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sábado, 19 de setembro de 2026

Administração Trump reduz proteção de espécies ameaçadas


O governo norte-americano reduziu o alcance das proteções a espécies ameaçadas, estabelecendo que a morte acidental de animais protegidos não será mais considerada ilegal, segundo um memorando governamental divulgado pela organização Center for Biological Diversity.

O documento, datado de 14 de setembro, cuja autenticidade foi confirmada à agência de notícias AFP, redefine o conceito de ‘captura’ (‘take’), um termo jurídico que abrange atos como perseguir, matar ou capturar uma espécie.

Com esta nova diretriz, as mortes colaterais provocadas por atividades industriais e económicas de grande escala, como a exploração madeireira, a navegação comercial, a mineração, a perfuração de petróleo e a construção de barragens, deixam de constituir uma violação da lei federal americana. O próprio documento oficial exemplifica que incidentes como a colisão acidental de navios com baleias ameaçadas de extinção ou o abate de árvores que sirvam de habitat a morcegos protegidos já não serão tratados como crimes ambientais, desde que o objetivo principal da atividade não tenha sido visar o animal. 

“Um navio que atinge acidentalmente uma baleia não a ‘capturou’, uma vez que a trajetória não foi direcionada contra a baleia”, refere o documento, citando o falecido juiz conservador do Tribunal Supremo dos Estados Unidos de América, Antonin Scalia.

“Derrubar uma árvore não constitui uma ‘captura’ dos morcegos que nela se abrigam, a menos que a árvore seja derrubada com o objetivo de matá-los ou capturá-los”, acrescenta.

O texto é assinado por Brian Nesvik, diretor da agência federal responsável pela preservação da vida selvagem nos Estados Unidos, United States Fish and Wildlife Service (FWS).

O departamento responsável pela gestão de terras federais, ao qual a agência está vinculada, confirmou à AFP a autenticidade do documento.

“Este memorando reflete fielmente as diretrizes” da agência “sobre a aplicação da Lei de Espécies Ameaçadas após a adoção da regra definitiva que elimina a definição regulatória do termo ‘prejuízo'”, indica o texto.

Como seria de esperar, esta decisão gerou uma onda imediata de contestação por parte de várias organizações de defesa do ambiente. Brett Hartl, diretor de assuntos governamentais do Center for Biological Diversity, criticou duramente a medida, afirmando que a mesma ataca o coração da lei ao dar uma aprovação federal à destruição da biodiversidade. Em termos semelhantes, o NRDC (Natural Resources Defense Council) alertou que esta alteração jurídica retira qualquer incentivo financeiro e legal que as empresas privadas tinham até agora para mitigar riscos, planear com cautela e evitar a morte de animais em risco crítico de extinção.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Sistema da cunha num Estado que falha a cidadãos: Nobel arrasa Portugal


Estudo que vai ser apresentado esta quinta-feira tece várias críticas a Portugal: um Estado que falha com os cidadãos e que vive com um sistema da "cunha". É da autoria do Prémio Nobel da Economia de 2024, James A. Robinson, e do economista português Nuno Palma.

Um estudo do Prémio Nobel da Economia de 2024, James A. Robinson, e do economista português Nuno Palma, que vai ser apresentado esta quinta-feira, tece várias críticas a Portugal: um Estado que falha com os cidadãos e que vive com um sistema da "cunha".

"O cidadão que quer um lugar no setor público concorre: entrega um currículo, faz provas, é avaliado. Mas o presidente do regulador da energia - a pessoa que decide as tarifas que paga - é nomeado por escolha política, sem concurso aberto, sem júri independente, sem critérios transparentes. Há uma palavra para este sistema, e todos a conhecem: cunha - a ligação de dentro, o telefonema da pessoa certa, o favor do padrinho, associado ao nepotismo e ao compadrio", refere Robinson, no estudo, citado pelo Jornal de Notícias, que teve acesso prévio ao documento.

Aliás, o mesmo jornal descreve mesmo que o cenário traçado pelo Nobel sobre a economia portuguesa é "devastador", considerando que o país vive uma "catástrofe silenciosa", décadas de degradação institucional que impedem o país de convergir com os países mais ricos da Europa.

De uma maneira geral, os autores do estudo consideram que Portugal está preso num sistema de compadrio, com justiça lenta, reguladores capturados e um Estado que falha aos cidadãos.

A mensagem positiva é que Portugal não precisa necessariamente de um Estado mais pequeno, mas sim de um Estado que cumpra o que promete: "Essa única coisa é um Estado que cumpre a palavra dada: Portugal a horas. Perseguida obsessivamente, essa política arrasta o resto atrás de si: uma justiça rápida e previsível, concorrência real, um Estado meritocrático e capaz, uma fiscalidade favorável ao investimento, capital humano aplicado e habitação a preços comportáveis", revela ainda o JN, citando o estudo.

Acordos coletivos só deviam ser para sindicalizados
O mesmo estudo revela que os acordos coletivos só se deviam aplicar a quem estiver representado pelos parceiros sociais, defendendo que a medida fomentaria a representatividade destas entidades, segundo a agência Lusa.

O estudo "Desbloquear o crescimento de Portugal - Reformas estruturais e desafios à implementação de políticas económicas", encomendado pela CIP - Confederação Empresarial de Portugal e pelo IDL - Instituto Amaro da Costa, é hoje apresentado no Museu do Oriente, em Lisboa.

"Em Portugal, sindicatos que não são representativos participam regularmente em decisões de negociação coletiva que afetam todos os trabalhadores", aponta o estudo, que defende que o Governo deve "envidar esforços para fomentar a representatividade dos sindicatos e das associações patronais".

Nesse sentido, os autores sugerem que o executivo deveria "promover a descentralização dos acordos de negociação coletiva, para aumentar o alinhamento entre os trabalhadores e os seus representantes, e entre as empresas e os seus representantes".

Como tal, para James A. Robinson e Nuno Palma, "um passo importante" para atingir estes objetivos seria "tornar a extensão administrativa dos acordos coletivos a trabalhadores não sindicalizados condicional à representatividade dos parceiros sociais".

Por outras palavras os autores sugerem ao Governo que anuncie que "no futuro, os acordos coletivos apenas se aplicarão a quem estiver diretamente representado pelos parceiros sociais".

Por outro lado, defendem que se passe a produzir "estatísticas regulares sobre o número de trabalhadores filiados em cada sindicato e de empresas filiadas em cada associação patronal", bem como que se torne "o acesso aos fundos europeus - nomeadamente os do FSE+ relacionados com formação profissional e apoio social às empresas - condicional ao grau da sua representatividade".

terça-feira, 26 de maio de 2026

Cenário climático RCP 8.5 - é assim que funciona a publicidade aos combustíveis fósseis hoje em dia

Fonte: Stefan Rahmstorf  (clique na imagem para ampliar)

Leu em algum lugar esta semana que a crise climática está a ser cancelada? Infelizmente, isso é mentira. A forma como esta mensagem chegou ao público alemão é um exemplo clássico de propaganda do século XXI.

Imagine que sofre de uma doença grave e progressiva que lhe causará dores e limitações cada vez maiores ao longo dos próximos anos e décadas. Os médicos prescreveram medicamentos. Agora, parecem estar a surtir efeito: a dor já não está a aumentar tão rapidamente como antes. Qual seria a sua reação? Deixaria de tomar a medicação o mais rapidamente possível?

Foi basicamente isso que a ex-ministra da Família, Kristina Schröder (CDU), exigiu esta semana. Num artigo para o jornal "Die Welt", pertencente ao grupo Springer, Schröder escreveu: "A Alemanha está a mergulhar cada vez mais na desindustrialização. O culpado é um cenário catastrófico climático que os cientistas já desmascararam como falso."

Isto está duplamente errado: um "cenário de horror climático" não é o culpado pela ampla absorção da indústria alemã pela China – o que precisamos é finalmente de uma política energética e climática coerente, afirmam tanto o Conselho de Peritos Económicos como o conselho independente de peritos em questões climáticas . Nem um "cenário de horror climático" foi "desmascarado como falso".

Infelizmente, isto não é absolutamente motivo para tranquilização.
Para se perceber como é que este absurdo artigo de opinião foi parar a um jornal alemão supostamente respeitável, é preciso recuar algumas semanas. No início de abril, um artigo assinado por dezenas de investigadores climáticos foi publicado numa revista científica , contendo uma notícia relativamente boa e uma notícia muito má. A notícia muito má é que a meta acordada em Paris por 195 países e pela União Europeia — limitar o aquecimento global a menos de 1,5 graus Celsius em comparação com os níveis pré-industriais — está, para já, fora de alcance. Os detalhes científicos são explicados, por exemplo, por Stefan Schmitt no jornal "Die Zeit " .

A notícia algo animadora é que é altamente improvável que a humanidade continue a utilizar o carvão para a geração de eletricidade a uma escala cada vez maior, principalmente porque as energias renováveis ​​estão a crescer muito rapidamente e a tornar-se cada vez mais baratas. O chamado cenário RCP8.5 , que pressupõe a escalada máxima da crise climática, tem sido considerado inverosímil pelos especialistas há anos . Um cenário de "baixa probabilidade e alto risco" já está descrito no relatório de avaliação de 2021 do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) .

Vai aquecer ainda mais rápido
Infelizmente, isto não é nada tranquilizador, e os especialistas concordam : ainda estamos a caminhar para um mundo que pode ser mais de três graus mais quente do que era há 200 anos. E já está mais quente do que em qualquer outro momento da história da humanidade. O Acordo de Paris sobre o Clima, como é sabido, estabelece uma meta flexível de 1,5 graus e uma meta rígida de 2 graus. E por uma boa razão: mesmo com um aumento de dois graus na temperatura, por exemplo, os corais de água quente do planeta provavelmente morrerão em todo o mundo. O que isto significa para os ecossistemas marinhos e, consequentemente, para o abastecimento alimentar de parcelas significativas da humanidade é sistematicamente ignorado por aqueles que dizem "não é assim tão mau". Para citar apenas um exemplo.

A publicação de Detlef Van Vuuren e dos seus colegas em "Geoscientific Model Development" está, por isso, longe de ser motivo de complacência; muito pelo contrário. Apenas confirma o que já era óbvio: os combustíveis fósseis são, sobretudo por razões económicas, um modelo de negócio (lentamente) em declínio . Isto significa que as emissões aumentarão a um ritmo mais lento. Mas a temperatura continuará a subir. De acordo com as descobertas atuais, até mais rápido do que antes .

Um grupo de reflexão financiado por combustíveis fósseis está a moldar a narrativa.
O que aconteceu após a publicação é um exemplo clássico de desinformação climática. Poucas semanas depois do artigo científico de Van Vuuren et al., Roger Pielke Jr., um notório negacionista das alterações climáticas (de segunda geração ) há anos, publicou um artigo no blog do American Enterprise Institute (AEI) intitulado "RCP8.5 is officially dead". O texto contém muitas afirmações aparentemente enganadoras e uma peculiaridade reveladora: Pielke Jr. escreve repetidamente que agora é provável que fique "mais frio" do que o previsto nos piores cenários (o adjetivo "mais frio" aparece cinco vezes no texto ). No entanto, definitivamente não ficará "mais frio", mas sim continuará a aquecer.

O que precisa de saber: O AEI é um daqueles think tanks neoliberais que há anos fomenta agressivamente o sentimento contra qualquer forma de proteção climática. De acordo com o site de investigação "Desmog", o AEI recebeu milhões de dólares em donativos ao longo dos anos dos suspeitos do costume na disseminação organizada de desinformação climática: de várias fundações do bilionário do petróleo americano Charles Koch, incluindo a Fundação de Caridade Charles G. Koch e o "Instituto Charles Koch", e, em grande medida, das instituições de caridade associadas aos Koch, "Donors Trust" e "Donors Capital Foundation". O AEI recebeu também donativos da ExxonMobil, da Shell, da organização de lobby "American Petroleum Institute" e assim por diante. Em síntese: o AEI é um pilar fundamental na rede de propaganda da indústria do petróleo e do gás.

Não houve absolutamente nada de "repentino" nisto.
A 11 de maio, um antigo colega, que também poderia ser descrito como um antigo jornalista científico, repercutiu a distorção da AEI no jornal "Die Welt". Este autor chamou recentemente a atenção sobretudo por uma decisão judicial e uma reprimenda do Conselho de Imprensa por reportagens agressivas, mas imprecisas, sobre "ONGs ambientalistas". O título do artigo afirmava que os cientistas climáticos estavam a "abandonar subitamente o seu cenário mais dramático". Como disse: não há absolutamente nada de "repentino" nisto. Nem aconteceu "secretamente", como alegaram vários órgãos de comunicação social de direita dos EUA , inspirados pelo presidente norte-americano. Mentiu no "TruthSocial", afirmando que o IPCC tinha "admitido" que "as suas próprias projecções" eram "FALSAS! FALSAS! FALSAS!"

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Aguiar-Branco com 31 cargos ocultos



“Não bastava declarar os rendimentos, era preciso declarar publicamente se a mulher ou o marido é rico, se o primo é pobre, se o enteado é empresário, se a casa tem elevador, quantas casas de banho, se tem empréstimo, se o empréstimo é com taxa fixa”, lamentou o presidente do Parlamento, na sessão solene do 25 de Abril. “Tornamos tantas vezes a vida política num reality-show. E fomos aceitando a ideia de que os políticos estão a esconder qualquer coisa”.

Tem piada, porque Aguiar-Branco está mesmo a esconder qualquer coisa. 31 coisas, para ser preciso.

A realidade, sem show, é que as obrigações de transparência que o presidente da Assembleia da República caricaturou no seu discurso do 25 de Abril não existem. Não, nenhuma lei ou prática obriga a listar casas de banho ou elevadores particulares, nem o património do primo, do enteado ou do periquito. Na lista dos truques de retórica desonesta, chama-se a isto a falácia do espantalho: expõe-se uma falsa realidade, para insurgir o público contra o espantalho que se apresentou. Aguiar-Branco inventou muitas regras de transparência que não existem para poder combater as poucas que, de facto, existem.

O que é irónico nisto, soubemos esta semana, é que José Pedro Aguiar-Branco, fiel ao seu repúdio pela prestação de contas, reservou para si próprio um patamar especial de opacidade e ocultação. Quando o Correio da Manhã consultou o seu registo de interesses e património, percebeu que 31 cargos exercidos pelo presidente do Parlamento em empresas ou outras entidades estão inacessíveis à consulta pública. Questionado, Aguiar-Branco explicou que “as funções em causa foram declaradas com indicação de que eram exercidas no âmbito da atividade de advogado, sujeita a deveres legais e deontológicos de sigilo profissional”. E, de facto, a lei prevê que não seja objeto de consulta pública “a discriminação dos serviços prestados no exercício de atividades sujeitas a sigilo profissional”.

Qual é então o problema? É que a mesma lei dita que publicitação do registo de transparência de cada político “deve permitir visualizar autonomamente os cargos, as funções e as atividades exercidos em acumulação com o mandato e aqueles exercidos nos três anos anteriores”. Faz sentido. Conhecer estas ligações é crucial para identificar potenciais conflitos de interesses. Não se trata de voyeurismo sobre as casas de banho de um servidor público; trata-se de identificar relações que podem colidir com o exercício do cargo. Daí que a lei explicite que estes cargos têm mesmo de ser consultáveis.

Aguiar-Branco esclarece ao Correio da Manhã que não a pediu a ninguém para ocultar nada. Como é que a informação aparece então oculta? “O que foi feito foi o preenchimento da declaração nos termos legalmente previstos, com indicação de que determinadas funções foram exercidas no âmbito da atividade de advogado e estavam sujeitas a sigilo profissional”. Na prática, ao preencher o formulário eletrónico, o presidente da Assembleia clicou num botãozinho mágico que, por defeito, oculta a informação prestada, alegando que está sujeita a sigilo. Cabe depois à Entidade para a Transparência verificar a declaração e decidir se esse sigilo se aplica ou não. Como a verificação da declaração da segunda figura do Estado ainda não está feita, por enquanto, triunfa a opacidade.

Luís Montenegro tem muito a aprender com a tranquila desfaçatez de Aguiar-Branco. O primeiro-ministro a penar tanto tempo com a Entidade para a Transparência, litigando até ao Tribunal Constitucional por causa da lista dos seus clientes na Spinumviva, e o presidente do Parlamento só teve de clicar num botão. Assim se distinguem os amadores dos profissionais.

É óbvio que a lei tem de preservar o sigilo de profissões sensíveis, como médicos ou advogados. É igualmente óbvio que, frequentemente, os advogados criam ou extinguem empresas para os seus clientes. É normal. Exercer cargos sociais nessas empresas, no entanto, é toda uma outra conversa, não é ato próprio de advogado, sujeito a sigilo nos termos da lei. Que não se possa saber ao serviço de quem assumiu essas funções é inaceitável – até porque esta interpretação da lei daria aos políticos advogados um privilégio especial de opacidade a que mais ninguém tem direito. Um político que seja empresário, ou professor, não tem como esconder os cargos que exerce ou exerceu debaixo do manto confortável do “sigilo profissional”. Acresce que os órgãos sociais de uma empresa ou organização, por definição, não são secretos. Estão registados publicamente, são consultáveis no registo da empresa. Aguiar-Branco não está a respeitar o recato dos seus clientes, está a proteger o seu.

O presidente do Parlamento argumenta ainda que os cargos em causa, que exemplificou como sendo (ou tendo sido) presidente de assembleias-gerais, não tinham “qualquer remuneração associada”. Não que seja isso o mais importante, mas se decorrem da sua atividade profissional, sujeita a sigilo, então é óbvio que são remunerados! Mesmo que não ganhe como presidente da Assembleia-Geral, ganha como o advogado que aceitou ser presidente da Assembleia-Geral. Não vale a pena tentar fazer de nós tolos, caro José Pedro.

É no entanto esclarecedor que, para Aguiar-Branco, desempenhar cargos em empresas dos clientes seja um banal serviço prestado. Ato próprio de um advogado de negócios, espécie de testa-de-ferro à venda para cargos honoríficos e de simpatia que, como bem sabemos, são muito mais do que isso. Um distinto presidente de uma Assembleia-Geral, de um “Conselho Consultivo” ou de um “Conselho Estratégico”, com um pé na política e outro na advocacia de negócios,

É alguém disponível para fazer um telefonema aqui e ali, esclarecer uma dúvida, abrir uma porta – ou escancarar uma janela. Que esses cargos, nos últimos três anos, ultrapassem as três dezenas diz tudo sobre a carreira de Aguiar-Branco como advogado – e político – de negócios.

A Entidade para a Transparência, que percebeu bem o que estava em causa nas ligações privadas do primeiro-ministro na Spinumviva, não pode caucionar esta interpretação esdrúxula da lei, que cria um privilégio especial de opacidade para políticos-advogados, fora do alcance de outros titulares de cargos públicos. Se ainda não o fez, tem de apressar a verificação da declaração de transparência de Aguiar-Branco – e pôr na ordem os desmandos da segunda figura do Estado.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Os Comentadores - Não queres o pacote laboral, faz a greve geral


O programa "Os Comentadores", transmitido pelo canal AbrilAbril, realizou uma emissão ao vivo no espaço cultural "A Bota", contando com os comentadores residentes Nuno Ramos Almeida, Paula Cardoso e Pedro Tadeu, e com a participação especial de Tiago Oliveira, Secretário-Geral da CGTP-IN. O debate teve como foco central a contestação ao novo pacote laboral proposto pelo governo e a consequente mobilização para a Greve Geral.

A discussão começou com a análise do discurso da direita, ilustrado por declarações de Cecília Meireles, que defende a flexibilização das leis laborais como uma ferramenta de competitividade e um travão à emigração jovem. Em resposta, Tiago Oliveira desmontou esta tese, classificando-a como uma retórica fácil do capital. O líder sindical relembrou que as sucessivas reformas laborais desde 2003, incluindo o código de Bagão Félix e as medidas do período da Troika, retiraram direitos fundamentais aos trabalhadores sob a promessa ilusória de uma valorização salarial futura. Contudo, os dados demonstram que esse cenário nunca se concretizou, resultando, pelo contrário, numa transferência de 70 mil milhões de euros do rendimento do trabalho para o capital nos últimos anos.

No que toca ao setor privado e à pressão pela produtividade, Paula Cardoso partilhou a sua experiência nas redações jornalísticas para exemplificar como as exigências recaem sempre sobre os ombros dos trabalhadores. A comentadora sublinhou que, em momentos de crise, o esforço suplementar exigido nunca evitou despedimentos nem reduções salariais. O painel concordou que a política de baixos salários praticada em Portugal serve, na verdade, para subsidiar a falta de investimento tecnológico por parte do patronato, o que acaba por impedir o país de crescer com base em atividades de valor acrescentado.

Outro dos pontos críticos abordados foi a defesa do banco de horas individual por acordo, preconizada por Hugo Soares do PSD. Tiago Oliveira explicou que o patronato rejeita o banco de horas grupal precisamente porque este exige um referendo coletivo, onde os trabalhadores unidos tendem a recusá-lo. Ao individualizar a negociação, o trabalhador fica desprotegido perante a pressão direta da entidade patronal. Na prática, as 150 horas anuais extraordinárias previstas e não pagas representam uma transferência massiva de riqueza dos bolsos de quem trabalha para os grandes grupos económicos.

O impacto deste pacote laboral estende-se também aos serviços públicos e ao direito à greve. Respondendo a questões do público, os intervenientes esclareceram que a administração pública será gravemente afetada, uma vez que milhares de enfermeiros, médicos e professores se encontram sob Contratos Individuais de Trabalho (CIT), sendo regidos pela Lei Geral do Trabalho. Foi ainda alertado que a degradação das condições no setor privado acaba sempre por contaminar o setor público. Paralelamente, denunciou-se a tentativa do governo de alargar os serviços mínimos a setores sociais como creches e lares, uma manobra que visa esvaziar a eficácia do direito à greve, embora o convidado tenha recordado que os trabalhadores são sempre os primeiros a assegurar a proteção dos utentes mais vulneráveis.

A fechar o debate, foram analisadas a baixa taxa de sindicalização em Portugal — muito associada ao assédio moral e à pressão nos locais de trabalho — e a eficácia da Concertação Social. Tiago Oliveira criticou o papel atual deste órgão, acusando-o de servir para legitimar as políticas anti-laborais dos sucessivos governos em vez de defender as condições de vida da população. Apesar disso, justificou a permanência da CGTP na Concertação Social como uma forma necessária de confrontar e antecipar os planos do patronato. Em jeito de conclusão, Nuno Ramos Almeida e Tiago Oliveira reforçaram que uma sondagem recente aponta para que 77% dos portugueses rejeitem este pacote laboral, deixando claro que a única forma eficaz de travar a sua aprovação na Assembleia da República passa pela mobilização massiva na Greve Geral.

Ler mais:
Vamos rebentar o Pacote Laboral do Luís?
Chegou a hora de uma revolução populista?

terça-feira, 19 de maio de 2026

O declínio da ordem democrática e a emergência da Pós-Democracia


Hoje, parece que a democracia deixou de ser a força motriz do desenvolvimento político que foi durante o último meio século. Há sinais de que isso é evidente.

A ordem mundial estabelecida no final da Segunda Guerra Mundial concebia a democracia como a forma ideal de governo, baseada em três ideias fundamentais: a eleição popular de autoridades através de sufrágios livres, competitivos, igualitários e secretos; a separação de poderes; e a expansão dos direitos humanos no âmbito do Estado de Direito. Tudo isto, além disso, ocorreu num contexto de crescente reconhecimento do pluralismo.

Este panorama consolidou-se no contexto da "terceira vaga" teorizada por Samuel Huntington, que abrange os processos democratizadores ocorridos nas duas décadas que separam os países do sul da Europa dos do leste. O fracasso do comunismo, do militarismo desenvolvimentista e de vários modelos de regimes sultanistas era evidente, e quase todos os países latino-americanos se viram imersos nesse movimento. Restaram apenas casos desviantes, como Cuba, mas a maioria aparentemente seguiu o caminho da chamada consolidação democrática.

O sucesso desta transformação no final do século passado traduziu-se num novo impulso na ciência política e numa agenda para a "qualidade da democracia", que consiste em mensurar o seu comportamento de acordo com abordagens teóricas pioneiras, desenvolvidas, entre outros, por Guillermo O'Donnell e Leonardo Morlino. Isto levou a avanços significativos na análise da democracia com base na avaliação dos seus componentes. A Freedom House, a The Economist Intelligence Unit, a Fundação Bertelsmann, a International IDEA e o Projeto V-DEM foram os agentes mais proeminentes na condução destes estudos.

Os Sintomas de Fadiga e a Revolução Digital
A reviravolta global provocada pela pandemia exacerbou os sintomas de fadiga que vários países, em diferentes níveis da estrutura democrática, vinham a experimentar. A desconfiança nas instituições, o desapego face à democracia e a crise de representação política — evidentes em partidos fragmentados e voláteis, com uma identidade reduzida e difusa — tornaram-se patentes. Isto foi também articulado pela centralidade de líderes inexperientes, empurrados para a arena política por consultores de comunicação especializados. Além disso, na maioria dos países latino-americanos, os fracos resultados no combate à insegurança pública e à corrupção desacreditaram ainda mais a política.

Este cenário completou-se com uma sociedade transformada pela revolução digital exponencial:
  1. O crescente individualismo e a articulação de diferentes identidades nas redes sociais emergentes (que romperam com as formas anteriores de interação social);
  2. Novos mecanismos de informação e comunicação que alcançavam as pessoas de forma personalizada, imediata e viral;
O domínio da pós-verdade, marcado por formas de manipulação da realidade.
Tratou-se, em suma, da consolidação de uma "sociedade do cansaço", segundo Byung-Chul Han, que explorou o estado da "sociedade líquida" descrita por Zygmunt Bauman ao teorizar sobre a sociedade de consumo.

Hoje, parece que a democracia deixou de ser a força motriz do desenvolvimento político que foi durante o último meio século. Nada sugere que o inegável consenso estabelecido se mantenha. Os sinais são claros.

O Cenário Pós-Democrático e as Três Ameaças
O mundo é atualmente movido por conglomerados tecnológicos em constante crescimento, com uma escala financeira sem precedentes. Estes agem em conjunto com a alienação dos seres humanos, desenvolvendo novas formas de ação coletiva incompatíveis com a forma como a democracia, agora desarticulada, evoluiu ao longo de décadas, abrindo caminho para um cenário pós-democrático invulgar e incerto, onde a polarização emocional se mostra um instrumento eficaz.

Dentro da ambiguidade do termo, e em meio ao desmantelamento do multilateralismo como caminho para uma ordem mundial minimamente operacional, emergem três fenómenos, aos quais se soma agora a disrupção provocada pela inteligência artificial (IA):

1. A capacidade autodestrutiva inerente: Há atores internos cujo comportamento é desleal, ou mesmo "semileal", como denunciou Juan Linz. Um exemplo é Vladimir Putin, que já foi presidente graças ao voto popular, mas iniciou de imediato a erosão do credo democrático, esmagando a oposição e controlando todas as alavancas do poder. O chavismo, Daniel Ortega e Nayib Bukele fizeram o mesmo, com resultados devastadores para os seus países.

2. A retórica populista e nacionalista: Diz respeito ao caminho perigoso trilhado por Donald Trump e os seus seguidores na Europa e na América Latina. O seu comportamento mina os direitos humanos ao bloquear políticas de inclusão, diversidade e igualdade, e ao criar bodes expiatórios para escoar a ira de uma população seduzida por múltiplas formas de manipulação da realidade. A retórica nacionalista, bem como os ataques aos meios de comunicação independentes, a intelectuais e a grupos de oposição, minam qualquer estrutura de consideração e respeito pelo pluralismo.

3. O modelo autoritário de sucesso: Refere-se ao modelo chinês de inegável sucesso económico e enorme transformação social, impulsionado pela urbanização e pela elevação dos padrões educativos e de saúde. Assim, o autoritarismo chinês tornou-se um estímulo à manutenção de formas antidemocráticas noutros países.

O Impacto da Inteligência Artificial
Por sua vez, a IA está a revelar-se uma ferramenta disruptiva que impacta drasticamente a desinformação e fomenta o conhecimento profundo das preferências das pessoas, tornando a participação política convencional obsoleta. Não será surpresa, portanto, que a forma como os eleitores se deslocam regularmente às urnas seja em breve substituída, tal como a forma como elegem os seus representantes.

A pós-democracia, em suma, representa um espaço incerto que responde aos desafios da sociedade digital, sendo, ao mesmo tempo, a consequência do cerco histórico sofrido pela democracia representativa e das suas falhas em enfrentar os problemas dos cidadãos e responder às suas exigências.

E em Portugal? Marca na agenda: faz greve no dia 3 de Junho

domingo, 17 de maio de 2026

Chegou a hora de uma revolução populista?


Um movimento populista económico pode unir o trabalhador, o agricultor e o pequeno empresário — de todas as etnias, religiões e filiações políticas — contra as elites ricas que manipularam o sistema contra eles.
Donald Trump quer que acredite que as pessoas menos poderosas deste país são as principais responsáveis ​​pelos seus problemas. Mas não se resolve uma economia manipulada deportando pessoas.

Antes de ser despedido por Trump por fazer o seu trabalho, o ex-comissário da FTC, Alvaro Bedoya, passou três anos a reunir-se com trabalhadores de toda a América.

Descobriu que todos tinham algo em comum: a elite corporativa estava a explorá-los até à exaustão. Bedoya explica como o populismo económico pode unir trabalhadores de todas as origens — e é o único antídoto real para o trumpismo.

E em Portugal? Marca na agenda: faz greve no dia 3 de Junho

sábado, 16 de maio de 2026

A mercantilização da vida: onde a poesia de Zeca Afonso enfrenta a frieza do "Trabalho XXI"


Rendido a esta interpretação de Gisela João.  E revoltado (ou não, já imaginava a posição do IL que defende flexibilização laboral e aponta rigidez como travão aos salários!!) e enfrentando a desumanização e a máquina trituradora, sem chão, do neoliberalismo, plutocracia, nepotismo,tecnofeudalismo e cleptocracia.

A desumanização das relações e a mercantilização do afeto vertidas em "Que Amor Não Me Engana" espelham de forma crua as dinâmicas socioeconómicas contemporâneas, encontrando um eco surpreendente nas discussões em torno da nova proposta de reforma laboral do Governo — o pacote "Trabalho XXI". 

Quando José Afonso canta sobre a urgência de um amor que não atraiçoe e a amargura de quem olha em redor e, "à porta do muro", não vê ninguém, ele traduz liricamente o isolamento do indivíduo perante estruturas que priorizam a métrica e a eficiência em detrimento da dignidade humana. 

Essa mesma tensão entre a necessidade de conexão genuína e a frieza dos sistemas reflete-se diretamente na flexibilização proposta pelo novo quadro legislativo, nomeadamente através do regresso do banco de horas por acordo individual e do alargamento dos contratos a termo para cinco anos no caso de termos incertos. 

Estas medidas, embora desenhadas sob a premissa de dotar o mercado de maior agilidade e produtividade, correm o risco de aprofundar a precariedade existencial do trabalhador, transformando o tempo de vida e de descanso numa mercadoria transacionável e adiável, onde a segurança psicológica é sacrificada em nome da sobrevivência económica. 

O "engano" de que Zeca falava materializa-se hoje na ilusão de autonomia individual perante plataformas digitais e algoritmos de inteligência artificial que passam a gerir recursos humanos e a ditar despedimentos e avaliações; uma realidade tão desprovida de empatia que a nova lei se vê obrigada a legislar para garantir um controlo humano mínimo sobre as decisões das máquinas. 

No fundo, ao cruzar a poesia de resistência com a nova legislação laboral, percebe-se que a busca por um "amor que não engana" continua a ser a busca por um ecossistema social e profissional que reconheça o trabalhador não como uma ferramenta de rendimento descartável, mas como um ser humano que necessita de amparo, tempo e verdade nas suas relações.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Nikolai Gogol - sobre a corrupção de uma classe decadente que domina o povo ignorante e escravo do Estado


“Há momentos em que é impossível encaminhar a sociedade, ou mesmo uma geração inteira, para o belo sem revelar toda a profundidade da sua verdadeira abominação.”

Esta frase de Nikolai Gogol carrega o peso do realismo fantástico e da sátira social que definiram a sua obra. Gogol não era apenas um contador de histórias; era um observador clínico das falhas humanas. Para compreender o que ele pretende dizer, precisamos de olhar para a ideia de choque de realidade.

Em primeiro lugar, surge a necessidade do espelho cruel. Gogol sugere que a sociedade vive frequentemente num estado de negação ou hipocrisia e, para ele, falar sobre beleza, virtude ou progresso moral é inútil se os alicerces da sociedade estiverem podres. O conceito é simples: não se pode curar uma doença se o paciente se recusa a admitir que está doente. Assim, a acção da arte ou da história deve ser a de actuar como um espelho que não embeleza, revelando a abominação — as injustiças, a corrupção e a mediocridade — para que o horror da própria imagem force a mudança.

Esta abordagem liga-se à catarse pelo grotesco, estilo pelo qual Gogol é famoso. Em obras como O Inspector Geral ou Almas Mortas, o autor retrata burocratas corruptos e proprietários de terras absurdos, não apenas para fazer rir, mas para causar um desconforto profundo. Ele acredita que a beleza não pode florescer em solo contaminado por mentiras não reveladas e que a sociedade só se sentirá motivada a procurar a beleza e a ordem moral quando o peso do seu próprio vazio se tornar insuportável. É a ideia de que é preciso chegar ao fundo do poço para, finalmente, olhar para cima.

Desta forma, o papel do artista é o de um revelador. Para Gogol, o escritor não deve apenas entreter, mas sim realizar uma espécie de exorcismo social. Ele afirma que é impossível conduzir uma geração pela lógica ou pelo incentivo gentil porque as pessoas estão anestesiadas. O choque provocado pela revelação da profundidade da verdadeira abominação é o que possui a energia cinética necessária para retirar uma sociedade da sua inércia moral.

Em resumo, Gogol defende que a regeneração moral exige honestidade brutal. Ele acredita que a luz só será valorizada e procurada quando todos compreenderem plenamente a extensão das trevas em que estão mergulhados. É uma visão pessimista no diagnóstico, mas esperançosa no objectivo final: a transformação através da verdade.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Spinumviva: contratos públicos de grupo empresarial ligado à empresa familiar de Montenegro disparam após ida para São Bento


Existe uma velha adivinha que pergunta como pode um elefante passar despercebido no meio de uma cidade. A resposta é simples: em manada. A divulgação “em manada” da lista de clientes da empresa Spinumviva pelo primeiro-ministro, Luís Montenegro, poderá ter servido precisamente para isso: diluir, no volume do conjunto, eventuais suspeitas sobre relações posteriores entre o poder político e interesses económicos anteriormente ligados ao chefe do Governo.

Mas uma análise detalhada do PÁGINA UM aos contratos públicos celebrados por empresas do universo Trivalor — nos 24 meses anteriores à tomada de posse de Montenegro como primeiro-ministro e nos 24 meses subsequentes — fez acender luzes vermelhas em duas sociedades em particular: a ITAU — Instituto Técnico de Alimentação Humana, ligada ao sector das refeições colectivas, e a Sogenave, uma sociedade dedicada à distribuição alimentar e não alimentar. Ambas integram o grupo Trivalor, um dos maiores operadores nacionais na prestação de serviços ao Estado, hoje com liderança operacional associada a Filipe Crisóstomo Silva, ex-CEO da Galp Energia, que herdou a posição (quase 90%) do seu pai.

Na análise, baseada em dados do Portal BASE, compararam-se dois períodos simétricos: de 1 de Abril de 2022 a 1 de Abril de 2024 e de 2 de Abril de 2024 a 1 de Abril de 2026. No conjunto das empresas identificadas da holding Trivalor — ITAU, Sogenave, Gertal, Iberlim, Strong Charon, Cerger, Socigeste, Ticket Restaurant, Sinal Mais, Papiro e S Team Consulting —, o número de contratos passou de 1.434, no período anterior à primeira tomada de posse de Montenegro, para 1.668, no período subsequente homólogo, já com funções em São Bento. 

A subida relativa nos contratos (+16,3%) ficou, ainda assim, aquém do salto na facturação registado entre Abril de 2024 e o início do mês actualmente em curso: de 344,2 milhões de euros passou para 468,9 milhões, um crescimento de 36,2%. Isto traduz-se num incremento absoluto de quase 125 milhões de euros. Saliente-se que alguns contratos mais recentes poderão ainda não ter sido introduzidos no Portal BASE.

Mas é na leitura fina dos dados que o padrão ganha relevo, tendo como referência o período do PSD na oposição e o período de Montenegro como líder do Governo. O preço médio por contrato das empresas da Trivalor aumentou de cerca de 240 mil euros para 281 mil euros (+17,1%), enquanto o preço mediano — que representa melhor o contrato “típico” — caiu de 22.416 euros para 16.285 euros (-27,4%). Esta divergência é relevante: significa que o crescimento do grupo foi puxado simultaneamente por contratos muito grandes e por uma multiplicação de contratos de menor dimensão, expandindo a presença do grupo na máquina pública.

Neste contexto, sobressaem ainda mais os casos da ITAU e da Sogenave, que foram clientes directos dos ‘trabalhos’ de Montenegro através da Spinumviva.

Comparando os períodos pré e pós-Governo Montenegro, a ITAU mantém praticamente o mesmo número de contratos (143 para 140), mas o valor total disparou de 86,6 milhões para 144,2 milhões de euros (+66,5%). O valor médio por contrato subiu de 605,7 mil euros para 1,03 milhões (+70,0%). Ou seja, neste caso, a empresa não cresceu em volume contratual, mas sim em escala financeira, passando a ganhar contratos significativamente maiores.

Já a Sogenave apresentou um movimento inverso, mas também favorável no período de Governo de Montenegro. O número de contratos subiu de 786 para 1.079 (+37,3%), e o valor total passou de 37,5 milhões para 55,9 milhões de euros (+49,1%), com um aumento mais moderado do preço médio (+8,6%). Aqui, o crescimento foi claramente extensivo: mais contratos, mais clientes, maior capilaridade no sector público.

Em conjunto, ITAU e Sogenave passaram de 124,1 milhões para 200,1 milhões de euros, um aumento de 61,2%, com mais 290 contratos. Estas duas empresas representam, sozinhas, uma parcela muito significativa do reforço do grupo no período posterior à tomada de posse de Montenegro.

Mas o crescimento da Trivalor não se limitou a estas sociedades. A Gertal, por exemplo, já com forte presença no sector da alimentação colectiva, passou de 197,8 milhões para 221,4 milhões de euros. A Strong Charon, ligada à segurança privada, saltou de 14,0 milhões para 43,8 milhões, um crescimento expressivo que reforça a ideia de expansão transversal do grupo.

Outro dado bastante relevante incide na alteração dos procedimentos de contratação. O número de contratos por concurso público desceu ligeiramente (655 para 622), enquanto os contratos por ajuste directo em regime geral subiram de forma significativa, passando de 380 para 626, muito associados à Sogenave, embora o valor global até tenha descido ligeiramente (de 56,7 para 50,5 milhões de euros). A consulta prévia manteve-se estável.

Porém, foi nos concursos limitados — procedimento que restringe previamente quem pode concorrer — que as empresas da Trivalor mais se reforçaram. Os dois maiores contratos do grupo, que beneficiaram a Gertal (Vila Nova de Gaia, com 38,4 milhões de euros, e Matosinhos, com 13,7 milhões), foram obtidos por este tipo de procedimento.

Isto significa que o grupo passou a aparecer com maior frequência em procedimentos com concorrência limitada ou nula, embora, em termos de valor, os concursos públicos continuem a representar a maior fatia do dinheiro adjudicado — cerca de 60% no período posterior.

Há ainda um fenómeno de concentração. Apesar de o número de entidades adjudicantes subir de 401 para 424, uma parcela crescente do valor total concentra-se nos maiores compradores. Os cinco principais adjudicantes passaram a representar 35,9% do total (contra 27,1% antes de Montenegro assumir a liderança do Governo), e os dez maiores quase metade do valor global (49,2%). Entre esses grandes compradores surgem entidades como a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o Município de Vila Nova de Gaia (que só recentemente passou para a liderança social-democrata), o Município de Lisboa, a empresa pública SUCH (sector hospitalar) e o Centro Hospitalar Universitário do Porto

Curiosamente, o crescimento do grupo não assentou de forma relevante em novos clientes. Apenas 20 entidades passaram a contratar com o grupo no período posterior à chegada de Montenegro ao poder, representando cerca de 13,8 milhões de euros, ou seja, menos de 3% do total. Isto indica que a expansão resultou sobretudo do reforço de relações já existentes e da capacidade de aumentar o volume contratual junto de grandes adjudicantes.

Os maiores contratos ilustram bem a escala do fenómeno. Entre eles estão um contrato da Gertal com o Município de Vila Nova de Gaia superior a 38 milhões de euros, um da ITAU com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) próximo de 31,9 milhões, outro da Gertal com o Município de Lisboa acima de 31,1 milhões, bem como contratos relevantes da Strong Charon e da própria ITAU com grandes entidades públicas.

O caso da SCML é particularmente sintomático da “sorte grande” que saiu ao grupo Trivalor desde a ascensão de Montenegro ao Governo. Nos dois anos anteriores à chegada ao poder da nova AD, em Abril de 2024, as adjudicações da SCML totalizaram 8,5 milhões de euros. Já nos dois anos posteriores, com Montenegro em São Bento, a ITAU conseguiu contratos no valor de 35,6 milhões de euros e a Strong Charon de 19,6 milhões. Resultado: entre um período e outro, a Trivalor registou um crescimento de cerca de 547% no valor dos contratos com esta entidade.

Os dados não permitem, por si só, concluir pela existência de favorecimento político, embora tenham sido aplicados três testes estatísticos que confirmam que a mudança de padrões entre o período anterior e posterior à entrada de Montenegro em São Bento é estatisticamente muito significativa. Mas permitem afirmar, com base empírica, que o grupo Trivalor reforçou de forma expressiva a sua presença na contratação pública após a chegada de Luís Montenegro ao cargo de primeiro-ministro, e que esse reforço se mostra particularmente visível em duas empresas com relevância directa no contexto da lista de clientes anteriormente divulgada.

Tal como na adivinha, o elefante pode tentar passar despercebido. Mas, neste caso, mesmo em manada, há sinais demasiado grandes para as autoridades ignorarem. Recorde-se que o PÁGINA UM intentou uma intimação no Tribunal Administrativo de Lisboa no sentido de a Procuradoria-Geral da República disponibilizar o acesso à averiguação preventiva relativa à Spinumviva, entretanto arquivada, mas ainda não tornada pública.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Porque é que os ricos estão a investir tanta riqueza na política?

O 1% dos americanos mais rico controla atualmente 55,8 triliões de dólares em ativos. Isto é mais do que o Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos e da China juntos.

Na semana passada, testemunhei numa audição no Congresso organizada pelo senador de Rhode Island, Sheldon Whitehouse, e pelo senador do Novo México, Martin Heinrich, sobre o que as grandes empresas petrolíferas ganharam com a sua enorme contribuição para a campanha de Trump em 2024 — e quanto os americanos estão a pagar por esse suborno em custos mais elevados de combustível e alterações climáticas destrutivas.


Mas este não é o único esquema de corrupção em Washington. A corrupção política está a crescer drasticamente — em parte porque Trump é o presidente mais corrupto da história norte-americana. Mas também porque os ricos da América e as suas empresas têm investido cada vez mais dinheiro na política, uma vez que o retorno desse “investimento” se tornou enorme.

Tenho boas notícias para partilhar convosco sobre tudo isto. Mas antes quero esboçar o problema central, 1-2-3. Depois, sugerirei uma solução, 4.

1. Os 0,1% mais ricos tornaram-se fabulosamente ricos.
Observe o gráfico acima, que mostra os 0,1% dos americanos mais ricos — famílias com património líquido superior a 45 milhões de dólares em 2025 — a distanciarem-se rapidamente do resto da população.

Como se pode ver, de 1990 a aproximadamente 2003, a riqueza da maioria dos americanos cresceu a um ritmo semelhante. A disparidade começou a aumentar por volta de 2003, quando Wall Street entrou numa onda de especulação, criando uma bolha financeira. Quando a bolha rebentou em 2008, os 0,1% mais ricos sofreram um grande impacto.

Mas desde 2008, a riqueza dos 0,1% mais ricos arrancou verdadeiramente. E depois de 2018, explodiu — principalmente devido aos efeitos combinados do corte de impostos de Trump em 2017, da recessão da COVID-19 (quando os ultrarricos usaram as baixas taxas de juro para comprar imóveis e ações) e da subsequente subida do mercado bolsista.

De acordo com a Fed, quase 72% da riqueza dos 0,1% mais ricos é composta por ações de empresas, quotas de fundos mútuos e negócios privados. O índice S&P 500 mais do que triplicou na última década.

2.º Estão a investir cada vez mais dessa riqueza na política.
O jornal The New York Times analisou recentemente dados sobre o financiamento de campanhas para verificar como os doadores ricos têm influenciado a política.

A análise mostra que, nas eleições federais de 2024, apenas 300 multimilionários e os seus familiares diretos contribuíram com mais de 3 mil milhões de dólares para o financiamento de campanhas — direta ou indiretamente, através de comités de ação política. Mais de 2 mil milhões de dólares deste montante foram destinados a candidatos republicanos, incluindo Trump.

Isto representou 19% — quase um quinto — de todas as contribuições políticas.

As famílias bilionárias doaram, em média, um total de 10 milhões de dólares cada, o que equivale aproximadamente ao valor doado por 100 mil doadores políticos típicos, em conjunto.

E isto não inclui as chamadas contribuições de "dinheiro obscuro" canalizadas através de organizações sem fins lucrativos que não são obrigadas a divulgar a sua origem.

3.º Por que razão estão a investir tanto em política?
Parte da razão para a explosão das contribuições políticas dos super-ricos é a decisão do Supremo Tribunal de 2010 no caso Citizens United contra a Comissão Eleitoral Federal, que pôs fim a muitas das restantes restrições ao financiamento de campanhas.

Antes desta decisão, a fatia das despesas dos multimilionários era quase nula — 0,3%.

Mas uma razão ainda maior é a explosão de riqueza no topo da pirâmide social. Isto não só deu aos super-ricos os meios para fazerem contribuições políticas, como também lhes deu um grande incentivo para as fazerem.

Querem impostos mais baixos, menos regulamentos para os seus negócios e leis e regras mais "favoráveis ​​aos negócios".

Por outras palavras, querem ficar com uma maior fatia da sua gigantesca riqueza.

Se for extremamente rico, a democracia pode parecer uma ameaça à sua riqueza. Quanto mais riqueza se acumula, mais assustadora pode parecer a democracia. Isto porque representa uma minoria ínfima. A maioria da população poderia votar a favor de medidas que reduziriam parte da sua riqueza — impostos sobre o rendimento mais elevados, imposto sobre as grandes fortunas, regulamentos que reduzem os poluentes que pode lançar para o ar ou para a água, iniciativas para desmantelar os seus monopólios ou permitir que os seus trabalhadores se sindicalizem e exijam salários mais elevados.

O bilionário Peter Thiel escreveu um dia que "já não acredita que a liberdade e a democracia sejam compatíveis".

Presumivelmente, Thiel define "liberdade" como a capacidade de acumular enormes quantidades de riqueza sem ser impedido por quaisquer responsabilidades para com o resto da sociedade.

Mas existe uma ideia muito diferente de liberdade e democracia, melhor articulada pelo famoso jurista Louis Brandeis, que terá dito: “A América tem uma escolha. Podemos ter uma grande riqueza nas mãos de poucos, ou podemos ter uma democracia. Mas não podemos ter ambas”.

Para Brandeis, a democracia era a fonte da liberdade, e não uma restrição a esta.

À medida que a visão de Thiel ganha mais adeptos entre aqueles que possuem uma grande riqueza — que estão rapidamente a acumular ainda mais e a corromper cada vez mais a política americana — Thiel está, inadvertidamente, a provar o argumento de Brandeis.

4.º Como podemos reverter isto?
Parte da solução é tirar o dinheiro das grandes corporações da política. Já sugeri como isso pode ser feito sem tentar as tarefas quase impossíveis de fazer com que o Supremo Tribunal reverta a sua decisão no caso Citizens United ou aprove uma emenda constitucional. Veja aqui .

A outra parte da resposta é aumentar os impostos sobre os super-ricos — o sonho de Louis Brandeis e o pesadelo de Peter Thiel.

A boa notícia é que — apesar do crescente poder político dos ricos — isso começa a acontecer. Ainda não é um incêndio descontrolado, mas pode vir a ser em breve.

O estado de Washington acaba de aprovar um imposto sobre o rendimento de 9,9% para os residentes que ganhem mais de um milhão de dólares por ano. O estado estima que isto afectará cerca de 20.000 famílias (menos de meio por cento da população do estado). O estado de Washington planeia utilizar as receitas fiscais, estimadas entre 3 mil milhões e 4 mil milhões de dólares por ano, para pagar as refeições escolares às crianças, expandir um crédito fiscal familiar para incluir outras 460 mil famílias de baixos rendimentos e financiar outros serviços essenciais que o orçamento estadual não consegue suportar de outra forma.

A Assembleia Legislativa do estado de Nova Iorque acaba de apresentar uma proposta de aumento de 0,5% no imposto sobre o rendimento dos nova-iorquinos que ganhem mais de 5 milhões de dólares por ano.

Em 2022, os eleitores do Massachusetts aprovaram uma sobretaxa de 4% sobre o rendimento tributável anual que exceda 1 milhão de dólares. Desde que o imposto entrou em vigor em 2023, o estado arrecadou quase 6 mil milhões de dólares em receitas fiscais adicionais — e o número de milionários no estado aumentou, em vez de diminuir.

Nova Jersey detém um imposto sobre o património desde 2020. O Minnesota implementou um imposto sobre os rendimentos de investimentos acima de 1 milhão de dólares em 2024.

A Califórnia está prestes a incluir no boletim de voto estadual de novembro um imposto único de 5% sobre a riqueza dos multimilionários do estado.

São Francisco e Los Angeles estão a planear iniciativas de votação municipal para aumentar os impostos sobre as empresas cujos CEO ganham 100 vezes (na versão de São Francisco) ou 50 vezes (na versão de Los Angeles) o salário médio dos seus funcionários.

No Congresso, o deputado californiano Ro Khanna e o senador do Vermont Bernie Sanders apresentaram um projecto de lei para tributar a riqueza dos multimilionários americanos.

Retirar a influência do dinheiro na política e aumentar os impostos sobre os super-ricos são medidas possíveis — não fáceis, mas possíveis. São também necessárias para inverter a crescente corrupção que está a minar o nosso sistema de capitalismo democrático.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Não é o socialismo: como o capitalismo morre


Muitos liberais e conservadores que defendem o bom e velho capitalismo tendem a encarar o socialismo como o seu principal rival. Estão a mirar no alvo errado. Nota: socialismo e democracia dizem respeito, sobretudo, a arranjos políticos, enquanto capitalismo e economia planeada são arranjos económicos. A oposição relevante, portanto, não é apenas entre “capitalismo” e “socialismo”, mas entre diferentes formas de organizar o poder político e económico.

A discussão aqui desenvolvida é que o capitalismo não é a condição normal da vida económica da humanidade. A condição “normal” é a economia de compadrio (cronyism): um sistema no qual elites políticas e económicas cooperam para obter privilégios em benefício próprio.

O capitalismo — entendido como mercados impessoais, com direitos de propriedade estáveis, possibilidade de entrada e saída, alguma previsibilidade institucional - só conseguiu emergir, e de forma sempre parcial e frágil, quando estruturas jurídicas e institucionais deixaram de proteger, ou passaram a limitar, essa economia de compadrio.

É facto que o socialismo representou, ao longo do século XX, uma grande ameaça ao sistema económico que mais elevou o padrão de vida da humanidade. No entanto, a competição histórica entre economias de mercado e regimes de planeamento central confirmou algo que hoje é amplamente reconhecido: uma economia de mercado é capaz de gerar resultados superiores a um arranjo em que um grupo restrito de burocratas, num sistema de partido único, toma todas as decisões económicas.

Os socialistas que admiravam a URSS - onde os meios de produção eram controlados por um partido que supostamente “representava” o povo - sofreram um choque profundo com a sua dissolução.

Após a vitória ocidental na Guerra Fria, alguns liberais concluíram que o “fim da história” havia chegado: a democracia liberal e o capitalismo teriam demonstrado a sua superioridade e nada mais poderia ameaçar a sua hegemonia.

A China, porém, introduziu um elemento de complicação nesse quadro. Trata-se de um modelo híbrido: sistema político fechado, de partido único, combinado com uma economia relativamente liberalizada em vários setores, mas com forte intervenção e controlo sobre grandes empresas. Ainda assim, é algo bastante distinto da rigidez económica da antiga URSS.

Hoje, o capitalismo continua a ser questionado como sistema económico sustentável, mas as alternativas apresentadas como substitutas pouco inovam. Em geral, são releituras de modelos anteriores que tentam apenas corrigir falhas já conhecidas de arranjos estatistas.

Os críticos apontam, com razão, para a crescente parceria entre elites políticas e económicas, que alimenta a estagnação, a desigualdade e a erosão democrática. Marx não foi o primeiro a constatar este entrelaçamento.

Os liberais clássicos, por sua vez, também condenaram os privilégios e a procura de rendas (rent seeking) gerados pelo Estado através do conluio, ainda que cheguem a diagnósticos distintos. Adam Smith tentou alertar-nos:

“A proposta de qualquer nova lei ou regulamento comercial que provenha desta classe deve ser sempre examinada com grande precaução e cautela, não só com a atenção mais escrupulosa, mas também com a maior desconfiança. É uma proposta que advém de uma classe de pessoas cujo interesse jamais coincide exatamente com o do povo, as quais, em geral, têm interesse em enganá-lo e mesmo oprimi-lo e, consequentemente, têm, em muitas oportunidades, tanto iludido como oprimido esse povo” (SMITH, 2023, p. 228).

Smith via o mercantilismo como um sistema que enriquecia interesses particulares e enfraquecia a prosperidade geral. De facto, essa descrição ajusta-se ao sistema económico vigente no Brasil: um arranjo no qual elites políticas e económicas cooperam para obter benefícios mútuos à custa da sociedade.

O caso recente do Banco Master, os escândalos de corrupção envolvendo a JBS, Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Braskem e uma lista praticamente inesgotável de empresas com forte envolvimento político ilustram claramente este padrão.

Diante deste quadro, o “socialismo” chinês - ou qualquer variação contemporânea de experiência estatista — não é a maior ameaça ao capitalismo. A ameaça principal vem de dentro: do entrelaçamento entre grandes empresários, políticos, burocratas e juízes.

A maioria dos defensores do capitalismo interpreta a situação atual como uma traição aos princípios originais do sistema, um subproduto não intencional do ideal de liberdade natural de Adam Smith. Nota: dentro da tradição da Escola de Virgínia, há um debate importante: de um lado, a visão de que o capitalismo tende a evoluir para um “capitalismo de compadrio”, à medida que grupos de interesse aprendem a usar o aparelho estatal em seu favor; de outro, a perspetiva de que mercados e Estados estão inerentemente entrelaçados, de modo que o cronyism é uma característica recorrente - e não uma anomalia - de todas as economias políticas.

Já os críticos de inspiração marxista afirmam que o Estado é um comité que administra os interesses da burguesia (MARX; ENGELS, [2024], p. 46). Esta análise capta parte da realidade, mas é incompleta e enganosa. Parte da premissa de que a captura do Estado é uma via de sentido único, na qual agentes económicos subordinam a autoridade política. Nesta leitura, o capitalismo é o problema.

O erro começa ao tratar políticos como déspotas benevolentes ou figuras ingénuas, sem poder próprio de decisão, supostamente manipuladas por capitalistas gananciosos. Tal como contribuintes, consumidores e eleitores — que, em larga medida, são as mesmas pessoas - têm os seus interesses, os políticos e os grandes empresários também têm os seus. O que vemos não é um lado “puro” corrompido pelo outro, mas um conluio de interesses: uma ordem de laços ou compadrio em que elites políticas e económicas se reforçam mutuamente - e em que a sociedade paga a conta.

Esta forma de análise parte de uma redução simplista de “mercado” e “Estado”, quando, na verdade, deveríamos olhar para os indivíduos. Apenas os indivíduos agem. A unidade básica de decisão é o indivíduo. Coletivos não são agentes que “tomam decisões” por si mesmos; toda a decisão coletiva é sempre o resultado de algum mecanismo de escolha — votação, negociação — baseado nas decisões individuais.

O “Estado” não é um bloco monolítico orientado por objetivos homogéneos; é um conceito abstrato que reúne uma multiplicidade de objetivos que, muitas vezes, são conflituosos entre si. Um exemplo pode ser visto quando o Estado – encarado como o monopólio legítimo da força – oferece serviços de segurança e policiamento. De um lado, há órgãos que querem endurecer punições, ampliar o poder da polícia, facilitar prisões e alargar o uso da força. De outro, há instituições que defendem garantias individuais, o devido processo legal, limites à ação policial, proteção de minorias e a redução do encarceramento em massa.

Algo semelhante ocorre no que chamamos de “mercado”: algumas empresas produzem e comercializam cigarros, enquanto outras vendem pastilhas e medicamentos para ajudar as pessoas a deixar de fumar. Não há um “propósito único” do mercado, mas uma multiplicidade de estratégias e objetivos individuais que, em conjunto, produzem resultados muitas vezes contraditórios.

E por que razão os interesses destas elites – que são minorias - prevalecem sobre os interesses do resto da sociedade? Pelo mesmo motivo apontado anteriormente: a sociedade não é um bloco monolítico dotado de um interesse homogéneo.

A maioria das pessoas está ocupada a trabalhar, a ganhar a vida, a cuidar da família e a ter algum tempo para o lazer. Do ponto de vista individual, faz pouco sentido investir tempo e esforço para se informar profundamente sobre política ou para tentar mudar o governo, porque a probabilidade de a sua opinião ou o seu voto alterarem o resultado é extremamente baixa. Trata-se do problema da ignorância racional: é racional para o cidadão médio não se envolver politicamente de forma intensa.

Já os grupos que se beneficiam de favores políticos enfrentam um conjunto de incentivos muito diferente. Empresários que recebem subsídios, proteção regulatória ou contratos privilegiados possuem empresas; essas empresas têm empregados; e tanto empresários como empregados têm um forte interesse em preservar estes arranjos que garantem os seus ganhos e os seus empregos.

Estes grupos são relativamente pequenos, organizados e enfrentam custos de coordenação muito menores. Isto gera um forte incentivo para que se organizem.

No entanto, este interesse é antagónico ao interesse dos consumidores, que passam a pagar preços mais altos ou a consumir produtos e serviços de pior qualidade, sofrendo uma perda de bem-estar. É também antagónico ao interesse dos contribuintes, que veem uma parte significativa da receita fiscal ser utilizada para criar ou perpetuar privilégios em vez de financiar bens públicos genuínos.

Assim, benefícios concentrados para poucos são financiados por custos difusos impostos sobre muitos, o que ajuda a explicar por que os interesses das elites organizadas frequentemente prevalecem sobre os da sociedade em geral.

Do lado político, a assimetria de informação faz com que as elites políticas influenciem os eleitores através de narrativas. Eles "vendem" estas políticas de defesa do emprego, proteção da indústria nacional, justiça social, soberania nacional, estabilidade, etc.

Em vez de forçar ou comprar poder, as elites políticas usam o discurso, a propaganda e o enquadramento (framing) para tornar desejáveis políticas que criam ou preservam privilégios em seu favor. As pessoas acabam por usar o voto expressivo para, de alguma forma, “se sentirem do lado certo da história”, “reforçarem a sua identidade de grupo (trabalhador, empresário, patriota, socialista, liberal, etc.)” ou para “não se sentirem culpadas depois”.

O resultado é que o processo democrático fornece uma aparência de consentimento popular a arranjos que, na prática, beneficiam minorias organizadas às custas do restante da sociedade. E o problema reside aqui: as pessoas que mais beneficiam de uma economia livre não se manifestam para a defender.

Para Schumpeter, o capitalismo não sucumbe por fracasso económico, mas porque o seu próprio sucesso destrói a base social que o apoiava. Ao burocratizar a atividade empresarial e fomentar o surgimento de uma intelligentsia hostil, o sistema gera uma sociedade na qual quase ninguém está disposto a defendê-lo. O capitalismo, em última instância, morre não por falta de eficiência, mas por falta de defensores.

Smith escrevia num contexto em que a economia política dominante era o mercantilismo: um sistema supostamente voltado para o “interesse nacional”, no qual o Estado distribuía sistematicamente privilégios a guildas, burocratas e companhias de comércio. Este arranjo começava a ser desafiado por uma ordem emergente de livre comércio. De certa forma, o padrão permanece o mesmo, com o Estado contemporâneo a atuar como vendedor de favores, enquanto elites económicas investem recursos para os capturar, produzindo um sistema de compadrio.

Tanto o período que antecede Smith como o momento atual indicam que o padrão histórico é uma economia política de manutenção de privilégios. A liberdade económica não aparece como ponto de partida, mas como um “acidente da história”, resultado de mudanças institucionais específicas que, por algum tempo, limitaram a capacidade de grupos organizados de usar o poder político em benefício próprio.

O que chamamos de capitalismo — entendido como mercados impessoais, com direitos de propriedade estáveis, possibilidade de entrada e saída, alguma previsibilidade institucional — surge, assim, como uma rutura rara com essa lógica de privilégio, e não como o “estado natural” da cooperação social. Nota: isto não constitui um argumento contra a ideia de que o ser humano é naturalmente inclinado à troca voluntária, mas sim o reconhecimento de que, na maior parte da história, os arranjos institucionais vigentes impediram que essa inclinação se traduzisse em mercados livres e competitivos.

A economia livre é uma construção institucional improvável e frágil, que precisa continuamente de resistir às pressões de grupos organizados — pressões essas frequentemente legitimadas por apoiantes que, em tese, deveriam defender justamente o contrário.

Se o capitalismo do tempo de Adam Smith já não existe, o que precisamos de fazer para que algo semelhante volte a prevalecer? De modo geral, tomo o pensamento de Randall Holcombe e Richard Wagner como base para escrever este texto e para uma síntese de resolução.

Os defensores da economia de mercado devem atuar em três frentes: política, económica e no mercado de ideias.1. Ordem espontânea não é passividade Em primeiro lugar, os liberais precisam de compreender a importância da ordem espontânea. Isto significa abandonar a ilusão de que a sociedade pode (ou deve) ser planeada de cima para baixo por algum agente benevolente. Não trabalhamos com a hipótese de imposição centralizada. Isto, porém, não implica uma postura passiva. Pelo contrário: é preciso agir sobre regras, incentivos e ideias para que a ordem social emergente seja mais compatível com a liberdade económica. Não se trata de desenhar um “plano perfeito”, mas de criar arranjos institucionais que limitem a capacidade de grupos organizados de capturar o Estado para fins privados

2. Promover a “destruição criativa” entre as elites Em segundo lugar, é necessário fomentar a concorrência entre elites estabelecidas e elites emergentes — aquilo que Holcombe descreve como o conflito entre o grupo do “getting ahead” (chegar à frente) e o do “staying ahead” (manter-se à frente).

O grupo do staying ahead é composto por empresas e empresários que já estão no topo. Trata-se de uma elite económica consolidada, cuja sobrevivência depende, em larga medida, de lucros e ganhos derivados de rent seeking. Para este grupo, a concorrência deixa de ser oportunidade e passa a ser ameaça; por isso, os seus membros tendem a usar o poder político para erguer barreiras à entrada, proteger mercados e congelar a ordem existente.

Já o grupo do getting ahead é formado por aqueles que querem “chegar lá”: empreendedores inovadores que, em geral, não têm acesso direto ao poder político. Para eles, a única via legítima de ascensão é a inovação, a criação de valor, a expansão da oferta de bens e serviços que melhoram a vida das pessoas. O espírito empreendedor é, por natureza, criativo o suficiente para contornar barreiras e encontrar brechas — desde que essas barreiras não sejam institucionalmente intransponíveis. Uma sociedade mais livre é aquela em que este segundo grupo consegue desafiar o primeiro em vez de ser bloqueado por uma muralha de privilégios legais.

3. Fortalecer a democracia constitucional Por fim, é preciso fortalecer a democracia constitucional, não como ídolo, mas como instrumento. Isto requer uma constituição que limite de maneira clara o poder da elite política de intervir na economia e, sobretudo, que restrinja o espaço para interpretações discricionárias por parte de juízes e tribunais. Os juízes devem dizer o que a lei é, não o que acham que ela deveria ser. Quanto maior a margem para “criar” direitos, benefícios ou privilégios a partir da caneta judicial, mais vulnerável o sistema se torna à pressão de grupos organizados.

À primeira vista, pode parecer contraditório dedicar boa parte do texto a criticar os problemas da democracia e, ao mesmo tempo, defendê-la como componente de uma sociedade livre. Mas a tensão é apenas aparente. Apesar de todas as suas falhas, a democracia ainda é o melhor mecanismo político de que dispomos para limitar o poder concentrado e permitir a alternância desse poder. Ela não é uma forma de santidade política, mas sim uma tecnologia institucional imperfeita, porém superior às alternativas historicamente testadas.

A proposta, portanto, não é tratar a democracia como um fim em si mesma, mas como um meio: um arranjo que, quando combinado com um Estado de direito robusto e limites constitucionais claros, pode abrir espaço para que uma ordem de mercado relativamente livre floresça.

Não podemos resolver todos os problemas de maneira perfeita, mas podemos criar um ambiente em que uma sociedade livre possa experimentar, errar, corrigir e produzir modelos institucionais melhores ao longo do tempo.

Defender o capitalismo, neste contexto, não é defender o status quo, mas exatamente o oposto: é recusar o comodismo de um sistema de privilégios travestido de mercado e trabalhar pela reconstrução de um arranjo institucional em que a regra geral, e não o favor particular, seja a norma.

Isto exige clareza conceptual, coragem intelectual para chamar pelo nome o capitalismo de compadrio que nos cerca e disposição para atuar simultaneamente na política, na economia e no mercado de ideias, limitando o poder discricionário do Estado, abrindo espaço para novas elites empreendedoras e reforçando os travões constitucionais à manipulação das regras do jogo.

Não há promessas de harmonia perfeita nem de fim definitivo do compadrio. O que há é a possibilidade modesta, mas real, de construir instituições que tornem mais difícil comprar e vender privilégios, que preservem algum grau de concorrência e que mantenham aberto o espaço para que pessoas comuns possam melhorar de vida sem precisar de um padrinho político.

Se o capitalismo é, como sugerimos, um “acidente feliz” na história da humanidade, cabe-nos decidir se aceitaremos passivamente o retorno ao padrão histórico de privilégios ou se estaremos dispostos a defendê-lo - não como dogma, mas como a melhor oportunidade que temos de conciliar prosperidade, liberdade e dignidade individual numa ordem social imperfeita, porém continuamente aperfeiçoável.

Referências
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Fonte