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segunda-feira, 13 de julho de 2026

Despejo dos hortelões no Porto - "Misericórdia" só de nome


O caso do despejo dos utentes da Horta Comunitária do Porto deixa-me triste e indignado. Contrariamente ao último relatório da SCMP (2025), que é totalmente positivo - destacando inclusive a atribuição de 62 novos talhões, em 2025, no âmbito do projeto Horta à Porta -, a realidade atual demonstra o oposto.

Uma instituição cujo foco histórico é a "Misericórdia" e o apoio social não pode extinguir um projeto com tanto impacto positivo na comunidade e na sustentabilidade urbana. Com esta decisão, a SCMP comporta-se como uma empresa privada de saúde mental, descurando o facto de que o contacto com o meio ambiente é parte fundamental da terapia e da recuperação dos utentes. Inúmeros estudos clínicos comprovam que tratar a saúde mental ignorando o meio ambiente e a natureza é uma abordagem clinicamente ineficaz. 

Isto traduz-se em pura lavagem verde (greenwashing), fazendo desaparecer, em pouco mais de três meses, uma das maiores hortas urbanas da Europa.

A polémica em torno do fim das hortas públicas da LIPOR no Porto (o programa "Horta à Porta") e o consequente despejo dos hortelãos é o reflexo perfeito de um trade-off político e social - aquele cenário clássico em que, para se ganhar de um lado, tem de se sacrificar o outro, sem que exista uma solução que agrade a todos. No centro da discussão, a postura do executivo liderado por Pedro Duarte ilustra bem esta balança de prioridades.

De um lado da balança, a autarquia e os proprietários dos terrenos, como a Santa Casa da Misericórdia do Porto (dona do espaço junto ao Hospital Conde Ferreira), justificam a desocupação com a necessidade de avançar com planos de reestruturação interna. No caso da Misericórdia, o argumento oficial não é a venda dos terrenos para a especulação imobiliária, mas sim a modernização e requalificação do complexo hospitalar, além da reorientação da horta para fins puramente terapêuticos e sociais da própria instituição. Sob o ponto de vista da gestão de ativos, trata-se de rentabilizar e ordenar o património para garantir a sustentabilidade das suas próprias obras de assistência.

Do outro lado da balança, o custo deste ganho institucional é inteiramente social e ambiental. O encerramento do projeto destrói uma das maiores redes de hortas comunitárias da Europa, retira o sustento e o passatempo de mais de duas centenas de famílias e elimina focos essenciais de biodiversidade e coesão social no meio do asfalto da cidade. É precisamente aqui que o trade-off se torna mais evidente para Pedro Duarte: ao focar-se na gestão rigorosa de ativos, na reavaliação de cedências antigas e na aplicação estrita da lei sobre a ocupação dos terrenos, o executivo municipal prioriza a eficiência e o ordenamento do património público. Contudo, assume o pesado custo reputacional e político de ser criticado pela oposição por falta de sensibilidade social e pela ausência de alternativas viáveis de realojamento para os produtores locais. 

Mesmo que o objetivo declarado não seja o lucro imediato através de imobiliário, a decisão mexe com feridas abertas na cidade. O receio da oposição e dos hortelãos de que a libertação destes espaços centrais acabe por abrir portas à pressão imobiliária a longo prazo é o que alimenta o conflito. A atuação do executivo neste caso não se resume a um acerto ou erro absoluto, mas sim à escolha consciente de um dos lados da balança; é uma escolha ideológica e de gestão. Optou-se pelo ordenamento e requalificação dos equipamentos, aceitando como "dano colateral" o desalojamento de uma comunidade que ali tinha criado raízes.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Estudo científico revela que as cidades europeias podem produzir quase 30% das hortícolas que necessitam


O estudo recentemente publicado na revista Sustainable Cities and Society analisou 840 cidades europeias e concluiu que os espaços urbanos poderão produzir milhões de toneladas de hortícolas por ano.

Coberturas planas, quintais, terrenos abandonados, faixas verdes pouco utilizadas e outros espaços urbanos poderiam contribuir para alimentar cerca de 190 milhões de pessoas, chegando em alguns cenários a cobrir perto de 30% das necessidades de hortícolas frescos dessas cidades.

O mais interessante é que os investigadores não basearam as suas conclusões em tecnologias futuristas, agricultura vertical muito dispendiosa ou sistemas altamente industrializados.

Pelo contrário, o estudo focou-se sobretudo em soluções relativamente simples, acessíveis e de baixa tecnologia, baseadas em hortas no solo ao ar livre, em telhados planos e em terrenos baldios, muito próximas daquilo que muitos agricultores urbanos já fazem há décadas.

Na verdade, as cidades sempre produziram alimento. Durante séculos, Lisboa, Porto, Coimbra, Braga ou Évora viveram rodeadas de hortas, vinhas, olivais, pomares e pequenos campos agrícolas integrados no tecido urbano e periurbano.

O século XX alterou profundamente essa relação. Impermeabilizámos solos férteis, enterrámos linhas de água, destruímos quintas históricas e afastámos progressivamente a produção alimentar dos centros urbanos. Hoje começamos finalmente a compreender a fragilidade estrutural deste modelo.

As alterações climáticas, os eventos extremos, as crises energéticas e a inflação alimentar estão a obrigar cidades e governos a repensar a segurança alimentar. A agricultura urbana deixa assim de ser apenas uma ferramenta educativa ou recreativa. Passa a ser uma estratégia de resiliência territorial.

Depois de mais de vinte anos ligado à agricultura regenerativa urbana, continuo profundamente convencido de que uma cidade capaz de produzir parte do que come é uma cidade mais saudável, mais justa e mais resiliente.

Este estudo vem apenas confirmar aquilo que muitos agricultores urbanos conhecem há décadas. Por baixo do betão continua a existir território fértil, e dentro das cidades continua a existir uma profunda necessidade humana de cultivar alimento.

Já em 2013, um relatório da UNCTAD afirmava que o modelo de agricultura industrial era insustentável e que os modelos agroecológicos locais/ regionais diminuiriam a desigualdade entre Norte Global e Sul Global, entregando às populações de países ditos menos desenvolvidos ferramentas e educação para poderem obter os seus próprios alimentos.

Mais info:

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Webinar - Indicadores Biológicos do Solo: Métodos de Amostragem


A Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DGADR) e a Parceria Portuguesa para o Solo promovem, no próximo dia 12 de dezembro, um webinar dedicado aos indicadores biológicos do solo e aos respetivos métodos de amostragem, dirigido a técnicos envolvidos no aconselhamento agrícola

A ação de capacitação, realizada em formato webinar, tem como principal objetivo apresentar os métodos utilizados na recolha e análise de indicadores biológicos que permitem avaliar a saúde do solo, reforçando a importância de protocolos padronizados e boas práticas durante o processo de amostragem.

A sessão será conduzida por Ruth Pereira, investigadora da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e do centro GreenUPorto – Centro de Investigação em Produção Agroalimentar Sustentável. A oradora abordará princípios e exemplos de aplicação de técnicas como o ensaio de bait-lamina, atividades enzimáticas, respiração do solo, diversidade da fauna edáfica e outros indicadores utilizados na monitorização funcional do microbioma.

A formação destina-se a técnicos com formação superior em ciências agrárias, especialmente aqueles que actuam no aconselhamento agrícola nas áreas relacionadas com o Plano de Fertilização.

sábado, 22 de novembro de 2025

Esta torre de escritórios com horta vertical pode alimentar 40.000 pessoas


A empresa de design Carlo Ratti Associati lançou um projeto de uma torre de escritórios em Shenzhen, China, cuja fachada inteira será uma horta urbana vertical. Este projeto foi também inscrito no concurso de design de construção da rede de supermercados chinesa Wumart.

“A agricultura urbana em pequena escala está a acontece em cidades de todo o mundo – de Paris a Nova Iorque e Singapura”, afirmou em comunicado Carlo Ratti, sócio fundador da CRA e professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

“A Torre Jian Mu, no entanto, leva a agricultura urbana para o próximo nível. Esta abordagem tem o potencial de desempenhar um papel importante no projeto das cidades do futuro, pois envolve um dos desafios arquitectónicos mais urgentes da atualidade: como integrar o mundo natural com projeto de construção. Além de produzir alimentos, a horta da Torre Jian Mu ajuda com a proteção solar – uma questão fundamental em edifícios altos.”

A torre tem 218 metros de altura e dedica 10.000 metros quadrados da sua superfície ao espaço de cultivo. Uma horta vertical em tal espaço poderia produzir cerca de 270.000 kg de alimentos por ano, o que alimentaria 40.000 pessoas. O cultivo, a colheita, a venda e o consumo dos alimentos devem ocorrer dentro do mesmo prédio para reduzir o desperdício e a poluição da cadeia de abastecimento. A torre também abrigará escritórios, uma praça de alimentação e um supermercado.

“Jian Mu”, o nome dado à torre, vem de uma árvore chinesa mítica que, segundo a lenda, chega ao céu. Para refletir a crença tradicional chinesa de que o céu é redondo enquanto a terra é quadrada, a Torre Jian Mu foi projetada para se transformar lentamente de uma base retangular num topo arredondado tubular.

A torre está repleta de espaços verdes que, além de funcionais, também pretendem ser bonitos. Terraços ajardinados ao ar livre alimentados por irrigação sustentável em vários níveis conterão lichias, nenúfares e samambaias. Os jardins interiores serão abertos a escritórios no interior do edifício. Os trabalhadores poderão usar uma app para ajustar os microclimas dentro do seus escritórios, que levam a espaços verdes de dois andares criados para minimizar a necessidade de ar condicionado.

Saber mais:

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Valpaços foi distinguida como Cidade Biológica Europeia de 2025


O galardão reconhece o compromisso da cidade transmontana com práticas sustentáveis, a promoção de produtos locais e a integração da produção biológica na estratégia de desenvolvimento regional. O município português, com mais de 14 500 habitantes, é líder nacional em agricultura biológica e em sustentabilidade integrada, contando com 516 produtores biológicos certificados, o maior número em Portugal. A educação para a sustentabilidade, as medidas ambientais e a inovação estão no centro da sua estratégia, apoiadas por uma liderança política empenhada, pela cooperação interinstitucional e por políticas inclusivas. Os “tesouros biológicos” de Valpaços incluem produtos DOP e IGP premiados, como vinho, azeite, amêndoas, castanhas e mel.

O Comissário Europeu para a Agricultura e a Alimentação, Christophe Hansen, declarou: «Os vencedores dos Prémios Europeus da Produção Biológica são exemplos brilhantes do que o movimento biológico na Europa pode alcançar: combinam os mais elevados padrões ambientais com resiliência económica e envolvimento social. O seu trabalho demonstra que a agricultura biológica não só produz de uma forma sustentável, como também constrói comunidades e molda o futuro. Hoje celebramos as suas conquistas e homenageamos a força e o potencial de todo o setor biológico na Europa.»

Na cerimónia, o Comissário Hansen proferiu o discurso de abertura, seguido de uma mesa-redonda com representantes das instituições europeias, do organismo representativo dos agricultores COPA-COGECA e dos premiados.

Na sua quarta edição, os Prémios Europeus da Produção Biológica foram lançados em 2022 como um compromisso no âmbito do Plano de Ação para o Desenvolvimento da Produção Biológica, com o objetivo de reforçar o consumo de produtos biológicos. Na nova proposta relativa à Política Agrícola Comum, a União Europeia continuará a assegurar um forte apoio político à agricultura biológica, garantindo que o setor possa continuar a crescer e prosperar.

Mais informações sobre todos os vencedores de 2025 estão disponíveis nesta página

sábado, 22 de abril de 2023

Feliz Dia Mundial da Terra

Earth Day 2023

Rosmaninho, a mais alegre das alfazemas
Comecemos por usar as palavras certas e deixar de chamar lavandas às alfazemas, porque é este o autêntico nome português desta família de plantas (apesar da sua nomenclatura científica ser Lavandulas). Vamos também deixar de chamar rosmaninho ao alecrim, superando outra confusão causada pelo nome científico. É que ser o alecrim designado por Rosmarinus officinalis – e ser “romero” em espanhol, “romarin” em francês e ”rosmarino” em italiano – causa frequentes erros de tradução.

O rosmaninho (Lavandula stoechas) é uma das várias espécies e variedades de alfazemas espontâneas no nosso território. Planta alegre e garrida, enche de tons de roxo o horizonte.

Arbusto perene, de folhas cinzentas e persistentes, muito resistente a condições climáticas extremas. A floração ocorre entre o fim da primavera e o verão. A cor das flores é normalmente lilás (ou azulada), podendo ser também branca ou rosa. É excelente como planta ornamental de exterior.

Prefere solos neutros, toleram geadas e mesmo nevões não muito prolongados. Deve ser colocada num local bem exposto ao sol, pois em locais sombrios terá crescimento e floração pobres e tempo de vida reduzido.

Planta muito útil em termos medicinais: ação antiespasmódica e anticancerígenas. Utilizado para dificuldades no sono, problemas de circulação, prevenção de doenças degenerativas e tratamento de enxaqueca.

Cosmética: utilizado no fabrico de sabonetes devido à sua ação bactericida, cicatrizante e hidratante.

Por vezes são empregues em culinária na aromatização de carnes e na curtimenta das azeitonas de conserva.

Bibliografia

ARAGÃO,M.J., Plantas e Algas Medicinais de A a Z. 2009. 198
CASTRO, F. L., Cultura de Plantas Aromáticas e Medicinais. 1995. 115
HAWKEY, S., Plantas Medicinais. 2004. 64
RAUSCH, A.; LOTZ, B., Ervas Aromáticas de A-Z. 2005. 298
PODLECH, D., Herbs and Healing Plants: of Britain & Europe. 1994. 249
PODLECH, D.; LIPPERT, W., Wild Flowers: of Britain & Europe. 1994. 252
ULLMANN, H. F., Botanicas’s Pocket: Gardening Encyclopedia. 2007. 1008

Sites

quarta-feira, 12 de abril de 2023

Sitopia: reconstruir as nossas vidas através da comida

Arquitecta e autora de importantes ensaios sobre a cidade e a comida, sobre o abastecimento das cidades, Carolyn Steel desenvolveu uma importante problemática em torno do conceito de «sitopia», isto é, do mundo como lugar moldado pela alimentação. No centro da sua análise, está o pressuposto contemporâneo da comida barata, proporcionada por uma indústria agroalimentar que põe em causa o futuro da vida na Terra.

Nerea Morán, arquiteta e docente na Escola Superior de Arquitetura de Madrid (ETSAM). É autora de livros como Raíces en en asfalto. Pasado, presente e futuro da agricultura urbana e Cidades em movimento. Avanços e contradições nas políticas autárquicas desde a óptica das transições ecossociais.

Sitopia é um termo cunhado por Carolyn Steel que combina as palavras gregas sitos (comida) e topos (lugar), significando "lugar de comida", e refere-se ao mundo moldado pela alimentação, propondo que repensar nossa relação com a comida pode salvar o planeta e melhorar a vida humana. É um conceito que explora como a comida, muitas vezes invisível na sua omnipresença, influencia paisagens, cidades, política, economia e o nosso corpo, oferecendo uma alternativa à utopia, ao focar num "lugar" real e fundamental para a existência e transformação

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Livro- Manual de Agricultura Biológica


Nos últimos anos, a procura por alimentos de origem biológica disparou e são muitos os que optam por cultivá-los, seja para consumo próprio em pequenos quintais ou mesmo nas varandas, seja mudando de vida e trocando o ritmo alucinante das cidades pelo campo e pela natureza. Mas para quem nunca mexeu na terra, por onde começar? O que devo cultivar? E como garantir uma horta 100% biológica, sem recorrer aos químicos prejudiciais para o nosso corpo e para o meio ambiente? Como assegurar uma produção sustentável de uma forma biológica, respeitando a natureza? Como eliminar as pragas sem recorrer a pesticidas de síntese química? E quem já cultiva, mas quer tornar a sua produção mais saudável e mais alinhada com os tempos que vivemos? Foi a pensar nestas perguntas que surgiu este "Manual de Agricultura Biológica — Crie uma Horta Saudável e Cultive os Seus Próprios Alimentos", da autoria de três destacados elementos da AGROBIO - Associação Portuguesa de Agricultura Biológica. Neste livro prático, repleto de quadros, ilustrações e esquemas elucidativos, e quer seja um iniciante ou já possua experiência, poderá aprender a melhor maneira de organizar e cuidar de uma horta biológica, para poder ter sempre hortícolas saudáveis e amigos do ambiente.

sábado, 15 de outubro de 2022

Porque não podemos ser cúmplices na transformação da emergência climática em fatalidade

Pisco-de-peito-azul (Luscinia svecica) macho

Enquanto assistimos à transformação da emergência climática em fatalidade, não podemos continuar sentados à espera que os Estados e as organizações consigam alcançar os compromissos necessários e/ou a poderem agir mais, fazer mais.

De facto, eles têm de fazer mais e agir mais e devemos exigir-lhes isso de todas as formas possíveis, falando mais neste tema, trazendo-o todos os dias à praça pública e privada e exigindo ações concretas e não intenções vãs, que se perdem em programas eleitorais, narrativas ilusórias, ou pactos que não se cumprem ou se manipulam com fins esconsos.

Enquanto isto ocorre todos os dias, temos de nos perguntar o que nós, individualmente e em grupo, nas nossas casas, na nossa vida quotidiana, entre o trabalho e toda a vida que se desenha no nosso dia-a-dia, podemos fazer? E de tudo daquilo que achamos que podemos fazer, o que verdadeiramente queremos fazer? Isto é, até onde estamos dispostos a mudar os nossos estilos de vida de modo a podermos assegurar futuro às gerações mais jovens e sobretudo às vindouras? E quiçá talvez mesmo à nossa?!

As Nações Unidas têm incorporado na sua missão esta luta pelo Clima, têm liderado as investigações, os estudos bem como desenhado e exigido compromissos sérios em praça pública. Apesar do discurso duro do seu Secretário Geral, ‘o nosso’ António Guterres, e das suas boas e esclarecidas intenções, a verdade é que a sua ação pouco ou nada tem mudado a forma como Estados e organizações têm lidado com as Alterações Climáticas. No entanto, e porque as Nações Unidas têm tentado abordar a complexidade deste problema nas suas múltiplas dimensões, quer a nível individual, quer a nível coletivo e organizacional, identifico aqui as 10 dicas que nos deixa na sua página, para combater a crise climática para que todos possamos refletir e agir mais:

1. Dissemine informações – identifique e junte-se a movimentos locais que procuram compreender o problema e encontrar soluções e discutir alternativas;

2. Faça pressão política – pressione os políticos a nível local, regional e nacional e as empresas e organizações, a reconhecerem o seu papel e a agirem, a fazerem parte da solução: faça ouvir a sua voz, exija responsabilidades;

3. Mude o seu meio de transporte – Sabemos que não basta vender o carro e comprar uma bicicleta ou andar a pé, mas enquanto não criam melhores serviços de transporte coletivos, podemos reduzir ao máximo o uso do automóvel e até a sua substituição, nos casos em que já temos as soluções de transportes alternativos:

4. Controle o seu consumo de energia –reduzir o consumo será a solução – reveja todos os sistemas em casa (para poupar energia e tornar a sua casa mais eficiente) e procure fontes alternativas.

5. Adapte a sua dieta – apesar das controvérsias e pela sua saúde reduza o consumo de carne e peixe, aumente o dos vegetais e leguminosas.

6. Consuma produtos sustentáveis e de origem local, da estação. Sempre que possível plante e consuma os seus próprios alimentos. Mesmo não tendo terreno ou varanda, pode pedir à junta de freguesia ajuda ou organizar hortas coletivas/comunitárias.

7. Não desperdice comida, não compre o que não vai consumir e se comprar reaproveite-os ao máximo.

8. Vista-se com inteligência (climática) – reduza o consumo, reaproveite e conserve as roupas e procure roupas feitas com materiais sustentáveis e recicláveis.

9. Plante árvores – use aquela terra que herdou e não sabe o que lhe fazer e plante árvores, conserve e mantenha as árvores da sua rua e se possível organize-se para plantar mais.

10. Faça investimentos favoráveis ao planeta – trabalhe apenas com empresas que respeitem o ambiente e invistam na sustentabilidade social e ambiental. Faça as suas pesquisas e cruze informações.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Brigada anti-fúngica


Durante uma sessão de aconselhamento no Parque Hortícola do Infantado, em Loures, tivemos um agradável encontro com um numeroso grupo de joaninhas de 22 pintas que se alimentavam do oídio instalado em folhas de curgete. A joaninha de 22 pintas (Psyllobora viginduopunctata) é pequenina mas muito voraz e, embora seja referida como polífaga, alimenta-se sobretudo de fungos, com especial predileção pelo oídio. Hortas ecológicas, com vegetação que lhes possa servir de abrigo, são locais propícios à proliferação destes insetos que são uma verdadeira brigada anti-fúngica. 

sábado, 24 de setembro de 2022

Recreating Terra Preta: Good Soil for Centuries!


Séculos atrás, os nativos da Amazónia conseguiram transformar o terrível barro amarelo num solo tão rico que ainda é fértil cinco séculos depois. Agora é chamado de "terra preta", a terra escura da Amazónia. Como foi feito o terra preta? Qual é o segredo por trás da terra preta? Hoje começamos uma experiência para ver se podemos recriar a terra preta na horta usando o que já sabemos.

Estrume, cacos de cerâmica, arbustos queimados, algas marinhas, ossos, resíduos de cozinha, camadas de biochar carregado, além de micronutrientes como areia verde e azomita para um incremento extra. Será que vai dar certo?

Blog diário de jardinagem de David 

sábado, 17 de setembro de 2022

É alarmante o colapso dos insectos


Autores, académicos, investigadores têm vindo a alertar para este problema civilizacional. É que sem insectos, em particular, os polinizadores, a escalada de preços de bens alimentares vai acontecer. 
Os insectos também desempenham outros papéis importantes. Eles decompõem os resíduos, ajudam a reciclar nutrientes do solo e servem de alimento para pássaros, anfíbios e outros animais da mesma cadeia alimentar da qual os humanos fazem parte.
Jardins com relva faz parte do passado.
Pavimentar as nossas casas, porquê? Dá menos trabalho, claro. E despende-se água potável para as lavar.
Quebras de habitat não é aceitável. Pressão urbanística, hoteleira ou mineração de lítio sobre regiões nacionais consideradas património agrícola mundial é inaceitável.
Manter as bermas das estradas com plantas silvestres.
Mais sistemas agroecológicos no nosso País. Estão comprovadamente adaptados às condições biogeoquímicas e geográficas e contribuímos para restauro dos ecossistemas, menos pegada ecológica e hídrica e salvaguardamos as teias da vida, onde estão incluídos os insectos.
Pequenos gestos diários como evitar pesticidas , quintais com a maior diversidade de plantas nativas, observa-se aumentos substanciais da população destes insectos em pouco tempo.

Livro para ler- clique na imagem


Factos
  1. Germany has lost three-quarters of the flying insects in its nature reserves and protected areas.
  2. In the rainforests of Puerto Rico, there has been a 98 percent decline in biomass of insects since the 1970s
  3. Denmark, a 97 percent decline since the 1990s. 
  4. In North America, one in four bumblebee species is in decline or threatened with extinction.
  5. We may have lost 95 percent of the world’s tigers, for example, but that’s happened over 100 to 150 years
  6. We’ve chopped down a third of the world’s trees since the industrial era began
  7. There’s one estimate that U.S. agricultural land has become 48 times more toxic than it was 25 years ago

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

It’s Time to Make Cities More Rural

Fonte: Wired
Jennifer Busselot has had one hell of a summer harvest. On a 576-square-foot plot of land, she’s pulled up over 200 pounds of produce—cucumbers, peppers, tomatoes, and basil, among other goodies—and the growing season isn’t anywhere close to done. Despite that resounding success, Bousselot is no farmer; she’s a horticulturist at Colorado State University, and that plot of land is actually up in the sky. The garden, atop a building near the Denver Coliseum, was purpose-built for Bousselot’s brand of research in an up-and-coming scientific field: rooftop farming.

As more people pour into metropolises—urban populations are projected to double in the next three decades, according to the World Bank—scientists like Bousselot are investigating how designers and planners can ruralize cities, greening roofs, and empty lots. The concept is known as “rurbanization,” and it could have all kinds of knock-on benefits for ballooning populations, from beautifying blocks to producing food more locally. It dispenses with the “city versus country” binary and instead blends the two in deliberate, meaningful ways. “You don’t have to set this up as a dichotomy between urban and rural, really,” says Bousselot. “What we should probably focus on is resilience overall.”

“The rurbanization idea is: OK, if we mix this up a bit, maybe we can create benefits on both sides,” adds Jessica Davies, principal investigator of Lancaster University’s Rurban Revolution project, a scientific investigation of the concept. “So if we bring some of what we grow nearer to where we live, can we enhance our connection with food? Can we make food more accessible? Can we improve local ecosystems?”

Recent research has begun to provide data on how well urban agriculture actually works if you’re planning to, you know, eat. A review paper published last month by researchers working on the Rurban Revolution project surveyed previous studies and determined that on average, urban agricultural yields (including both outdoor and indoor growing operations) were on par or higher than those of typical farms. But certain crops, like lettuces, tubers, and cucumbers, had yields up to four times higher when grown in cities. A separate team of scientists in Australia looked at 13 urban community farms for a year and found their yields to be twice that of typical commercial vegetable farms.

The caveat, though, is that this productivity comes in part from intensive human labor. On a commercial farm, crops are usually grown one at a time and tended with specialized equipment—you can’t plant wheat and carrots in the same field because they’re harvested in totally different ways. Crops also have to be spaced out to make room for where the equipment drives, reducing the amount of land that’s actually producing food.

An urban farm, by contrast, can grow all kinds of crops packed closely together because they’re harvested by hand. That’s part of the reason why Bousselot’s tiny rooftop garden in Denver is so productive. That crop diversity also means you can harvest different plants at different times—tomatoes in August, pumpkins in October—so the supply of food is more broadly distributed. Even though Bousselot has already harvested over 200 pounds of food, she still has two months left to go.

That requires human labor instead of a machine. So while urban farming can have a higher yield than traditional agriculture, it’s not necessarily as efficient. “But that inefficiency could easily change,” says Robert McDougall, an agricultural scientist at the independent research company Cesar Australia, who led the Australia study. “The people I studied were people who carried out urban farming mostly for recreational purposes, and so weren’t really interested in working as efficiently as possible. And they weren’t necessarily using the most efficient sources of materials.”

Take water, for example. Cities are currently designed to be impervious to rain, quickly draining it off streets to keep roads and buildings from flooding. But some urban areas are now transitioning into “sponge cities,” designed to safely soak up rain and store it for later use. In Los Angeles, for instance, officials are experimenting with roadside green spaces, where water seeps underground and into storage tanks. Rurbanized cities of the future could tap into that water source to grow food, and the gardens themselves could act like sponges, collecting rainwater to prevent local flooding.

Better municipal composting programs could also provide urban farmers with mulch so they don’t have to rely on synthetic fertilizers, which are terrible for the environment. “Were the gardeners I studied more tapped into these various sources of materials that were available within the environment around them,” says McDougall, “they could have easily carried out their farming in a much more sustainable fashion.”

Urban farms attract a host of pollinators like bees, McDougall has found. These insects, along with other pollinators like birds, could help boost biodiversity.

Cities also need all the green spaces they can get to counter the “urban heat island effect,” or the tendency for the built environment to absorb more of the sun’s energy than parks and forests do. Temperatures in urban areas can be 20 degrees Fahrenheit hotter than surrounding rural ones, where the plentiful vegetation releases water vapor—cooling the area as the plants essentially sweat. Bringing more plant life into cities will help cool things off and save lives during extreme heat events.

Urban agriculture can help insulate individual cities against food shocks, like if a particular mass-produced crop fails—which is increasingly likely as climate change spawns longer, more intense droughts. “You depend less on globalized supply chains,” says environmental scientist Florian Payen, who authored that review paper on yields. (He’s now at Scotland’s Rural College, but did the research while at Lancaster University.) “And so you are maybe less vulnerable to all of the different things like we’ve seen with Covid, or with climate change, that can impact the supply chain.”

Urban agriculture should also, in theory, reduce some of the emissions associated with conventional farming, which uses carbon-spewing machinery and requires shipping food vast distances to customers. But there isn’t much data to back that up yet, Payen says.

“The evidence so far is not really conclusive as to whether producing in urban areas for urban dwellers actually is associated with a lower carbon footprint than rural production,” says Payen. “And that is really based on the fact that there are lots of different ways of producing the food, and lots of different modes of transportation.” Wheat production, for example, is highly mechanized and relies on massive harvesting vehicles. And different crops travel different distances to get to market.

Those calculations focus primarily on the emissions from heavy machinery and long-distance trucking and shipping. But Elizabeth Sawin, founder and director of the Multisolving Institute, which promotes interventions that fix multiple problems at once, sees adding farms as a way to subtract a different source of emissions: cars. “Don't underestimate how much of the square footage of our cities is devoted to the automobile, like highways or parking,” she says. “As we open up more space for living with things like public transportation and dense housing, that could become space for growing food.” Obliterating asphalt and planting seeds would transform cities from car-centric to people-centric systems.

sábado, 10 de setembro de 2022

The secret tactics Monsanto used to protect Roundup, its star


As táticas secretas usadas pela gigante química global Monsanto, para proteger seu negócio de biliões de dólares e seu produto estrela, o herbicida Roundup.

"A Monsanto se engajou numa campanha sistemática e deliberada para atacar qualquer ciência que diga que seu produto não é seguro e para atacar qualquer cientista que tenha coragem de dizer alguma coisa." Advogado

Quando foi lançado há quatro décadas, o Roundup foi aclamado como um produto milagroso, um herbicida revolucionário que transformaria a agricultura e manteria os jardineiros felizes também. E veio com a promessa de que era seguro.

“A ampla publicidade afirma que a Monsanto estava avançando naqueles dias (era) que de alguma forma seu produto Roundup era totalmente seguro, biodegradável, seguro para animais de estimação e crianças e menos perigoso que o sal de mesa”. Ex-Procurador-Geral de NY

Agora, um processo judicial histórico nos EUA ganhou as manchetes em todo o mundo, com um júri declarando que o Roundup foi um fator substancial para causar o câncer terminal de um guardião da escola e que a empresa não havia alertado sobre o risco representado pelo produto.

"Eles têm uma cultura corporativa que tem apenas interesse em manter a capacidade deles de vender este produto." Advogado

O caso revelou o quanto a empresa tem ido, ao longo de décadas, para evitar o escrutínio e silenciar seus críticos.

"Gostaria de vê-los admitir que perceberam que não era seguro." Ex-agricultor e litigante.

Em entrevistas com os principais atores dessa saga corporativa, a repórter Stephanie March encontrou uma comunidade científica polarizada enquanto a empresa continua defendendo firmemente suas ações e seu produto.

"Obviamente, a ciência não ressoou com esse júri. Queremos entender por que, porque precisamos fazer um trabalho melhor explicando a ciência para que as pessoas entendam que os produtos à base de glifosato são seguros." Vice-presidente da Monsanto

A Four Corners traça a campanha de influência da empresa desde os EUA até a Austrália, onde o Roundup é usado em quintas e hortas domésticas em todo o país.

"Se há um problema com um produto, quero saber porque o uso." Agricultor

Saber mais sobre Monsanto Papers:
US Right To Know
Corporate Europe Observatory

domingo, 10 de julho de 2022

Que impacto tem o transporte dos alimentos nas emissões de GEE?



O impacto ambiental dos alimentos nas emissões de gases com efeito de estufa (GEE) vai muito além da sua produção – também engloba a distribuição. De acordo com um estudo, publicado na revista científica Nature, o transporte de alimentos é responsável por cerca de 19% do total de emissões do sistema alimentar. Isto corresponde a cerca de 3,0 gigatoneladas de emissões de dióxido de carbono equivalente (GtCO2e), uma quantidade entre 3,5–7,5 vezes maior do que a prevista anteriormente.

Para chegar a estes resultados, os cientistas calcularam a distância que os alimentos percorriam desde a sua produção até chegarem ao consumidor. Muitas destas viagens são internacionais, recorrendo a diferentes tipos de transporte como o camião, o navio ou o avião. A análise englobou 74 países e regiões de todo o mundo.

Os países mais ricos foram responsáveis por quase metade das emissões de transporte, dado que são os que mais importam alimentos e que recorrem a sistemas de refrigeração durante o deslocamento. Os países mais pobres, onde se concentra metade da população mundial, foram responsáveis por 20% das emissões.

No topo da tabela dos produtos alimentares que mais contribuem para esta situação estão as frutas e os legumes, que corresponderam a cerca de 36% das emissões, gerando o dobro da quantidade de emissões de CO2 produzidas durante a sua produção. Destacam-se ainda os cereais e a farinha, bem como os lacticínios.

A solução passa, sobretudo, por alterar as dietas alimentares com a introdução de mais alimentos à base de plantas, e pela aposta na produção local – principalmente nos países mais ricos.

sábado, 25 de junho de 2022

A verdadeira riqueza: uma economia de plenitude


Em True Wealth (intitulado Plenitude em capa dura), a economista e co-presidente do conselho da New Dream, Juliet Schor, oferece uma declaração intelectual inovadora sobre a economia e a sociologia do declínio ecológico, sugerindo uma mudança radical na forma como pensamos sobre bens de consumo, valor e formas viver: uma economia de plenitude.

Respondendo ao nosso momento atual, a True Wealth coloca a sustentabilidade em seu centro. Mas não é um paradigma de sacrifício. Em vez disso, é um argumento que, por meio de uma grande mudança para novas fontes de riqueza, tecnologias verdes e diferentes formas de vida, os indivíduos e o país como um todo podem realmente ficar em melhor situação e economicamente mais seguros.

Como observa Schor, a plenitude já está surgindo. Em pequenas colectividades dos EUA e do mundo, as pessoas estão ocupadas criando estilos de vida que oferecem uma saída para o ciclo de trabalho-consumo-trabalho. A vida destes pioneiros é escassa em bens de consumo convencionais e rica em recursos recém-abundantes de tempo, informação, criatividade e comunidade.

Agricultores urbanos, D.I.Y, bioconstrutores - todos estão espalhando seus riscos e estabelecendo novas fontes de rendimento e saídas para a aquisição de bens de consumo. Em conjunto, estas tendências representam um movimento de afastamento do mercado convencional e oferecem um caminho para uma vida eficiente e recompensadora numa era de preços altos e escassez de recursos tradicionais.

quarta-feira, 22 de junho de 2022

O manifesto da Sitopia: a comida como matriz civilizacional e arquitetura do poder


Introdução: a ilusão de More e a concretude de Steel
Em 1516, Thomas More cunhou em Utopia o duplo sentido de um ideal: o "lugar bom" (eu-topos) que é, simultaneamente, o "lugar nenhum" (ou-topos). Ao longo de séculos, o pensamento político ocidental tendeu a projetar as suas reformas sociais nesta dimensão abstrata, desenhando cidades perfeitas desprovidas de fricção material. Contudo, quando a arquiteta e urbanista britânica Carolyn Steel publicou Hungry City (2008) e, posteriormente, consolidou as suas teses no início da década de 2010, propôs uma inversão radical desse eixo especulativo. Ao formular o conceito de Sitopia (sitos = comida; topos = lugar), Steel retirou a reforma societal do campo do "lugar nenhum" e aterrou-a na materialidade biológica do prato.

A premissa sitópica, refinada por Steel ao longo de mais de uma década, postula que o alimento é a força geométrica e política primária que desenha o mundo visível. Não habitamos espaços neutros; habitamos uma complexa infraestrutura metabólica. A literatura, a filosofia e a história urbana demonstram que a alienação contemporânea em relação à origem do que comemos não é um acidente histórico, mas sim o resultado de uma fratura profunda na nossa narrativa civilizacional.

1. A cidade e o ventre: a perspetiva histórico-literária
A indissociabilidade entre a sobrevivência urbana e o abastecimento de comida encontra eco na grande literatura do século XIX, período em que as metrópoles começaram a perder o contacto direto com o seu hinterland rural. No seu romance monumental Le Ventre de Paris (1873), Émile Zola descreve os novos mercados centrais de Les Halles como um organismo biológico gigante, um ventre mecânico que dita o pulso, as neuroses e as divisões de classe da capital francesa. Zola já antecipava o que Steel sistematizou no século XXI: a cidade é uma máquina de devorar paisagens.

Antes da Revolução Industrial, a morfologia urbana era um reflexo direto dessa dependência. Como nota o historiador Fernand Braudel em Civilização Material, Economia e Capitalismo (1979), os limites de expansão de uma comunidade pré-industrial eram ditados pela velocidade a que o pão fresco ou o gado podiam caminhar até ao centro urbano. O mercado era o coração político (a ágora) e económico da cidade.

A rutura desse cordão umbilical biológico, operada pelos caminhos-de-ferro e pela refrigeração, criou a maior ilusão da modernidade: a da "comida barata". O filósofo e sociólogo Walter Benjamin, nas suas análises sobre as passagens de Paris, identificou como o capitalismo transformou a mercadoria num fetiche desligado da sua produção. No supermercado contemporâneo, este fenómeno atinge o seu apogeu. O alimento é purgado da sua história; a carne embalada em vácuo e os ultraprocessados operam como objetos estéticos abstratos, ocultando o trabalho camponês, a degradação dos solos e o confinamento animal.

2. O mapeamento concêntrico e a tradição filosófica
A matriz conceptual que Carolyn Steel desenhou a partir de 2011 organiza o impacto da comida em sete escalas concêntricas (Alimento, Corpo, Casa, Sociedade, Cidade, Campo e Natureza). Esta perspetiva holística resgata a filosofia clássica, nomeadamente o pensamento de Epicuro. Longe do hedonismo desenfreado que o senso comum lhe atribui, o epicurismo, como recorda o filósofo e economista Amartya Sen nas suas reflexões sobre desenvolvimento e bem-estar, foca-se na satisfação consciente das necessidades naturais e necessárias. Para Epicuro, compreender os limites do corpo e a origem dos nossos prazeres básicos é a única fundação possível para a liberdade política.

Quando a sitopia falha - transformando-se numa distopia alimentar -, o colapso propaga-se verticalmente por estas escalas. O impacto no Campo e na Natureza encontra um paralelo literário devastador em As Vinhas da Ira (1939), de John Steinbeck. Ao narrar a tragédia do Dust Bowl americano, Steinbeck descreve a mecanização impiedosa da terra e a expulsão dos agricultores por bancos e tratores:
"O trator faz duas coisas diferentes: vira a terra e expulsa-nos dela. Há pouca diferença entre o trator e um tanque de guerra; ambos expulsam os homens, intimidam-nos, destroem a sua ligação com a vida."
A crítica de Steinbeck antecipa o diagnóstico de Steel sobre o agronegócio industrial: ao tratarmos a terra (o Campo) como uma fábrica química e não como um organismo vivo (a Natureza), destruímos a própria base da comensalidade (a Sociedade) e da saúde (o Corpo).

3. Biopolítica e o futuro alimentar
A gestão do sistema alimentar contemporâneo pode ser analisada através do conceito de Biopolítica de Michel Foucault. Para Foucault, o poder moderno exerce-se controlando os corpos, a natalidade, a saúde e os fluxos vitais das populações. Quem controla a comida na sitopia globalizada não controla apenas um mercado; controla a própria biologia da humanidade.

Steel confronta dois caminhos alternativos para o futuro nesta disputa biopolítica:
  1. A distopia tecno-alimentar: Onde a comida é totalmente desmaterializada e gerida por monopólios de Silicon Valley (carne sintética de laboratório, patentes de sementes modificadas, substitutos nutricionais líquidos). É a realização da ficção científica especulativa, de que é exemplo a obra Soylent Green (Harry Harrison, 1966), onde a rutura total com a natureza transforma o ato de comer num gesto puramente funcional e controlado pelo Estado corporativo.
  2. A sitopia regenerativa / agroecológica: uma abordagem que se alinha com o conceito de Buen Vivir (Sumak Kawsay) das tradições indígenas andinas, amplamente estudado por sociólogos contemporâneos como Boaventura de Sousa Santos. Esta visão defende que a harmonia social é impossível sem a harmonia ecológica. Propõe a descentralização dos mercados, a soberania alimentar e o reconhecimento do camponês como o arquiteto essencial da paisagem.
Conclusão: o retorno à mesa como acto político
A Sitopia, tal como Carolyn Steel a defende desde os seus primeiros esboços teóricos, lembra-nos de que a economia não deveria ser a ciência da acumulação abstrata de capital, mas sim a ciência da gestão da nossa casa comum (oikos = casa; nomos = lei).

Ao introduzir a comida no centro do debate sobre o urbanismo e a filosofia política, Steel oferece uma resposta prática ao pessimismo ecológico. Se o atual colapso climático e civilizacional é o subproduto de uma sitopia negligenciada e predatória, a reconstrução do futuro está, literalmente, nas nossas mãos. Cada decisão de consumo, cada redesenho de um mercado municipal e cada refeição partilhada de forma consciente são atos de reconfiguração do espaço público. O garfo, mais do que o voto legislativo, tornou-se o instrumento político mais quotidiano, democrático e transformador da nossa era.

Referências Bibliográficas 
  • BENJAMIN, Walter. O Trabalho das Passagens. Paris: Éditions du Cerf, 1989.
  • BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo (Séculos XV-XVIII). Lisboa: Teorema, 1979.
  • FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
  • STEEL, Carolyn. Hungry City: How Food Shapes Our Lives. Londres: Chatto & Windus, 2008.
  • STEEL, Carolyn. Sitopia: How Food Can Save the World. Londres: Vintage, 2020.
  • STEINBECK, John. As Vinhas da Ira. Lisboa: Livros do Brasil, 1939.
  • ZOLA, Émile. Le Ventre de Paris. Paris: Georges Charpentier, 1873.
Página Oficial

terça-feira, 29 de junho de 2021

Vizinhos Inesperados - Sabia que Estes Animais Existem em Portugal?


Será que conhece bem a fauna portuguesa? Sabia que, pelos bosques e florestas, ou até no seu jardim ou horta pode deparar-se com um rato-de-faraó, um musaranho-pigmeu ou um camaleão? Descubra alguns dos animais que vivem em Portugal, e que muitos não conhecem!

O ESQUIVO RATO-DOS-POMARES
O Leirão, ou Rato-dos-Pomares, de nome científico Eliomys quercinus, é um roedor europeu com características bastante estranhas. É que o leirão, sentido-se ameaçado, consegue largar a pele e a cauda. Está classificado como Quase Ameaçado (NT) à escala global, no entanto, há uma grande falta de estudos sobre este roedor esquivo em Portugal. Foi identificado em várias áreas de Portugal Continental, mas, devido aos seus hábitos noturnos, é muito difícil de avistar. O Leirão gosta de uma variedade de habitats, de hortas a montados, ou mesmo zonas pedregosas de vegetação escassa, mas as florestas de sobreiros são os seus favoritos.

A SOLITÁRIA LONTRA-EUROPEIA
A Lontra-Europeia, Lutra lutra, é uma espécie abundante em Portugal, classificada como Pouco Preocupante (LC), se bem que na vizinha Espanha é uma espécie Vulnerável. Este mamífero semiaquático encontra-se de Norte a Sul do país em vários ambientes aquáticos como lagos, rios, ribeiras, canais, pauis, sapais e pequenas albufeiras, bem como em estuários e rias do litoral atlântico. Apesar de não se tratar de uma situação de emergência, a lontra-europeia enfrenta algumas ameaças como a poluição da água, a sobre-exploração dos recursos hídricos, ou ainda morte por atropelamento ou afogamento em redes de pesca. Saiba mais sobre a lontra-europeia, e as ameaças à sua conservação.

O ADORÁVEL GAMO
O Gamo é um cervídeo parente dos veados e cervos, de nome científico Dama dama. Apesar de estar classificada como Pouco Preocupante, não há populações silvestres desta espécie em Portugal, encontrando-se praticamente todos os gamos em reservas de caça privadas e parques naturais. Este tímido ruminante distingue-se do veado comum pela sua pelagem clara com manchas brancas, cauda comprida e pelas hastes. No entanto, à semelhança do veado, o macho do Gamo perde as suas hastes no inverno, que voltam a crescer na primavera. As fêmeas não têm hastes. Costumam encontrar-se mais ou menos por todo o país, com preferência para as zonas de pinhal ou montado.

O BRAVIO MUFLÃO
Ora, o Muflão, Ovis ammon musimon, é o antecessor selvagem do carneiro doméstico. É também chamado carneiro-selvagem, e é originário da Ásia. A introdução em Portugal ocorreu na década de 1990, em zonas de caça turística do Centro e Alto Alentejo. A nível global, é uma espécie vulnerável, pois é uma das ovelhas selvagens mais ameaçadas de extinção. O Muflão tem uma cor acastanhada que escurece à medida que vai envelhecendo, e desenvolve uma mancha branca distintiva de cada lado do torso, bem como os característicos cornos enrolados. Sabia que este atento animal consegue detetar o mais pequeno rumor a mais de duzentos metros de distância? E ainda que tem um apetite especial por frutos mais doces?

O TERRITORIAL CAMALEÃO-COMUM
O Camaleão-comum, Chamaeleo chamaeleon, é uma das únicas espécies de camaleões que se estende à Europa. Este réptil bem territorial, que não gosta da companhia dos seus pares, alimenta-se principalmente de gafanhotos e é autóctone do Sul da Península Ibérica, Chipre e Creta. Em Portugal, habita o Sul, no Algarve, e o seu estado de conservação é Pouco Preocupante. Além das suas características mais fascinantes – muda de cor e língua extremamente comprida e ágil -, o Camaleão-comum tem visão estereoscópica, cauda preênsil, e possui uma movimentação independente dos olhos. A próxima vez que for ao Algarve, fique atento aos pinhais costeiros e aos pomares: pode estar a ser observado por um curioso camaleão-comum.

O REGRESSO DO ESQUILO-VERMELHO
O Esquilo-vermelho, ou Sciurus vulgaris, voltou a Portugal! E, porquê “voltou”? É que este esquilo reguila ter-se-ia extinguido em Portugal no século XVI, mas a inícios do século XX terá começado a habitar o país novamente, vindo de Espanha. No entanto, há uns anos atrás foi declarado o regresso deste simpático roedor, e não apenas confinado a umas poucas áreas do Alto Douro. Agora, pode, com alguma sorte, ver estes esquilos-vermelhos (que também podem ser castanhos ou pretos) no Parque Nacional Peneda-Gerês, no Parque Florestal de Monsanto e no Jardim Botânico de Coimbra. Uma curiosidade: estes amigos nervosos, que têm por hábito enterrar as sementes que encontram, por vezes esquecem-se da localização das suas reservas de comida contribuindo, assim, para a reflorestação das áreas que habitam.

A TÍMIDA TOUPEIRA D'ÁGUA
Esta toupeira muito, muito tímida e difícil de ver, de nome científico Galemys pyrenaicus, é nativa e circunscrita ao centro de norte da Península Ibérica, e à zona dos Pirinéus. É um animal vulnerável, tanto a nível global como nacional, pelo que muitos esforços têm sido feitos para a sua conservação. Foi no Douro que o fotógrafo da National Geographic Joel Sartore fotografou um exemplar desta espécie, no âmbito do projeto conjunto Photo Ark. Esta excelente nadadora, pouco maior que um hamster, habita as margens de rios, ribeiras e outros cursos de água.

O MINÚSCULO MUSARANHO-PIGMEU
Quem já viu um musaranho-pigmeu provavelmente pensou que seria um ratinho de campo. Mas não, esta espécie, Suncus etruscus, não se trata de um roedor! Este musaranho, da família Soricidae, é o menor mamífero do mundo! O musaranho-pigmeu tem um comprimento entre 3 e 5 centímetros, e pesa em média 1,8g apenas. Está maioritariamente confinado às zonas rurais do Mediterrâneo, de Portugal ao Médio Oriente, com presença no Norte de África. Se vai procurá-lo no seu jardim – ou num olival ou vinha -, faça-o antes do Inverno: este pigmeu pode hibernar se ficar muito frio.

GINETA-EUROPEIA
Já alguma vez ouviu falar de uma gineta? Pois bem, este é um dos mamíferos carnívoros mais abundantes de Portugal! A genetta foi introduzida em Portugal, vinda de África de onde é natural, e adaptou-se muito bem. Não se sabe ao certo como foi a sua introdução na Europa, mas acredita-se que os Árabes a usassem como exterminadora de ratos nas habitações – a gineta é um excelente caçador – antes de os gatos domésticos terem sido importados do Egito. As ginetas apresentam uma pelagem normalmente castanha acinzentada, com manchas características, podendo ser mais escuras, e têm dimensões semelhantes às de gatos. Apesar de serem bastante adaptáveis a variados habitats, as ginetas preferem áreas florestais com cursos de água nas proximidades.

O VELOZ SACARRABOS
Sacarrabos, rato-de-faraó, icnêumon, mangusto ou manguço são alguns dos nomes comuns da espécie Herpestes ichneumon. O seu nome gera divisões: há quem acredite que vem da sua forma peculiar de deslocação em grupo – em fila indiana, muito com os narizes muito próximos da cauda do seguinte -, e também quem considere uma corrupção da palavra escalavardo, como é chamado no Alentejo. Este pequeno mamífero originário de África está restrito ao sudoeste da Península Ibérica, na Europa, e habita os matagais mediterrânicos. Pensava-se que tivesse sido introduzido na Europa pelos primeiros muçulmanos, mas um estudo de 2011 revelou traços fósseis de sacarrabos numa suposta ponte no Estreito de Gibraltar, durante o Pleistoceno, entre os períodos glaciar e interglaciar. Hoje em dia é bastante abundante no nosso país, e é muito conhecido por comer cobras, mesmo venenosas. Mas porquê o nome rato-de-faraó? Bem, o sacarrabos era venerado e considerado sagrado, no Antigo Egito, tendo sido encontradas várias múmias deste animal. Na mitologia egípcia, o Deus Rá transforma-se em sacarrabos para lutar o Deus serpente Apophis.