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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Veneno das víboras da Europa não evoluiu para causar dor, mas sim para subjugar presas

Muitas vezes, os venenos das serpentes estão associados a dores intensas. Essa é uma das mais fortes razões pelas quais muitas pessoas as temem.

Contudo, uma investigação encabeçada por cientistas da Universidade de Bangor (Reino Unido), em colaboração com instituições europeias e australianas, revela que, pelo menos neste caso, não foi para causar dor que o veneno das víboras da Europa evoluiu.

A equipa analisou os venenos quatro espécies de víboras – Vipera ursinii, Vipera ammodytes, Vipera aspis e Vipera berus – para tentar responder a uma questão que, por muito tempo, tem permanecido sem resposta: como é que essas serpentes equilibram a função defensiva do veneno (para se protegerem de predadores) com a função de captura de presas (que requer a imobilização rápida da presa)?

A dor faz com que as vítimas se contorçam em agonia, o que pode aumentar a probabilidade de o predador ser ferido, e gravemente, e de a presa escapar. Por outro lado, um veneno concebido para subjugar as presas pode não servir de grande aviso para os predadores das serpentes.

“Esperávamos encontrar evidências de que algumas víboras evoluíram componentes do veneno especificamente para causar dor rapidamente, como mecanismo de defesa”, recorda Wolfgang Wüster, principal coautor do estudo.

“Em vez disso, não encontrámos quaisquer evidências de que os venenos ativam diretamente células nervosas sensíveis à dor. Isso sugere que, nas víboras europeias, a evolução do veneno é, principalmente, impulsionada pela necessidade de subjugar a presa”, detalha.

As glândulas de veneno das serpentes conseguem produzir apenas tipos específicos de venenos consoante a espécie, o que significa que umas produzem venenos com determinadas funções e efeitos e outras com outros.

Os investigadores começaram o estudo convictos de que víboras que se alimentam de animais com menos defesas, como insetos, podiam ter desenvolvido toxinas para produzir dor para defesa.

Não sendo preciso grande esforço “venenoso” para subjugar os insetos dos quais se alimentam, essas serpentes podiam ter orientado o veneno para a proteção contra predadores e outras ameaças. O inverso seria esperado de espécies que se alimentam de presas que podem causar mais danos às serpentes, como os roedores, com garras e dentes afiados.

Contudo, não foi isso que constataram, testando os venenos das diferentes víboras europeias em laboratório em células sensíveis à dor. Independentemente da dieta que tenham, nenhum dos venenos desses répteis evoluiu especificamente para causar a dor.

Assim, concluem os autores deste trabalho que a seleção natural deu prioridade à eficiência na caça em detrimento da produção de dor como defesa durante a evolução dos venenos das víboras europeias.

“Isto desafia a ideia de que as funções de defesa e predação impulsionam a evolução do veneno em diferentes direções nas serpentes”, afirma Bálint Üveges, primeiro autor do artigo. “Os nossos resultados indicam que a captura de presas é a força dominante que molda a composição do veneno nestas espécies.”

Saber mais:

sexta-feira, 8 de maio de 2026

A evolução pode ser limitada por uma lei universal da temperatura


Todos os seres vivos, desde as bactérias, passando pelas algas e árvores, até aos elefantes e baleias, parecem ter um limite de temperatura em que o seu organismo pode viver. Isso é óbvio para os animais de "sangue quente", ou seja, os mamíferos e aves, que têm termorregulação e já estão no seu óptimo de temperatura, mas para todos os outros que dependem da temperatura ambiente, cujo limite, quando ultrapassado, causa stress nos seus organismos e podem extinguir populações inteiras.
Os cientistas descobriram um único padrão que parece governar como toda a vida responde à temperatura.
Numa análise maciça de mais de 30.000 medições em cerca de 2.700 espécies, pesquisadores descobriram que organismos de micróbios a mamíferos seguem todos a mesma regra subjacente - conhecida como Curva de Desempenho Térmico Universal.
O padrão é surpreendentemente simples.
À medida que a temperatura aumenta, a atividade biológica acelera - as células dividem-se mais rapidamente, os animais movem-se mais rapidamente, os ecossistemas tornam-se mais produtivos. Mas só até certo ponto. Então tudo muda.
Uma vez que um organismo atinge a sua temperatura ótima, mesmo um pequeno aumento pode causar a queda do desempenho rapidamente. O crescimento abranda, os sistemas falham e a sobrevivência torna-se mais difícil.
Este padrão de ascensão e queda forma uma curva universal - uma que parece aplicar-se em quase todas as formas de vida.
O que é impressionante é que organismos muito diferentes - desde bactérias e plantas a peixes, aves e mamíferos - podem ser mapeados nesta mesma forma quando os seus dados são ajustados corretamente.
Os cientistas há muito que estudam estas "curvas de desempenho térmico", mas esta pesquisa sugere que são todas variações de um único modelo partilhado.
Isso não substitui a evolução - mas revela um limite.
A evolução pode mudar onde uma espécie se senta na curva, ajudando-a a adaptar-se a diferentes temperaturas. Mas pode não ser capaz de escapar completamente da curva.
E isso tem sérias implicações.
Muitas espécies, especialmente em climas estáveis como os trópicos, já vivem perto da temperatura máxima. Isso significa que mesmo um pequeno aumento - apenas alguns graus Celsius - poderia levá-los para além do seu limite.
Pesquisadores dizem que este modelo pode ajudar a prever quais espécies estão mais em risco à medida que o planeta aquece.
Leia os estudos:

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Morreu Desmond Morris, o zoólogo que confiou o seu conhecimento à Universidade do Porto

The Trap, 2020

Ficou conhecido pelos seus estudos inovadores sobre o comportamento humano e animal, mas foi também um destacado comunicador, autor de dezenas de livros e ainda pintor surrealista. Era, sobretudo, um “fascinado pelo mundo”, movido pela “alegria de observar o que nos rodeia”. A mesma “missão” que, em 2014, confiou à Universidade do Porto quando doou ao Museu de História Natural e da Ciência (MHNC-UP) o seu vasto arquivo científico. Desmond Morris morreu, no passado dia 19 de abril, aos 98 anos.

Natural do Wiltshire, onde nasceu em 1928, Desmond Morris desde cedo adotou os animais e a arte como as suas grandes paixões. O estudo dos animais levou-o a formar-se na Universidade de Birmingham, em 1951, e a prosseguir um doutoramento (e pós-doutoramento) em Oxford. Em 1956, aceitou o cargo de diretor da unidade televisiva e de filmagens do Jardim Zoológico de Londres e, em 1959, assumiu o lugar de curador de mamíferos.


Em 1967, deixou o Zoo para se tornar diretor do Institute of Contemporary Arts. Nesse mesmo ano, publica The Naked Ape (O Macaco Nu), obra precursora da etologia humana (na qual propôs uma leitura inovadora do ser humano à luz da biologia evolutiva) e com o qual viria a ganhar notoriedade internacional.

Em 1968, mudou-se para Malta, onde nasceu o filho Jason. Regressou a Oxford em 1974 e aí permaneceu até 2019, altura em que, na sequência da morte da mulher, Ramona, se mudou para a Irlanda, para ficar junto da família e dedicar-se ativamente à escrita e à pintura.

Autor de dezenas de artigos científicos, Morris escreveu 80 livros e foi traduzido para 43 línguas ao longo de seis décadas de uma carreira multifacetada, que cruzou ciência, comunicação e artes visuais. Entre 1956 e 1998, apresentou mais de 700 programas televisivos. Pintou também mais de 3.400 quadros e apresentou mais de 60 exposições individuais.

“Compete-nos continuar a cuidar deste tesouro”
Em 2014, Desmond Morris surpreendeu o mundo quando decidiu doar ao Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto (MHNC-UP) o seu arquivo científico, composto por todos os seus livros publicados, respetivas traduções, registos e notas de investigação, correspondência, coleções de revistas científicas, artigos científicos, coleções de fotografias e negativos, gravações vídeo e áudio e artefactos vários. Em troca, uma promessa feita meses antes pelo então Diretor do MHNC-UP, Nuno Ferrand de Almeida: “Se nos deixarem ficar com o seu arquivo, não vamos apenas guardá-lo, vamos utilizá-lo, analisá-lo. Teremos investigadores a trabalhar nele”.

Aquando da doação, ficou também estabelecida a preferência para que a sua editora em Portugal fosse a Arte e Ciência, título do primeiro projeto editorial do MHNC-UP, lançado em 2018. Desde essa data, foram publicados os livros A Tribo do Futebol (com prefácio de José Mourinho) e a reedição de O Macaco Nu , com uma nova tradução de Carla Morais Pires e prefácio de Jorge Rocha, e, com a mesma tradutora, O Macaco Criativo e Observar.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Dia Mundial do Urso

Ver com mais detalhe aqui
O seu regresso reflete a capacidade da natureza para recuperar e mostra a necessidade de trabalhar ativamente na forma como as pessoas e a vida selvagem partilham o espaço.

Os ursos pardos ajudam a moldar as paisagens, dispersando sementes, reciclando nutrientes e sustentando uma vasta gama de espécies. A sua presença destaca a importância de paisagens conectadas e funcionais.

Nas nossas paisagens de rewilding, as equipas estão a trabalhar com as comunidades para apoiar o regresso dos ursos de formas que tornem a partilha do espaço mais possível. Estas incluem medidas práticas para reduzir os danos, melhorar a sensibilização, ligar habitats e apoiar economias baseadas na natureza e ligadas à presença da vida selvagem. Saiba mais aqui


Saber mais
World Bear Day

terça-feira, 10 de março de 2026

What are the world’s deadliest animals, and can we protect ourselves against them?

O artigo explica que, embora tenhamos medo de tubarões ou lobos, os animais que mais matam humanos são os mosquitos (cerca de 700.000 a 1 milhão de mortes/ano por doenças) e as cobras. O gráfico do Our World in Data mostra que o risco real está muito mais ligado à exposição a doenças e parasitas do que a ataques diretos de grandes animais.

One and a half million people are killed by animals every year. Almost one million by other animals, and more than half a million from direct conflict among ourselves.

Almost all of these deaths from other animals are caused by just two types: mosquitoes and snakes.

In the chart above, we’ve brought together estimates of the number of people killed by different animals.

These numbers are estimates, and some come with significant uncertainty. That’s why we’ve published a detailed methodology explaining our sources and how they compare. Despite this uncertainty, we feel confident about the relative orders of magnitude across different animals.1

The biggest killers, by far, are mosquitoes. They have been one of our biggest threats for millennia, and still kill approximately 760,000 people every year.2 Over 80% of those deaths are the result of malaria, which is transmitted and spread by the Anopheles mosquito. Malaria still kills close to half a million children every year.

Another 100,000 people die every year from other mosquito-borne diseases, including dengue fever and yellow fever (spread by the mosquito species Aedes aegypti) and Japanese encephalitis.

Almost all deaths from other animals are caused by just two types: mosquitoes and snakes.

Snakes are one of the most common phobias, and you can see why. They are the second largest killers. The death toll from venomous snakes is surprisingly uncertain, as many of these deaths occur in rural areas where death records are often poor.3 But the figure is likely to be around 100,000 deaths per year. That means snakes kill more than all animals below them on the list combined.4

Most of those remaining deaths are caused by dogs, the animals that humans have grown to love as domesticated pets. The majority are due to rabies, rather than direct wounds.

Near the bottom of the list, we reach the animals that dominate our nightmares — sharks and wolves. They make for gripping headlines and blockbuster films. But in reality, shark and wolf attacks are very rare.

Of course, they don’t kill fewer people because they’re less dangerous. We’d rather be locked in a room with a mosquito than a lion. The real difference is exposure: it’s much easier to avoid large predators than it is to avoid disease-carrying insects and parasites.5

The good news is that most deaths from animals — especially the largest killers — are preventable. We have bednets and insecticide sprays to reduce exposure to mosquitoes, and medication to treat malaria if someone does become infected. New techniques, such as the Wolbachia method, have been developed to stop the spread of dengue fever. Antivenoms can often save someone from a potentially fatal snakebite.6

The problem is that not everyone has access to these preventive and treatment methods when they need them.7 If these small killers received the same global attention as large predators, more effort might go into stopping them. That is one reason why these comparisons are useful: as a reminder of what people are actually dying from, and where the most lives could be saved.There are other diseases — in particular, neglected tropical diseases — that could also be dramatically reduced with better access to treatment.

In many regions, deaths from mosquitoes have decreased dramatically. Malaria was once prevalent in countries that are now free of it. If we could achieve this in all parts of the world, the number of deaths caused by other animals would be almost six times smaller.8

If we were to also eliminate deaths from snakes through the use of antivenoms and better diagnostics, the death toll would be again reduced by almost two-thirds.9


Methodology

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Do mar à terra, passando pelos céus: como as tempestades afetam a vida selvagem


O “comboio de tempestades” que durante semanas atingiu Portugal deixou no seu encalço um rasto de devastação. Casas destruídas, estradas e outras vias arruinadas e já 16 pessoas morreram desde que a 28 de janeiro a tempestade Kristin se abateu sobre o território nacional.

No entanto, as intempéries, mais inclementes e frequentes à medida que o planeta se torna mais quente, afetam não só os mundos humanos, mas também os dos animais selvagens.

Desde 25 de janeiro, e com maior intensidade no mês de fevereiro, centenas de aves marinhas têm dado à costa portuguesa, de norte a sul do país. À Green Savers, Hany Alonso, técnico sénior de Ciência da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), diz que desde que a tempestade Kristin entrou em Portugal foram já registados mais de 400 papagaios-do-mar arrojados, a maior parte dos quais no litoral norte e na região de Peniche.

Segundo dados de parceiros internacionais, também na Galiza foram registados mais de 500 papagaios-do-mar arrojados e mais de 200 ao longo da costa francesa.

No que toca a Portugal, “os números de aves afetadas poderão ser muitíssimo mais altos, pois estamos a monitorizar uma parte muito pequena da nossa costa”, acautela o ornitólogo, acrescentando que mais arrojamentos são de esperar, pois “as condições continuam difíceis no mar”.

Já no inverno de 2022 para 2023, também fruto de tempestades, em duas semanas registaram-se mais de 1.700 arrojamentos de papagaios-do-mar na costa continental portuguesa, “que já foi um grande impacto nas populações desta espécie”, explica Alonso. Apesar de pequenas, essas aves estão habituadas a lidar com mares revoltosos e são “bastante resistentes”, podendo deslocar-se para áreas mais afastadas da costa até o temporal passar.

“O problema surge quando há muitas tempestades consecutivas, que dificultam a sua alimentação e deterioram a condição física das aves”, explica o ornitólogo da SPEA.

“Muitos dias com um mar difícil pode acabar por levar à mortalidade massiva de muitos indivíduos”, salienta, acrescentando que “começam a ficar mais fracos e vão-se aproximando mais de terra e acabam por arrojar nas praias, alguns vivos, mas uma grande parte já mortos”.

Além dos papagaios-do-mar, foram também registados arrojamentos de aves marinhas de outras espécies, como as tordas-miúdas, as gaivotas-tridáctilas, as gaivotas-de-patas-amarelas, os corvos-marinhos, as gaivotas-de-asa-escura e as galhetas. Ainda que essas aves estejam habituadas a lidar com mares tempestuosos, procurando abrigos mais perto da costa ou mesmo em terra, a sua resistência tem limites e, se as más condições se mantiverem durante muito tempo, acabam por sucumbir por não se conseguirem alimentar devidamente.

Embora a maior parte dos animais tenha dado à costa já sem vida, alguns ainda resistiam, tendo sido encaminhados prontamente para centros de recuperação de fauna selvagem. A esperança é que possam recuperar e regressar ao seu habitat natural.

Os impactos das tempestades, como as que temos tido, nas aves marinhas variam consoante a espécie e a idade dos indivíduos, sendo que os mais jovens e os mais fracos são, regra geral, os mais vulneráveis às intempéries. No entanto, eventos de mortalidade massiva podem abranger muitos outros indivíduos, com impactos severos para as populações da sua espécie.

As aves marinhas são um dos grupos de aves mais ameaçados em todo o mundo e estão cada vez mais pressionadas por uma miríade de fatores, como a captura acidental em redes de pesca, a poluição, a perda de habitat e de presas e as espécies invasoras. Assim, num contexto de crise climática e em linha com o que é dito pela Ciência, as tempestades, como as das últimas semanas, tornar-se-ão mais frequentes e mais intensas, e, por isso, “o impacto nas aves marinhas será grande”.

Como avisa Maria Dias, professora na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e investigadora do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C), “períodos longos de tempestades geralmente afetam as aves marinhas por dificultarem a obtenção de alimento, levando, por isso, à emaciação e, por vezes, à morte”.

Como tal, Hany Alonso, da SPEA, realça a importância de monitorizar estes eventos de arrojamento em massa e tentar perceber os seus impactos, especialmente nas espécies mais afetadas, como os papagaios-do-mar, “uma espécie que as pessoas geralmente desconhecem que ocorre nos mares portugueses”.

Quando se encontra uma ave arrojada ainda viva, os especialistas dizem que o mais importante é contactar o serviço ambiental da GNR, o SEPNA, ou o ICNF, para que o animal seja encaminhado para um centro de recuperação.

“Caso seja a própria pessoa a transportar a ave para um centro de recuperação, deve evitar o contacto direto com a ave, usando luvas ou uma peça de roupa, colocar a ave numa caixa de cartão e transportar a ave o mais rapidamente para o centro mais próximo. Não tentem alimentar ou dar água à ave, pois o ideal será que seja avaliada no centro onde lhe poderão prestar os cuidados adequados”, explica o técnico da SPEA.

Sob as ondas
Os impactos das tempestades vão além das aves. Também os animais que vivem sob a superfície das águas marinhas podem sentir os seus efeitos.

Uma vez mais, as consequências das tempestades e da agitação marítima associada dependem da espécie. Como nos explicam Alicia Quirin e Patrícia Nogueira, da Associação para a Investigação do Meio Marinho (AIMM), aquelas que dependem mais de habitats costeiros, em particular de zonas de águas pouco profundas, podem ter mais dificuldades em encontrar alimento por causa da agitação do mar.

“A ação das ondas pode também causar perturbações físicas nos fundos marinhos, causando danos em habitats mais frágeis ou a ressuspensão de sedimentos, que podem afetar algas e invertebrados e, consequentemente, toda a rede alimentar associada”, detalham, em resposta enviada por e-mail.

Devido aos ventos fortes e a mares revoltosos, algumas aves e mamíferos marinhos podem ter de gastar mais energia para se deslocarem de um lado para o outro, o que pode pôr em risco a sua sobrevivência. No caso dos golfinhos, por exemplo, “podem ocorrer dificuldades na navegação, sobretudo em animais mais jovens ou fragilizados”, mas, de forma geral, “estão bem-adaptados para sobreviver num ambiente dinâmico e com condições por vezes adversas”, dizem Alicia Quirin e Patrícia Nogueira.

Como tal, é expectável que os golfinhos e outros mamíferos marinhos sejam capazes de lidar com os efeitos nos mares lançados por tempestades como as que temos enfrentado nos últimos tempos.

Para já não há registo, além das aves marinhas, de mortalidade de animais marinhos associada diretamente às tempestades das últimas semanas. As especialistas da AIMM dizem-nos também que, nestas circunstâncias, é provável que animais já mortos possam acabar por chegar à costa, “mas isso não significa obrigatoriamente que a causa de morte esteja relacionada com as condições meteorológicas”.

“Este tipo de eventos acaba por reforçar a importância de existirem redes de monitorização e de resposta a arrojamentos bem estabelecidas para que se possa perceber melhor os efeitos destes fenómenos na vida marinha. Isto é particularmente importante num contexto de alterações climáticas, em que se prevê que fenómenos extremos se tornem mais frequentes”, salientam.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Tendências recentes sobre o tráfico ilegal de marfim


1. Tendência global recente (2015–2024)
👉 Antes da COVID-19 (2015-2019):
O tráfico de marfim atingiu níveis muito elevados, com grandes apreensões de várias toneladas partindo sobretudo de África para a Ásia. Em 2019, houve apreensões recorde de marfim representando dezenas de toneladas. Wildlife Justice Commission+1


👉 Impacto da pandemia (2020-2024):
A pandemia de COVID-19 disrompeu fortemente as cadeias de tráfico, levando a:

  1. queda substancial no número de grandes apreensões de marfim;
  2. menor volume total reportado de apreensões em comparação com o período pré-pandemia;
  3. mercados ilegais aparentemente mais estáveis, porém em níveis mais baixos do que antes de 2020. Wildlife Justice Commission+1

📉 2. Estatísticas de apreensões recentes
✔ Entre 2023 e abril de 2025, cerca de 25 toneladas métricas de marfim foram confiscadas mundialmente, com a maior parte de grandes apreensões ainda sendo relatadas
👉 No entanto, especialistas observam que:
  1. pode haver menos detecções porque as redes criminosas estão melhorando as técnicas de ocultação e/ou mudando métodos operacionais;
  2. ou simplesmente porque a ação contra o tráfico tem sido mais eficaz em certos pontos. 
  3. Portanto, o volume de apreensões sozinho não fornece o quadro completo - mudanças nas técnicas de tráfico podem ocultar tendências reais.
🐘 3. Poaching e impacto sobre elefantes
📍 Estimativas anteriores (antes de 2018) mostraram que o tráfico de marfim estava ligado à morte de dezenas de milhares de elefantes por ano (ex.: até cerca de 40 000 elefantes mortos anualmente em alguns períodos históricos).
👉 Estas estimativas variam muito ao longo do tempo e dependem de dados de campo e modelagens, mas indicam o enorme impacto histórico do tráfico sobre populações de elefantes.

🌍 4. Factores que influenciam as tendências
📌 Redução da procura legal
Proibições e encerramentos de mercados domésticos (como na China e em outros países) reduziram a compra aberta de marfim, afetando a dinâmica global do tráfico
📌 Online e mercados ocultos
Apesar das proibições, vendas ilegais online continuam ativas, com plataformas sociais facilitando oferta e procura em alguns mercados regionais. 
📌 Ações de fiscalização e legislação
Leis mais duras e operações internacionais (como apreensões e cooperação policial) têm contribuído para reduzir algumas rotas de tráfico - embora redes criminosas ainda se adaptem

📊 Em resumo
Período Tendência do Tráfico de Marfim2015–2019

Queda significativa e estabilização 
Wildlife Justice Commission2023–2025 - Apreensões ainda grandes, mas menor que antes da pandemia 

Artigo Científico

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Rãs galáxia em risco de extinção devido a práticas fotográficas antiéticas


Cientistas da Sociedade Zoológica de Londres alertam para o possível desaparecimento das rãs galáxia de Querala, na Índia. Os resultados constam de um estudo publicado esta quarta-feira na revista científica Herpetology Notes.

As Melanobatrachus indicus, nome científico das rãs galáxia, são endémicas das florestas do sul da Cordelheira dos Gates Ocidentais, da Índia, mais concretamente da floresta tropical de Querala. Trata-se de pequenos anfíbios, do tamanho da ponta de um dedo e que se caracterizam pelas suas manchas reluzentes, usadas como forma de comunicação entre os espécimes.

É a “única representante” da sua subfamília no reino animal e está classificada como “vulnerável” pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza, desde 2020.

O seu habitat a ser conquistado por explorações agrícolas de café e chá.
Se uma investigação feita pelos autores do estudo em 2020 dava conta da existência de sete espécimes debaixo de “troncos caídos incrustados na serapilheira”, as buscas efetuadas em 2021 e 2022 não detectaram a presença de rãs galáxia na floresta.

Ao jornal britânico The Guardian, o investigador Rajkumar KP alerta para a destruição do micro-habitat destes animais. Um dos troncos estava “completamente destruído e fora do lugar” e a vegetação estava “pisada”.

Alerta para os perigos da prática fotográfica desregulada
De acordo com vigilantes locais, “grupos de quatro a seis fotógrafos visitaram o local” em várias ocasiões, entre junho de 2020 e abril de 2021. Tiraram fotografias com flash e tocaram nos espécimes encontrados para serem levados para locais mais “fotogénicos, como musgos e troncos”.

Numa das ocasiões, juntaram cinco espécimes, sendo que as visitas podem ter resultado na morte de dois deles, algo não confirmado pelo estudo. Cada sessão fotográfica durava cerca de quatro horas.

Apesar de tentarem impedir a entrada destes grupos, os fotógrafos utilizavam autorizações oficiais para terem acesso aos habitats protegidos.

Tendo em conta que estes animais respiram pela pele, que é ultrassensível, o estudo aponta para o perigo de dessecação dos corpos dos espécimes decorrente do uso de flashs e de transmissão de doenças provocado pela ausência de uso de luvas na captura dos animais.

O incidente chama a atenção para os riscos do turismo fotográfico desregulado, de acordo com Rajkumar, que coloca em causa espécies vulneráveis e a preservação dos seus habitats, assim como provoca alterações de comportamento dos animais e até a sua morte.

O estudo propõe medidas para “promover” práticas de fotografia de natureza “mais éticas”, como a inclusão de “conhecimento das práticas éticas na fotografia de vida selvagem para o procedimento de seleção de guias licenciados” pelo Ministério do Turismo e a elaboração de um código de ética que inclua “restringir a captura, manuseamento e perseguição” dos espécimes, assim como a minimização do uso de “luzes de alta intensidade”.

Também é proposta a penalização dos fotógrafos que não cumpram as medidas.

As restrições à fotografia na Índia não são inéditas, existindo já proibições na fotografia durante as épocas de acasalamento e de ninhos durantes competições fotográficas.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Vídeos de animais selvagens criados por IA “geram confusão e ameaçam a sua conservação”, dizem cientistas


Por Filipe Pimentel Rações
Um grupo de animados coelhos a saltitarem num trampolim ou um gato destemido que protege uma criança da investida de um leopardo. Vídeos destes fazem as delícias dos internautas e proliferam nas redes sociais.

Há, contudo, um senão. O que é visto nas imagens nunca aconteceu. São fruto da manipulação por Inteligência Artificial. Embora possam parecer reais não o são.

Para muitos, estes vídeos podem parecer inofensivos: entretêm quem os vê e até se pode pensar que aproximam as pessoas dos animais selvagens, o que, teoricamente, seria positivo para a sua conservação. Mas uma equipa de biólogos, psicólogos e especialistas em educação da Universidade de Córdoba, em Espanha, diz que esses vídeos podem ter o efeito precisamente contrário.

Num artigo publicado a revista ‘Conservation Biology’, dizem ter analisado os vídeos mais partilhados nas redes sociais que mostram animais selvagens e que foram produzidos por Inteligência Artificial. E alertam que, no que toca às espécies selvagens visadas, “geram confusão e ameaçam a sua conservação”.

Uma das principais conclusões é que esses conteúdos criam perceções erradas sobre os animais selvagens, especialmente no que diz respeito ao seu comportamento e às interações entre espécies diferentes. No caso do gato que enfrentou o leopardo, os autores dizem, em comunicado, que é muito pouco provável que um desses grandes felídeos salte para o pátio de uma casa e que um gato doméstico se lance para enfrentá-lo.

Outros dos problemas associados à disseminação desses vídeos, que os cientistas consideram ser uma forma de desinformação, é a atribuição de características e comportamentos humanos a animais, o que pode criar ideias erradas sobre as próprias espécies não-humanas, e ainda o aumento do fosso existente entre as sociedades humanas e o mundo natural.

Esses vídeos “mostram características, comportamentos, habitats ou relações entre espécies que não são reais”, afirma, em nota, José Guerrero-Casado, primeiro autor do estudo.

“Por exemplo, vemos predadores e presas a brincarem. São-nos mostrados animais com comportamentos humanos que estão muito longe da realidade”, salienta, acrescentando que, sobre o vídeo do leopardo e do gato, que tem já mais de um milhão de ‘gostos’, “cria-se um clima negativo para a conservação de uma espécie como o leopardo, que nunca encontraríamos numa situação como esta”.

O investigador alerta que a exposição a este tipo de vídeos afasta ainda mais os mais jovens e as crianças do mundo natural e da vida selvagem e pode até criar sentimento de frustração nesses grupos etários, pois, com base no que veem online, podem acabar por perceber que os animais os vídeos não são os animais que eventualmente verão na Natureza.

Além disso, “espécies que são vulneráveis parecem mais abundantes com estes vídeos e isso é negativo para a conservação”, refere Rocío Serrano-Rodriguez, principal coautora do artigo.

Esses efeitos são agravados pelo facto de a imagem ser um dos principais meios de aprendizagem na infância e de as camadas mais jovens da sociedade estarem cada vez mais cedo expostas ao que se passa nas redes sociais.

Como se não bastasse, estes conteúdos podem fazer aumentar o apetite pela aquisição de animais selvagens exóticos como animais de estimação, podendo pôr em risco a sobrevivência de populações e até de espécies inteiras.

Face a tudo isto, os investigadores defendem a implementação de estratégias de literacia digital que deem às pessoas as ferramentas de que precisam para questionar os conteúdos que veem online, para procurarem as fontes fidedignas. E isso deve ser transversal a todas as faixas etárias, dos mais pequenos aos mais velhos.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Alterações climáticas podem estar a enfraquecer dentes de tubarões


Pesquisadores alemães da Universidade Heinrich Heine Düsseldorf afirmam que a acidificação dos oceanos está enfraquecendo os dentes afiados dos tubarões, tornando-os quebradiços e frágeis. As descobertas, publicadas no dia 27 de agosto na revista Frontiers in Marine Science, levantam preocupações quanto à sobrevivência de um dos principais predadores do oceano, à medida que o dióxido de carbono continua a reduzir o pH da água do mar.

As more of the greenhouse gas carbon dioxide (CO2) is released into the atmosphere, more of this gas is also absorbed by the oceans. The consequence: The so-called pH-value of seawater decreases, making it more acidic. The acidity has a potentially corrosive effect on minerals – including those in the tooth material of marine organisms. 

Sharks are known for being able to replace their teeth, with new ones growing to replace older ones when they wear down. This is crucial for their survival as they rely on their teeth to catch their prey. 

A research team headed by Professor Dr Sebastian Fraune from the Institute of Zoology and Organismic Interactions at HHU has, in collaboration with biologists from the Sealife Oberhausen marine aquarium, examined the impact of ocean acidification on shark teeth. They placed shark teeth in containers of water at different levels of acidity: at the current pH of the oceans and at the expected pH in 2300. 

“Shark teeth comprise highly mineralised phosphates, but they are susceptible to corrosion. The more acidic water in the simulated 2300 scenario damaged the shark teeth, including roots and crowns, much more than the water at the current acidity level. Global changes are thus so far-reaching that they can impact the microstructure of shark teeth,” says Maximilian Baum, former HHU student and now a freelance diver, photographer and speaker. He is the lead author of the study. 

Corresponding author Professor Fraune: “The teeth are highly sophisticated weapons designed to cut flesh, but not to withstand the acidification of the oceans. Our results show how fragile even nature’s sharpest weapons can be. It is possible that the ability of sharks to replace their teeth on an ongoing basis will not be able to keep up with the changes in their environment.” 

Teeth shed naturally by blacktip reef sharks (Carcharhinus melanopterus) kept at Sealife Oberhausen were used for the study. These teeth were divided between separate containers – one holding seawater with a pH of 8.1 (the current level) and the other with a pH of 7.3 (what is expected in 2300) – and incubated for eight weeks. Baum: “This pH corresponds to an almost tenfold increase in acidity compared with today.”

The teeth were then examined under the microscope at the Center for Advanced Imaging at HHU. Fraune: “At a pH-value of 7.3, we observed surface damage such as cracks and holes, increased root corrosion and structural deterioration. In addition, the surface morphology was more irregular, which can weaken the structure of the teeth and make them more susceptible to breaking.”

Timo Haussecker, Aquarium Curator at Sealife Oberhausen and co-author of the study: “As we only examined naturally shed teeth, the study does not take account of any repair processes, which may occur in living organisms. The situation may therefore be more complex in living sharks as they may be able to remineralise damaged teeth, albeit with greater energy expenditure.” 

“Even moderate decreases in pH-values can impact more sensitive species with slow tooth replacement cycles or have a cumulative effect over the course of time,” adds Baum. “For sharks, it is certainly of great importance that the pH-value of the oceans remains near the current average of 8.1.”

Maximilian Baum and Professor Fraune conclude: “Our research reminds us that anthropogenic changes can impact entire food webs and ecosystems.”

Esta é uma notícia preocupante e um exemplo de como a química atmosférica impacta diretamente a biologia marinha. O estudo da Universidade Heinrich Heine Düsseldorf toca em um ponto crítico: a integridade estrutural da fluorapatita, o mineral que compõe o esmalte dos dentes de tubarão.

Aqui está uma análise do que está acontecendo quimicamente e por que isso é tão vital para esses predadores:

O Processo de Acidificação
Normalmente, o oceano é levemente alcalino. No entanto, à medida que absorve o CO2 da atmosfera, ocorre uma reação química que forma o ácido carbônico (H2CO3), reduzindo o pH da água.
A Estrutura do Dente: Diferente dos humanos, cujos dentes são feitos de hidroxiapatita, os tubarões possuem dentes revestidos de fluorapatita. Isso os torna naturalmente mais resistentes e "pré-fluoretados".
A Corrosão: O estudo mostrou que a exposição prolongada (cerca de 9 semanas) a um pH mais baixo causa uma corrosão visível na superfície dos dentes.

O Impacto Mecânico: Com a superfície danificada, os dentes perdem sua "afiação" e tornam-se propensos a rachaduras e quebras durante a caça.

Por que isso é um problema sistémico?

Abaixo, veja como essa fragilidade afeta o ecossistema como um todo:
ImpactoConsequência para o TubarãoEfeito no Ecossistema
Eficiência de CaçaMenor capacidade de segurar e cortar presas.Desequilíbrio nas populações de peixes menores.
Gasto EnergéticoTubarões precisam trocar de dentes com mais frequência.O animal gasta mais energia metabólica para regeneração.
SobrevivênciaMaior risco de inanição ou infecções bucais.Perda de predadores de topo, essenciais para a saúde dos recifes.

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Tomelo


Por Nuno Gomes
Sou um tipo à antiga e gosto de sabonetes.
Era fã indefectível dos sabonetes Ach Brito até ouvir uma entrevista do actual herdeiro e administrador, feliz a explicar que o produto saponificado à base de óleo de palma vinha pronto de não sei de donde - não explicou -, talvez da Índia ou da China, ao qual juntavam os aromas característicos destes sabonetes. Os sabonetes Ach Brito, são, portanto, feitos do óleo que destrói as florestas de Sumatra e Bornéu e nem sequer a saponificação é feita cá. Longe vão os tempos em que a Ach Brito inovava e experimentava os seus produtos nos próprios funcionários, causando algumas vezes irritações de pele, sempre bem humoradas, mas a maior parte das vezes inócuas, permitindo inovar com os sabonetes que a notabilizaram.
Por isso, pus-me à procura de sabonetes alternativos e há vários artesanais que hei-de experimentar. E fui dar aos sabonetes Tomelo, dos colegas e amigos de longa data Bárbara Fráguas e José Jambas, que têm um projecto maravilhoso de turismo rural integrado em Atenor, Miranda do Douro, actuando simultaneamente na preservação do burro mirandês, a raça autóctone e a mais bonita do mundo.
Como não podia deixar de ser, os sabonetes Tomelo são feitos à base de leite de burra e há vários aromas, todos eles maravilhosos: amêndoa, lírio-do-vale, limonete, alfazema, azeite e mel.
E não se ficam pelos sabonetes, incluindo cremes e difusores ambientais. Se quer dar um presente original, pode explorar os produtos Tomelo. Não sou sócio e não me pediram nada. Certo é que irei comprar mais, antes que acabem!

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Texturas naturais e gafanhoto


Texturas naturais e gafanhoto
Observem o tamanho da antena dele!!
Podemos encontrar cores, texturas e pinturas “abstratas” na Natureza!

Natural textures and grasshopper
Look at the size of its antenna!!
We can find colours, textures and "abstract" paintings in Nature!

sábado, 23 de março de 2024

Lua Cheia de Março 2024 - Lua da Minhoca


Porque neste mês as minhocas começam a aparecer no solo que finalmente aquece depois do frio do inverno. Aliás, as minhocas atraem tordos e outras aves, que são realmente o sinal da primavera!

quinta-feira, 14 de março de 2024

Petição - Temos de proteger o lobo!

Exmos/as Senhores/as,

Escrevo a propósito da proposta da Comissão Europeia, apresentada a 20 de dezembro de 2023, para reduzir o estatuto de proteção do lobo na Convenção de Berna, apesar da falta de evidências científicas para apoiar uma mudança que poderá ter impactos devastadores.

Considero a proposta da Comissão Europeia inaceitável. A desproteção do lobo em nada resolve os problemas socioeconómicos que afetam a agricultura e as comunidades rurais e, no entanto, esse argumento falacioso é usado pela Presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen, promovendo a desinformação.

Nós, humanos, fazemos parte do ecossistema que partilhamos com outras espécies que desempenham papéis ecológicos cruciais. A forma como gerimos a proteção de espécies como o lobo mostra o nosso empenho na preservação da biodiversidade europeia e reflete a nossa atitude em relação ao ambiente em que vivemos. Podemos decidir se queremos que a natureza na Europa prospere ou apenas sobreviva.

A coexistência entre as pessoas e os grandes carnívoros é possível e provada por mais de 80 projetos de investigação e conservação desde 1992, e os Estados-Membros da UE têm de saber e querer usar as ferramentas de conservação ao seu dispor. A Lei de Proteção do Lobo-ibérico protege esta espécie em Portugal desde 1988, e os esforços de conservação atrelados às medidas de promoção da co-existência tornaram possível a convivência harmônica entre as pessoas e o lobo.

Como pessoa cidadã da União Europeia, preocupo-me com estas questões. Por isso, apelo ao Governo português que continue a fazer ouvir a sua voz junto da Comissão Europeia e mantenha a posição manifestada no início de 2023 de oposição à redução do estatuto de proteção do lobo. Enquanto Estado-membro da UE, Portugal deve rejeitar esta proposta. Esse é o meu apelo – e espero que seja ouvido.

A menos que haja novas provas científicas substanciais recolhidas pelos serviços da Comissão Europeia, considero que a ciência e a opinião pública são claras: a alteração do estatuto de proteção do lobo – quer ao abrigo da legislação da UE, quer da Convenção de Berna - não se justifica.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Borboletas-lobas estão a perder as suas manchas por causa do aquecimento global

Borboleta-loba sem qualquer uma das suas manchas características, incluindo a grande mancha em forma de olho das asas anteriores.

À medida que a temperatura do planeta aumenta, as borboletas-lobas (Maniola jurtina) estão a perder as manchas escuras que têm nas suas asas. Pensa-se que as manchas em forma de olho que têm nas asas anteriores sirvam para afugentar predadores e que as mais pequenas que têm nas asas posteriores sejam usadas como mecanismo de camuflagem.

Uma investigação liderada pela Universidade de Exeter, no Reino Unido, descobriu que as fêmeas dessa espécie de lepidópteros que se desenvolvem a uma temperatura ambiente de 11 graus Celsius têm seis manchas na face inferior das asas posteriores. Contudo, as que se desenvolvem a temperaturas mais elevadas apresentam menos manchas.

Os resultados do trabalho foram revelados num artigo publicado revista ‘Ecology and Evolution’. Richard ffrench-Constant, um dos principais autores, explica, em comunicado, que “cada vez menos destas manchas nas asas posteriores aparecem quando as fêmeas experienciam temperaturas mais elevadas durante a fase de pupa”, um estágio do desenvolvimento em que a futura borboleta está envolvida por uma crisálida.

Além da perda de manchas nas asas posteriores, os cientistas encontraram também fêmeas que perderam as grandes manchas em forma de olho das asas anteriores.

Com base nessas constatações, o investigador argumenta que “isso sugere que as borboletas adaptam a sua camuflagem com base nas condições”, detalhando que “com menos manchas podem ser mais difíceis de detetar na relva seca e acastanhada que seria mais comum num clima mais quente”.

Contudo, o mesmo não foi observado nos machos, e a equipa acredita que isso pode dever-se ao facto de as manchas desempenharem uma função importante na reprodução, para atrair as fêmeas.

Até agora pensava-se que as variações nas manchas nas asas das borboletas-lobas dentro de uma mesma população refletia o que é conhecido como polimorfismo genético, ou seja, “a coexistência de múltiplas formas genéticas numa mesma população”. Mas este estudo vem revelar que, afinal, as diferenças resultam de uma ‘plasticidade térmica’, uma capacidade através da qual as borboletas reagem e adaptam-se às mudanças de temperatura nos ambientes em que se desenvolvem.

Com um planeta cada vez mais quente, os investigadores preveem que as manchas das borboletas-lobas fêmeas diminuirão de ano para ano. E Richard ffrench-Constant confessa-se surpreendido pelo que encontraram: “esta é uma consequência inesperada das alterações climáticas”, no âmbito das quais “tendemos a pensar que as espécies se vão deslocando para norte, em vez de mudarem a sua aparência”.

sábado, 30 de dezembro de 2023

Os golfinhos parecem usar peixes-balão tóxicos para se "pedrarem"


Os seres humanos não são as únicas criaturas que sofrem de problemas de abuso de substâncias. Os cavalos comem ervas alucinogénias, os elefantes embriagam-se com frutos demasiado maduros e os carneiros selvagens adoram líquenes narcóticos. Alguns investigadores pensam que a atração dos macacos por frutas ricas em açúcar e que contêm etanol pode, de facto, explicar a nossa própria atração pelo álcool.

Agora, os golfinhos podem juntar-se a essa lista. Imagens de uma nova série documental da BBC, "Spy in the Pod", revelam o que parecem ser golfinhos a "pedrarem-se" com peixes-balão. O peixe-balão produz um químico defensivo potente, que expele quando se sente ameaçado. A toxina, conhecida como tetrodotoxina, é letal em grandes doses. Em doses suficientemente pequenas, no entanto, a toxina parece induzir um "estado de transe" nos golfinhos que entram em contacto com ela, relata o Daily News:

Os golfinhos foram filmados a brincar suavemente com o peixe-balão, passando-o uns aos outros durante 20 a 30 minutos de cada vez, ao contrário dos peixes que capturavam como presa, que eram rapidamente despedaçados.

O zoólogo e produtor da série, Rob Pilley, afirmou que foi a primeira vez que golfinhos foram filmados a comportar-se desta forma.

A certa altura, vêem-se os golfinhos a flutuar logo abaixo da superfície da água, aparentemente hipnotizados pelos seus próprios reflexos.

O manuseamento especializado e deliberado do aterrorizado peixe-balão por parte dos golfinhos, disse Pilley ao Daily News, sugere que esta não é a primeira vez que participam neste "rodeo" alucinogénio.


quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Dia Mundial da Filosofia

"A maior descoberta da minha geração é que o ser humano pode alterar a sua vida alterando as suas atitudes." William James (Nova Iorque, 11 de janeiro de 1842 – Tamworth, 26 de agosto de 1910)


História
Este dia foi implementado na 33ª. Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), que ocorreu de 3 a 21 de outubro de 2005, através da Resolução 37.

Objectivos
Ao celebrar o Dia Mundial da Filosofia a cada terceira quinta-feira de novembro, a UNESCO destaca o valor duradouro da ciência para o desenvolvimento do pensamento humano, cultura e indivíduos.

Neste ano, em 16 de novembro, a Unesco afirma que a filosofia é uma disciplina inspiradora e uma prática cotidiana que pode transformar sociedades. 

Sociedade mais tolerante e respeitosa
Ao possibilitar a descoberta da diversidade das correntes intelectuais no mundo, a ciência estimula o diálogo intercultural. Ao despertar as mentes para o exercício do pensamento e o confronto racional de opiniões, ela ajuda a construir uma sociedade mais tolerante e respeitosa. 

Para a Unesco, o seu estudo contribui para entender e responder aos grandes desafios contemporâneos, criando as condições intelectuais para a mudança.

No Dia Mundial da Filosofia, Unesco busca inspirar sociedade mais tolerante e respeitosa

Celebração
Neste dia, que a agência da ONU acredita ser para o exercício coletivo de pensamento livre, racional e informado sobre os principais desafios de nosso tempo, os parceiros são incentivados a organizar diversos tipos de atividades.

Eles podem ser diálogos filosóficos, debates, conferências, workshops, eventos culturais e apresentações em torno do tema, com a participação de filósofos e cientistas de todas as áreas das ciências naturais e sociais.

Ciências humanas
A Unesco explica que a filosofia, parte das humanidades, questiona todas as dimensões da vida humana. 

A agência aponta que sempre esteve intimamente ligada à filosofia, definida como uma "Escola da Liberdade" numa das suas principais publicações. 

Por meio do questionamento crítico, a filosofia dá significado à vida e à ação no contexto internacional.

A ligação entre filosofia e Unesco decorre da investigação sobre a possibilidade e condições necessárias para o estabelecimento de paz e segurança de longo prazo no mundo.

Por meio de seu trabalho intelectual, em diálogo com outras disciplinas das humanidades e ciências sociais, a filosofia contribui para respostas institucionais aos problemas de transformação social, refletindo o pluralismo de experiências e culturas ao redor do mundo.

As humanidades e a filosofia lidam não apenas com o legado tradicional derivado de culturas e tempos passados, mas também com os desafios que o mundo enfrenta atualmente: a pluralidade de identidades, línguas, migração, mudanças ambientais, pensamento crítico sobre teoria, ação e políticas. 

Esses legados e dinâmicas alimentam abordagens inventivas para a mudança social.

Links relacionados
Dia Mundial da Filosofia | UNESCO [en]
Dia Mundial da Filosofia | Organização das Nações Unidas [en]
Dia Mundial da Filosofia | Direção-Geral da Educação

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Áreas Marinhas Protegidas dos Açores - Implementação Urgente


O que falta para termos as Áreas Marinhas Protegidas dos Açores?
A resposta é simples: falta a sua implementação. A proposta de criação da Rede de Áreas Marinhas Protegidas dos Açores já esteve em consulta pública e falta que seja efetivamente aprovada e transformada em lei pela Assembleia Regional dos Açores.

O mar dos Açores, historicamente tão importante para a economia e identidade Açorianas, tem vindo a sofrer, ao longo das últimas décadas, de clara sobre-exploração.

O que se pretende com esta petição?
O apoio da sociedade civil para:

1. Que se aprovem, sem mais demoras, o enquadramento legal geral e as zonas de proteção oceânicas tal como preconizados na proposta da RAMPA, com proteção total de 15% das áreas oceânicas e proteção parcial de outros 15%.

2. Que a Rede de Áreas Marinhas Protegidas dos Açores seja estendida, o mais brevemente possível, às zonas costeiras.

3. Que estejam previstos, no orçamento da Região, os recursos necessários ao acompanhamento científico destas reservas marinhas.

4. Que as autoridades responsáveis pela fiscalização, nomeadamente, Inspeção das Pescas, Polícia Marítima e GNR, sejam dotadas dos recursos humanos e materiais e do enquadramento legal necessários para garantir a efetividade das zonas de proteção.

5. Que este projeto, iniciado na legislatura anterior e fortemente impulsionado pelo atual Governo Regional, seja abraçado por todos os partidos da Assembleia Legislativa Regional. A proteção do mar tem de ser um desígnio estrutural dos Açores. Adiar mais uma vez avanços nesta matéria, como se tem vindo a fazer nas últimas décadas, seria de uma enorme falta de visão, sem preocupação com as gerações futuras.

Assine e partilhe esta petição pela defesa do oceano neste link

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Dia de Todos os Santos - Maman


O Dia de Todos os Santos é comemorado anualmente a 1 de novembro em honra aos santos conhecidos e desconhecidos, mártires e cristãos heroicos celebrados ao longo do ano.

Em 610 d.C., o Papa Bonifácio IV decidiu introduzir a comemoração regular dos santos a 13 de maio. Só pouco mais de um século depois é que o dia 1 de novembro foi finalmente escolhido como data para a comemoração dos santos. Foi o Papa Gregório III que oficializou esta mudança. Por volta de 835, o Papa Gregório IV chegou mesmo a torná-lo numa festa mundial. No século XX, quando Pio X estava à frente do papado, o Dia de Todos os Santos foi definitivamente acrescentado à lista das oito festas cristãs. Ao mesmo tempo, tornou-se feriado.

Neste dia é também celebrado (por antecipação) o dia dos Fiéis Defuntos, que se celebra a 2 de novembro. Por isso neste dia há missas e os católicos - crentes e ateus - têm o hábito de ir colocar flores nos túmulos dos entes queridos que já faleceram.

Hoje dedico-o às nossas mães que já partiram.

Mãe, de Louise Bourgeois
1999
Bronze, mármore e aço inoxidável
927 x 891 x 1023 centímetros

Com quase 9 metros de altura, Maman é uma das mais ambiciosas de uma série de esculturas de Bourgeois que têm como tema a aranha, motivo que apareceu pela primeira vez em vários desenhos da artista na década de 1940 e que passou a assumir um lugar central na sua obra durante a década de 1990. Pretendidas como uma homenagem à sua mãe, que era tecelã, as aranhas de Bourgeois são altamente contraditórias como emblemas de maternidade: elas sugerem tanto o carácter protetor quanto predador – a seda de uma aranha é usada tanto para construir casulos quanto para amarrar presas – e incorporam a força e fragilidade. Tais ambiguidades são poderosamente representadas no mamute Maman, que paira ameaçadoramente sobre pernas como arcos góticos que funcionam ao mesmo tempo como uma gaiola e como um covil protetor para um saco cheio de ovos perigosamente presos ao seu chassi. A aranha provoca admiração e medo, mas a sua enorme altura, improvavelmente equilibrada sobre pernas delgadas, transmite uma vulnerabilidade quase comovente.


Maman, by Louise Bourgeois
1999
Bronze, marble, and stainless steel
927 x 891 x 1023 cm

Almost 9 meters tall, Maman is one of the most ambitious of a series of sculptures by Bourgeois that take as their subject the spider, a motif that first appeared in several of the artist's drawings in the 1940s and came to assume a central place in her work during the 1990s. Intended as a tribute to her mother, who was a weaver, Bourgeois's spiders are highly contradictory as emblems of maternity: they suggest both protector and predator - the silk of a spider is used both to construct cocoons and to bind prey - and embody both strength and fragility. Such ambiguities are powerfully figured in the mammoth Maman, which hovers ominously on legs like Gothic arches that act at once as a cage and as a protective lair to a sac full of eggs perilously attached to her undercarriage. The spider provokes awe and fear, yet her massive height, improbably balanced on slender legs, conveys an almost poignant vulnerability.