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sexta-feira, 3 de abril de 2026

Havia mais presos políticos depois do 25 de Abril do que antes?


Durante a cerimónia dos 50 anos da Constituição, no Parlamento, André Ventura disse que houve mais cidadãos presos no pós-25 de Abril do que antes da Revolução. A frase gerou reação, com os constituintes convidados para a sessão a levantarem-se em protesto, abandonando a sala. Os dados batem certo? A SIC Verifica.

O discurso do líder do Chega agitou as bancadas e gerou reações e indignação. Alguns dos deputados constituintes presentes na sessão solene desta quinta-feira, comemorativa do 50.º aniversário da Constituição - entre os quais Helena Roseta e Jerónimo de Sousa - abandonaram as galerias do Parlamento durante a intervenção do líder do Chega, regressando após o fim do seu discurso.

André Ventura disse que houve cidadãos que, "já com esta Constituição ou à beira desta Constituição, já após a revolução ou perto da revolução, [que] foram presos sem mandato, foram mortos em atentados das FP-25".

Pedindo desculpa pela "falta de cortesia", Ventura foi mais longe e perguntou "o que dirão as gerações futuras" quando souberem que "um Parlamento amnistiou um grupo terrorista de esquerda que tinha na sua lista mortes de bebés, seres humanos, casais, às mãos da extrema-esquerda".

Depois, a frase que espoletou o abandono da sala:
"Pouco tempo depois do 25 de Abril, havia mais presos políticos do que havia antes do 25 de Abril de 1974, essa é a verdade", garantiu.

Mas... será mesmo?
Num livro escrito por João Menino Vargas, antigo Capitão de Abril que morreu em 2025, dá-se conta de que o regime deposto pelo 25 de Abril tinha quase 4.400 prisioneiros políticos, 127 dos quais em Portugal continental e os restantes nas colónias, à data da Revolução. Com maior precisão, o site da Comissão Comemorativa 50 Anos do 25 de Abril, aponta 128 "oposicionistas" libertados das prisões de Caxias e Peniche, e 4.249 presos políticos nas colónias.

Além disso, a historiadora Irene Flunser Pimentel contabilizou mais de 12 mil presos políticos durante a ditadura, mas estima que, no total, possam ser mais de 30 mil os presos durante esse período.

O SIC Verifica falou com Irene Flunser Pimentel, que desmontou a narrativa:
"É uma ideia falsa, é uma narrativa da extrema-direita e de alguma direita e que, no fundo, é para se ignorar que vivemos em ditadura até ao dia 25 de Abril de 74".

"Eu estudei na Torre do Tombo, não vejo esses historiadores, alguns até são historiadores, mas políticos, deputados, nunca os vi na Torre do Tombo, a ver os arquivos da PIDE, e eu estive seis meses só para contabilizar os presos de 45 a 74. [Estamos a falar de] 12.800 e qualquer coisa", explica a historiadora, acrescentando que esta contabilização não conta com todos os estrangeiros presos ou imigrantes.

Mas, além destes quase 13 mil, Irene Pimentel lembra que em "1933, quando foi formada a primeira polícia política desta ditadura, porque já havia anteriores - a PVDE - eram muitos mais".
"Estão contabilizados, em várias fases, 30 mil, 40 mil [presos políticos]", dá conta a historiadora.

E no pós-25 de Abril?
No dia em que se deu a Revolução, a polícia política portuguesa, PIDE/DGS, teria cerca de três mil agentes e 20 mil informadores que começaram a ser detidos nos dias e semanas a seguir à revolução e ao longo de mais de um ano em que viveram sem qualquer acusação formal.

Em julho, num comunicado, os SCE da PIDE/LP informavam que se encontravam presos mil ex-agentes da PIDE-DGS. Mais tarde, em dezembro de 1976, havia registo de 118 presos por envolvimento no 25 de Novembro, estes seriam libertados no mesmo ano.

Irene Flunser Pimentel explica aqueles que foram detidos nos dias que se seguiram ao 25 de Abril foram elementos da PIDE.
"Os únicos mortos do 25 de Abril foram quatro portugueses que foram fuzilados pela PIDE/DGS na rua António Maria Cardoso às 8 horas de dia 25 de Abril. Portanto, são os únicos mortos. E 45 feridos. A partir daí era impossível, porque não estava no programa prender os elementos da PIDE, mas eles praticaram crimes até ao fim. E, portanto, começaram a ser presos aqueles que estavam na rua António Maria Cardoso a tentar defender aquela sede e, depois, ao longo dos meses, muitos informadores e outros elementos da PIDE, aqueles todos que não fugiram. Portanto, estes são os presos políticos [do pós-25 de Abril]", afirma a historiadora.

Até 1986 foram pronunciadas 2.755 sentenças aplicadas a elementos da PIDE/DGS. O número distancia-se dos quase 4.400 prisioneiros políticos de 74 e dos mais de 30 mil durante todo o período em que o país viveu em ditadura.

Destes, "uns estiveram [presos] seis meses, outros estiveram um pouco mais, os maiores torturadores ficaram mais tempo", mas "não houve julgamentos destas pessoas" porque só com a Constituição se criou o aparelho judicial e este estipulava que "nunca mais iria haver julgamentos políticos".

André Ventura provocou indignação ao afirmar que havia mais presos políticos após o 25 de Abril do que durante a ditadura. No entanto, a narrativa é falsa, como confirma a historiadora Irene Pimentel. A ditadura teve cerca de 30 mil presos políticos e em 1974 foram identificados perto de 4.400 presos políticos em Portugal e nas colónias. No pós-Revolução foram detidos principalmente ex-agentes da PIDE, num número significativamente inferior.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Morreu Eurico Figueiredo, um resistente antifascista e histórico político de enorme relevo na nossa História e ambientalista.


Militante socialista desde 1974, académico e defensor das causas ambientais, deixa um legado marcado pela combatividade cívica e pela defesa de Trás‑os‑Montes. Tinha 86 anos.

Nascido em Vila Real, em 1939, Eurico Figueiredo entrou cedo na vida política. Aos 16 anos aderiu ao MUD Juvenil e, dois anos depois, participou na campanha presidencial de Humberto Delgado, assumindo riscos reais perante a vigilância da PIDE. Em Lisboa, destacou-se no movimento estudantil, presidindo à Comissão Pró-Associação dos Estudantes de Medicina e desempenhando um papel central na Crise Académica de 1962. Foi o primeiro secretário-geral do Secretariado Nacional dos Estudantes Portugueses, estrutura que articulava a contestação académica ao regime. A repressão não tardou: foi expulso da Universidade de Lisboa por trinta meses e detido três vezes pela polícia política.

Transferido para Coimbra, ajudou a reorganizar a resistência estudantil e participou na criação do clandestino Movimento Sindical Estudantil. Em 1965, perante o agravamento da repressão, partiu para o exílio na Suíça, onde manteve ligações estreitas aos movimentos oposicionistas. Militante do PCP desde os 18 anos, rompeu com o partido em 1967, em protesto contra a invasão da Checoslováquia pela União Soviética.

Com o 25 de Abril, regressou a Portugal e integrou o Partido Socialista, onde militou desde 1974. Desempenhou vários cargos dirigentes e foi deputado à Assembleia da República nos anos 80 e ao longo da década de 90. Em 1999, afastou-se do PS, divergindo da linha política de António Guterres. Participou mais tarde na fundação do PDR e aproximou-se do MPT, pelo qual foi candidato a eleições legislativas e europeias.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, recebeu “com muita consternação” a notícia do falecimento, evocando Eurico Figueiredo como “um grande lutador pela Liberdade e pela Democracia, de uma verticalidade e de uma independência sem limite”. Numa nota divulgada este sábado, o chefe de Estado apresentou à família, aos amigos, correligionários e admiradores, bem como ao Partido Socialista, “o profundo pesar por uma perda de alcance nacional”.

Em reação à sua morte, o Partido Socialista lamentou a perda de um antigo deputado e ex-dirigente, recordando Eurico Figueiredo como “uma referência política incontornável para todos os socialistas”. Numa nota enviada às redações, o PS sublinhou a sua “tenacidade, combatividade e convicções”, mas também “uma imensa generosidade”, destacando ainda o seu papel como resistente antifascista, a participação ativa na campanha de Humberto Delgado e a intervenção nos movimentos estudantis de Lisboa e Coimbra.

O PS salientou igualmente o seu contributo pioneiro em áreas como a defesa do ambiente e a valorização de Trás-os-Montes e da identidade duriense, sublinhando que “a melhor homenagem” será a continuação do combate por “um país mais justo, mais coeso e solidário”.

Psiquiatra de formação, licenciado e doutorado em Medicina, Eurico Figueiredo foi professor catedrático e uma voz respeitada na área da saúde mental. A sua morte encerra o percurso de um resistente antifascista, académico e político que atravessou, com convicção e sentido cívico, algumas das páginas mais intensas da história contemporânea portuguesa.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Ministério Público – Quem guarda os guardas?


1. Um “Estado dentro do Estado”
Desde há pelo menos três décadas que alguns cidadãos, entre os quais me incluo, vêm chamando a atenção para aquilo em que consiste, e para o que representa, a progressiva, censurável e muito perigosa construção do autêntico “Estado dentro do Estado” em que o Ministério Público se foi transformando.

Recorde-se que esse processo começou em contradição com o que a própria Constituição de 1976 prevê no seu art.º 32.º, n.º 4, através da criação de uma fase pré-judicial dos processos crime chamada inquérito. Esta fase foi inicialmente aplicável apenas aos casos de crimes mais leves, como os punidos com pena de prisão até dois anos, e foi depois estendida a todos os tipos de crime. Tal fase tem por titular único o Ministério Público, o qual foi, depois e paulatinamente, conquistando o estatuto de fazer ou não fazer, no inquérito, o que, bem ou mal, entende, quando e como quer, sem ter de prestar contas a ninguém.

Tal processo paulatino passou também pela criação dos chamados DIAP, ou seja, Departamentos de Investigação e Acção Penal, criação que, sempre em nome da “eficiência”, veio determinar que, regra geral, o agente do Ministério Público que dirige o inquérito seja um e o agente do Ministério Público que participa no julgamento seja outro, não tendo aquele de dar publicamente a cara pelo que fez ou deixou de fazer na fase inicial do processo.

Seguiu-se a construção, cada vez mais reforçada (a tal ponto que o próprio Tribunal Constitucional acabou, embora erradamente, por adoptar esse entendimento), de que a competência para conhecer dos vícios e nulidades praticados durante a fase de inquérito (competência que é, claramente, jurisdicional) caberia afinal ao próprio Ministério Público e não ao juiz de instrução criminal. Deste modo, se, por exemplo, for aplicada pelo Procurador da República, de forma ilegal, uma determinada medida de coacção, ainda que a mais simples (o termo de identidade e residência), não será o juiz de instrução – a única entidade com poderes jurisdicionais, nos termos da Constituição, recorde-se – o competente para conhecer dessa matéria, mas sim o próprio Ministério Público, isto é, o autor da referida ilegalidade, nulidade ou irregularidade.

A par disto, foi-se impondo, cada vez mais, a teoria (e a prática…) de que os prazos judiciais só são obrigatórios para os cidadãos e respectivos advogados, sejam eles arguidos ou queixosos, e de que, designadamente para o Ministério Público, esses prazos seriam meramente “indicativos” ou “ordenadores da marcha do processo” e, portanto, a sua ultrapassagem não teria quaisquer consequências. Isto levou a que passássemos a assistir a situações em que o prazo máximo legal do inquérito é, por exemplo, de oito meses, mas o inquérito dura oito anos, ou até mais, nada rigorosamente acontecendo, a não ser o constante e arrogante repetir de que “as investigações criminais tomam o tempo que é necessário para elas avançarem” e sujeitando assim, durante anos a fio, os arguidos ao anátema da suspeita.

A verdade é que a existência da referida fase de inquérito, dirigida em exclusivo pelo Ministério Público e sem efectivo controlo jurisdicional por parte de um juiz, é, desde logo, de constitucionalidade mais do que duvidosa, nomeadamente em face do art.º 32.º, n.º 4, da Constituição, o qual estabelece, com a maior clareza, que toda a instrução é da competência de um juiz. Ainda assim, essa constitucionalidade foi sendo sustentada com o argumento de que, terminada a fase de inquérito, poderia sempre seguir-se uma outra fase, a fase de instrução, dirigida por um juiz, na qual seria então possível verificar se a decisão do Ministério Público – fosse ela de acusação ou de arquivamento – era correcta ou não.

Porém, também aqui acabou por suceder que essa fase de instrução foi sendo sucessivamente coartada, neutralizada e inutilizada, ao ponto de hoje se encontrar praticamente reduzida a uma mera formalidade. Na prática, os juízes de instrução podem indeferir todas as diligências de prova requeridas, não repetem diligências que tenham sido, ainda que mal e deficientemente, realizadas pelo Ministério Público e não verificam nem sindicam a forma como o Ministério Público investigou, ou deixou de investigar, factos criminalmente relevantes, nomeadamente não ordenando diligências com óbvio interesse para a descoberta da verdade. E assim, o inquérito passou a ser praticamente a fase do processo em que verdadeiramente se decide se houve crime, se há responsáveis por ele e se alguém vai a julgamento ou não.

Depois, passámos a assistir à utilização, cada vez mais sistemática e pretensamente normal, de um meio excepcional – as chamadas “averiguações preventivas” que, como o próprio nome indica, se destinam tão somente a prevenir a prática de crimes de alta criminalidade, como a corrupção, o branqueamento de capitais ou o financiamento do terrorismo – como um meio normal e até privilegiado, apesar de constitucionalmente inadmissível, para se investigarem factos passados, ainda por cima com a vantagem de tais averiguações poderem decorrer sem o controlo directo de um juiz de instrução.

Importa notar também que todo este processo de transformação do Ministério Público num autêntico “Estado dentro do Estado” foi acompanhado, e mesmo legitimado, por dois fenómenos que muito contribuíram para o intensificar e aprofundar, e que pouco têm sido analisados e debatidos, muito menos com o rigor que mereciam.

Por um lado, foi-se generalizando uma prática que já não consiste propriamente em simples violações ou acidentais fugas do segredo de justiça, mas antes, sobretudo a partir de certa altura, num verdadeiro e cada vez mais óbvio “sistema de vasos comunicantes” entre sectores da investigação e acusação públicas e certos órgãos e agentes da comunicação social. Isto fez – e faz – com que, com grande frequência, elementos de processos em segredo de justiça sejam passados para a esfera pública, quase sempre na versão e com o enquadramento que convêm à acusação, produzindo dessa forma autênticos e sumários julgamentos, condenações e “execuções” na praça pública, por vezes até como reacção à denúncia e à declaração das ilegalidades cometidas, e reduzindo a pó o princípio constitucional (art.º 32.º, n.º 2) da presunção de inocência de todo o arguido até ao trânsito em julgado da respectiva sentença condenatória.

domingo, 26 de outubro de 2025

Salazar era essa ficção moral e impoluta que nos tentam agora vender? Não, Salazar era corrupto.

Principais evidências de corrupção sob Salazar

  1. Rede de pedidos de favores (“cunhas”)

    • No livro Salazar Confidencial (de Marco Alves), analisaram milhares de cartas enviadas a Salazar por amigos, familiares, ministros, padres, etc., pedindo favores: emprego, promoções, casas, intervenção em processos judiciais, e mais. 

    • Essas cartas mostram como a máquina do Estado era usada para beneficiar pessoas próximas, burlando regulamentos formais. 

  2. Escândalos sexuais e de abuso

    • O “Caso Ballet Rose” nos anos 1960 envolveu figuras importantes do regime em abusos de menores. 

    • Segundo a enciclopédia Visão, esses escândalos existiam, mas eram abafados, porque não havia imprensa livre e a polícia política era poderosa. Visão

  3. Uso institucional para manter poder

  4. Debate parlamentar sobre “corrupção”

    • Um artigo na Italian Political Science Review analisa como nas Assembleias Nacionais do Estado Novo (1935–74) se falava de “corrupção”, mas muitas vezes de forma discursiva/política, para criticar pessoas, em vez de haver investigações reais independentes. 

  5. Violência política e uso da PIDE

    • O regime dispôs de um aparelho repressivo (PIDE) que ajudava a silenciar oposição e potenciais denúncias.

    • Isso implica que a corrupção “visível” poderia ter sido limitada por medo ou pela repressão, mas isso não significa que não existisse favorecimento interno.


Interpretação

  • A corrupção sob Salazar não é tão simples como em regimes democráticos com investigação pública livre: muitos abusos não foram denunciados ou foram escondidos.

  • Parte da “corrupção” era institucional: o regime dependia de redes de influência e favores para manter poder, em vez de simplesmente roubo público.

  • Também há uma narrativa idealizada (em parte mítica) de que “no tempo de Salazar não havia corrupção”; mas a historiografia recente mostra que isso é uma simplificação.


📚 Livros e estudos recomendados

  1. Salazar Confidencial: A História Secreta da Rede de Cunhas e Favores do Estado Novo — Marco Alves

    • Este livro é uma investigação jornalística / histórica baseada em milhares de cartas enviadas a Salazar: pedidos de emprego, favores, influências políticas, promoções, casas, “cunhas”. 

    • Mostra como funcionava uma “máquina de favorecimentos” no Estado Novo, revelando uma face de clientelismo que vai para além do discurso público de austeridade moral ou integridade de Salazar. 

    • Índice do livro mostra capítulos específicos dedicados a como Salazar usava o Estado para benefícios privados (“como Salazar usava os meios do Estado na sua vida privada”).

    • Durante quatro décadas, António de Oliveira Salazar recebeu milhares de cartas de amigos, familiares, ministros, padres e figuras ilustres da elite do Estado Novo. Mendigavam ao presidente do Conselho favores, ajudas e cunhas para obterem um cargo, uma promoção, uma casa em Lisboa ou uma palavra de Salazar para intervir em todo o tipo de problemas, incluindo em processos judiciais e em casos de crime, violência e adultério envolvendo figuras notáveis da sociedade.

      É a primeira vez que toda a correspondência particular enviada a Oliveira Salazar é tratada para um livro, numa investigação exaustiva sobre 2446 processos individuais, de onde se analisaram 70243 páginas de cartas, relatórios, currículos e fotografias.

      Os documentos mostram os surpreendentes bastidores do Estado Novo, expondo a intimidade de um regime sustentado em cunhas e favorecimentos pessoais

  2. Salazar e os Fascismos: Ensaio breve de história comparada — Fernando Rosas

    • Rosas, historiador de renome, analisa o Estado Novo no contexto dos fascismos europeus, o que ajuda a entender a natureza autoritária do regime. ihc+1

    • Embora não seja um livro “sobre corrupção” per se, examina a estrutura de poder, ideologia e instituições do regime, contribuindo para a compreensão de como o poder era mantido, distribuído e reproduzido. 

    • Discute também os mecanismos políticos internos e a elite política que sustentava o regime, o que pode estar ligado a práticas de clientelismo institucional.

  3. O Estado Novo de Salazar. Uma Terceira Via Autoritária na Era do Fascismo — António Costa Pinto (coordenação)

    • Esta obra coletiva reúne vários historiadores e analisa o Estado Novo como um regime autoritário que se coloca entre a democracia liberal e o fascismo clássico.

    • O livro aborda temas de estrutura de poder, recrutamento da elite governamental e institucionalização do regime. Esses aspetos são relevantes para entender como funcionavam os privilégios e os favores políticos.

    • Também contribui para a reflexão de que, embora o regime não fosse “corrupção aberta” no sentido tradicional, existiam mecanismos de poder muito hierarquizados, clientelistas e centralizados.

  4. O Império do Professor: Salazar e a Elite Ministerial do Estado Novo (1933–1945) — António Costa Pinto (artigo)

    • Este é um artigo académico (publicado na revista Análise Social) que analisa como a elite ministerial era composta, como se recrutava e como funcionavam as nomeações políticas. 

    • Ajuda a ver a “corrupção” ou clientelismo no nível das nomeações de poder: como Salazar distribuía cargos, a sua relação com os ministros e a forma como o regime se mantinha por redes de lealdade pessoal.

  5. Public Finances of a European Dictatorship: Portugal under the Estado Novo Regime — Ricardo Ferraz

    • Este livro analisa as finanças públicas durante o Estado Novo (1933–1974) com rigor econométrico. 

    • Interessa para a corrupção porque examina receitas, despesas, endividamento e uso do orçamento estatal. Revela de que forma o regime geria recursos públicos e quais eram os seus desafios fiscais — isto pode ser interpretado como uma forma de “corrupção institucional” (no sentido de uso político das finanças).

    • Também coloca o caso português em contexto comparado, o que é útil para entender se os desequilíbrios financeiros eram mais devidos a prática clientelista ou a dificuldades estruturais.

  6. Vítimas de Salazar: Estado Novo e Violência Política — Irene Pimentel, João Madeira, Luís Farinha

    • Este livro aborda a repressão política, violência e a forma como o regime silenciava a oposição. 

    • Embora o foco principal seja a violência política e não diretamente a “corrupção”, entender o papel da PIDE (polícia política) e a repressão é importante para perceber porque muitas práticas de favorecimento ou abusos de poder não foram contestados ou investigados: o medo era uma via de controle.

  1. Salazar e os milionários, Pedro Jorge Correia;
  2. Salazar Confidencial, Marco Alves;
  3. Os Donos de Portugal - Jorge Costa, Francisco Louçã, Fernando Rosas, Luís Fazenda, Cecília Honório.
  4. Jubileu, 1953

domingo, 28 de setembro de 2025

Contra a vontade da direita, é aprovada a criação do Museu da Resistência do Porto


Com a abstenção do PSD/IL e os votos contra do Chega e CDS-PP, a Assembleia da República fez aprovar a proposta do PCP para a criação deste museu no edifício da Rua do Heroísmo, onde esteve instalada a delegação da PIDE.

Na delegação da PIDE/DGS no Porto (instalada na Rua do Heroísmo, ao lado do Cemitério do Prado do Repouso) estiveram presas, ao longo dos 40 anos em que esteve activa, mais de 7600 pessoas, mulheres e homens, que enfrentaram o fascismo. As torturas que eram reiteradamente praticadas no local provocaram a morte de dois resistentes antifascistas, ambos militantes do PCP: o barbeiro Joaquim Lemos de Oliveira, de Fafe, e o operário Manuel Fiúza da Silva Júnior, de Viana do Castelo, antigo editor d'A Voz dos Famintos (um quinzenário anarquista) que acabou por se juntar aos comunistas.

Ambos foram torturados até à morte em 1957, com 16 dias de diferença. Manuel Fiúza da Silva Júnior, de 69 anos, é preso pela PSP enquanto distribuía propaganda que denunciava o assassinato de Joaquim Lemos de Oliveira (de 48 anos) às mãos da PIDE. Depois do 25 de Abril, este edifício ficou sob a tutela do Ministério do Exército que, em 1977, e depois da demolição de parte das instalações prisionais, ali instalou o Museu Militar do Porto.

A proposta apresentada pelo PCP em 26 de Setembro, na Assembleia da República, pretende mudar as instalações do Museu Militar para outro local e criar o Museu da Resistência Antifascista no Porto, instituindo ao mesmo tempo a Rede Nacional de Museus da Resistência, permitindo a articulação entre o Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, de Lisboa, o Museu Nacional da Resistência e da Liberdade, de Peniche, e este novo espaço. Em 2018, o Ministério da Defesa, em resposta aos deputados comunistas, assumiu a inteira disponibilidade para deslocalizar o seu museu, nomeando diversas infra-estruturas que poderiam receber o seu espólio.

O espaço é, desde 2015, partilhado pela URAP e o Museu Militar, estando patente uma exposição com o título Do Heroísmo à Firmeza - Percurso na memória da casa da Pide no Porto - 1934-1974, que não colide com o projecto do Museu Militar.

Direita continua com dificuldade em lidar com o seu passado
«Urge dar um novo passo na valorização deste espaço como local de memória e homenagem às vítimas do fascismo e à luta pela democracia», refere o documento apresentado pelo PCP. A proposta foi aprovada com o votos favoráveis do PS, BE, Livre e PCP, a abstenção do PSD e da Iniciativa Liberal, e os votos contra do Chega e do CDS-PP, incapazes de se libertarem das suas pesadas heranças.

«O edifício do Heroísmo é um símbolo do regime fascista e, como antiga sede da polícia política, é o local adequado e justo para documentar, musealizar e, dessa forma, homenagear a luta pela liberdade daqueles que lá estiveram detidos e ali resistiram para construir no nosso país o 25 de Abril e o seu projeto emancipador de liberdade, progresso e desenvolvimento social», afirmam os comunistas.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

O dia em que Portugal acordou Livre


Numa suave manhã de abril de 1974, Portugal despertou agitado ao coro da mudança. O perfume dos cravos mesclava-se com as aspirações de uma nação cansada de anos sob o jugo opressivo da ditadura. Neste dia singular, o descontentamento silencioso do povo encontrou eco no coração daqueles que ousaram sonhar, anunciando o fim de um regime que sufocava a liberdade e reprimia o progresso social, económico e cultural do país. Portugal erguia-se, enfim, com a ambição de prosperar, deixando para trás um caminho solitário que havia trilhado durante demasiado tempo. 
A Revolução dos Cravos não nasceu da violência, mas da coragem. Foi o grito sereno de um povo que já não aceitava viver calado, a coragem de militares que escolheram a pátria e o povo em vez da opressão. Foi o instante sublime em que a utopia se tornou possível, e Portugal, cansado da noite longa da ditadura, amanheceu livre.
Essa revolução, embora nascida em solo português, ecoou muito além das fronteiras, como um hino universal à dignidade humana. O mundo viu um povo erguer-se com cravos nas mãos e justiça no peito. Homens e mulheres comuns tornaram-se heróis anónimos de uma mudança que brotou das entranhas da sociedade - com resiliência, com sonho, com a sede de um novo amanhã.
O fim da ditadura não foi apenas o desmantelamento da censura ou a criação de instituições democráticas. Foi o início de uma caminhada intensa, nem sempre fácil, mas profundamente transformadora. A democracia chegou com debates, com escolhas difíceis, com o peso e a beleza da liberdade. Trouxe conquistas nos direitos civis, na igualdade de género, na afirmação das minorias, e na ousadia de construir uma economia moderna e aberta ao mundo.
Foi também um renascimento cultural. A palavra voltou a ter valor. A arte, a literatura, o cinema e a música floresceram como sementes guardadas durante décadas, à espera de solo fértil e céu limpo. Expressar-se tornou-se não só um direito, mas um dever cívico, e o país inteiro respirou, finalmente, em liberdade.
O legado do 25 de Abril é eterno enquanto resistirmos à amnésia coletiva. É farol e bússola. Lembra-nos que a liberdade é conquistada, não concedida. Que a democracia se cultiva todos os dias, com participação, com justiça social, com o combate à corrupção e à desigualdade.
Hoje, ao celebrarmos a liberdade, é vital recordar a força dos que nos trouxeram até aqui. Porque num tempo em que tantas conquistas parecem frágeis, revisitamos Abril não como nostalgia, mas como promessa. Promessa de que o povo português saberá sempre - se preciso for - voltar a encher as ruas de coragem, de cravos e de futuro.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

50º Aniversário do 25 de Abril- Em cada rosto, dignidade!


50 anos anos de 25 de Abril
O balanço da Revolução de Abril é globalmente positivo
A Revolução liquidou o colonialismo português, conquistou os direitos, liberdades e garantias fundamentais de um regime democrático e permitiu um certo grau de desenvolvimento económico, social e cultural.
Claro está que a Revolução não logrou alcançar aquilo que, em determinada altura, passou a ser o seu objectivo principal: a liquidação do capitalismo e da exploração do homem pelo homem e a instauração do socialismo.
Estas continuam a ser as tarefas centrais e cada vez mais actuantes da Revolução em Portugal e no Mundo.

Agora vou até à Avenida dos Aliados celebrar a Festa dos Cravos

50º Aniversário do 25 de Abril


O 25 de Abril de 1974 em Portugal é realmente uma data marcante, cheia de significado e poesia. Foi o dia em que o povo português, cansado da ditadura que oprimia suas liberdades, se uniu numa revolução pacífica e determinada. É um exemplo poderoso de como a vontade coletiva pode transformar o destino de um País.

Esta revolução não apenas trouxe o fim da ditadura, mas também inaugurou uma nova era de liberdade, democracia e esperança para o país. As ruas de Lisboa, naquela primavera de 1974, ecoaram não apenas com os sons da mudança política, mas também com a poesia da transição de um regime opressivo para um regime republicano livre e pluripartidário. Rapidamente em todas cidades e aldeias do nosso País, a Revolução dos Cravos chegou e fizeram-se festas populares. Gritos de liberdade e canções de intervenção foram entoados por todo o território de Portugal.

O 25 de Abril é uma celebração da coragem e da determinação do povo português em lutar por um futuro melhor. É um lembrete de que, mesmo diante das adversidades, a união e a vontade de mudança de um povo podem superar qualquer obstáculo. Que essa data continue a inspirar gerações futuras a lutar pelos seus direitos e pela justiça, sempre de forma pacífica e entusiástica.

Logo à tarde, vou estar a celebrar na Avenida dos Aliados a Festa da Liberdade. Viva o 25 de Abril! Fascismo, nunca mais!

Tenham cuidado, ele é idoso! Ele é o Óscar "Tortura" Cardoso

Óscar Cardoso é um dos inspetores da PIDE que recebeu de Cavaco Silva uma pensão vitalícia por serviços relevantes prestados à Pátria.
A mesma pensão que Cavaco recusou atribuir ao Salgueiro Maia.

Se não viu torturar ninguém era perguntar-lhe porque é que Militão Ribeiro morreu na cadeia com 32 kg de peso e escreveu a carta de despedida com o próprio sangue. Tante gente boa a morrer e estes crápulas fascistas continuam por cá.

Este criminoso é o ex-inspector da pide, Óscar Cardoso que no dia 26 de Abril de 1974 mandou disparar contra populares, tendo morrido 4 pessoas. 


Uma das figuras centrais da liderança da PIDE era António Barbieri Cardoso; a sede da política política ficava na Rua António Maria Cardoso; o ex-inspector da DGS que deu este fim-de-semana uma sinistra entrevista ao Correio da Manhã em que desvaloriza a tortura chama-se Óscar Cardoso. Desagradável. É impossível não associar este apelido a alguém que nos persegue com o intuito de nos fazer mal. Em princípio, foi por isso que surgiu a expressão "Ala, que é Cardoso". Enfim. Não tenho alternativa senão dirigir-me aos Registos para solicitar a imediata alteração do meu apelido.

Óscar Cardoso vive na Ericeira, tal como José Sócrates. Afinal, a Ericeira não é apenas um destino de eleição para nómadas digitais. Não só seduz pessoas que se fartaram de salas de escritórios, como deslumbra pessoas que se fartaram de salas de interrogatórios. Vive, segundo o Correio da Manhã, numa casa decorada com retratos de Salazar. Apesar de tudo, são peças esteticamente mais arrojadas do que os quadros que se encontram pelos Airbnbs da vila, como aqueles em que se lê "Keep Calm and Carry On". Curiosamente, um slogan potencialmente ofensivo para Óscar Cardoso, uma vez que terá contribuído para que os britânicos resistissem à Alemanha nazi.

Bom, divago. A entrevista de Óscar Cardoso é fascinante porque, aos 88 anos, os seus olhos azuis só brilham quando fala dos netos. Dos netos? Não, não. Brilham quando fala dos métodos de tortura da polícia política. No entanto, enquanto relata torturas da PIDE, nega que tenha existido torturas na PIDE. "As pessoas não foram torturadas pela PIDE, as pessoas foram chateadas pela PIDE". Sim, sim, chateadas. Consta até que a maior parte dos agentes da PIDE teriam 8 anos e limitavam-se a sentar-se atrás dos presos políticos a dizer "Já chegámos? E agora? Já chegámos? E agora?". Pelo menos, fica claro que a PIDE tinha aconselhamento jurídico. É que há convenções que proíbem a tortura, mas não há nenhum tratado que ilegalize a chatice.

Quando lhe perguntam como conseguia obter confissões, Cardoso empolga-se ao relatar a aplicação de choques elétricos, que qualifica como "brincadeiras". Não sei como é que não dá para escolher a profissão de PIDE na Kidzania. "Não é tortura, faz uma comichão e tal", sossega-nos o ex-agente. Obviamente. Entendo agora o verdadeiro sentido da frase "a PIDE dava coças". Aliás, a ditadura só caiu porque as pessoas estavam fartas de comichão: no 25 de abril costuma circular imenso pólen e havia dificuldades em importar anti-histamínicos.

Após uma descrição dos métodos desumanos a que a PIDE recorria nas colónias, a jornalista pergunta "Isso em Angola. E em Portugal?", como se estivesse a fazer uma entrevista ao Matias Damásio sobre o sucesso dos últimos concertos. Longe de me intrometer no trabalho da repórter, mas verdadeiro serviço público seria questionar qual a marca das gomas de melatonina que este homem toma para conseguir dormir à noite.

1961: ano que marca o início do conflito nos territórios africanos.
Em Angola dá-se o arranque de toda uma situação só terminada após a queda do regime em 25 de Abril de 1974.

domingo, 14 de abril de 2024

Música do BioTerra: Zeca Afonso - Em Terra de Trás-os-Montes


Este é o seu nono LP, com as colaborações de Cecília Barreira, Fausto, Fernando Gonzalez, José Luís Iglésias, José Niza, Júlio Pereira, Luís Duarte, Michel Delaporte, Quim Barreiros, Ramon Galarza e Vitorino.
[...Porque gravado em 76, reflecte as vivências desse período é um disco comprometido e datado, mas capaz de sobreviver às situações que lhe deram origem, verdadeiro exemplo da capacidade de intervir artisticamente, sem prejuízo dos valores estético-formais...]. (Viriato Teles)

Em terras de Trás-os-Montes
Entre Coelhoso e Parada
Uma história verdadeira
Foi ali mesmo contada

Algemado por dois pides
Na manhã de vinte e três
La vai Manuel Augusto sem mesmo saber porquê

Com ele vai Marcolino bufo dos Dominadores
Ide às minas da Ribeira
Vereis quem são os Senhores

Nesse lugar de trabalho
Nos confins da exploração
Diz o Marcolino aos pides
Apertem-me esse cabrão

Não contente com a prova
Do zelo que assim mostra
Àquele rapaz honrado
Esta fala então lhe dava:

Sabemos da tua vida amanhã por esta hora
Irás para o forte de Elvas
Diz adeus à vida boa

Também o José António
Foi na mesma interrogado assassino Marcolino
Foste o primeiro culpado

Entre Parada e Coelhoso
Ainda reina a opressão
Não deixem fugir o melro
Não quebrem vossa união

sábado, 13 de abril de 2024

O nome de Zeca Afonso voltou à superfície dos dias, pois aproxima-se o 25 de Abril

No parlamento há 50 deputados que não sairão à rua nesse dia. E mais de um milhão de portugueses decidiram colocar a cruz num partido que não defende a liberdade e a democracia.

José Afonso dedico a ti este poema.

"Na luta pelo povo, Zeca Afonso marchou,
Com a sua voz firme, a opressão enfrentou.
Nas notas das suas canções, ecoava a liberdade,
Era o eco de um povo em busca de igualdade.

No 25 de abril, o seu canto ressoou alto e claro,
Contra o fascismo, ele foi um guerreiro raro.
Mas a vida, implacável, lhe lançou um duro fado,
A esclerose lateral amiotrófica, cruel e desgraçado.

Abandonado por muitos, mas nunca por sua voz,
Zeca lutou até o fim, apesar de ter sido atroz.
O seu corpo enfraquecido, mas o seu espírito não cedeu,
A sua música continuou, o seu legado floresceu.

Pobre e desamparado, assim ele se viu,
Mas a sua alma livre, no coração do povo sorriu.
Hoje, lembramos com saudade o grande Zeca Afonso,
E juramos que o fascismo, em nós, nunca terá pranto."
João Soares, 12.04.2024

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Estado Novo - pobreza instituída, bufaria, guerra e tortura


A tremenda miséria que eu vi neste país no tempo do ditador é incontornável e insuportável. E Irene Pimentel estimou que durante o Estado Novo morreram cerca de 600.000 crianças, adultos e idosos. A esperança de vida era muito mais baixa que hoje.
Quando os fascistas da rede X vêm contestar os 50 anos de Liberdade, compararam o Portugal de Salazar com regimes de Cuba e da ex-União Soviética. Relembro este gráfico da mortalidade infantil pós- 25 de Abril. Elucidativo. Vocês não têm argumentos. 
Repararem como Salazar está com luvas para encher um copo a um pobre (podia ter doenças, medo de ser contagiado com alguma doença)

O 25 de Abril acabou com: 
A censura 
A tortura
A prisão e execução arbitrárias 
A guerra colonial 
O domínio imperial 
A bufaria e a PIDE 
O partido único 
A repressão dos trabalhadores 
Portanto não, não acho estranho que quem se afirme de direita seja contra. Acho estranho que aceitemos a antidemocracia.

domingo, 7 de abril de 2024

Centenário da 1.ª Viagem Aérea Portugal-Macau


Sarmento de Beires seria preso em 1933 e condenado a sete anos de desterro em 1934, com perda dos direitos cívicos por dez anos.
A prisão no Aljube coincide com a morte do seu companheiro de aventura Brito Pais, aos 49 anos, vítima de acidente aéreo. Foi impedido de comparecer no funeral e teve que assistir à passagem do cortejo fúnebre a partir da prisão.

sexta-feira, 1 de março de 2024

Verdadeiro, Mariana - houve prisão perpétua no Estado Novo e alguns morreram


A PIDE prendia qualquer pessoa que suspeitasse ser contra o regime. Apesar da pena perpétua estar abolida, os presos eram sujeitos a "medidas de segurança" que prolongavam indefinidamente a sua pena, tornando-se equivalente a perpétua.

Consultando os arquivos da PIDE, comecem por escolher Tarrafal. Alguns não era prisão perpétua, era prisão até morrerem. 37 ali morreram. O Campo de Concentração do Tarrafal situava-se no extremo norte da ilha de Santiago, Cabo Verde, num lugar ironicamente chamado de Chão Bom.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Protesto convocado por membros de movimentos de extrema-direita, em Lisboa - segue-se uma reflexão sobre o Chega, incitamento ao ódio (que é crime) e quem foi Salazar e o seu regime

O presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior pede aos residentes que não saiam de casa durante a manifestação. 
Um grupo de extrema-direita, que convocou um protesto contra muçulmanos no Martim Moniz para o próximo fim de semana, garante que vai sair à rua, apesar de não ter autorização da Câmara de Lisboa. Os imigrantes no Martim Moniz estão preocupados e prometem fechar as portas do comércio no dia da marcha. Saiba mais aqui


1º Ponto - O Tribunal Constitucional deve ilegalizar o Chega
O Tribunal Constitucional está a tentar (e bem) tudo por tudo para ilegalizar o Chega. Demora o seu tempo e entretanto o monstro cresceu com 16% de eleitorado, 3ª força política fascista e racista em menos de 4 anos.

2º Ponto - Um pouco de História do Salazar, pai do partido ilegal Chega
Salazar criou organizações repressivas para anular ou silenciar as oposições, retirando direitos e liberdades aos indivíduos que deviam obedecer ao chefe. Criou o Secretariado de Propaganda Nacional para difundir os ideais do Estado Novo, como o autoritarismo e/ou o totalitarismo, e mecanismos de controlo da população, que enquadravam as crianças e jovens, as mulheres e os homens.

O Estado Novo assentava em organizações repressivas e mecanismos de controlo da população criadas por Salazar, à semelhança do fascismo italiano, para garantir o culto da personalidade ou culto do chefe e a negação dos direitos e liberdades individuais.

Logo em 1933 foi criada a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE- futura PIDE) para controlar os opositores políticos ao regime, contando com uma vasta rede de informadores civis.

O preso político era detido, sem culpa formada e sem mandato, e sujeito a tortura física e psicológica, podendo a PVDE decidir alargar o tempo de prisão, que devia cumprir nas prisões políticas do Aljube, Caxias e Peniche.

A guerra civil espanhola (1936-39) fez endurecer o regime na defesa da ordem e disciplina, aumentando a repressão contra quem se opusesse ao Estado Novo. Em 1936 Salazar, com o intuito de perseguir sobretudo os comunistas e anarquistas, criou a Legião Portuguesa (milícia civil armada) e abriu o campo de concentração do Tarrafal.

Estabeleceu ainda a Censura prévia, conhecida como «lápis azul», sobre toda a produção intelectual, a rádio, a imprensa e o cinema, impedindo a divulgação de ideias contrárias ao regime e subordinando a cultura aos interesses do Estado.

O Estado Novo desenvolveu mecanismos de controlo da população, com o objetivo de difundir os valores do regime e influenciar a opinião pública.

Em 1933, foi criado o Secretariado de Propaganda Nacional, dirigido por António Ferro, que promoveu a «Política de Espírito» procurando conciliar vanguarda e tradição. A face mais visível da ação do Secretariado de Propaganda eram os cartazes com mensagens de glorificação da infalibilidade do chefe e de exaltação das realizações do Estado Novo (denegrindo a 1ª República).

Para valorizar a cultura popular e a grandeza do império António Ferro promoveu concursos, festivais de folclore e exposições, destacando-se a Exposição do Mundo Português (1940). Organizou ainda desfiles e comícios, onde Salazar discursava, embora preferisse fazê-lo através da rádio, porque ao contrário de Mussolini, Salazar evitava banhos de multidão.

A reforma do ensino, de 1936, contribuiu para a redução da taxa de analfabetismo (ainda que lenta), mas orientava-se sobretudo para a transmissão dos valores do regime incutindo a crianças e jovens o espírito de obediência ao chefe e de defesa da Nação. Desde cedo aprendiam a valorizá-la acima das outras, numa lógica de nacionalismo exacerbado, que aliado ao patriotismo e ao imperialismo, fomentava a ideia de superioridade da Nação, da raça e da religião católica.

Privilegiavam-se certos períodos da História, como a Reconquista e os Descobrimentos e enalteciam-se os heróis, como o Infante D. Henrique ou Nuno Álvares Pereira. Para garantir que não havia desvios ao ensino pretendido pelo regime adotou-se um manual escolar único (o mesmo conteúdo para todos) e controlavam-se os professores, que assinavam uma declaração em como não professavam ideologias contra o Estado Novo.

Desde pequenos, meninos e meninas, mesmo que não frequentassem a escola, eram enquadrados na Mocidade Portuguesa, também criada em 1936, para a prática de exercício físico, numa lógica militarista de educação para a guerra, fomentando-se os valores de disciplina e respeito às hierarquias.

Salazar preocupou-se também em controlar os tempos livres dos trabalhadores e das suas famílias, sobretudo os dos meios urbanos, tendo criado, em 1935, a Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT) para a promoção de atividades culturais, desportivas e recreativas.

Foi também criada, em 1936, uma organização de enquadramento das mulheres – a Obra das Mães pela Educação Nacional (OMEN) – para difundir o papel da mulher como mãe, zelosa da família e das tarefas domésticas e esposa obediente ao marido (chefe na família).

3º Ponto - Incitamento ao ódio (que é crime) 
O crime de incitamento ao ódio e à violência encontra-se previsto no n.º 2 do artigo 240.º do Código Penal e é punido com pena de prisão de 6 meses a 5 anos. [Diário da República]

domingo, 14 de janeiro de 2024

Pacheco Pereira - Só vale a pena comemorar o 25 de Abril em modo combativo


«Os 50 anos do 25 de Abril vão ser comemorados por todo o lado (só o Arquivo Ephemera tem cerca de 50 pedidos de organização ou cedências de material para exposições e participação em debates e conferências, de escolas, autarquias, universidades e outras instituições, dos quais talvez se consiga responder a metade…). Não tenho dúvidas de que vai haver centenas e centenas de realizações e, embora haja o risco de overdose e de a partir de Março não se poder mais ouvir falar do 25 de Abril, isto significa que a data entrou completamente na normalidade institucional do país, o que é bom e mau ao mesmo tempo.

Que se lembre a determinação e coragem dos que o fizeram, que se fale por comparação com os anos da ditadura, é bom. O que é mau é que se comemore a data mais ou menos por obrigação como se fosse um dia santo republicano e laico, e não a Revolução de 25 de Abril. Sim, a “revolução”, que está muito para além da data, porque o 25 de Abril a partir da manhã deixou de ser um golpe de Estado para ser uma revolução, quando muitos milhares de pessoas vieram para as ruas, os militares tiveram que acelerar a ocupação da PIDE e a prisão dos agentes, que, recorde-se, mataram as últimas vítimas directas do Estado Novo na metrópole, tiveram que libertar os presos políticos, acabar com a censura nas ruas e aceitar a realização do 1.º de Maio e mil e um pequenos/grandes factos consumados que a Junta de Salvação Nacional não desejava.

A rua somou-se aos quartéis e a rua fez a revolução. Os historiadores, os sociólogos e os políticos têm usado o termo ou criticado o seu uso, têm-no definido com vários graus de exigência, mas que o 25 de Abril foi uma revolução, isso foi. Por muito tumultuoso que tenha sido o processo – e em bom rigor era difícil que não fosse, num país com tão longa ditadura e com uma guerra colonial em curso –, no dia 24 não havia liberdade, nem democracia, e no dia 25 havia liberdade e desta passou-se à democracia. Pode tudo estar a correr mal, podem os partidários do “cumprimento de Abril” dizer que este está “por cumprir”, mas a diferença entre 24 e 25 ainda está viva e bem viva.

Mas ter liberdade e democracia nunca é isento de perigos, e a sua fragilidade exige uma combatividade do bem que está longe de existir. Temo aliás que, por complacência e preguiça, por mesquinhez com as pequenas insatisfações de cada um, pela degradação da qualidade de vida e pela degenerescência cultural, pela falta de exigência, pelo egoísmo individual, as comemorações sejam mais um ritual do que algo com significado em 25 de Abril de 2024. Tanto mais que, entre eleições e crises políticas, o certo crescimento da direita radical, e não é só no Chega, vai ser a pior ecologia para recordar uma data que vai valer a pena lembrar mas só em modo combativo.

Pouca gente atacará o 25 de Abril directamente, principalmente no terreno da política, mas existem ataques que minimizam o seu significado. Quando se coloca o 25 de Novembro em paralelo com o 25 de Abril, para além de uma asneira histórica, está-se a diminuir o 25 de Abril. Foi feito. Ou, noutra variante, o retorno de “como era bom Mussolini porque fazia os comboios chegarem a horas”, que alguns pseudo-académicos que não se enxergam dizem por aí da ditadura. Foi dito.

Qualquer minimização da violência, crueldade, atraso, fraude, discriminação, perseguição, e mais mil e uma coisas como a ideia falsa de que a corrupção é uma característica da democracia e não existia no “tempo de Salazar”, devia obrigar a ler os milhares de cortes da censura que protegiam o regime das notícias perturbadoras para a “paz” dos espíritos, a começar pelo capítulo intitulado “desfalques”. Foi sugerido. Do mesmo modo, a pedofilia, os abusos sexuais e a sistemática violência contra as mulheres... – lá porque não se falava disso, não quer dizer que não fosse um período negro favorável a todos os abusos, exactamente porque não se podia falar disso. Foi minimizado. Aliás, talvez o que de mais grave se esquece, mesmo nas comemorações, é que a ditadura tem milhares de mortos à sua responsabilidade, não porque a PIDE matasse muito menos do que as suas congéneres europeias, como alguns dizem, e é verdade para a metrópole, mas havia três guerras coloniais em curso e nelas morreram muitos soldados portugueses e muitos africanos. Foi esquecido.

O que queria dizer ao enumerar todos estes males sociais e políticos que desgastam a liberdade e a democracia é que eles têm autores, uns mais conscientes do que estão a fazer, outros porque vão na onda e acham que não têm nada a perder, e estão a estragar o 25 de Abril. Usando um exemplo trivial, é como aqueles que nunca quiseram saber dos sindicatos, até os desprezavam, mas que quando são despedidos vão lá bater à porta, para ter um advogado que defenda os seus direitos.
O que digo é que é importante defender o que temos, antes de ir bater a uma porta que pode até já não existir.»

sábado, 9 de dezembro de 2023

Jogo do Pau


O Jogo do Pau Português traz-nos a história por contar da única arte marcial Portuguesa ainda viva. Trata-se de uma arte marcial centenária que poucos conhecem, mas que está na raiz da nossa história. o Jogo do Pau emerge entre os campos de batalha medievais e os confrontos nas aldeias, feiras e romarias. A arma usada é o pau, acessível a todos, mas exigindo mestria e uma técnica passada através de gerações de mestres de combate.[Documentário
Até inícios do século XX, estudar com um mestre do Jogo do Pau era um privilégio para quem queria aprender técnicas de combate. Mas a proibição da sua prática pelo regime de Salazar nos anos 40 veio tornar o Jogo do Pau numa prática em risco de extinção, não fosse a dedicação e perseverança de alguns mestres.
Apesar dos atropelos do último século, a história do Jogo do Pau sobrevive até hoje, com alguns mestres e praticantes dedicados e é pela primeira vez aqui narrada. Mais do uma forma antiga de combate, o Jogo do Pau é uma técnica arrojada, que carrega o eco da nossa história. Este livro resulta de uma pesquisa detalhada, em documentos e referências históricas, contanto a história da origem e desenvolvimento de uma prática que é ela própria um documento vivo histórico.

Saber mais:
O Jogo do Pau: uma Arte Marcial Renascida



quinta-feira, 3 de agosto de 2023

José Afonso - A morte saiu à rua


"A Morte Saiu à Rua" faixa de abertura do disco "Eu Vou Ser Como a Toupeira" (1972), é uma homenagem ao artista plástico José Dias Coelho, militante do PCP assassinado a tiro pela PIDE numa rua de Lisboa, em 19 de Dezembro de 1961. Não estás esquecido.



A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação


Biografia e Discografia
UHF

Página Oficial
UHF

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Música do BioTerra: Serge Gainsbourg and Jane Birkin - Je t'aime... moi non plus


P.S. A canção "Je t'aime … moi non plus" foi proibida em Portugal na época em que foi lançada, pela sua controvérsia e por ser considerada como atentado aos costumes pelo regime salazarista.

R.I.P. Jane Birkin, 14 December 1946 – 16 July 2023 📷 by Patrick Lichfield
Para saber mais
  1. Je t'aime… moi non plus e versões
  2. Jane Birkin

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Norbeto Bobbio - o fascista


“O fascista fala o tempo todo em corrupção. Ele acusa, insulta, agride como se fosse puro e honesto. Mas é apenas um sociopata que persegue a carreira política. No poder, não hesita em roubar a sua liberdade e os seus direitos. Mais que corrupção, o fascista pratica a maldade.” - Norberto Bobbio in " Do fascismo à democracia: o regime, a ideologia, a figura e a cultura política", 1997

Biografia
Norberto Bobbio (Turim, Itália, 1909-2004) foi um filósofo político, historiador do pensamento político, escritor e senador vitalício italiano. Conhecido por sua ampla capacidade de produzir escritos concisos, lógicos e, ainda assim, densos.