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sábado, 15 de agosto de 2026

As Mulheres da Nova Direita em Portugal - Bases Teóricas e Ameaça Democrática

A emergência de uma nova militância de mulheres conservadoras no espaço público português, vai mais além do   revisionismo do Movimento Nacional Feminista, do Estado Novo e tem como teorização o  manifesto, que passou para o livro Identidade e Família. Este movimento já arquitetado em meados de 2021, junto como o Manifesto Identidade e Família são duas faces da mesma moeda. Trata-se da reorganização de um Novo Conservadorismo que está a moldar a direita em Portugal e na Europa, combinando a mobilização jovem nas redes sociais com o resgate de velhos dogmas morais. Esta aliança une a linha da frente de novas bancadas e ativistas a uma elite intelectual, médica e católica tradicional. Por trás de uma estética moderna e de discursos que apelam a uma suposta "verdadeira emancipação", esconde-se uma estratégia para desmantelar conquistas sociais e, sobretudo, para branquear e apagar a herança de figuras históricas incontornáveis como Maria de Lourdes Pintasilgo.

A ascensão de quadros femininos no campo da nova direita - com destaque para deputadas do Chega como Rita Matias, e em linha com fenómenos europeus protagonizados por figuras como Giorgia Meloni em Itália - veio reconfigurar a paisagem política. Ao contrário do conservadorismo tradicional, estas protagonistas não recusam a presença pública da mulher. Pelo contrário, ocupam o palco político e usam redes digitais como o TikTok e o Instagram para defender que a "verdadeira liberdade" passa pelo regresso ao essencialismo biológico, pelo culto da maternidade e pela defesa intransigente da "família natural". O objetivo passa por disputar a narrativa dos direitos das mulheres, catalogando o feminismo moderno como um "dogma ideológico" e posicionando-se como guardiãs dos valores cristãos perante a secularização e a mudança demográfica.

Movimento de mulheres conservadoras aproxima Chega da agenda evangélica brasileira e do Novo Conservadorismo
Em Julho, o grupo juntou-se em Sintra para um evento que reuniu “mulheres conservadoras”. O lançamento oficial do movimento está anunciado para Novembro.
O pré-lançamento realizou-se a 11 de Julho, no Palácio Valenças, em Sintra, num espaço pertencente à Câmara Municipal. O encontro contou com a presença de deputadas do Chega, entre as quais Rita Matias, Cláudia Estevão e Madalena Cordeiro, e da deputada federal brasileira Priscila Costa, avançou o Diário de Notícias Brasil.
Entre as oradoras estiveram Teresa Nogueira Pinto, que integra o governo-sombra do Chega com a pasta da Cultura; Catarina Nicolau Campos, jurista e chefe de gabinete do grupo parlamentar do CDS-PP; e Rute Sousa, uma das oito influenciadoras que esteve em Israel a convite da Embaixada israelita em Portugal e que soma mais de 108 mil seguidores apenas no Instagram. Destaca-se também no centro com a credencial "REBECA" a jovem Rebeca Batista, uma das fundadoras/embaixadoras do movimento e dirigente de uma fundação evangélica internacional (The Foursquare Church).
Na apresentação das participantes, a organização fez também referência à maternidade e ao número de filhos.
O Movimento Mulheres Conservadoras Portugal ainda tem pouca informação pública disponível, mas, desde Junho, tem vindo a publicar conteúdos nas redes sociais. Entre eles está um vídeo de uma reunião com deputadas do Chega, realizada no gabinete do partido, na Assembleia da República.

A aproximação à direita brasileira ganha particular relevância pelo papel que as igrejas evangélicas desempenham no Brasil como importante base de apoio da direita e do bolsonarismo. Em Portugal, o Chega tem mantido contactos com comunidades evangélicas, mas não tem assumido, até agora, uma estratégia política especificamente dirigida a este eleitorado.

De acordo com os Censos de 2021, entre a população com mais de 15 anos residente em Portugal, cerca de 186 mil pessoas identificaram-se como “protestantes evangélicos”.

Também este movimento está associado internacionalmente aos movimentos pentecostais ou Pentecostalismo, ressurgido com mais intensidade na era MAGA, de Donald Trump (consultar embaixo os textos) 

É no centro desta disputa cultural que o novo ativismo conservador promove o apagamento do legado de Maria de Lourdes Pintasilgo. Primeira e única mulher a chefiar um Governo em Portugal e figura cimeira do movimento O Graal, Pintasilgo provou que a fé católica e o compromisso ético não exigem a submissão ao patriarcado nem o confinamento ao lar. Enquanto Pintasilgo defendeu que a emancipação das mulheres e a igualdade eram exigências do próprio Evangelho, recusando a maternidade como um destino único ou uma gaiola social, o movimento atual tenta colar a defesa da igualdade de género a um "marxismo cultural". Ao fazê-lo, estas novas frentes conservadoras omitem que a maior pioneira do feminismo e da igualdade política em Portugal foi uma mulher de fé católica, cuja ação assentava na libertação e na justiça social - e não na preservação da autoridade masculina ou do papel da dona de casa.

Se este novo ativismo feminino garante o impacto nas redes e  na rua, o livro Identidade e Família - coordenado por António Bagão Félix, Paulo Otero, Pedro Afonso e Victor Gil - serve de pilar doutrinário. A obra compila ensaios que contestam a dita "ideologia de género", o aborto, a eutanásia e o construtivismo social nas escolas. A apresentação da obra na livraria Buchholz por Pedro Passos Coelho, a par da comparência de dirigentes do CDS-PP e do Chega, evidenciou a capacidade deste movimento para cruzar pontes entre o centro-direita católico e a nova extrema-direita parlamentar.

Este processo insere-se numa vaga documentada em toda a Europa, visível na afirmação de lideranças femininas sob o lema "Sou mulher, sou mãe, sou cristã", na reação articulada contra a agenda woke em países como Espanha através do Vox, em França e na Europa Central, e na ligação a movimentos pró-vida das Américas, como a influência do CPAC ou do PL Mulher no Brasil.

Conclusão
A articulação entre a militância de novas mulheres conservadoras e a sustentação teórica do livro Identidade e Família demonstra que o Novo Conservadorismo em Portugal está estruturado. Ao usarem as ferramentas da modernidade para defender o regresso a valores tradicionais, estas frentes procuram reescrever a história recente do país. Contudo, ao fazê-lo, esbarram na memória que tentam branquear: a praxis de Maria de Lourdes Pintasilgo, a prova histórica de que ter fé e combater pela emancipação das mulheres continua a ser uma das maiores forças de libertação da democracia portuguesa.

Ler mais:

sábado, 1 de agosto de 2026

Trump Has Revolutionized Executive Power


As we move toward the end of the Trump era, we need to reckon with the changes his administration has wrought in the American system of government. The most significant is the enormous concentration of power, not just in the executive branch as a whole, but in the office of the president. Any successor administration, Republican or Democratic, will inherit these powers, and will have to decide how it wants to define the limits of executive authority in the future.

The U.S. Constitution limits presidential power in a number of ways. Article I says that laws and budgets are made by Congress, and Article II says the president’s chief duty is to see that the laws are “faithfully executed.” He can choose his own cabinet officers, but they must be confirmed by the Senate. The president has more discretionary authority with regard to foreign policy and national security, where he is designated commander-in-chief of the armed forces. Yet even in this sphere, the right to declare war and ratify treaties is given to Congress.

Donald Trump has tried to expand executive authority in any number of ways. From Day One of his second administration, he has issued a blizzard of executive orders that have in effect usurped Congress’s legislative powers. In some cases he has acted under obscure legal powers, many of which were later found by the courts to be inappropriate. In other cases he has simply acted illegally or unconstitutionally. Among the many examples are:
  1. Ending birthright citizenship;
  2. His failure to spend money appropriated by Congress;
  3. The closing of entire departments, such as the U.S. Agency for International Development, that had been established by Congress;
  4. Attempting to assert federal authority over election administration;
  5. Using emergency powers to impose tariffs in an arbitrary and discretionary manner;
  6. Firing federal employees protected by statute;
  7. Launching a major war without seeking authorization from Congress.
The lower courts have blocked many of these initiatives, and the Supreme Court has reversed both the birthright citizenship order and the tariffs imposed last year under the International Emergency Economic Powers Act (IEEPA).

However, the Supreme Court has not yet ruled on many of the other cases, and in one case clearly ruled in favor of the administration. That was Trump v. Slaughter, decided last month, which overturned an earlier Supreme Court decision called Humphrey’s Executor. That precedent, set in 1935, upheld the right of Congress to impose limits on the president’s power to change the composition of the boards of supposedly “independent” multi-member regulatory agencies like the Federal Communications Commission and the Federal Trade Commission.

The Slaughter decision may seem technical, and has received relatively little public attention. The one multi-member federal agency that the public (and more importantly the markets) care about is the Federal Reserve Board, where Trump had already tried to fire one member, Lisa Cook. The Supreme Court exempted the Fed from its general evisceration of Humphrey’s Executor, arguing somewhat speciously that the Fed has a different historical status from other agencies and therefore its board could remain protected from political interference.

The Slaughter decision, however, has huge implications for the way America will be governed in the future, and it is only the first shoe to drop in a long-term conservative effort to remake the federal executive. Humphrey’s Executor had been the long-term target of conservatives under a doctrine of the “unitary executive.” They argued on originalist grounds that the Constitution gave executive authority to the president alone, who, as a democratically legitimated official, could not be restricted by Congress in his control over the executive branch.

There is a certain logic to this position, one that has been supported not just by conservatives but by certain progressives as well. Most prominent in the latter camp was President Franklin D. Roosevelt, who in the 1930s sought to remove William Humphrey (who was accused of blocking FDR’s legislative agenda) as a commissioner of the Federal Trade Commission. Humphrey’s removal was overturned by a conservative Supreme Court.

To this one could add the following argument. No one questions the right of the president to appoint, with the Senate’s approval, Cabinet secretaries and other senior officials, or to unilaterally remove them. The president’s right to appoint or remove the heads of agencies led by a single individual, like the CDC or NASA, is not contested. So why should those with multi-member boards be treated differently?

The argument I would make against the theory of the unitary executive is not based on any originalist reading of the Constitution. It is rather based on a pragmatic observation. Today’s executive branch is so large, sprawling, and powerful that there needs to be a separation of powers within the executive, and not simply between the executive and the other two branches of government. The chief argument in favor of such a separation has to do with the preservation of the expertise that is necessary to run a modern state.

We see this most clearly in the case of the Federal Reserve, which in the Slaughter decision was somehow exempted from political control. Painful experience with inflation has taught the United States and other countries around the world that central banks must be made independent. The incentives of politicians are almost always short-term and aimed at their political self-interest. The independent structure of the Fed and its multi-member board protects it from politicization and enhances its ability to operate according to the judgment of the experienced professionals who run it-i.e. PhD economists and practitioners with deep experience with financial markets.

Quite apart from the illegality and unconstitutionality of many of the Trump administration’s actions, there is also its incompetence.

That incompetence has been on display since the beginning of the second term, when Trump appointed a series of individuals with no expertise in the agencies they were to run: Tulsi Gabbard as Director of National Intelligence, TV commentator Pete Hegseth as Defense Secretary, vaccine denier Robert F. Kennedy Jr. as Secretary of Health and Human Services, and podcaster Kash Patel as head of the FBI.

The consequences are clear: by sidelining regional experts throughout State, Defense, and the intelligence community, for example, there was no one to warn the president that launching a massive air assault on Iran might lead to the closing of the Strait of Hormuz.

The Justice Department likewise has been diverted from its role as impartial enforcer of the law to being an instrument for Donald Trump’s personal revenge campaign. By forcing out career prosecutors, the department found its cases susceptible to being overturned by the courts and indictments rejected by grand juries across the country.

Underlying the theory of the unitary executive is a flawed concept of hierarchical organization that is as incorrect as it is widespread. “Principal-agent theory” is commonly used by economists and other social scientists to understand the dysfunctions of hierarchies. All authority lies with the principal; agents are simply expected to carry out the wishes of the principal and problems arise only when the agents follow their own agenda.

As Nobel laureate Herbert Simon pointed out many years ago, this is not how real-world organizations work. Agents, including front-line workers at the bottom of hierarchies, often have more expertise and local knowledge than the principals who give them orders. As a result, authority in many organizations flows from the agents to the principal. This is a truth understood in well-functioning militaries, which give their junior officers substantial authority and advise senior commanders not to micro-manage.

So too in the U.S. government. The knowledge of how to deal with an airline accident, or a sudden disease outbreak, or indeed a financial crisis, will not lie with the democratically-elected politician at the top of the hierarchy, but rather with the experts who have the training and experience to act. A well-designed government needs to have mechanisms for protecting that expertise.

Multi-member commissions are a very imperfect means of doing this, but they do at least make it more difficult for an incompetent president to do his destructive work. There are other important protections for expertise as well, such as requirements for “for cause” removals, which protect officials from arbitrary firing. Such constraints have been a clear target of the Trump administration.

Another critical protection for expertise lies in Senate confirmation: in most administrations, the Senate will simply not confirm blatantly unqualified people for senior positions. One of the greatest failures of the current Congress is its unwillingness to exert this authority in so many prominent cases.

The Trump administration’s war on expertise has only just begun. Greater political control over senior officials in multi-member commissions will have limited day-to-day impact on most citizens. But believers in the unitary executive want to extend that control to the whole of the federal government, such that every government worker, down to your local postmaster, will be subject to removal by a political boss.

This assertion of executive authority was attempted at the end of the first Trump administration with an executive order creating a new “Schedule F” employment designation into which the whole of the civil service could be moved, and then fired or replaced at will. Schedule F was rescinded by the Biden administration, but has re-emerged in the second Trump term as “Schedule P/C.”

This is not a casual innovation off the top of Donald Trump’s head. The authors of the Heritage Foundation’s Project 2025 spent their four years out of office designing a policy that would allow them to radically reshape the entire federal bureaucracy, and to eliminate the checks and balances that Congress had inserted over the years to limit the president’s power. The overturning of Humphrey’s Executor is only part one of this plan; the administration’s war against the “deep state” also seeks to invalidate the 1883 Pendleton Act, which first created a merit-based civil service. This will return the United States to the 19th-century spoils (or patronage) system, whereby not just top policy-makers but all government officials were put in place by a politician in return for political loyalty.

The spoils system was known for its corruption at all levels of government, from Credit Mobilier to Tammany Hall. Today we have massive corruption at the top levels of government, beginning with Donald Trump and his friends and family. But the elimination of a professional civil service will open up vast new areas for corrupt behavior in every city and county in the United States. Project 2025 is unapologetic about this, arguing that the patronage system was unfairly criticized.

The next president - and there will be a next president- will have to confront the question of how much of the authority claimed by Donald Trump he or she will want to retain. This is a complicated question, because the status quo ante was very problematic. As I’ve argued in previous articles, the government really has become over-constrained in its ability to take action. A new president will face many obstacles to implementing their desired agenda, and will be strongly tempted to use the kind of executive power claimed by Donald Trump. The next president needs to come into office not just with new policies, but with clear plans for how to use the mechanisms of government to get them done.

The time to start thinking about these questions is now: we cannot put this off until January 20, 2029, when a new president will be facing immediate political pressures to act. The Republicans spent their four years out of power coming up with clever strategies to get their way, which they have been implementing in the second term. Those backing a post-Trump administration need to do the same.

I hope to be able to outline some of the ways that authority can be structured in future articles.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Maioria dos homens não é tóxico, aponta estudo da Universidade de Auckland


Levantamento internacional aponta baixos níveis de traços problemáticos na maior parte dos participantes. No entanto, especialistas apontam que realidade do Brasil é diferente e é preciso cautela.

A maioria dos homens é tóxica?
A maioria dos homens é realmente "tóxica"? Um estudo da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, com mais de 15 mil participantes, diz que não. A pesquisa revelou que 89,2% dos homens apresentam níveis baixos ou moderados de traços problemáticos.

O termo “homem tóxico” se popularizou e se tornou parte do vocabulário popular. Nas redes sociais, milhares de vídeos com essa tag trazem conteúdos que explicam sinais que podem indicar que um homem tem uma inclinação a ser machista, misógino ou violento.
A ciência já vinha tentando entender o que é o homem tóxico, e uma pesquisa apontou uma checklist que poderia colocar ou retirar homens dessa “categoria”. Agora, pesquisadores entrevistaram mais de 15 mil homens para entender: a maioria é ou não é tóxica?

Diferente do que muitos poderiam imaginar, a pesquisa aponta que não. Na verdade, a maioria dos homens entrevistados estava fora dessa categoria.

A pesquisa vem sendo replicada nas redes sociais, mas o que especialistas ouvidos pelo g1 explicam é que os dados são importantes, mas é preciso levar em consideração o abismo social entre a Nova Zelândia, onde o estudo foi feito, e o Brasil.

Aqui, o país vem batendo recordes de violência contra a mulher, e a maioria dos homens acha que há muita cobrança sobre eles para a igualdade entre os gêneros.

Homens não são tóxicos?
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, analisou diferentes dimensões de atitudes associadas à masculinidade — incluindo agressividade, controle emocional, visões sobre mulheres e normas de gênero. A partir disso, os participantes foram divididos em cinco perfis.

O que eles descobriram:
O perfil “atóxico”, que não tem nenhum traço tóxico, representava o maior grupo. Cerca de 35% dos homens da pesquisa estavam nele e apresentavam os menores níveis de comportamentos considerados problemáticos.
O grupo mais extremo, denominado “tóxico hostil”, teve os menores índices, representando apenas 3,2% dos entrevistados.

Para identificar o grupo mais problemático, os pesquisadores analisaram respostas ligadas a oito indicadores. Os homens classificados como “hostis” se destacaram por combinar pontuações altas em temas como:
  1. crença de que mulheres buscam controlar os homens;
  2. valorização da agressividade e da dominação;
  3. dificuldade extrema de expressar vulnerabilidade;
  4. rejeição a traços considerados femininos e maior preconceito;
  5. tendência a comportamentos de controle em relações íntimas;
  6. baixa capacidade de lidar com emoções.
“Dizer que homens são tóxicos é uma forma solta de avaliar o momento que estamos vivendo. Se queremos uma mudança de comportamento, não tenho certeza se usar o termo como se usa, de forma ampla, como um rótulo para os homens, seja útil”, explica Deborah Hill Cone, autora do estudo.

Entre os dois extremos encontrados na pesquisa, ficaram perfis considerados intermediários, com homens que podem apresentar algum nível de sexismo ou visões tradicionais de gênero, mas sem traços de hostilidade ou agressividade elevada.

Foram eles:
  1. Moderados Tolerantes a LGBT (27,2%): Níveis baixos a moderados de traços tradicionais, mas com alta aceitação da diversidade.
  2. Moderados Anti-LGBT (26,6%): Perfil semelhante ao anterior, porém com maior preconceito sexual. Ainda assim, com poucos traços de agressividade relacionada.
  3. Tóxicos Benevolentes (7,6%): Homens que apresentam um sexismo "paternalista", acreditando que as mulheres devem ser protegidas e se manter em papéis sociais restritos. Ainda assim, com pouco índice de agressividade.
Isso vale para o Brasil?
O que Hill e a pesquisadora brasileira sobre género e doutora em psicologia Ana Maria Bercht explicam é que não.

A ideia da pesquisa é ter um norte, mas é preciso entender que existe um abismo social entre o Brasil e a Nova Zelândia.

O país está nas primeiras posições de rankings mundiais de paridade de gênero, enquanto o Brasil segue na 70ª posição.

"impossível que esses dados sejam aplicados ao Brasil, que tem a violência contra mulheres vivida como uma epidemia. O resultado da Nova Zelândia reflete uma trajetória de políticas públicas que colocaram as mulheres em pé de igualdade com os homens no país. Hoje, lá, elas são vistas como pessoas individuais, e não como alguém que deve ser submissa a seus maridos." - Ana Maria Bercht, pesquisadora sobre género.

Hill, autora do estudo, reforça que a pesquisa traz uma análise importante sobre o quão distorcidas podem ser essas “etiquetas sociais” criadas, mas que isso precisa ser analisado levando em conta o cenário do país.

“Podem existir diferenças transculturais significativas se a pesquisa fosse replicada em outro contexto cultural, como o caso do Brasil”, diz.

E por que o cenário no Brasil é tão diferente?
Para os especialistas, essa é uma questão cultural, em que, no Brasil, a mulher ainda é vista como um anexo do homem, e não em sua individualidade.

Para Bercht, isso tem relação com mudanças sociais tardias: No Brasil, tem menos de 100 anos que a mulher tem o direito ao voto, a ser eleita e ao trabalho formal. Isso tudo só aconteceu no país nos anos 30. E foi só nos anos 70 que a mulher recebeu o direito de se divorciar.

Para que um homem entenda uma mulher como pessoa, ele precisa vê-la nos mesmos espaços que ele, com o mesmo poder de decisão, pautando as discussões. Isso demorou para nos ser permitido no Brasil e ainda está longe de ser equilibrado. As mulheres ainda ganham menos no mercado e não somos nem mesmo a metade dos que nos representam nas esferas de poder. - Ana Maria Bercht, pesquisadora sobre gênero.

É a partir desse histórico que a mulher é vista na sociedade. E, ainda que algumas dessas conquistas tenham quase 100 anos, dados recentes reforçam essa percepção de que o Brasil ainda caminha a passos lentos na igualdade de gênero.

Uma pesquisa feita pela Ipsos em parceria com o Instituto Global de Liderança Feminina do King's College London mostra que no país:
  1. 70% dos brasileiros sentem que está sendo exigido demais dos homens para apoiar a igualdade (a média global é de 46%).
  2. 21% concordam que a mulher deve obedecer ao marido.
  3. 16% dos homens acreditam que cuidar dos filhos torna o homem "menos masculino".
Para Hill e Bercht esse contexto que traduz a violência quase epidêmica que mulheres vem sofrendo no país e que ainda não afastam uma parcela importante dos homens de uma postura de violência e subordinação.

"Vivemos uma violência quase epidêmica contra mulheres. Ainda não somos vistas no país de forma individual e livres. Muitos homens brasileiros sequer entendem a violência como tal. Pesquisas recentes mostram que autores de violência doméstica, mesmo após serem condenados, justificam seus atos culpando a vítima ou o ciúme, demonstrando uma forte desresponsabilização masculina", explica Bercht.

A misoginia não passa batido nem mesmo nas redes sociais. Ela se reflete nas trends recentes, que trazem dicas de como homens devem tratar mulheres, com conteúdos misóginos que acumulam milhões de seguidores. Além da incitação à violência.

Recentemente, o Senado aprovou o projeto de lei que equipara a misoginia ao racismo e prevê penas maiores para crimes de ódio contra mulheres. A votação na Casa foi unânime, mas o consenso encontrou resistência na Câmara dos Deputados, onde parlamentares da oposição fazem críticas e prometem trabalhar para barrar o avanço do projeto. Porém, até agora, o projeto não saiu do papel.

quarta-feira, 4 de março de 2026

A coberto da animação de campanhas de associações de estudantes, 79 escolas permitiram a entrada de influenciadores que fazem da sexualização das crianças um negócio

Reportagem do Público

Instaurado inquérito a caso dos influenciadores que promovem sexualização em escolas

O Livre requereu esta terça-feira a audição parlamentar urgente do ministro da Educação e da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas sobre a presença de influenciadores digitais que promovem conteúdos sexuais e misóginos em escolas.

Este requerimento surge após uma reportagem divulgada pelo jornal Público segundo a qual 79 escolas públicas receberam, nos dois últimos anos letivos, influenciadores digitais que promovem conteúdos sexuais e misóginos, a coberto da animação de campanhas de associações de estudantes.

"As notícias conhecidas dão conta de relatos preocupantes de professores, auxiliares de ação educativa e diretores escolares que, em muitos casos, relativizam ou normalizam estes episódios em contexto escolar", criticam os deputados do Livre.

O partido cita ainda declarações do ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, realçando que o governando se limitou "a remeter a responsabilidade para a autonomia das direções das escolas", admitindo "a possibilidade de vir a instaurar inquéritos aos diretores que autorizaram estas iniciativas".

Para o Livre, "a invocação genérica da autonomia das escolas não dispensa a definição, pela tutela, de orientações nacionais claras sobre quem pode entrar em espaço escolar, em que condições e com que tipo de conteúdos, nem exonera o Governo do dever de garantir ambientes escolares seguros, livres de conteúdos misóginos, sexualizantes ou de natureza pornográfica".

Os deputados salientam que "a gravidade dos factos conhecidos, o alarme social gerado e a preocupação manifestada por encarregados de educação e pela sociedade civil tornam indispensável um esclarecimento político cabal por parte do Governo" além da definição de "orientações claras, nacionais, para a prevenção e proibição destas práticas em estabelecimentos de ensino público".

O partido quer que sejam apuradas responsabilidades, conhecer que instruções foram ou não emitidas pelo Ministério e que medidas serão adotadas para garantir que situações semelhantes não se repetem.

Hoje, também o deputado único do BE, Fabian Figueiredo, endereçou ao Governo um conjunto de perguntas sobre o mesmo tema, querendo saber quando é que será formalmente aberta "a investigação pela Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC) às 79 escolas identificadas pela investigação jornalística, e qual é o cronograma previsto para a apresentação do relatório final".

O BE quer também saber se o ministério já comunicou estes factos ao Ministério Público e se tenciona "reforçar, em vez de reformular para esvaziar, a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento e os conteúdos de Educação Sexual, conforme recomendado por especialistas".

Por último, o partido pergunta ao ministério que ações de fiscalização foram planeadas para impedir a exploração comercial de alunos dentro do espaço escolar, "especificamente no que toca ao pagamento de verbas elevadas a influenciadores por atuações desprovidas de qualquer valor educativo".

domingo, 18 de janeiro de 2026

Anti-Imigrantes e Conservadores, pensem nisto - a vida de Lupe Vélez

Lupe Vélez, atravessou as Duas Grandes Guerras Mundiais. Uma Mulher muito à frente do seu tempo! Lupe Vélez, cujo nome verdadeiro era María Guadalupe Vélez de Villalobos, foi uma atriz Mexicana que fez carreira nos EUA, nascida a 18 de julho de 1908 em San Luis Potosí, México, e falecida em Beverly Hills, Califórnia, a 13 de dezembro de 1944. É conhecida pela sua prestação no filme "O Marido da Mulher Indiana" (1931), de Cecil B. DeMille.
A imagem que Lupe projetava na tela grande nada mais era do que um reflexo da sua própria personalidade. Vélez manipulava conscientemente a sua imagem. Com sua proclamação: "Eu não sou selvagem. Eu sou apenas Lupe", Vélez cultivou uma reputação pública como uma mulher explosiva e irreverente em Hollywood, e se identificava com papéis cinematográficos de mulheres da "classe média baixa" e personagens exóticas. Jornalistas de Hollywood a apelidaram de Whoopee Lupe , A Pantera Mexicana e La Chinampina . Chegaram ao ponto de proclamá-la a Garota Mexicana do Momento, em resposta ao sucesso da "flapper girl" da moda, Clara Bow , a chamada Garota do Momento . Vélez revelou: "A que atribuo meu sucesso? Acho, simplesmente, que sou diferente. Não sou bonita, mas tenho olhos lindos e sei exatamente o que fazer com eles. Mesmo que o público pense que sou uma garota muito selvagem, na verdade não sou." Sou apenas eu, Lupe Vélez, a simples e natural Lupe. Se estou feliz, danço, canto e ajo como uma criança. E se algo me irrita, grito e choro. Alguém chamou isso de "personalidade". Personalidade nada mais é do que ser você mesmo perto de outras pessoas. Se eu tentasse parecer e agir como Norma Talmadge , a grande atriz dramática, ou como Corinne Griffith , a aristocrata do cinema, ou como Mary Pickford , a doce e gentil Mary, eu não seria nada mais do que uma imitação. É por isso que eu só quero ser eu mesma, Lupe Vélez". Infelizmente teve um fim trágico. Naquela época, ser mãe solteira era socialmente inaceitável e teria acabado com sua carreira; ela descartou a alternativa de um aborto. Desesperada, cansada do amor não correspondido e deprimida pelo escândalo iminente, ela viu apenas uma saída: decidiu cometer suicídio.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Inicitiva Liberal - um partido extremista e misógino


"Sobre Bernardo Blanco diretor de campanha de Cotrim de Figueiredo e mencionado lateralmente na história de assédio da alegada vítima de Cotrim de Figueiredo. Uma vez convidou-me para uma palestra sobre liberalismo e feminismo. Eu aceitei e escreveu-me, como que a sugerir, de como afinal tinha sido o capitalismo a libertar as mulheres, com a invenção dos eletrodomésticos que facilitavam a vida às mulheres. Portanto para ele a libertação feminina tinha sido as mulheres deixarem de lavar a roupa num tanque à mão para passarem a pôr tudo numa máquina de lavar e, quiçá, não estragarem tanto a manicure. Disse-lhe que se fosse para propalar tão estúpida teoria eu não era a pessoa certa. Disse-me que não, para ficar, e eu já com má impressão lá fui para o IEP na Católica para a dita palestra. Foi uma coisa tenebrosa. Estava lá a palestrar também a Ana Vasconcelos, eurodeputada, que também já veio defender o seu colega do Parlamento Europeu. É uma daquelas mulheres que considero como idiota útil do patriarcado. Não sabia nada do assunto feminismo, dizia que o feminismo certo era o de John Stuart Mill (homem moderno para o fim do século XIX e agora completamente ultrapassado e que, como sabe quem já leu The Subjection of Women, com uma visão confrangedoramente conservadora sobre mulheres), negava que existisse qualquer preconceito que prejudicasse mulheres (donde, se enfrentam discriminação é porque são, coitadas, mázitas), até brincou que se calhar sofria de machismo intrínseco (no kidding), como se tal coisa não existisse. Ah, e não entendia por que carga de água as mulheres não formavam partidos se não estavam bem representadas nos existentes. A estupidez vinda desta senhora foi avassaladora.
A grunhice da conferência foi de tal ordem que houve quem sugerisse que se deviam diminuir os direitos das mulheres para não incomodar os imigrantes que chegavam de sítios mais conservadores. Bernardo Blanco e uma outra criatura da assistência puseram em causa a existência da licença de maternidade porque, afinal, é um direito que discrimina positivamente as mulheres e, portanto, não é justo para os homens; também argumentavam que não era o estado que tinha de suportar a escolha individual das mulheres terem filhos. Sim, foi a este nível e foi este Bernardo Blanco que Cotrim de Figueiredo escolheu para diretor de campanha. (Até a IL no parlamento já se conseguiu livrar de Bernardo Blanco, mas Cotrim reciclou-o).
Bernardo Blanco fez parte de uma coisa tenebrosa que era o Instituto Mises Portugal, grupo de gente anarco capitalista que gozava (gulosamente) com os assassinatos de Pinochet dos comunistas que eram atirados de helicópteros. Que debatiam, como se fosse debatível, a ‘remoção física’ de comunistas e - tcharan - democratas. Bernardo Blanco é um extremista e um fanático que faz António Filipe parecer moderado. E, na minha humilde opinião, capaz de tudo.
Outra pessoa que é mencionada nas alegações de assédio a Cotrim de Figueiredo é Ricardo Pais Oliveira. Não o conheço pessoalmente, mas foi a pessoa que organizou no twitter, nos primórdios da IL, a campanha mais nojenta de ódio online aos opositores que eu jamais vi. Não pode ser pessoa decente.
Isto para dizer o quê? Alguém que desgosta destas duas personalidades é uma pessoa com valores no sítio certo e que me merece, pelo menos, o benefício da dúvida. Mais do que quem escolhe rodear-se destas pessoas."

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A era das relações tóxicas


“Todos estamos em perigo”, disse Pasolini em sua última entrevista, poucas horas antes de ser assassinado. Esta frase me vem à mente ao ler o último livro da psicanalista Clotilde Leguil, A Era do Tóxico – Ensaio sobre o novo mal-estar na civilização [sem tradução para no Brasil]. Todos estamos em perigo não apenas pela ameaça externa de poderes destrutivos para a vida, mas também pela possibilidade de que o veneno da destrutividade atue e se espalhe a partir do nosso próprio interior. Nós somos parte do perigo.

É isso que Leguil se propõe a pensar, escutando o que diz uma palavra-sintoma que circula hoje por toda parte: o “tóxico”. Com o auxílio da literatura, do cinema e da psicanálise, Leguil interpreta o tóxico como um novo imperativo de gozo, a compulsão por uma satisfação bruta e imediata, uma voracidade que não pode ser saciada de forma alguma. O mal do ilimitado. O regime do hiper (hiperatividade, hiperestimulação, hipersexualização).

O filósofo Félix Guattari propôs, há vinte e cinco anos, pensar interligados três “ecossistemas”: o íntimo, o relacional e o planetário. O ensaio de Leguil reflete sobre o “veneno” que hoje ameaça desertificar os três, esgotando o corpo individual, social e terrestre. E propõe uma ética do desejo, da responsabilidade perante o nosso desejo, como resistência e limite.

O mal-estar do ilimitado
Apesar de Heidegger, que afirmava que a fala corrente é uma fala “inautêntica”, repleta de clichês, a senhora decide escutar o mal-estar na linguagem ordinária e fixa-se numa palavra de uso corrente hoje: o tóxico. Um exercício de escuta analítico, poderíamos dizer, de um sintoma de época. Quais possibilidades e riscos tem este exercício de escuta? A senhora teme ter contribuído para legitimar uma palavra que provém do âmbito da autoajuda, do coaching, da educação sentimental das redes sociais?
Interessei-me por este significante do “tóxico” a partir do seu novo uso, que me fez levantar questões. Apostei em levar a sério esta extensão do termo, própria da nossa época. Hoje em dia, o tóxico já não designa apenas as substâncias em si, mas uma modalidade de relação com o outro, que se assemelharia a um veneno. Partindo desta constatação, tentei interpretar esta nova metáfora do nosso mal-estar, uma nova metáfora que capturei primeiro através da linguagem, do discurso concreto, da forma como os sujeitos falam do seu mal-estar. Não se trata apenas de usar esta palavra para legitimá-la, mas de interpretá-la e tentar ver o que ela abrange, de que é sintoma.

O tóxico, diz a senhora, fala-nos de um novo mal-estar, do mal-estar específico da nossa época. Já não estamos na época em que o mal-estar tinha a ver com a proibição e a lei, com um esmagamento do desejo através da repressão, mas houve uma mudança. Do que se trata?
Efetivamente, interpretei esta influência do tóxico nas relações humanas a partir da psicanálise. Na minha opinião, ela testemunha uma nova figura do Supereu, aquela que Lacan definiu em seu escrito Kant com Sade em 1963. Estaríamos nos encontrando perante uma inversão do Supereu da proibição, do Supereu freudiano. E esta inversão revelaria também a verdadeira função do Supereu, que é sempre da ordem da forçatura, do forçamento. Este novo Supereu é aquele que força a gozar cada vez mais. Produz o que Lacan chamou a busca de um plus de gozo, que se impõe a cada um. O termo “tóxico” poderia dar testemunho dos efeitos deste “excesso” de gozo, não no sentido de “excesso” de prazer, mas no sentido de “excesso” de forçamento do prazer, de exigências pulsionais que aniquilam o desejo.

O tóxico, no uso corrente do termo, faz-nos pensar sempre que é um problema do outro. O outro é a pessoa tóxica da qual convém afastar-se, o tóxico vem de fora, etc. No entanto, a senhora complexifica o termo para nos dar a entender que o tóxico está em nós mesmos. O “fora”, o que vem de fora, articula-se ou ativa algo “dentro”, no nosso próprio interior. Como é essa dialética dentro-fora?
Sim, a experiência tóxica, tal como a interpreto, é da ordem de uma nova dialética entre o exterior e o interior. Algo do outro vem tocar o nosso corpo, como uma flecha envenenada que nos fere, mas, antes disso, também nos embriaga. É o lado anfibológico do tóxico: por um lado, a experiência tóxica faz experimentar uma forma de prazer estranho e novo; por outro lado, conduz a derivar para um gozo mau e destrutivo.

A marca do excesso no nosso interior, diz a senhora, é a “pulsão”. O mandato de época impele à satisfação pulsional total. Mas, o que é a pulsão? É biológica, é cultural? É ontológica, é histórica? Um cruzamento de ambas?
A pulsão, tal como a define Freud, é uma força libidinal que se situa entre o somático e o psíquico. Direi com Lacan que a pulsão é também o que responde no corpo a uma angústia perante o desejo do outro. É a forma como o vínculo com o outro pode suscitar uma espécie de exigência pulsional, à qual o sujeito não consegue dizer “não”. A dimensão da hýbris, do excesso, poderia ser a que evoca o termo “tóxico”. Há algo que é “demasiado” e que provoca angústia.

No gozo, no tóxico, o outro, o diferente, desaparecem. Desaparece o vínculo, desaparece o tempo como duração, desaparece o mundo compartilhado. Evaporam-se como simples instrumentos ou ocasiões de gozo. Isso tem efeitos terríveis sobre o que Félix Guattari chamava de “as três ecologias”: o ecossistema pessoal, o ecossistema social e o ecossistema terrestre. Em todos os três casos, um tipo de forçamento ameaça chegar até o colapso e o esgotamento (da energia, da atenção, dos vínculos).
Sim, no meu ensaio interessei-me por estes três campos: o campo íntimo, o campo ecológico e o campo político. Porque o interesse deste termo “tóxico” é que se situa na encruzilhada dos três. Em cada um deles, o que se denomina “tóxico” é o que põe em perigo a vida, o que obriga os seres vivos a suportar uma estimulação que vai além do suportável.

O tóxico articula-se com a linguagem. Há uma palavra que envenena. Como entender isto?
Situo a experiência tóxica no nível de uma modalidade do discurso que exige uma forma de forçamento pulsional que coloca o sujeito em perigo: uma frase tóxica seria uma frase que envenena o sujeito, injetando em seu corpo uma forma de crença, mas também transgredindo uma fronteira. Penso nos discursos tóxicos como aqueles que te fazem abandonar toda ética.

Poderíamos entender assim o discurso das novas ultradireitas? Um discurso que induz e justifica a rejeição ao diferente (as mulheres, os migrantes), a cegueira em relação aos limites (as desigualdades, o entorno natural), etc. Judith Butler fala do “sadismo desavergonhado” de Trump como novo tipo de poder, uma nova retórica de poder, uma nova exibição do poder.
Podemos falar de toxicidade do poder, pensando na dimensão predatória de certa modalidade de exercício do poder. O que há então de tóxico nestes discursos é a abolição de toda relação com a verdade, a história e a ética. É também o que se denomina pós-verdade, que permite reescrever a História. O apagamento da verdade histórica é sempre um mau augúrio. Lembremos 1984, de George Orwell. O regime do Grande Irmão, mediante uma propaganda contínua, tenta envenenar a psique dos indivíduos até fazê-los renunciar a toda singularidade. O poder tóxico é aquele que conduz à renúncia de toda ética. Portanto, continua a ser necessário perguntar-se sempre: “A que obedecemos? Em que acreditamos? A que consentimos?”.

A resistência do desejo
Não é fácil limitar o gozo. Não se trata de uma questão racional, de informação, de melhores argumentos ou novas pedagogias, mas sim de algo do corpo. O mal, o perigo, estão no corpo. O que cura, o que salva, portanto, também deve provir do corpo. Aqui encontro um limite ao racionalismo progressista da esquerda, tão confiante sempre no discurso, na política da explicação, mas tão ignorante por vezes do corpo, da realidade pulsional.

A busca de um limite é o resultado de uma forma de angústia perante esta desmedida, perante esta deriva. Mas este limite não dependerá de nenhuma pedagogia. Porque, com a experiência tóxica, trata-se daquilo que o sujeito não compreende, não sabe, não vê. Portanto, trata-se também do inconsciente. E de um inconsciente que se acopla ao corpo, como diz Lacan em Televisão. Por isso, a palavra na psicanálise não é da mesma ordem que uma racionalização ou uma introspecção. Trata-se de poder dizer o que nos supera, o que nos transborda, o que nos confronta também com um enigma na relação com o desejo e o gozo.

Os limites clássicos evaporam-se: o Saber, o Pai, a Lei mostram hoje uma face obscura, muito inquietante para o pensamento ilustrado. Retomando a análise de Lacan, a senhora faz uma crítica das insuficiências de Kant e do seu imperativo categórico. Em que consiste essa crítica?
Lacan mostrou em Kant com Sade – escrito que a princípio era um prefácio para A Filosofia no Boudoir do Marquês de Sade – uma proximidade entre o dever moral kantiano e o imperativo do gozo sádico. Um seria a outra face do outro. Tanto no imperativo categórico kantiano quanto no imperativo do gozo sadiano, trata-se de sacrificar algo do próprio desejo e da relação com o objeto do desejo. Em Kant, este sacrifício faz-se em nome da relação com o universal; em Sade, este sacrifício faz-se em nome da necessidade de obedecer à natureza, que segundo ele quer o crime, ou seja, o prazer sem limites. Portanto, deve existir uma terceira via, que abra caminho ao desejo.

A palavra é toxikon e phármakon. Pode envenenar o corpo, como dissemos antes, mas também pode acalmá-lo, aliviá-lo, curá-lo. Que tipo de palavra é essa que cura, ou pode curar, diferente, pelo que entendo, do mero Logos-Lei (deves/não deves)?
Se algumas palavras podem ser tóxicas, ou seja, empurrar para a pulsão de morte, outras palavras podem ser remédios. A cura pela palavra que é a psicanálise faz da experiência de “dizer” um phármakon. Tentar “dizer” o que nos envenenou também nos leva a desfazermo-nos disso, a desprender-nos disso, a separar-nos disso. Através da palavra como phármakon, o sujeito volta a conectar com o seu desejo, ou seja, com o seu poder de agir. Porque, ao interpretar os conflitos e tormentos da sua existência, também pode perceber o ponto em que tem certa responsabilidade na forma como responde aos acontecimentos da sua existência.

O que pode limitar o gozo é o desejo. É a proposta forte do livro, desenvolvida na sua última parte. Qual é a diferença entre gozo e desejo? Por que “só o desejo pode desintoxicar-me”?
Sim, esta distinção lacaniana entre desejo e gozo é fundamental, já que proporciona uma orientação ética. Permite ver com maior clareza a questão: “Mas o que é o bom?” Ou também: “Como saber o que devo fazer?”, “Como saber se devo dar rédea solta a uma forma de gozo ou se devo virar noutra direção?”. A fórmula de Lacan no seu seminário sobre A Ética da Psicanálise, “não ceder no desejo”, permite valorizar o desejo como um antídoto contra a pulsão de morte.

Essa última parte, aviso, está escrita em primeira pessoa. Pensando o tempo todo que o seu livro aborda o problema do gozo nos seus aspetos sociais, coletivos, políticos (emergência climática, management, poder tóxico), pergunto-me: há uma dimensão ou declinação coletiva, política, partilhada do desejo? Podemos conceber “políticas do desejo”, antídotos coletivos?
A relação com o desejo não é alheia à civilização e trata-se precisamente de abrir um caminho ao desejo para que a civilização seja em si mesma desejável. Neste sentido, há uma dimensão política na ética do desejo.

Em cada um dos meus livros, direi que há um elogio da singularidade do sujeito, do valor do desejo, mas também da necessidade do encontro. Porque o desejo sempre supõe também o encontro com o “desejo do outro”. Como escreveu Alexandre Kojève, o grande introdutor de Hegel em França, a nossa história é sempre a dos “desejos desejados”. Este é, a propósito, o tema do meu novo ensaio: O Desprendimento – Ensaio sobre as molas íntimas da desobediência, que acaba de ser publicado.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

A expressão “ideologia de género” não é um conceito científico

Ler artigo aqui


Circula pelas redes sociais uma petição "Fim à Ideologia de Género" promovida pela Maria Helena Costa do Gabinete de Estudos do CHEGA e que já foi presidente de uma concelhia do mesmo partido, é também presidente da Associação Família Conservadora. Como mãe chegou a ser acusada pelo próprio filho Miguel Salazar de o ter sujeitado as chamadas "Terapias de Conversão" e de o ter feito passar por um inferno por ser homossexual!

Ora  expressão “ideologia de género” não é um conceito científico, e é por isso que não aparece na literatura académica em biologia, psicologia ou ciências sociais como uma teoria validada.

Aqui está o que é importante entender:
✅ 1. O que existe cientificamente
Em ciência existem conceitos como:
  1. identidade de género
  2. expressão de género
  3. papéis de género
  4. estudos de género
  5. variação biológica do sexo
Estes são estudados de forma científica por áreas como biologia, neurociência, psicologia do desenvolvimento, antropologia e sociologia.

❌ 2. O que não existe como conceito científico
O termo “ideologia de género” não é usado pela ciência.
É uma expressão criada em contextos políticos, culturais e religiosos, especialmente a partir dos anos 1990–2000, para criticar políticas de igualdade de género, educação sexual, direitos LGBTQIA+ ou estudos académicos sobre género.

Ou seja:
👉 É um rótulo político, não um termo técnico.

📌 3. Porque é que há confusão?

Porque:

  • alguns grupos usam a expressão para descrever qualquer abordagem moderna sobre género,

  • enquanto a comunidade científica usa conceitos diferentes, baseados em dados, não em ideologias.

🧭 Em resumo

Do ponto de vista científico, “ideologia de género” não é uma categoria, teoria ou disciplina.
O que existe são estudos de género e pesquisa sobre identidade e expressão de género, que seguem métodos científicos.

✅ Origem do termo “ideologia de género”

📌 1. Surge nos anos 1990 em contextos religiosos, não científicos

O termo nasce no final dos anos 1990, principalmente em documentos e discursos ligados a sectores da Igreja Católica. A expressão é uma tradução de “gender ideology”, usada inicialmente para criticar:

  1. as políticas internacionais de igualdade de género,
  2. o reconhecimento de direitos LGBTQIA+,
  3. e a introdução do conceito de género (como diferente de sexo biológico) em debates públicos.

O ponto decisivo foi a IV Conferência Mundial sobre a Mulher da ONU (Pequim, 1995), quando a palavra gender começou a ser adoptada amplamente nas políticas globais de direitos humanos. Alguns grupos interpretaram isso como uma tentativa de “relativizar” a diferença sexual.

Daí surgiu a reação: rotular esses avanços como “ideologia de género”.

📌 2. Ganha força nos anos 2000 através de movimentos políticos conservadores

A partir dos anos 2000, o termo espalhou-se por:

  1. movimentos anti-direitos LGBTQIA+
  2. sectores conservadores na Europa, América Latina e EUA
  3. discursos populistas que se opõem à educação sexual e às políticas de igualdade

É frequentemente usado como estratégia retórica para criar medo ou confusão, apresentando qualquer estudo sobre género como uma “ideologia imposta”.

📌 3. Não é reconhecido pela ciência ou pela academia

Nenhuma área científica — biologia, psicologia, sociologia, antropologia — usa o termo.

O que a ciência estuda é:

  1. género como construção social,
  2. identidade de género,
  3. papéis de género,
  4. diversidade sexual e de género.

Ou seja, “ideologia de género” é um conceito político-cultural, religioso e não académico.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Dois livros essenciais para compreender o fenómeno do crescimento contemporâneo da extrema-direita


Mark Sedgwick (2019) - Key Thinkers of the Radical Right 
O ressurgimento da extrema-direita na América e na Europa chamou a atenção para a existência de filósofos e escritores políticos cujos nomes são apenas ocasionalmente familiares e cujo pensamento é geralmente desconhecido. Chega a surpreender alguns o facto de a extrema-direita possuir de facto uma filosofia política, para além do nazismo ou do fascismo de Mussolini, ambos, na verdade, desacreditados e marginais. Em vez disso, a extrema-direita ressurgente inspira-se em pensadores consagrados como Nietzsche e Hegel, em pensadores menos conhecidos como Oswald Spengler e Julius Evola, e nos escritos relativamente obscuros de filósofos políticos contemporâneos como Alain de Benoist, em França, e Alexander Dugin, na Rússia. E há ainda toda uma panóplia de pensadores emergentes, muitas vezes americanos, alguns desconhecidos e outros famosos apenas pelas suas intervenções mediáticas. Este livro examina o cânone clássico, os pensadores modernos mais influentes e uma seleção de pensadores emergentes. Dezasseis especialistas explicam dezasseis pensadores, oferecendo uma introdução à sua vida e obra, um guia para o seu pensamento e uma explicação da recepção das suas obras. O livro fornece, portanto, uma introdução completa e autorizada ao pensamento por detrás das acrobacias e do ressurgimento, o pensamento da extrema-direita.


A. James McAdams e Alejandro Catrillon (2021) - Contemporary Far-Right Thinkers and the Future of Liberal Democracy
Este livro é a primeira análise sistemática dos esforços de um vasto leque de pensadores contemporâneos de extrema-direita para popularizar as suas críticas às normas e instituições liberal-democráticas e tornar as suas ideias objecto de debate político e académico contínuo.

O livro centra-se em pensadores influentes da Europa Ocidental e Oriental, Rússia, Estados Unidos, Canadá e Austrália. Entre eles estão Alain de Benoist, Guillaume Faye, Götz Kubitschek, Pat Buchanan, Fróði Midjord, Jason Jorjani, colaboradores da revista online Quillette e a figura enigmática conhecida como o Pervertido da Idade do Bronze. O livro explora os diversos fundamentos intelectuais das posições destes pensadores, as semelhanças e diferenças nas suas ideias e as suas perspetivas de influenciar as atitudes em relação à política democrática nos respetivos países. Examina diversos movimentos e correntes de pensamento, incluindo a Nova Direita Europeia, o Paleoconservadorismo, a Alt-right, o Identitarismo, o Nacionalismo Branco e o antifeminismo.

Oferecendo uma perspetiva global muito necessária, este livro será de grande interesse para estudantes e investigadores de populismo, extremismo de direita, política identitária, fascismo, racismo e conservadorismo.

Ler aqui uma entrevista James McAdams

domingo, 9 de novembro de 2025

L.A.Witch - Get Lost


A canção “Get Lost” da banda L.A. WITCH tem um tom misterioso e melancólico, típico do estilo do grupo — um garage rock psicadélico com influências de surf, punk e dark rock.

🌙 Significado geral

“Get Lost” pode ser interpretada como uma canção sobre fuga e desconexão emocional. A expressão get lost significa literalmente “perde-te” ou “vai-te embora”, mas também pode evocar a ideia de perder-se de propósito — numa viagem, num sentimento, ou em si mesmo.

🖤 Temas principais

  1. Liberdade e evasão:
    A letra sugere uma vontade de escapar das amarras da rotina, das relações ou das expectativas.

    “You better get lost, before I find you”
    soa como uma mistura de ameaça e libertação — alguém a dizer que é melhor desaparecer do que enfrentar a dor de um confronto.

  2. Desapego e poder feminino:
    Como muitas músicas da L.A. WITCH, há um tom de independência e uma rejeição da vulnerabilidade romântica. É uma mulher a tomar o controlo da narrativa, a dizer “não preciso de ti”.

  3. Ambiguidade emocional:
    O ambiente sonoro — reverb, guitarras sombrias, voz etérea — reforça um estado entre o sonho e a realidade, entre o querer e o afastar-se.

🎸 Em suma:

“Get Lost” fala sobre perder-se para se encontrar, sobre o poder de dizer adeus antes que alguém ou algo te destrua. É tanto um aviso como um manifesto de autonomia.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Boy Harsher - Burn It Down

Melhor som aqui
[Verse 1]
Take my heart
And pull me down
Take my heart
And burn it down

[Pre-Chorus]
Take my heart
And burn it down

[Chorus]
Here we are
The dam has broken
You try to run
But I’m in motion
When it’s done
It drags us both in
‘Cause I was young
And I was broken

[Pre-Chorus]
Help me find the right way
Help me be a nice guy

[Chorus]
Here we are
The dam has broken
You try to run
But I’m in motion
When it’s done
It drags us both in
‘Cause I was young
And I was broken

Numa entrevista para a PopHorror, Jae Matthews (vocalista) e Gus Muller (produtor) contam que foram chamados para fazer uma música para o filme Halloween Ends

A canção “Burn It Down”, do duo Boy Harsher, é uma poderosa metáfora sobre libertação e renascimento. Criada para o filme Halloween Ends (2022), a música reflete a tensão entre desejo e destruição, explorando o momento em que é preciso queimar o passado para poder recomeçar.

Com o seu som hipnótico e sombrio, “Burn It Down” fala menos de ruína e mais de metamorfose: a ideia de que, ao destruir o que já não serve - memórias, relações, versões antigas de nós próprios - abrimos espaço para algo novo emergir.

Assim, Boy Harsher transforma a escuridão em acto de purificação, onde o fogo deixa de ser apenas destrutivo e passa a ser um símbolo de libertação interior.

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Dia Mundial da População


Crónica de Pedro Vieira

não é não.
não, filha, a imigração não está no topo dos problemas deste retângulo amaldiçoado e abençoado; a desigualdade, o acesso à habitação, à saúde e a educação de qualidade, sim.

não, amor, não são os imigrantes amontoados em camaratas que andam a destruir o teu direito constitucional à habitação; são os "imigrantes" dos vistos gold, os fundos imobiliários predadores e os autarcas amigos de hotéis de 5 estrelas e alojamentos locais e fantasias de equídeos com chifres que estão a rebentar com o tecido social das cidades.

não, miga, os imigrantes não estão cá a mamar subsídios e a viver à tua conta; eles andam a contribuir para um sistema que é desbaratado pelos destruidores de bancos e pelas multinacionais à boleia de borlas fiscais e pelos liberais com pés de barro que se agarram às tetas do estado que adoram vilipendiar.

não, fofo, a imigração nunca foi tão alta como agora; continua a haver 3% de deslocados no mundo, valor igual desde o final da segunda guerra mundial, lançada pelos tiranos que o teu novo partido favorito gosta de glosar.

não, meu bem, o teu novo partido favorito não existe para te defender e gritar "vergonha"; existe para te convencer que a culpa é dos de baixo, enquanto mama nos de cima.

não, mor, os imigrantes não roubam empregos e puxam os salários para baixo; eles deslocam-se para os lugares onde há trabalho disponível, mesmo por valores indecentes, e muitos regressam às famílias e lugares de origem quando têm a vida mais orientada.

não, coração, não és só tu que preferes estar junto dos teus; eles também.

não, querido, os imigrantes não têm sangue de monhé ou de preto; têm sangue com hemoglobina como o teu.

não, riqueza, os imigrantes não matam mais do que o teu companheiro violento e abusador.

não, minha jóia, os imigrantes não estão a invadir-nos; em muitos lugares, estão a repor vida, num país que adora exportar cortiça, conservas e jovens sem futuro.

não, cariño, tu não és descendente de um pastor de cabras da zona de Viseu com pouco jeito para escolher guarda-costas; és descendente de iberos que ninguém sabe de onde vieram, de celtas e de romanos, de fenícios, cartagineses, mouros, castelhanos e de franceses, mais os negros de África e de europeus de fracas sortes e de gente dos orientes. e de neandertais, também, e às vezes nota-se. és como um daqueles pratos do honest greens - cantina preferida dos colarinhos brancos jovens e dos empreendedores, na qual são os imigrantes que cozinham - aqueles pratos com muitas cores e paladares, sem perceberes bem o que lá está.

não, meu doce, os imigrantes não são os teus inimigos de classe; esses são os que enviam anualmente o valor de um SNS para offshores, enquanto se riem da tua fúria (e das tuas filas de espera e das tuas crianças nascidas em ambulâncias) no deck de um iate.

não é não é não

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Machosfera “não é brincadeira de rapazes”, é bomba relógio


Escolhem as mulheres como inimigo, são orgulhosamente misóginos, transformam a violência de género em espetáculo ‘online’, doutrinam crianças e lucram com isso – eis a machosfera, uma “bomba relógio que já explodiu”, alertam especialistas.

“Temos uma sociedade pornificada, com plataformas digitais desreguladas, onde a misoginia e a violência contra as mulheres é espetacularizada, monetizada, comercializável. É uma bomba-relógio, um problema social que já explodiu nas nossas mãos”, sublinha Maria João Faustino, especialista em violência sexual.

Isto “não é uma mera brincadeira de rapazes”, garante Inês Amaral, investigadora do Observatório de Masculinidades do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

Segundo a especialista, a misoginia “vende”, enquanto propaga filosofias “doentias e assustadoras”, num universo onde homens partilham “filmagens não consentidas de encontros com mulheres, ou até vídeos sem nada de sexual das mulheres, mães, irmãs, até das filhas”.

As “culturas digitais reacionárias e patriarcais” estão a construir “novas gerações que promovem ideias distorcidas sobre intimidade, consentimento, prazer mútuo e igualdade”, aponta Diana Pinto, da Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres.

As narrativas misturam “ressentimento, violência e nostalgia por uma ordem patriarcal perdida”, vendo como ameaça a emancipação feminina.

“Nos fóruns, nas redes sociais e nas plataformas de ‘streaming’, proliferam discursos misóginos que promovem uma cultura que sexualiza, desumaniza e até responsabiliza as raparigas e as mulheres pela violência que sofrem”, indica.

Esta “cultura digital violenta” é “potenciada por algoritmos e pela monetização de conteúdos sexistas, altamente lucrativos para alguns, nomeadamente para as plataformas”, assegura.

O problema de raiz é “muito profundo e está sedimentado em muitos séculos de desigualdade e supremacia masculina”, ganhando no ‘online’ “novas avenidas e dimensões de impunidade”, sinaliza Maria João Faustino, alertando que é “muito fácil aliciar, capturar e radicalizar jovens rapazes” para estes discursos.

A machosfera “tem muitos ecos e muitas alianças” com “a pornografia ou a extrema-direita” e “não está só nas catacumbas da internet”.

“Os misóginos são homens que partilham da vida em sociedade connosco, que vivem connosco, nas nossas casas, nas nossas famílias. É preciso fazer o reconhecimento doloroso de que são homens como nós, e muitas vezes homens que amamos, que são os nossos filhos, os nossos pais, homens em quem confiamos”, sublinha.

Maria João Faustino alerta que o problema é estrutural e tem passado “sem uma resposta preventiva ou uma abordagem séria”.

O britânico Andrew Tate, auto-denominado misógino, é para estes homens “uma espécie de herói” e propaga discursos “de uma violência atroz e uma promoção de ódio muito substancial, consumidos por centenas de milhares de jovens numa base quotidiana”, relata Inês Amaral.

“As crianças não vão ativamente à procura destes conteúdos, mas são o alvo destas pessoas”, avisa a investigadora.

Depois, “há o passa a palavra e o consumo de determinadas plataformas, nomeadamente de jogos, cheias destas ideias”, destaca, encontrando uma “ligação direta” entre a machosfera e os movimentos de Alt-Right (direita alternativa focada na supremacia branca) dos Estados Unidos da América.

É um “problema terrível”, fomentado “pelos discursos conservadores dos grupos e partidos de extrema-direita, que legitimam um discurso mais duro, de recurso à violência e de menorizar o papel das mulheres”, sinaliza Sandra Cunha, da FEM – Feministas em Movimento.

Tiago Rolino, jurista, gestor de investigação e ativista, olha para o machismo como “manifestação do sistema patriarcal”, o “topo da pirâmide de privilégios” que “está sempre presente”, bloqueando “a igualdade plena de direitos e oportunidades”.

“As primeiras vítimas do machismo são as mulheres. Mas os homens também. Têm mais suicídios, sofrem mais de doenças evitáveis porque não vão ao médico, consomem mais drogas, comentem mais crimes e têm mais depressões”, afirma.

Ser “provedor, corajoso, forte, bem constituído fisicamente, esconder as emoções, ser mulherengo e bem-sucedido” são os “pilares da masculinidade que o homem de verdade tenta atingir”, mas “nenhum os atinge a todos”, o que “causa problemas de frustração” e recurso à “violência para se imporem”, explica.