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terça-feira, 28 de julho de 2026

Por que razão Taiwan é o coração da IA mundial e o ponto mais crítico da geopolítica global?


Quando se fala na revolução da Inteligência Artificial (IA), a atenção recai habitualmente sobre os grandes algoritmos desenvolvidos em Silicon Valley, os supercomputadores de Elon Musk ou os apoios estatais em Pequim. Contudo, toda a arquitetura da economia digital moderna assenta fisicamente sobre uma ilha no Pacífico com cerca de 36 mil quilómetros quadrados: Taiwan.

A relevância de Taiwan ultrapassou a esfera do comércio tradicional para se converter no centro de gravidade da segurança nacional global, da transição energética e do futuro da computação.

O Monopólio da TSMC e o "Escudo de Silício"
Nvidia desenha os processadores gráficos (GPUs) mais potentes do mundo e empresas como a xAI, a Meta e a OpenAI desenvolvem os modelos de IA, mas nenhuma destas entidades fabrica os seus próprios chips.

A produção física de mais de 90% dos semicondutores de ponta do planeta está concentrada numa única empresa taiwanesa: a TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company).

Fundada em 1987 por Morris Chang, a TSMC popularizou o modelo de "fundição pura" (pure-play foundry), optando por fabricar os componentes concebidos por terceiros sem competir com eles no design. Esta especialização permitiu à empresa dominar as técnicas de litografia mais avançadas do mundo (nodos de 3nm e 2nm). Sem a precisão atómica das fábricas (fabs) em Hsinchu e Tainan, a produção de novos servidores de IA, processadores para smartphones e sistemas de navegação avançados pararia quase instantaneamente a nível global.

Esta concentração extrema deu origem ao conceito de "Escudo de Silício" (Silicon Shield): a teoria de que a dependência vital do Ocidente e da China em relação aos chips taiwaneses impede uma intervenção militar direta, uma vez que a destruição ou paralisação das infraestruturas da TSMC desencadearia um colapso económico global imediato.

O ponto de falha único na Guerra Fria Tecnológica
A posição geográfica e industrial de Taiwan transformou a ilha no principal ponto de fricção entre as duas maiores potências do mundo:
  1. A perspectiva dos EUA: em Washington, a dependência excessiva em relação à TSMC é encarada como o maior risco estratégico de segurança nacional. As administrações americanas têm pressionado a TSMC a diversificar a produção - construindo fábricas no Arizona e na Europa - enquanto impõem controlos de exportação para impedir que semicondutores avançados produzidos em Taiwan cheguem à China.
  2. A perspectiva da China: Pequim considera Taiwan uma província rebelde e defende a "reunificação" como prioridade nacional. Contudo, as sanções americanas que proíbem a venda de chips da Nvidia fabricados em Taiwan para o mercado chinês aceleraram a corrida de Pequim pela autossuficiência tecnológica, levando laboratórios chineses a apostar fortemente em modelos de IA de código aberto (open weights) para otimizar o hardware de que dispõem localmente.
O Impacto na economia real e na sustentabilidade
A relevância de Taiwan não se esgota no setor da defesa ou da tecnologia pura. Estudos de mercado sobre a transição sustentável - como as análises da Boston Consulting Group (BCG) em parceria com a Temasek - indicam que centenas de milhares de milhões de euros em ganhos de produtividade futura virão da aplicação de IA em redes elétricas inteligentes, manutenção preditiva e otimização industrial.

Toda esta transformação na economia real depende do fornecimento contínuo de novos chips. Caso a cadeia de abastecimento em Taiwan seja interrompida por um bloqueio naval ou conflito armado, os custos para a economia mundial seriam contados em biliões de dólares, afetando desde a produção automóvel à gestão energética global.

Referências Bibliográficas e Análises de Referência
Para aprofundar a análise sobre a centralidade de Taiwan no ecossistema global de semicondutores e geopolítica, destacam-se as seguintes obras e relatórios essenciais:

A obra de referência sobre a história da indústria dos semicondutores, detalhando como a TSMC e Taiwan se tornaram o ponto mais crítico da economia moderna.

2. Center for Strategic and International Studies (2024). Geopolitics and the Semiconductor Supply Chain. CSIS.
Análises estratégicas sobre o impacto de uma potencial crise no Estreito de Taiwan e a vulnerabilidade da infraestrutura tecnológica ocidental.

3. Boston Consulting Group & Semiconductor Industry Association (2021).Strengthening the Global Semiconductor Supply Chain in an Uncertain Era. BCG / SIA.
Estudo detalhado que mapeia os pontos de falha único (single points of failure) na cadeia de valor dos chips, com destaque para o monopólio de Taiwan na litografia de ponta.

4. TrendForce (2024). Global Semiconductor Foundry Market Share Analysis. TrendForce.
Relatórios de mercado que acompanham a quota de fabricação de semicondutores, demonstrando a liderança superior a 90% da TSMC no segmento de nós avançados para IA.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

França e Espanha tentam sobreviver a um fenómeno que está a atingir o Mediterrâneo e que ainda não chegou a Portugal

Os incêndios que destruíram parte de Vouzela e Alijó nos últimos dias são um exemplo de que é preciso estar atento, mas Portugal vai-se livrando, pelo menos para já, do inferno que está a atingir os países aqui ao lado.

Com a Europa em pânico perante ondas de calor consecutivas, França e Espanha são os melhores exemplos de um verão terrível que está deixar milhares e milhares de pessoas em sobressalto.

Depois de Almería ter vivido o pior incêndio de sempre da Andaluzia, com 13 mortes contabilizadas, mais acima cerca de 20 mil pessoas foram forçadas a deixar as suas casas perante os fogos fogos florestais de França.

É uma nova onda de calor vinda do mar que os investigadores não temem apelidar de “dantesca”, com a costa atlântica francesa a ter um impacto particularmente intenso.

Mais abaixo, e não muito longe de Almería, a província de Murcía vai sofrendo com dias constantes acima dos 40 graus. Esta terça-feira foram 44,7 em Cieza, de acordo com a agência de meteorologia de Espanha, a Aemet.

Antes disso tinham sido cidades como Albacete, Ávila ou Teruel a registar temperaturas recorde para julho, com os termómetros a chegarem aos 42 graus. Já nos arredores de Madrid tiveram de ser retiradas mais de três mil pessoas perante o perigoso aproximar das chamas.

De acordo com o Sistema de Monitorização do Mediterrâneo, esta onda de calor está a afetar 80% da superfície do mar que banha o sul da Europa, provocando temperaturas por vezes extremas, algumas delas com anomalias de cinco graus acima do expectável. Portugal, até porque tem a costa já em mar aberto, vai conseguindo escapar a este fenómeno.

Os dados do Sistema Europeu de Informação de Fogos Florestais apontam mesmo um ano recorde em termos de área ardida nesta altura do ano. É quase o dobro em relação ao mesmo período registado nas últimas duas décadas.

Em França a situação não é muito diferente. O fogo que começou junto à vila de Saumos, a 40 quilómetros de Bordéus, já queimou 3.700 hectares em pouco mais de 24 horas.

Não há registo de vítimas, mas muitas vidas não voltarão a ser as mesmas, até porque muitas casas foram totalmente consumidas pelas chamas. Nas últimas horas chegaram a estar 800 operacionais apoiados por vários meios aéreos a tentar conter as chamas, mas a situação continua “desfavorável” e longe de estar controlada.

“O fogo está altamente errático e a ganhar força muito significativa”, avisou o chefe do serviço regional de bombeiros, Marc Vermeulen, citado pelo jornal The Guardian.

“Uma das principais frentes está muito próxima de uma área semi-urbana. Estamos a defender casa a casa”, acrescentou.

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segunda-feira, 13 de julho de 2026

Despejo dos hortelões no Porto - "Misericórdia" só de nome


O caso do despejo dos utentes da Horta Comunitária do Porto deixa-me triste e indignado. Contrariamente ao último relatório da SCMP (2025), que é totalmente positivo - destacando inclusive a atribuição de 62 novos talhões, em 2025, no âmbito do projeto Horta à Porta -, a realidade atual demonstra o oposto.

Uma instituição cujo foco histórico é a "Misericórdia" e o apoio social não pode extinguir um projeto com tanto impacto positivo na comunidade e na sustentabilidade urbana. Com esta decisão, a SCMP comporta-se como uma empresa privada de saúde mental, descurando o facto de que o contacto com o meio ambiente é parte fundamental da terapia e da recuperação dos utentes. Inúmeros estudos clínicos comprovam que tratar a saúde mental ignorando o meio ambiente e a natureza é uma abordagem clinicamente ineficaz. 

Isto traduz-se em pura lavagem verde (greenwashing), fazendo desaparecer, em pouco mais de três meses, uma das maiores hortas urbanas da Europa.

A polémica em torno do fim das hortas públicas da LIPOR no Porto (o programa "Horta à Porta") e o consequente despejo dos hortelãos é o reflexo perfeito de um trade-off político e social - aquele cenário clássico em que, para se ganhar de um lado, tem de se sacrificar o outro, sem que exista uma solução que agrade a todos. No centro da discussão, a postura do executivo liderado por Pedro Duarte ilustra bem esta balança de prioridades.

De um lado da balança, a autarquia e os proprietários dos terrenos, como a Santa Casa da Misericórdia do Porto (dona do espaço junto ao Hospital Conde Ferreira), justificam a desocupação com a necessidade de avançar com planos de reestruturação interna. No caso da Misericórdia, o argumento oficial não é a venda dos terrenos para a especulação imobiliária, mas sim a modernização e requalificação do complexo hospitalar, além da reorientação da horta para fins puramente terapêuticos e sociais da própria instituição. Sob o ponto de vista da gestão de ativos, trata-se de rentabilizar e ordenar o património para garantir a sustentabilidade das suas próprias obras de assistência.

Do outro lado da balança, o custo deste ganho institucional é inteiramente social e ambiental. O encerramento do projeto destrói uma das maiores redes de hortas comunitárias da Europa, retira o sustento e o passatempo de mais de duas centenas de famílias e elimina focos essenciais de biodiversidade e coesão social no meio do asfalto da cidade. É precisamente aqui que o trade-off se torna mais evidente para Pedro Duarte: ao focar-se na gestão rigorosa de ativos, na reavaliação de cedências antigas e na aplicação estrita da lei sobre a ocupação dos terrenos, o executivo municipal prioriza a eficiência e o ordenamento do património público. Contudo, assume o pesado custo reputacional e político de ser criticado pela oposição por falta de sensibilidade social e pela ausência de alternativas viáveis de realojamento para os produtores locais. 

Mesmo que o objetivo declarado não seja o lucro imediato através de imobiliário, a decisão mexe com feridas abertas na cidade. O receio da oposição e dos hortelãos de que a libertação destes espaços centrais acabe por abrir portas à pressão imobiliária a longo prazo é o que alimenta o conflito. A atuação do executivo neste caso não se resume a um acerto ou erro absoluto, mas sim à escolha consciente de um dos lados da balança; é uma escolha ideológica e de gestão. Optou-se pelo ordenamento e requalificação dos equipamentos, aceitando como "dano colateral" o desalojamento de uma comunidade que ali tinha criado raízes.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Europa: bombas de calor substituem a dobrar gás do Médio Oriente; que país lidera?

As vendas de bombas de calor dispararam em toda a Europa, ajudando as famílias a suportar os custos elevadíssimos do gás numa altura de guerra contra o Irão.

Segundo uma nova análise da Associação Europeia de Bombas de Calor (EHPA), as bombas de calor do continente fornecem tanta energia térmica como o gás natural liquefeito (GNL) transportado por mais de 200 navios-tanque.

Isto é o dobro do volume que chegou à UE em 2025 vindo do Médio Oriente e representa cerca de 7% do total anual de GNL importado pela UE. Segundo a EHPA, só em 2025 isso permitiu evitar custos de importação no valor impressionante de 9,7 mil milhões de euros.

Bombas de calor transformam o aquecimento na Europa
Quase três milhões de bombas de calor, que captam energia do ar, da água ou do solo e a convertem em calor ou ar frio, foram vendidas em 21 países europeus no ano passado, elevando o parque instalado para 29,3 milhões de unidades.

A análise indica que só as 2,9 milhões de novas bombas de calor substituem 2,5 mil milhões de metros cúbicos de GNL, o equivalente a cerca de 24% das importações da UE provenientes do Médio Oriente.

“Cada bomba de calor instalada representa mais um reforço da segurança energética europeia”, afirma Paul Kenny, da EHPA.

“O GNL é a fonte de energia mais cara e vem de fornecedores pouco fiáveis, mas as bombas de calor podem reduzir drasticamente a nossa dependência desse combustível. Na verdade, os europeus já estão a afastar-se dos sistemas de aquecimento a combustíveis fósseis, como mostram os nossos novos dados.”

Kenny acrescenta que o bloco tem agora de tornar o aquecimento limpo tão “simples e acessível” quanto possível.

O bloco prepara atualmente um pacote não legislativo sobre eletrificação, que deverá ser apresentado este mês. Para incentivar a adoção de bombas de calor, os Estados-membros são instados a reduzir impostos e IVA sobre o aquecimento verde e a eletricidade, medida que a Comissão já está a ponderar.

Muitos países europeus já oferecem incentivos para tornar as bombas de calor mais acessíveis. Mesmo Inglaterra, que historicamente registou a menor adesão a bombas de calor, concede um apoio de 7.500 libras (cerca de 8.638,76 euros) para ajudar a cobrir o custo de instalação, se forem cumpridos determinados critérios.

Que país europeu tem mais bombas de calor?
A França liderou no ano passado, com a venda de impressionantes 528 mil bombas de calor. O país tem agora o maior número de bombas de calor instaladas na Europa, com cerca de sete milhões de unidades.

A Itália surge logo a seguir, com 423 mil unidades vendidas em 2025, enquanto Malta (2 mil), Luxemburgo (3 mil) e Chipre (5 mil) ficaram no fim da tabela. Importa, porém, notar que a população destes três países em conjunto é de apenas cerca de 2,5 milhões de pessoas (face aos cerca de 69 milhões que vivem em França).

A Alemanha registou o maior aumento homólogo, com as instalações a dispararem 50%. A subida das vendas surge depois de o país ter abandonado, de forma controversa, um projeto de lei que obrigava as famílias a substituir caldeiras a combustíveis fósseis por alternativas compatíveis com o clima.

A líder parlamentar dos Verdes, Katherina Droege, cujo partido apresentou a lei original em 2023, descreveu a decisão como “um abandono completo das metas climáticas da Alemanha”.

Em termos relativos à dimensão da população, a Noruega lidera a corrida às bombas de calor, com 650 instalações por cada mil agregados familiares. A Finlândia segue de perto, com pouco mais de 540 instalações por cada mil agregados familiares.

Estes países mais frios derrubaram o mito de que as bombas de calor não funcionam com temperaturas baixas. Mesmo quando os termómetros descem aos 30 graus negativos, as bombas de calor podem continuar a ser mais eficientes do que o aquecimento elétrico.

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sábado, 6 de junho de 2026

Evangelina Mascardi baroque lute: Preludio e Fuga de Sylvius Leopold Weiss

Tenho tido a incrível sorte de assistir a inúmeros concertos ao vivo ao longo dos anos, desfrutando tanto de ambientes íntimos em recintos fechados como de atuações ao ar livre, rodeadas pela natureza. Há uma alquimia única quando música bela é tocada com tanta naturalidade por um verdadeiro mestre e, para mim, Evangelina Mascardi personifica essa perfeição. O seu domínio do alaúde é absolutamente hipnotizante.

O meu profundo amor por este instrumento estende-se também à brilhante obra do alaúdista e compositor alemão Sylvius Leopold Weiss. As suas composições transmitem uma beleza profunda e intemporal que ressoa profundamente, especialmente quando trazidas à vida por artistas que compreendem a alma delicada do alaúde.

Ouvir esta música no seio da natureza é uma experiência sublime - onde o suave dedilhar das cordas se funde na perfeição com o farfalhar das folhas e o céu aberto. É uma lembrança de quão poderosa e reconfortante a arte pura pode ser.

Biografia de Evangelina Mascardi

Tocar um instrumento musical como o alaúde barroco em plena natureza é uma experiência que cruza de forma profunda a biologia, a cultura e a sensibilidade humana. Para compreender esta ação, podemos dividi-la em duas perspetivas fundamentais: a biofilia e a etnobiologia. A biofilia, um conceito popularizado pelo biólogo E. O. Wilson, sugere que os seres humanos possuem uma tendência inata para procurar conexões com o mundo natural e outras formas de vida. Ao levar um instrumento para um bosque, para uma praia ou para um jardim, o músico não está apenas a contemplar a paisagem, mas sim a interagir ativamente com ela. A música transforma-se num diálogo e numa busca por bem-estar, onde o ritmo do dedilhar e o timbre do instrumento se alinham instintivamente com o som do vento, das ondas ou do canto dos pássaros. No caso específico do alaúde barroco, esta ligação é ainda mais íntima devido à sua natureza inteiramente orgânica, construída com madeiras ressonantes leves e cordas delicadas, produzindo um som acústico e suave que não agride o ecossistema, mas funde-se perfeitamente com ele.

Por outro lado, embora o ato isolado de tocar não seja uma ciência, a relação humana e cultural que o sustenta é o objeto de estudo perfeito para a etnobiologia. Esta disciplina estuda as complexas interações entre as sociedades humanas e os ecossistemas ao seu redor. Quando analisamos o alaúde barroco sob esta lente, entramos no campo da etnobotânica aplicada à luthieria, que é a arte de construir instrumentos de corda. A própria existência do alaúde é o resultado de séculos de conhecimento acumulado por artesãos europeus sobre as propriedades físicas e acústicas das árvores. Para criar o tampo harmónico do instrumento, por exemplo, utiliza-se historicamente o abeto de ressonância, uma madeira proveniente de árvores que crescem em altitudes elevadas e em condições de frio extremo, como nos Alpes. Este crescimento lento gera anéis de madeira extremamente compactos e regulares, garantindo uma elasticidade e uma rigidez únicas que permitem ao instrumento vibrar com a máxima sensibilidade. Já para a construção da concha traseira do alaúde, recorre-se a madeiras como o ácer, que reflete o som rapidamente e confere brilho e clareza às notas, ou o teixo e as madeiras de árvores de fruto, como a ameixoeira, que trazem doçura e harmónicos calorosos à música.

Existe ainda uma ponte fascinante entre estes conceitos chamada biomúsica ou zoomusicologia, que estuda a música humana que incorpora ou responde diretamente aos sons do ambiente. No período Barroco, compositores como Sylvius Leopold Weiss criavam obras inspiradas na imitação da natureza, tentando traduzir paisagens e movimentos do mundo natural para as cordas do instrumento. Ao interpretar estas peças ao ar livre, o músico está, na verdade, a devolver essa matéria-prima florestal, agora transformada em património cultural, ao seu local de origem. Cria-se assim uma simbiose física e ambiental instantânea, uma vez que a madeira, sendo um material vivo e higroscópico, reage diretamente ao microclima, expandindo-se ou contraindo-se com a humidade e a temperatura do ar. Hoje em dia, esta relação enfrenta até desafios ecológicos modernos, pois as alterações climáticas e os invernos menos rigorosos na Europa fazem com que as árvores cresçam mais depressa, forçando os construtores de instrumentos a subir cada vez mais alto nas montanhas para encontrar a madeira ideal. Assim, tocar este instrumento na natureza manifesta o impulso biofílico de pertença ao mundo vivo e, em simultâneo, celebra o conhecimento etnobotânico que permitiu transformar a floresta em arte pura.

Finalmente, saber que o instrumento foi construído em 2024 pelo conceituado luthier Cezar Mateus, em Nova Jérsia, liga o passado histórico diretamente ao presente globalizado.

Do ponto de vista da etnobotânica moderna, a construção deste alaúde específico reflete a complexa jornada dos materiais na atualidade. Embora Cezar Mateus trabalhe nos Estados Unidos, um construtor desse nível mantém a tradição rigorosa de importar as madeiras europeias ideais, como o abeto dos Alpes para o tampo harmónico e o ácer ou o teixo para o corpo. Isto demonstra como o conhecimento tradicional sobre as árvores europeias cruzou o Atlântico, sendo aplicado por um mestre artesão nas Américas para criar um instrumento que, depois, viaja de volta à Europa para ser tocado na natureza pela alaudista Evangelina Mascardi. É a globalização ao serviço da preservação duma arte ecológica e histórica.

Além disso, o facto de ser um instrumento tão recente traz uma dinâmica física única para a biofilia e para a acústica ao ar livre. Um alaúde construído em 2024 é um instrumento "jovem". As suas madeiras ainda estão a aprender a vibrar juntas e são extremamente sensíveis às condições atmosféricas. Quando a artista o retira do ambiente controlado de um estúdio e o toca num espaço natural, o instrumento enfrenta o seu batismo de fogo ambiental, reagindo de forma muito viva à humidade e à temperatura daquele momento. Há uma beleza poética nisso: um instrumento feito recentemente com árvores antigas, esculpido do outro lado do oceano, a cantar e a vibrar pela primeira vez em plena sintonia com a natureza europeia.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

The Sisters of Mercy - Heartland (American Remix) 2020


Heartland

[Verso 1]
Lay me down the long white line
Leave the sirens far behind me
Paint my name in black and gold
My heart my flame my heart my road
My heartland fade across the line
Heartland sing the faces shining
In the failing failing failing
Heartland make the places mine  

[Verso 2]
Clearly now the past mistakes
The giant steps we had to take
The path that ever promise made to
Die in dream dissolve and fade

[Refrão]
My heartland, heartland, heartland...

[Verso 3]
Behind the lines a face that glimmers
Still looking for a face that shines
In the promise in the places
I'm going to make them mine

[Refrão]
My heartland, heartland, heartland...

Embora Andrew Eldritch, o enigmático líder e compositor da banda que frequentemente rejeita rótulos, mantenha o mistério, as letras de Heartland carregam fortes metáforas geopolíticas e existenciais que se dividem em duas grandes linhas de interpretação.

Por um lado, a vertente geopolítica remete para a Guerra Fria e para a Teoria do Coração do Mundo, já que o próprio termo Heartland evoca diretamente o conceito proposto pelo geógrafo Halford Mackinder, que afirmava que quem controlasse a Europa de Leste — o "Coração do Mundo" — dominaria o planeta. Lançada em 1983, no auge desse conflito ideológico, a canção reflete o medo do colapso, a divisão das fronteiras expressa em versos como "across the line" ou "behind the lines", e a decadência dos impérios ocidental e soviético, sendo que frases como "the giant steps we had to take" podem muito bem referir-se à corrida ao armamento ou aos erros históricos cometidos pelas superpotências.

Por outro lado, a nível mais literal e poético, emerge a metáfora da estrada e da fuga existencial, em que a música evoca a imagem de uma fuga noturna por uma autoestrada para escapar da autoridade, dos problemas ou do caos urbano, como sugere o pedido para o deitarem na longa linha branca e deixarem as sirenes para trás. Neste contexto, o Heartland transforma-se num refúgio mental ou num lar espiritual em vias de desaparecimento, onde impera um forte sentimento de desilusão. O eu lírico fala de promessas que morreram, se dissolveram e desapareceram num sonho, revelando uma busca por identidade e controlo num mundo que parece estar a falhar.

Em resumo, Heartland utiliza a estética fria e industrial da sua sonoridade para pintar o retrato desolador de um indivíduo isolado, perdido entre a desilusão pessoal e as tensões políticas de um mundo à beira do abismo.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Poluição do carvão limita produção de energia solar


A energia solar tem sido descrita como a “estrela brilhante” da transição limpa da UE, mas cientistas alertam que a poluição causada pelo carvão está a comprometer a capacidade das renováveis de reduzir emissões.

Um novo estudo, liderado pela Universidade de Oxford e pelo University College London (UCL), mapeou e avaliou mais de 140.000 instalações de energia solar fotovoltaica (solar PV) em todo o mundo.

O estudo, publicado na revista científica Nature Sustainability, recorre a dados de satélite e da atmosfera sobre poluição do ar para calcular quanta luz solar se perde e de que forma isso reduz a produção de eletricidade.

Os investigadores concluíram que a poluição das centrais elétricas a carvão “reduz de forma significativa” a produção de energia das instalações solares fotovoltaicas, em especial onde ambos os tipos de capacidade estão a crescer em paralelo.

Como a poluição do carvão está a prejudicar a produção solar
O estudo alerta que os aerossóis (minúsculas partículas suspensas no ar) reduziram em 5,8 % a eletricidade solar à escala global em 2023.

Isto equivale a 111 terawatts-hora de energia perdida - a quantidade gerada por 18 centrais a carvão de média dimensão. Para se ter uma ordem de grandeza, um terawatt-hora corresponde aproximadamente ao consumo anual de eletricidade de 150 000 cidadãos da UE, segundo o Our World in Data.

Entre 2017 e 2023, as novas instalações fotovoltaicas acrescentaram, em média, 246,6 TWh de eletricidade por ano, enquanto as perdas relacionadas com aerossóis nos sistemas já existentes atingiram 74 TWh anuais - o equivalente a quase um terço dos ganhos com a nova capacidade, acrescenta o relatório.

Os investigadores defendem que isto evidencia uma “interação até agora não reconhecida” entre o uso de combustíveis fósseis e as energias renováveis, em que as emissões de um sistema afetam diretamente o desempenho do outro.

“Estamos a assistir a uma rápida expansão global das energias renováveis, mas a eficácia dessa transição é inferior ao que muitas vezes se supõe”, afirma o autor principal, Rui Song.

“À medida que o carvão e a energia solar crescem em paralelo, as emissões alteram o regime de radiação, comprometendo diretamente o desempenho da produção solar.”

Por que razão as centrais a carvão são más notícias para as renováveis?
O carvão é considerado a forma mais suja e poluente de produzir energia e é um dos principais motores do aquecimento global. Apesar de, no ano passado, as renováveis terem ultrapassado, pela primeira vez, a produção a partir de combustíveis fósseis, muitos países continuam dependentes das centrais a carvão, apesar dos seus impactos ambientais.

No mês passado, a Itália anunciou que adiava o encerramento definitivo das suas centrais a carvão até 2038, 13 anos além do prazo inicial. Organizações ambientalistas e a oposição de centro-esquerda criticaram a decisão, com o líder do partido ecologista Europa Verde, Angelo Bonelli, a acusar o governo de “negligência climática”.

As centrais a carvão emitem partículas poluentes finas que dispersam e absorvem a luz solar, reduzindo a quantidade que chega aos painéis solares nas proximidades. O Dr Song explica que a poluição atmosférica não se limita a bloquear a luz do sol, mas também altera as nuvens, o que pode reduzir ainda mais a produção solar.

“Isso significa que o impacto real é provavelmente maior do que o que medimos, pelo que podemos estar a sobrestimar o contributo da energia solar para a redução das emissões se não controlarmos a poluição das centrais a carvão”, acrescenta.

Este efeito foi particularmente evidente na China, onde a capacidade solar e a capacidade a carvão cresceram em paralelo e são muitas vezes implantadas na mesma zona. As regiões com elevada capacidade a carvão coincidiam em grande medida com as áreas que registaram as maiores perdas de produção solar fotovoltaica.

A China é o maior produtor solar do mundo e gerou 793,5 TWh de eletricidade solar fotovoltaica em 2023 (41,5 % do total global). Mas também registou as maiores perdas causadas por aerossóis, com a produção total reduzida em 7,7 %.

Os investigadores estimam que cerca de 29 % das perdas de solar fotovoltaica relacionadas com aerossóis na China se devam especificamente às centrais elétricas a carvão.

O coautor, Chenchen Huang, da Universidade de Bath, no Reino Unido, afirma que as conclusões do relatório constituem um “aviso claro” de que ignorar as perdas de energia solar causadas pela poluição pode levar a uma “sobreestimação sistemática da produção de energias renováveis por parte de governos, empresas e da sociedade em geral”.

“Para mantermos o rumo, as políticas têm de ter em conta este travão oculto e desviar os subsídios aos combustíveis fósseis do carvão”, acrescenta o Huang.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Poluição atmosférica responsável por 79 mil mortes anuais na Europa, revela estudo


Um trabalho relaciona a exposição a curto prazo a uma série de poluentes atmosféricos com aproximadamente 146.500 mortes prematuras por ano na Europa, sendo as partículas finas as mais nocivas, responsáveis por 79.000 mortes.

Publicada na revista 'Nature Health', a investigação do Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal) e do Centro de Supercomputação de Barcelona (BSC) fornece a primeira estimativa à escala europeia da mortalidade a curto prazo atribuível aos efeitos combinados de múltiplos poluentes em 31 países, representando mais de 530 milhões de pessoas.

Embora o maior impacto na saúde seja causado pela exposição a longo prazo, a poluição atmosférica a curto prazo pode também desencadear respostas fisiológicas agudas, como inflamação sistémica, desequilíbrio e aumento da coagulação sanguínea, que elevam o risco de mortalidade, noticiou na quarta-feira a agência Efe.

O estudo analisou quase 89 milhões de mortes registadas entre 2003 e 2019 em 653 regiões europeias, combinando dados de estações de monitorização, satélites, uso do solo e variáveis meteorológicas, ajustados para os níveis regionais.

Ao contrário da maioria das investigações anteriores, que se centravam apenas nas cidades ou analisavam um único poluente, este estudo considera quatro poluentes em conjunto: material particulado fino, dióxido de azoto, ozono e material particulado de tamanho intermédio.

"Isto permite uma análise mais precisa de como a exposição a curto prazo afeta as pessoas de forma diferente, dependendo da idade, sexo e causa da morte", explicou Zhao-Yue Chen, investigador do ISGlobal e primeiro autor do estudo.

Analisadas individualmente, as partículas finas causam anualmente aproximadamente 79.000 mortes, seguidas pelo dióxido de azoto com 69.000, do ozono com 31.000 e partículas de tamanho intermédio com 29.000, embora estes números não sejam cumulativos, uma vez que os poluentes tendem a ocorrer em simultâneo e os seus efeitos sobrepõem-se.

As partículas finas são as mais nocivas porque, devido ao seu tamanho, penetram profundamente nos pulmões e podem entrar na corrente sanguínea, desencadeando inflamação.

As partículas maiores afetam principalmente o trato respiratório superior, enquanto o dióxido de azoto e o ozono irritam os pulmões e aumentam a vulnerabilidade a doenças respiratórias.

A poluição do ar não afeta todos da mesma forma: os homens jovens apresentaram maior vulnerabilidade do que as mulheres da mesma faixa etária, de acordo com o estudo, devido à maior exposição ocupacional, ao tráfego e ao tabagismo, bem como ao início mais precoce de doenças crónicas.

No entanto, o padrão altera-se com a idade, uma vez que a partir dos 85 anos, o maior risco é observado nas mulheres, que também apresentam riscos cardiovasculares mais elevados devido à exposição a partículas do que os homens.

“Os nossos resultados apoiam a utilização de modelos epidemiológicos ajustados por sexo, idade e comorbilidades para criar sistemas de alerta precoce especificamente direcionados para grupos vulneráveis”, concluiu Joan Ballester, investigador do ISGlobal e coordenador do estudo.

sábado, 9 de maio de 2026

Anúncios de emprego falsos: qual é a probabilidade de ser enganado na Europa?


Quase um em cada três recrutadores é vítima de roubo de identidade, de acordo com uma nova investigação, com a Geração Z a ser vítima de anúncios falsos de oportunidades de emprego que "parecem demasiado escassas para deixar passar", apesar de serem claros sinais de alerta.

Os anúncios de emprego falsos tornaram-se um problema grave na Europa, com novos casos registados regularmente em todo o continente.

Nos últimos anos, a Europol e os governos nacionais têm vindo a exortar os candidatos a emprego a serem mais cautelosos, num contexto de aumento acentuado das tentativas de fraude, sobretudo em plataformas online.

À medida que a IA e os deepfakes tornam as ameaças ainda mais difíceis de detetar, o LinkedIn tem estado a investigar a questão e descobriu que quase um em cada três responsáveis por recrutamento no Reino Unido e na Alemanha foi vítima de roubo de identidade com o objetivo de enganar potenciais candidatos.

A investigação foi realizada com um total de 4.000 pessoas e partilhada com o Europe in Motion.

Como é que os falsos empregadores conduzem as suas burlas?
A principal tática utilizada pelos burlões consiste em pedir às vítimas que paguem despesas adiantadas, especialmente por empregos no estrangeiro que não existem.

As desculpas são variadas e vão desde verificações de antecedentes a taxas de pedido de visto e custos de formação e de integração, bem como de equipamento como telefones e computadores portáteis.

Cerca de 43% dos candidatos a emprego da Geração Z no Reino Unido afirmaram que quase foram vítimas de burlas de emprego em geral, enquanto 31% afirmaram que foram efetivamente burlados.

Os números são ligeiramente inferiores, mas ainda assim significativos, na Alemanha, com cerca de um em cada três candidatos da Geração Z a afirmar que esteve perto de ser vítima de uma burla.

Quem são as vítimas mais frágeis?
As preocupações com a falta de emprego aumentam ainda mais o risco.

Apesar de os jovens candidatos terem frequentemente fortes competências digitais, muitos ainda ignoram os sinais de alerta devido ao medo de perder oportunidades e ao elevado custo de vida, o que faz com que a Geração Z tenha 3,7 vezes mais probabilidades de ser burlada do que a Geração X, de acordo com a investigação do LinkedIn.

Este facto é também consistente com outros relatórios que indicam que os jovens são o grupo "favorito" para serem vítimas de burla.

"Em toda a Europa, estamos a assistir a um ambiente de contratação mais difícil, com uma diminuição das contratações em muitos mercados europeus. Este facto pode deixar os candidatos a emprego mais vulneráveis", disse ao Europe in Motion Oscar Rodriguez, vice-presidente de "Product Trust" no LinkedIn.

"A urgência pode levar os candidatos a emprego a não verem alguns dos sinais de alerta mais comuns, e é por isso que estamos a investir em ferramentas e proteções que ajudam os membros a tomar decisões mais informadas sobre a credibilidade, e a acrescentar passos para encorajar os membros a fazer uma pausa e a refletir durante a procura de emprego".

Atualmente, mais de 100 milhões de profissionais e mais de 700.000 responsáveis de recrutamento verificaram os seus perfis no LinkedIn.

Que sinais de aviso deve procurar?
Para além de quaisquer pagamentos adiantados ou da falta de contexto suficiente ao longo da comunicação, os candidatos devem estar atentos a pessoas que solicitem informações sensíveis no início do processo de seleção e que o apressem excessivamente a tomar uma decisão.

Acima de tudo, é crucial navegar no site da empresa para verificar a sua legitimidade, bem como a existência da vaga e do responsável em questão, antes de passar à fase de candidatura.

Na sua investigação, o LinkedIn constatou que quase metade dos recrutadores no Reino Unido e na Alemanha foram contactados proativamente por candidatos a emprego para verificar se uma função era genuína.

A grande maioria dos responsáveis (67%) admite, no entanto, que a criação de confiança se tornou mais difícil.

É por isso que "muitos também estão a ser mais transparentes sobre o emprego, a empresa e o processo desde o início", diz Rodriguez, porque sabem que os candidatos estão a analisar o alcance com mais cuidado.

Onde é que as pessoas estão mais em risco e qual é o impacto financeiro?
Outro estudo, efetuado pela empresa de tecnologia financeira Revolut, analisou a escala das burlas de emprego relativamente a todos os casos de fraude comunicados à empresa em vários países europeus.

Embora a taxa não seja tão elevada como a de outros tipos de fraude, como as relacionadas com compras ou investimentos, as candidaturas falsas continuam a representar uma parte significativa.

A Roménia está em primeiro lugar, com quase um quinto de todas as fraudes, seguida da Espanha (12%) e do Reino Unido (8%), enquanto a maioria dos países ronda os 4% ou 5%.

No entanto, o impacto financeiro relativo a todas as fraudes é muito maior do que o simples número de casos poderia sugerir, 10% em média nos países inquiridos.

Nos casos mais graves, a fraude no emprego representa 20% de todas as perdas financeiras relacionadas com a burla em Portugal, 19% no Reino Unido, 18% em Itália e 16% na Alemanha e na Roménia.

sábado, 2 de maio de 2026

Novo ouro negro: há uma corrida para reciclar baterias de carros elétricos

A transição global para a mobilidade elétrica está a acontecer a um ritmo alucinante nas estradas de todo o mundo. Efetivamente, mais de um em cada quatro automóveis vendidos a nível global durante o ano de 2025 já foi totalmente elétrico, dependendo inteiramente de baterias de iões de lítio para funcionar. Por isso, surge agora um problema de proporções titânicas no horizonte. O que vamos fazer quando todos estes acumuladores de energia chegarem ao fim da sua vida útil? De facto, a pressão gigantesca sobre o acesso a minerais críticos obrigou a indústria mundial a focar-se agressivamente na tecnologia de reciclagem. É por isso que há uma corrida para reciclar baterias de carros elétricos.

Reciclar baterias de carros elétricos: o novo ouro negro
Em primeiro lugar precisas de ter a real noção dos números esmagadores que o mercado automóvel vai enfrentar muito em breve. As estimativas mais recentes apontam que cerca de 1,2 milhões de baterias de veículos elétricos vão atingir o limite das suas capacidades já em 2030, um número que vai explodir para uns assustadores 14 milhões até ao ano de 2040.

Neste sentido, um estudo revelador publicado em conjunto pela Organização Europeia de Patentes e pela Agência Internacional de Energia mostra que o mercado entrou em modo de sobrevivência. Como resultado, a inovação para a circularidade e reciclagem disparou de forma incrível. Os registos de novas tecnologias nesta área apresentaram um crescimento anual espantoso de 42% entre 2017 e 2023. Adicionalmente, este valor esmaga completamente a média de crescimento da inovação tecnológica geral, provando que descobrir formas de reaproveitar o lítio e o cobalto é a prioridade máxima das grandes indústrias.

O domínio absoluto da Ásia na tecnologia de ponta
Além disso, esta autêntica corrida ao ouro tecnológico não está a ser disputada de forma equilibrada no mapa global. A Ásia assumiu uma liderança verdadeiramente avassaladora neste setor crítico, representando atualmente 63% de todas as inovações internacionais registadas no último ano avaliado.

Por outro lado, o panorama asiático também sofreu reviravoltas internas impressionantes. Se até 2019 o mercado era totalmente dominado por gigantes japoneses e coreanos como a Toyota e a LG, o cenário mudou drasticamente. Desta forma, a empresa chinesa Brunp assumiu a liderança incontestável, impulsionando a quota global da China de uns meros 5% em 2013 para uns formidáveis 29% na atualidade.

A estratégia europeia de sobrevivência
Paralelamente, a Europa tenta encontrar o seu próprio espaço nesta guerra de patentes, representando cerca de 20% das inovações globais. Ao invés de se focar puramente no fabrico, o mercado europeu está a especializar-se fortemente na tecnologia de recolha complexa e na transformação química exata necessária para extrair as preciosas matérias-primas de baterias mortas e injetá-las em unidades novas.

Consequentemente, os especialistas máximos das agências europeias de patentes e de energia defendem acerrimamente que a competitividade futura do nosso continente depende da criação de um sistema circular robusto. A ideia central é que apenas com legislação favorável e inovação focada será possível aliviar a pressão brutal sobre as cadeias de abastecimento internacionais. Também reduzir o perigoso impacto ambiental da extração mineira tradicional.

Entretanto para apoiar este ecossistema vital, as plataformas digitais europeias já começaram a mapear ativamente o terreno. Ferramentas avançadas de rastreio tecnológico monitorizam agora de perto o trabalho brilhante de quase seis dezenas de startups. Também de universidades europeias que lutam diariamente nos laboratórios. Portanto, se a Europa quiser manter os seus carros a circular no futuro sem depender inteiramente de fornecedores externos, a única saída possível é dominar a arte de reciclar o passado. São sem dúvida tempos interessantes para quem está a apostar em reciclar baterias de carros elétricos.

Mais informações
  1. Acesso ao relatório completo: “Circularidade das baterias: tendências de inovação para uma futura fonte de materiais críticos
  2. O Estado da Inovação em Energia 2026 da AIE
  3. Plataforma de energia limpa da OEP inclui agora a circularidade das baterias
  4. Deep Tech Finder (DTF) da OEP
  5. Observatório de Patentes e Tecnologia da OEP
  6. Versão beta da cartografia de armazenamento de energia
  7. Pplware/SAPO - Baterias Usadas e Fábricas de Reciclagem: Detalhes sobre a nova megafábrica de reciclagem na Europa e o conceito de Schwarzmasse || Black Mass || Massa Negra
  8. AZoCleantech - Tecnologias de Reciclagem em 2026: Um guia técnico sobre os métodos de hidrometalurgia e reciclagem direta que estão a dominar o mercado este ano.
  9. GlobeNewswire - Mercado de Reciclagem 2026-2032: Relatório sobre o crescimento exponencial deste mercado, previsto para atingir biliões de dólares nos próximos anos.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Energia em Portugal: porque o nuclear não é (ainda) a resposta


Portugal está numa encruzilhada estratégica na energia: ou hesita perante soluções caras, lentas e controversas, como o nuclear, ou consolida a vantagem competitiva que já tem nas renováveis, tornando o sistema mais robusto e previsível. Neste momento, insistir em discutir centrais nucleares em Portugal é, acima de tudo, uma distração política e financeira face às oportunidades reais que temos ao alcance.

A eletricidade portuguesa é hoje, em larga medida, de origem renovável, com um peso crescente da eólica e da solar e um contributo histórico da hídrica. Isto já nos permite ter períodos prolongados em que a quase totalidade da eletricidade consumida é gerada por fontes limpas, ainda que, numa perspetiva anual, continuemos dependentes de térmicas e de importações. O desafio não está em “inventar” uma nova fonte centralizada de produção, mas em gerir melhor a variabilidade das fontes que já temos – algo que se resolve com redes mais inteligentes, flexibilidade e armazenamento, não com um salto para o nuclear.

Defender o nuclear em Portugal, hoje, é ignorar três fatores decisivos. Primeiro, o custo: construir uma central nuclear exige investimentos gigantescos, prazos de execução muito longos e um compromisso de décadas, num país sem tradição nem cadeia industrial nesse domínio. Segundo, a rigidez: num sistema em rápida transformação, uma tecnologia pesada, centralizada e pouco flexível encaixa mal numa rede que caminha para a descentralização e para a gestão ativa da procura. Terceiro, a oportunidade perdida: cada euro canalizado para nuclear é um euro que não é investido em mais solar, mais eólica, mais eficiência, mais armazenamento e em reforço de rede, onde temos retorno mais rápido, impacto ambiental mais positivo e alinhamento direto com as metas europeias.

Há quem argumente que, se houver financiamento europeu, o nuclear passa a ser uma opção “a considerar”. Discordo. A existência de fundos não transforma uma má prioridade numa boa decisão. O verdadeiro debate deveria ser: se temos acesso a financiamento europeu e internacional, onde é que esse dinheiro gera mais segurança energética, mais redução de emissões e mais competitividade económica? Em Portugal, a resposta é clara: reforçar renováveis, investir a sério em armazenamento (baterias, bombagem hidroelétrica, hidrogénio verde onde fizer sentido), modernizar a rede e apostar em eficiência. É aí que cada euro conta mais.

A intermitência das renováveis não é um argumento contra elas; é um desafio de engenharia de sistema. Sabemos que o sol não brilha sempre e que o vento não sopra todos os dias, mas também sabemos que já existem tecnologias maduras para armazenar energia e gerir melhor a procura: centrais de bombagem, grandes baterias, soluções de autoconsumo com storage, contratos de flexibilidade com a indústria, redes digitais que antecipam e suavizam picos de consumo. Em vez de usar a intermitência como pretexto para reabrir o dossier nuclear, devíamos usá‑la como catalisador para acelerar a transição tecnológica do sistema elétrico.

A mobilidade elétrica é outro ponto crítico. Multiplicar postos de carregamento e veículos elétricos sem garantir que a energia que os alimenta é renovável e que a rede aguenta essa nova carga é um erro estratégico. Mas, novamente, a resposta está nas renováveis e na gestão da rede: mais produção descentralizada junto dos pontos de consumo, armazenamento local em hubs de carregamento, tarifários inteligentes que deslocam carregamentos para horas de maior produção solar ou eólica. Tudo isto é mais rápido, mais modular e mais adaptável à realidade portuguesa do que um projeto nuclear que, mesmo decidido hoje, só veria eletrões na rede daqui a 15 ou 20 anos.

Adiar o debate nuclear não é ser ingénuo nem ideológico; é ser pragmático.

Num país com recursos renováveis abundantes, escala limitada e finanças públicas pressionadas, faz pouco sentido apostar numa tecnologia cara, lenta, dependente de cadeias externas e que não resolve os desafios imediatos de integração de renováveis e de modernização da rede. O que faz sentido é concentrar esforços onde o retorno é mais rápido e mais certo: sol, vento, água, armazenamento e eficiência.

Portugal já está no grupo da frente da eletricidade limpa. A pior coisa que poderíamos fazer agora era dispersar-nos numa fuga para a frente nuclear que não se ajusta à nossa realidade. O caminho, pelo menos nesta década, é claro: consolidar e aprofundar a aposta nas renováveis, construir um sistema energético resiliente e flexível e usar o debate nuclear, quando muito, como exercício de prospetiva – não como desculpa para adiar decisões que podemos e devemos tomar já.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Dia Mundial do Urso

Ver com mais detalhe aqui
O seu regresso reflete a capacidade da natureza para recuperar e mostra a necessidade de trabalhar ativamente na forma como as pessoas e a vida selvagem partilham o espaço.

Os ursos pardos ajudam a moldar as paisagens, dispersando sementes, reciclando nutrientes e sustentando uma vasta gama de espécies. A sua presença destaca a importância de paisagens conectadas e funcionais.

Nas nossas paisagens de rewilding, as equipas estão a trabalhar com as comunidades para apoiar o regresso dos ursos de formas que tornem a partilha do espaço mais possível. Estas incluem medidas práticas para reduzir os danos, melhorar a sensibilização, ligar habitats e apoiar economias baseadas na natureza e ligadas à presença da vida selvagem. Saiba mais aqui


Saber mais
World Bear Day

sexta-feira, 20 de março de 2026

Quem tem medo da transição verde? O que diz o novo estudo sobre o apoio ao Pacto Ecológico Europeu

Fonte: aqui

Um relatório do  Instituto Sindical Europeu designado por Who supports a (just) green transition? chegou às seguintes conclusões:
  1. O Medo do Desemprego Verde é Real: existe uma perceção generalizada de "risco socioecológico". A preocupação com a perda de postos de trabalho devido às políticas climáticas é muito forte em todos os países analisados. Este receio afeta sobretudo as pessoas com menores rendimentos, menor nível de escolaridade e trabalhadores em situações de maior precariedade laboral.
  2. Os Impostos Verdes são os mais impopulares: o estudo divide as preferências por tipo de política e conclui que as taxas e impostos ecológicos são a medida que colhe menos simpatia junto do público. Em contrapartida, as políticas de proteção social têm um apoio massivo entre os grupos mais vulneráveis.
  3. Pontes entre o Social e o Ecológico: nem tudo é divisão. O relatório descobriu que certos grupos profissionais — e não apenas os mais privilegiados ou bem posicionados no mercado de trabalho - apoiam simultaneamente tanto as políticas ambientais como as sociais.
  4. A "Fórmula Mágica" para o apoio público: o apoio à transição verde aumenta significativamente quando o ambiente é associado a medidas de compensação social. O estudo demonstra que combinar políticas ambientais com o apoio direto aos trabalhadores e a criação de impostos sobre as grandes fortunas (wealth taxes) ajuda a reduzir os conflitos distributivos e a conquistar a opinião pública.
Conclusões Detalhadas do Relatório
O estudo baseia-se num inquérito internacional realizado em sete países europeus: Alemanha, Espanha, França, Itália, Polónia, Suécia e Reino Unido.

1. O Medo do Desemprego Afeta 1 em cada 5 Europeus: Mais de 20% dos inquiridos temem perder o emprego devido às políticas de transição ecológica. Este medo (chamado no estudo de "risco socioecológico indireto") é o grande motor da resistência política (green backlash) e afeta sobretudo os trabalhadores fabris/de produção (production workers), pessoas com menor escolaridade e baixos rendimentos.

2.O Duplo Risco: Curiosamente, o estudo descobriu uma ligação direta: as pessoas que vivem em regiões mais expostas às alterações climáticas (risco direto) são frequentemente as mesmas que mais temem perder o emprego devido às leis ambientais (risco indireto).

3. Radiografia dos Grupos Profissionais e Apoios:
  • Trabalhadores de Produção (Fábricas): Apoiam fortemente a proteção social tradicional, mas rejeitam os impostos verdes por medo do desemprego.
  • Profissionais de Escritório, Serviços de Baixa Qualificação e Setor Socio-Cultural: Apoiam tanto as políticas sociais como as ambientais. O relatório identifica-os como a base eleitoral chave para avançar com uma transição justa.
  • Gestores e Quadros Superiores (Managers): Revelaram-se o grupo mais oposto à estratégia de transição justa, rejeitando tanto a intervenção pública na área social (como impostos sobre a riqueza) como a regulação ambiental.
4. Atitude Perante as Políticas: Os subsídios verdes são as medidas mais populares em geral. Os impostos e as regulações são fortemente rejeitados pelas classes mais vulneráveis e pelos gestores, encontrando apoio quase exclusivo nos cidadãos com ensino superior.

domingo, 15 de março de 2026

ROME – Hate Us And See If We Mind


[Verse 1]
We could never have won this;
We were fighting blind
Now we've all but conquered fate
So hate us, and see if we mind
Washing off the dust
Like the first rains of the raining season
And encircling rage and reason, we postponed our grieving
But the rains, they never seem to come

[Chorus]
To have you here
To make you see
The wild hoax we pulled; it's all over
What care for glory?
What care for thee?
By now, you know it's all over

[Refrain]
All over
All over

[Verse 2]
To this house of stone we flock
Hiding like the snails between the reeds and rocks
And they'll be searching the valleys in vain
As we'll be waiting for the rain
A nation reborn; a lame shepherd
One must wait and go for the throat when hunting leopard
Now, we're blinking back each tear
There's no changing the balance of fear
You might also like
One Fire
Rome
The River Eternal
Rome
A Country Denied
Rome
[Chorus]
To have you here
To make you see
The wild hoax we pulled; it's all over
What care for glory?
What care for thee?
By now, you know it's all over

[Refrain]

[Chorus]
To have you here
To make you see
The wild hoax we pulled; it's all over
What care for glory?
What care for thee?
By now, you know it's all over
To have you here
To make you see
The wild hoax we pulled; it's all over
What care for glory?
What care for thee?
By now, you know It's all over

[Outro]
All over
All over
All over

"Hate Us And See If We Mind" (Odeie-nos e veja se nos importamos) é uma música de desafio e resiliência.
Estoicismo e isolamento: a letra fala sobre manter a própria posição e identidade, independentemente do julgamento externo ou do ódio alheio. É um hino àqueles que vivem à margem ou que escolheram um caminho difícil e impopular.
Identidade europeia: como é comum no ROME, há uma camada de melancolia sobre o destino do continente. A canção sugere um orgulho silencioso e uma resistência contra a homogeneização do pensamento moderno.
Referência histórica: o título ecoa o lema romano Oderint dum metuant ("Que odeiem, desde que temam"), mas Jerome Reuter o transforma em algo mais introspectivo: não se trata de causar medo, mas de uma indiferença soberana perante a hostilidade do mundo.

sábado, 14 de março de 2026

Soberania alimentar e autossuficiência em crise no Reino-Unido


O primeiro Relatório de Segurança Alimentar do Reino Unido, de dezembro de 2021, constatou que o país era 54% autossuficiente em termos alimentares. Outros países ricos, como os EUA, a França e a Austrália, são todos autossuficientes em termos alimentares, o que significa que produzem alimentos suficientes para alimentar as suas populações sem necessidade de importações.

O Reino Unido é um dos países menos autossuficientes em termos alimentares na Europa. A Holanda, por exemplo, que é densamente povoada, tem 80% de autossuficiência, e a Espanha, 75%.

“Não estamos a pensar nisso adequadamente. Estamos a fugir do problema”, disse Lang, falando na conferência da União Nacional dos Agricultores em Birmingham.

“A ideia de que os outros nos podem alimentar está enraizada no sistema estatal britânico e, de facto, na própria natureza do capitalismo agroalimentar na Grã-Bretanha. Outros países são mais sábios. Outros países estão a armazenar alimentos”, disse. “Os outros países têm muito mais flexibilidade nos seus sistemas do que nós. O que glorificamos como eficiência agora é a vulnerabilidade.”

Outros países possuem reservas de emergência para casos de guerra, contaminação alimentar ou choques climáticos. A Suíça ainda possui reservas suficientes para alimentar toda a sua população durante três meses e está a aumentá-las para um ano. A recomendação do governo do Reino Unido para as famílias é que mantenham nos seus armários alimentos suficientes para três dias.

Agora um novo relatório revela algo preocupante do Reino Unido, onde um painel de peritos concluiu que uma guerra, um choque climático ou uma combinação de ambos poderia desencadear uma verdadeira crise alimentar nas Ilhas Britânicas.

Notícia completa no Guardian

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Firecrest ou Estrelinha-real

Firecrest (Regulus ignicapilla)

The smallest passerine of Europe
"In the emerald cathedrals of the forest, there dwells a tiny sovereign—the Firecrest. Though he is but a thumb’s weight of breath and bone, the smallest spark in Europe’s vast woods, he refuses to be overlooked. He wears a sliver of the sun upon his head as a crown, a fierce golden stripe that belies his fragile frame.

He does not sing to explain the wind or to justify his place among the towering pines. He sings because he is a miniature masterpiece, casting a melody as bright and sharp as a needle’s point into the quiet air. To see him is to realize that beauty is never measured by scale, but by the fire one carries within." 
- João Soares 09.02.26

domingo, 28 de dezembro de 2025

Caçadores - Predadores ou eco-delinquentes

Caçador exibindo sem remorso o abate de coelhos bravos e de codorniz (Crex crex

Muitos caçadores têm comportamentos desviantes, exibindo friamente os troféus da caça. 
Quando a caça prejudica a natureza
1. Redução de populações e perda de espécies
Quando a caça é intensa ou mal regulada, pode levar a quedas drásticas nas populações animais. Em Portugal, o coelho-bravo é um exemplo clássico. Esta espécie, fundamental para o ecossistema mediterrânico, sofreu fortes declínios devido à caça excessiva e a doenças como a mixomatose. A redução dos coelhos afetou predadores como o lince-ibérico e a águia-imperial-ibérica, mostrando que um desequilíbrio numa espécie pode ter efeitos em toda a cadeia alimentar.

2. Desequilíbrios nos ecossistemas
A caça excessiva de certas espécies altera a dinâmica natural. Por exemplo, a escassez de predadores deixou alguns herbívoros, como javalis e veados, aumentarem muito em número. Este crescimento pode causar danos às florestas, prejudicar a regeneração das árvores e até provocar acidentes rodoviários.
Em resumo: menos predadores → mais herbívoros → vegetação prejudicada → impacto no ecossistema.

3. Seleção artificial
Quando caçam sempre os maiores ou com melhores troféus, estamos a “selecionar” a população de forma artificial. Em veados e corços, por exemplo, isso pode reduzir o tamanho das hastes ao longo do tempo, alterando a diversidade genética e as características naturais da espécie.

Dois caçadores furtivos exibindo como troféus o abate de codornizão (Crex egregia) 

Dois parentes discretos dos campos: o cordonizão africano e o codornizão-europeu
Quando pensamos em aves agrícolas, raramente imaginamos espécies quase invisíveis, que vivem escondidas na vegetação e anunciam a sua presença mais pelo som do que pela visão. É o caso do codornizão (Crex egregia) e da codorniz (Crex crex), duas aves aparentadas que desempenham papéis ecológicos importantes em continentes diferentes.

Apesar de pertencerem ao mesmo género, estas espécies revelam como a biodiversidade responde de forma distinta aos usos da terra em África e na Europa.

Vidas paralelas em paisagens herbáceas
O cordonizão, típico da África subsaariana, habita pradarias húmidas, savanas e campos agrícolas tradicionais. A sua presença está intimamente ligada a áreas com vegetação herbácea densa, especialmente durante a estação das chuvas, quando encontra alimento e locais de nidificação.

Já o codornizão-europeu é um visitante de verão na Europa. Reproduz-se em prados de feno, pastagens extensivas e searas tradicionais, migrando para África no inverno. Extremamente discreto, é mais facilmente detetado pelo seu canto noturno repetitivo — o famoso “crex-crex” — do que pela observação direta.

Pequenos insetívoros, grandes reguladores
Ambas as espécies alimentam-se sobretudo de insetos e outros invertebrados, prestando um serviço ecossistémico essencial: o controlo biológico natural. Ao reduzirem populações de insetos herbívoros, contribuem para o equilíbrio dos agroecossistemas e diminuem a dependência de pesticidas.

Além disso, fazem parte das cadeias tróficas, servindo de alimento a aves de rapina e pequenos carnívoros, ajudando a manter a estabilidade ecológica das paisagens agrícolas e naturais.

Indicadores silenciosos da qualidade da paisagem
Tanto o cordonizão como o codornizão-europeu funcionam como espécies indicadoras. A sua presença sugere:
  1. Baixa intensificação agrícola
  2. Estrutura vegetal diversificada
  3. Práticas tradicionais compatíveis com a biodiversidade
No entanto, é na Europa que este papel ganha maior visibilidade. O codornizão-europeu tornou-se um verdadeiro símbolo da conservação dos prados agrícolas, sendo frequentemente usado como espécie-bandeira em programas agroambientais e na Rede Natura 2000.

Destinos diferentes, desafios comuns
Apesar de ambos estarem atualmente classificados como Pouco Preocupantes à escala global, enfrentam ameaças semelhantes:
  1. Intensificação agrícola
  2. Uso de pesticidas
  3. Perda de habitats herbáceos
No caso europeu, a ceifa mecanizada precoce representa uma das principais causas de mortalidade do codornizão, afetando diretamente o sucesso reprodutor. Em África, a conversão de pradarias naturais em agricultura intensiva pode comprometer as populações de cordonizão.

Conservar aves é conservar paisagens
A comparação entre Crex egregia e Crex crex mostra que proteger estas aves não é apenas uma questão de espécies, mas de modelos de uso do território. Onde subsistem práticas agrícolas extensivas e mosaicos de habitats, estas aves continuam a cumprir os seus serviços ecossistémicos de forma silenciosa, mas essencial.

Conservar o cordonizão e o codornizão-europeu é, em última análise, conservar paisagens vivas, produtivas e biodiversas — em África e na Europa.

Predadores ou eco-delinquentes
  1. Exploração deliberada da fauna sem consideração ecológica
  2. Indivíduos que causam dano ambiental intencional e recorrente
  3. O indivíduo justifica o acto ilegal (“é tradição”, “o Estado não protege”, “os animais são meus recursos”)
  4. Reduz a percepção de culpa
Referências bibliográficas 
  1. Benton, T. G., Vickery, J. A. & Wilson, J. D. (2003). Farmland biodiversity: is habitat heterogeneity the key? Trends in Ecology & Evolution, 18, 182–188.
  2. BirdLife International (2024). Species factsheet: Crex egregia.
  3. BirdLife International (2024b). Species factsheet: Crex crex.
  4. del Hoyo, J. et al. (2014). Handbook of the Birds of the World Alive. Lynx Edicions.
  5. Donald, P. F. et al. (2001).  Agricultural intensification and farmland bird declines. Proceedings of the Royal Society B, 268, 25–29.
  6. Begon, M., Townsend, C. R., & Harper, J. L. (2006). Ecology: From individuals to ecosystems. Blackwell Publishing.
  7. Cabral, M. J. et al. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza.
  8. Green, R. E. et al. (1997). A simulation model of the effect of mowing of agricultural grassland on the breeding success of the corncrake (Crex crex).Journal of Zoology 243.1 (1997): 81-115
  9. ICNF (vários anos). Relatórios de gestão cinegética e conservação da fauna.
  10. Krebs, C. J. (2009). Ecology: The experimental analysis of distribution and abundance. Pearson.
  11. Primack, R. B. (2014). Essentials of Conservation Biology. Sinauer Associates.