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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Da "Salvação do Planeta" ao Petróleo na Foz do Amazonas: A Grande Contradição da Esquerda Extrativista



A confirmação técnica da descoberta de petróleo bruto no poço Morpho — localizado na sensível bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial — veio reacender um debate profundo sobre os rumos da política climática brasileira. Apenas dez meses após o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) ter concedido a licença operacional à Petrobras, em outubro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comemorou o achado caracterizando a nova reserva como o seu mais recente "passaporte para o futuro".

Esta celebração escancara o esgotamento de um modelo ideológico: o de uma esquerda que tenta financiar a justiça social de hoje sacrificando o equilíbrio sustentável de amanhã. O discurso ecológico que entusiasmou a comunidade internacional deu lugar a um pragmatismo fóssil que abraça o ecocídio diferido em nome do crescimento imediato, esvaziando a liderança climática do país de qualquer substância ética.

A decisão do Ibama, contestada por pareceres técnicos históricos, abriu caminho para a exploração petrolífera no mar numa área de elevada vulnerabilidade ecológica. Um dos pontos mais graves de todo este processo envolve a violação de direitos humanos basilares e a subordinação das populações locais ao imperativo do desenvolvimento a qualquer custo. Organizações como a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (Apoianp) denunciam abertamente que os povos indígenas e as comunidades tradicionais do Oiapoque não foram devidamente auscultados através da Consulta Prévia, Livre e Informada, violando a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Os territórios estão na linha da frente dos riscos de um eventual derramamento de crude, contudo as decisões estratégicas sobre o destino da região continuam a ser tomadas à porta fechada nos gabinetes de Brasília.

O timing do incentivo às novas sondagens marítimas expõe um desfasamento diplomático inaceitável. Pouco tempo depois de o Brasil ter acolhido em Belém a COP 30, onde se apresentou como o grande guardião da floresta tropical e líder da transição energética, o governo pressiona ativamente os órgãos reguladores para expandir a fronteira fóssil. Esta postura reflete a armadilha do neoextrativismo latino-americano, que insiste em ver os recursos naturais finitos como a única alavanca de financiamento público.

As reações das maiores redes ambientalistas mundiais foram devastadoras para a imagem do executivo:
  1. Greenpeace Brasil: através das declarações da coordenadora da campanha de Oceanos, Mariana Andrade, a organização denunciou que a celebração do achado de crude no poço Morpho representa o"risco a ser vendido como conquista". A Greenpeace alertou que insistir na exploração petrolífera no mar na Foz do Amazonas ignora os pareceres técnicos do órgão ambiental, afasta o país dos compromissos do Acordo de Paris e ameaça diretamente o frágil Grande Sistema de Recifes da Amazónia.
  2. Observatório do Clima: a coligação das principais ONGA brasileiras classificou os avanços da exploração na Margem Equatorial como uma verdadeira "sabotagem à COP 30" e uma "escolha desastrosa" que destrói a autoridade moral da diplomacia brasileira. A rede relembrou que a insistência do governo em contornar a prudência ambiental viola o princípio da prevenção científica e contradiz as decisões dos tribunais internacionais sobre a urgência de travar a expansão dos combustíveis fósseis.
A comunidade científica rejeita categoricamente a tese de que a extração de petróleo no mar serve para "financiar a transição energética". O prestigiado climatologista Carlos Nobre, copresidente do Painel Científico para a Amazónia, já reagiu à notícia e foi  incisivo ao declarar que a região já está perigosamente próxima do seu "ponto de não retorno" e que não existe qualquer justificativa técnica ou ecológica para abrir novas fronteiras petrolíferas. "Nós temos que zerar rapidamente o uso de combustíveis fósseis em todo o mundo. 75% das emissões dos gases de efeito estufa vêm da queima dos combustíveis fósseis. É uma emergência imensa" 

O climatologista Carlos Nobre expôs em detalhe, já em 13/02/2025 os riscos ambientais de perfurar poços na bacia marítima da Amazónia nesta entrevista sobre a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Nesta análise em vídeo aborda as dinâmicas de correntes marítimas, os perigos para a biodiversidade e os limites científicos do ponto de não retorno florestal.

Concluindo, para a ciência, não existe justiça social duradoura sobre um ecossistema em colapso. Ao atrelar o desenvolvimento brasileiro a uma matriz ultrapassada, o governo falha na proteção da biodiversidade e insiste num mapa do século XX para tentar navegar na maior crise do século XXI.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Cimeira importante realizada em Paris, entre 30 de Março a 2 de Abril por We Don´t Have Time e Change NOW, antecipando a Conferência em Colômbia


Oradores presentes aqui

Palestras:
  1. Respeito pelos Limites Planetários We Don't Have Time ChangeNOW HUB - March 31 2026
  2. Negócios Sustentáveis (Business within Planetary Boundaries) e Transição do Sistema Alimentar   We Don't Have Time ChangeNOW HUB - April 1, 2026
  3. Uso de Dados e Transparência e Tecnologia e Inovação de Impacto We Don't Have Time ChangeNOW HUB - April 2, 2026
Durante três décadas, as negociações climáticas globais concentraram-se na gestão dos sintomas da crise climática — as emissões de gases com efeito de estufa — ignorando a causa principal: a proliferação descontrolada de carvão, petróleo e gás.

Embora a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (UNFCCC) e o Acordo de Paris sejam fóruns essenciais para a ação climática global, as suas estruturas baseadas no consenso permitem que grupos de pressão apoiados por indústrias poluentes impeçam a implementação de medidas necessárias no controlo da produção de combustíveis fósseis. Agora, temos uma oportunidade crucial para ultrapassar este impasse.

Entre 24 e 29 de abril de 2026, a Colômbia e a Holanda realizarão o  First Conference on Transitioning Away from Fossil Fuels em Santa Marta. A conferência é a primeira de uma “série de conferências” acordadas pelos 18 Estados-nação participantes no desenvolvimento de um Tratado sobre Combustíveis Fósseis, e será um fórum focado em soluções, operando fora dos auspícios da arquitectura climática internacional tradicional.

Estado da Arte do Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis aqui

domingo, 22 de março de 2026

«Manipulação climática»: gigantes dos combustíveis fósseis abandonam metas de neutralidade carbónica


Nova análise alerta que algumas das maiores petrolíferas mundiais entraram numa fase de manipulação para aumentarem os lucros

As grandes petrolíferas são acusadas de estarem a “abandonar discretamente” as suas promessas climáticas para justificarem a continuação do uso de combustíveis fósseis poluentes.

Uma nova investigação da Clean Creatives, um projeto para profissionais de relações públicas e publicidade conscientes do clima, acompanhou como as Big Oil têm vindo a mudar “de forma sistemática” a sua narrativa nos últimos quatro anos, apesar dos repetidos alertas sobre o aquecimento do planeta.

Intitulado Toxic Accounts: From Greenwashing to Gaslighting , o relatório analisa mais de 1.800 peças de campanha das gigantes dos combustíveis fósseis BP, Shell, ExxonMobil e Chevron entre 2020 e 2024.

Inclui anúncios pagos em redes sociais como o Facebook, YouTube, TikTok e Instagram, bem como spots de televisão, arquivos de bibliotecas, comunicados de imprensa, informação para investidores e discursos de executivos.

Grandes petrolíferas fazem “gaslighting” climático
No início do período analisado, as campanhas enfatizavam metas climáticas e compromissos com a transição para energia limpa, apresentando frequentemente as empresas como parceiras de transição.

No entanto, em 2023, a mensagem passou a apresentar cada vez mais o petróleo e o gás como “permanentes, indispensáveis e essenciais para a estabilidade económica e a segurança nacional”.

Em 2020, a BP passou da promessa de neutralidade carbónica e da retórica de “tornar as empresas mais verdes” para campanhas que, segundo a Clean Creatives, defendem a continuação da expansão do gás e do petróleo, ao mesmo tempo que recua nas suas ambições em matéria de energias renováveis.

A Chevron também abandonou o posicionamento “Human Energy” e passou para uma “mensagem nacionalista” que associa a produção interna de combustíveis fósseis à segurança económica e nacional, revela o relatório.

Investigadores alertam que, apesar das diferenças de tom, todas as grandes petrolíferas analisadas seguiram mudanças narrativas semelhantes, passando de se apresentarem como “parte da solução” para uma mensagem de “não podem viver sem nós”.

As campanhas passaram também a promover cada vez mais o gás natural liquefeito (GNL), a captura e armazenamento de carbono (CCS), o hidrogénio azul, os biocombustíveis e o gasóleo renovável como soluções climáticas, apesar de existirem provas de que estas tecnologias continuam a ser derivadas de combustíveis fósseis ou não estão comprovadas em larga escala.

“A velocidade com que as empresas passaram para mensagens centradas na segurança energética correlacionou-se com o seu desempenho financeiro”, lê-se no relatório.

“A Chevron e a ExxonMobil foram rápidas a orientar a sua mensagem para a predominância dos combustíveis fósseis e, como resultado, lideraram o mercado.”

O estudo concluiu também que a Shell, acusada no ano passado de minimizar o impacto climático dos combustíveis fósseis, deixou de se apresentar como líder da neutralidade carbónica para passar a destacar o GNL como mercado de crescimento a mais longo prazo.

Combustíveis fósseis mantêm-se “lucrativos” apesar da mudança de atitudes
“O ‘greenwashing’ assume agora uma nova forma”, afirma Nayantara Dutta, responsável pela investigação na Clean Creatives e autora principal do relatório.

“Em vez de fazerem afirmações falsas, as grandes petrolíferas promovem falsas soluções como a CCS e o gás natural, apesar de serem derivadas de combustíveis fósseis e de criarem uma dependência de longo prazo desses combustíveis.”

Dutta defende que as petrolíferas constroem uma narrativa que as mantém “lucrativas e no poder” perante uma oposição crescente.

A transição para longe dos combustíveis fósseis tornou-se um dos pontos de maior tensão na cimeira COP30 das Nações Unidas em Belém, no ano passado, apesar de não constar oficialmente da agenda.

Mais de 90 países, incluindo a Alemanha e os Países Baixos, apoiaram a ideia de um roteiro que permita a cada nação definir as suas próprias metas para avançar para a energia verde.

Apesar do apoio crescente a esta ideia, todas as referências aos combustíveis fósseis foram retiradas do acordo final nas últimas horas da cimeira. Isto significa que a esperança de um futuro sem combustíveis fósseis fica agora fora do âmbito das Nações Unidas.

Um relatório da Carbon Majors concluiu recentemente que 17 dos 20 maiores emissores em 2024 eram empresas controladas por países que vieram a bloquear o roteiro da COP30. Entre eles contam-se a Arábia Saudita, o Irão, o Qatar, a Índia, a Rússia e a China.

Irão: grandes petrolíferas e a guerra
“A transição do ‘greenwashing’ para a defesa da predominância da energia de origem fóssil é a mais recente reviravolta retórica na manipulação da opinião pública para aceitar as emissões de gases com efeito de estufa como apenas parte da atividade económica”, afirma Robert Brulle, sociólogo ambiental da Universidade Brown.

“Ao mesmo tempo, a guerra no Médio Oriente evidencia o erro da ideia de que os combustíveis fósseis proporcionam ‘segurança energética’.”

Vários especialistas têm usado a guerra contra o Irão para sublinhar a necessidade urgente de uma transição para a energia limpa, numa altura em que os preços do petróleo e do gás continuam a disparar.

A organização sem fins lucrativos 350.org apelou recentemente aos países do G7 para que apliquem um imposto sobre lucros extraordinários às grandes petrolíferas que, segundo a organização, estão a “lucrar” com a escalada do conflito no Médio Oriente.

Embora a guerra no Irão também tenha reforçado os apelos para que o Reino Unido abra novas licenças de perfuração no mar do Norte, uma análise da Universidade de Oxford concluiu que apostar nas energias renováveis é muito mais provável que faça baixar as faturas de energia das famílias.

“O que estamos a ver é a desinformação climática a evoluir em tempo real”, afirma Dana Schran, da coligação Climate Action Against Disinformation (CAAD).

“Em vez de negarem a crise, grandes petrolíferas como a BP e a Shell estão a reescrever a narrativa para que a expansão dos combustíveis fósseis pareça necessária e responsável. É um esforço sofisticado para proteger a influência política e os lucros, mesmo à medida que os impactos climáticos se agravam.”

Saber mais: 


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

A Islândia classifica o colapso da corrente do Oceano Atlântico como um risco para a segurança nacional


Tal como grande parte da Europa, a Islândia registou em 2025 o seu ano mais quente, num contexto em que os gases com efeito de estufa continuam a aquecer o planeta.

O governo Islandês declarou o possível colapso de uma importante corrente do Oceano Atlântico como um risco para a segurança nacional.

A Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês) é um sistema de correntes oceânicas que transporta águas mais quentes dos trópicos através do Ártico até ao Oceano Atlântico Norte, bem como águas mais frias para o sul, ajudando a regular o clima global.

Recentemente, os especialistas levantaram a possibilidade de colapso da AMOC, o que poderá tornar os invernos na Europa mais rigorosos e perturbar o clima em todo o mundo. Estes alertas foram levados ao conhecimento do Conselho de Segurança Nacional da Islândia, marcando a primeira vez que uma questão relacionada com o clima foi apresentada ao conselho, que está agora a coordenar uma resposta ao problema.

"É uma ameaça direta à nossa resiliência e segurança nacional", disse o ministro do Clima da Islândia, Johann Páll Johannsson, à Reuters.

Isto acontece depois de parlamentares islandeses que participaram na conferência COP30 no Brasil, no mês passado, se terem focado nos perigos do colapso da AMOC.

“É muito importante que comecemos já a usar a nossa voz com força neste fórum e, claro, que cumpramos as nossas obrigações internacionais a este respeito”, afirmou a deputada islandesa ÁSa Berglind Hjálmarsdóttir em entrevista ao portal de notícias islandês

Para além dos efeitos que a corrente tem no clima, a AMOC  é também essencial para a vida marinha. A circulação transporta nutrientes, aumenta a salinidade e leva oxigénio às camadas mais profundas do oceano. Se a circulação diminuísse ou entrasse em colapso, poderia, por exemplo, reduzir as populações de zooplâncton, o que, por sua vez, afectaria todo o sistema alimentar. Além disso, a circulação é essencial para prevenir a acidificação do oceano, ajudando os moluscos, o plâncton e os corais a construir as suas conchas.

O Sustainability Directory constatou que os efeitos provavelmente impactariam espécies de importância comercial.

“Isto poderá ter consequências económicas significativas para a pesca na região, bem como impactos ecológicos nos ecossistemas habitados por estas espécies”, referiu o relatório.

Embora Johannsson e outros membros do governo islandês considerem o problema uma potencial ameaça à segurança, os países vizinhos estão menos preocupados.

"Não acreditamos que haja uma necessidade urgente de preparar as Ilhas Faroé para um cenário com uma corrente do Golfo mais fraca", disse Karin M. H. Larsen, oceanógrafa do Instituto Faroês de Investigação Marinha, à emissora pública das Ilhas Faroé, KVF.fo.

Larsen reconheceu que existe a possibilidade de a circulação parar em algum momento, mas não há indícios de que isso aconteça em breve.

"É possível a longo prazo, mas as incertezas científicas são grandes", disse ela, acrescentando que há muitas incertezas para determinar se isso levará um século ou mais, ou mesmo se acontecerá. "Por enquanto, é melhor lidar com o facto de o oceano estar a aquecer."

O Ministério do Ambiente da Noruega, por sua vez, disse à Reuters que está a procurar aprofundar o seu conhecimento através de novas pesquisas.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Organização para Segurança na Europa pede maior cooperação diante de clima extremo


A Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) alertou hoje que as tempestades que afetam Portugal e Espanha demonstram que os riscos aumentados pelas alterações climáticas impõem mais colaboração entre legisladores.

“O impacto das sucessivas tempestades na Península Ibérica é um forte lembrete de que as alterações climáticas estão a remodelar os riscos que todos enfrentamos, sublinhando a necessidade de agir com urgência e cooperação para reforçar a nossa resiliência e adaptarmo-nos às realidades de um mundo em aquecimento”, declarou a representante especial da Assembleia Parlamentar da organização, Ainur Argynbekova, num comunicado.

Segundo a representante da OSCE, “os parlamentares têm um papel crucial na tradução dos compromissos climáticos com leis concretas e em quadros de cooperação”.

“Uma forte liderança legislativa é essencial para proteger vidas, meios de subsistência e a estabilidade das comunidades em toda a região da OSCE”, avaliou.

Ainur Argynbekova declarou que “a Assembleia Parlamentar da OSCE reafirma o seu compromisso de integrar as considerações climáticas e de segurança em todas as áreas do seu trabalho e de promover ações cooperativas e inclusivas que construam resiliência e prosperidade partilhada”.

Segundo a responsável, “os recentes debates internacionais, incluindo a COP30 – a conferência da ONU para as Alterações Climáticas, realizada em novembro, em Belém, no Brasil – têm enfatizado que a resposta aos riscos climáticos exige não só a redução das emissões, mas também a aceleração da adaptação”.

“Os eventos climáticos extremos não são incidentes isolados. Refletem uma tendência global mais ampla, identificada pelo Relatório de Riscos Globais 2026 do Fórum Económico Mundial como a principal ameaça a longo prazo para as sociedades atuais”, disse.

De acordo com Ainur Argynbekova, as alterações climáticas aumenta os riscos de segurança, económicos e sociais.

“A ciência confirma que as alterações climáticas aumentam a frequência e a intensidade das tempestades, inundações, ondas de calor e outros fenómenos climáticos extremos, com consequências de longo alcance para os sistemas energéticos, segurança alimentar e hídrica, serviços de emergência e equidade social”, lembrou.

“A Assembleia Parlamentar da OSCE expressa as suas mais profundas condolências a todos os afetados e solidariza-se com as comunidades que enfrentam estes acontecimentos devastadores”, disse ainda a responsável da OSCE.

Treze pessoas morreram em Portugal desde a semana passada na sequência da passagem das depressões Kristin e Leonardo, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.

A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal. As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas.

O Governo prolongou a situação de calamidade até dia 15 para 68 concelhos, que irão beneficiar de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.

A situação de calamidade em Portugal continental foi inicialmente decretada entre 28 de janeiro e 01 de fevereiro para cerca de 60 municípios, tendo depois sido estendida até ao dia 08 para 68 concelhos, voltando a ser prolongada até 15 de fevereiro.

As sucessivas tempestades também atingiram a Espanha, provocando enormes danos materiais e milhares de atingidos.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Ataque directo: Trump reverte avanços na acção climática nos primeiros 10 dias de 2026



Passados apenas 10 dias de 2026, Donald Trump já lançou uma série de ataques sucessivos ao clima.

A administração dos EUA tem vindo a afastar-se gradualmente de reconhecer o seu envolvimento na crise climática ou de a enfrentar, apesar de ser o segundo maior emissor anual de gases com efeito de estufa e, historicamente, o maior contribuinte para o aquecimento global.

No ano passado, os EUA não enviaram qualquer delegação às negociações da COP30 e, desde então, apagaram todas as referências a combustíveis fósseis do site da sua Agência de Proteção Ambiental. Entretanto, Trump tem criticado o boom das energias renováveis e levado a sua atitude "drill baby drill" ao plano global.

Eis um resumo do que o Presidente dos EUA fez até agora, com menos de duas semanas de 2026.

EUA retiram-se de tratado climático da ONU

Esta semana, o Presidente foi acusado de "descer a um novo mínimo" depois de retirar os EUA de um tratado climático crucial numa retirada abrangente das instituições globais.

Num Memorando Presidencial assinado a 7 de janeiro, Trump argumentou ser "contrário aos interesses dos EUA" permanecer membro, participar ou prestar apoio a mais de 60 organizações, tratados e convenções internacionais.

Isto inclui a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC), que visa estabilizar as emissões de gases com efeito de estufa, e o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), a principal autoridade mundial em ciência do clima.

"Numa altura em que a subida do nível do mar, o calor recorde e desastres mortais exigem ação urgente e coordenada, o governo dos EUA escolhe recuar", afirma Rebecca Brown, presidente e CEO do Center for International Environmental Law (CIEL).

"A decisão de retirar financiamento e sair da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC) não absolve os EUA das suas obrigações legais de prevenir as alterações climáticas e reparar os danos climáticos, como o mais alto tribunal do mundo deixou claro no ano passado".

Venezuela: controlo do petróleo
Após forças especiais dos EUA terem capturado o Presidente da Venezuela e a sua mulher numa operação relâmpago, Trump mostrou claro interesse nas reservas de petróleo.

A Venezuela detém as maiores reservas provadas de petróleo bruto do mundo, estimadas em 303 mil milhões de barris (Bbbl), superando petroestados como a Arábia Saudita e o Irão.

Trump confirmou de imediato que os EUA estariam "muito fortemente envolvidos" na indústria petrolífera do país, com planos para enviar grandes empresas norte-americanas para reparar a infraestrutura petrolífera da Venezuela e "começar a fazer dinheiro para o país". Numa entrevista a 8 de janeiro, disse que os EUA poderiam explorar as reservas de petróleo da Venezuela durante anos.

"Numa era de agravamento acelerado da crise climática, cobiçar as vastas reservas de petróleo da Venezuela desta forma é simultaneamente imprudente e perigoso", diz Mads Christensen, da Greenpeace International.

"O único caminho seguro passa por uma transição justa longe dos combustíveis fósseis, que proteja a saúde, salvaguarde os ecossistemas e apoie as comunidades, em vez de as sacrificar por lucros de curto prazo".

Novas orientações alimentares
Os Departamentos de Saúde e Serviços Humanos e da Agricultura dos EUA foram alvo de críticas após publicarem as orientações alimentares de 2026, que incentivam as famílias norte-americanas a privilegiarem dietas assentes em "alimentos integrais e densos em nutrientes".

A nova pirâmide alimentar coloca uma imagem de um bife de vaca e carne de vaca picada no topo, na secção "proteína", apesar de a carne de vaca ser responsável por emissões de gases com efeito de estufa 20 vezes superiores por grama de proteína do que alternativas de base vegetal, como feijões e lentilhas.

Nenhum destes alimentos surge na pirâmide alimentar, mas ambos são referidos nas orientações completas.

"Embora existam muitas formas de satisfazer as nossas necessidades de proteína, nem todas as fontes de proteína têm o mesmo impacto nas pessoas ou no planeta", afirma Raychel Santo, investigadora de alimentação e clima no World Resources Institute (WRI).

"A carne de vaca e o borrego, em particular, têm alguns dos custos ambientais mais elevados entre os alimentos ricos em proteína, com emissões de gases com efeito de estufa, uso do solo e poluição da água significativamente superiores por onça de proteína face à maioria das alternativas".

Bloqueio de Trump às renováveis
No ano passado, a administração Trump suspendeu concessões em todos os projetos eólicos offshore nos EUA, invocando preocupações de segurança nacional. A medida travou trabalhos em cinco locais, incluindo os parques Revolution Wind e Sunrise Wind da Ørsted, bem como áreas de empresas como a Equinor e a Dominion Energy.

Segue-se à crítica constante de Trump às energias renováveis, que já descreveu como a "burla do século". Mas a decisão teve consequências dispendiosas que transitaram para o novo ano.

Na semana passada, Ørsted apresentou uma ação judicial contra a suspensão do governo dos EUA, argumentando que já tinha obtido todas as licenças federais e estaduais exigidas em 2023. O seu projeto Sunrise Wind deverá custar ao promotor mais de 1 milhão de dólares por dia (cerca de 859 100 euros).

O Departamento do Interior afirmou, em dezembro, que a pausa daria ao governo "tempo para trabalhar com concessionários e parceiros estaduais na avaliação da possibilidade de mitigar os riscos de segurança nacional colocados por estes projetos".

Interesse de Trump na Gronelândia
A obsessão crescente de Trump com a Gronelândia suscitou preocupações entre ambientalistas relativamente aos seus recursos minerais críticos, vistos como "essenciais" para a transição para a energia verde.

Um levantamento de 2023 concluiu que 25 dos 34 minerais considerados "matérias-primas críticas" pela Comissão Europeia foram encontrados na Gronelândia. Estima-se que o território detenha entre 36 e 42 milhões de toneladas métricas de óxidos de terras raras, o que o torna a segunda maior reserva depois da China.

Explorar estes recursos poderia ajudar os EUA a reduzir a dependência da China, que atualmente processa mais de 90 por cento dos minerais de terras raras do mundo, e reforçar a posição dos EUA à medida que a procura aumenta.

Desde o primeiro mandato, Trump tem procurado responder a este tema, aprovando leis para aumentar a produção mineral norte-americana e intensificando a mineração em mar profundo, tanto em águas dos EUA como em águas internacionais.

No entanto, alguns especialistas acreditam que as reservas minerais da Gronelândia podem ser apenas uma cortina de fumo para os verdadeiros motivos de Trump.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Economia verde alcança a marca de US$ 5 triliões


A COP30, realizada em novembro em Belém do Pará, no Brasil, terminou sem um resultado preciso. Houve avanços reais em alguns aspectos, sobretudo em relação à adaptação às mudanças climáticas, mas não foi possível chegar a um acordo em torno de aspectos básicos, como a eliminação do uso de combustíveis fósseis. O debate segue vivo até a próxima COP, que será sediada na Turquia, em 2026. Ainda assim, os temas ambientais continuam em alta no mundo e a agenda ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança), usada para avaliar práticas sustentáveis e responsáveis das empresas, ganha cada vez mais relevância.

Fórum Económico Mundial afirma que o dinamismo da economia verde só fica atrás do setor de tecnologia. Em relatório recém-divulgado, a instituição estima que a chamada green economy já chega a US$ 5 triliões por ano e deve alcançar US$ 7 triliões até 2030. Segundo o documento, em média, as receitas verdes crescem ao dobro da velocidade das receitas convencionais; as empresas que actuam no segmento têm acesso a recursos mais baratos e costumam ser mais bem avaliadas no mercado de capitais.

Investimento em títulos verdes
Nas finanças, o movimento é nítido. Antes vistos como um nicho, os fundos ESG se tornaram uma força importante no mundo financeiro global, atraindo triliões de dólares. Segundo a Fortune Business Insights, empresa de inteligência de mercado e consultoria, o mercado global de investimentos ESG foi avaliado em US$ 39 triliões em 2025 e deve atingir US$ 125,17 triliões até 2032, crescendo a uma taxa anual média composta de 18,1%.

O avanço é impulsionado pelo aumento da preocupação da sociedade com esses temas, o que leva empresas a adotar práticas sustentáveis e também a fazer emissões de títulos verdes, sociais e de sustentabilidade, que superaram US$ 160 biliões em 2023. Segundo a pesquisa global de investidores da PwC, 79% dos investidores consideram riscos e oportunidades ESG ao tomar decisões de investimento.

Investidores institucionais, como fundos de pensão, seguradoras e governos, dominam o mercado actualmente, mas a expectativa é que o segmento de pessoas físicas ganhe tração nos próximos anos.

A agenda ambiental abre um gigantesco horizonte econômico, que aparece nas finanças, mas também na economia real, com a necessidade, por exemplo, de contratação de profissionais com habilidades verdes. E a procura  por esses trabalhadores vem crescendo mais do que a oferta. De acordo com o relatório Global Green Skills Report 2023, do LinkedIn, entre 2023 e 2024, a procura por profissionais com habilidades sustentáveis aumentou 11,6%, enquanto o número de trabalhadores sem essas qualificações subiu apenas 5,6%.

Redução de Gases de Efeito Estufa
São empregos em áreas diversas, como agricultura regenerativa e sustentável, energia renovável, saneamento, reciclagem, entre outros. "O importante é que o trabalho desempenhado contribui para a redução de emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), para a preservação dos recursos naturais e para o avanço da transição ecológica. Fonte: Global Energy Review 2025

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Relatório aponta caminhos para evitar catástrofe ambiental planetária

A Marcha Mundial pelo Clima levou milhares de pessoas às ruas de Belém (PA) em 15 de novembro de 2025, durante a COP 30, incluindo indígenas e outros povos tradicionais da Amazónia 

Investir na sustentabilidade salvaria milhões de vidas e injetaria biliões de dólares na economia mundial, segundo o Programa das Nações Unidas para o Ambiente

Se o objetivo é viver bem e produzir riqueza a longo prazo, preservar a natureza é o melhor negócio que os seres humanos podem fazer. Em resumo, esta é a mensagem central da sétima edição do relatório Panorama Ambiental Global (GEO-7, na sigla em inglês), produzido pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA) e apresentado nesta terça-feira (9/12) como “a avaliação mais abrangente já realizada” sobre o estado de saúde do planeta Terra.

Produzido por um conjunto de 287 investigadores, de 82 países (incluindo vários brasileiros), o documento apresenta um diagnóstico detalhado de como as atividades humanas estão a impactar a natureza e o que precisa de ser feito para minimizar esses impactos, pelo bem da própria humanidade. “A nossa mensagem é muito simples: o tempo está a acabar, mas as soluções existem”, resumiu Ying Wang, uma das coordenadoras do GEO-7, no evento de lançamento do relatório.

A má notícia é que estamos a caminhar a passos largos para um colapso generalizado de todos os sistemas naturais (terrestres, aquáticos, marinhos e atmosféricos) dos quais dependemos para a nossa sobrevivência e a nossa qualidade de vida. A crise climática, causada pela queima de combustíveis fósseis, é apenas parte do problema. Aquecimento global, desflorestação, perda de biodiversidade, desertificação, acidificação dos oceanos, caça e pesca predatórias, degradação e poluição de ecossistemas em geral - entre outros problemas - formam uma combinação cataclísmica de impactos socioambientais que precisam de ser revertidos com urgência.

“O consenso científico é que seguir os caminhos de desenvolvimento atuais levará a mudanças climáticas catastróficas, devastação da natureza e da biodiversidade, degradação debilitante da terra, desertificação e poluição mortal persistente - tudo isso a um custo enorme para as pessoas, o planeta e as economias”, alerta o PNUA.

O relatório enfatiza que a situação atual precisa de ser encarada não apenas como um problema ambiental, mas como uma crise económica, social e existencial de amplo espectro, que ameaça a saúde e a segurança alimentar, hídrica, energética e climática de milhares de milhões de pessoas em todo o mundo. Só a poluição do ar, por exemplo, mata mais de 8 milhões de pessoas por ano.

Alguns indicadores do colapso ambiental destacados no relatório, segundo o PNUA
  1. Taxa de aquecimento global: provavelmente será maior do que as estimativas centrais das projeções anteriores do IPCC  aumentando o risco de ultrapassar irreversivelmente vários pontos de rutura climática (tipping points) nas próximas décadas, incluindo grandes mudanças na circulação oceânica, perda acelerada de mantos de gelo, degelo generalizado do permafrost, declínio de florestas e colapso de ecossistemas de recifes de coral.
  2. Ameaça de extinção: 1 milhão, das cerca de 8 milhões de espécies conhecidas, está ameaçado de extinção, algumas nas próximas décadas. As populações de muitas outras espécies estão em declínio e a sua diversidade genética está a ser significativamente reduzida.
  3. Degradação terrestre: entre 20% e 40% da área terrestre foi estimada como degradada em 2022. Entre 2015 e 2019, pelo menos 100 milhões de hectares (o equivalente ao tamanho da Etiópia ou da Colômbia) de terras férteis e produtivas foram degradados anualmente em todo o mundo.
  4. Volume de resíduos: o volume anual de resíduos sólidos produzidos já ultrapassa os 2 mil milhões de toneladas e, mantidas as tendências atuais, deve aumentar para 3,8 mil milhões de toneladas até 2050.
“Está muito claro que há uma crise ambiental global. O clima da Terra está a mudar, a biodiversidade está a ser perdida, a poluição está a aumentar e as terras estão a degradar-se, e todas essas questões estão interligadas e precisam de ser abordadas em conjunto. Coletivamente, estes problemas estão a minar o bem‑estar humano, a redução da pobreza, a saúde, a segurança alimentar e hídrica, e estão a causar danos económicos e sociais substanciais”, disse o investigador Robert Watson, um dos coordenadores do GEO-7, no lançamento do documento.

O relatório reforça muitos dos alertas feitos durante a COP30, a conferência do clima que ocorreu no mês passado em Belém do Pará, e faz um apelo pelo cumprimento das metas estabelecidas nas convenções sobre Alterações, Biodiversidade e Desertificação da ONU, além dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que “expiram” em 2030 e não serão alcançados pelas políticas atuais. “Sem uma ação rápida e transformadora, a humanidade corre o risco de enfrentar um aumento de três graus Celsius nas temperaturas globais, poluição desenfreada e uma perda catastrófica de biodiversidade”, escrevem os coordenadores do relatório, no prefácio do documento. “Se quisermos evitar uma catástrofe para a humanidade, é preciso agir agora - os próximos cinco anos são cruciais.”

Dentre todos os ecossistemas, os recifes de coral de águas quentes são os que correm risco mais iminente de colapso - justamente em função dessa combinação cumulativa de impactos associados às alterações climáticas, poluição marinha, degradação ambiental, pesca predatória e outras atividades humanas. Estudos citados no relatório indicam que 90% dos corais tropicais poderão desaparecer se o aquecimento global passar de 1,5 °C, o que implicaria prejuízos imensos para a biodiversidade marinha e para milhões de pessoas que dependem desses ecossistemas para a sua sobrevivência.

Até agora, a temperatura média do planeta já aumentou 1,3 °C, em comparação com a média da era pré-industrial, e alguns cientistas estimam que a marca de 1,5 °C de aquecimento será ultrapassada nos próximos cinco a dez anos.

Boa notícia
A boa notícia é que ainda dá tempo de reverter esta situação, se agirmos com urgência, e que isso pode ser extremamente benéfico, não só como estratégia de sobrevivência, mas também de promoção do desenvolvimento económico e social. “Embora existam custos iniciais, o custo económico da inação é muito maior e o retorno a longo prazo do investimento na transformação é nítido”, alerta o documento do PNUA.

Segundo o relatório, a transição para um modelo mais sustentável de desenvolvimento - que não sobreaqueça o planeta nem destrua a natureza - geraria um retorno para a economia mundial de até 20 biliões de dólares por ano a partir de 2050 e de até 100 biliões de dólares por ano a partir de 2070, ao mesmo tempo que evitaria milhões de mortes e tiraria milhões de pessoas da pobreza. O custo das mudanças necessárias para fazer essa transformação positiva, comparativamente, seria de 3 biliões de dólares ao ano até 2040.

O retorno sobre esse investimento, porém, só se concretizará com uma reforma estrutural profunda dos sistemas económico e financeiro globais. “Essa é uma premissa básica do relatório”, diz o cientista Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física e cocoordenador do Centro de Estudos Amazónia Sustentável da USP, que foi um dos revisores do GEO-7. “Tem de se transformar o modelo que nós temos hoje em algo que seja minimamente sustentável do ponto de vista social, económico, ambiental e climático.”

Algumas mudanças fundamentais, segundo o relatório, incluem a eliminação de subsídios e outros incentivos fiscais para atividades geradoras de grande impacto ambiental (como a produção de combustíveis fósseis) e a incorporação do custo de externalidades ambientais e sociais no preço de produtos, de forma a refletir o custo real da sua produção - por exemplo, incorporando os custos dos impactos decorrentes das emissões de carbono e do uso de recursos hídricos e pesticidas no preço de mercadorias agrícolas.

Os investigadores reconhecem que isso poderá elevar o custo de alimentos e energia para o consumidor final, mas argumentam que se trata de um dilema incontornável e que é preciso criar mecanismos de compensação económica e social para amortecer esse impacto. “É um trade-off necessário, que cada sociedade precisa de discutir como implementar”, avalia Artaxo. Ignorar os custos dessas externalidades hoje, segundo ele, só aumenta o custo que as próximas gerações, inevitavelmente, terão de pagar por eles no futuro. “Alguém vai pagar essa conta”, diz Artaxo. “O problema é que o preço aumenta exponencialmente com o tempo, conforme se caminha para a intensificação das alterações climáticas.”

Também é fundamental transitar rapidamente para sistemas agrícolas e energéticos de baixo impacto ambiental, e para modelos de economia circular, capazes de reduzir a produção de resíduos sólidos (como lixo plástico e eletrónico) e a procura por recursos naturais e minerais para a fabricação de novos produtos.

O esforço precisa de ser coletivo e envolver todos os setores, com indivíduos, instituições, empresas e governos a trabalhar em sinergia para produzir uma mudança sistémica de larga escala — incluindo mudanças nos hábitos de consumo, desenvolvimento (e adoção) de novas tecnologias, promoção (e implementação) de políticas públicas favoráveis à sustentabilidade, e assim por diante.

Outro ponto crucial, destacado ao longo de todo o relatório, é a importância da integração e da valorização do conhecimento de populações indígenas e outros povos tradicionais na construção de soluções sustentáveis. “Um planeamento inclusivo envolve conciliar as contribuições, os interesses concorrentes e as diversas visões de múltiplos atores da sociedade, incluindo os povos indígenas e as comunidades locais. A colaboração entre os povos indígenas e os governos locais, regionais e nacionais é essencial nesse sentido”, diz o documento.

Mudanças necessárias para evitar o colapso ambiental global, organizadas em cinco áreas-chave, segundo o PNUMA
  1. Economia e finanças: ir além do conceito de PIB (Produto Interno Bruto) para incluir métricas de riqueza mais inclusivas e abrangentes, que contemplem valores naturais e sociais; precificar as externalidades positivas e negativas para valorizar corretamente os bens; eliminar progressivamente e reorientar subsídios, impostos e outros incentivos que resultem em impactos negativos na natureza.
  2. Materiais e resíduos: implementar design circular de produtos, transparência e rastreabilidade de produtos, componentes e materiais; direcionar os investimentos para modelos de negócio circulares e regenerativos; mudar os padrões de consumo em direção à circularidade por meio da mudança de mentalidades e comportamentos.
  3. Energia: descarbonizar o fornecimento de energia; aumentar a eficiência energética; apoiar a sustentabilidade social e ambiental nas cadeias de valor de minerais críticos; ampliar o acesso à energia e combater a pobreza energética.
  4. Sistemas alimentares: transição para dietas saudáveis e sustentáveis; aumentar a circularidade e a eficiência da produção; e reduzir a perda e o desperdício de alimentos.
  5. Ambiente: acelerar a conservação e restauração da biodiversidade e dos ecossistemas; apoiar a adaptação e a resiliência climática, recorrendo a Soluções Baseadas na Natureza; implementar estratégias de mitigação climática, com redução nas emissões de gases do efeito de estufa.
O relatório completo tem mais de 1200 páginas e 21 capítulos, cada um redigido e revisado por dezenas de cientistas, com base em centenas de estudos e relatórios científicos. O lançamento oficial ocorreu em Nairóbi, no Quénia (onde fica a sede do PNUA), durante a sétima sessão da Assembleia das Nações Unidas para o Ambiente, o órgão máximo de deliberação sobre temas ambientais no sistema da ONU.

“Não precisamos de caminhar no escuro”, diz o investigador Jean Pierre Ometto, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), um dos autores brasileiros do relatório. Ele destaca que o documento, ao mesmo tempo que faz alertas preocupantes, aponta os caminhos e oferece as informações científicas para executar as mudanças de rota necessárias. “Não é só que há uma luz no fim do túnel; nós estamos com a lanterna na mão”, disse Ometto ao Jornal da USP. “O que precisamos de fazer é iluminar os cantos certos, para não pisar no buraco.”

Soluções personalizadas
Além do diagnóstico global, o GEO-7 também traz análises e recomendações personalizadas para cada uma das cinco grandes regiões do mundo reconhecidas pela ONU: América Latina e Caraíbas; Europa Ocidental e Outros Estados (incluindo Estados Unidos, Canadá e Austrália); África; Europa Oriental (incluindo a Rússia) e Ásia-Pacífico.

Uma das características diferenciais da América Latina, segundo Ometto, é a sua dependência de recursos naturais e estabilidade climática para a produção de energia e alimentos - uma relação que traz ao mesmo tempo vantagens e vulnerabilidades. No caso do Brasil, alterações nos padrões de chuva causadas pela desflorestação e pelas alterações climáticas, por exemplo, podem ser desastrosas para a agricultura e para a segurança energética do país, já que a maior parte da eletricidade produzida ali vem de hídricas, que dependem da chuva para funcionar.

“Na América Latina e nas Caraíbas, o cenário de Tendências Atuais terá implicações significativas para os sistemas humanos e naturais”, diz o relatório. “As consequências para a biodiversidade e para os sistemas humanos devem intensificar-se devido ao aumento da frequência e da intensidade de ondas de calor e secas extremas. Esses efeitos, agravados por eventos extremos de inundação, exercerão uma pressão crescente sobre os recursos hídricos, com sérias consequências para a pesca e a agricultura.”

“A relação dos países da América Latina com os bens naturais é muito forte. A transição (para um novo modelo de desenvolvimento) precisa de respeitar e resgatar essa relação”, afirma Ometto. Ele é um dos autores principais do Capítulo 20 do relatório, que trata dessas realidades regionais, ao lado da investigadora Danielle Denny, do Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI), e do Centro de Pesquisa em Carbono na Agricultura Tropical (CCarbon), ambos da USP.

“A América Latina e as Caraíbas são uma região-chave para a transição ecológica, tanto na parte de adoção de tecnologias como na de mudanças de comportamento”, disse Denny, que também é pós-doutoranda na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba.

Este olhar regionalizado do relatório é essencial para desenvolver soluções que sejam compatíveis com a realidade de cada país ou região, aponta Artaxo. “Isso é fundamental, porque não existe uma solução que funcione para todo o mundo. As soluções que funcionam para a China, Estocolmo e Montreal não servem para o Brasil, Rio de Janeiro e Salvador”, compara o investigador.

Uma das implicações disso, segundo Artaxo, é que a ciência brasileira precisa de ser fortalecida para desenvolver essas estratégias personalizadas para a realidade nacional. “Ou nós desenvolvemos, com a nossa própria ciência, estratégias de mitigação e adaptação para cada cidade e cada região brasileira, ou vamos sofrer consequências económicas pesadas”, sacramenta o professor da USP.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Solos superficiais guardam 45% mais carbono do que o estimado


A camada superior dos solos armazena 45% mais carbono do que se estimava, conclui um relatório da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) que apela à proteção jurídica do solo, à semelhança da atmosfera e dos oceanos.

As camadas mais finas do topo do solo são uma solução climática mais eficaz do que se pensava mas continuam excluídas das políticas climáticas globais, alerta o relatório da Comissão Mundial de Direito Ambiental da IUCN (WCEL), da Aroura e do movimento Save Soil, divulgado no Dia Mundial do Solo, que hoje se celebra.

Os dados das organizações indicam que os solos armazenam 2.822 gigatoneladas de carbono no metro superior e que isso significa que os solos superficiais retêm 45% mais carbono do que as estimativas anteriores.

O relatório denuncia uma persistente marginalização dos solos, da terra e dos sistemas agrícolas no financiamento climático e nas políticas climáticas, lembrando que 40% da terra do planeta está degradada, valor que vai subir para 90% até 2050, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

“Restaurar a saúde do solo pode ser uma solução imensa para a mitigação climática e uma ferramenta de sequestro de carbono, mas até que estabeleçamos caminhos claros e acessíveis para investimentos em grande escala, os solos permanecerão estruturalmente excluídos das soluções climáticas”, afirmou Praveena Sridhar do Movimento Save Soil, citada em comunicado.

A organização defende que, para manter o limite de 1,5 °C, o sistema climático deve reconhecer a restauração do solo e da terra como um dos pilares centrais da estabilidade climática global.

Cerca de 27% das emissões necessárias para manter o aquecimento abaixo de 2°C podem ser sequestradas em solos saudáveis, segundo o estudo, no entanto 70% dos países não incluíram a restauração do solo como solução de mitigação das alterações climáticas nas suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (CNDs), da cimeira do clima COP30.

One EU project seeks to address this. ⁠A Soil Deal for Europe has an estimated investment of around 1 billion euros (US$1.15 billion) up to 2028, which involves establishing 100 Living Labs, research, innovation, and developing the monitoring framework, includes mapping. ⁠While other EU funding, like the Common Agricultural Policy (CAP), also contributes to soil management, the 1 billion euros is the most direct figure associated with the Soil Mission that underpins the new EU-wide soil health monitoring framework. Its ⁠goal is to develop a robust, harmonized EU-wide soil monitoring framework, which will contribute to assessing and achieving healthy soils by 2030 in line with the EU Green Deal’s long-term vision of healthy soils by 2050.

Unlike the UN Convention on the Law of the Sea (UNCLOS) for oceans and the Paris Agreement for the climate, soil lacks a global legal protection framework. However, the EU, the Pan-African Parliament and the International Union for Conservation of Nature (IUCN) last month took steps mandating the development of a Global Legal Instrument for Soil Security.

At a COP30 High-Level Ministerial Event on Wednesday, Brazil’s Minister of Agriculture and Livestock Carlos Fávaro launched the Resilient Agriculture Investment for Net-Zero Land Degradation as a legacy effort to restore degraded farmland and promote sustainable agriculture.

The report introduces the Soil Security Framework, a practical model for protecting and restoring the world’s soils across five dimensions: capacity, condition, connectivity (how people value soil), capital, and codification (legal protection). This approach reframes soil from an agricultural variable to a strategic resource underpinning food, water security, climate resilience and economic stability.

Soil health is fundamental not only as a carbon sink, but also for climate adaptation. “Living soils are fundamental to agriculture,” said Sridhar. “They support you when you go through climate shocks. Healthy, living soils can absorb flood waters, and in drought they hold water like sponges. The crops are not successful because of the inputs you put on top like chemicals and pesticides – the security lies below the surface.”

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

COP30: Alto-comissário para os Direitos Humanos critica “inércia fatal” dos líderes


O Alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, destacou hoje os “resultados insignificantes” da COP30 no Brasil, alertando para a “inércia fatal” dos líderes que poderá vir a ser considerada um crime contra a humanidade.

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) terminou no sábado em Belém, no Brasil, com a adoção de um acordo minimalista, sem menção explícita ao abandono dos combustíveis fósseis, mas saudado por alguns como prova de que o multilateralismo ainda funciona.


Num discurso no Fórum das Nações Unidas sobre empresas e direitos Humanos, em Genebra, Volker Türk referiu que os “resultados insignificantes” da COP30 ilustram como os desequilíbrios de poder corporativos se manifestam na emergência climática.

“A indústria de combustíveis fósseis gera lucros colossais enquanto devasta algumas das comunidades e países mais pobres do mundo”, apontou, destacando como imprescindível responsabilizar os responsáveis pelos danos ligados às alterações climáticas.

Volker Türk pediu ainda aos países que imponham obrigações de diligência às empresas e que promovam reparações por danos relacionados com o clima.

“A resposta inadequada de hoje poderia ser considerada um ecocídio, ou mesmo um crime contra a humanidade?”, questionou.

A China bloqueou discretamente uma linguagem mais incisiva à porta fechada. Os Estados Unidos, o maior emissor e a maior economia do mundo, nem sequer estavam presentes. Quando os principais intervenientes se afastam do Acordo de Paris, o mito do consenso absoluto desmorona-se diante dos nossos olhos.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Mais de 30 países dizem que não apoiarão texto da COP30 sem mapa do caminho para abandonar combustíveis fósseis

Turbinas de energia eólica são vistas em frente a usina a carvão na Alemanha

Mais de 30 países pressionaram a Presidência da COP30 nesta quinta-feira (20) ao afirmar que não apoiarão um texto final da Cúpula que deixe de fora um mapa do caminho de transição global para longe dos combustíveis fósseis.

O g1 teve acesso à carta conjunta enviada pelas delegações pedindo que o tema permaneça no rascunho político da conferência.

A cobrança surgiu após circular entre diplomatas que uma nova versão do texto poderia retirar a proposta de iniciar a construção desse mapa, prevista no primeiro rascunho do tema divulgado na última terça-feira (18).

Entenda o termo: “Mapa do caminho” ou roadmap (em inglês) é o termo usado em negociações internacionais para designar planos de ação que estabelecem etapas, prazos e metas concretas rumo a um objetivo comum. Na prática, trata-se de um roteiro político e técnico que define “quem faz o quê, até quando e com quais recursos”.

O movimento ocorre em meio à resistência de grandes produtores e consumidores de petróleo, gás e carvão.

Na carta, países como Colômbia, França, Reino Unido, Alemanha e outros afirmam que “não podem apoiar um resultado que não inclua um mapa do caminho justo, ordenado e equitativo para deixar os combustíveis fósseis para trás”.

O grupo reúne nações da Europa, América Latina, Ásia e ilhas do Pacífico, muitas delas entre as mais ativas na defesa do avanço da transição energética.

Segundo negociadores, algumas delegações chegaram a cogitar abandonar as conversas caso o mapa do caminho fosse excluído.

A discussão sobre combustíveis fósseis se tornou o ponto central da COP30. O desfecho dependerá de como o mapa do caminho será tratado no texto final, que ainda está em negociação e deve avançar ao longo desta sexta-feira (21) ou para o fim de semana.

Como os mapas do caminho pode aparecer na COP?
A inclusão do tema depende do consenso entre os países participantes.

Desde a COP 28 em Dubai, no ano de 2023, os países concordaram que é preciso fazer uma "transição para longe dos combustíveis fósseis".

No termo em inglês, o texto final cita "transitioning away from fossil fuels", sem detalhar como e quando isso será feito. A COP 29, no Azerbaijão, não apresentou avanços concretos nesta direção.

E é justamente neste ponto que as expectativas sobem em relação à COP30, já que os anos recentes foram fartos em dados apontando o aumento dos eventos extremos.

Os números também mostram que são remotas as chances de alcançar a meta de conter o aquecimento global a 1,5°C em relação à era pré-industrial.

E o consenso científico aponta que é preciso frear a emissão de gases de efeito estufa para limitar os efeitos da crise climática.

Também na última terça, um grupo de cerca de 80 países defendeu a importância da adoção de um mapa do caminho para o fim do uso dos combustíveis fósseis.

A defesa de um mapa do caminho foi realizada em entrevista coletiva num dos auditórios da COP30 e foi convocada pela Dinamarca.

Entre os participantes que declararam apoio à iniciativa estavam ministros da Colômbia, do Quénia, do Reino Unido, de Serra Leoa, entre outros.

"A urgência da crise climática não permite desaceleração. A ciência é clara e os impactos são diários e muito caros, particularmente para o sul global", disse a ministra do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, Irene Vélez Torres.

"Hoje, as pessoas ao redor do mundo estão mobilizando, em uma escala massiva, demandando ação concreta para a justiça climática, particularmente contra a expansão de fronteiras de combustíveis fósseis", acrescentou.

Na coletiva, a delegação alemã também disse que praticamente toda a Europa apoia a iniciativa.

“Vamos fazer uma Mobilização global para nos libertarmos dos combustíveis fósseis”, disse Carsten Schneider, Ministro do Meio Ambiente, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear da Alemanha.

O secretário de Estado para Segurança Energética e Net Zero do Reino Unido, Ed Miliband, também reforçou que a coligação reunida nesta Mobilização expressa um alinhamento raro entre países do Norte e do Sul globais e que o Sul, especialmente, tem insistido que o tema não pode mais ser ignorado.

Ele afirmou que o momento político é favorável e que a COP30 tem a hipótese de avançar a transição para longe dos combustíveis fósseis, retomando o impulso deixado pela COP28 (Declaration on Climate, Relief, Recovery and Peace).



quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Serão as agências de classificação do carbono a chave para evitar o greenwashing?


Com a União Europeia a retomar a utilização de créditos de carbono como um mecanismo para ajudar as indústrias e empresas europeias a compensar as suas emissões de gases com efeito de estufa, a Euronews falou com Sebastien Cross, cofundador e diretor de inovação da agência de classificação de carbono BeZero Carbon, sediada em Londres.

Fundada em 2020, a agência tem como principal função avaliar os créditos de carbono e analisar a probabilidade de estes compensarem uma tonelada de carbono, um método análogo à forma como as agências de notação financeira avaliam a probabilidade de incumprimento de obrigações e instrumentos financeiros.

"O que fazemos como agência de notação é avaliar os créditos", disse Cross. "Não fornecemos as metodologias, não acreditamos. Analisamos os créditos e dizemos qual é a probabilidade de estes créditos refletirem efetivamente uma tonelada de carbono emitida, o que todos eles são rotulados como fazendo".

O mercado de carbono da UE27, o Regime de Comércio de Licenças de Emissão (CELE) permite às empresas europeias comprar e vender licenças para cobrir as suas emissões. Até 2020, o bloco utilizou créditos de carbono, então conhecidos como créditos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que permitiam às nações mais ricas ganhar créditos investindo em projetos sustentáveis nos países em desenvolvimento.

A utilização dos MDL foi abandonada na sequência de acusações de "greenwashing", de crédito excessivo e de desvio dos esforços genuínos de redução das emissões a nível interno. No entanto, com o advento da lei da UE relativa ao objetivo climático para 2040, que visa reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em 90%, o bloco está novamente a considerar a utilização de créditos de carbono internacionais para reduzir 5% das suas emissões.

Mercados de carbono em maturação
O cofundador da agência BeZero afirmou que os governos que utilizam classificações estão a procurar ajuda para avaliar a credibilidade dos créditos que estão a adquirir ao abrigo do artigo 6.

"Vimos o interesse dos governos em usar as classificações como uma ferramenta enquanto procuram projetar como desejam usar os créditos de carbono em seus sistemas de conformidade", disse ele. "Obviamente, as discussões na UE são muito interessantes nessa perspetiva".

Cross observou que muita coisa mudou nos últimos cinco anos, incluindo a mentalidade sobre o risco e o desempenho real dos créditos de carbono.

"A agência de notação está a fornecer aos compradores e investidores uma medida de risco que lhes permite compreender a dinâmica subjacente real", afirmou, referindo que há cinco anos os mercados de carbono não tinham qualquer métrica de risco associada.

Cross afirmou que os mercados de carbono estão a tornar-se mais maduros, o que considerou um desenvolvimento positivo, dada a crescente atenção política aos créditos de carbono e ao seu papel na descarbonização.

A UE, o Brasil, a China, a França, a Alemanha e o Reino Unido, entre outros, aprovaram recentemente um compromisso global para os mercados de carbono, à margem da cimeira sobre o clima COP30. Esta iniciativa assinala uma ampla intenção de desenvolver mecanismos de fixação de preços do carbono e um mercado mundial do carbono.

Os créditos de carbono são emitidos em dois sistemas distintos: o mercado de cumprimento e o mercado voluntário.

Os governos gerem o mercado de conformidade, no qual certas empresas têm de comprar licenças oficiais que lhes permitem libertar uma determinada quantidade de CO2 ao abrigo de leis e limites rigorosos.

O mercado voluntário, por sua vez, permite às empresas comprar créditos de projetos ambientais, como a proteção das florestas ou a energia limpa, para reduzir a sua pegada de carbono.

No entanto, como explicou Cross, com a UE aberta a incluir os créditos de carbono como instrumento de descarbonização e a integrar o artigo 6.º do Acordo de Paris nos seus objetivos, será a UE ou os Estados-membros a fixarem o preço dos créditos.

"Precisamos de preços de carbono mais elevados para manter o incentivo à descarbonização", afirmou Cross. "E a preocupação é que, se os créditos forem permitidos no estrangeiro, o preço do carbono é reduzido, o que não incentiva as empresas a investir nas coisas necessárias para descarbonizar a nível nacional".

Também partilhou preocupações sobre as implicações da integração de créditos de carbono no CELE, uma vez que a UE27 está atualmente a ponderar a inclusão de remoções permanentes de carbono no seu âmbito.

"Existe um risco percetível de que isso reduza o preço do CELE, uma vez que os créditos serão mais baratos", disse Cross.

O problema da validação
Num sistema de crédito de carbono, os países ou empresas que emitem mais gases com efeito de estufa têm de comprar mais licenças de crédito. Caso emitam menos emissões, podem vendê-las, criando assim um sistema de comércio de licenças.

"O crédito de carbono considera uma atividade, ou melhor, uma intervenção, que está a reduzir ou a remover carbono e tenta creditar o carbono que foi reduzido ou removido", explicou Cross.

Estas intervenções podem ser baseadas na natureza, como a florestação e a proteção de mangais e turfeiras, ou não baseadas na natureza, como a utilização de tecnologias de captura e armazenamento de carbono.

"No que respeita às intervenções não baseadas na natureza, temos tido historicamente muitos créditos de energias renováveis. Se os créditos se referem ao facto de a energia marginal que produzimos ser proveniente de energias renováveis e não da rede, estamos a reduzir a intensidade de carbono", afirmou Cross.

Sempre que os créditos de carbono são emitidos, as empresas que os utilizam são obrigadas a tornar pública uma determinada quantidade de informação.

"Quando analisamos projetos emitidos, podemos começar com a informação disponível ao público. Depois, contactamos o promotor ou o proprietário do projeto se algumas informações não forem claras, precisarem de ser clarificadas ou estiverem em falta", explicou Cross.

"O papel da agência de notação é fornecer o máximo de informação e dados que pudermos para questionar a exatidão desses números. E isso reflete-se depois na nossa classificação principal".

Desempenho dos créditos de carbono
Cross disse à Euronews que existe uma variação considerável entre a eficácia dos diferentes créditos de carbono e que avaliar o seu verdadeiro desempenho é muitas vezes impossível.

"Não se pode observar exatamente o que estão a conseguir porque existem fatores como as linhas de base contrafactuais, em que não se pode observar, apenas se tenta estimar", disse. "Nunca há dados perfeitos por trás do número de créditos que são emitidos".

No caso da captura direta de dióxido de carbono da atmosfera, por exemplo, existe muita informação disponível para avaliação, porque os sistemas tecnológicos determinarão a quantidade de carbono que está a ser separada de outros componentes do ar e transportada. No entanto, ainda é necessário determinar um valor de referência para avaliar o impacto que estes esforços estão realmente a ter.

"É a parte mais controversa de um projeto de crédito de carbono - tentar perceber o que teria acontecido se o projeto não fosse para a frente - porque é isso que é preciso creditar entre essas duas linhas", disse Cross.

Esta é uma das razões pelas quais a UE teve dificuldades com a integração do MDL, explicou, porque vários projectos alegaram falsamente que estavam a fazer algo que levaria a evitar um certo número de emissões.

"A principal diferença agora é a disponibilidade de ferramentas como as nossas, que permitem compreender realmente o que está a ser alcançado ao nível do projeto", acrescentou, referindo-se a imagens de satélite e tecnologias mais avançadas do que qualquer outra disponível anteriormente.