior parte de nós; mas daí não se segue que tenham mais direitos do que nós. Em conclusão: não é por os ciganos, negros, etc. serem iguais aos outros seres humanos que têm os mesmos direitos. É verdade que são realmente iguais, em termos genéricos, nomeadamente quanto à inteligência; mas mesmo que não fossem, isso não determinaria que tivessem menos direitos. Afinal, um deficiente mental não tem a mesma inteligência de uma pessoa normal, mas não deve ser discriminada por isso.

Quando compreendemos a igualdade correctamente, compreendemos que é difícil não a alargar aos outros animais; discriminar com base na espécie é tão aleatório como discriminar com base na etnia ou no sexo. O que é moralmente relevante para ter direitos é a possibilidade de sofrer. Dado que os animais podem sofrer, têm direitos. No primeiro capítulo, Singer procura mostrar que a correcta compreensão da noção de igualdade implica que os animais têm direitos, respondendo a muitas das objecções que é comum levantar neste ponto do debate: será que os animais sofrem realmente, ou serão meros autómatos incapazes de sentir dor por não terem alma, como defendia Descartes? Será que faz sentido falar de direitos dos animais quando eles não têm sequer a noção do que é um direito? Singer responde com imparcialidade, rigor e bonomia a estas e outras objecções.

O segundo capítulo, intitulado "Instrumentos para a investigação" apresenta a realidade das experiências científicas com animais. Tanto este capítulo como o seguinte baseiam-se em ampla documentação. O autor conduziu uma investigação sobre o modo como os animais são usados na investigação científica — e os resultados são surpreendentes. A ideia que se tem geralmente é que as experiências com animais permitem avanços importantes em medicina, o que ajuda a salvar vidas humanas. Isto é falso. Grande parte das experiências científicas com animais são levadas a cabo por psicólogos que estudam o comportamento dos animais em situações anormais. Por exemplo: colocam um cão vivo numa espécie de forno, o qual aquecem lentamente até o cão morrer por ser incapaz de suportar o calor. Dão choques eléctricos a ratos e cães, para determinar como reagem a situações de dor permanente. Grande parte deste capítulo consiste em descrever experiências deste género, com base nos relatórios publicados nas revistas da especialidade.

Além de grande parte das experiências com animais levadas a cabo pelos cientistas ser perfeitamente irrelevante para o progresso do conhecimento, não é também verdade que algumas experiências sejam determinantes para salvar vidas humanas. Na verdade, nunca tal coisa aconteceu; e o contrário está mais próximo da verdade. Alguns avanços médicos cruciais que salvaram milhares de vidas jamais teriam sido alcançados caso se baseassem em experiências com animais: "a insulina pode provocar deformações em coelhos e ratos pequenos, mas não nos seres humanos. A morfina, que actua como calmante nos seres humanos, provoca delírios em ratos" (p. 53). E a penicilina é tóxica para os porquinhos-da-índia.

A maior parte das pessoas que defendem os direitos dos animais estarão dispostas a concordar com os argumentos do autor até chegarem ao capítulo 3, intitulado "Visita a uma unidade de criação intensiva". Neste capítulo descreve-se a forma como os animais que comemos são tratados pelas modernas unidades de criação intensiva e o sofrimento a que são sujeitos. E é aqui que começam as dificuldades para o defensor dos animais, pois agora não se trata só de uma opinião sobre coisas que não o afectam; para ser consequente, o defensor dos direitos dos animais terá de deixar de comer animais, dado que é o nosso gosto por carne e peixe que determina o modo como os animais são tratados. O modo como as galinhas, os porcos e as vacas são tratados nas unidades de criação intensiva é descrito de forma imparcial, com base nas revistas da especialidade.

Dada a forma como os animais são tratados para produzirem carne, ovos e leite, que pode o defensor dos direitos dos animais fazer para ajudar a resolver a situação? O tema do capítulo 4, "Ser vegetariano", defende um estilo de vida vegetariano como resposta a esta questão, para que o defensor dos direitos dos animais não seja hipócrita e inconsequente, defendendo com palavras o que contraria nos seus actos: "É fácil tomar posição acerca de uma questão remota, mas os especistas, como os racistas, revelam a sua verdadeira natureza quando a questão se torna mais próxima. Protestar contra as touradas em Espanha, o consumo de cães na Coreia do Sul ou o abate de focas bebés no Canadá enquanto se continua a comer ovos de galinhas que passam as suas vidas amontoadas em gaiolas, ou carne de vitelas que foram privadas das mães, do seu alimento natural e da liberdade de se deitarem com os membros estendidos, é como denunciar o apartheid na África do Sul enquanto se pede aos vizinhos para não venderem a casa a negros" (p. 152).

Surpreendentemente, há ainda outras razões para abandonar o consumo de carne. A produção intensiva de animais para abate é, em termos ecológicos, um disparate. "São necessários cerca de 11 kg de proteínas em ração para produzir o 1/2 kg de proteína que chega aos seres humanos. Recuperamos menos de 5 % daquilo que investimos" (p. 155). As fezes dos animais que são produzidos para abate contribuem em larga medida para o efeito de estufa; as urinas contaminam os solos e os lençóis subterrâneos de água. A água é consumida em grandes quantidades pelos animais para abate, contribuindo assim para o esgotamento progressivo das reservas de água potável. "A água necessária a um boi de 500 kg faria flutuar um contratorpedeiro" (p. 157). Os animais para abate são alimentados com rações que são produzidas a partir de cereais que os seres humanos podem consumir directamente, de forma muito mais vantajosa. "Se os americanos reduzissem o seu consumo de carne em 10 % durante um ano, libertariam pelo menos 12 milhões de toneladas de cereal, que […] seria suficiente para alimentar 60 milhões de pessoas" (p. 156).

O capítulo 5, intitulado "O domínio do Homem" procura dar conta das origens históricas do especismo. O pensamento grego, romano e cristão é profundamente especista — coloca os animais fora da consideração moral, tratando-os como meros objectos inanimados. A ideia de ver um animal a sofrer e de explorar o seu comportamento nessa situação tem raízes antigas, subsistindo ainda nos dias de hoje em espectáculos como a tourada. Peter Singer acompanha a história do especismo, que começa a tornar-se cada vez mais difícil de sustentar, sobretudo depois de Darwin. Mas trata-se de um preconceito de tal modo enraizado que mesmo T. H. Huxley, um dos maiores defensores do darwinismo, compreendendo que não há um fosso biológico entre nós e os outros animais, continua a acreditar nele, resistindo à refutação do especismo. Mas "a resistência à refutação é uma característica distintiva de uma ideologia. Se os fundamentos de uma posição ideológica lhe forem retirados, encontrar-se-ão novas construções ou, então, a posição ideológica permanecerá suspensa, desafiando o equivalente lógico da lei da gravidade" (p. 197).

O capítulo final do livro, "O especismo hoje", apresenta objecções e respostas à causa dos direitos dos animais e alguns dos resultados prometedores a que já se chegou. Diz-se por vezes que os animais não podem ter direitos porque não têm deveres nem entendem o que é ter direitos. Mas os deficientes mentais e os bebés também não têm deveres nem compreendem o que é ter direitos — e no entanto têm direitos. Afirma-se também por vezes que os seres humanos não podem passar sem comer carne; mas isto é pura e simplesmente falso, como o atestam os milhões de vegetarianos saudáveis em todo o mundo. Também se coloca por vezes a questão de saber por que motivo nos devemos coibir de matar os animais para comer, se os animais se matam uns aos outros com o mesmo fim. Mas ninguém acha que podemos matar outros seres humanos para comer, apesar de sabermos que os animais matam seres humanos para comer se tiverem oportunidade de o fazer.

Libertação Animal é uma obra de leitura obrigatória. Pela clareza, seriedade e honestidade. Pelo rigor lógico. Pela inteligência dos seus argumentos. Está de parabéns a Via Optima. E quando uma editora está de parabéns, somos todos nós que ganhamos.

Solos em vários países de África estão repletos de “químicos eternos” que ameaçam ecossistemas e saúde pública



Substâncias poluentes químicas estão a acumular-se nos solos e culturas agrícolas em níveis potencialmente perigosos para os ecossistemas e a saúde pública em vários países africanos.

A revelação é feita por uma investigação publicada este mês na revista ‘New Contaminants’, na qual um grupo de cientistas da China, do Quénia e da Rússia alerta para altas concentrações de ácido perfluorooctanossulfónico (PFOS), integrado na categoria dos poluentes persistentes conhecidos vulgarmente como “químico eternos” devido à sua resistência à degradação, em países como Gana, África do Sul, Quénia e Uganda.

Embora digam que o uso de PFOS tenha sido abandonado em muitas partes do mundo, os investigadores apontam que contaminação histórica, atividades industriais ainda em curso, o processamento de resíduos eletrónicos e descargas de águas residuais, por exemplo, continuam a introduzir essas substâncias nos solos agrícolas africanos.

“O nosso objetivo era chamar a atenção para um desafio ambiental silencioso que tem amplamente passado despercebido em África”, diz, citado em comunicado, Bonface Oginga, primeiro autor do estudo.

“O solo e os sistemas vegetais que suportam a produção de alimentos estão já sob stress. A presença de PFOS acrescenta ainda mais uma camada de pressão que os países não estão devidamente equipados para monitorizar ou gerir”, acrescenta.

A equipa refere que em alguns dos países estudados as lamas resultantes do tratamento de águas residuais contêm altos níveis de “químicos eternos”, pelo que, quando são usadas como fertilizantes agrícolas, esses poluentes entram nas culturas e nos alimentos produzidos. E, a partir daí, podem chegar às populações humanas.

“Compreender como é que os PFOS entram no solo e nas plantas é essencial para avaliar os riscos para as comunidades que dependem da agricultura local”, salienta Fredrick Owino Gudda, coautor do artigo.

No que toca aos impactos ecológicos, os cientistas indicam que a exposição aos PFOS pode afetar as comunidades de microrganismos que vivem e sustentam o bom funcionamento dos solos e interferir negativamente na absorção de nutrientes por parte das plantas. Em regiões onde os solos são já pobres em nutrientes essenciais para as plantas, como fósforo e nitrogénio, a produtividade agrícola pode ser ainda mais reduzida.

Assim, os investigadores apelam aos governos africanos e às respetivas agências ambientais que expandam os seus esforços de monitorização, que adoptem tecnologias avançadas de análise e que reforcem os regulamentos para combater os “químicos eternos”. A par de tudo isso, é imprescindível, argumentam os autores, investir na investigação científica.

“Ao fortalecerem a monitorização, a regulamentação e a investigação, os países africanos podem proteger melhor os seus solos, culturas agrícolas e comunidades face aos riscos de longo-prazo resultantes dos PFOS”, sublinha Chao Qin, que também assina este trabalho.

Sérgio Godinho - A vida é feita de pequenos nadas


[Verso 1]
(Segunda-feira 
trabalhei de olhos fechados 
na terça-feira 
acordei impaciente 
na quarta-feira 
vi os meus braços revoltados 
na quinta-feira 
lutei com a minha gente 
na sexta-feira 
soube que ia continuar 
no sábado 
fui à feira do lugar 
mais uma corrida, mais uma viagem 
fim-de-semana é para ganhar coragem) 

[Refrão]
Muito boa noite, senhoras e senhores 
muito boa noite, meninos e meninas 
muito boa noite, Manuéis e Joaquinas 
enfim, boa noite, gente de todas as cores 
e feitios e medidas 
e perdoem-me as pessoas 
que ficaram esquecidas 
boa noite, amigos, companheiros, camaradas 
a vida é feita de pequenos nadas 
a vida é feita de pequenos nadas 

Somos tantos a não ter quase nada 
porque há uns poucos que têm quase tudo 
mas nada vale protestar 
o melhor ainda é ser mudo 
isto diz de um gabinete 
quem acha que o casse-tête 
é a melhor das soluções 
para resolver situações 
delicadas 
a vida é feita de pequenos nadas 

Repete [Verso 1] e [Refrão]

E o que é certo 
é que os que têm quase tudo 
devem tudo aos que têm muito pouco 
mas fechem bem esses ouvidos 
que o melhor ainda é ser mouco 
isto diz paternalmente 
quem acha que é ponto assente 
que isto nunca vai mudar 
e que o melhor é começar a apanhar 
umas chapadas 
a vida é feita de pequenos nadas 

Ouvi dizer que quase tudo vale pouco 
quem o diz não vale mesmo nada 
porque não julguem que a gente 
vai ficar aqui especada 
à espera que a solução 
seja servida em boião 
com um rótulo: Veneno! 
é para tomar desde pequeno 
às colheradas 
a vida é feita de pequenos nadas 
boa noite, amigos, companheiros, camaradas 
a vida é feita de pequenos nadas.

A música 'A Vida É Feita de Pequenos Nadas', tema do álbum "Pano Crú" (1978) de Sérgio Godinho é uma reflexão poética sobre a rotina diária e as desigualdades sociais. A letra começa descrevendo a semana de trabalho de uma pessoa comum, com dias que se repetem em um ciclo de cansaço e luta. A repetição dos dias da semana simboliza a monotonia e a exaustão do trabalho quotidiano, onde cada dia parece uma batalha a ser vencida.

No refrão, Godinho saúda diversas pessoas, independentemente de suas origens ou condições, e reforça a ideia de que a vida é composta por pequenos momentos e detalhes. Essa saudação inclusiva sugere uma união entre todos, independentemente das diferenças, e destaca a importância de valorizar os pequenos gestos e momentos que compõem a vida.

A música também aborda a desigualdade social, criticando aqueles que possuem quase tudo às custas dos que têm muito pouco. Godinho denuncia a indiferença e a opressão dos poderosos, que preferem silenciar as vozes dos oprimidos. A letra sugere que a mudança é difícil, mas necessária, e que a passividade não é uma solução. A metáfora do 'veneno' servido desde pequeno representa as ideologias e sistemas que perpetuam a desigualdade e a injustiça.

'A Vida É Feita de Pequenos Nadas' é uma canção que mistura crítica social com uma mensagem de esperança e resistência. Sérgio Godinho, conhecido por suas letras engajadas e poéticas, utiliza sua música para provocar reflexão e incentivar a valorização dos pequenos momentos que, juntos, formam a essência da vida.


Frank Koebsch


Frank Koebsch (pintor Alemão, nascido em 1960)- Árvores curvadas pelo vento em Müllerweg – Praia Oeste de Darß
As suas obras normalmente retratam paisagens, cenas da natureza e motivos regionais, especialmente da região de Mecklenburg-Vorpommern e da costa do Mar Báltico (Ostsee). 

Koebsch trabalha com uma sensibilidade pela luz, atmosfera e detalhes do quotidiano, usando técnicas que incluem aquarela e pastéis, frequentemente em obras que capturam cenários naturais e elementos da paisagem norte-alemã. 

Inicialmente trabalhou em carreiras técnicas e só mais tarde resolveu dedicar-se profissionalmente à arte (a partir de cerca de 2011 passou a viver como artista, curador e instrutor). 

Além de produzir suas obras, Frank organiza cursos de aquarela, viagens de pintura e festivais ao ar livre (“plein air”), especialmente focados em aquarela.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Dia Internacional dos Direitos Humanos e Dia Internacional dos Direitos dos Animais


O astronauta da NASA Ron Garan, que passou 178 dias no espaço, afirma que a humanidade está “vivendo uma mentira” após ver, com os próprios olhos, a fragilidade da Terra e vivenciar o profundo Efeito Perspectiva (Overview Effect).

Ao observar o planeta da órbita, Garan percebeu como nossas prioridades estão invertidas: colocamos a economia em primeiro lugar e o planeta por último, mesmo sabendo que a fina atmosfera da Terra é a única barreira que protege toda a vida. Para ele, a verdadeira ordem de importância deveria ser: Planeta → Sociedade → Economia, já que sem uma Terra saudável, nem as pessoas nem os sistemas conseguem sobreviver.

Ele descreve a “mentira” como a ilusão da separação — a falsa crença de que somos divididos por nações, políticas ou identidades. Na realidade, segundo Garan, somos uma única família humana compartilhando um lar frágil. Sua mensagem é um apelo urgente por união, consciência e sustentabilidade, antes que seja tarde demais.

Just 0.001% hold three times the wealth of poorest half of humanity, report finds


Fewer than 60,000 people – 0.001% of the world’s population – control three times as much wealth as the entire bottom half of humanity, according to a report that argues global inequality has reached such extremes that urgent action has become essential.

The authoritative World Inequality Report 2026, based on data compiled by 200 researchers, also found that the top 10% of income-earners earn more than the other 90% combined, while the poorest half captures less than 10% of total global earnings.

Wealth – the value of people’s assets – was even more concentrated than income, or earnings from work and investments, the report found, with the richest 10% of the world’s population owning 75% of wealth and the bottom half just 2%.

In almost every region, the top 1% was wealthier than the bottom 90% combined, the report found, with wealth inequality increasing rapidly around the world.

“The result is a world in which a tiny minority commands unprecedented financial power, while billions remain excluded from even basic economic stability,” the authors, led by Ricardo Gómez-Carrera of the Paris School of Economics, wrote.

The share of global wealth held by the top 0.001% has grown from almost 4% in 1995 to more than 6%, the report said, while the wealth of multimillionaires had increased by about 8% annually since the 1990s – nearly twice the rate of the bottom 50%.

The authors, one of whom is the influential French economist Thomas Piketty, said that while inequality had “long been a defining feature of the global economy”, by 2025 it had “reached levels that demand urgent attention”.

Reducing inequality was “not only about fairness, but essential for the resilience of economies, the stability of democracies, and the viability of our planet”. They said such extreme divides are no longer sustainable for societies or ecosystems.

Produced every four years in conjunction with the United Nations Development Programme, the report draws on the biggest open-access database on global economic inequality and is widely considered to shape international public debate on the issue.

In a preface, the Nobel prize-winning economist Joseph Stiglitz repeated a call for an international panel comparable to the UN’s IPCC on climate change, to “track inequality worldwide and provide objective, evidence-based recommendations”.

Looking beyond strict economic inequality, it found that inequality of opportunity fuels inequality of outcomes, with education spending per child in Europe and North America, for example, more than 40 times that in sub-Saharan Africa – a gap roughly three times greater than GDP per capita.

Such disparities “entrench a geography of opportunity”, it said, adding that a 3% global tax on fewer than 100,000 centimillionaires and billionaires would raise $750bn a year – the education budget of low and middle-income countries.

Inequality was also fuelled by the global financial system, which is rigged in favour of rich countries, the report said, with advanced economies able to borrow cheaply and invest abroad at higher returns, allowing them to act as “financial rentiers”.

About 1% of global GDP flows from poorer to richer countries each year through net income transfers associated with high yields and low interest payments on rich-country liabilities, it said – almost three times the amount of global development aid.

On gender inequality, the report said a gender pay gap “persists across all regions”. Excluding unpaid work, women earn on average only 61% of what men earn per working hour. Including unpaid labour, that figure falls to just 32%, it added.

The report also highlighted the critical role played by capital ownership in the inequality of climate-changing carbon emissions. “Wealthy individuals fuel the climate crisis through their investments even more than their consumption and lifestyles,” it said.

Global data shows the poorest half of the global population accounts for only 3% of carbon emissions associated with private capital ownership, the report calculated, while the wealthiest 10% account for about 77% of emissions.

“This disparity is about vulnerability,” it said. “Those who emit the least, largely populations in low-income countries, are also those most exposed to climate shocks. Those who emit the most are more insulated against the impacts of climate change.”

The evidence shows that inequalities can be reduced, particularly by public investment in education and health and by effective taxation and redistribution programmes. It notes that in many countries, the ultra-rich escape taxation.

“Effective income tax rates climb steadily for most of the population, but then fall sharply for billionaires and centimillionaires,” the report said. Proportionately, “these elites pay less than most of the households that earn much lower incomes”.

Reducing inequality is a political choice made more difficult by “fragmented electorates, under-representation of workers, and the outsized influence of wealth”, it concluded. “The tools exist. The challenge is political will.”

Greve Geral e Manifestação - é já amanhã


Se os patrões vão perder quase 800 milhões de euros por causa da greve, isso quer dizer que os trabalhadores que a fizerem produzem essa riqueza toda num dia só? E quanta dessa riqueza lhes cabe? Uma migalha? Duas?

De tanto quererem denegrir a greve, os patrões estão a abrir demais o jogo. Afinal, os trabalhadores são capazes de lhes fazer mais falta do que eles aos trabalhadores.

Saber mais:

Darkwood - Vieil Armand


[strophe 1]
im osten frankreichs, da steht ein kreuz aus stein
birgt einen schläfer, hier am wiesenrain
lausch meiner weise, komm, mein fremder, komm:
“les grands champs de bataille du vieil armand”

[refrain]
nach hundert jahren weiß keiner mehr
das leben ist das leben wert
dein schweigen raunt durch alle zeit
wir mahnen fort, sind wohl bereit

[strophe 2]
im süden belgiens steht eine frau aus stein
mit off’nen armen lädt sie zum verweilen ein
und in der ferne hör ich ein leises lied:
“aux citoyens de mons morts pour la patrie”

[refrain]
nach hundert jahren weiß keiner mehr
das leben ist das leben wert
ihr schweigen raunt durch alle zeit
wir mahnen fort, sind wohl bereit

[strophe 3]
ein goldner sommer erfüllt nun unser herz
jedoch auf jedem feld, da weht ein hauch von schmerz
mohnblumen stehen hier am wegesrand
in diesen weiten haben wir erkannt:

[refrain]
nach hundert jahren weiß keiner mehr
das leben ist das leben wert
ihr schweigen raunt durch alle zeit und jedes lied:
“nous prévenons, nous prévenons, nous sommes perdus!”

Esta música remete fortemente ao local real chamado Hartmannswillerkopf — também conhecido como “Vieil-Armand” —, um monte nas montanhas dos Vosges, na Alsácia, palco de uma violenta batalha durante a Primeira Guerra Mundial.
A dureza dos combates, o terreno montanhoso, o clima rigoroso e o alto número de baixas deram-lhe o apelido de “a montanha que devora homens” (ou “Man-Eater Mountain”)
Hoje, Hartmannswillerkopf / Vieil-Armand é um memorial: existem criptas, ossuário, túmulos e monumentos em homenagem aos soldados mortos, além de trilhos que percorrem as antigas trincheiras.

Significado da canção
  1. Memória e luto histórico: a música parece querer preservar a lembrança dos soldados caídos, resistindo ao esquecimento. A letra lamenta que “depois de cem anos ninguém mais sabe” — ou seja, a maioria das vítimas e sacrifícios foram esquecidos com o tempo.
  2. Crítica ao horror da guerra e à futilidade da morte em massa: ao associar “paz”, “vida” e “silêncio eterno”, a canção transmite o absurdo da guerra — vidas perdidas, dor repetida, paisagens marcadas por destruição.
  3. Reflexão sobre sacrifício e memória coletiva: usar o nome real de um campo de batalha famoso dá peso simbólico; transforma a música numa homenagem histórica, quase ritualística — um lembrete de que muitas mortes anônimas moldam a história e, sem memória, correm o risco de serem apagadas.
  4. Ligações com identidade, dor e natureza: Darkwood, conforme descrito por fãs e sites, costuma lidar com “temas históricos ou psicológicos”, traumas de guerra, a influência de eventos extremos na psique individual — hanseando entre passado, tradição, natureza e tragédia. 
Conclusão
“Vieil Armand” não é apenas uma canção, mas um memorial sonoro. Através da evocação de um local real marcado por uma das batalhas mais brutais da Primeira Guerra Mundial, a música tenta manter viva a memória dos que morreram — uma mistura de lamento, homenagem e aviso. É um acto de lembrança contra o esquecimento, com forte carga emocional, melancólica e histórica.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Morreu a escritora e bióloga Clara Pinto-Correia


A escritora e bióloga Clara Pinto Correia foi encontrada sem vida. O presidente da República lamentou a morte da autora e recordou a sua "inteligência" e "brilho".

Clara Pinto Correia morreu aos 65 anos, confirmou esta terça-feira a Editora Exclamação que publicou o seu último livro, Antares, em junho do ano passado.

Segundo o Correio da Manhã, a bióloga, escritora e professora universitária foi encontrada morta em casa em Estremoz esta manhã.

O Presidente da República já apresentou “os seus afetuosos sentimentos” à família, amigos e admiradores de Clara Pinto Correia e disse ter ficado “consternado pela sua partida prematura”.

“Clara Pinto Correia juntava à alegria de viver, uma inteligência e um brilho que se expressaram na intervenção oral e escrita, no magistério científico e na comunicação com os outros”, lê-se numa nota no site da Presidência. Clara Pinto Correia era licenciada em Biologia e doutorou-se em Biologia Celular.

“Não deixou nunca ninguém indiferente. Daí o sentido de ausência por todos partilhado neste momento”, acrescentou Marcelo Rebelo de Sousa.

Clara Pinto-Correia é a autora do romance Adeus Princesa, publicado aos 25 anos e com o qual ganhou notoriedade.

Destacou-se tanto ao nível das ciências, como da literatura, tendo ainda sido cronista, jornalista, apresentadora e até atriz, no filme "Kiss me" (2004), de António Cunha Telles. E algumas polémicas.

A autora Clara Pinto Correia esteve presente no podcast «Mesa para Dois» da Antena 1 - RTP. O foco da conversa com João Gobern foi a obra «Antares», mas também a vida da autora enquanto escritora e jornalista.

A autora foi também entrevistada na Prova Oral, de Fernando Alvim.


Tertúlias célebres
Que morte tão prematura. Os meus sentidos pêsames à família e amigos.

Chen-Wen Cheng


Chen-Wen Cheng (aquarelista de Taiwan, nascido em 1957) - "Follow you", 2024   
O seu estilo é reconhecido por uma abordagem delicada e detalhada na pintura, com foco em capturar a essência das paisagens, da natureza e da vida quotidiana. Ele é amplamente admirado pelas suas habilidades técnicas excepcionais e pela capacidade de usar a aquarela de maneira inovadora, misturando realismo com toques de abstracção.
A obra de Chen-Wen Cheng costuma ser caracterizada pela fusão entre a precisão dos detalhes e uma sensibilidade expressiva, que são típicas da aquarela. Ele também utiliza um processo gradual de camadas finas de tinta, o que permite que a obra ganhe profundidade e luminosidade.
Além de ser um artista respeitado, Chen-Wen Cheng também é um professor e contribui activamente para a promoção e ensino da técnica de aquarela. Ele é frequentemente convidado para exposições internacionais e workshops, onde compartilha o seu conhecimento com outros artistas.

Estudo confirma pelo menos 10 castores em afluentes espanhóis do Douro, junto à fronteira portuguesa


Mais vídeos e fotos aqui
José Jambas e Francisco Álvares, que participaram num estudo luso-espanhol sobre a nova população de castores, explicaram à Wilder o que a equipa encontrou e quais são as expetativas para o futuro.

Um novo estudo, publicado na revista científica Galemys, confirma que há castores a reproduzirem-se nas margens do rio Tormes, onde foram encontrados os primeiros vestígios na bacia hidrográfica do Douro, mas agora também no Uces, outro rio próximo da fronteira portuguesa. A nova população foi estudada em observações diretas destes mamíferos, registados também por câmaras de foto-armadilhagem e por inúmeros vestígios – como troncos cortados, ramos com marcas de dentes e construção de abrigos – e ainda por um estudo genético.Castor no Tormes. Vídeo: José Jambas

“Confirmamos a presença de pelo menos 10 castores em dois afluentes do Douro, incluindo dois grupos familiares com reprodução em 2023 e um possível terceiro [grupo com reprodução]”, escreve a equipa de sete investigadores responsáveis pelo estudo recentemente publicado, liderada por Teresa Calderón, da Universidade de Saragoça.
  
A investigadora espanhola já tinha estado à frente do estudo anterior, que em 2023 anunciou a presença da espécie no rio Tormes e concluiu que esta terá resultado de uma libertação não autorizada de castores. Isto porque está demasiado distante a outra população mais próxima desta espécie, em Espanha, onde a espécie regressou em 2003 em resultado de outra libertação ilegal.

No entanto, os cientistas suspeitam agora de que a nova população recém-descoberta na bacia do Douro resulta de pelo menos duas libertações realizadas separadamente, uma no rio Tormes e a outra no rio Uces. Isto, como explicam, devido à “distância relativamente grande” entre estes dois rios e à existência de barreiras que dificultam a passagem de um curso de água para o outro, incluindo “grandes cascatas”.

Por outro lado, para além de confirmarem a presença de dois grupos familiares reprodutores, um no Tormes e outro no Uces, a equipa admite também a hipótese de haver um segundo casal com crias no primeiro rio, com base em observações diretas e vestígios encontrados.

Esta possibilidade, embora ainda sem certezas, é apoiada pela descoberta de vários montes de cheiro nas margens do Tormes. Trata-se de pequenas pilhas formadas por lama e vegetação misturadas com castóreo, uma substância oleosa glandular que estes mamíferos utilizam para marcar território e impermeabilizar o pelo.

Os vestígios de castores encontrados junto a este rio estendem-se por 15 quilómetros, desde a barragem espanhola de Almendra até ao estuário onde o Tormes se une ao Douro, “apenas a uns poucos metros de distância da fronteira portuguesa”, descrevem no estudo.

Muito menor é a área onde a equipa identificou sinais de castores no Uces, “ao longo de dois quilómetros do rio, a maior parte concentrados num charco durante o verão, tal como nalguns pontos isolados das margens”.

O que se passa em Portugal?
Embora o trabalho de campo cujos resultados foram agora conhecidos se tenha realizado essencialmente em 2023, desde então mantiveram-se os trabalhos de monitorização nesta zona que pertence ao Parque Natural Arribes del Duero. Esta área protegida espanhola está colada ao Parque Natural do Douro Internacional, do lado português da fronteira, onde a equipa tem estado igualmente atenta a sinais no terreno – até porque em julho passado foram divulgadas imagens de pelo menos um castor no estuário do Tormes, “apanhado” em território português por câmaras de foto-armadilhagem.

The Chameleons - Nathan's Phase

Em estúdio

Ao vivo


Of all the faces that you wear
Sometimes joy, sometimes despair
The mask has gone, no mystery
Replaced by vague transparency

Oh, it's just a phase you're going through
It's you
It's just a phase you're going through

The streets of London paved with lead
Just as my lungs are paved with Leb
Brush the cobwebs from my head
Feels like I'm stapled to this bed

Oh, it's just a phase you're going through
It's you
It's just a phase you're going through

The streets of London paved with lead
Just as my lungs are paved with Leb
Brush the cobwebs from my head
Feels like I'm stapled to this bed

Oh, it's just a phase you're going through
It's you
It's just a phase you're going through
Out of tune
Yeah, with this phase you're going through

A canção Nathan's Phase da banda britânica The Chameleons foi lançada no álbum Strange Times (1986), e, como muitas das músicas da banda, a letra pode ser interpretada de maneira subjetiva e aberta a diferentes análises.
Nathan's Phase do The Chameleons é uma canção que fala sobre uma fase de confusão e transição na vida de alguém, provavelmente o personagem chamado Nathan. A letra sugere um momento de introspecção, no qual ele se encontra em um processo de autoexploração ou até crise pessoal. A ideia de uma "fase" simboliza que essa situação é passageira, uma etapa que ele precisa atravessar para entender melhor a si mesmo ou seu lugar no mundo. Esse sentimento de transição também se conecta ao tema comum na obra da banda, que é a alienação — a sensação de estar desconectado ou perdido em relação ao que acontece ao redor. A música pode ser interpretada como uma reflexão sobre como as pessoas mudam e se reinventam ao longo do tempo, enfrentando desafios internos e externos que, muitas vezes, são difíceis de compreender ou de expressar. Além disso, a melodia melancólica da música complementa a ideia de uma fase de busca, de distanciamento emocional e de nostalgia, que faz parte da experiência humana de crescimento e transformação. Como muitas das músicas do The Chameleons, Nathan's Phase oferece uma visão aberta e poética sobre o dilema da identidade e da evolução pessoal, temas que são universais e que falam com cada ouvinte de uma forma única.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Black Swan Lane - Little Bird

Respiração branca


"A neve repousa sobre o mundo,
uma capa branca que tudo guarda.
Folhas caídas dormem entre os cristais,
como barcos de silêncio
a flutuar sobre o tempo.

Sob a superfície branca,
o pequeno e o invisível respiram.
Ramos quebrados, pegadas quase apagadas,
o sussurro de animais que passam despercebidos
—cada gesto, um fio
que liga gelo, vida e ar.

Eu caminho, discreto,
mas cada passo é sentido
por raízes e por ventos,
pelas sombras que escorrem
pelos troncos, pelas pedras,
e pelos olhos atentos da vida selvagem  
—tudo é respiração,
um mesmo instante cósmico
onde o mundo se reconhece inteiro.

E eu,
só por estar aqui,
já me torno parte do acordo primordial:
um instante de respiração branca,
um nome 
no silêncio luminoso da paisagem."

João Soares, 08.12.2025

Vincenzo Sguera


Vincenzo Sguera (artista de técnicas mistas Italiano, nascido em 1950)
Multifacetado, Vicenzo não se dedica apenas à pintura. Trabalha fortemente com design gráfico, design de moda e design de produtos — o que sugere que a sua visão artística tem uma forte componente de design, textura, padrão, e aplicação prática da arte.
Algumas das suas obras têm caráter figurativo e simbólico: por exemplo, há referências a retratos e figuras femininas, especialmente rostos femininos — em algumas entrevistas ou descrições, ele menciona que prefere representar figuras femininas de forma mais “pictórica”, enquanto para figuras masculinas tende a um estilo mais gráfico.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Cinema da Noite : Eu sou David- filme realizado por Paul Feig (2003)

David, um rapaz de cerca de 12 anos, vive num campo de trabalhos forçados na Bulgária comunista. O único adulto de confiança que tem é Johannes (interpretado por Jim Caviezel), um prisioneiro gentil que lhe ensina línguas, valores humanos e formas de sobreviver emocionalmente. Johannes acaba por morrer (provavelmente executado), mas deixa em David uma profunda marca de esperança.

Um dia, um guarda misterioso dá a David a oportunidade de fugir, dizendo-lhe para seguir apenas para norte, transportando uma carta que deve entregar na Dinamarca. Apesar de desconfiar de tudo e todos — resultado de anos de trauma — David inicia a longa jornada a pé.

Ao escapar pela fronteira, David atravessa:

🇬🇷 Grécia

Onde é ajudado por marinheiros, mas foge por não confiar em ninguém.

🇮🇹 Itália

É acolhido por uma família, especialmente por uma criança que cria laços com ele. No entanto, temendo colocar todos em risco, parte novamente.

No caminho, David cresce emocionalmente ao contactar com pessoas que lhe mostram diferentes formas de humanidade: bondade, ingratidão, desconfiança e amor.

Ao chegar à Suíça, ele descobre parte da verdade sobre si:
A carta que carrega contém informações que revelam que a sua mãe está viva e vive agora na Dinamarca.

Com a ajuda de pessoas que encontra, David chega finalmente à casa dela.
A mãe, ao ver uma nota deixada por Johannes anos antes, percebe quem ele é.
David reencontra a mãe num final emotivo em que, depois de anos de sofrimento e fuga, encontra paz e pertencimento.


🎭 ANÁLISE DOS TEMAS PRINCIPAIS


1. Liberdade
O filme contrapõe dois mundos: o campo, onde David não pode decidir nada, e a Europa livre, onde cada pequena escolha se torna um ato enorme.
A jornada física é também uma libertação psicológica.

2. Identidade
David não sabe quem é, de onde veio nem quem foram os pais.
Descobrir a sua identidade é tão importante quanto alcançar a liberdade.

 3. Trauma e Cura
David tem medo de confiar — pegar comida, aceitar ajuda ou tocar em objetos que lhe ofereçam.
A cura ocorre gradualmente graças às pessoas bondosas que encontra.
 
4. Bondade vs. Crueldade
O filme mostra como um simples gesto (como o de Johannes ou de pessoas comuns) pode salvar uma vida marcada pela opressão.
 
5. Esperança
Mesmo nos momentos mais duros, a memória de Johannes funciona como bússola emocional de David. 📚 COMPARAÇÃO COM O LIVRO
ElementoLivroFilme
TomMais introspectivo, filosófico, centrado nos pensamentos de DavidMais sentimental, focado nas emoções e nas relações
Idade de David12 anosCerca de 12, mas com abordagem mais madura
Origem da fugaPlaneada por Johannes e outros prisioneirosNo filme, atribuída a um guarda que sente culpa
Revelação sobre a mãeMais gradual e menos romantizadaMais dramática e emocional
FinalSem grande dramatização, mas igualmente emocionalA reencontrar a mãe é mais cinematográfico
Temas políticosMais explícitos sobre totalitarismo communistaMais suavizados para público jovem

O filme segue fielmente a estrutura geral do livro, mas suaviza elementos mais duros e reforça aspetos emocionais.


🎬 FICHA TÉCNICA DO FILME

Título: I Am David
Título em português: Eu Sou David
Ano: 2003
Realização: Paul Feig
Baseado no livro: I Am David (1963), de Anne Holm
Género: Drama, Aventura
País: EUA / Reino Unido / Dinamarca / Itália
Principais atores:

  • Ben Tibber — David

  • Jim Caviezel — Johannes

  • Joan Plowright — Sophie

  • Hristo Shopov — O Guarda

  • Maria Bonnevie — Mãe de David

Duração: ~90 minutos
Classificação etária: Apropriado para adolescentes e adultos

Netflix, Warner e o velório das salas de cinema - O dia em que Hollywood encolheu


A compra da Warner pela Netflix promete reescrever as regras da indústria. Entre festivais a tremer, espectadores afundados no sofá e salas em risco de extinção, a pergunta é simples: estamos a assistir ao futuro do cinema ou ao seu funeral?

Há muito que sabemos que Hollywood está sobre uma falha sísmica. Porém, a notícia caiu como um meteorito nas redacções nos media, nos grupos de WhatsApp cinéfilos e nas redes sociais, já com as salas de cinema meio vazias, durante a maior parte dos dias da semana, de Portugal: a Netflix decidiu comprar a Warner Bros., a HBO, a HBO Max e tudo o que vier no pacote, incluindo um século de história que agora muda de mãos como quem troca cromos raros. Fala-se ainda em aprovação ou não dos reguladores, em anos de transição, em burocracias, que dará o negócio por concluído em meados de 2026. Mas a verdade é que o estrondo já aconteceu. Hollywood encolheu. E nós encolhemos com ela, enfiados no sofá, a pensar se ainda faz sentido sair de casa para ver um filme que daqui a 17 dias no “padrão Netflix”, já estará no streaming. Este negócio não é apenas mais um capítulo das “guerras do streaming”; é o capítulo em que a espada entra mesmo na carne. Porque se a Disney engoliu a Fox e a Amazon devorou a MGM, agora é a vez da Netflix devorar a Warner, o estúdio que inventou grande parte do mundo que Hollywood hoje tenta desesperadamente salvar. E se alguém acredita que isto não vai mexer com a exibição em sala, sugiro que desligue o Netflix por cinco minutos e respire ar puro.

O Império do Sofá e o Fim da Janela Sagrada
Convém lembrar que a Netflix nunca quis ser Hollywood; quis foi substituí-la. Começou a entregar DVDs pelo correio, como quem distribui pão quente e, em 2013, com "House of Cards", destruiu o hábito televisivo de décadas. Não por amor à arte, mas por amor ao algoritmo. E agora o algoritmo tem nas mãos "Casablanca", "Harry Potter", "Dune", "Game of Thrones", "Batman" e "Superman". Quando se diz que conteúdo é petróleo, este catálogo é uma refinaria privada e de luxo. O discurso oficial de Ted Sarandos, o CEO da Netflix, tenta acalmar os nervos: “continuaremos a lançar filmes em sala”. Pois claro, Ted. Mas por quanto tempo? Uma semana? Dez dias? O suficiente para cumprir os requisitos dos Óscares e regressar o mais depressa possível ao santo graal da Netflix: o sofá do espectador. O cinema, tal como o conhecemos, sobreviveu graças à (grande) janela de exibição: os grandes ecrãs e as salas de cinema. Agora essa janela está a ser serrada com um sorriso corporativo.

A Extinção Lenta do Cinema de Rua
Do ponto de vista empresarial, a fusão é um sonho: menos custos, menos redundâncias, mais lucro e também menos despesas para os consumidores. Do ponto de vista cultural, é o início do velório. Quando o maior serviço de streaming do mundo passa a controlar um dos maiores estúdios de cinema, o resultado é inevitável: menos risco artístico, mais filmes médios, menos diversidade, menos salas. O cinema de rua, esse vestígio romântico onde ainda acreditamos que o grande ecrã é insubstituível, pode transformar-se num nicho tão elitista quanto a ópera. Se é que ainda existem muitos? As associações de exibidores já gritam que é “uma ameaça sem precedentes”. E têm razão. Se as salas tinham dificuldade em competir com as televisões 4K, imaginem agora competir com uma gigante que decide exactamente quando, onde e como um filme existe.

Os Festivais Entre a Asma e a Agonia
Os Festivais de Cannes, Veneza e Berlim podem fingir que continuam a mandar nas sua selecções oficiais, mas sabem bem que o poder mudou de endereço. Se a Netflix controla a Warner, controla as grandes estreias e as respectivas Selecções Oficiais. Se controla as estreias, controla a agenda dos festivais. E, sejamos sinceros, a Netflix nunca teve grande afecto por janelas de exibição, muito menos pela rigidez francesa do Festival de Cannes e dos players que o apoiam. Imagine-se "Dune 3" a estrear em Cannes com 10 dias de janela. Ou "Batman" a passar em competição sabendo que aterra em streaming uma semana depois. O cinema de autor, já frágil, arrisca-se também a tornar-se irrelevante perante um algoritmo que mede emoção com gráficos e estatísticas de gostos e visualizações.

O Espectador Preguiçoso, Somos Todos Nós
A grande verdade é incómoda: o culpado não é só o streaming. Somos nós. Somos nós que preferimos ver um épico de 200 milhões de dólares enfiados na manta, em casa com o telemóvel na mão à espera de notificações. Somos nós que deixámos de ir ao cinema porque o bilhete custa o mesmo que um almoço e as pipocas fazem tremer a economia doméstica. Somos nós que aceitámos substituir a experiência colectiva por uma caixa luminosa apoiada no móvel da sala. A Netflix percebeu isso antes de todos. E ganhou o jogo.

O Cinema Não Morre, Mas as Salas, Sim.
Podemos obviamente manter esperança. Podemos acreditar que o cinema continuará vivo enquanto houver criadores, histórias e público. Mas as salas? As salas estão a descer a encosta com a mesma velocidade que os DVDs desapareceram. Se ninguém travar esta fusão, ou mesmo que travem, já está tudo a mexer-se. O cinema transforma-se. As salas é que não vão sobreviver todas à viagem. E, quando derem por ela, a humanidade estará onde sempre esteve nos últimos dez anos: no sofá, a carregar no “Próximo episódio”, “Escolhemos Para Ti” ou "Os Melhores do Fim de Semana".

Saber mais:
Disney+ | Catálogo completo de Portugal
Compra da Warner Bros. pela Netflix | Qual o significado para o Cinema?
Hollywood | As reações à compra da Warner Brothers pela Netflix

Emilia Milcheva


Emilia Milcheva (pintora Búlgara, nascida em 1972) -"Better walk that lane"

A sua arte é fortemente inspirada pela natureza — paisagens, campos, flores, céus — transformadas em composições por vezes oníricas, recolhendo harmonia e serenidade da natureza. 
Técnicas e abordagem: Trabalha principalmente com óleo e acrílico sobre tela. Prefere representar cenas naturais — campos, florestas, céus, flores — evocando sensações de tranquilidade, liberdade e contemplação.

Solos superficiais guardam 45% mais carbono do que o estimado


A camada superior dos solos armazena 45% mais carbono do que se estimava, conclui um relatório da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) que apela à proteção jurídica do solo, à semelhança da atmosfera e dos oceanos.

As camadas mais finas do topo do solo são uma solução climática mais eficaz do que se pensava mas continuam excluídas das políticas climáticas globais, alerta o relatório da Comissão Mundial de Direito Ambiental da IUCN (WCEL), da Aroura e do movimento Save Soil, divulgado no Dia Mundial do Solo, que hoje se celebra.

Os dados das organizações indicam que os solos armazenam 2.822 gigatoneladas de carbono no metro superior e que isso significa que os solos superficiais retêm 45% mais carbono do que as estimativas anteriores.

O relatório denuncia uma persistente marginalização dos solos, da terra e dos sistemas agrícolas no financiamento climático e nas políticas climáticas, lembrando que 40% da terra do planeta está degradada, valor que vai subir para 90% até 2050, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

“Restaurar a saúde do solo pode ser uma solução imensa para a mitigação climática e uma ferramenta de sequestro de carbono, mas até que estabeleçamos caminhos claros e acessíveis para investimentos em grande escala, os solos permanecerão estruturalmente excluídos das soluções climáticas”, afirmou Praveena Sridhar do Movimento Save Soil, citada em comunicado.

A organização defende que, para manter o limite de 1,5 °C, o sistema climático deve reconhecer a restauração do solo e da terra como um dos pilares centrais da estabilidade climática global.

Cerca de 27% das emissões necessárias para manter o aquecimento abaixo de 2°C podem ser sequestradas em solos saudáveis, segundo o estudo, no entanto 70% dos países não incluíram a restauração do solo como solução de mitigação das alterações climáticas nas suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (CNDs), da cimeira do clima COP30.

One EU project seeks to address this. ⁠A Soil Deal for Europe has an estimated investment of around 1 billion euros (US$1.15 billion) up to 2028, which involves establishing 100 Living Labs, research, innovation, and developing the monitoring framework, includes mapping. ⁠While other EU funding, like the Common Agricultural Policy (CAP), also contributes to soil management, the 1 billion euros is the most direct figure associated with the Soil Mission that underpins the new EU-wide soil health monitoring framework. Its ⁠goal is to develop a robust, harmonized EU-wide soil monitoring framework, which will contribute to assessing and achieving healthy soils by 2030 in line with the EU Green Deal’s long-term vision of healthy soils by 2050.

Unlike the UN Convention on the Law of the Sea (UNCLOS) for oceans and the Paris Agreement for the climate, soil lacks a global legal protection framework. However, the EU, the Pan-African Parliament and the International Union for Conservation of Nature (IUCN) last month took steps mandating the development of a Global Legal Instrument for Soil Security.

At a COP30 High-Level Ministerial Event on Wednesday, Brazil’s Minister of Agriculture and Livestock Carlos Fávaro launched the Resilient Agriculture Investment for Net-Zero Land Degradation as a legacy effort to restore degraded farmland and promote sustainable agriculture.

The report introduces the Soil Security Framework, a practical model for protecting and restoring the world’s soils across five dimensions: capacity, condition, connectivity (how people value soil), capital, and codification (legal protection). This approach reframes soil from an agricultural variable to a strategic resource underpinning food, water security, climate resilience and economic stability.

Soil health is fundamental not only as a carbon sink, but also for climate adaptation. “Living soils are fundamental to agriculture,” said Sridhar. “They support you when you go through climate shocks. Healthy, living soils can absorb flood waters, and in drought they hold water like sponges. The crops are not successful because of the inputs you put on top like chemicals and pesticides – the security lies below the surface.”

Chuva que somos

Chuva que somos
"A chuva cai
como quem devolve ao mundo
a memória do que é simples.
Não molha a terra —
acorda-a.
E cada gota, ao tocar o solo,
faz o planeta respirar mais fundo,
como se dissesse:
“Estou vivo contigo.”
Há um silêncio verde
que cresce entre as raízes,
um pensamento que não é meu
nem de ninguém,
porque a Natureza pensa sem palavras.
Vejo a chuva cair nos campos,
e percebo que não há fronteiras
entre o que sou
e aquilo que se renova.
Sou apenas mais um corpo húmido,
uma pele que o mundo toca
para me lembrar
que pertenço.
E então sinto —
sem querer sentir —
que tudo é suficiente:
a terra que bebe,
o ar que se perfuma,
o chão que se entrega
sem nunca pedir.
A chuva é a mestra mais antiga:
ensina caindo,
e ensina sempre
a mesma lição.
Que viver é deixar-se molhar
pelo que vem do céu
e regressa ao chão
para começar de novo."