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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Dinheiro, gastos e benesses do Estado. Os segredos da vida financeira de Salazar


Há mitos que sobrevivem porque são confortáveis. O de D. Sebastião sobrevive porque alimenta a esperança. O de Robin dos Bosques porque consola os desfavorecidos. E o de António de Oliveira Salazar porque oferece aos seus admiradores uma espécie de superioridade moral retrospetiva: sim, foi ditador, dizem alguns, mas ao menos não roubou; sim, governou durante décadas sem eleições livres, mas morreu pobre; sim, concentrou um poder sem paralelo na história portuguesa contemporânea, mas nunca se aproveitou dele para enriquecer.

O problema dos mitos é a sua irritante tendência para se chocarem com os factos.

Um extenso trabalho de investigação do jornalista Marco Alves publicado na revista Sábado (n.º 1160, de 22 a 28 de julho de 2026) veio reunir um conjunto impressionante de informações sobre a situação patrimonial do antigo presidente do Conselho. E aquilo que emerge não é a figura de um milionário extravagante nem a de um cleptocrata à escala de outros ditadores europeus. Mas também não é a imagem do professor pobre, vestido de modéstia franciscana, que alguns continuam a apresentar.

Marco Alves já tinha, em 2023, publicado o livro Salazar Confidencial. Durante quatro décadas, António de Oliveira Salazar recebeu milhares de cartas de amigos, familiares, ministros, padres e figuras ilustres da elite do Estado Novo. Mendigavam ao presidente do Conselho favores, ajudas e cunhas para obterem um cargo, uma promoção, uma casa em Lisboa ou uma palavra de Salazar para intervir em todo o tipo de problemas, incluindo em processos judiciais e em casos de crime, violência e adultério envolvendo figuras notáveis da sociedade.

Importa recordar que essa imagem não foi construída apenas pelos admiradores que lhe sobreviveram. Foi também alimentada pelo próprio. Salazar ajudou a moldar cuidadosamente a perceção pública de uma vida austera e quase desapegada dos bens materiais. Ficou célebre a frase segundo a qual devia “à Providência a graça de ser pobre”. Décadas depois, essa frase permanece viva na memória coletiva e continua a funcionar como uma espécie de certificado moral póstumo.

A verdade, porém, como tantas vezes acontece, é mais incómoda.

Salazar cultivou durante toda a vida uma imagem de austeridade. Essa imagem tinha fundamento. Gostava pouco de ostentação, não se deixou seduzir pelo luxo exuberante e manteve hábitos relativamente sóbrios. Contudo, austeridade não é sinónimo de pobreza. Uma pessoa pode ser frugal sem ser pobre. E uma pessoa pode viver de forma simples sem deixar de acumular património.

Quando morreu, em 1970, Salazar possuía contas bancárias, propriedades rurais, terrenos, casas, objetos de prata, ouro, livros, manuscritos, coleções e diversos bens cujo valor, atualizado para os dias de hoje, atingiria montantes muito significativos. Só os depósitos bancários conhecidos correspondiam a cerca de 113 mil euros em valores atuais. A isso somavam-se casas, quintas, vinhas, olivais, pinhais e terrenos cujo valor acumulado, nos preços do mercado contemporâneo, atingiria facilmente valores de vários milhões de euros.

Nada disto faz dele um magnata. Mas também não permite continuar a repetir, sem qualificação, que "morreu pobre".

Aliás, a reportagem desmonta um dos aspetos mais curiosos da narrativa salazarista. O homem que passava a vida a falar de contenção financeira era simultaneamente proprietário de um património rural bastante respeitável. Herdou parte dele, adquiriu outra parte e valorizou alguns desses bens ao longo do tempo. Isso não constitui qualquer crime. O problema surge quando essa realidade desaparece da história e é substituída por uma imagem quase monástica.

Há ainda outro equívoco recorrente.

Os admiradores de Salazar costumam estabelecer uma comparação implícita entre o chefe do Estado Novo e alguns governantes contemporâneos. A mensagem é simples: os políticos de hoje entram pobres e saem ricos; Salazar entrou pobre e saiu pobre.

A primeira parte da frase pode ser objeto de discussão. A segunda torna-se mais difícil de sustentar.

Segundo os elementos revelados pela investigação, o antigo governante acumulou poupanças ao longo da vida, possuía património imobiliário e conservava um espólio de valor considerável. Não estamos perante alguém dependente da caridade alheia ou reduzido à indigência. Estamos perante um homem que viveu confortavelmente durante décadas e que morreu com uma situação financeira sólida.

Há ainda um dado curioso que raramente aparece nestas discussões. Atualizado para valores de hoje, o salário de Salazar como presidente do Conselho rondaria os 8.450 euros brutos mensais, valor que não difere dramaticamente daquele que aufere um primeiro-ministro contemporâneo. À primeira vista, isto parece reforçar a narrativa da modéstia. Mas só à primeira vista. É que Salazar passou cerca de 31 anos instalado no Palacete de São Bento sem suportar uma despesa que pesa fortemente no orçamento de qualquer cidadão comum: a habitação. A comparação só é justa quando se compara o pacote completo.

A questão torna-se ainda mais interessante quando se observa a fronteira entre o dinheiro privado e os recursos públicos.

Não surgem provas de enriquecimento ilícito no sentido clássico do termo. Mas aparecem numerosos exemplos de uma realidade típica dos regimes longos: a progressiva confusão entre o Estado e o governante.

Funcionários públicos trataram de assuntos privados relacionados com propriedades suas. Membros do Governo ocuparam-se de questões pessoais. Houve intervenções administrativas relativas a casas, terrenos, obras, jardins, abastecimento de água e diversos problemas da sua esfera particular. Tudo isto era frequentemente encarado com naturalidade.

E porquê?

Porque as ditaduras tendem a produzir esse efeito. Ao fim de décadas, deixa de ser evidente onde acaba o poder do Estado e onde começa a vida privada de quem governa. O aparelho público passa gradualmente a funcionar como extensão do governante.

Nem sequer é necessário existir corrupção para que essa promiscuidade aconteça.

O mesmo se verifica nos últimos anos da sua vida. Após a queda da cadeira que o afastou do poder, o Estado suportou despesas significativas relacionadas com os seus cuidados médicos e com a sua situação pessoal. Segundo os elementos reunidos pela investigação, os encargos associados ao tratamento prolongado de Salazar ascenderiam, a valores atuais, a cerca de 1,9 milhões de euros. Além disso, foi-lhe atribuído um vencimento vitalício após deixar o exercício efetivo das funções governativas.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Havia mais presos políticos depois do 25 de Abril do que antes?


Durante a cerimónia dos 50 anos da Constituição, no Parlamento, André Ventura disse que houve mais cidadãos presos no pós-25 de Abril do que antes da Revolução. A frase gerou reação, com os constituintes convidados para a sessão a levantarem-se em protesto, abandonando a sala. Os dados batem certo? A SIC Verifica.

O discurso do líder do Chega agitou as bancadas e gerou reações e indignação. Alguns dos deputados constituintes presentes na sessão solene desta quinta-feira, comemorativa do 50.º aniversário da Constituição - entre os quais Helena Roseta e Jerónimo de Sousa - abandonaram as galerias do Parlamento durante a intervenção do líder do Chega, regressando após o fim do seu discurso.

André Ventura disse que houve cidadãos que, "já com esta Constituição ou à beira desta Constituição, já após a revolução ou perto da revolução, [que] foram presos sem mandato, foram mortos em atentados das FP-25".

Pedindo desculpa pela "falta de cortesia", Ventura foi mais longe e perguntou "o que dirão as gerações futuras" quando souberem que "um Parlamento amnistiou um grupo terrorista de esquerda que tinha na sua lista mortes de bebés, seres humanos, casais, às mãos da extrema-esquerda".

Depois, a frase que espoletou o abandono da sala:
"Pouco tempo depois do 25 de Abril, havia mais presos políticos do que havia antes do 25 de Abril de 1974, essa é a verdade", garantiu.

Mas... será mesmo?
Num livro escrito por João Menino Vargas, antigo Capitão de Abril que morreu em 2025, dá-se conta de que o regime deposto pelo 25 de Abril tinha quase 4.400 prisioneiros políticos, 127 dos quais em Portugal continental e os restantes nas colónias, à data da Revolução. Com maior precisão, o site da Comissão Comemorativa 50 Anos do 25 de Abril, aponta 128 "oposicionistas" libertados das prisões de Caxias e Peniche, e 4.249 presos políticos nas colónias.

Além disso, a historiadora Irene Flunser Pimentel contabilizou mais de 12 mil presos políticos durante a ditadura, mas estima que, no total, possam ser mais de 30 mil os presos durante esse período.

O SIC Verifica falou com Irene Flunser Pimentel, que desmontou a narrativa:
"É uma ideia falsa, é uma narrativa da extrema-direita e de alguma direita e que, no fundo, é para se ignorar que vivemos em ditadura até ao dia 25 de Abril de 74".

"Eu estudei na Torre do Tombo, não vejo esses historiadores, alguns até são historiadores, mas políticos, deputados, nunca os vi na Torre do Tombo, a ver os arquivos da PIDE, e eu estive seis meses só para contabilizar os presos de 45 a 74. [Estamos a falar de] 12.800 e qualquer coisa", explica a historiadora, acrescentando que esta contabilização não conta com todos os estrangeiros presos ou imigrantes.

Mas, além destes quase 13 mil, Irene Pimentel lembra que em "1933, quando foi formada a primeira polícia política desta ditadura, porque já havia anteriores - a PVDE - eram muitos mais".
"Estão contabilizados, em várias fases, 30 mil, 40 mil [presos políticos]", dá conta a historiadora.

E no pós-25 de Abril?
No dia em que se deu a Revolução, a polícia política portuguesa, PIDE/DGS, teria cerca de três mil agentes e 20 mil informadores que começaram a ser detidos nos dias e semanas a seguir à revolução e ao longo de mais de um ano em que viveram sem qualquer acusação formal.

Em julho, num comunicado, os SCE da PIDE/LP informavam que se encontravam presos mil ex-agentes da PIDE-DGS. Mais tarde, em dezembro de 1976, havia registo de 118 presos por envolvimento no 25 de Novembro, estes seriam libertados no mesmo ano.

Irene Flunser Pimentel explica aqueles que foram detidos nos dias que se seguiram ao 25 de Abril foram elementos da PIDE.
"Os únicos mortos do 25 de Abril foram quatro portugueses que foram fuzilados pela PIDE/DGS na rua António Maria Cardoso às 8 horas de dia 25 de Abril. Portanto, são os únicos mortos. E 45 feridos. A partir daí era impossível, porque não estava no programa prender os elementos da PIDE, mas eles praticaram crimes até ao fim. E, portanto, começaram a ser presos aqueles que estavam na rua António Maria Cardoso a tentar defender aquela sede e, depois, ao longo dos meses, muitos informadores e outros elementos da PIDE, aqueles todos que não fugiram. Portanto, estes são os presos políticos [do pós-25 de Abril]", afirma a historiadora.

Até 1986 foram pronunciadas 2.755 sentenças aplicadas a elementos da PIDE/DGS. O número distancia-se dos quase 4.400 prisioneiros políticos de 74 e dos mais de 30 mil durante todo o período em que o país viveu em ditadura.

Destes, "uns estiveram [presos] seis meses, outros estiveram um pouco mais, os maiores torturadores ficaram mais tempo", mas "não houve julgamentos destas pessoas" porque só com a Constituição se criou o aparelho judicial e este estipulava que "nunca mais iria haver julgamentos políticos".

André Ventura provocou indignação ao afirmar que havia mais presos políticos após o 25 de Abril do que durante a ditadura. No entanto, a narrativa é falsa, como confirma a historiadora Irene Pimentel. A ditadura teve cerca de 30 mil presos políticos e em 1974 foram identificados perto de 4.400 presos políticos em Portugal e nas colónias. No pós-Revolução foram detidos principalmente ex-agentes da PIDE, num número significativamente inferior.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Sobre este Inverno chuvoso - não aprendemos nada com as ideias de Gonçalo Ribeiro Telles


Este comboio de tempestades não é único. Muitas destas tempestades em sucessão são alimentadas por rios atmosféricos. São faixas estreitas de humidade tropical concentrada que atravessam o Atlântico. Quando o "corredor" se abre em direção à Península Ibérica, as tempestades seguem esse rasto como se estivessem em carris. Tudo depende de um "braço de ferro" de pressão entre os Açores e a Islândia. Quando esta oscilação está numa determinada fase, o jet stream (uma corrente de ar a grande altitude) empurra todas as tempestades diretamente para nós, em vez de as desviar para o Reino Unido ou Escandinávia. Antigamente não dávamos nomes às tempestades (como Joseph, Leonardo e Kristin), o que dava a ideia de que era apenas "um inverno chuvoso". Hoje, ao darmos nomes individuais a cada depressão, temos muito mais consciência de quantas estão a passar por nós seguidas. A perceção de excecionalidade resulta, em grande parte, da forma como os fenómenos recentes são lembrados. A nossa memória meteorológica é curta e estamos mais marcados pelos episódios de secas severas que têm sido a marca dos últimos ano. 𝐃𝐞𝐯𝐢́𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐬𝐞𝐫 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐩𝐫𝐞𝐯𝐞𝐧𝐭𝐢𝐯𝐨𝐬 𝐩𝐞𝐥𝐨 𝐡𝐢𝐬𝐭𝐨́𝐫𝐢𝐜𝐨 𝐝𝐞 𝐢𝐧𝐯𝐞𝐫𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐡𝐮𝐯𝐨𝐬𝐨𝐬. Aprender a não voltar a repetir a tragédia de 1967 (25 para 26 de novembro) em que choveu num só dia o equivalente a um quinto de todo o ano. A região da Grande Lisboa e do Vale do Tejo foi devastada. O regime de Salazar tentou "abafar" a dimensão da tragédia. Oficialmente falou-se em cerca de 460 mortos, mas estimativas reais apontam para mais de 700 vítimas.
𝐆𝐨𝐧𝐜̧𝐚𝐥𝐨 𝐑𝐢𝐛𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐓𝐞𝐥𝐥𝐞𝐬 𝐚𝐥𝐞𝐫𝐭𝐨𝐮-𝐧𝐨𝐬 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐞 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐞𝐯𝐢𝐭𝐚𝐫 𝐝𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐦𝐚𝐭𝐞𝐫𝐢𝐚𝐢𝐬 𝐞 𝐡𝐮𝐦𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐝𝐮𝐫𝐚𝐧𝐭𝐞 𝐞𝐬𝐭𝐞𝐬 𝐢𝐧𝐯𝐞𝐫𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐡𝐮𝐯𝐨𝐬𝐨𝐬 𝐞 𝐚𝐩𝐫𝐞𝐬𝐞𝐧𝐭𝐚𝐯𝐚 𝐬𝐨𝐥𝐮𝐜̧𝐨̃𝐞𝐬. 𝐍𝐚̃𝐨 𝐚𝐬 𝐨𝐮𝐯𝐢𝐦𝐨𝐬. 𝐈𝐧𝐬𝐢𝐬𝐭𝐢𝐦𝐨𝐬 𝐞𝐦 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐭𝐫𝐮𝐢𝐫 𝐞𝐦 𝐥𝐞𝐢𝐭𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐜𝐡𝐞𝐢𝐚, 𝐞𝐧𝐭𝐮𝐛𝐚𝐫 𝐫𝐢𝐨𝐬 𝐞 𝐫𝐢𝐛𝐞𝐢𝐫𝐚𝐬 𝐞 𝐚 𝐩𝐚𝐯𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫 𝐭𝐮𝐝𝐨 𝐜𝐨𝐦 𝐚𝐬𝐟𝐚𝐥𝐭𝐨 𝐞 𝐜𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨.
𝐎 𝐂𝐨𝐫𝐫𝐞𝐝𝐨𝐫 𝐕𝐞𝐫𝐝𝐞 𝐝𝐞 𝐌𝐨𝐧𝐬𝐚𝐧𝐭𝐨, 𝐞𝐦 𝐋𝐢𝐬𝐛𝐨𝐚 𝐞́ 𝐮𝐦 𝐞𝐱𝐞𝐦𝐩𝐥𝐨 𝐩𝐚𝐫𝐚𝐝𝐢𝐠𝐦𝐚́𝐭𝐢𝐜𝐨: 𝐝𝐞𝐦𝐨𝐫𝐨𝐮 𝐪𝐮𝐚𝐬𝐞 𝟑𝟎 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐚 𝐬𝐞𝐫 𝐜𝐨𝐧𝐜𝐥𝐮𝐢́𝐝𝐨 𝐞𝐱𝐚𝐭𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐩𝐨𝐫𝐪𝐮𝐞 𝐞𝐥𝐞 𝐭𝐞𝐯𝐞 𝐝𝐞 𝐥𝐮𝐭𝐚𝐫 𝐜𝐨𝐧𝐭𝐫𝐚 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐨𝐬 𝐢𝐧𝐭𝐞𝐫𝐞𝐬𝐬𝐞𝐬 𝐢𝐦𝐨𝐛𝐢𝐥𝐢𝐚́𝐫𝐢𝐨𝐬 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐦𝐚𝐧𝐭𝐞𝐫 𝐚𝐪𝐮𝐞𝐥𝐞 "𝐞𝐬𝐜𝐨𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨" 𝐧𝐚𝐭𝐮𝐫𝐚𝐥 𝐝𝐚 𝐜𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Carolina Deslandes - Feia


Canção lançada precisamente no Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, o tema vai mais longe e denuncia a extrema-direita e o neofascismo. Na letra de ‘Feia’, Carolina insurge-se contra a ascensão da extrema-direita e o retrocesso dos direitos das mulheres. Um canção de intervenção para ouvir em loop e partilhar. 

Ó Mãe, eu nasci num país
Nasci num país que me odeia
Dizem: "Deixa passar a louca"
Dizem: "Deixa passar a feia" [2X]

A extrema direita que eu assumo é ter na mão direita um punho que carrega uma caneta
Voz armada com bala de chumbo, tiro seguido de fumo, sou mulher e sou poeta
Querem voltar atrás no tempo, plantar o medo cá dentro, gritam "Deus, Pátria е Família"
E um marido que traga sustento ou mais um olho cinzento, diz quе foi contra a mobília

Ó Mãe, eu nasci num país
Nasci num país que me odeia
Dizem: "Deixa passar a louca"
Dizem: "Deixa passar a feia" [2X]

Vocês odeiam as mulheres e quando matam as mulheres, querem chorar e acender velas
Mas metade do mundo são mulheres e a outra metade do mundo é feita dos filhos delas
Um país sem casa nem conforto, querem falar do aborto, querem nos tirar os livros
Sou filha de Abril, saí do esgoto, nasci pronta para o confronto e eles gritam-me aos ouvidos

Ó Mãe, eu nasci num país
Nasci num país que me odeia
Dizem: "Deixa passar a louca"
Dizem: "Deixa passar a feia" [2X]

Ó Mãe, eu nasci
Ó Mãe, eu nasci
Ó Mãe, eu nasci
Num país
Ó Mãe, eu nasci
Ó Mãe, eu nasci
Ó Mãe, eu nasci
Deixa passar a feia

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Os cartazes abjectos do Chega - como denunciar



Não partilho as fotos dos cartazes abjectos.
Partilho que já mandei queixa para CNE, PGR, Internet Segura e outros órgãos de soberania. Qualquer cidadão pode fazer. Não é preciso ser especialista em direito para perceber a violação do artigo 240 do código penal.
Aproveitem agora, porque se continuarmos muito por este caminho e voltarem novos salazares, piar é verbo que pode deixar de existir no dicionário.

"Venho por este meio denunciar e solicitar a atuação da Comissão Nacional de Eleições, Ministério Público e demais órgãos de soberania perante os cartazes colocados em locais públicos associados à candidatura presidencial de André Ventura.
Cartazes que têm por objetivo difamar e acicatar o ódio relativamente a comunidades imigrantes e à comunidade cigana. Tais mensagens, além de chocantes do ponto de vista social e humanitário, além de causarem alarme público e social, violam claramente a Constituição e em específico o Artigo 240 do Código Penal português, "Discriminação e incitamento ao ódio e à violência".
Para mim, enquanto cidadão, é inconcebível que num estado de Direito como é Portugal, cartazes daquele teor sejam expostos e mantidos no espaço público sem serem rapidamente retirados. Tal como não é compreensível que os continuados promotores destas mensagens, contrárias aos princípios da democracia, continuem impunes, apesar de o Artigo 240 prever até penas de prisão em diferentes alíneas."

Seguro diz que cartazes do Chega são inaceitáveis e violam valores constitucionais

domingo, 26 de outubro de 2025

Agostinho da Silva dixit


“Valioso para mim é a noção de que o que importa não é educar, mas evitar que os seres humanos se deseduquem. Cada pessoa que nasce deve ser orientada para não desanimar com o mundo que encontra à volta. Porque cada um de nós é um ente extraordinário, com lugar no céu das ideias. Seremos capazes de nos desenvolver, de reencontrar o que em nós é extraordinário e transformaremos o mundo.” ~ Agostinho da Silva

Pensa nisto e agarra-te a este mantra, para não seres seduzido por André Ventura, facho, boçal e assim como atraído(a) pelos 60 acólitos (muitos com cadastro) na Assembleia da República. Dizem eles que querem limpar Portugal, mas são racistas e corruptos.
Parque de Serralves, Porto. Foto minha.

Salazar era essa ficção moral e impoluta que nos tentam agora vender? Não, Salazar era corrupto.

Principais evidências de corrupção sob Salazar

  1. Rede de pedidos de favores (“cunhas”)

    • No livro Salazar Confidencial (de Marco Alves), analisaram milhares de cartas enviadas a Salazar por amigos, familiares, ministros, padres, etc., pedindo favores: emprego, promoções, casas, intervenção em processos judiciais, e mais. 

    • Essas cartas mostram como a máquina do Estado era usada para beneficiar pessoas próximas, burlando regulamentos formais. 

  2. Escândalos sexuais e de abuso

    • O “Caso Ballet Rose” nos anos 1960 envolveu figuras importantes do regime em abusos de menores. 

    • Segundo a enciclopédia Visão, esses escândalos existiam, mas eram abafados, porque não havia imprensa livre e a polícia política era poderosa. Visão

  3. Uso institucional para manter poder

  4. Debate parlamentar sobre “corrupção”

    • Um artigo na Italian Political Science Review analisa como nas Assembleias Nacionais do Estado Novo (1935–74) se falava de “corrupção”, mas muitas vezes de forma discursiva/política, para criticar pessoas, em vez de haver investigações reais independentes. 

  5. Violência política e uso da PIDE

    • O regime dispôs de um aparelho repressivo (PIDE) que ajudava a silenciar oposição e potenciais denúncias.

    • Isso implica que a corrupção “visível” poderia ter sido limitada por medo ou pela repressão, mas isso não significa que não existisse favorecimento interno.


Interpretação

  • A corrupção sob Salazar não é tão simples como em regimes democráticos com investigação pública livre: muitos abusos não foram denunciados ou foram escondidos.

  • Parte da “corrupção” era institucional: o regime dependia de redes de influência e favores para manter poder, em vez de simplesmente roubo público.

  • Também há uma narrativa idealizada (em parte mítica) de que “no tempo de Salazar não havia corrupção”; mas a historiografia recente mostra que isso é uma simplificação.


📚 Livros e estudos recomendados

  1. Salazar Confidencial: A História Secreta da Rede de Cunhas e Favores do Estado Novo — Marco Alves

    • Este livro é uma investigação jornalística / histórica baseada em milhares de cartas enviadas a Salazar: pedidos de emprego, favores, influências políticas, promoções, casas, “cunhas”. 

    • Mostra como funcionava uma “máquina de favorecimentos” no Estado Novo, revelando uma face de clientelismo que vai para além do discurso público de austeridade moral ou integridade de Salazar. 

    • Índice do livro mostra capítulos específicos dedicados a como Salazar usava o Estado para benefícios privados (“como Salazar usava os meios do Estado na sua vida privada”).

    • Durante quatro décadas, António de Oliveira Salazar recebeu milhares de cartas de amigos, familiares, ministros, padres e figuras ilustres da elite do Estado Novo. Mendigavam ao presidente do Conselho favores, ajudas e cunhas para obterem um cargo, uma promoção, uma casa em Lisboa ou uma palavra de Salazar para intervir em todo o tipo de problemas, incluindo em processos judiciais e em casos de crime, violência e adultério envolvendo figuras notáveis da sociedade.

      É a primeira vez que toda a correspondência particular enviada a Oliveira Salazar é tratada para um livro, numa investigação exaustiva sobre 2446 processos individuais, de onde se analisaram 70243 páginas de cartas, relatórios, currículos e fotografias.

      Os documentos mostram os surpreendentes bastidores do Estado Novo, expondo a intimidade de um regime sustentado em cunhas e favorecimentos pessoais

  2. Salazar e os Fascismos: Ensaio breve de história comparada — Fernando Rosas

    • Rosas, historiador de renome, analisa o Estado Novo no contexto dos fascismos europeus, o que ajuda a entender a natureza autoritária do regime. ihc+1

    • Embora não seja um livro “sobre corrupção” per se, examina a estrutura de poder, ideologia e instituições do regime, contribuindo para a compreensão de como o poder era mantido, distribuído e reproduzido. 

    • Discute também os mecanismos políticos internos e a elite política que sustentava o regime, o que pode estar ligado a práticas de clientelismo institucional.

  3. O Estado Novo de Salazar. Uma Terceira Via Autoritária na Era do Fascismo — António Costa Pinto (coordenação)

    • Esta obra coletiva reúne vários historiadores e analisa o Estado Novo como um regime autoritário que se coloca entre a democracia liberal e o fascismo clássico.

    • O livro aborda temas de estrutura de poder, recrutamento da elite governamental e institucionalização do regime. Esses aspetos são relevantes para entender como funcionavam os privilégios e os favores políticos.

    • Também contribui para a reflexão de que, embora o regime não fosse “corrupção aberta” no sentido tradicional, existiam mecanismos de poder muito hierarquizados, clientelistas e centralizados.

  4. O Império do Professor: Salazar e a Elite Ministerial do Estado Novo (1933–1945) — António Costa Pinto (artigo)

    • Este é um artigo académico (publicado na revista Análise Social) que analisa como a elite ministerial era composta, como se recrutava e como funcionavam as nomeações políticas. 

    • Ajuda a ver a “corrupção” ou clientelismo no nível das nomeações de poder: como Salazar distribuía cargos, a sua relação com os ministros e a forma como o regime se mantinha por redes de lealdade pessoal.

  5. Public Finances of a European Dictatorship: Portugal under the Estado Novo Regime — Ricardo Ferraz

    • Este livro analisa as finanças públicas durante o Estado Novo (1933–1974) com rigor econométrico. 

    • Interessa para a corrupção porque examina receitas, despesas, endividamento e uso do orçamento estatal. Revela de que forma o regime geria recursos públicos e quais eram os seus desafios fiscais — isto pode ser interpretado como uma forma de “corrupção institucional” (no sentido de uso político das finanças).

    • Também coloca o caso português em contexto comparado, o que é útil para entender se os desequilíbrios financeiros eram mais devidos a prática clientelista ou a dificuldades estruturais.

  6. Vítimas de Salazar: Estado Novo e Violência Política — Irene Pimentel, João Madeira, Luís Farinha

    • Este livro aborda a repressão política, violência e a forma como o regime silenciava a oposição. 

    • Embora o foco principal seja a violência política e não diretamente a “corrupção”, entender o papel da PIDE (polícia política) e a repressão é importante para perceber porque muitas práticas de favorecimento ou abusos de poder não foram contestados ou investigados: o medo era uma via de controle.

  1. Salazar e os milionários, Pedro Jorge Correia;
  2. Salazar Confidencial, Marco Alves;
  3. Os Donos de Portugal - Jorge Costa, Francisco Louçã, Fernando Rosas, Luís Fazenda, Cecília Honório.
  4. Jubileu, 1953

segunda-feira, 1 de julho de 2024

De volta à “raça”: usos da história e memória do colonialismo nas redes sociais

Sabemos — e melhor o sabe quem estuda estes temas de forma consistente e rigorosa — que as redes sociais são objectos estranhos, seja como espaços de interacção, seja (ainda mais) como objectos de estudo. Nem sempre é fácil descortinar o que é espontâneo. O que por vezes julgamos serem vários utilizadores diferentes é, afinal, um só e o mesmo. Mais difícil, ainda que não se tratem de dois mundos incomunicáveis, é complicado perceber como se articulam as redes sociais e as esferas da acção social e política, pois estas não se espelham rigorosamente nem, muito menos, podem aquelas ser pensadas como representativas das segundas.

Começo com este introito porque o exercício que aqui proponho está longe de poder revestir-se de qualquer autoridade científica. É uma impressão que resulta de um apanhado de interacções nas ditas redes, não validado por critérios igualmente científicos e carecendo de uma metodologia rigorosa. Mas beneficia de um acompanhamento mais ou menos regular a discussões nas redes sociais que versam sobre alguns destes temas, sobretudo em torno da história mais recente de Portugal e o seu passado ultramarino.

Há cerca de dois meses, num ensaio em que procurava ilustrar, parcial e episodicamente, como o Estado Novo lidou com a questão da discriminação racial de um ponto de vista administrativo e político — frequentemente não deixando sequer que na esfera pública fossem enunciados e caracterizados casos de racismo e discriminação racial que ocorriam em território nacional (então integrando diversos espaços geográficos) —, chamei a atenção para o que me parecia ser uma dinâmica relevante para o presente, mas entrelaçada em acontecimentos e processos que se situam no passado. No contexto das redes sociais e nos azimutes mais reaccionários da direita nacional, sugeri que se poderia estar a operar uma reconfiguração da relação que estes sectores estabelecem com as ideias tidas por tributárias do discurso oficial do Estado Novo. Referia-me, aqui, ao que se costuma caracterizar como “lusotropicalismo”, ou seja, o sucedâneo, em forma propagandística e de uso fácil e multifunções, da teoria cunhada por Gilberto Freyre. Esse sucedâneo traduzir-se-ia num conjunto de ideias-chave, assentes numa suposta excepcionalidade portuguesa, que faria dos portugueses particularmente avessos ao racismo, por obra e graça da deusa história, dados a uma sã convivialidade ecuménica que ignorava a diferença étnico-racial ou sócio-cultural.

Muitas coisas já foram ditas sobre o lusotropicalismo. Uma delas foi que poderá ter servido de freio ao alastrar de sentimentos, ou pelo menos declarações, explicitamente racistas no discurso político e público no Portugal democrático. Outra foi que esse mesmo sucedâneo serviu amiúde para obscurecer manifestações de discriminação racial que persistem no presente, desta forma impedindo que o racismo seja mais eficazmente combatido. A estas poder-se-ia acrescentar outras. Por exemplo, a de que o uso instrumental do lusotropicalismo pelo Estado Novo não se limitou a uma forma repetida e, na mesma medida tosca e directa, de propaganda. Manifestou-se de diversas formas, da estruturação dos currículos escolares ao controlo do aparelho mediático durante a ditadura. Traduziu-se também em recorrentes comparações entre realidades do império com as de outras sociedades, sobretudo aqueles casos que representavam formas mais óbvias, e denunciadas, de uma organização social e política estritamente racial, como na África do Sul ou na Rodésia. Falta, ainda hoje, perceber de que forma esta comparação não contribuiu para a cristalização de uma ideia de discriminação racial que se fixa na imagem das casas de banho segregadas ou na proibição de casamentos mistos, não capturando práticas e políticas que se desenhavam em torno de um claro viés racial, ainda que de forma não tão explícita, logo mais subtil e resistente ao correr do tempo.

São muitas, e diversas, as formas através das quais podemos pensar como o processo de resistência à descolonização encabeçado pelo governo autoritário português condicionou, e talvez ainda condicione, a forma como, no debate público, reflectimos sobre racismo no Portugal contemporâneo. Sendo muitas e diversas as formas de interpretar os efeitos do lusotropicalismo nos debates contemporâneos sobre racismo, não me parece demasiado arrojada a ideia de que o lastro histórico do Estado Novo limitou, de certa forma, a possibilidade de introduzir declarações ou tropos abertamente racistas em discursos políticos proferidos em espaços institucionalizados ou mesmo nos media, para o que contribuiu, também, a evolução normativa, tanto no quadro do Estado português como internacionalmente. Houve sempre excepções, é claro, e há infaustos acontecimentos na nossa história mais recente que se encarregam de nos lembrar disso. Formas estritamente biológicas de dar corpo a um suposto “conceito” de raça e a defesa de sociedades etnicamente homogéneas, protegidas de qualquer forma de “miscigenação” ou de entendimentos plurais da pertença, manifestaram-se nos anos finais do império, e sobreviveram à transição democrática, como pode ser atestado pela presença de grupos supremacistas em Portugal há já longas décadas.

Arrisco-me, contudo, a sugerir que este estado de coisas está a mudar de forma mais substantiva hoje. Ainda há pouco tempo, uma deputada do Chega questionou (ainda que se tenha apressado a fazer marcha-atrás) a “identidade” da selecção francesa, evocando para isso uma foto de Kyllian Mbappé, nascido e criado em França, publicando-a e escrevendo: “França aos franceses”. Longe de ser um método infalível, quem acompanha as publicações nas redes sociais da deputada identifica um conjunto de padrões. As suas publicações procuram acompanhar o ritmo de publicações de outras figuras ou redes da direita radical no estrangeiro (facto que me foi relembrado por utilizadores do X [antigo Twitter], a quem agradeço) mas procuram também acompanhar o “pulsar” das gerações mais jovens de portugueses radicalizados ou radicalizáveis. Não é por acaso que se dá a “marcha-atrás”, acontecimento que está longe de ser inédito na postura da deputada nas redes sociais. Trata-se, creio, de um permanente e contínuo teste a ver até onde pode ir. Também se poderá dar o caso de estar a ver engenho maquiavélico onde apenas se encontra oportunismo não muito pensado. Mas, da mesma forma que normalmente argumento que é preciso levar o pensamento e acção daqueles que conduziram o Estado Novo a sério, também diria que desajudará mais do que iluminará subestimar aqueles que fizeram do projecto da direita radical um caso de sucesso, tanto de um ponto de vista estritamente eleitoral como enquanto força gravitacional de carreiristas e arrivistas de diversa estirpe, franchise que começa agora a ser disputado.

Entendamo-nos, o cinismo não atenua o dolo, e não há razões para estar optimista. Não foram poucos os que subscreveram as suas palavras. Como não são poucos os que, nas redes sociais, e como referido no dito ensaio, questionam a “verdadeira” pertença de atletas portugueses que obtêm medalhas em nome da pátria, sempre que estes apresentem uma tez um pouco menos clara. Dá-se, aqui, um corte com o lusotropicalismo, mais genericamente, mas também, em muitos casos, com a tese defendida estrenuamente pelo Estado Novo, que postulava que os antigos territórios coloniais eram, efectivamente, Portugal.

Há cerca de dez anos, nas redes sociais, comentários deste tipo mereceriam uma outra censura social. Afinal, os portugueses não distinguiriam ou discriminariam em função da cor da pele, e a vitória de atletas portugueses com origens nos países hoje independentes, mas que antes foram colónias, seria uma vitória póstuma da ideia de império, cuja desintegração, segundo a mesma narrativa, teria redundado na afirmação do racismo, ao mais claramente organizar territórios e populações em função da cor da pele (o que não deixa de conter um pitada de verdade, ainda que muito parcial). De resto, para muitos, os laços que se mantêm após as independências entre Portugal e as antigas populações colonizadas seriam a prova da validade da tese do Estado Novo e da robustez de uma ligação “espiritual” que sobrevive às diversas independências.

Entre outros aspectos, a enxurrada de comentários que assola qualquer publicação que anuncie os sucessos desportivos de portugueses como Pedro Pichardo ou Auriol Dongmo parece apontar para uma mudança, em certos sectores da sociedade portuguesa e, sobretudo, nas faixas etárias mais novas, na forma como “raça” e discriminação racial são entendidas, e também na relativa unanimidade que existia em torno do opróbrio social que tais manifestações deviam merecer.

Com esta ideia na cabeça, fiz um pequeno exercício no X , publicando um tweet em que afirmava que, no momento em que Salazar deixou de ser presidente do conselho de ministros, havia mais muçulmanos a viver em território português do que ao dia de hoje, o que é factualmente correcto. Já levo alguns anos desta conversa, e não há nada de extraordinário na recusa de muitos interlocutores em aceitar que a sociedade portuguesa de hoje ainda conserva uma certa dose de responsabilidade perante o mandato que o império declarou seu. Isto é, não é particularmente surpreendente que muitos portugueses, mais ou menos ou até nada sensíveis à doutrina estado-novista, entendam que, com a descolonização, Portugal, enquanto Estado e sociedade, ficou liberto de qualquer responsabilidade perante as antigas populações colonizadas. Mesmo que sejam as mesmas populações a quem, desde pelo menos finais do século XIX, ninguém perguntou se se sentiam mesmo portuguesas. Pelo contrário, combateram-se três guerras em territórios diferentes para garantir que elas continuavam portuguesas, pressuposto assente num suposto plebiscito diário e silencioso, como ensinava Renan, mas que recusava qualquer possibilidade de essas populações serem consultadas num plebiscito de facto.

Trata-se de um sentimento que trai uma ideia peculiar de convívio multicultural. Enquanto estas populações vivessem lá longe, numa posição social, económica e política diminuída, teríamos todo o gosto em acolhê-las à distância. Coisa diferente seria, com a descolonização e com Portugal privado dos territórios ultramarinos, fazer jus à ideia de que o nosso compromisso com uma Portugalidade global se iria manter, nomeadamente com as populações que, no longo tempo histórico, foram as que mais sofreram: no tempo do império, durante a descolonização e nos futuros pós-coloniais e pós-imperiais que se lhe sucederam.

Porém, a centena e tal de comentários com que fui presenteado não afinaram exactamente por este argumento. Alguns houve, como é normal, que me recomendaram sortidas formas de sexo não-reprodutivo. Outras que instaram a universidade a que pertenço a que tomasse “medidas” porque eu teria incorrido em argumentos “falaciosos”. Mas a maior parte apontou para um facto claro: Moçambique e Guiné-Bissau não eram territórios portugueses, nem essas populações eram portuguesas — um corte não apenas com o articulado constitucional da altura, mas com a própria retórica repetidamente enunciada pelos dirigentes, ideólogos e propagandistas do Estado Novo.

Muito provavelmente, se colocados perante a questão de se eram estes territórios parte de Portugal, noutro contexto, muitos destes utilizadores, que denotam particular afinidade por nomes falsos, escudos com cruzes de Cristo e copos de vinho tinto (uma combinação perigosa…) diriam que, sim, Guiné e Moçambique eram Portugal. Como dizia um conhecido no X, o problema da maioria era o de haver muçulmanos em Portugal continental, não lá nos confins do império, e não lhe disputarei a razão.

Mas creio que não será inusitado perceber como se reconfigura, neste meio, a relação com a história e memória do antigo império, pois creio que é bastante evidente, e sintomático, que algo está a borbulhar. Por exemplo, numa conta do X que se dedica a glorificar os feitos do Estado Novo podemos ver uma imagem de propaganda em que três soldados africanos seguram uma bandeira portuguesa, procurando demonstrar o apoio multirracial de que aquele beneficiava na sua gesta para manter o império incólume. Um dos comentários que se segue é o seguinte: “3 não portugueses. Deixei de seguir esta página”. Outro: “muito gostam os boomers de catinga”. Segue-se outro que refere que “esta página é gerida pelo brasileiro mestiço YYYYY”, desta forma questionando a pureza biológica da página (há coisas do diabo). Trata-se, pelo que se percebe da leitura da sua página, de alguém que intervem frequentemente em tudo o que tenha que ver com a história imperial do Estado Novo, defendendo os seus supostos princípios de “assimilação cultural” em vez de critérios estritamente fenotípicos de definição de pertença. Entre as coisas que se pode ler na sua página, está a ideia de que o Chega está “internamente” a estudar a possibilidade de recriar um novo “estatuto do indígena”. Ou seja, um estatuto que diferencia racialmente, mas abre a possibilidade de teórica de “assimilação”, para lidar com a crescente diversidade étnica e racial de “Portugal” e, em particular, com os fluxos migratórios. Afirma, contudo, que “o próprio Chega está fracturado entre os que, como eu, são lusotropicalistas e acreditam que os imigrantes podem vir se cumprirem os requisitos para assimilação do antigo Estatuto do Indígena e da União Nacional e de outro lado os racistas que querem implantar uma one drop rule cá”.

O estatuto do indígena, ou indigenato, é uma via interessante para se perceber como estão a evoluir estas discussões em certos sectores da sociedade portuguesa. Importa aqui um parêntesis, para quem não teve vagar de ler o ensaio supra. O estatuto do indígena, ou como é mais frequentemente conhecido, o regime do indigenato, trata-se da estrutura jurídica, política e administrativa “especial” onde se enquadrava a maioria das populações negras das três colónias mais populosas (Angola, Moçambique e Guiné), um regime distinto do que se aplicava aos “cidadãos portugueses”, e que, desde a década de 20 do século passado até o início da década de 1960, lhes negava direitos políticos e civis e lhes impunha deveres particulares, como o dever moral de trabalhar, base conceptual do regime de trabalho forçado que acompanhou a reputação do império durante décadas.

Muitos destes utilizadores das redes sociais, frequentemente, face a discursos como este, que procuram negar a natureza discriminatória do indigenato, chamam a atenção para o facto de o indigenato referir explicitamente a “raça negra” como critério inexorável na atribuição desta condição jurídica diminuída. Acreditam que Salazar não acalentava ilusões sobre as diferenças inultrapassáveis entre “raças”. Mais, acreditam que a abolição do estatuto, como diz um utilizador, só aconteceu por pressão de factores externos, nomeadamente a interferência da ONU, quando o império se encontrava em perigo, com o início da guerra em Angola e a crescente projecção internacional, negativa neste caso, da “questão colonial portuguesa”. Como afirma uma conta também anónima mas com considerável alcance, “Em Portugal, os não-brancos do império só tiveram cidadania plena nos anos 1960s”. É muito curioso, porque estes argumentos, partilhados por vários historiadores (incluindo eu próprio) foram tradicionalmente usados para demonstrar que, não obstante toda a retórica, o regime estado-novista nunca abandonou completamente critérios raciais, mais ou menos explícitos, para governar o seu vasto império, e que resistiu denodadamente a reformar-se por livre recriação, sendo amiúde levado a fazê-lo como forma de responder a acusações, denúncias e crescente pressão política. Em comum, temos a rejeição de uma narrativa que apresenta o império português como essencialmente não-racista, seguindo as pisadas de Franco Nogueira quando afirmava o pioneirismo português na construção de sociedades multirraciais. Mas nestas contas próximas da direita radical essa constatação aponta num sentido ético e político distinto: procura-se demonstrar o racismo sempre presente no Estado Novo, e o carácter instrumental das reformas normalmente atribuídas a Adriano Moreira, para resgatar orgulhosamente o legado racista da direita radical portuguesa.

A direita radical portuguesa, hoje, portanto, deve afirmar sem pejo esse legado, afirmando-se racista, não cedendo ao lusotropicalismo que subverteu e emasculou o salazarismo. Como diz mais um utilizador, com a bandeira portuguesa no nome, sobre este assunto: “Salazar, por muito que goste dele, deixou um cancro gravíssimo na nossa direita”. Como refere um outro, que também justifica a revogação do indigenato com a pressão da ONU, “E, sim, se somos brancos temos que preservar essa natureza racial”. A mesmo conta citada em cima, com vários seguidores, não podia ser mais explícita: “Salazar era racista e há vários exemplos disso”. Um outro, saturado, não deixa margens para dúvidas: “Pode vir com a mesma cassete habitual lusotropicaleira que aqui não cola: negros são africanos e não pertencem a Portugal, pertencem a África e foi por isso que lhes demos a independência”. Repare-se como há aqui o recurso sistemático ao que tem vindo a ser produzido nos estudos sobre o colonialismo nas últimas décadas emprestando-lhe um sentido totalmente diverso, que em alguns casos questiona tibiamente a “cedência” de Salazar, noutros procura desvelar os seus verdadeiros sentimentos, e noutros, ainda, rejeita por completo a herança do lusotropicalismo com um vigor que não empresta contra aqueles que, defendendo que se tenha em conta os legados do Estado Novo na sociedade actual, apontam para o seu carácter incontornavelmente racista.

Isto é apenas um apanhado rápido de tweets, facilitado por alguma experiência em acompanhar estes temas. Não é difícil expandir o universo a que corresponde este discurso, com algum trabalho. Já não é tão fácil perceber, como dizia no início, quantas pessoas perfilham este tipo de ideias e de que forma isto reverbera e reverberará política e socialmente. As redes sociais geram, com facilidade, ilusões de óptica ou efeitos de paralaxe. Um estudo mais robusto, creio, ajudar-nos-ia a perceber a dimensão da questão, coadjuvado por outros métodos, de entrevistas a inquéritos. O que aqui quis, de certa forma, foi chamar a atenção para um fenómeno, talvez marginal, mas que se torna cada vez mais visível para quem acompanha estes temas. O problema aqui não é historiográfico ou circunscrito aos discursos públicos que versam sobre a história e memória colectiva. É uma janela a partir da qual nos podemos interrogar sobre o sentido destes debates na contemporaneidade, numa altura em que se multiplicam contas nas redes sociais que se dedicam a criar pânico social, a maior parte das vezes mentindo ou insinuando, imputando pulsões violentas e irracionais supostamente intrínsecas a grupos étnico-raciais que não se coadunam ao que têm pela norma “portuguesa”. De volta à “raça”, estamos perante um conjunto de portugueses, creio, cada vez maior que se entretém a alimentar fantasias de uma guerra racial que trai um enorme medo de tudo e todos. E, depois de décadas a acreditar em múltiplos excepcionalismos, desde o Portugal harmonioso e ultramarino até ao mais recente sobre a imunidade do país à direita radical, faríamos melhor em não ignorar o que corre o risco de alastrar de caves bolorentas até ao salão nobre da assembleia da república, agora que a oferta de partidos dispostos a acolitar estas ideias se vem multiplicando; revelador da aliciante oportunidade de negócio que muitos aqui antevêem, deitados borda fora os escrúpulos. Sem que nos tenhamos apercebido, a forma como se estruturam as posições mais ou menos fixas que nos habituámos a ter por garantidas nos debates sobre o passado recente está a mudar e a fragmentar-se.

domingo, 14 de abril de 2024

Música do BioTerra: Zeca Afonso - Em Terra de Trás-os-Montes


Este é o seu nono LP, com as colaborações de Cecília Barreira, Fausto, Fernando Gonzalez, José Luís Iglésias, José Niza, Júlio Pereira, Luís Duarte, Michel Delaporte, Quim Barreiros, Ramon Galarza e Vitorino.
[...Porque gravado em 76, reflecte as vivências desse período é um disco comprometido e datado, mas capaz de sobreviver às situações que lhe deram origem, verdadeiro exemplo da capacidade de intervir artisticamente, sem prejuízo dos valores estético-formais...]. (Viriato Teles)

Em terras de Trás-os-Montes
Entre Coelhoso e Parada
Uma história verdadeira
Foi ali mesmo contada

Algemado por dois pides
Na manhã de vinte e três
La vai Manuel Augusto sem mesmo saber porquê

Com ele vai Marcolino bufo dos Dominadores
Ide às minas da Ribeira
Vereis quem são os Senhores

Nesse lugar de trabalho
Nos confins da exploração
Diz o Marcolino aos pides
Apertem-me esse cabrão

Não contente com a prova
Do zelo que assim mostra
Àquele rapaz honrado
Esta fala então lhe dava:

Sabemos da tua vida amanhã por esta hora
Irás para o forte de Elvas
Diz adeus à vida boa

Também o José António
Foi na mesma interrogado assassino Marcolino
Foste o primeiro culpado

Entre Parada e Coelhoso
Ainda reina a opressão
Não deixem fugir o melro
Não quebrem vossa união

sexta-feira, 1 de março de 2024

Verdadeiro, Mariana - houve prisão perpétua no Estado Novo e alguns morreram


A PIDE prendia qualquer pessoa que suspeitasse ser contra o regime. Apesar da pena perpétua estar abolida, os presos eram sujeitos a "medidas de segurança" que prolongavam indefinidamente a sua pena, tornando-se equivalente a perpétua.

Consultando os arquivos da PIDE, comecem por escolher Tarrafal. Alguns não era prisão perpétua, era prisão até morrerem. 37 ali morreram. O Campo de Concentração do Tarrafal situava-se no extremo norte da ilha de Santiago, Cabo Verde, num lugar ironicamente chamado de Chão Bom.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Adriano Moreira - Os fascistas choram a partida de um deles


Morre um fascista, reciclado. Além do livro já referido nesta postagem, recomendo a leitura de outro livro indispensável, que dá conta do que foram os crimes cometidos pelo facínora idolatrado Adriano Moreira: "O Tempo das Giestas", do grande escritor José Casanova.

Este livro conta a história de um grande amor que começa em 1936. Um rapaz e uma rapariga de família fascista conhecem-se nessa altura e apaixonam-se. Ele, uma figura misteriosa que oculta a sua vida, acaba por desaparecer ao fim de alguns meses. 

Depois estamos em Lisboa, 1 de abril de 1988. Teresa procura novamente por Simão. Marcos, um jovem ativista político, ajuda-a, apoiando-se ambos nas limitadas pistas de que dispõem.

Apesar disso, conseguem reconstituir os passos de Simão, após o seu desaparecimento. Descobrem que fora preso e deportado para o Campo do Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde. 

É a história de um amor impossível, devido à repressão política e à restrição das liberdades, durante o regime de Salazar.

O texto de José Casanova caracteriza o século XX português, em dois períodos de grande importância da sua história, os anos trinta e oitenta, em que o país viveu o início da Ditadura, do autodesignado Estado Novo, e os primeiros anos da Democracia, após a Revolução de Abril, respetivamente. Evoca, ainda, as lutas antifascistas, a tortura e as prisões sumárias de opositores ao regime, nomeadamente no Campo do Tarrafal.

"Este livro pretende ser um pequeno contributo para combater esta campanha de branqueamento do fascismo que tenta demonstrar que o que existiu em Portugal não foi um regime fascista, mas um Estado Novo autoritário e paternalista", disse na altura o próprio autor à Lusa.(18 Abril 2007).

domingo, 23 de outubro de 2022

Adriano Moreira - o eterno ditador

Vamos assistir ao branqueamento dos media do "legado de Adriano Moreira"? 
Um homem que escolheu de livre vontade servir um ditador. Que vida impoluta viveu Adriano Moreira.
Fascista reciclado e promotor do Tarrafal e da Guerra Colonial. Fundamentalista católico. Otelo fez mais pela democracia que um milhão de Adrianos Moreiras. Humanista? Democrata? Obra a reler. Não brinquem comigo, por favor.


Alguma vez, em vida, Adriano Moreira pediu desculpas públicas pelas vítimas do Tarrafal? Não me recordo. 

O CDS nos primeiros 2 anos depois do 25 de Abril era contra a descolonização. Estava lá Adriano Moreira!

“Como gere a ironia de pertencer ao Conselho de Estado, onde está também Adriano Moreira”, perguntou o Observador a Domingos Abrantes, em 2016. Deixo aqui a resposta:

Morte de um ditador, Adriano Moreira, coberto de honrarias em vida e Salgueiro Maia, verdadeiro  obreiro da nossa Democracia, que nos permite ter liberdade de expressão, tratado a baixo de cão pelo Cavaco. Em 1989, o então primeiro-ministro recusou pensão a Salgueiro Maia. 20 anos depois homenageou-o no 10 de Junho de 2009. Foi tarde.


Biógrafo de Salgueiro Maia critica Cavaco Silva pela distinção.[link]. Para António Sousa Duarte, a homenagem hoje feita pelo Presidente da República ao capitão de Abril é "justa", mas "tímida, envergonhada, discreta e muito fugaz", sendo ainda "um erro em cima de outro erro", ou seja, "um duplo erro". 

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Quem é António Barreto?



Por Marilia Alves, 27 de Agosto de 2021

António Barreto, conhecido intelectual e político da nossa praça, veio por estes dias, em entrevista ao Jornal Sol, afirmar que “A justiça do antigo regime era mais séria do que a de agora”. Por antigo regime entenda-se salazarismo. Possuíamos então um estado regulador até ao mais ínfimo pormenor, tribunais plenários, com uma justiça arbitrária, com a qual parece agora concordar e isso define logo uma pessoa do ponto de vista ideológico.
A justiça era exercida através de um aparelho repressivo e controlador assente numa legião de pides e de bufos. Sem esquecer as simpáticas prisões para os presos políticos, em que o pináculo da seriedade era o Tarrafal. Tudo muito sério e com pessoas de bem. E foi essa justiça “tão boa” que obrigou Barreto ao exílio dourado da Suíça. E, contrariamente, à esmagadora maioria das pessoas da sua idade, que nada beneficiaram com o regime e se sujeitaram a perder a vida numa luta inglória, uma guerra sem vencedores nem vencidos, enquanto a burguesia abastada – como é o caso e com muitos princípios declarados após a revolução, porque até aí não tinha tido qualquer intervenção politica conhecida – saiu do País e respirou liberdade, muito antes de ela cá chegar.
Enquanto ministro da agricultura do primeiro governo de Mário Soares, António Barreto acabou com a reforma agrária. Quem não se lembra da “Lei Barreto”, que determinou a entrega dos campos do Alentejo aos proprietários. A manhã sangrenta da reforma agrária, ocorreu em Montemor-o-Novo, quando a GNR atirou aos trabalhadores que contestaram e morreram dois, Caravela e Casquinha. Julgo que a frase “Fora Barreto”, continua gravada em alguns muros. Pelo menos, no das memórias. Entregou novamente os latifúndios que não foram alvo de qualquer melhoria. Passou de uma situação anárquica para outra de fraca produtividade.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Música do BioTerra: Valu - Tarrafal


O Campo de Concentração do Tarrafal, como ficou conhecido, começou a funcionar em 29 de Outubro de 1936, com a chegada dos primeiros prisioneiros.

«A 29 de Outubro de 2013, data em que esta canção foi originalmente lançada, fez setenta e sete anos que foi activado o Campo de Concentração do Tarrafal, para onde eram enviadas as vozes críticas do Estado Novo, a fim de serem retidas e silenciadas. Esta é uma homenagem aos presos políticos torturados e mortos entre 1936 e 1954, cujo principal crime foi discordar.
Este vídeo tem imagens do documentário "Tarrafal - Um Campo Em Morte Lenta", realizado por João Paradela e com fotografia de Paulo Menezes. 
A edição vídeo é de Jorge Pires. 
A letra e a música são da Valu. A produção áudio é de Fernando Matias.»

Documentário da Semana: Tarrafal - Memórias do Campo da Morte Lenta


Chamavam-lhe "O Campo da Morte Lenta"; os críticos, naturalmente. Quando os presos eram portugueses, as autoridades chamaram-lhe primeiro, entre 1936 e 1954, "Colónia Penal de Cabo Verde" e depois quando reabriu em 1961 para nele serem internados os militantes anticolonialistas de Angola, Cabo Verde e Guiné, "Campo de Trabalho de Chão bom".

Trinta e dois portugueses, dois angolanos, dois guineenses perderam ali a vida. Outros morreram já depois de libertados, mas ainda em consequência do que ali tinham passado. Famílias houve que, sem nada saberem do destino dos presos, os deram como mortos e chegaram a celebrar cerimónias fúnebres.

A convite do Presidente da República de Cabo Verde, Pedro Verona Pires, os sobreviventes reencontraram-se para um Simpósio Internacional sobre o Campo de Concentração do Tarrafal, resultou deste encontro este documentário produzido e realizado por Diana Andringa com o apoio da Fundação Mário Soares e da Fundação Amílcar Cabral.

Ficha Técnica
Título Original: Tarrafal - Memórias do Campo da Morte Lenta
Realização e Produção: Diana Andringa 
Ano: 2011

Foram 32 os prisioneiros políticos que morreram no Tarrafal. O seus corpos só depois do 25 de Abril puderam voltar à pátria.

Os nomes:

sábado, 24 de abril de 2010

Ainda não temos um Memorial das vítimas do fascismo e da repressão da PIDE em Portugal

«Tarrafal: memórias do Campo da Morte Lenta»


Um filme de Diana Andringa (*), no IndieLisboa’10
Sexta-feira, 23 de Abril, às 21H30 no Grande Auditório da Culturgest
Domingo, 25 de Abril, às 18H30, no Pequeno Auditório da Culturgest
(Edifício da Caixa Geral de Depósitos, Campo Pequeno, Lisboa)
Chamavam-lhe “o Campo da Morte Lenta”. Os críticos, naturalmente. Que as autoridades, essas, chamaram-lhe primeiro, entre 1936 e 1954, quando os presos eram portugueses, “Colónia Penal de Cabo Verde” e, depois, quando reabriu em 1961 para nele serem internados os militantes anticolonialistas de Angola, Cabo Verde e Guiné, “Campo de Trabalho de Chão Bom”.
Trinta e dois portugueses, dois angolanos, dois guineenses perderam ali a vida. Outros morreram já depois de libertados, mas ainda em consequência do que ali tinham passado. Famílias houve que, sem nada saberem o destino dos presos, os deram como mortos e chegaram a celebrar cerimónias fúnebres.
“Ali é só deixar de pensar. Porque se não morre aqui de pensamentos. É só deixar, pronto. Os que têm vida ficam com vida. Nós aqui estamos já quase mortos.” A frase é do angolano Joel Pessoa, preso em 1969 e libertado, com todos os outros presos do campo, em 1 de Maio de 1974.
No 35º aniversário desse dia, a convite do presidente da República de Cabo Verde, Pedro Verona Pires, os sobreviventes reencontraram-se para um Simpósio Internacional sobre o Campo de Concentração do Tarrafal.
“Tarrafal: memórias do Campo da Morte Lenta” resultou desse reencontro. Durante os dias em que os antigos presos voltaram ao Tarrafal, gravámos entrevista após entrevista, registando as suas recordações. Trinta e dois presos, desde o português Emundo Pedro, um dos que o estreou, em 1936, aos angolanos e cabo-verdianos que foram os últimos a deixá-lo, no 1º de Maio de 1974, passando pelos guineenses que, ali chegados em Setembro de 62, saíram em 64 uns, em 69 os restantes. Um guarda, Joaquim Lopes, cabo-verdiano e convertido ao PAIGC. Uma das raras pessoas que testemunhou a vida no Tarrafal desde a sua abertura ao seu encerramento, Eulália Fernandes de Andrade, mais conhecida por D. Beba.
É um documentário feito à base de depoimentos e filmado quase sempre no interior do campo, afinal, o espaço em que os presos se moviam. Entre as raríssimas excepções, o cemitério, onde acompanhamos a homenagem dos sobreviventes aos que ali ficaram. Vozes, caras expressivas contra fundo de cela. Alguns objectos surpreendentes: as calças rasgadas pelo chicote e puídas pelo chão prisional, a planta do campo desenhada num osso de vaca, a bengala que testemunha o resultado da tortura. A alegria de se verem lembrados em duas exposições nas celas que tinham ocupado.
* com imagem de João Ribeiro, som de Armanda Carvalho e montagem de Cláudia Silvestre