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sábado, 20 de abril de 2019

Ensaios produzidos por Adauto Novaes agora estão disponíveis na internet


Mutações: A Resistência pelo Pensamento
As revoluções biotecnológica, científica e digital empurraram-nos para mutações vertiginosas, que tendem a eliminar o pensamento e a tornar-nos reféns do que o poeta Paul Valéry chamou de "barbárie dos factos". Há 13 anos que Adauto Novaes coordena ciclos sobre múltiplos aspetos das mutações, com a participação de alguns dos mais brilhantes intelectuais brasileiros e estrangeiros. Publicou seis volumes de ensaios, que abordam os temas da violência, da velocidade, da preguiça produtiva, da destruição do pensamento, da revolução digital, do vácuo dos valores e da necessidade de cultivar "as coisas vagas" (a arte, o pensamento, o ócio criativo e a crítica).

Mas, agora, o ciclo entra numa nova etapa, com a chegada à plataforma digital. Uma vaga de 313 ensaios e 24 filmes está disponível, gratuitamente, no site Artepensamento; em breve, serão acrescentados mais 345 ensaios, perfazendo quase 900. O alvo são, principalmente, os estudantes universitários. Lá, poderão ler textos de François Hartog, José Miguel Wisnik, Jacques Rancière, Marilena Chauí, Nicole Loraux, Gérard Lebrun, Benedito Coutinho, José Américo Pessanha, entre outros.

Nos ensaios, os autores travam um corpo a corpo dramático com os temas urgentes do nosso tempo:
"É quase uma enciclopédia", comenta Adauto Novaes. O professor Antônio Candido escreveu que o ciclo das mutações constitui um dos feitos mais importantes do nosso tempo no país. E, nesta entrevista, Adauto fala sobre o percurso dos 13 anos de mutações, a perspetiva de interação digital, o diálogo com as novas gerações e os desafios de um tempo sem passado e sem futuro, refém de um eterno presente.

As plataformas digitais foram temas de reflexões e críticas nos ciclos por si promovidos. O que é que elas proporcionam na difusão do projeto das mutações? 
Na realidade, temos de ser coerentes com o que discutimos há 13 anos: as mutações produzidas pelas revoluções biotecnológica, científica e digital. Seria uma incoerência não usarmos a plataforma digital. É algo incontornável para quem deseja comunicar e interagir com as novas gerações. Os livros são muito importantes, fizeram história, como disse Antonio Candido. Mas as novas gerações procuram o conhecimento dos textos através dos novos meios. Pouco tempo após o lançamento, temos mais de 130 mil acessos. Mas o próprio Antonio Candido escreveu que os ciclos da mutação constituem um dos feitos mais importantes do nosso tempo no Brasil. Traçam os rumos da civilização contemporânea. Por todas estas razões, é importante que cheguem às novas gerações.

Como avalia o trajeto do ciclo das mutações? 
Começámos com os sentidos da paixão, o desejo, temas que mesmo o pensamento de esquerda não levava em conta. Diziam que eram coisas ilusórias. Mas são elas que definem a atividade humana. Chegou um momento em que a ideia de "crise" já não era suficiente para explicar o que acontecia no mundo. Então, começámos com a ideia das mutações.

O que caracteriza, essencialmente, o tempo de mutações? 
Diferente do Iluminismo, é uma era feita no vazio do pensamento, como dizia Hannah Arendt. A contribuição que damos é essa. Incluiremos os seis primeiros livros sobre as mutações. É algo muito sério. Se a política está neste estado, se os valores tendem a desaparecer, temos de refletir. Gostaria de ressaltar que grandes pensadores do Brasil e do exterior, na atualidade, participaram no ciclo. Poderia citar François Hartog, Frédéric Gros, Nicole Loraux, Jacques Rancière. E também do Brasil: José Américo Pessanha, Marilena Chauí, José Miguel Wisnik, Gerard Lebrun. Se não tivéssemos criado a plataforma, as novas gerações não saberiam. Os ensaios foram publicados em livro, mas, quase sempre, só estavam acessíveis às pessoas de algumas capitais. No Nordeste, por exemplo, muitas pessoas não têm acesso a esses livros. Preparámos cuidadosamente a apresentação; cada ensaio é precedido de uma síntese; trabalho com uma equipa há dois anos.

Como vê as possibilidades de uso deste material pelas novas gerações e pelos cursos universitários? 
Isso é fundamental. E está a ser usado. Não é que o livro vá desaparecer. Mas a tendência é que as novas gerações procurem o conhecimento nos novos meios. Encontro-me com professores e eles dizem que está a ser muito útil. Se quer discutir filosofia, história, tecnologia, biociência ou ética, está tudo ali. É um pouco uma enciclopédia.

Que balanço faz das séries, que vão do silêncio dos intelectuais ao desejo, às paixões, às novas tecnologias e à barbárie? 
Sempre nos preocupámos muito com isso. Vai sair um novo livro do ciclo, Dissonâncias do Progresso. É uma crítica contra o progresso, que se tornou extremamente atual. Há uma negação muito grande em relação às humanidades. Veja-se o que está a acontecer com as grandes empresas de mineração em Minas Gerais. É o resultado de uma ideia de progresso que não quer saber do que acontece. A questão da bomba atómica e a possibilidade apocalíptica rondam-nos o tempo todo.

Estas linhas de pensamento ajudam a pensar ou a repensar o Brasil e o mundo? 
Esse é o grande problema. O próprio Claude Lefort disse-me uma vez: "Temos de repensar todos os conceitos, até o de luta de classes. A própria classe operária tende a desaparecer. Existe a classe de trabalhadores". Ajuda a repensar os conceitos da política. A globalização criou um estado de desespero para os indivíduos. O pensador polaco Zygmunt Bauman disse que, antes da globalização, existia a luta de classes; hoje, existe a luta do indivíduo contra o resto do mundo.

O que pensa dessa afirmação? 
É que, na globalização, existe uma tendência para o egoísmo organizado; a ideia de comunidade tende a desaparecer da história. Robert Musil dizia que o capitalismo é o egoísmo organizado. Há um problema muito maior aí: a própria política tende a desaparecer. Quem manda são os conglomerados e os técnicos. Numa sociedade tecnicizada, a política também tende a ser tecnicizada.

É precisa muita velocidade de pensamento para acompanhar as mutações do mundo globalizado? Fizemos um ciclo muito importante, O Elogio da Preguiça. Sem o tempo do ócio, não se cria nem obra de arte nem pensamento. Vivemos um momento em que não se vive o tempo do pensamento. As pessoas submetem-se a este tempo veloz da vida. E isso é terrível.

E como é que este estado de coisas está a afetar a escalada da violência? 
As pessoas acabam por interiorizar muito a violência e o ódio. Albert Camus deu conferências nos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial. Muitos acreditam que o monstro morreu, mas o veneno não morreu: o nazismo e o nazi-fascismo. A civilização criou muitas coisas importantes e corretas, mas também acumulou muito ódio. Só é possível superar este estado de coisas com um trabalho cuidadoso da educação e da sociedade. Temos de pensar mais profundamente sobre a constituição do ódio e da violência.

O que cria um clima favorável aos valores do nazismo e do fascismo nos dias de hoje? 
O neofascismo adquiriu uma nova forma. Não é a mesma coisa de 1940. E estamos a ver como estas coisas estão a acontecer. O domínio da tecnociência distrai o pensamento, ninguém pensa mais. A sociedade já não tem forma porque não tem ideias. Qualquer coisa que se apresente tem probabilidades de obter adesão. Não é só no Brasil, mas também na Holanda, na Áustria e na Alemanha. Paul Valéry tem uma ideia interessante; diz que a barbárie é o império dos factos, e que precisaríamos das "coisas vagas", que são a arte, as ideias políticas e as utopias. A ausência de pensamento é um "prato cheio" para os aventureiros se estabelecerem. Valéry dizia, também, que estamos a viver um tempo em que desapareceram as duas maiores invenções da humanidade: o passado e o futuro. Não sabem o que aconteceu há 10 ou há 50 anos. As revoluções anteriores permitiam dar um salto. Mas, se o passado desaparece, não temos futuro. Ficamos reféns do presente e da barbárie dos factos.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Dissonâncias do progresso


O que é progresso? Para alguns teóricos, apenas uma palavra que não passa de um slogan, um clichê ou, no máximo, um mito; pode ser também uma crença, jamais um conceito. Para ganhar estatuto de “conceito” universal, o termo se apoia em outras palavras em busca de legitimidade e, assim, passa de relativo a absoluto: progresso e democracia, progresso e liberdade, progresso e desenvolvimento. Pior: até mesmo ações de caráter belicista recorrem à ideia de guerra como movimento indispensável a um futuro de progresso radioso.

Filósofos brasileiros e franceses reúnem-se, mais uma vez, no Rio, em Belo Horizonte e em Brasília em torno do conceito de mutações, desta vez para discutir as dissonâncias do progresso.

Afinal, o que legitima o progresso hoje? A impressionante herança deixada pelas inúmeras formas do progresso da ciência e da técnica é incontestável: o mundo ganhou, mas também perdeu! Transformação radical das ideias de espaço e tempo, avanços na medicina e na biologia que nos preservam de muitos males – progresso com inegáveis e perenes benefícios para a humanidade –, mas, em contrapartida, um progresso que cria rigor, velocidade, precisão da relação do homem com o meio físico, desaparecimento do vago e do lento, hábitos dominados por métodos positivos governados pelas máquinas, modo científico de existência ao qual “os espíritos se acostumam rapidamente, ainda que insensivelmente”, enquanto as relações do homem com o homem permanecem, como observa o poeta e filósofo Paul Valéry, “dominadas por um empirismo detestável que evidencia até mesmo, em diversos pontos, uma sensível regressão”.

Se a ciência do Iluminismo permitiu o alargamento da percepção do mundo e da vida ao destruir uma quantidade enorme de certezas, em contrapartida as ideias de progresso, aliadas à racionalidade técnica, destroem uma das grandes invenções da humanidade – a dúvida – ao recriarem e reporem o mito da certeza. O mito do progresso é uma dessas novas certezas. Quem, da direita e também em boa parte da esquerda, arrisca-se a ser contra o progresso (ou seus equivalentes: desenvolvimento, crescimento econômico)? Basta ouvir os discursos de políticos, financistas, tecnocratas e até mesmo de intelectuais ilustrados. É a crença de que todos os problemas da humanidade serão resolvidos com o aumento do conhecimento científico. No ensaio O mito moderno do progresso, Jacques Bouveresse nos leva a pensar que a ideia de progresso resume dois dos mais terríveis problemas da atualidade, sintetizados por Georg von Wright como o mito da autoridade e o império da fala: “um discurso”, escreve Bouveresse, “que se pode considerar como mais ou menos dispensado da argumentação, que se autolegitima e cujo protótipo é a fala que emana do fundamentalismo religioso ou da ditadura política”.

O moderno perde seu ponto de identidade e de diferença. Guerra e paz, miséria e abundância, bem e mal são coisas indiferentes. O progresso é indiferente aos resultados, contanto que avance! Eis o reino da relatividade geral que tudo admite e onde todas as ações e opiniões se equivalem objetivamente. Como tudo se equivale, o sistema de valores desaparece. Ou melhor, desaparece a contradição entre ciência e técnica como realidade objetiva e ciência e técnica como valor. Mais precisamente, valor passa a ser outra coisa: Valéry recorre ao modelo da Bolsa de Valores, no ensaio A liberdade do espírito, para pensar todas as atividades humanas. Os valores morais e estéticos, por exemplo, são dominados pela especulação, e é sem ironia que ele diz: o mundo do progresso perdeu a ideia de padrão absoluto. As produções materiais e espirituais são um grande mercado flutuante seguindo os mesmos princípios da Bolsa: “Existe um valor chamado ‘espírito’ como existe um valor petróleo, trigo ou ouro”, que infelizmente não cessa de baixar. Outros pensadores vão além: a redução do ser ao valor de troca seria a origem do niilismo. Para Nietzsche, o contrário seria verdadeiro: é em virtude do niilismo que o ser fica reduzido a valor de troca:

“Há uma selvageria pele vermelha, própria do sangue indígena, no modo como os americanos buscam o ouro: e a asfixiante pressa com que trabalham – o vício peculiar ao Novo Mundo – já contamina a velha Europa, tornando-a selvagem e sobre ela espalhando uma singular ausência de espírito. As pessoas já se envergonham do descanso; a reflexão demorada quase produz remorso. Pensam com o relógio na mão, enquanto almoçam, tendo os olhos voltados para os boletins da Bolsa – vivem como alguém que a todo instante poderia ‘perder algo’. ‘Melhor fazer qualquer coisa do que nada’ – esse princípio é também uma corda, boa para liquidar toda cultura e gosto superior.”

Em seu pouco conhecido Cahier B, de 1910, Valéry alia a revolução tecnológica à dissolução das tradições comuns e da crença nos mesmos valores com o nascimento das grandes cidades no século XIX:

“O civilizado das grandes cidades volta ao estado selvagem, isto é, isolado, porque o mecanismo social lhe permite esquecer a necessidade da comunidade e leva à perda do sentimento de laço entre os indivíduos, antes despertados incessantemente pela necessidade. Todo o aperfeiçoamento da mecânica social torna inúteis atos, maneiras de sentir, aptidões à vida comum.”

Esse indivíduo isolado tende a perder as memórias coletivas e os imaginários sociais, abrindo espaço para o que Musil definiu como “egoísmo organizado”. As pulsões egoístas, segundo ele, resultam do progresso material e da desordem social. Podemos complementar essa ideia de pulsões egoístas com a análise de Engels sobre o homem das grandes cidades em A situação da classe operária na Inglaterra, em que se lê que, para realizar os progressos da civilização, os homens sacrificam o melhor de si:

“As cem forças que dormem neles permanecem inativas e abafadas para que apenas algumas possam se desenvolver […] E mesmo sabendo que esse isolamento do indivíduo e seu egoísmo são em todo lugar o princípio fundamental da sociedade atual, em nenhum lugar eles se manifestam com uma impudência, uma segurança tão total quanto aqui, precisamente na multidão da grande cidade. A desagregação da humanidade em mônadas na qual cada uma tem um princípio de vida e um fim particular, esta atomização do mundo é aqui levada ao extremo.”

Assim, com as promessas da ciência e da técnica que jamais se realizam (sempre uma espera), o progresso entra em eterno processo, linear e infinito, mas também mecânico e circular, criando as próprias condições de perpetuação. É desse movimento infinito que ele se alimenta: diante de problemas criados pelo progresso, inventa-se uma nova forma de progresso que permite “superar” os problemas criados. Eis as questões que devemos responder: para onde o progresso nos leva? Qual é o verdadeiro interesse para a humanidade?

terça-feira, 21 de junho de 2011

Curta-metragem: Old Apparatus



Old Apparatus - 14:00 from Deep Medi Musik on Vimeo.

Um pouco na linha de pensamento da postagem que abordei a relação Homem- Máquina-Natureza.
O jornalista e filósofo Adauto Novaes, num dos capítulos do livro "O homem-máquina: a ciência manipula o corpo", publicado em 2003, afirma que:
“Tudo caminha – principalmente o corpo – para o artifício. Ou melhor, observamos o início de uma substituição do ser e de suas experiências da vida – isto é, da antiga relação, em nós, da natureza e do espírito (espírito entendido como inteligência, potência de transformação) – por mecanismos implantados em nós. Poderíamos dizer, sem risco de erro, que um corpo tecnicizado guarda ainda ‘qualidades ocultas’ do corpo natural, enigmas que nos levam a pensar, permanentemente, o jamais pensado ainda?”.
Por outras palavras, indaga-se se as tecnologias chegarão ao ponto de anular a essência humana, substituindo a criatividade e espontaneidade.