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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

O Pensamento de David Hume


David Hume é conhecido por seu ceticismo quanto à nossa capacidade de conhecer a realidade que nos cerca. Chegou a negar que a causalidade seja um aspecto objetivo e afirmou que a razão está subordinada aos aspectos conativos da psicologia humana. Essa interpretação aproxima-o da tradição sentimentalista, especialmente após ler Anthony Ashley Cooper (Conde de Shaftesbury) e continuar a proposta de Francis Hutcheson. Suas observações morais influenciaram Adam Smith, que foi um amigo próximo, e, recentemente, muitas teorias metaéticas.

Decidiu desde jovem a dedicar-se aos estudos e planejou tornar-se um intelectual. Sua primeira obra, em todo caso, não teve boa recepção, mas, logo depois, foi considerado um dos pensadores mais difíceis de ser refutado. Sabe-se que seu estudo sobre os limites epistemológicos da mente humana foi influenciado pela máxima de Isaac Newton: Hypotheses non fingo (Não adoto hipóteses), baseando-o, assim, em um modelo experimental. Sua crítica a toda metafísica e a perspectivas dogmáticas é mencionada por Immanuel Kant como um fator de reviravolta em seu pensamento.

Biografia de David Hume

David Hume nasceu em abril de 1711, em Edimburgo (Escócia), e foi batizado no mesmo dia. Viveu sua infância em Ninewells, região localizada na atual cidade de Dundee (Escócia). Seus pais, Joseph Home e Katherine Falconer, tiveram ainda John e Katherine. Seu pai faleceu em 1713, e foi sua mãe quem ficou responsável pelos filhos, incluindo a educação.

Com 11 anos, é enviado junto com o irmão para ter aulas na Universidade de Edimburgo, em especial de grego e latim, vindo a matricular-se em Direito em 1726. Enquanto considerava o curso de Direito desgastante, seu interesse por literatura e filosofia aprofundava-se. Já havia adquirido gosto pela leitura de Cícero e outros autores clássicos.

Abandona os estudos no ano seguinte e torna-se um leitor e escritor ávido. Acreditava que o conhecimento poderia ser adquirido pelos livros, pensamento que indica sua decepção com a academia. Decidiu estudar tão arduamente que ficou doente em 1729. Ainda não totalmente recuperado, sem conseguir expressar com clareza seus pensamentos, decide, no início de 1734, deixar os estudos para cuidar da saúde.

Segue para a cidade de Bristol, na Inglaterra, para trabalhar. É nesse período que decide alterar seu sobrenome para Hume, em função de uma dificuldade de pronúncia por parte dos ingleses. Poucas semanas, contudo, foram suficientes para abandonar o emprego e mudar-se para a França. É nesse período que escreve a maior parte de Tratado da natureza humana, sua primeira obra, dividida em três partes, publicadas separadamente entre os anos de 1739 e 1740.

As publicações não obtiveram sucesso, e o filósofo acreditou que as críticas recebidas estavam relacionadas a problemas na forma de apresentação das ideias, e não especificamente em seu conteúdo. Nos próximos dois livros, Investigação sobre o entendimento humano (1748) e Uma investigação sobre os princípios da moral (1751), então, desenvolveu, em uma linguagem mais atrativa, os temas presentes já na primeira obra.

O próprio David Hume considerava que este último é sua contribuição mais brilhante. O que o fez ganhar certa notoriedade, em todo caso, foram as reflexões breves (o tipo de texto é chamado essay em inglês) sobre política, ética e literatura, publicadas, em sua maioria, em 1741 e em edições posteriores.

Apesar de ter tentado em duas ocasiões, não conseguiu conquistar uma carreira acadêmica e tampouco se profissionalizou em outras áreas. Trabalhou como tutor, bibliotecário e secretário em diversas funções. Aproveitou o período como bibliotecário, de 1752 a 1756, para iniciar a escrita de seu aclamado História da Inglaterra, publicado em seis volumes e que lhe concedeu a estabilidade financeira tão esperada.

Foi como secretário para a embaixada britânica na França, entre 1763 e 1765, que fez contato com alguns filósofos do iluminismo francês, como Denis Diderot, Jean-Jacques Rousseau e Jean Le Rond d’Alembert, com o qual fez amizade.

David Hume sempre esteve preocupado em revisar e corrigir seus escritos, ao que se dedicou após 1762. Em 1769, já após seu último emprego, compra uma casa em Edimburgo e muda-se com sua irmã, em 1771. Após apresentar sinais de doença, visita médicos em abril de 1776, mesmo período em que promete ao seu editor, William Strahan, novas revisões de alguns textos. Meses antes de falecer, no mesmo ano, fez alterações no testamento, indicando como deveria ser o monumento sob seu túmulo e especificando até o valor total que deveria ser gasto nele.

Teoria do conhecimento de David Hume

A teoria do conhecimento desse filósofo é baseada em sua interpretação das operações da mente. Ele propõe que todo o conteúdo da mente (o que John Locke havia nomeado de modo semelhante como “ideias”) seja considerado como percepção. Esse termo é usado em um sentido mais amplo do que o do cotidiano e abrange as diversas operações e capacidades da mente.

As percepções só são distinguidas pelo grau de vivacidade com o qual nos afetam, assim, qualquer desejo, reflexão ou sentimento será sempre mais intenso do que uma recordação ou uma imaginação dessas situações. A lembrança do nascimento de um filho ou uma filha, por exemplo, não poderia comparar-se com o momento do nascimento em si. Sendo assim, teríamos as impressões, que são as percepções mais intensas, e os pensamentos (ou ideias), que são as percepções mais fracas. David Hume afirmou, por isso, que mesmo o pensamento mais intenso não se compara à impressão mais fraca.

Esse filósofo defendeu que os pensamentos representam o que originalmente apreendemos pelas impressões. Isso explicaria não apenas por que algumas percepções são fracas mas por que alguns pensamentos ocorrem apenas na mente e não na realidade. Podemos, por exemplo, imaginar uma montanha de ouro, mas nenhuma existe concretamente. Decompondo esse conteúdo em elementos mais simples (montanha e ouro), descobriríamos que esses conteúdos resultaram de experiências anteriores. É por meio dessa identificação que concluiríamos que todos os conteúdos da mente originam-se de alguma impressão.

Tendo explicado as operações da mente e identificado que os pensamentos têm origem empírica, seria esperada uma explicação sobre a origem do que percebemos pelos sentidos ou das sensações, que advêm de uma realidade extra mental, mas isso não ocorre! David Hume limita o entendimento humano às próprias percepções, de modo que essas percepções originárias simplesmente surgiriam na mente. Isso significa que não se pode experimentar o que está além dessas percepções mais simples.

Tendo indicado a origem dos pensamentos (ou das ideias), resta ainda indicar como se pode alcançar conhecimento ou certeza. Sobre isso há três principais relações: semelhança, contiguidade no tempo e no espaço, e causa e efeito. Embora as ideias possam ser associadas livremente, como ao imaginar-se uma montanha de ouro, apenas as duas primeiras relações são válidas para estabelecer-se verdades conceituais.

O que será mais inovador em seu pensamento é a investigação das questões de fato, na qual encontramos as causalidades. Todos os fatos seriam explicados por essa relação, no entanto, a causalidade em si não seria um fator objetivo, mas subjetivo, uma vez que não podemos ter uma impressão da força que põe as coisas em relação causal, mas apenas dos eventos observados subsequentemente.

O que se supõe ser uma questão de causa, afirma David Hume, é antes fruto do hábito. É por meio de muitas experiências e com o auxílio da memória que entendemos haver uma conjunção constante entre certos eventos, quando não haveria nenhuma necessidade lógica nessas relações de causa e efeito.

Em seu famoso exemplo, afirma que é pelo hábito que acreditamos que o Sol nascerá todos os dias, e com isso quer dizer que esse evento é apenas uma probabilidade, não uma verdade estabelecida pela razão. Todas as questões de fato seriam contingentes, ou seja, poderiam deixar de ser, mas as propriedades do triângulo, por outro lado, que são conceituais, permanecem por necessidade lógica.

Empirismo de David Hume

David Hume é mundialmente conhecido por suas observações sobre o conhecimento. Elencado como integrante do chamado empirismo britânico, é o mais radical de todos. Esse pensador questionou-se por que as ciências naturais avançavam em prover novos conhecimentos enquanto os estudos filosóficos estagnavam-se. Considerou que o problema estava em teorizar sem considerar os fatos e a experiência, o que o faz ser extremamente crítico de propostas metafísicas ou com viés teológico.

Já em sua primeira obra, propôs-se a adotar o método experimental para investigar a natureza humana, o que o faz aproximar-se das ciências naturais e ser considerado um dos precursores dos estudos cognitivos contemporâneos.

Principais citações de David Hume

•Investigações sobre o entendimento humano

“Um homem tomado de um acesso de fúria é afetado de maneira muito diferente de um outro que apenas pensa nessa emoção. Se você me diz que uma certa pessoa está enamorada, eu entendo facilmente o que você quer dizer e formo uma ideia adequada da situação dessa pessoa, mas jamais confundiria essa ideia com os tumultos e agitações reais da paixão.” |1|

“O contrário de toda questão de fato permanece sendo possível, porque não pode jamais implicar contradição, e a mente o concebe com a mesma facilidade e clareza, como algo perfeitamente ajustável à realidade. Que o sol não nascerá amanhã não é uma proposição menos inteligível nem implica mais contradição que a afirmação de que ele nascerá; e seria vão, portanto, tentar demonstrar sua falsidade.” |1|

“Se um objeto nos fosse apresentado e fôssemos solicitados a nos pronunciar, sem consulta à observação passada, sobre o efeito que dele resultará, de que maneira, eu pergunto, deveria a mente proceder nessa operação? Ela deve inventar ou imaginar algum resultado para atribuir ao objeto como seu efeito, e é óbvio que essa invenção terá de ser inteiramente arbitrária. O mais atento exame e escrutínio não permite a mente encontrar o efeito na suposta causa, pois o efeito é totalmente diferente da causa e não pode, consequentemente, revelar-se nela.” |1|

• Tratado da natureza humana

"[N]ão apenas nossa razão nos falha na descoberta da conexão última entre causas e efeitos, mas, mesmo após a experiência ter-nos informado de sua conjunção constante, é impossível nos convencermos, pela razão, de que deveríamos estender essa experiência para além dos casos particulares que pudemos observar. Nós supomos, mas nunca conseguimos provar, que deve haver uma semelhança entre os objetos de que tivemos experiência e os que estão além do alcance de nossas descobertas." |2|

Notas

|1|HUME, David. Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. Tradução de José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Editora UNESP, 2004.

|2|HUME, David. Tratado da natureza humana: uma tentativa de introduzir o método experimental de raciocínio nos assuntos morais, 2ª ed rev e ampl. Tradução de Déborah Danowski. São Paulo: Editora UNESP, 2009.

domingo, 24 de novembro de 2019

Edgar Morin: “Estamos caminhando como sonâmbulos em direção à catástrofe”

Fonte: aqui

O que fazer neste período de crise aguda? Indignar-se, certamente. Mas, acima
de tudo, aja. Aos 98 anos, o filósofo e sociólogo nos convida a resistir ao
ditame da urgência. Para ele, a esperança está próxima.
Por que a velocidade está tão arraigada no funcionamento de nossa
sociedade?
A velocidade faz parte do grande mito do progresso que anima a civilização
ocidental desde os séculos 18 e 19. A idéia subjacente é que agradecemos a
ela por um futuro cada vez melhor. Quanto mais rápido formos em direção a
esse futuro, melhor, é claro.
É neste contexto que as comunicações, econômicas e sociais, e todos os tipos
de técnicas que possibilitaram a criação de transporte rápido se multiplicaram.
Penso em particular no motor a vapor, que não foi inventado por razões de
velocidade, mas em servir a indústria ferroviária, que se tornou cada vez mais
rápida.
Tudo isso é correlativo por causa da multiplicação de atividades e torna as
pessoas cada vez mais com pressa. Estamos numa época em que a
cronologia se impõe.
Então isso é novo?
Antigamente, você consultava o sol para para se orientar no tempo. No Brasil,
em cidades como Belém, ainda hoje nos encontramos “depois da chuva”.
Nesses padrões, seus relacionamentos são estabelecidos de acordo com um
ritmo temporal pontuado pelo sol. Mas o relógio de pulso, por exemplo, fez com
que o tempo abstrato substituísse o tempo natural. E o sistema de competição
e concorrência – que é o de nossa economia de mercado capitalista – significa
que, para a competição, o melhor desempenho é aquele que permite a maior
velocidade. A competição, portanto, se transformou em competitividade, o que
é uma perversão da concorrência.
Essa busca por velocidade não é uma ilusão?
De alguma forma. Não percebemos – embora pensemos que estamos fazendo
as coisas rapidamente – que estamos intoxicados pelo meio de transporte que
afirma ser rápido. O uso de meios de transporte cada vez mais eficientes, em
vez de acelerar o tempo de viagem, acaba – principalmente por causa de
engarrafamentos – desperdiçando tempo! Como já disse Ivan Illich (filósofo
austríaco nascido em 1926 e morto em 2002, ed): “O carro nos atrasa muito.
Até as pessoas, imobilizadas em seus carros, ouvem o rádio e sentem que
ainda estão usando o tempo de uma maneira útil. O mesmo vale para o
concurso de informações. Agora recorremos ao rádio ou a TV para não
esperar a publicação dos jornais. Todas essas múltiplas velocidades fazem
parte de uma grande aceleração do tempo, a da globalização. E tudo isso nos
leva ao desastre.
O progresso e o ritmo em que o construímos necessariamente nos destroem?
O desenvolvimento tecnoeconômico acelera todos os processos de produção
de bens e riquezas, os quais aceleram a degradação da biosfera e a poluição
generalizada. As armas nucleares estão se multiplicando e os técnicos estão
sendo solicitados a fazer as coisas mais rapidamente. Tudo isso, de fato, não
vai na direção de um desenvolvimento individual e coletivo!
Por que buscamos sistematicamente utilidade no decorrer do tempo?
Veja o exemplo do almoço. Tempo significa convívio e qualidade. Hoje, a idéia
de velocidade faz com que, assim que terminemos o prato, chamemos um
garçom que corre para recolher os pratos. Se você ficar entediado com seu
vizinho, tende a querer diminuir esse tempo.
Esse é o significado do movimento slow-food que deu origem à idéia de “vida
lenta”, “tempo lento” e até “ciência lenta”. Uma palavra sobre isso. Vejo que a
tendência dos jovens pesquisadores, assim que eles têm um campo de
trabalho, mesmo muito especializado, é que eles se apressem para obter
resultados e publiquem um “grande” artigo em uma “grande” revista científica
internacional, para que ninguém mais publique antes deles.
Esse espírito se desenvolve em detrimento da reflexão e do pensamento.
Nosso tempo rápido é, portanto, um tempo anti-reflexo. E não é por acaso que
existem várias instituições especializadas em nosso país que promovem o
tempo de meditação. O yoguismo, por exemplo, é uma maneira de interromper
o tempo rápido e obter um tempo silencioso de meditação. Dessa maneira,
evita-se a cronometria. As férias também permitem que você recupere seu
tempo natural e esse tempo de preguiça. O trabalho de Paul Lafargue O direito
à preguiça (que data de 1880, ed) permanece mais atual do que nunca, porque
não fazer nada significa tempo limite, perda de tempo, tempo sem fins
lucrativos.
Por quê?
Somos prisioneiros da ideia de rentabilidade, produtividade e competitividade.
Essas idéias foram exasperadas com a concorrência globalizada, nas
empresas, e depois se espalharam para outros lugares. O mesmo vale para o
mundo da escola e da universidade! O relacionamento entre o professor e o
aluno exige um relacionamento muito mais pessoal do que apenas as noções
de desempenho e resultados. Além disso, o cálculo acelera tudo isso. Vivemos
um tempo em que ele é privilegiado por tudo. Bem como saber tudo e dominar
tudo. Pesquisas que antecipam um ano de eleições fazem parte do mesmo
fenômeno. Chegamos a confundi-los com o anúncio do resultado. Tentamos
eliminar o efeito de surpresa sempre possível.
De quem é a culpa? Capitalismo? a Ciência?
Estamos presos em um processo espantoso em que o capitalismo, as trocas e
a ciência são levados a esse ritmo. Não se pode ser culpa de um homem.
Devemos acusar Newton por ter inventado o motor a vapor? Não. O
capitalismo é essencialmente responsável, de fato. Por sua fundação, que é
buscar lucro. Pelo seu motor, que é tentar, pela competição, avançar seu
oponente.
Pela incessante sede de “novo” que promove através da publicidade … O que
é essa sociedade que produz objetos cada vez mais obsoletos? Essa
sociedade de consumo que organiza a fabricação de geladeiras ou máquinas
de lavar não para a vida útil infinita, mas para se decompor após oito anos? O
mito do novo, como você pode ver – mesmo para detergentes – visa sempre
incentivar o consumo. O capitalismo, por sua lei natural – a concorrência –
empurra, assim, para uma aceleração permanente e por sua pressão
consumista, sempre para obter novos produtos que também contribuem para
esse processo.
Vemos isso através de múltiplos movimentos no mundo, esse capitalismo é
questionado. Em particular na sua dimensão financeira …
Entramos em uma crise profunda sem saber o que sairá dela. As forças de
resistência realmente se manifestam. A economia social e solidária é uma
delas. Ela representa uma maneira de lutar contra essa pressão. Se
observarmos um impulso para a agricultura orgânica com pequenas e médias
fazendas e um retorno à agricultura, é porque grande parte do público começa
a entender que galinhas e porcos industrializados são adulterados e
desnaturalizam solos e águas subterrâneas.
Uma busca por produtos artesanais indica que desejamos fugir dos
supermercados que, eles próprios, exercem pressão do preço mínimo sobre o
produtor e tentam repassar um preço máximo para o consumidor. O Comércio
Justo também está tentando ignorar os intermediários predatórios. O
capitalismo triunfa em certas partes do mundo, mas outra margem vê reações
que surgem não apenas de novas formas de produção (cooperativas, fazendas
orgânicas), mas também da união consciente dos consumidores.
É aos meus olhos uma força não utilizada e fraca porque ainda dispersa. Se
essa força tomar conhecimento de produtos de qualidade e de produtos
nocivos, superficiais, uma força de pressão incrível será aplicada e influenciará
a produção.
Os políticos e seus partidos parecem não estar cientes dessas forças
emergentes. Eles não carecem de análise de inteligência …
Mas você parte do pressuposto de que esses homens e mulheres políticos já
fizeram essa análise. Mas você tem mentes limitadas por certas obsessões,
certas estruturas.
Por obsessão, você quer dizer crescimento?
Sim Eles nem sabem que o crescimento – supondo que volte aos chamados
países desenvolvidos – não excederá 2%! Não é esse crescimento que
conseguirá resolver a questão do emprego! O crescimento que queremos
rápido e forte é um crescimento na competição. Isso leva as empresas a
colocar as máquinas no lugar dos homens e, assim, liquidar as pessoas e
aliená-las ainda mais. Parece-me assustador que os socialistas possam
defender e prometer mais crescimento. Eles ainda não fizeram um esforço
para pensar e buscar novos pensamentos.
Desaceleração significaria decadência?
O importante é saber o que deve crescer e o que deve diminuir. É claro que
cidades não poluentes, energias renováveis e obras públicas saudáveis devem
crescer. O pensamento binário é um erro. É a mesma coisa para globalizar e
desglobalizar: é necessário continuar a globalização no que cria solidariedades
entre as pessoas e com o planeta, mas deve ser condenada quando cria ou
não traz zonas de prosperidade, mas de corrupção ou desigualdade. Eu
defendo uma visão complexa das coisas.
A velocidade em si não tem culpa?
Não. Se eu pegar minha bicicleta para ir à farmácia e tentar fazer isso antes
dela fechar, vou pedalar o mais rápido possível. Velocidade é algo que
precisamos e podemos usar quando necessário. O verdadeiro problema é
diminuir com êxito nossas atividades. Retomar o tempo, natural, biológico,
artificial, cronológico e conseguir resistir.
Você está certo ao dizer que o que é velocidade e aceleração é um processo
extremamente complexo da civilização, no qual técnicas, capitalismo, ciência e
economia têm sua parte. Todas essas forças combinadas nos levam a acelerar
sem que tenhamos controle sobre elas. Porque a nossa grande tragédia é que
a humanidade é arrastada em uma corrida acelerada, sem nenhum piloto a
bordo. Não há controle ou regulamentação. A própria economia não é regulada.
O Fundo Monetário Internacional não é, nesse sentido, um sistema real de
regulamentação.
A política ainda não deveria “levar tempo para reflexão”?
Muitas vezes, temos a sensação de que, por sua pressa de agir, de se
expressar, ele vem trabalhar sem nossos filhos, mesmo contra eles … Você
sabe, os políticos estão embarcando nessa corrida para acelerar. Li
recentemente uma tese sobre gabinetes ministeriais. Às vezes, nos escritórios
dos conselheiros, havia anotações e registros rotulados como “U” para
“urgentes”. Depois veio o “MU” para “muito urgente” e depois o “MMU”. Os
gabinetes ministeriais agora estão invadidos, desatualizados.
A tragédia dessa velocidade é que ela cancela e mata o pensamento político
pela raiz. A classe política não fez nenhum investimento intelectual para
antecipar, enfrentar o futuro. Foi o que tentei fazer em meus livros como
Introdução a uma política do homem, Caminho, Terre-patrie … O futuro é incerto,
é preciso tentar navegar, encontrar um caminho, uma perspectiva. Sempre
houve ambições pessoais na história. Mas eles estavam relacionados a idéias.
De Gaulle sem dúvida teve uma ambição, mas teve uma ótima ideia. Churchill
tinha ambição a serviço de uma grande idéia, que era salvar a Inglaterra do
desastre. Agora, não há mais grandes idéias, mas grandes ambições com
homenzinhos ou mulheres.
Michel Rocard recentemente lamentou sobre “Terra eco” o desaparecimento da visão de longo prazo…
Ele tinha razão e não tinha. Uma política real não está posicionada no imediato,
mas no essencial. Por esquecer o essencial da urgência, acabamos
esquecendo a urgência do essencial. O que Michel Rocard chama de “longo
prazo”, eu chamo de “problema de substância”, “questão vital”. Pensar que
precisamos de uma política global para a salvaguarda da biosfera – com um
poder de decisão que distribua responsabilidades porque não podemos
atribuir as mesmas responsabilidades aos países ricos e aos países pobres – é
uma política essencial para longo prazo. Mas esse longo prazo deve ser rápido
o suficiente, porque a ameaça está se aproximando.
Edgar Morin, o estado de urgência perpétua de nossas sociedades o torna
pessimista?
Essa falta de visão me força a ficar na brecha. Há uma continuidade na descontinuidade. Eu fui da época da Resistência quando jovem, onde havia um inimigo, um ocupante e um perigo mortal, para outras formas de resistência que não carregavam o perigo da morte, mas o de permanecer incompreendido, caluniado ou desprezado.
Depois de ser comunista de guerra e depois de ter lutado com a Alemanha nazista com grandes esperanças, vi que essas esperanças eram enganosas e rompi com esse totalitarismo, que se tornou o inimigo da humanidade. Eu lutei contra isso e resisti. Eu, naturalmente – defendi a independência do Vietnã ou da Argélia, quando se tratava de liquidar um passado colonial. Pareceu-me muito lógico depois de ter lutado pela independência da França, ameaçada pelo nazismo. No final do dia, estamos sempre envolvidos na necessidade de resistir.
E hoje?
Hoje, percebo que estamos sob a ameaça de duas barbáries associadas. Antes de tudo, humano, que vem do fundo da história e que nunca foi liquidado: o campo americano de Guantánamo ou a expulsão de crianças e pais que estão separados, acontece hoje ! Essa barbárie é baseada no desprezo humano. E então o segundo, frio e gelado, com base em cálculo e lucro. Essas duas barbáries são aliadas e somos forçados a resistir em ambas as frentes. Por isso, continuo com as mesmas aspirações e revoltas que as da minha adolescência, com a consciência de ter perdido ilusões que poderiam me
animar quando, em 1931, eu tinha dez anos.
A combinação dessas duas barbáries nos colocaria em perigo mortal …
Sim, porque essas guerras podem a qualquer momento se desenvolver no fanatismo. O poder destrutivo das armas nucleares é imenso e o da degradação da biosfera para toda a humanidade é vertiginoso. Estamos indo, por essa combinação, em direção a cataclismos. No entanto, o provável, o pior, nunca está certo aos meus olhos, porque às vezes apenas alguns eventos são suficientes para que as evidências se revertam.
Mulheres e homens também podem ter esse poder?
Infelizmente, em nosso tempo, o sistema impede que espíritos se rompam. Quando a Inglaterra foi ameaçada de morte, um homem marginal foi levado ao poder, seu nome era Churchill. Quando a França foi ameaçada, foi De Gaulle. Durante a Revolução, muitas pessoas, sem treinamento militar, conseguiram se tornar generais formidáveis, como Hoche ou Bonaparte; avocaillons como Robespierre, grandes tribunos. Grandes momentos de crise terrível despertam homens capazes de resistir. Ainda não estamos suficientemente cientes do perigo. Ainda não entendemos que estamos caminhando para um desastre e estamos nos movendo a toda velocidade como sonâmbulos.
O filósofo Jean-Pierre Dupuy acredita que da catástrofe nasce a solução. Você compartilha a análise dele?
Não é dialético o suficiente. Ele nos diz que o desastre é inevitável, mas que é a única maneira de saber que pode ser evitado. Eu digo: é provável que haja um desastre, mas é improvável. Quero dizer com “provável” que, para nós, observadores, no tempo em que estamos e nos lugares em que estamos, com as melhores informações disponíveis, vemos que o curso das coisas está nos levando a desastres. No entanto, sabemos que é sempre o improvável que surgiu e que “fez” a transformação. Buda era improvável, Jesus era improvável, Muhammad, a ciência moderna com Descartes, Pierre Gassendi, Francis Bacon ou Galileu era improvável, o socialismo com Marx ou Proudhon era improvável, o capitalismo era improvável na Idade Média … Veja Atenas. Cinco séculos antes de nossa era, você tem uma pequena cidade grega diante de um
império gigantesco, a Pérsia. E duas vezes – embora destruída pela segunda vez – Atenas consegue expulsar esses persas graças ao golpe de gênio do estrategista Temístocles, em Salamina. Graças a essa incrível improbabilidade,
nasceu a democracia, que poderia fertilizar toda a história futura e depois a filosofia. Então, se você quiser, posso chegar às mesmas conclusões que Jean-Pierre Dupuy, mas meu caminho é bem diferente. Hoje, existem forças de resistência dispersas, aninhadas na sociedade civil e que não se conhecem.
Mas acredito no dia em que essas forças se reunirão, em feixes. Tudo começa com um desvio, que se transforma em uma tendência, que se torna uma força histórica.
Portanto, é possível reunir essas forças, engajar a grande metamorfose, do
indivíduo e depois da sociedade?
O que chamo de metamorfose é o termo de um processo no qual várias reformas, em todas as áreas, começam ao mesmo tempo.
Já estamos em processo de reformas …
Não, não. Não são essas pseudo-reformas. Estou falando de reformas profundas da vida, civilização, sociedade, economia. Essas reformas terão que começar simultaneamente e ser inter-solidárias.
Você chama essa abordagem de “viver bem”. A expressão parece fraca, tendo em vista a ambição que você lhe dá.
O ideal da sociedade ocidental – “bem-estar” – deteriorou-se em coisas puramente materiais, conforto e propriedade de objetos. E embora essa palavra “bem-estar” seja muito bonita, outra coisa teve que ser encontrada. E quando o presidente do Equador, Rafael Correa, encontrou essa fórmula de “boa vida”, retomada por Evo Morales (presidente boliviano, ed) significava florescimento humano, não apenas na sociedade, mas também na natureza.
A expressão “viver bem” é sem dúvida mais forte em espanhol do que em  francês. O termo é “ativo” na língua de Cervantes e passivo na de Molière. Mas essa ideia é a que melhor se relaciona com a qualidade de vida, com o que chamo de poesia da vida, amor, carinho, comunhão e alegria e, portanto, com a qualitativa, que a devemos nos opor à primazia do quantitativo e da acumulação. O bem-estar, a qualidade e a poesia da vida, inclusive em seu ritmo, são coisas que devem – juntas – nos guiar. É para a humanidade uma finalidade tão bonita. Implica também controlar simultaneamente coisas como especulação internacional … Se não conseguirmos nos salvar desses polvos
que nos ameaçam e cuja força é acentuada, acelera, não haverá nada de bom.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Leitura de Verão: será mesmo possível viajar no tempo?

A controvérsia continua...e a questão está sempre em aberto.
Dr. Ronald Mallett, autor do Time Traveller afirma que sim 


e neste artigo, o Prof. Alberto Prass, conclui que não.


ERA UMA VEZ UMA GAROTA ESPERTA


Era uma garota esperta,
Muito mais rápida que a luz.
Um dia ela partiu
Do jeito relativo,
E chegou de volta na véspera.

Estes versinhos muito citados, que apareceram pela primeira vez na revista britânica Punch muito tempo atrás, quando as teorias de Einstein começavam a chegar ao conhecimento do público mais amplo, descreve com bastante precisão uma das implicações da teoria especial da relatividade de Einstein. A teoria nos diz que se alguma coisa - quer seja um objeto material ou uma informação — pudesse se deslocar com velocidade maior que a da luz, seria capaz de se deslocar do futuro para o passado.

Como muitas conclusões surpreendentes na Física, a ideia de que a viagem mais rápida que a luz pode, sob certas circunstâncias, ser também uma viagem no tempo pode ser deduzida de alguns pressupostos muito simples. A teoria especial se apoia em apenas dois. O primeiro é que a velocidade da luz, tal como medida por qualquer observador é sempre a mesma. O segundo é que as leis da Física parecerão as mesmas para qualquer observador num estado de movimento uniforme. "Uniforme", aqui, significa "com uma velocidade constante numa direção fixa". A distinção entre movimento uniforme e não-uniforme é importante. Por exemplo, uma passageira de um avião que está se movendo com velocidade constante numa linha reta sente a mesma força da gravidade que na superfície da Terra e pode caminhar para frente e para trás pelo corredor como caminharia pelo corredor de um auditório. Mas se de repente o avião encontrar turbulência e perder altura, a coisa pode mudar de figura. Em condições extremas, uma bandeja de comida pode até parecer estar levantando vôo.

A idéia de relatividade não é na verdade nada de novo. Galileu e Newton sabiam que o movimento era relativo. Tinham conhecimento de que um passageiro num navio em movimento por um mar calmo pode, se quiser, considerar que o navio está em repouso. Como Galileu assinalou, um objeto que se deixa cair de um mastro parecerá cair diretamente para baixo rumo ao convés, quer a embarcação esteja se movendo pela superfície do oceano ou não. A única coisa que importa é o movimento do objeto em relação ao navio.

Na verdade, somos todos relativistas naturais. Uma pessoa sentada numa cadeira vai geralmente se considerar "imóvel", ainda que a Terra esteja girando em seu eixo e revolvendo-se em torno do Sol, enquanto o Sol se revolve em torno do centro de nossa Via Láctea, que por sua vez se move em relação a outras galáxias no espaço. Nenhum desses movimentos é uniforme. O movimento circular, por exemplo, não é uniforme porque não se dá em linha reta. Para os propósitos da vida quotidiana, no entanto, esses movimentos se aproximam o suficiente da uniformidade.
        

[Ler artigo completo aqui]



BEM, A VIAGEM NO TEMPO É POSSÍVEL OU NÃO É?

Por mais que os físicos teóricos brinquem com a ideia, a maioria deles espera que a viagem no tempo não seja possível. Se uma pessoa ou um objeto pudesse se deslocar para o passado, isso transtornaria as idéias estabelecidas sobre causalidade e invalidaria as leis da Física que delas dependem. O único meio de evitar isso seria a existência de alguma lei da natureza que impedisse tudo que viaja para o passado de alterá-lo, ou uma lei que assegurasse que tudo que um viajante fizesse produziria exatamente o mundo de que ele viera. Mas é difícil ver como uma lei da natureza poderia impedir uma pessoa de matar a avó - ou a si mesma - se ela estivesse realmente decidida a fazê-lo.

Stephen Hawking tem uma outra solução para o problema. Sugere que uma "Agência de Proteção à Cronologia" impeça a viagem no tempo. Não, ele não está sugerindo uma Polícia do Tempo que impeça as pessoas de viajar para o passado. Hawking simplesmente gosta de expressar idéias sérias de maneira irreverente. Ele quer dizer apenas que desconfia que as leis da Física operam de modo a tornar a viagem no tempo impossível. Não está muito claro, contudo, como essa "proteção da cronologia" funcionaria. Pode ser que todos os mecanismos de viagem no tempo tenham características que os inviabilizariam na prática, mas não é fácil imaginar que tipo de lei natural faria tal situação ocorrer.

Seja como for, ainda que não possa ser absolutamente vedada, a viagem no tempo certamente parece ser uma possibilidade muito pouco plausível. Apesar de todas as tentativas feitas para superá-la, a "barreira da infinidade" erigida pela teoria especial da relatividade mostrou ser dificilmente transponível.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Michel Serres - Misturar

Isaac Newton, Antoine Lavoisier e Mendeleiev figuram como protagonistas deste episódio da série. Focando-se sobretudo na Física e na Química, Michel Serres e Robert Pansard-Besson tentar mostrar como essas ciências se "misturam" ao tentar explicar fenómenos e experimentos, além claro do sentido que o termo assume nesses experimentos que muitas vezes envovlevem misturas, reações químicas realizadas desde o tempo dos alquimistas.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Michel Serres- Abrir


Neste episódio, a revolução de Nicolau Copérnico, Galileu Galiei, Johannes Kepler e Isaac Newton: da hipótese geocêntrica à infinidade do Universo; a visão humana do cosmos.