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domingo, 26 de julho de 2026

Xénia - A regra de Zeus

Zeus Xenios-Philoxenon
A Odisseia de Christopher Nolan pode não ser totalmente fiel ao poema épico de Homero mas tem o dom de por toda a gente a falar desta obra fundamental que, com a Ilíada, fundou a chamada civilização ocidental. Interessa pouco a escolha dos intérpretes  de alguns personagens, pois no fundo todos eles são inadequados já que não há gregos entre o cast, o que até é bastante insultuoso para a Grécia. 

Adiante. O que mais importa na Odisseia é que se tornou numa obra universal e ainda hoje pode ser entendida por todos, desde japoneses a congoleses: é um épico de provação e superação das dificuldades que podia ocorrer em qualquer civilização. E está tão bem relatado, que se torna no primeiro livro de aventuras digno desse nome. E a regra de Zeus (xénia), da hospitalidade obrigatória aos que chegam, de dar comida, bebida e abrigo sem perguntar nada e a gratidão intrínseca que os migrantes devem ter aos seus hospitaleiros ainda hoje tem eco nos migrantes actuais. 

Essa regra foi quebrada por Ulisses e também por alguns dos hospitaleiros, como Polifemo, e isso levou às desgraças que cada um teve de sofrer. E esta regra de Zeus não podia ser mais actual, pois ainda hoje a quebramos constantemente com os emigrantes, sejam os desgraçados africanos que atravessam o Mediterrâneo, sejam os hindus que povoam Lisboa que são rejeitados pela extrema-direita, sejam os latinos expulsos pelo ICE nos EUA. 

Daí o termo xenófobo, que é o contrário de bem-receber e à regra de Zeus, que podia ser de Deus, o tal que unificou o Olimpo num só omnipotente ser divino, que com todos os seus poderes não consegue aplacar as atrocidades que se cometem todos os dias contra emigrantes e não só.

Ler mais:
Deconstruction in a nutshell : a conversation with Jacques Derrida

sábado, 25 de julho de 2026

A Odisseia é ficção. Mas os seus monstros e magia podem ter bases científicas

Pellegrino Tibaldi (1550–1551) - Ulisses acceca Polifemo (em português: Ulisses cega Polifemo)

A Odisseia é um mito. É duvidoso que um homem tivesse demorado, literalmente, uma década a viajar desde Tróia, uma cidade situada na costa da Turquia, até à ilha grega de Ítaca após a guerra de Tróia, tivesse sido amaldiçoado para fazer amor com bruxas, viajado até ao Hades e lutado com um ciclope. Ou, se tivesse mesmo demorado assim tanto tempo, a sua maldição deveria incluir não pedir indicações.

No entanto, o relato da viagem extraordinariamente longa de Ulisses alude a coisas que as pessoas poderão ter encontrado no mundo antigo, desde um ciclope de carne e osso a remoinhos assassinos e plantas alucinogénicas. Seguem-se algumas das realidades científicas por trás das suas lendárias aventuras.

O ciclope
Na história, o ciclope Polifemo - um gigante que aprecia carne humana e, como é óbvio, tem apenas um olho no meio da cabeça - prende a tripulação de Ulisses e come alguns dos seus homens ao almoço. Ulisses cega Polifemo com uma lança aquecida e depois eles conseguem fugir, amarrados às barrigas das ovelhas de Polifemo.

Uma das hipóteses para a origem deste gigante mítico com um só olho encontra-se nos fósseis do Deinotherium giganteum, um parente do elefante que deambulou pela Europa, a Ásia e África há entre 23 e 8 milhões de anos. Paleontólogos desenterraram os seus ossos na ilha de Creta, onde os antigos gregos também os podem ter encontrado. Os crânios de elefante têm cavidades oculares relativamente pequenas, com um orifício enorme no centro. Esse orifício aloja a tromba. Contudo, uma vez que os elefantes alcançavam 4,6 metros à altura do ombro, o enorme crânio poderá ter sido confundido com a cabeça de uma pessoa gigante com um só olho.

No entanto, os gregos também poderiam estar familiarizados com a ciclopia, um defeito congénito raro e mortal, em que as órbitas oculares e o cérebro não se dividem da forma correcta durante o desenvolvimento do embrião humano. Em vez de um nariz, o feto desenvolve um apêndice tubular que aparece geralmente acima de um único olho. A ciclopia só ocorre uma vez em cada 100.000 nascimentos humanos. Infelizmente, 39 por cento são nados-mortos e os que resistem ao nascimento não sobrevivem mais do que 13 horas.

Embora seja uma condição muito rara, os cientistas estimaram que na época d’ A Odisseia, poderiam nascer cerca de 53 casos de ciclopia humana por ano em todo o mundo. Além disso, outras espécies também podem padecer de ciclopia, incluindo ovelhas, vacas e cabras - sobretudo se as progenitoras ingerirem plantas como heléboro.

O monstro e o remoinho
Ulisses escapou a Polifemo de forma inteligente, mas uma vez encurralado entre o monstro marinho Cila, com as suas seis cabeças, e o poderoso remoinho Caríbdis, já não teve tanta sorte. Perdeu a sua tripulação numa tempestade intensa. Na manhã seguinte, Ulisses encontra-se entre os dois. Esta perigosa passagem baseia-se num sítio real – o Estreito de Messina, um canal estreito entre a Calábria, na península itálica, e a ilha da Sicília.

No estreito, o Mar Jónico encontra-se com o Mar Tirreno e os dois corpos de água têm marés opostas – a maré alta no Jónico é maré baixa no Tirreno e vice-versa, diz Sergio Longhitano, sedimentologista da Universidade de Basilicata, em Itália, que publicou um artigo sobre as águas traiçoeiras do estreito em 2018. Por isso, “no meio do Estreito de Messina, existe um ponto conhecido na oceanografia como ponto anfidrómico”, diz Longhitano, onde a altura da água nunca muda.

A altura pode nunca mudar, mas as correntes mudam, acelerando até uns estimados 5 metros por segundo quando há ventos fortes ou tempestades, diz Longhitano. As correntes rápidas e em constante mudança e as marés contrastantes formam padrões estranhos na água. “Por vezes, vêm-se as correntes divergentes”, diz Longhitano. As correntes mais fortes fluem em sentidos opostos, enquanto as mais pequenas puxam para dentro. Quando as correntes que puxam para dentro fluem na mesma direcção “ou quando as duas correntes convergem, pode haver remoinhos”, diz ele. As marés desta região mudam a cada seis horas, o que significa podem surgir remoinhos no estreito várias vezes por dia. Caríbdis está sempre à espera.

Quanto a Cila, o monstro de seis cabeças, existe “uma enorme falésia que pode ser vista à distância, sobretudo ao pôr do Sol. Conseguimos ver uma forma muito escura estendendo-se em direcção ao norte do Estreito de Messina”, explica Longhitano. Embora seja impossível conhecer a inspiração exacta de Homero, este pode ser um bom sítio para um monstro.

Os comedores de lótus
Alguns encontros d’ A Odisseia acarretam menos perigos, assemelhando-se mais a festas com drogas à disposição. Ao chegar a uma ilha, Ulisses envia batedores para conhecer os habitantes, mas eles são “comedores de lótus”, que partilham deliciosos frutos de “lótus”, pondo os tripulantes num transe que os leva a abandonar as suas tarefas.

Muitas pessoas pensam imediatamente em drogas viciantes como o ópio, mas os antigos gregos conheciam as papoilas e o ópio e não lhe chamavam lótus. Além disso, o ópio é mencionado especificamente na Odisseia, como “nepente”, uma droga que Helena de Tróia mistura com vinho para ajudar os gregos a esquecerem as suas adversidades.

O que era então o lótus? Numa análise efectuada em 2020, cientistas conseguiram identificar sete géneros diferentes de plantas às quais os antigos gregos chamavam “lótus”.

Algumas são os nenúfares que podemos descrever actualmente como flores de lótus, do género Nymphaea. Mas Homero diz que o “lótus dos Lotófagos” era uma árvore e autores posteriores como Heródoto, Teofrasto e Plínio situam os comedores de lótus no norte de África, na região da cidade de Trípoli, na Líbia.

“Não conheço nenhum ‘lótus’ que cause perda de memória, diz Joe Schwarcz, químico da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá. “Alguns historiadores supuseram que os gregos se referissem à jujubeira (ou tamareira-chinesa) como ‘lótus’.” Plantas arbustivas como a jujubeira pertencem ao género Ziziphus. As plantas deste género produzem um tipo jujuba que existe no norte de África. Este fruto não tem propriedades psicoactivas, mas pode ser fermentado e um golo de álcool é sempre bom para esquecer.

A bruxa que transformou homens em porcos
Noutra ilha, a bruxa Circe faz uma emboscada a Ulisses à a sua tripulação, causando-lhes mais problemas de memória. Fá-los beber uma poção com “drogas potentes que os fazem esquecer completamente o seu lar”. Ao beberem, os homens transformam-se em porcos. Ulisses vai libertá-los, auxiliado pelo deus Hermes, que colhe uma planta chamada moli, com raízes negras e flores brancas. Armado com a planta, Ulisses resiste à magia de Circe e salva os seus homens.

Seria necessária magia de verdade para transformar homens em porcos. Mas fazer homens acreditar que são porcos é muito mais fácil, diz Schwarcz. “Os antigos gregos conheciam certamente as plantas que tinham capacidades psicoactivas.” Plantas como a datura (Datura stromonium), frequentemente chamada figueira-do-inferno, e a beladona (Atropa belladonna) contêm compostos como atropina e escopolamina que bloqueiam os receptores de um mensageiro químico do cérebro chamado acetilcolina. “No cérebro, [este químico] participa na criação de memórias e o bloqueio da sua actividade causa alucinações e, possivelmente, delírios”, diz Schwarcz.

Quanto à “moli” que manteve Ulisses em segurança, “o antídoto para o envenenamento com atropina é a fisostigmina, que está presente no feijão-de-Calabar (Physostigma venenosum)”, diz Schwarcz. Num artigo publicado em 2022, Schwarcz também sugere que a flor branca de Ulisses pudesse ser Galanthus nivalis, que produz galantamina. Ambos os químicos bloqueiam a enzima que decompõe a acetilcolina, o que poderia aumentar os níveis do mensageiro químico. (Patologias como a doença de Alzheimer estão associadas a uma actividade reduzida da acetilcolina no cérebro e a galantamina e a fisostigmina foram ambas estudadas como tratamento.)

A Odisseia torna bem claro que as plantas podem ser remédios, mas também podem ser venenos. “A ideia mais enganadora talvez seja que “o natural é seguro” e “a natureza sabe o que faz”, diz Schwarcz.

E embora alguns dos encontros do poema épico possam ter uma base científica, um pouco de magia nunca fez mal a ninguém. É possível inventar monstros, os homens podem contar histórias sobre o submundo e as bruxas podem fazer venenos. “É apenas uma história. E numa história vale tudo”, diz Schwarcz. “As plantas podem transformar homens em porcos, embora algumas pessoas possam dizer que não são necessárias [plantas] para essa transformação.”


sábado, 6 de junho de 2026

Pandora


Pandora

Oculta sob a asa inferior verde-musgo de bosques antigos,
Filha do romper da alva e do cardo aquecido pelo sol,
Que ama o primeiro calor do sol matinal, o néctar doce das flores roxas e a quietude silenciosa antes do voo,
Que suporta o frio diário da sombra matinal, esperando que a luz lhe desperte as asas,
Que deu ao mundo um contraste impressionante de brilhantismo oculto, provando que um exterior modesto pode guardar uma maravilha deslumbrante,
Que anseia manter os seus segredos guardados sob as asas dobradas, mas que inevitavelmente liberta o seu espírito vibrante no ar,
Que traz uma tempestade mítica da história a um campo simples, unindo o abismo entre os contos antigos e a natureza viva,
Residente dos vales banhados pelo sol, para sempre ancorada por um frágil fio de Esperança.

Saber mais sobre Pandora - Mitologia Grega:

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Richard Thorn


Richard Thorn (pintor/aquarelista Britânico, nascido em 1952)

Richard Thorn é um artista fundamentalmente pintor em aquarela, embora também trabalhe com acrílica, gouache e tintas aquosas, explorando a luz, a textura e a sensação de espaço nas suas composições. 

Técnica
A técnica de Richard Thorn caracteriza-se por:
  1. Aquarela como meio principal, usando também gouache, acrílico diluído e técnicas mistas.
  2. Lavagens amplas e transparentes, aplicadas em camadas, para construir atmosfera e profundidade.
  3. Uso frequente de pincel seco, raspagem e remoção de tinta para criar texturas naturais (vegetação, rocha, nuvens).
  4. Controlo da luz como elemento central: muitas obras são estruturadas a partir de contrastes subtis entre luz e sombra.
  5. Composição simplificada, evitando excesso de detalhe e focando-se na sensação do lugar, mais do que na descrição literal.
  6. Trabalho cuidadoso com valores tonais, frequentemente partindo de tons neutros e deixando a cor surgir de forma contida.
Em síntese, a técnica de Thorn privilegia a expressividade da aquarela, a economia de meios e a criação de paisagens atmosféricas e evocativas, próximas de uma abordagem impressionista contemporânea.

Estilo
A sua obra é frequentemente descrita como paisagística e inspirada pela natureza, captando as atmosferas do campo, da costa e da paisagem rural — especialmente no sudoeste da Inglaterra. 

Thorn busca retratar não apenas a imagem visual mas a “alma da cena” que pinta, com grande interesse pelo jogo de luz e a sensação de distância. 

Tem influências de impressionistas franceses e mestres ingleses da aquarela, como William Turner e John Cotman, bem como artistas americanos como Andrew Wyeth e Winslow Homer, que se refletem na sua sensibilidade à cor e atmosfera. 

Reconhecimento:
Robert foi premiado duas vezes com o Best Watercolour nas exposições abertas do Royal Institute of Painters in Water Colours — uma organização de prestígio para aquarelistas — e tem sido exposto internacionalmente (Inglaterra, Europa, EUA e China).

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Leila Ghanem - O 7 de Outubro foi uma derrota para o Ocidente imperialista

Fonte: Coordenação dos Núcleos Comunistas

Nesta entrevista com a antropóloga e dirigente comunista libanesa Leila Ghanem há muita informação esclarecedora. Sobre o significado da operação de 7 de Outubro. Sobre o Hamas e sobre o Eixo da Resistência. Sobre as atrocidades anteriores e actuais cometidas pelo Estado sionista, no desempenho da missão que lhe foi atribuída pelo imperialismo ocidental: a de ser a cabeça de ponte para controlar rotas marítimas estratégicas, recursos vitais como o petróleo, o gás e o urânio, e de ser a chave para consolidar o seu domínio sobre esta área de enorme importância. À custa do martírio do povo palestiniano e dos povos da região.

1. Porque é que a operação militar do Hamas de 7 de Outubro abalou o Médio Oriente e até o mundo? Qual é o impacto histórico deste acontecimento nos movimentos de resistência do Médio Oriente?
Não há dúvida de que para o povo palestiniano, e mesmo para o povo árabe, o “dilúvio de Al-Aqsa” de 7 de Outubro foi uma operação militar de proporções míticas; em qualquer caso, sem precedentes desde a ocupação da Palestina em 1948, uma espécie de epopeia lendária aos olhos dos povos árabes. Alguns escritores remontam a Homero para evocar a imagem da Ilíada, uma lenda heroica “em que os fracos conseguem derrotar o seu colonizador numa inimaginável relação de forças”. Em apenas duas horas a maior potência do Médio Oriente, o quinto maior exército do mundo, sofreu uma derrota esmagadora às mãos de uma modesta unidade de comandos apelidada de “Distância Zero” (para sublinhar o confronto do corpo contra o tanque), composta por uma centena de homens modestamente armados mas dotados de uma coragem heroica. Vinte colonatos libertadas, bases militares ocupadas - uma das quais abrigava o quartel-general do Tsahal no sul -, um observatório militar de alta tecnologia encarregado de vigiar a fronteira, a unidade de investigação 545 e a unidade de informações 414 foram neutralizadas e dois generais capturados. A lenda sionista-ocidental da invencibilidade do Estado sionista foi destruída. Numa questão de horas, Gaza transformou-se em Hanói. E recordamos a célebre frase do general Giap durante a sua visita a Argel, em Dezembro de 1970: “Os colonialistas são maus alunos de História”.

Para o escritor e activista palestiniano Saif Dana, o exemplo que mais se aproxima desta vitória militar, apesar do desequilíbrio na relação de forças entre colonizados e colonizadores, é a “Revolução Haitiana”, que foi e continua a ser um símbolo importante para as pessoas de cor de todo o mundo. Armados de coragem e da “vontade de emancipação”, os haitianos, liderados por Dessalines, lançaram-se numa batalha decisiva contra os colonos franceses, que tinham acabado de receber reforços sob o comando do general Rochambeau. Esta batalha parecia estrategicamente impossível, mas após quatro ataques heroicos dirigidos pelo líder negro Cabuat, os franceses foram finalmente forçados a capitular em 18 de Novembro de 1803, no Forte Vertières, embora os haitianos tenham sofrido uma perda considerável de vidas. As guarnições francesas renderam-se uma a uma, o que permitiu à antiga colónia proclamar a sua independência em 1 de Janeiro de 1804. A partir de então, passou a chamar-se Haiti. Esta lendária batalha ficou registada nos anais da história. Mais tarde, inspirou revoltas de escravos noutros locais, como a rebelião de Aponte em Cuba, em 1812, ou a conspiração de Denmark Vesey na Carolina do Sul, em 1822. Esta vitória teve também uma influência decisiva em Simón Bolívar e outros líderes de movimentos independentistas na América Latina, embora se tivesse de esperar até 1834 para abolir a escravatura.

O que aconteceu a 7 de Outubro na Palestina é tão lendário como a batalha do Haiti e ficará para sempre nos anais da história, tal como as batalhas de Hittin, El Kadissiya, etc., no tempo de Saladino.

Imaginem o terramoto que abalou todo o sistema do Império Ocidental perante a súbita derrota da sua mão direita, na qual tinha investido milhares de milhões de dólares durante quase um século. A mesma potência a quem o Império tinha confiado o papel de ser a cabeça de ponte imperial para controlar as rotas marítimas estratégicas, os recursos vitais como o petróleo, o gás e o urânio, e de ser a chave para consolidar o seu domínio desestabilizando os inimigos do Império, introduzindo relações de classe em benefício dos opressores…. Israel estava no centro deste sistema capitalista que tinha de manter os países do Sul dependentes dele; para isso, o povo palestiniano tinha de se converter num cenário precursor, um modelo a seguir… Para o conseguir, era necessário despossuí-lo, desumanizá-lo, mantê-lo sob bloqueio, massacrar os seus líderes históricos… Isto exigia um estatuto específico para os seus fantoches e protecção política, institucional, financeira e mediática…

O alarme imediato que abalou todos os dirigentes do mundo capitalista no dia 8 de Outubro, que acorreram em massa a Telavive, é a prova irrefutável do investimento do mundo ocidental neste Estado constituído à margem da lei, à margem de todos os direitos e normas humanas. Direitos e normas criados pelo próprio Ocidente.

O 7 de Outubro foi uma derrota para o Ocidente imperialista. E, a partir de agora, haverá um antes e um depois desse 7 de Outubro.

2. O Hamas é uma organização terrorista?
Comecemos por dizer que, para além dos EUA e da UE, nenhum outro país do mundo acusa o Hamas de terrorismo.

Se olharmos para a história, o termo “terrorista” nem sempre teve um carácter pejorativo. Os revolucionários usaram o “terror” contra os seus inimigos de classe. Foi durante a Revolução Francesa que o termo “terrorista” foi utilizado pela primeira vez, por Gracchus Babeuf, quando falou dos “patriotas terroristas do segundo ano da República”. Para o marxismo, o Terror não era em absoluto um fim político, mas uma ferramenta, o instrumento de uma política, e deve ser julgado em relação aos objectivos dessa política. Isto levanta duas questões diferentes: 1ª, a questão da legitimidade dos fins políticos. 2ª A adequação dos meios. Condenar o Terror como um “sistema” metafísico esconde um interesse em deslegitimar os objectivos políticos que ele se propôs.

Tomemos o exemplo da Comuna de Paris, ponto culminante da guerra civil francesa. Após a sua derrota, foram rotulados, para citar apenas Le Figaro, o órgão da reacção de Versalhes, como “terroristas do Hôtel de Ville”[da Câmara Municipal] ou “terroristas do 18 de Março” ou “a Comuna terrorista”.

O Terror foi defendido ou combatido em função dos objectivos que as diferentes classes sociais e facções políticas procuravam atingir, e que cada uma considerava legítimos.

Numa carta à sua mãe, Friedrich Engels explicava-lhe: “Dos poucos reféns que foram fuzilados à maneira prussiana, dos poucos palácios queimados à maneira prussiana, fala-se muito, porque tudo o resto é mentira; mas dos 40.000 homens, mulheres e crianças que os Versalheses massacraram com metralhadoras depois de terem sido desarmados, ninguém fala”.

Poder-se-ia pensar que esta descrição de Engels se refere aos acontecimentos em Gaza. Poder-se-ia pensar que ele está a descrever a forma como os meios de comunicação ocidentais avaliaram desproporcionadamente (e continuam a fazê-lo) o impacto do ataque do Hamas em 7 de Outubro e o genocídio que se seguiu com a retaliação sangrenta do exército Tsahal - o exército de Israel - apoiado pelas forças Delta dos EUA e pelos seus três porta-aviões no Mediterrâneo. Aqueles que falaram da Hiroshima de Gaza não estão longe do número das 70 000 vítimas que caíram no Japão em Agosto de 1945. Em Gaza, o número de civis mortos sobe para 50 000.

Os Estados imperialistas-coloniais têm denunciado habitualmente o terrorismo das lutas dos povos sob o seu domínio e tratado os seus combatentes como terroristas. Recordemos, uma vez mais, que várias organizações terroristas, colocadas no pelourinho ao longo da história, se tornaram interlocutores legítimos; foi o caso do Viet Cong, do Exército Republicano Irlandês (IRA), da Frente Argelina de Libertação Nacional, do Congresso Nacional Africano (CNA) e de muitas outras organizações que foram elas próprias qualificadas de “terroristas”, como a OLP e a FPLP na Palestina.

Este termo tinha e tem por objectivo despolitizar a sua luta, apresentá-la como um confronto entre o Bem e o Mal.

De cada vez que os palestinianos se revoltam, o Ocidente - tão rápido a glorificar a resistência dos ucranianos - invoca o terrorismo. Fê-lo durante a primeira Intifada, em 1987, e a segunda, em 2000, durante as acções armadas na Cisjordânia ou as mobilizações por Jerusalém, durante os confrontos em torno de Gaza, cercada desde 2007 e vítima de seis guerras em 17 anos.

Falta falar da questão da legitimidade de Israel para se defender e desarmar o Hamas. Alguns meios de comunicação sionistas chegam ao ponto de invocar Thomas Hobbes e a sua percepção daquilo a que chama a posse pelas classes dominantes do “monopólio da força física legítima”. Ignoram que essa legitimidade não pode ser aplicada a um Estado de colonos, legitimidade impugnada antes de mais pelos palestinianos, pelos povos dos países vizinhos atacados (libaneses, sírios, iraquianos, iemenitas, iranianos…) e por todos aqueles que o consideram um Estado de colonos. Antes da farsa do “Acordo de paz” de Oslo, a maioria dos países do mundo não reconhecia Israel. A sua legitimidade baseia-se simplesmente numa decisão da ONU, enquanto Israel tem rejeitado sistematicamente todas as decisões relativas ao povo palestiniano (resoluções 242, 323, 194, direito de regresso dos palestinianos ao seu país).

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Amazonas: Mito ou Realidade?

Amazona no Porto - Amazon in Porto

1. Na Grécia Antiga

As guerreiras amazonas, uma sociedade compostas somente por mulheres que guerreiras e caçadoras, que se equiparavam ao homem em agilidade e força física, arco e flecha, habilidades de equitação e artes de combate, citadas na mitologia grega realmente existiram? Ou são fictícios, assim como os outros mitos gregos?
As grandes guerreiras amazonas são retratadas em uma série de poemas épicos e lendas antigas, como os Trabalhos de Hércules, a Argonáutica e a Ilíada.

A sociedade das guerreiras amazonas era quase totalmente fechada para os homens, com exceção de encontros para fins reprodutivos.

Heródoto, um grande historiador do século V AEC, “pai da história”, como é conhecido, afirma em seus escritos ter localizado a capital amazônica como Themiscyra, uma cidade fortificada às margens do rio Thermodon perto da costa do Mar Negro, no que hoje é o norte da Turquia. As mulheres dividiam seu tempo entre expedições de pilhagem até lugares distantes como a Pérsia e, mais perto de casa, fundando cidades famosas como Esmirna, Éfeso, Sinope e Pafos. A procriação limitava-se a um evento anual com uma tribo vizinha. Os meninos eram mandados de volta para os pais, enquanto as meninas eram treinadas para se tornarem guerreiras.

Corajosas e ferozmente independentes, as amazonas, eram comandadas por sua rainha e empreendiam regularmente extensas expedições militares aos confins do mundo.

Para os gregos antigos, não havia duvidas: as guerreiras amazonas existiam ou existiram em alguma época. Entretanto, os historiadores sempre acreditaram que as amazonas documentadas pela primeira vez pelo poeta Homero no século VIII AEC, eram pura fantasia. Até que em 1990, os arqueólogos começaram a identificar esqueletos femininos antigos enterrados em túmulos de guerreiros.

Muitos dos restos mortais femininos encontrados tinham ferimentos de combate, como pontas de flechas embutidas nos ossos. Muitos dos esqueletos eram enterrados com armas que combinavam com as utilizadas pelas amazonas em obras de arte gregas antigas.

“Graças à arqueologia, agora sabemos que os mitos amazônicos, antes considerados fantasia, contêm detalhes precisos sobre as mulheres nômades das estepes, que foram as contrapartes históricas das míticas amazonas”, disse o prefeito, que também é autor de ” The Amazons: Lives and Legends of Warrior Women Across the Ancient World“(Princeton University Press, 2014), disse ao Live Science.

Povos Citas

Os esqueletos pertenciam à guerreiras citas, um antigo povo nômade mestre da equitação e do arco e flecha. Eles viveram no que hoje é o sul da Sibéria, conforme a revista Foreign Affairs.

Os povos citas eram muito conhecidos como guerreiros vorazes, com grande apreço por tatuagens e vinho.

Segundo o Museu Britânico, os citas não eram exclusivamente mulheres, como no mito grego das guerreiras amazonas; eles simplesmente incluíam mulheres que viviam como os homens. Era natural que algumas mulheres citas, não todas, se juntassem aos homens na caça e na batalha. Mulheres guerreiras ativas de 10 a 45 anos foram encontradas em muitos cemitérios citas.
Mulheres guerreiras na história

Os citas não eram o único povo a ter mulheres participando da guerra e da caça, bem como os gregos não eram os únicos a contar histórias sobre mulheres guerreiras.

Haviam muitas histórias emocionantes, algumas reais, outras fictícias, sobre mulheres parecidas com as amazonas da Roma antiga, no Egito, Norte da África, Arábia, Mesopotâmia, Pérsia, Ásia Central, Índia e China. E em muitas culturas era normal que mulheres fossem à guerra. Estas cultura vão desde o Vietnã às terras Viking e na África e nas Américas.

Um grande exemplo está no rio Amazonas, que percorre 3.165 quilômetros do território brasileiro. Segundo a Enciclopédia Britânica o soldado espanhol Francisco de Orellana, batizou o rio com este nome após relatar batalhas ferozes com tribos de guerreiras, a quem comparou ele com amazonas da mitologia grega.

Saber mais:

2.No Brasil

Lenda das Amazonas

Amazonas foi o nome dado às mulheres guerreiras da Antiguidade que habitavam a Ásia Menor e cuja existência alguns historiadores consideravam um mito. Segundo a lenda, elas removiam um dos seios  para melhor envergar o arco, deixando o outro para amamentar seus rebentos, que, se nascessem do  sexo masculino, eram impiedosamente sacrificados. Amazonas, aliás, quer dizer sem seios (mazos) em grego. No século XVI, essa designação foi dada a mulheres com as mesmas características, cuja existência histórica é discutida e que combateram os conquistadores espanhóis no baixo-Amazonas.

Os índios falavam em Icamiabas, que significa "mulheres sem maridos". As Icamiabas viviam no interior da região do Rio Nhamundá, sozinhas. Ali, eram regidas por suas próprias leis. A região era denominada por estes aventureiros de País das Pedras Verdes e era guardada por diversas tribos de índios, das quais a mais próxima das Icamiabas era a dos Guacaris. Dizia-se que as Icamiabas realizavam uma festa anual dedicada à lua e durante a qual recebiam os índios Guacaris, com os quais se acasalavam. Depois do acasalamento, mergulhavam em um lago chamado Iaci-uaruá (Espelho da Lua) e iam buscar, no fundo, a matéria-prima com que moldavam os muiraquitãs, com os quais presenteavam os companheiros. Os que recebiam, usavam orgulhosamente pendurados ao pescoço.

No ano seguinte, na realização da festa, as mulheres que tinham parido ficavam com as filhas e entregavam os filhos para os Guacaris. De qualquer forma, quando se pronuncia Amazônia, não se pode deixar de pensar em muiraquitãs e em mulheres guerreiras, mas também amorosas, como, aliás, são as mulheres da Região Amazônica.

Motivos semelhantes levam esse grande contingente populacional a se deslocar para Alter-do-Chão, uma vila turística localizada na margem direita do rio Tapajós e ligada por via rodoviária à cidade de Santarém. O rio Tapajó possui característica única entre os afluentes do Amazonas: suas águas são cristalinas e, em frente à vila, com a descida das suas águas durante o verão, surge uma lagoa cor de esmeralda cercada por bancos de areia branca apropriadamente denominada de Lago Verde.

O lago, também chamado de Lago dos Muiraquitãs, era ponto de passagem obrigatório das índias Amazonas.

Era no Lago Verde, considerado sagrado pelos indígenas, que as Amazonas recolhia a nefrite (um mineral esverdeado), para produzir seu muiraquitãs, pequenos artefatos talhados na referida pedra em forma de sapos, tartarugas e serpentes, e ao qual se atribuem virtudes de amuleto. Os muiraquitãs eram oferecidos à mãe lua, em troca de favores. Diz a lenda que no fundo do lago há uma pedra mágica escondida. É essa pedra que dá ao lago a sua cor azul nas primeiras horas da manhã, mas que se transforma num verde intenso, durante o dia. Na realidade, isso pode ser o efeito do sol penetrando as águas transparentes e iluminando o fundo do lago, rico em nefrita.

Saber mais:

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Pode ler aqui na íntegra a intervenção de José Tolentino Mendonça no Dia de Portugal

Fonte: aqui


O DIÁRIO publica na íntegra a intervenção proferida hoje pelo Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas 2020, o Cardeal madeirense D. José Tolentino de Mendonça.

O que é amar um país

Agradeço ao senhor Presidente o convite para presidir à Comissão das comemorações do dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Estas comemorações estavam para acontecer não só com outro formato, mas também noutro lugar, a Madeira. No poema inicial do seu livro intitulado Flash, o poeta Herberto Helder, ali nascido, recorda justamente «como pesa na água (...) a raiz de uma ilha». Gostaria de iniciar este discurso, que pensei como uma reflexão sobre as raízes, por saudar a raiz dessa ilha-arquipélago, também minha raiz, que desde há seis séculos se tornou uma das admiráveis entradas atlânticas de Portugal.

É uma bela tradição da nossa República esta de convidar um cidadão a tomar a palavra neste contexto solene para assim representar a comunidade de concidadãos que somos. É nessa condição, como mais um entre os dez milhões de portugueses, que hoje me dirijo às mulheres e aos homens do meu país, àquelas e àqueles que dia-a-dia o constroem, suscitam, amam e sonham, que dia-a-dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja: no território continental ou nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, no espaço físico nacional ou nas extensas redes da nossa diáspora.

Se interrogássemos cada um, provavelmente responderia que está apenas a cuidar da sua parte - a tratar do seu trabalho, da sua família; a cultivar as suas relações ou o seu território de vizinhança - mas é importante que se recorde que, cuidando das múltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada português é uma expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele. Pois quando arquitetamos uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade. E quando pomos no mar a nossa embarcação não somos apenas responsáveis por ela, mas pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a árvore não podemos esquecer que ela não viveria sem as raízes.

Camões e a arte do desconfinamento

Pensemos no contributo de Camões. Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia. Se, à distância destes quase quinhentos anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu, em concreto, o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo, mas também porque iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável ciência de navegação interior que é a poesia. A poesia é um guia náutico perpétuo; é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica que fazemos da vida; é uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que Os Lusíadas sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar até à India, mas que nos conduz por terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios; conduz-nos, com uma lucidez veemente, a representações que nos definem como indivíduos e como nação; faz-nos aportar – e esse é o prodígio da grande literatura - àquela consciência última de nós mesmos, ao quinhão daquelas perguntas fundamentais de cujo confronto, um ser humano sobre a terra, não se pode isentar.

Se é verdade, como escreveu Wittgenstein, que «os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo», Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel central da cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país bastaria recordar isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um preclaro mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar não é simplesmente voltar a ocupar o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido de cidadania. Desconfinar é sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e em construção, que a todos diz respeito. É não conformar-se com os limites da linguagem, das ideias, dos modelos e do próprio tempo. Numa estação de tetos baixos, Camões é uma inspiração para ousar sonhos grandes. E isso é tanto mais decisivo numa época que não apenas nos confronta com múltiplas mudanças, mas sobretudo nos coloca no interior turbulento de uma mudança de época.

Que a crise nos encontre unidos

Gostaria de recordar aqui uma passagem do Canto Sexto d’Os Lusíadas, que celebra a chegada da expedição portuguesa à India. Os marinheiros, dependurados na gávea, avistam finalmente «terra alta pela proa» e passam notícia ao piloto que, por sua vez, a anuncia vibrante a Vasco da Gama. O objetivo da missão está assim cumprido. Mas o Canto Sexto tem uma exigente composição em antítese, à qual não podemos não prestar atenção. É que à visão do sonho concretizado não se chega sem atravessar uma dura experiência de crise, provocada por uma tempestade marítima que Camões sabiamente se empenha em descrever, com impressiva força plástica. Digo sabiamente, porque não há viagem sem tempestades. Não há demandas que não enfrentem a sua própria complexificação. Não há itinerário histórico sem crises. Isso vem-nos dito n’Os Lusíadas de Camões, mas também nas Metamorfoses de Ovídio, na Eneida de Virgílio, na Odisseia de Homero ou nos Evangelhos cristãos.

No itinerário de um país, cada geração é chamada a viver tempos bons e maus, épocas de fortuna e infelizmente também de infortúnio, horas de calmaria e travessias borrascosas. A história não é um continuum, mas é feita de maturações, deslocações, ruturas e recomeços. O importante a salvaguardar é que, como comunidade, nos encontremos unidos em torno à atualização dos valores humanos essenciais e capazes de lutar por eles.

Mas à observação realística que Camões faz da tempestade, gostaria de ir buscar um detalhe, na verdade uma palavra, para a reflexão que proponho: a palavra «raízes». Na estância 79, falando dos efeitos devastadores do vento, o poeta diz: «Quantas árvores velhas arrancaram/ Do vento bravo as fúrias indignadas/ As forçosas raízes não cuidaram/Que nunca para o Céu fossem viradas». A leitura da imagem em jogo é imediata: as velhas árvores reviradas ao contrário, arrancadas com violência ao solo, expõem dramaticamente, a céu aberto, as próprias raízes. A tempestade descrita por Camões recorda-nos, assim, a vulnerabilidade, com a qual temos sempre de fazer conta. As raízes, que julgamos inabaláveis, são também frágeis, sofrem os efeitos da turbulência da máquina do mundo. Não há super-países, como não há super-homens. Todos somos chamados a perseverar com realismo e diligência nas nossas forças e a tratar com sabedoria das nossas feridas, pois essa é a condição de tudo o que está sobre este mundo.

O que é amar um país

O Dia de Portugal, e este Dia de Portugal de 2020 em concreto, oferece-nos a oportunidade de nos perguntarmos o que significa amar um país. A pensadora europeia Simone Weil, num instigante ensaio destinado a inspirar o renascimento da Europa sob os escombros da Segunda Grande Guerra, de cujo desfecho estamos agora a celebrar o 75º aniversário, escreveu o seguinte: um país pode ser amado por duas razões, e estas constituem, na verdade, dois amores distintos. Podemos amar um país idealmente, emoldurando-o para que permaneça fixo numa imagem de glória, e desejando que esta não se modifique jamais. Ou podemos amar um país como algo que, precisamente por estar colocado dentro da história, sujeito aos seus solavancos, está exposto a tantos riscos. São dois amores diferentes. Podemos amar pela força ou amar pela fragilidade. Mas, explica Simone Weil, quando é o reconhecimento da fragilidade a inflamar o nosso amor, a chama deste é muito mais pura.

O amor a um país, ao nosso país, pede-nos que coloquemos em prática a compaixão – no seu sentido mais nobre - e que essa seja vivida como exercício efetivo da fraternidade. Compaixão e fraternidade não são flores ocasionais. Compaixão e fraternidade são permanentes e necessárias raízes de que nos orgulhamos, não só em relação à história passada de Portugal, mas também àquela hodierna, que o nosso presente escreve. E é nesse chão que precisamos, como comunidade nacional, de fincar ainda novas raízes.

Nestes últimos meses abateu-se sobre nós uma imprevista tempestade global que condicionou radicalmente as nossas vidas e cujas consequências estamos ainda longe de mensurar. A pandemia que principiou como uma crise sanitária tornou-se uma crise poliédrica, de amplo espetro, atingindo todos os domínios da nossa vida comum. Sabendo que não regressaremos ao ponto em que estávamos quando esta tempestade rebentou, é importante, porém, que, como sociedade, saibamos para onde queremos ir. No Canto Sexto d’Os Lusíadas a tempestade não suspendeu a viagem, mas ofereceu a oportunidade para redescobrir o que significa estarmos no mesmo barco.

Reabilitar o pacto comunitário

O que significa estar no mesmo barco? Permitam-me pegar numa parábola. Circula há anos, atribuída à antropóloga Margaret Mead, a seguinte história. Um estudante ter-lhe-ia perguntado qual seria para ela o primeiro sinal de civilização. E a expectativa geral é que nomeasse, por exemplo, os primeiríssimos instrumentos de caça, as pedras de amolar ou os ancestrais recipientes de barro. Mas a antropóloga surpreendeu a todos, identificando como primeiro vestígio de civilização um fémur quebrado e cicatrizado. No reino animal, um ser ferido está automaticamente condenado à morte, pois fica fatalmente desprotegido face aos perigos e deixa de se poder alimentar a si próprio. Que um fémur humano se tenha quebrado e restabelecido documenta a emergência de um momento completamente novo: quer dizer que uma pessoa não foi deixada para trás, sozinha; que alguém a acompanhou na sua fragilidade, dedicou-se a ela, oferecendo-lhe o cuidado necessário e garantindo a sua segurança, até que recuperasse. A raiz da civilização é, por isso, a comunidade. É na comunidade que a nossa história começa. Quando do eu fomos capazes de passar ao nós e de dar a este uma determinada configuração histórica, espiritual e ética.

É interessante escutar o que diz a etimologia latina da palavra comunidade (communitas). Associando dois termos, cum e munus, ela explica que os membros de uma comunidade – e também de uma comunidade nacional – não estão unidos por uma raiz ocasional qualquer. Estão ligados sim por um múnus, isto é, por um comum dever, por uma tarefa partilhada. Que tarefa é essa? Qual é a primeira tarefa de uma comunidade? Cuidar da vida. Não há missão mais grandiosa, mais humilde, mais criativa ou mais atual.

Celebrar o Dia de Portugal significa, portanto, reabilitar o pacto comunitário que é a nossa raiz. Sentir que fazemos parte uns dos outros, empenharmo-nos na qualificação fraterna da vida comum, ultrapassando a cultura da indiferença e do descarte. Uma comunidade desvitaliza-se quando perde a dimensão humana, quando deixa de colocar a pessoa humana no centro, quando não se empenha em tornar concreta a justiça social, quando desiste de corrigir as drásticas assimetrias que nos desirmanam, quando, com os olhos postos naqueles que se podem posicionar como primeiros, se esquece daqueles que são os últimos. Não podemos esquecer a multidão dos nossos concidadãos para quem o Covid19 ficará como sinónimo de desemprego, de diminuição de condições de vida, de empobrecimento radical e mesmo de fome. Esta tem de ser uma hora de solidariedade. No contexto do surto pandémico, foi, por exemplo, um sinal humanitário importante a regularização dos imigrantes com pedidos de autorização de residência, pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. O desafio da integração é, porém, como sabemos, imenso, porque se trata de ajudar a construir raízes. E essas não se improvisam: são lentas, requerem tempo, políticas apropriadas e uma participação do conjunto da sociedade. Lembro-me de um diálogo do filme do cineasta Pedro Costa, «Vitalina Varela», onde se diz a alguém que chega ao nosso país: «chegaste atrasada, aqui em Portugal não há nada para ti». Sem compaixão e fraternidade fortalecem-se apenas os muros e aliena-se a possibilidade de lançar raízes.

Fortalecer o pacto intergeracional

Reabilitar o pacto comunitário implica robustecer, entre nós, o pacto intergeracional. O pior que nos poderia acontecer seria arrumarmos a sociedade em faixas etárias, resignando-nos a uma visão desagregada e desigual, como se não fossemos a cada momento um todo inseparável: velhos e jovens, reformados e jovens à procura do primeiro emprego, avós e netos, crianças e adultos no auge do seu percurso laboral. Precisamos, por isso, de uma visão mais inclusiva do contributo das diversas gerações. É um erro pensar ou representar uma geração como um peso, pois não poderíamos viver uns sem os outros.

A tempestade provocada pelo Covid19 obriga-nos como comunidade, a refletir sobre a situação dos idosos em Portugal e nesta Europa da qual somos parte. Por um lado, eles têm sido as principais vítimas da pandemia, e precisamos chorar essas perdas, dando a essas lágrimas uma dignidade e um tempo que porventura ainda não nos concedemos, pois o luto de uma geração não é uma questão privada. Por outro, temos de rejeitar firmemente a tese de que uma esperança de vida mais breve determine uma diminuição do seu valor. A vida é um valor sem variações. Uma raiz de futuro em Portugal será, pelo contrário, aprofundar a contribuição dos seus idosos, ajudá-los a viver e a assumir-se como mediadores de vida para as novas gerações. Quando tomei posse como arquivista e bibliotecário da Santa Sé, uma das referências que quis evocar nesse momento foi a da minha avó materna, uma mulher analfabeta, mas que foi para mim a primeira biblioteca. Quando era criança, pensava que as histórias que ela contava, ou as cantilenas com que entretinha os netos, eram coisas de circunstância, inventadas por ela. Depois descobri que faziam parte do romanceiro oral da tradição portuguesa. E que afinal aquela avó analfabeta estava, sem que nós soubéssemos, e provavelmente sem que ela própria o soubesse, a mediar o nosso primeiro encontro com os tesouros da nossa cultura.

Robustecer o pacto intergeracional é também olhar seriamente para uma das nossas gerações mais vulneráveis, que é a dos jovens adultos, abaixo dos 35 anos; geração que, praticamente numa década, vê abater-se sobre as suas aspirações, uma segunda crise económica grave. Jovens adultos, muitos deles com uma alta qualificação escolar, remetidos para uma experiência interminável de trabalho precário ou de atividades informais que os obrigam sucessivamente a adiar os legítimos sonhos de autonomia pessoal, de lançar raízes familiares, de ter filhos e de se realizarem.

Implementar um novo pacto ambiental

A pandemia veio, por fim, expor a urgência de um novo pacto ambiental. Hoje é impossível não ver a dimensão do problema ecológico e climático, que têm uma clara raiz sistémica. Não podemos continuar a chamar progresso àquilo que para as frágeis condições do planeta, ou para a existência dos outros seres vivos, tem sido uma evidente regressão. Num dos textos centrais deste século XXI, a Encíclica Laudato Sii’, o Papa Francisco exorta a uma «ecologia integral», onde o presente e o futuro da nossa humanidade se pense a par do presente e do futuro da grande casa comum. Está tudo conectado. Precisamos de construir uma ecologia do mundo, onde em vez de senhores despóticos apareçamos como cuidadores sensatos, praticando uma ética da criação, que tenha expressão jurídica efetiva nos tratados transnacionais, mas também nos estilos de vida, nas escolhas e nas expressões mais domésticas do nosso quotidiano.

Uma viagem que fazemos juntos

Camões n’Os Lusíadas não apenas documentou um país em viagem, mas foi mais longe: representou o próprio país como viagem. Portugal é uma viagem que fazemos juntos há quase nove séculos. E o maior tesouro que esta nos tem dado é a possibilidade de ser-em-comum, esta tarefa apaixonante e sempre inacabada de plasmar uma comunidade aberta e justa, de mulheres e homens livres, onde todos são necessários, onde todos se sentem - e efetivamente são - corresponsáveis pelo incessante trânsito que liga a multiplicidade das raízes à composição ampla e esperançosa do futuro. Portugal é e será, por isso, uma viagem que fazemos juntos. E uma grande viagem é como um grande amor. Uma viagem assim - explica Maria Gabriela Llansol, uma das vozes mais límpidas da nossa contemporaneidade -, não se esgota, nem cancela na fugaz temporalidade da história, mas constitui uma espécie de «rasto do fulgor» que exprime a ardente natureza do sentido que interrogamos.

Cardeal José Tolentino de Mendonça

Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, 10 de junho de 2020

domingo, 19 de dezembro de 2004

Estamos no Antropodenial?

Dotar os animais de emoções humanas tem sido um tabu científico. Mas se não o fizermos, corremos o risco de perder algo fundamental, sobre os animais e nós.


Quando os convidados chegam ao Centro Regional de Pesquisa de Primatas de Yerkes, na Geórgia, onde trabalho, eles costumam fazer uma visita aos chimpanzés. E muitas vezes, quando ela os vê se aproximando do complexo, uma chimpanzé fêmea adulta chamada Georgia corre até a torneira para pegar um gole de água. Ela então se misturará casualmente com o resto da colônia atrás da cerca de malha, e nem mesmo o observador mais perspicaz notará algo incomum. Se necessário, Georgia esperará minutos, de boca fechada, até que os visitantes se aproximem. Então haverá gritos, risadas, saltos - e às vezes quedas - quando ela de repente os borrifa. Conheço alguns macacos que são bons em surpreender as pessoas, ingénuas ou não. Heini Hediger, o grande zoobiólogo suíço, conta como ele - estando preparado para enfrentar o desafio e prestando atenção a cada movimento do macaco - foi encharcado por um chimpanzé experiente. 

Certa vez, me vi em uma situação semelhante com a Geórgia; ela tinha tomado um gole da torneira e estava se esgueirando até mim. Eu a olhei bem nos olhos e apontei meu dedo para ela, avisando em holandês, eu vi você! Ela imediatamente recuou, deixou um pouco da água escorrer de sua boca e engoliu o resto. Certamente não quero afirmar que ela entende holandês, mas ela deve ter percebido que eu sabia o que ela estava fazendo e que não seria um alvo fácil. Agora, sem dúvida, mesmo um leitor casual deve ter notado que, ao descrever as ações de Georgia, insinuei qualidades humanas como intenções, a capacidade de interpretar minha própria consciência e uma tendência para o mal. No entanto, a tradição científica diz que devo evitar tal linguagem – estou cometendo o pecado do antropomorfismo, de transformar não-humanos em humanos. 

A palavra vem do grego, significando forma humana, e foram os antigos gregos que primeiro deram má reputação à prática. Eles não tinham chimpanzés em mente: o filósofo Xenófanes se opôs à poesia de Homero porque ela tratava Zeus e os outros deuses como se fossem pessoas. Como pudemos ser tão arrogantes, perguntou Xenófanes, a ponto de pensar que os deuses deveriam se parecer conosco? Se os cavalos pudessem fazer desenhos, ele sugeriu zombeteiramente, eles sem dúvida fariam seus deuses parecerem cavalos. Hoje em dia, os descendentes intelectuais de Xenófanes advertem contra a percepção de que os animais são como nós. Existem, por exemplo, os behavioristas, que acompanham o psicólogo BF Skinner ao ver as ações dos animais como respostas moldadas por recompensas e punições, e não como resultado de decisões internas, emoções ou intenções. Eles diriam que a Geórgia não estava tramando nada quando borrifou água em suas vítimas. Longe de planejar e executar uma trama perversa, Georgia simplesmente caiu na recompensa irresistível da surpresa e aborrecimento humano. Considerando que qualquer pessoa agindo como ela seria repreendida, presa ou responsabilizada, a Geórgia é de alguma forma inocente. 

Os behavioristas não são os únicos cientistas que evitam pensar na vida interior dos animais. Alguns sociobiólogos - pesquisadores que buscam as raízes do comportamento na evolução - descrevem os animais como máquinas de sobrevivência e robôs pré-programados colocados na Terra para servir a seus genes egoístas. Há um certo valor metafórico nesses conceitos, mas foi negado pelo mal-entendido que eles criaram. Tal linguagem pode dar a impressão de que apenas os genes têm direito a uma vida interior. Nenhuma ideia antropomorfizante mais ilusória foi apresentada desde a mania do pet-rock dos anos 1970. Na verdade, durante a evolução, os genes – um mero lote de moléculas – simplesmente se multiplicam em taxas diferentes, dependendo das características que produzem em um indivíduo. Dizer que os genes são egoístas é como dizer que uma bola de neve que cresce à medida que desce uma colina é ávida por neve. Logicamente, essas atitudes agnósticas em relação a uma vida mental em animais só podem ser válidas se forem aplicadas também à nossa própria espécie. No entanto, é incomum encontrar pesquisadores que tentam estudar o comportamento humano puramente como uma questão de recompensa e punição. 

Descreva uma pessoa como tendo intenções, sentimentos, e pensamentos e você provavelmente não encontrará muita resistência. Nossa própria familiaridade com nossa vida interior anula qualquer coisa que alguma escola de pensamento possa reivindicar sobre nós. No entanto, apesar desse duplo padrão em relação ao comportamento de humanos e animais, a biologia moderna não nos deixa escolha a não ser concluir que somos animais. Em termos de anatomia, fisiologia e neurologia, não somos realmente mais excepcionais do que, digamos, um elefante ou um ornitorrinco à sua maneira. Mesmo tais marcas presumidas da humanidade como guerra, política, cultura, moralidade e linguagem podem não ser completamente sem precedentes. 

Por exemplo, diferentes grupos de chimpanzés selvagens empregam diferentes tecnologias – alguns pescam cupins com paus, outros quebram nozes com pedras – que são transmitidas de uma geração para outra por meio de um processo que lembra a cultura humana. Diante dessas descobertas, devemos ter muito cuidado para não exagerar a singularidade de nossa espécie. Os antigos aparentemente nunca deram muita atenção a esta prática, o oposto do antropomorfismo, e por isso nos falta uma palavra para isso. Vou chamá-lo de antropodenial: uma cegueira para as características humanas de outros animais, ou para as características animais de nós mesmos. Aqueles que estão em antropodenia tentam construir uma parede de tijolos para separar os humanos do resto do reino animal. Eles continuam a tradição de René Descartes, que declarou que enquanto os humanos possuíam almas, os animais eram meros autômatos. Isso gerou um sério dilema quando Charles Darwin apareceu: se descendíamos de tais autômatos, não éramos nós mesmos autômatos? Se não, como chegamos a ser tão diferentes? Cada vez que devemos fazer tal pergunta, outro tijolo é arrancado da parede divisória, e para mim essa parede está começando a parecer uma fatia de queijo suíço. 

Trabalho diariamente com animais dos quais é tão difícil se distanciar quanto de Lucy, o famoso fóssil australopitecíneo de 3,2 milhões de anos. Se devemos a Lucy o respeito de um ancestral, isso não força um olhar diferente para os macacos? Afinal, tanto quanto podemos dizer, a diferença mais significativa entre Lucy e os chimpanzés modernos é encontrada em seus quadris, não em seus crânios. Assim que admitimos que os animais são muito mais parecidos com nossos parentes do que com máquinas, então a antropodenização se torna impossível e o antropomorfismo se torna inevitável – e cientificamente aceitável. Mas nem todas as formas de antropomorfismo, é claro. A cultura popular nos bombardeia com exemplos de animais sendo humanizados para todos os tipos de propósitos, variando de educação a entretenimento, de sátira a propaganda. Walt Disney, por exemplo, nos fez esquecer que Mickey é um rato e Donald um pato. George Orwell disfarçou os males da sociedade humana sobre uma população de gado. 

Certa vez, fiquei impressionado com um anúncio de uma empresa de petróleo que afirmava que seu propano salvava o meio ambiente, no qual um urso pardo desfrutando de uma paisagem intocada tinha o braço em volta dos ombros de sua companheira. Na verdade, os ursos são míopes e não formam pares, então a imagem diz mais sobre nosso próprio comportamento do que sobre o deles. Talvez fosse essa a intenção. O problema é que nem sempre nos lembramos de que, quando usado dessa maneira, o antropomorfismo pode fornecer uma visão apenas dos assuntos humanos e não dos assuntos dos animais. Quando meu livro Chimpanzee Politics saiu na França, em 1987, meu editor decidiu (sem eu saber) colocar François Mitterrand e Jacques Chirac na capa com um chimpanzé entre eles. Só posso presumir que ele queria insinuar que esses políticos agiam como mães macacos. No entanto, ao fazer isso, ele foi totalmente contra o objetivo do meu livro, que não era ridicularizar as pessoas, mas mostrar que os chimpanzés vivem em sociedades complexas cheias de alianças e jogos de poder que, de certa forma, refletem os nossos. Muitas vezes você pode ouvir tentativas semelhantes de humor antropomórfico nas multidões que se formam em torno da exibição de macacos em um zoológico típico. Não é interessante que antílopes, leões e girafas raramente provocam hilaridade? 

Mas as pessoas que observam os primatas acabam gritando e gritando, se coçando em exagero e apontando para os animais enquanto gritam: Tive que olhar duas vezes, Larry. Pensei que eras tu! Na minha cabeça, o riso reflete o antropodenismo: é uma reação nervosa causada por uma semelhança incômoda. Essa mesma semelhança, no entanto, pode nos permitir fazer melhor uso do antropomorfismo, mas para isso devemos vê-lo como um meio e não como um fim. Não deveria ser nosso objetivo encontrar alguma qualidade em um animal que seja precisamente equivalente a um aspecto de nossa própria vida interior. Em vez disso, devemos usar o fato de sermos semelhantes aos animais para desenvolver ideias que possamos testar. Por exemplo, depois de observar um grupo de chimpanzés longamente, começamos a suspeitar que alguns indivíduos estão tentando enganar os outros - dando alarmes falsos para desviar a atenção indesejada do roubo de comida ou da atividade sexual proibida. Uma vez que enquadramos a observação nesses termos, podemos validar previsões testáveis. Podemos imaginar exatamente o que seria necessário para demonstrar a fraude por parte dos chimpanzés. Dessa forma, uma especulação se transforma em um desafio. Naturalmente, devemos estar sempre em guarda. Para evitar interpretações tolas baseadas no antropomorfismo, deve-se sempre interpretar o comportamento animal no contexto mais amplo dos hábitos e da história natural de uma espécie. 

Sem experiência com primatas, pode-se imaginar que um macaco rhesus sorridente deve estar encantado, ou que um chimpanzé correndo em direção a outro com grunhidos altos deve estar em um estado de espírito agressivo. Mas os primatologistas sabem, por muitas horas de observação, que os macacos rhesus mostram os dentes quando são intimidados e que os chimpanzés costumam grunhir quando se encontram e se abraçam. Em outras palavras, um sorridente macaco rhesus sinaliza submissão, e o grunhido de um chimpanzé geralmente serve como uma saudação. Um observador cuidadoso pode, assim, chegar a um antropomorfismo informado que está em desacordo com as extrapolações do comportamento humano. Também é preciso estar sempre ciente de que alguns animais são mais parecidos conosco do que outros. O problema de partilhar as experiências de organismos que dependem de diferentes sentidos é profundo. Foi expresso de forma mais famosa pelo filósofo Thomas Nagel quando ele perguntou: Como é ser um morcego? Um morcego percebe seu mundo em pulsos de som refletido, algo que nós, criaturas de visão, teríamos dificuldade em imaginar. Talvez ainda mais estranha seja a experiência de um animal como a toupeira de nariz estrelado. Com 22 tentáculos rosa contorcendo-se em torno de suas narinas, é capaz de sentir texturas microscópicas em pequenos objetos na lama com o mais aguçado senso de toque de qualquer animal na Terra. Os humanos mal conseguem imaginar o Umwelt de uma toupeira de nariz estrelado - um termo alemão para o ambiente percebido pelo animal. Obviamente, quanto mais próxima uma espécie estiver de nós, mais fácil será entrar em seu Umwelt. É por isso que o antropomorfismo não é apenas tentador no caso dos macacos, mas também difícil de rejeitar com base no fato de que não podemos saber como eles percebem o mundo. Seus sistemas sensoriais são essencialmente os mesmos que os nossos. 

No verão passado, um macaco salvou um menino de três anos. A criança, que havia caído 20 pés na exibição de primatas no Brookfield Zoo de Chicago, foi resgatada e carregada para um local seguro por Binti Jua, uma gorila fêmea de oito anos de idade. O gorila sentou-se num tronco em um riacho, embalando o menino no colo e dando tapinhas em suas costas, e então o carregou até uma das portas da exposição antes de deitá-lo e continuar seu caminho. Binti se tornou uma celebridade da noite para o dia, figurando nos discursos dos principais políticos que a apontavam como um exemplo de compaixão tão necessária. Alguns cientistas foram menos líricos, no entanto. Eles alertaram que os motivos de Binti podem ter sido menos nobres do que pareciam, apontando que esse gorila foi criado por pessoas e aprendeu habilidades parentais com um bichinho de pelúcia. O caso todo pode ter sido um instinto maternal confuso, eles alegaram. O intrigante nessa enxurrada de explicações alternativas é que ninguém pensaria em levantar dúvidas semelhantes quando uma pessoa salva um cachorro atropelado por um carro. O socorrista pode ter crescido em um canil, foram elogiados por serem gentis com os animais, têm uma personalidade carinhosa, mas ainda assim veríamos seu comportamento como um ato de carinho. Por que então, no caso de Binti, seu passado foi usado contra ela? Não estou dizendo que sei o que passou na cabeça de Binti, mas sei que ninguém a preparou para esse tipo de emergência e que é improvável que, com seu próprio bebê de 17 meses nas costas, ela tenha maternalmente confuso. Como no mundo um animal tão inteligente poderia confundir um garoto loiro de tênis e camiseta vermelha com um gorila juvenil? Na verdade, a maior surpresa foi a surpresa da maioria das pessoas. Os estudiosos do comportamento dos macacos não achavam que Binti tivesse feito algo incomum. Jörg Hess, um especialista em gorilas suíço, disse sem rodeios: O incidente pode ser sensacional apenas para pessoas que não sabem nada sobre gorilas. A ação de Binti causou uma profunda impressão principalmente porque beneficiou um membro de nossa própria espécie, mas em meu trabalho sobre a evolução da moralidade e da empatia, encontrei vários exemplos de animais cuidando uns dos outros. 

Por exemplo, um chimpanzé consola uma vítima após um ataque violento, colocando um braço em volta dela e dando tapinhas em suas costas. E os bonobos (ou chimpanzés-pigmeus) são conhecidos por ajudar companheiros novos em seus aposentos em zoológicos, levando-os pela mão para guiá-los pelo labirinto de corredores que conectam partes de seu prédio. Esses tipos de casos não chegam aos jornais, mas são consistentes com a ajuda de Binti ao infeliz menino e a ideia de que os macacos têm capacidade de simpatia. O baluarte tradicional contra esse tipo de interpretação cognitiva é o princípio da parcimônia – que devemos fazer o mínimo de suposições possível ao tentar construir uma explicação científica, e que assumir que um macaco é capaz de algo como simpatia é um salto muito grande. Mas esse mesmo princípio de parcimônia não argumenta contra assumir uma enorme lacuna cognitiva quando a distância evolutiva entre humanos e macacos é tão pequena? Se duas espécies intimamente relacionadas agem da mesma maneira, seus processos mentais subjacentes provavelmente também são os mesmos. O incidente no Zoológico de Brookfield mostra como é difícil evitar ao mesmo tempo o antropodenismo e o antropomorfismo: ao tentar evitar pensar em Binti como um ser humano, nos deparamos diretamente com a percepção de que as ações de Binti fazem pouco sentido se nos recusamos a assumir intenções e sentimentos. No final, devemos perguntar: que tipo de risco estamos dispostos a correr - o risco de subestimar a vida mental animal ou o risco de superestimá-la? Não há uma resposta simples. Mas, de uma perspectiva evolutiva, a bondade de Binti, assim como a travessura de Georgia, é explicada de maneira mais parcimoniosa da mesma forma que explicamos nosso próprio comportamento - como resultado de uma vida interior complexa e familiar.