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segunda-feira, 6 de abril de 2026

O Simbolismo Fálico nas Civilizações Antigas: Apotropia, Fertilidade e Cosmologia


O culto e o simbolismo fálico, comummente designado por falismo, desempenharam um papel estruturante e transversal na religiosidade e na organização social de inúmeras civilizações da Antiguidade. Longe de ser perspetivado através dos prismas modernos da obscenidade, da vulgaridade ou do tabu moral, o falo era compreendido e venerado como um símbolo sagrado da fertilidade, da vida regenerativa, do poder cósmico e da proteção apotropaica contra forças maléficas e o caos.

Na Antiguidade Clássica, a cultura greco-romana integrou a iconografia fálica no seu quotidiano urbano e ritual. Os romanos recorriam frequentemente ao fascinum, um amuleto em forma de falo usufruído ao pescoço, esculpido nas ombreiras das casas ou gravado no calçamento das vias públicas, motivados pela convicção de que o símbolo possuía a faculdade apotropaica de repelir a invidia - o Mau-Olhado - e salvaguardar crianças e legionários. 

Na Grécia Antiga, as hermai, pilares quadrangulares encimados pela cabeça do deus Hermes e dotados de esculturas fálicas proeminentes, delimitavam fronteiras e encruzilhadas com o propósito de demarcar o espaço sagrado e dissuadir intrusos. Paralelamente, os cultos de mistério dionisíacos e priápicos incluíam as phallophoria, procissões em que falos monumentais de madeira eram ostentados publicamente para celebrar Dioniso e Príapo, divindades associadas ao vinho, à abundância dos pomares e à força geradora masculina.

No Antigo Egito, o princípio itifálico vinculava-se diretamente à manutenção da ordem cósmica (Ma'at) e ao ciclo agrícola. O deus Min era invariavelmente representado com o pénis ereto para personificar a energia vital do Faraó, a fertilização do solo e a fartura das colheitas. Da mesma forma, Osíris assumia um papel central na regeneração após a sua morte e desmembramento, sendo a sua reconstituição por Ísis e a subsequente conceção de Hórus o mito fundador da ressurreição e do perpétuo renascimento da natureza.

No Sul da Ásia, o Hinduísmo desenvolveu uma das expressões teológicas mais elaboradas do falismo através do Shiva Lingam. Longe de uma simples representação anatómica, o lingam constitui uma representação anicónica do poder criador de Shiva, simbolizando a origem incriada do universo, o fogo primordial e o absoluto cósmico. Tradicionalmente emparelhado com a yoni, o elemento recetivo feminino, o conjunto articula a interdependência dos princípios masculino e feminino no ato contínuo de criação e dissolução do cosmos. 

O registo etnoarqueológico e etnológico confirma tratar-se de um fenómeno pan-humano e trans-histórico... A análise etnográfica de comunidades contemporâneas e o estudo comparativo de registos históricos demonstram que o falismo não é um traço isolado de uma única cultura, mas sim uma constante na forma como a humanidade conceptualiza a vida e o cosmos.

No Japão, as tradições xintoístas preservaram até à atualidade manifestações festivais como o Kanamara Matsuri e o Hounen Matsuri, nos quais esculturas fálicas de grandes dimensões são conduzidas em cortejo ritual para rogar aos kami por partos seguros, fertilidade agrícola, harmonia conjugal e prosperidade comunitária.

Na Mesoamérica pré-colombiana, a evidência arqueológica Maia em sítios como Uxmal revela a presença de monumentos e esculturas de pedra representando falos, empregues em rituais de invocação das chuvas. Tais práticas alinhavam a virilidade humana com os ciclos meteorológicos e a fertilização da terra. Todavia, a distribuição geográfica do falismo transcende amplamente estas culturas. O registo etnoarqueológico confirma tratar-se de um fenómeno pan-humano e trans-histórico.

Desde o Paleolítico Superior europeu, evidenciado em artefactos de osso e pedra polida como o falo de Hohle Fels, com cerca de 28.000 anos, até às culturas celtas e nórdicas que ergueram monólitos fálicos associados a divindades como Freyr, a iconography erótica e itifálica serviu propósitos ontológicos fundamentais. Na Mesopotâmia e no Levante, amuletos e pilares sagrados (massebot) visavam a fertilidade dos campos e o afugentamento de demónios. Na América do Sul, a cerâmica erótica da cultura Moche no Peru utilizava recipientes itifálicos em contextos funerários e rituais de libação, conectando a circulação dos fluidos vitais à sobrevivência dos antepassados. Na África Subsariana, como entre os Bamileke e Yoruba, a estatuária itifálica consagra o status do ancestral e a vitalidade do governante, ao passo que na Oceânia, os entalhes Tiki Maori com genitália proeminente manifestam o Mana, a força espiritual geradora da vida.

Em síntese, o simbolismo fálico em contexto antigo respondeu à necessidade universal de conceptualizar a origem da vida e de domesticar o desconhecido. A posterior marginalização destas práticas e a sua redução ao conceito de "tabu" resultam da sobreposição de estruturas morais monoteístas estritas e da prudência vitoriana, que desligaram o corpo humano da sua dimensão sagrada e cosmogónica.

Referências Bibliográficas
  1. Collins, R. (2020). The phallus and the frontier: The form and function of phallic imagery on Hadrian’s Wall. In T. Ivleva & R. Collins (Eds.), Un-Roman Sex: Gender, Sexuality, and Lovemaking in the Roman Provinces and Frontiers (pp. 274–309). Routledge.
  2. Eliade, M. (1958). Patterns in Comparative Religion. Sheed & Ward.
  3. Johns, C. (1982). Sex or Symbol? Erotic Images of Greece and Rome. British Museum Publications.
  4. Parker, A. (2021). The Phallus and the Evil Eye: Phallic Amulets in the Roman World. Ancient World Magazine.
  5. Scott, G. R. (1941). Phallic Worship: A History of Sex and Sex Rites in Relation to the Religions of All Races from Antiquity to the Present Day. Torchstream Books.
  6. Srinivasan, D. M. (1997). Many Heads, Arms, and Eyes: Origin, Meaning, and Form of Multiplicity in Indian Art. Brill.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Escape with Romeo - Tears of Kali


“Tears of Kali”, dos Escape With Romeo, pertence ao álbum Samsara, lançado em 2012 
É uma canção marcada por um forte simbolismo e por um sentimento de alienação emocional. A letra descreve um narrador que caminha por ruas cheias de pessoas, mas sente que todas se confundem, que os rostos e nomes se perdem, criando uma sensação de anonimato e vazio típico da vida urbana. Apesar de estar rodeado de gente, ele sente-se profundamente só e desconectado, como se percebesse algo que os outros não veem. As “lágrimas de Kali” funcionam como uma metáfora central: Kali, deusa hindu associada à destruição, à transformação e ao fim de ciclos, representa aqui uma força intensa e dolorosa de mudança. Ao dizer que é o único que vê ou sente essas lágrimas a cair sobre si, o narrador sugere uma consciência aguda do sofrimento, do caos e da necessidade de transformação, tanto interior como coletiva. As imagens espirituais misturadas com o cenário urbano — anjos em chamas, luzes da cidade, multidões indiferentes — reforçam o contraste entre o sagrado e o quotidiano vazio, entre o desejo de sentido e a realidade fria. No conjunto, a canção transmite melancolia, introspeção e a sensação de carregar um peso emocional profundo num mundo que parece incapaz de o reconhecer.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Boston Baroque — "Glory to God" from Handel's Messiah


Ele está desde o início dos tempos. Muito antes de Buda, Ísis, Zeus, Jesus, Maomé, etc...Ele não condena, não critica, não espolia. Não massacra. Ele é o caminho, o bálsamo. É Luz, Perdão, Amor. 
Tema muito bonito. Vozes encantadoras.

domingo, 19 de outubro de 2025

Amor Universal - Ensaio Filosófico e Ecológico


O conceito de amor universal pode ser compreendido como a manifestação suprema da consciência ética e ontológica do ser humano. Longe de se restringir à afetividade individual, trata-se de uma disposição metafísica que reconhece a unicidade do ser e a interdependência ontológica entre todas as formas de existência.

Em Platão, particularmente no Banquete, o amor (eros) é concebido como um movimento dialético da alma em direção à contemplação do Belo absoluto — o princípio inteligível que estrutura e unifica o real. O amor, neste contexto, constitui uma via epistemológica e ontológica: conhecer é amar, e amar é ascender à unidade do Ser.

Com Espinoza, o amor universal adquire uma formulação racionalista e imanentista. No Ethica, o amor Dei intellectualis designa a alegria derivada da compreensão intuitiva da substância única, Deus sive Natura. Assim, o amor universal espinosano é simultaneamente um ato cognitivo e ético: ao perceber-se como modo da substância infinita, o indivíduo participa de uma beatitude que transcende a particularidade.

A cosmopólis estóica, em autores como Sêneca e Marco Aurélio, inscreve o amor universal no âmbito da razão cósmica (logos). O ser humano, enquanto parte do todo racional, tem o dever moral de agir em conformidade com essa ordem, cultivando a oikeiosis — o reconhecimento progressivo da afinidade ontológica com todos os seres. O amor, neste horizonte, é a dimensão prática da razão universal.

Nas tradições orientais, o amor universal assume expressões fenomenologicamente convergentes. O budismo theravāda propõe a prática de metta (benevolência universal) e karuṇā (compaixão), compreendidas como atitudes que emergem da percepção da vacuidade (śūnyatā) e da interdependência (pratītyasamutpāda). O amor, aqui, é uma resposta lúcida à ausência de substancialidade do eu. 

Em Laozi, o Tao Te Ching concebe o amor como modalidade espontânea da virtus (dé) que acompanha o fluxo do Tao — o princípio impessoal e gerador que sustenta o cosmos.

No Hinduísmo, Amor universal manifesta-se de diversas formas. No Vaishnavismo, reflete o afeto inclusivo do Senhor por todos os seres . Nos Puranas, demonstra-se na admiração por Ramacandra. Em Jyotisha, indica a capacidade de atrair afeto, ligada à posição de Vénus . É um amor abrangente que permeia diferentes aspectos da vida e da espiritualidade.

Na modernidade, Albert Schweitzer formula o princípio da “reverência pela vida” como imperativo ético universal, e Teilhard de Chardin interpreta o amor como energia cosmogénica, vetor de complexificação e convergência evolutiva rumo ao ponto Ômega. Ambos introduzem uma leitura bioética e teleológica do amor universal, articulando-o com a dinâmica evolutiva do cosmos.

Em síntese, o amor universal pode ser definido como categoria ontológico-ética, isto é, como o reconhecimento ativo da cooriginariedade de todos os entes no seio do ser. Constitui o fundamento de uma ética da interdependência e de uma ontologia relacional, na qual o cuidado, a compaixão e a solidariedade não são virtudes contingentes, mas expressões necessárias da estrutura do real.

Referências Bibliográficas 
  • Aurelius, M. (2002). Meditations (G. Hays, Trans.). Modern Library. (Obra original publicada ca. 180 d.C.)
  • Buda. (trad. 2010). The Dhammapada (E. Easwaran, Trans.). Nilgiri Press.
  • Chardin, T. de. (1955). Le phénomène humain. Éditions du Seuil.
  • Espinosa, B. de. (1985). Ethica ordine geometrico demonstrata. In Opera Posthuma. (Obra original publicada em 1677).
  • Laozi. (1997). Tao Te Ching (D. C. Lau, Trans.). Penguin Classics.
  • Platão. (1993). O Banquete (J. A. Segurado e Campos, Trad.). Fundação Calouste Gulbenkian.
  • Schweitzer, A. (1923). Kultur und Ethik. C. H. Beck.
  • Séneca. (2001). Cartas a Lucílio (A. C. Amaral, Trad.). Fundação Calouste Gulbenkian

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Gavanaya - Excelente intérprete


Incorporando elementos do jazz espiritual e da instrumentação clássica indiana, a artista Ganavya, nascida em Nova Iorque e criada em Tamil Nadu, revela um videoclipe meditativo para a sua mais recente faixa, Pasayadan, realizado por Vali Chandrasekaran. Extraído do novo álbum Nilam, lançado pela Leiter, a cantora e artista transdisciplinar inicia uma profunda contemplação, em contraste com a natureza, comunicada através de vocais pungentes e movimentos expressivos do bailarino David Adrian Freeland Jr.

"O Pasayadan", explica Ganavya, "é um abhang da tradição da peregrinação. É uma das últimas orações que cantamos, onde o jovem santo reza para que o sol nasça em todos os corações frios, pela sabedoria de nos vermos como árvores que realizam desejos, para que sejamos santuários uns dos outros, para que nos lembremos de que somos os verdadeiros templos uns dos outros. Tratas a crueldade como uma doença. Introduz uma suavidade na vida. Para mim, dada a minha vida particular, é uma suavidade que salva-me."

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Mandala


“Achei que seria a contemplação das coisas belas em dois caminhos mais amplos para que se pudesse aprender tudo em harmonia universal.”

Agostinho da Silva, 'Textos e Ensaios Filosóficos - Volume I'

Mandala: aprenda o que é e o significado na arte e espiritualidade
Publicado por Natália Cruz | Última atualização: 19/6/2025

Introdução
Mandalas são símbolos circulares com formas geométricas em seu centro. Enraizadas em tradições como o budismo e o hinduísmo, elas simbolizam o Universo e a mente humana, desempenhando um papel vital em práticas espirituais.

As mandalas têm origem no hinduísmo e no budismo e são usadas em rituais religiosos e de meditação. Elas também aparecem em outras culturas, como nas tradições dos povos nativos americanos, nesse caso, a mandala é conhecida popularmente como filtro dos sonhos.

Qual é o significado de mandala?
Em Sânscrito a palavra mandala significa círculo e é para os budistas e hindus um símbolo de espiritualidade, cura e conexão. Para os praticantes da religião budista e do hinduísmo, a mandala ajuda na meditação e na concentração. Em algumas práticas  meditativas, a mandala significa a jornada e o progresso espiritual de cada indivíduo. Os desenhos circulares simbolizam a ideia de que tudo na vida está, de alguma forma conectado, todos os acontecimentos são cíclicos  e a própria vida em si não tem um fim.

Os diferentes tipos de mandalas e como eles são usados em diferentes culturas
Existem muitos tipos diferentes de mandalas, incluindo mandalas de cura, mandalas de meditação, mandalas de areia, mandalas de cristal e mandalas de arte. Cada tipo tem um propósito diferente e é usado de maneiras diferentes em diferentes culturas. 

Por exemplo, as mandalas de areia são criadas pelos monges budistas tibetanos como parte de um ritual de meditação e, em seguida, destruídas para simbolizar a impermanência da vida.

Quais culturas utilizam as mandalas
As mandalas são utilizadas em diversas culturas ao redor do mundo, incluindo as culturas hindu, budista e tibetana, entre outras. Além disso, mandalas também são encontradas em tradições indígenas americanas, como a dos Navajos.

Qual é o significado espiritual das cores nas mandalas?
As cores têm significados espirituais diferentes em diferentes culturas. Por exemplo, o vermelho é frequentemente associado à paixão e à energia, enquanto o azul pode simbolizar a serenidade e a calma. 

Ao criar uma mandala, é possível usar as cores para expressar emoções e intenções.

Como as mandalas são usadas na terapia artística e quais são os seus benefícios
As mandalas são frequentemente usadas na terapia artística como uma forma de promover a expressão criativa e a cura emocional. Os benefícios incluem uma maior autoconsciência, redução do estresse e aumento da autoestima.

Como as mandalas são usadas na cultura popular atual
As mandalas têm sido cada vez mais usadas na cultura popular atual como símbolo de espiritualidade, bem-estar e criatividade. Elas aparecem em roupas, acessórios, livros de colorir e em muitas outras formas de media. 

Alguns argumentam que essa popularização pode banalizar a importância cultural e espiritual das mandalas, enquanto outros veem isso como uma oportunidade de difundir a mensagem de paz e harmonia que elas representam.

domingo, 19 de novembro de 2023

Os Hindus


O povo hindu é um dos mais antigos do mundo, que se desenvolveu na região do subcontinente indiano. A palavra hindu vem do persa e significa “o povo que vive do outro lado do rio Indo” . O hinduísmo é a religião predominante entre os hindus, mas não é uma religião monolítica, e sim um conjunto de tradições e crenças variadas.

A origem dos hindus remonta à civilização do Vale do Indo, que floresceu entre 3300 e 1300 a.C. nas margens do rio Indo e seus afluentes . Essa civilização tinha cidades planeadas, sistemas de escrita, comércio, arte e religião. Ela entrou em declínio por volta de 1500 a.C., possivelmente por causa de invasões, mudanças climáticas ou desastres naturais.

Nessa época, chegaram ao território indiano os árias, um povo nómada de origem indo-europeia, que trouxe consigo uma nova língua (o sânscrito), uma nova cultura e uma nova religião (o védico) . Os árias se impuseram sobre os povos nativos, os dravidianos, e estabeleceram um sistema de castas, que dividia a sociedade em quatro grupos principais: os brâmanes (sacerdotes), os xátrias (guerreiros), os vaixias (comerciantes) e os sudras (servos). Havia também os párias ou intocáveis, que eram excluídos do sistema e considerados impuros.

A religião védica era baseada nos Vedas, uma coleção de hinos, rituais e especulações filosóficas sobre a natureza do universo e dos deuses. Os principais deuses eram Indra (o rei dos deuses e senhor das tempestades), Agni (o fogo), Varuna (o céu) e Soma (uma bebida sagrada) . Os árias praticavam sacrifícios de animais e oferendas de fogo para obter favores divinos.

A partir do século VI a.C., surgiram novos movimentos religiosos e filosóficos na Índia, que questionavam a autoridade dos brâmanes e dos Vedas. Esses movimentos enfatizavam a busca pelo autoconhecimento, pela libertação do ciclo de renascimentos (samsara) e pela realização da verdade suprema (brahman). Entre esses movimentos estavam o budismo, o jainismo e o hinduísmo clássico .

O hinduísmo clássico é uma síntese das tradições védicas com as tradições dravidianas e outras influências culturais. Ele se baseia em novos textos sagrados, como os Upanixades (que exploram a relação entre o ser humano e o absoluto), os Puranas (que narram as histórias dos deuses) e os Épicos (como o Ramáiana e o Mahabharata, que contam as aventuras de heróis e reis)

O hinduísmo clássico também valoriza a diversidade de caminhos para se aproximar do divino, como o caminho da ação (karma marga), o caminho do conhecimento (jñana marga) e o caminho da devoção (bhakti marga). Cada um desses caminhos envolve práticas específicas, como rituais, meditações, mantras, yoga, ética e serviço.

O hinduísmo é uma religião viva e dinâmica, que continua se transformando e se adaptando aos tempos. Ele é a religião de mais de um bilião de pessoas no mundo, principalmente na Índia, mas também  noutros países, como Nepal, Sri Lanka, Bangladesh, Indonésia e Estados Unidos. Ele é uma religião rica e complexa, que reflete a história e a cultura do povo hindu.

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Perdoar e pedir perdão não é exclusivo do Catolicismo


Perdoar e pedir perdão não é exclusivo do Catolicismo, Cristianismo. Também existe no Islamismo, no Judaísmo,  na fé Baha´i, no Jainismo, no Hinduísmo e vejam só, no Budismo.
No budismo, o perdão evita que pensamentos nocivos causem estragos no bem-estar mental da pessoa. O budismo reconhece que sentimentos de ódio e má vontade deixam um efeito duradouro no nosso karma mental. O budismo encoraja o cultivo de pensamentos que deixam um efeito mais saudável. "Ao contemplar a lei do karma, percebemos que não se trata de buscar vingança, mas de praticar mettā e perdão, pois o vitimizador é, verdadeiramente, o mais infeliz de todos." Quando os ressentimentos já surgiram, a visão budista é proceder calmamente para libertá-los, voltando às suas raízes  O budismo concentra-se na libertação da ilusão e do sofrimento por meio da meditação e da percepção da natureza da realidade. O budismo questiona a realidade das paixões que tornam o perdão necessário, bem como a realidade dos objetos dessas paixões. "Se não perdoamos, continuamos criando uma identidade em torno de nossa dor, e é isso que renasce. Isso é o que sofre."
O budismo coloca muita ênfase nos conceitos de mettā (bondade amorosa), karuna (compaixão), mudita (alegria simpática) e upekkhā (equanimidade), como um meio de evitar ressentimentos em primeiro lugar. Essas reflexões são usadas para entender o contexto do sofrimento no mundo, tanto o nosso quanto o sofrimento dos outros.
"Ele abusou de mim, ele me bateu, ele me venceu, ele me roubou" — naqueles que abrigam tais pensamentos, o ódio nunca cessará. 
"Ele abusou de mim, ele me bateu, ele me venceu, ele me roubou" - naqueles que não abrigam tais pensamentos, o ódio cessará."
— Dhammapada 1.3–4 (trad. Radhakrishnan)

Referências bibliográficas:
1.Ajahn Sumedho (October 1997). "Universal Loving Kindness". Forest Sangha  
2. O'Leary, Joseph S. (2006). "Buddhism and Forgiveness".  
3. Ajahn Pasanno (2004). "Preparing for Death". Abhayagiri Buddhist Monastery


Sugiro ainda a leitura de Carl Jung no volume 11 das suas obras reunidas, particularmente o capítulo 5  Psychotherapist or the clergy e o artigo The Value of Confession and Forgiveness According to Jung em que é retratado com argúcia o perdão.

terça-feira, 18 de abril de 2023

A força dos bons


"A árvore não prova a doçura dos próprios frutos; o rio não bebe as suas próprias ondas; as nuvens não despejam água sobre si mesmas. A força dos bons deve ser usada para benefício de todos."
Provérbio hindu

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Lua Vermelha - lendas e facto

Incas, mesopotâmicos, hindus, povos ancestrais da América e África: todos construíram interpretações sobre os eclipses. Vale conhecê-las — mas, também, contemplar o fenómeno em si mesmo…


Na mitologia Tupi-Guarani, Anhá é o espírito maléfico da Onça Celeste que devora a Lua, formando o eclipse lunar. Durante esse terrível ataque, a Lua perde muito sangue, ficando completamente avermelhada. Esse mito é um entre tantos outros que explicam os eclipses.

O eclipse lunar chamado "Lua Vermelha" ou "Lua de Sangue" tem fascinado culturas em todo o planeta, e inspirado mitos e lendas curiosos, muitos dos quais retratam o evento como um presságio. Isso não é surpresa, visto que qualquer coisa que interrompa os ritmos regulares do Sol ou da Lua têm forte impacto sobre nós e nossas vidas.

Maldade da lua
Para muitas civilizações antigas, a “lua de sangue” vem com intenções demoníacas. O povo inca interpretava o colorido vermelho profundo como um jaguar atacando e comendo a lua. Acreditavam que o jaguar voltaria então sua atenção para a Terra, de modo que as pessoas gritavam, agitavam suas lanças e faziam seus cães latir e uivar, esperando fazer barulho suficiente para afastar o jaguar.

Na Mesopotâmia antiga, um eclipse lunar era considerado um ataque direto ao rei. Dada sua habilidade de prever um eclipse com razoável precisão, eles colocavam um procurador do rei enquanto durava o fenômeno. Alguém considerado dispensável (não era um cargo popular…) representava o monarca, enquanto o verdadeiro rei se escondia e esperava o eclipse passar. O rei substituto então desapareceria, convenientemente, e o velho rei era reconduzido ao trono.

Algumas lendas hindus interpretam os eclipses lunares como resultado do demónio Rahu beber o elixir da imortalidade. Deidades gémeas, o Sol e a Lua logo decapitavam Rahu, mas como ele havia tomado o elixir, sua cabeça permanecia imortal. Buscando vingança, a cabeça de Rahu caça o Sol e a Lua para devorá-los. Quando os alcança temos um eclipse – Rahu engole a Lua, que reaparece em sua cabeça cortada. Para muitos povos na Índia, um eclipse lunar traz má sorte. Água e comida são protegidos, e são realizados rituais de limpeza. Mulheres grávidas não deviam comer ou fazer serviços domésticos, de modo a proteger a criança não nascida.

Uma face mais amistosa
Mas nem todos os mitos sobre o eclipse são marcados por tais maldades. As tribos de nativos americanos Hupa e Luiseño, da Califórnia, acreditavam que a Lua estava ferida ou doente. Depois do eclipse, precisava então ser curada, seja pelas esposas da Lua ou pelos homens da tribo. Os Luiseño, por exemplo, cantavam canções de cura para a lua escura.

Muito mais edificante é a lenda do povo Batammaliba, do Togo e Benin, na África. Tradicionalmente, eles viam o eclipse lunar como um conflito entre o Sol e a Lua – um conflito que o povo precisa encorajá-los a resolver. É, portanto, um tempo em que antigas disputas devem ser colocadas de lado – uma crença que permanece até hoje.

No Tahiti, segundo um guia de eclipses escrito por Sheridan Willians, da Associação Britânica de Astronomia, o fenómeno ganha uma face romântica. Isto porque o eclipse seria uma sessão de amor entre o Sol e a Lua.

Nas culturas islâmicas, os eclipses tendem a ser interpretados sem superstição. No Islão, o Sol e a Lua representam respeito profundo a Alá. Por isso, durante um eclipse são cantadas preces especiais, inclusive a Salat-al-khusuf, uma “prece para o eclipse lunar”. Ambas pedem perdão a Alá, e reafirmam sua grandeza.

Dragão ou viking, agora escolha
Para os chineses a lua vermelha brilhante era um dragão, já para os vikings era um lobo-do-céu.

Uma história ilusória
Voltando ao sangue, o cristianismo equiparou o eclipse lunar à ira de Deus, associando-o frequentemente com a crucificação de Jesus. É notável que a Páscoa seja o primeiro domingo depois da primeira lua cheia da primavera, assegurando assim que um eclipse nunca cairá no domingo de Páscoa, que marca, potencialmente, o Dia do Julgamento.

Apocalypse Now
Um dos mitos mais propalados nos EUA tem a ver com a Bíblia. De acordo com o salmo Joel 2:31: “O Sol transformar-se-á em trevas e a Lua em sangue antes que venha o grande e terrível dia do Senhor.”

Origem
O termo “lua de sangue” foi popularizado em 2013, após o lançamento do livro Quatro Luas de Sangue, do pastor John Hagee. Ele promoveu a crença apocalíptica conhecida como “profecia da lua de sangue”, destacando uma sequência lunar de quatro eclipses totais que ocorreram em 2014 e 2015. Hagee nota que os quatro caíram em feriados judaicos, o que aconteceu apenas três vezes antes – cada um deles, aparentemente, marcado por maus eventos.

A profecia foi rejeitada por Mike Moore (secretário geral dos Testemunhas Cristãs para Israel) em 2014, mas o termo ainda é usado regularmente pela media e tornou-se um sinônimo preocupante de eclipse lunar. Diante disso e das duradouras superstições, é inútil para os comunicadores da ciência tentar lembrar que não há nada a temer na chamada “lua de sangue”. O fenómeno pode ser impressionante e o mais longo do século, mas é simplesmente um eclipse.

Assim, ao usar o termo “lua de sangue” estamos combinando superstição com ciência, do mesmo modo que a lenda hindu de Rahu fornece uma descrição lendária da mecânica orbital lunar. 

Facto - para a Astronomia, os eclipses ocorrem quando um corpo celeste transita na região da sombra de outro, como, o eclipse lunar total. Nesta efeméride, a Lua, em sua fase cheia, transita na região da sombra da Terra. A refração da luz solar na atmosfera da Terra atinge a Lua, deixando-a com a coloração avermelhada. A “lua de sangue” atrai interesse para o céu e eclipses lunares, mas ao invés de esperar julgamento, destruição e outras lendas, melhor vê-la como uma ilustração monumental dos movimentos fascinantes e reais do nosso sistema solar.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Música do BioTerra: "Glory to God" from Handel's Messiah

Ele está desde o início dos tempos. Muito antes de Buda, Ísis, Zeus, Jesus, Maomé, etc...Ele não condena, não critica, não espolia. Não massacra. Ele é o caminho, o bálsamo. É Luz, Perdão, Amor. Tema muito bonito. Vozes encantadoras.


Glory to God! Glory to God in the highest,
And peace on earth.
Glory to God! Glory to God!
Glory to God in the highest,
And peace on earth.

Goodwill toward men.

Glory to God! Glory to God in the highest,
And peace on earth.

Goodwill toward men.
Goodwill.

Glory to God! Glory to God in the highest! 

domingo, 25 de dezembro de 2022

Música do BioTerra: Dead Can Dance - Sanvean: I am your shadow


"Sanvean: I am your shadow" é uma canção co-escrita em setembro de 1993 por Lisa Gerrard e o compositor/multi-instrumentista Andrew Claxton durante os ensaios na Irlanda  para a tournée internacional dos Dead Can Dance nesse ano. Lisa Gerrard afirmou que escreveu esta música com saudades da sua família que permaneceu na Austrália. A sua primeira apresentação pública foi em Sligo, Irlanda e depois gravada em 1994 no álbum ao vivo Toward the Within, e mais tarde em 1995 no álbum a solo The Mirror Pool e The Best of Lisa Gerrard em 2007. Como a maioria das suas suas obras, é cantada num  registo eufónico e numa pseudo-linguagem emocional. 

It has become an iconic song through its frequent appearance on soundtracks and other uses:
In 1995, it appeared in a Hermès 24 Faubourg advertisement.

In 1999, Paul Oakenfold incorporated "Sanvean" into his release "Perfecto Presents: Another World".
UK Health Education Authority used the song between 1998 and 2003 in an MMR immunisation campaign.

The 2003 episode "7A WF 83429" of The West Wing.

The Cadets, a top five drum corps in Allentown, Pennsylvania, performed their own arrangement brass, percussion and solo vocal throughout the 2006 drum corps season. The use of amplification and the un-traditional solo singer caused some controversy among drum corps fanatics. "Sanvean" is included in their 2006 recording Through the Looking Glass Part II.

In 2006, a free right-of-use of the song was given to the Dutch NGO 'Natuur en Milieu' (Nature and environment), for their campaign 'Geef natuur de ruimte' ("make way for nature").

In 2007, the third episode "Paradise Lost" of Andrew Marr's History of Modern Britain, used an almost complete live version, which was broadcast on BBC2.

In 2008, Sarah Brightman included a cover of "Sanvean" in her album Symphony.

The 2012 episode "Last Straw" of CSI: Miami, used the song during the scene of an attempted suicide.
In 2017 Aly & Fila album "Beyond the Lights" the song was sampled in the track "Shadow"

It is a favourite choice throughout the world for weddings, funerals and other solemn occasions.

For many years it has also been performed internationally by Duo Spiritalis based in Switzerland.

sábado, 24 de dezembro de 2022

Incrível Paz: Um Poema de Natal, por Maya Angelou


O trovão ribomba nas passagens nas montanhas
E relâmpagos sacodem os beirais de nossas casas.
As águas da inundação nos aguardam em nossas avenidas.

A neve cai sobre a neve, cai sobre a neve e avalanche
Sobre aldeias desprotegidas.
O céu fica baixo, cinza e ameaçador.

Nós nos questionamos.
O que fizemos para afrontar a natureza?
Nós preocupamos Deus.
Você está aí? Você está realmente aí?
A aliança que você fez connosco ainda é válida?

Nesse clima de medo e apreensão, o Natal entra,
Fluindo luzes de alegria, sinos de esperança tocando
E cantando canções de perdão bem no alto no ar brilhante.
O mundo é encorajado a se afastar do rancor,
Venha o caminho da amizade.

É a temporada feliz.
O trovão se reduz ao silêncio e o relâmpago dorme silenciosamente no canto.
As águas da enchente voltam à memória.
A neve se torna uma almofada flexível para nos ajudar
À medida que avançamos para um terreno mais alto.

A esperança renasce no rosto das crianças
Ele monta nos ombros de nossos idosos enquanto caminham para o pôr do sol.
A esperança se espalha pela terra. Iluminando todas as coisas,
Mesmo o ódio que se agacha procriando em corredores escuros.

Em nossa alegria, pensamos ouvir um sussurro.
No início, é muito mole. Então, apenas metade ouviu.
Ouvimos atentamente enquanto ele ganha força.
Ouvimos uma doçura.
A palavra é paz.
Está alto agora. Está mais alto.
Mais alto do que a explosão de bombas.

Trememos com o som. Estamos emocionados com sua presença.
É o que temos fome.
Não apenas a ausência de guerra. Mas, paz verdadeira.
Uma harmonia de espírito, um conforto de cortesias.
Segurança para nossos entes queridos e seus entes queridos.

Batemos palmas e damos as boas-vindas à Paz do Natal.
Acenamos para que esta boa temporada espere um pouco connosco.
Nós, batistas e budistas, metodistas e muçulmanos, dizemos venha.
Paz.

Venha e preencha a nós e ao nosso mundo com sua majestade.
Nós, o Judeu, o Católico e o Confucionismo,
Imploro que fique um pouco connosco.
Então, podemos aprender com sua luz cintilante
Como olhar além da pele e ver a comunidade.

É a época do Natal, uma pausa na época do ódio.

Nesta plataforma de paz, podemos criar uma linguagem
Para nos traduzirmos para nós mesmos e uns para os outros.
Neste instante sagrado, celebramos o nascimento de Jesus Cristo
Para as grandes religiões do mundo.
Nós exultamos o precioso advento da confiança.
Gritamos em línguas gloriosas com a chegada da esperança.
Todas as tribos da terra soltam suas vozes
Para celebrar a promessa de paz.

Nós, anjos e mortais, crentes e não crentes,
Olhe para o céu e fale a palavra em voz alta.
Paz. Olhamos para o nosso mundo e falamos a palavra em voz alta.
Paz. Nós olhamos um para o outro, então para nós mesmos
E dizemos sem timidez, sem desculpas ou hesitação.

Paz, meu irmão.
Paz, minha irmã.
Paz, minha alma.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Arundhati Roy - O Deus das Pequenas Coisas


A ler o artigo: The Dismantling of the World as We Know It

O Deus das Pequenas Coisas, da indiana Arundhati Roy (Companhia de Bolso, 352 páginas), poderia ser descrito como um livro sobre a relação quase siamesa entre irmãos gémeos. Ou sobre a Casa Ayenemen, um lugar em que realidade e imaginação se misturam de forma fluída. Mas a melhor definição é da própria autora: essa é uma obra sobre as leis que determinam “quem deve ser amado, e como. E quanto”.

O livro fala de castas e toca em temas tabus. Por isso, a autora foi levada a tribunal por obscenidade.

O livro tem como ponto de partida o retorno de Rahel, uma das metades do casal de gémeos bivitelinos que protagoniza a narrativa, para a cidade em que nasceu, após um longo tempo distante da Índia. Essa volta é significativa porque é a partir dos fragmentos da história que persistem em móveis, objetos e paredes de sua antiga casa que a escritora nos guiará até o dia fatídico em que tudo mudou. Logo na primeira página, Arundhati Roy nos encanta com seu poder descritivo, sua capacidade de criar imagens fortes e vívidas, nos deixando familiarizados com o ambiente que ela busca retratar:

Maio em Ayemenem é um mês quente, parado. Os dias são longos e húmidos. O rio encolhe, e corvos pretos se banqueteiam com belas mangas em árvores imóveis, verde-empoeiradas. Bananas vermelhas amadurecem. Jacas explodem. Varejeiras dissolutas zunem vagabundas no ar perfumado. Depois se estatelam contra vidraças transparentes e morrem, totalmente enganas, ao sol. (…) Mas no começo de junho irrompe a monção sudoeste, e vem três meses de vento e água com curtos intervalos de sol duro e brilhante em que crianças excitadas aproveitam pra brincar.

Conforme Rahel explora o entorno da casa, ela nos apresenta o “microcosmo” composto por sua família, uma representação da Índia presa entre tentativas de modernização e velhos preconceitos arraigados na sociedade. No mosaico familiar composto pela mãe divorciada, pelo tio sem rumo, por uma avó de personalidade forte e por uma tia cujos sonhos desabaram, um a um, até que só sobrasse o rancor e a inveja, vamos conhecendo os personagens decisivos para a noite do Terror, como é descrito o dia em que “tudo mudou”.

A chegada de Sophie Mol, filha do tio Chacko, inglesa de peles claras e cabelo afogueado, estará indelevelmente associada à esses acontecimentos, mas é apenas aos poucos que a autora constrói esse quebra-cabeça.

Antes de tudo, ela parece querer nos mostrar que o mais insignificante dos acontecimentos, a menor das vergonhas, a mais banal conversa, podem levar a tragédias familiares sem precedentes.

No entanto, sua escrita quase lírica, em que substantivos viram verbos, em que palavras e termos se repetem, em que o onírico estado de ser da infância se confronta com a dureza crua do mundo dos adultos, pode ser um pouco cansativa e arrastada em alguns momentos, até que a narrativa engrene, na metade final do livro. A leitura, no entanto, continua a fluir, especialmente por causa da capacidade de Roy de elaborar imagens pungentes em metáforas que poderiam ser banais:

O silêncio encheu o carro como uma esponja encharcada. Derrotado cortou como uma faca numa coisa macia. O sol brilhava com um suspiro estremecido. Era esse o problema das famílias. Assim como médicos hostis, elas sabiam exatamente onde machucar.

Atravessar a primeira parte, mais morosa, vale a pena pelo desfecho triste, mas muito belo dessa narrativa, que levou a autora a ser a primeira indiana premiada com o Man Booker Prize, em 1987. Ao falar de quem pode amar a quem, e quanto – e o potencial trágico de se romper essas regras não-escritas, Roy constrói um lindo romance sobre o arcaico sistema de castas indiano, que prevalece até hoje, num paradoxo que o “mundo não discute, não questiona”, como declarou a autora.

Biografia e Obra
Arundhati Roy

domingo, 23 de outubro de 2022

Os direitos das mulheres são direitos humanos


Proteger as mulheres


Exponho estas encíclicas:
São textos bonitos, mas têm algumas armadilhas católicas: a mulher não pode abortar; a mulher estéril vive em pecado; a mulher serve o marido e filhos e está vedada o acesso a presidir uma Missa.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Filosofia e religião: o que é arte mandala?

A arte mandala é conceituada em práticas espirituais dos Hindus, Budistas, Taoístas, Cristãos, no Japão medieval (Shintō) e entre os Nativos Norte-Americanos. O seu desenho é constituído por formas geométricas, símbolos e cores que se combinam. Além disso a arte mandala tem objetivos sagrados e outros significados que promovem a junção de amor, cura e natureza.


Significado da Mandala
A palavra mandala significa círculo em sânscrito e é considerada como um símbolo de cura e espiritualidade. Para os hinduístas e budistas, a mandala ajuda na concentração da prática meditativa e é comum encontrá-la nos templos dessas religiões.

As mandalas tibetanas são feitas em areia e requerem um longo tempo de preparação. Não há um padrão de decoração para o interior das mandalas e por isso, há mandalas que trazem a figura de Buda, enquanto outras mostram apenas figuras geométricas.

No Cristianismo, encontramos mandalas nos vitrais góticos.
 
Uma antiga lenda indígena conta que uma mãe não conseguia que seu filho dormisse à noite.

Por isso, procurou ajuda da curandeira da tribo que a recomendou fazer um círculo com um labirinto dentro e o pendurasse. A mãe o fez e a criança pôde dormir tranquila, pois os sonhos maus ficaram presos no emaranhado de linhas.

Portanto os nativos norte-americanos acreditam que a mandala tenha o poder de proteger e afastar os maus sonhos e espíritos malignos. Por isso, também recebe o nome de filtro dos sonhos.

O que a filosofia diz sobre o termo mandala?
Na filosofia, esse termo é caracterizado como um diagrama que é composto de formas geométricas concentradas (não é uma arte livre, o conformismo, o padrão é comum nesse tipo de arte).

Nas práticas psicofísicas do hinduísmo e do budismo como, ioga e tantrismo, esse termo é utilizado como uma representação, um ponto focal para meditação e concentração do ser humano.

Justamente por isso que a arte mandala se propõe a designar um fluxo de pensamento. Oferecendo um estímulo baseando-se em conteúdo sagrado e espiritual; uma prática de meditação com cores, símbolos e significados.

Cada figura e cor representa aspectos inconscientes da pessoa. Alguns de seus significados são os seguintes:
  • Vermelho: paixão, sensualidade, força, poder e agressividade. Primeiro chakra.
  • Laranja: prazer, glória, vaidade, progresso e energia. Segundo chakra.
  • Amarelo: alegria, vontade e novidade. Terceiro chakra.
  • Verde: esperança, autocontrole e natureza. Quarto chakra.
  • Azul: tranquilidade, seriedade, respeito e comunicação. Quinto chakra.
  • Violeta: meditação, criatividade e oscilação. Sexto chakra.
  • Branco: paz, harmonia, bondade, delicadeza e timidez. Sétimo chakra.
  • Preto: profundidade, mistério, autoridade, dignidade, segurança, tristeza e luto.
  • Círculo: dinamismo e conexão com o cosmos.
  • Cruz: inconsciente e consciente, união do céu e da terra.
  • Triângulo: transformação e vitalidade.
  • Quadrado: estabilidade e equilíbrio.
  • Labirinto: busca do próprio centro.
Alguns símbolos comuns na mandala incluem:
  • Roda com oito raios - A natureza circular de uma roda funciona como uma representação artística de um universo perfeito. Os oito raios representam o Caminho Óctuplo do Budismo, um resumo das práticas que levam à libertação e renascimento.
  • Sino- Os sinos representam uma abertura e esvaziamento da mente para permitir a entrada de sabedoria e clareza.
  • Triângulo- Quando voltados para cima, os triângulos representam ação e energia, e quando voltados para baixo, representam a criatividade e a busca do conhecimento.
  • Flor de lótus- um símbolo sagrado no budismo, a simetria de uma lótus representa o equilíbrio. Assim como uma lótus sobe debaixo d’água para a luz, o mesmo acontece com um humano que busca o despertar espiritual e a iluminação.
  • Sol - Uma base popular para os padrões de mandala modernos, o sol tende a representar o universo, muitas vezes carregando significados relacionados à vida e à energia.
  • Resumindo, em termos mais religiosos ou extensões da psicologia, a mandala representa simbolicamente a luta pela unidade total do eu, o ponto central das emoções e o controle delas.
Afinal, qual é o objetivo da arte mandala?
A arte mandala tem como objetivo se designar a uma intenção sagrada. A nossa mente é intuitiva e nem sempre estão em sintonia com a situação real em que estamos vivendo.

Benefícios terapêuticos das mandalas
As mandalas foram reconhecidas pela psicologia como uma ferramenta terapêutica. O psicólogo suíço Carl Jung disse que são como representações da nossa mente. Ele achava que eles tornavam mais fácil para nós nos concentrarmos, transformarmos e internalizarmos as coisas inconscientes em nós. Ele também disse que projetamos o que pensamos e sentimos em mandalas.

Existem também vários ramos diferentes da psicologia que falaram sobre seus benefícios. A psicologia transpessoal vê as mandalas como uma espécie de exercício de conexão profunda. A psicologia cognitiva e comportamental a vê como uma ferramenta para melhorar coisas como memória, atenção, percepção e coordenação visomotora.

Existem algumas outras configurações em que as pessoas também usam mandalas. Por exemplo, as pessoas os usam em terapia ocupacional porque a estimulação cognitiva ajuda as pessoas a realizar as suas atividades diárias. As pessoas também os usam em ambientes educacionais para ajudar os alunos com concentração, atenção e disciplina.

sábado, 6 de agosto de 2022

O regresso das religiões em estado selvagem e os seus ímpetos belicistas

Por Carlos Esperança

Por todo o Mundo, a política está a ser capturada pelas religiões. As democracias secam ao som de cânticos ao Divino e anátemas às liberdades individuais. Clérigos de todas as fés assumem a relevância que os padres perderam na Europa com a repressão política de que foram alvo e que permitiu o surgimento da laicidade e das democracias liberais.

A igualdade entre homens e mulheres, a autodeterminação sexual da mulher, o respeito pela sua saúde reprodutiva, em suma, os Direitos Humanos, só foram possíveis com a separação do Estado e das Igrejas, contida a alegada vontade divina interpretada pelos funcionários de Deus.

O proselitismo e a luta entre religiões regressam em força à sombra das liberdades que a democracia exige, e bem, e da cumplicidade que os oportunismos eleitorais atraem.

A violência pia entrou numa espiral que subverte as democracias e reforça as ditaduras, desde os estados falhados aos mais avançados países do Planeta, das tribos medievais às democracias aparentemente consolidadas.

O Afeganistão é o caso mais dramático e grotesco, onde o mais implacável monoteísmo regressou recentemente ao poder numa brutal fusão com o tribalismo, na apoteose misógina que exonerou os direitos humanos e reconduziu as mulheres à escravatura.

Na Birmânia, o budismo, sob traje monástico ou dentro de botas e fardas militares, leva a cabo o genocídio dos rohingyas e impede o advento da democracia.

As teocracias muçulmanas no Médio Oriente, África, Europa, ou onde quer que medrem sob os escombros de democracias ou ditaduras laicas, erradicam religiões concorrentes e reduzem as mulheres à condição de propriedade dos homens.

Na Turquia, o Islão é o combustível que incinera a República laica de Atatürk e apoia o proto-califa Erdogan na difusão de mesquitas, na Europa e em África, e no genocídio dos curdos. A agência turca (Tika), com enormes recursos financeiros, é o instrumento do PR para renovar túmulos, santuários e mesquitas oriundos do Império Otomano nos Balcãs e projeta novos locais de culto na região, Macedónia do Norte, Kosovo, Albânia e Bósnia-Herzegovina para espalhar a fé e a espionagem através de imãs.

Na Rússia, a Igreja Ortodoxa abençoa guerras e benze canhões para todos os conflitos, na Síria, na Ucrânia ou onde o autocrata de turno quiser.

Na Índia, a “maior democracia do Mundo”, Modi é um ditador democraticamente eleito com folgadas maiorias graças à radicalização do nacionalismo hindu, exacerbado contra indianos muçulmanos, defensor da hierarquia das castas e ansioso do regresso à tradição de meter as viúvas na pira que incinera os maridos defuntos.

No Brasil e nos EUA a cruzada evangélica, de contornos nazis, causa inquietude quanto ao futuro das respetivas democracias depois de terem levado ao poder figuras repulsivas como Bolsonaro e Trump, com risco de reincidência. O fundamentalismo evangélico e o ódio aos direitos individuais exercem um proselitismo militante com futuro garantido no Supremo Tribunal dos EUA nas próximas décadas. 

domingo, 5 de junho de 2022

Música do BioTerra: The Psychedelic Furs - Until She Comes


Until she comes again
I can hear the things she said
I feel no thoughts to move my head

Until she comes again
And with her step
I move my feet
And with her hand
I feel my skin
And with her need
I find I'm saved
And with her dreams
I'm laid

Until she comes again
The sun goes out and night comes in
The time goes round and day grows dim

Until she comes again
And with her step
I move my feet
And with her hand
I feel my skin
And with her need
I find I'm saved
And with her dreams
I'm laid

Until she comes again
With all my savings and my sins
There's no good reason to begin

Until she comes again
And with her step
I move my feet
And with her hand
I feel my skin
And with her need
I find I'm saved
And with her dreams
I'm laid

Until she comes again
With all her dreams tied in her hand
There is no way to understand

Until she comes again
Until she comes again
The sun goes out and night comes in
The time goes round and day grows dim
Until she comes again


Gosto tanto deste tema. Fico abalado com a violência doméstica e feminicídio em Portugal. Ainda são números muito preocupantes (ok, também conheço agressão da esposa sobre o marido, mas é muito mais raro). O séc. XXI. é o da Mulher, como previa George Steiner. A Europa está muito melhor neste aspecto. Há muitas mulheres na Política. Mas no resto do mundo, em particular, o mundo muçulmano e hinduísta, a emancipação da mulher ainda é "crime". 
Tudo parece mais negro e desesperante, até que Ela aparece.