Mostrar mensagens com a etiqueta Ecologia Espiritual. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ecologia Espiritual. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Caoilfhionn Rose - Canyons


A atuação ao vivo de "Canyons" pela cantora e compositora britânica (com raízes familiares irlandesas e sediada em Manchester) Caoilfhionn Rose transmite uma beleza singular ao despir-se de artifícios de produção, apostando plenamente na atmosfera, na geografia e na textura sonora. Gravado numa encosta remota junto ao Loch Cluanie, na Escócia, o vídeo regista um momento puro e autêntico, onde a sua voz e a guitarra acústica azul interagem diretamente com o ar livre. Em vez de recorrer a um estúdio requintado, a atuação apoia-se na acústica natural, no vento ambiente discreto e num cenário vasto e contemplativo que espelha fisicamente os temas da canção sobre distância, espaço e perspetiva.

Musicalmente, a peça cruza o folk tradicional com nuances atmosféricas de dream pop e jazz espiritual, um estilo distintivo associado à sua editora, a Gondwana Records. A sua interpretação vocal leve e delicada cria um contraste íntimo com a imensidão da paisagem escocesa.

Em termos de influências literárias e filosóficas, o tema inspira-se diretamente no livro On Connection do poeta e dramaturgo britânico Kae Tempest, bem como em reflexões de cariz existencialista e estoico sobre a transitoriedade do tempo. A letra aborda o distanciamento emocional - os "desfiladeiros" que se abrem entre as pessoas - não como uma tragédia, mas sim como um lembrete sereno para valorizar o presente e aceitar os ciclos de mudança da vida. A obra destaca-se por parecer menos um videoclipe encenado e mais um registo íntimo e espontâneo capturado em viagem.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A abertura na copa das árvores

Céu Tecido
Um campo de ondulações de espuma cinzenta e suave
estende-se amplamente pela atmosfera,
onde o ar e a humidade tecem um lar temporário,
mantendo perto a luz e a sombra.

Correntes invisíveis curvam-se e erguem-se,
arrefecendo o vapor em formas silenciosas,
um presente subtil, flutuante e vivo
antes da chegada das tempestades.

Nenhuma parte está separada do chão,
nenhuma gota existe fora do todo;
em cada sopro flutuante encontra-se
o ritmo de uma única alma.

João Soares, 28.08.2026

sábado, 1 de agosto de 2026

Vígundr - Draumspaki


A tradução do título Draumspaki vem do nórdico antigo, sendo a junção das palavras draumr (sonho) e spaki (sabedoria ou dom da profecia), resultando em termos como "Sabedoria dos Sonhos", "Adivinhação pelos Sonhos" ou "Aquele que interpreta sonhos". Na tradição nórdica antiga, os sonhos eram encarados como visões proféticas enviadas pelas Fylgjur (espíritos protetores) ou pelos próprios deuses para antecipar o destino imutável (Örlög). Como a música do Vígundr não possui uma letra convencional - utilizando apenas vocalizações atmosféricas, cânticos guturais, sussurros e instrumentos ancestrais -, o vídeo funciona como um poema audiovisual focado no estado de transe e na viagem astral. Ele retrata o limiar entre o sono e a vigília, evocando as antigas práticas de feitiçaria e xamanismo nórdico (Seiðr), onde o isolamento na natureza, o fogo e a fumaça servem de conduíte para desligar a mente do mundo físico e navegar pelo inconsciente.

Musicalmente, a obra transita pelo Pagan e Dark Ambient, com fortes traços de Neofolk e Dungeon Synth, priorizando drones contínuos, tambores xamânicos e texturas soturnas para criar uma atmosfera hipnótica e meditativa, muito alinhada a uma vertente mais abstrata do folk nórdico. Suas influências conceituais bebem diretamente da literatura das Sagas e da Poética Edda - em especial relatos como Baldrs Draumar, onde os sonhos prenunciam o inevitável -, mas também dialogam com a Psicologia Analítica de Carl Jung, tratando o sonho como a linguagem pura dos arquétipos e do inconsciente coletivo. Além disso, há um fundo do Romantismo Sombrio e do Existencialismo, expressos pelo fascínio pela solidão, pelo sublime da natureza selvagem e pelo confronto do indivíduo com o mistério e com a sua própria sombra.
Mary Anlezark vive e produz o seu trabalho a partir da Austrália.

Vale a pena rever e ouvir:
Viktor Orri Árnason - Hino da Terra

terça-feira, 2 de junho de 2026

June is a month that reminds us of fireflies



The Silent Weavers
They are not lanterns lit for human eyes,
nor stagecraft for a summer night’s romance;
they are the pulse where wildness never dies,
the quiet architects of field and plants.

In rotting logs and undisturbed decay,
the armored larvae hunt beneath the screen,
consuming snails and slugs along the way - 
the fierce, invisible balance of the green.

They are the measure of a forest’s breath,
the proof of waters pure, of soils unchained;
where chemicals and false lights deal out death,
their golden signatures are quickly drained.

A frog’s brief meal, a spider’s glowing thread,
they weave their bodies through the tangled net—
a silent currency of life and bread,
a feast of light the wilderness won’t forget.

For in their flashing, fragile, brief design,
the hunger of the ecosystem thrives;
the smallest spark sustains the grand outline,
and feeds the deeper dark that keeps us all alive."
João Soares, 02/06/2026

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Morcheeba - Sounds Of Blue


Letra
[Verse 1]
A sort of stoned silence
Sat on that boat floating out
The waters left me open
All my emotions fog my lenses
Trusting in a stranger
There's nowhere to run, enjoy it
It's all about the here and now
Illuminate the darkness

[Chorus]
The waves awoke emotive emotions
Whilst resisting this urge to
Breathe as I'm swimming down
Free when I'm sinking down

[Verse 2]
Last breath in, closed eyes
Nose hold, equalize
Pulling down under, bound
Descending, deep ending
Earth, under, found
Free-dive, amplified
Sounds of blue
Floating particles as it falls clear
Don't look up, don't look down
I might drown into you

[Chorus]

[Bridge]
Take it all in to begin with
Don't let it out 'til the surface
Now with a purpose, I'm ascending
So romantic, this is tantric, oceanic
Up, rising, looking into his framed eyes
No surprise why we fall in love with these guys
It went deeper than I dared
I went deeper than I cared
I'm out of air

[Chorus]

A canção "Sounds of Blue", dos Morcheeba, utiliza a prática do mergulho livre (free-diving) — o mergulhar em apneia, sem botijas de oxigénio — como uma metáfora perfeita para a entrega emocional, a vulnerabilidade e a vertigem de se apaixonar. O próprio título do tema introduz uma forte componente sinestésica, fundindo a audição e a visão para traduzir a experiência subaquática: debaixo de água, os ruídos do mundo exterior desaparecem e dão lugar ao bater do coração e ao silêncio ecoante do oceano, criando aquilo que a banda define como os "sons de azul", um estado de espírito que evoca simultaneamente a melancolia do blues e uma paz interior absoluta.

No início da letra, a atmosfera de silêncio e flutuação introduz o desarmamento das defesas da personagem. Ao expressar que as emoções lhe toldam a visão e que decidiu confiar num estranho, a música transporta-nos para aquele momento em que deixamos de resistir e decidimos simplesmente viver o presente. A descida para as profundezas do oceano funde-se com a própria descida ao desconhecido de uma nova relação. Curiosamente, o ato de afundar surge despido de pânico; pelo contrário, transforma-se numa experiência de libertação profunda, onde o desapego e o deixar-se ir trazem uma inesperada sensação de paz e liberdade, mostrando que é preciso silenciar a mente e aceitar a pressão exterior para se conseguir flutuar emocionalmente.

A descrição técnica do segundo verso detalha o ritual que antecede a imersão, remetendo para o foco absoluto e para o estado de transe que tanto o desporto como a paixão exigem. Quando o mundo exterior desaparece e os sentidos se amplificam no azul do mar, a fronteira entre a água e o sentimento esbate-se, culminando na admissão de que a personagem se pode afogar no outro. Na reta final, durante o regresso à superfície, a experiência assume contornos quase transcendentais e sensuais, onde a subida e o reencontro com o olhar do parceiro consolidam a paixão. O desfecho da viagem deixa um aviso subtil: a personagem foi mais fundo do que ousava e acabou sem ar, ilustrando na perfeição o impacto avassalador de um amor que nos tira o fôlego.

Morcheeba é um grupo musical britânico de Londres. A banda estreou-se em 1995, com aquela que é considerada a formação histórica do grupo: Skye Edwards (voz), Paul Godfrey (DJ) e Ross Godfrey (guitarrista e teclista). Tendo-se estabelecido na cena trip hop britânica no final da década de 1990, a sua fama continuou a crescer ao longo do tempo. Ao longo dos seus 20 anos de carreira, abraçaram mais do que um género musical com a utilização de elementos eletrónicos, incorporando elementos de pop rock, rock alternativo e indie rock. O termo "Morcheeba" significa "A Rua da Cannabis" e é composto por "MOR", uma expressão inglesa que indica um género musical semelhante ao smooth jazz, bem como, literalmente, o meio da estrada ("Middle of the Road"), e "cheeba", a gíria para canábis.
Esta canção é do álbum Blackest Blue lançado 2021.



quarta-feira, 13 de maio de 2026

LADANIVA - Here's to you Ararat


Amor por Arménia, símbolo de resistência e de um país, povo e cultura que sofreu imenso e dele tenho imensa admiração!
O vídeo é uma homenagem à montanha, um símbolo poderoso para o povo arménio. A letra (cantada em arménio) expressa um profundo amor e admiração pelo Ararat, chamando-lhe "Rei dos Arménios" e "alicerce das nossas almas".
Neste vídeo, destaco os melismas de Jaklin Baghdasaryan. São, aliás, a grande "assinatura" vocal dela e o que torna o som dos LADANIVA tão autêntico.

Aqui estão alguns pontos sobre a técnica dela:
  • Ornamentação arménia: Jaklin utiliza muitos elementos do canto tradicional arménio e do Médio Oriente. Esses melismas não são apenas "enfeites"; eles carregam a carga emocional da música. Ela consegue passar por várias notas numa única sílaba com uma precisão cirúrgica.
  • Agilidade e fluidez: o que impressiona na voz dela é a rapidez. Ela faz as transições entre notas (os chamados runs) de forma muito fluida, quase como se fosse um instrumento de sopro (como o duduk ou a flauta).
  • Controlo de sopro: para fazer melismas tão longos e detalhados sem perder a afinação, é preciso um controlo de diafragma muito forte, algo que ela claramente refinou durante a sua formação académica no jazz e na música do mundo.
  • Microtonalidade: em "Here's to you Ararat" nota-se que Jaklin  brinca com intervalos que nem sempre existem na escala ocidental padrão, o que dá aquele toque exótico e hipnotizante.
LADANIVA é um grupo franco-arménio sediado em Lille, França.
O nome da banda, "Ladaniva", é uma referência ao famoso carro todo-o-terreno russo Lada Niva, que os pais de ambos os músicos possuíam.
Jaklin Baghdasaryan: nasceu na Arménia (Yeghegnadzor) e cresceu na Bielorrússia antes de se mudar para França em 2014. Ela estudou no Conservatório de Lille, o que explica o seu excelente controlo técnico
Louis Thomas: o seu parceiro musical é francês.
Louis Thomas toca guitarra [00:46].
Os outros músicos são mostrados a tocar clarinete [00:27], um davul (tambor tradicional) [00:38] e um saz (instrumento de corda) [00:49].
Eu sabia que o Monte Ararat é visível da Arménia, mas agora faz parte da Turquia, e imagino como o povo arménio se deve sentir ao ver a sua montanha histórica apenas de longe.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

The Geometry of Peace: A Tribute to Susumu Yokota (1960-2015)


To listen to "Cherry Blossom" is to witness a digital sunrise over an ancient forest. It is not merely a song, but a living ecosystem of sound that bridges the gap between the pulse of the machine and the rhythm of the of the heart.

An Ecological Resonance
This track breathes. It captures the essence of ecological interconnectedness, where the repetitive, hypnotic loops mimic the cycles of the seasons. It suggests that our technology is not an enemy of nature, but a mirror of it—a "botanic electronica" where every synthesizer swell feels like a petal unfurling in slow motion. It reminds us that we are not separate from the Earth; we are the Earth processing beauty through frequency and light.

The Human Tapestry
In its ethereal textures, there is a profound human connection. Yokota weaves an invisible thread of silk that connects every listener across time and space. To be moved by this music is to participate in a collective meditation. It strips away the ego, leaving only a shared sense of wonder. It is a universal language that speaks of our common fragility and our capacity for grace.

An Act of Active Pacifism
Above all, this music is a manifesto of active pacifism. In a world defined by noise, aggression, and the sharpness of conflict, choosing to dwell in this sonic landscape is a radical act of resistance.
It is a unilateral disarmament of the soul.
It replaces the "iron and fire" of modern discord with a "transparency of spirit."
By refusing to be loud or violent, it achieves a strength that no weapon possesses.

To carry this melody within you is to walk through the world with an open heart, proving that softness is not weakness, but the ultimate form of resilience. It is a quiet revolution that begins in the ear and ends in a more peaceful way of being.


Yokota was at the forefront of Japan's electronic music scene as it blossomed in the early '90s. His vast and exceptional body of work found him fans from far beyond the realms of the dance community, with Bjork, Phillip Glass, and Radiohead's Thom Yorke just a few names from his long list of admirers. His music found homes on revered labels such as Harthouse, Sublime Records, Reel Musiq, Leaf, and his own Skintone imprint, and his music saw him invited to perform DJ sets at the world's best-loved dance venues. He was the first Japanese artist to play at Berlin's Love Parade, and – alongside Ken Ishii – represented Asia magnificently during dance music's halcyon days through the late '90s and early '00s. His sound veered from techno to acid, ambient to house, breaks to drum & bass, and he recorded under innumerable aliases – including Stevia, Ebi, Prism, Ringo, Yin & Yan, Anima Mundi.

Though he died tragically in 2015, his incredible back catalogue continues to shine brightly, and it's of little surprise that labels are opting to re-issue the best of his music. Earlier in 2021, UK label Cosmic Soup presented a collection of house and techno sounds Yokota recorded under the secret alias 246, and now it's the turn of his ambient-leaning 'Symbol' to enjoy another jaunt under the spotlight. Previously released on British imprint Lo-Recordings, the blissfully horizontal album is formed around a core of samples borrowed from classical music – manipulated and repurposed alongside Yokota's masterful programming.

Borrowing passages and snippets from classical masters including Debussy, Tchaikovsky, and Ravel, he expertly lifts the emotion behind the original music while uniquely reimagine the music. From the soothing strings of opening track 'Long Long Silk Bridge' to the mesmerising chants of 'Symbol', the album overflows with imagination and spellbinding beauty. Yokota was a true master of electronic music composition, and 'Symbol' is among his most playfully seductive albums. Penetrable but profound, its re-issue represents a wonderful opportunity for new audiences to marvel at his studio prowess.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A Ontologia da Teia Viva: Transcendência, Metafísica Ecológica e Espiritualidade Imanente


Introdução
A crise socioecológica contemporânea não é meramente um percalço técnico, produtivo ou de gestão de recursos; revela-se, fundamentalmente, como uma profunda crise ontológica e epistemológica da modernidade. O paradigma cartesiano-newtoniano, ao segmentar o cosmos entre res cogitans (o sujeito pensante) e res extensa (a matéria desprovida de espírito), desalmou a natureza e confinou o ser humano a uma posição de domínio predatório sobre o ecossistema.

Superar esta rutura exige repensar a própria estrutura da existência. É neste horizonte que a transcendência, a espiritualidade e a ecologia convergem numa metafísica renovada. Longe de ser uma evasão para o além incorpóreo, a transcendência ecológica reconfigura o "ir além": ultrapassar a prisão do ego antropocêntrico para ascender à consciência da interconexão radical de todas as coisas. A espiritualidade eco-metafísica emerge, assim, como uma experiência da sabedoria imanente da Terra, na qual o sagrado não habita fora do mundo, mas desvela-se na própria trama orgânica e cósmica do ser.

Desenvolvimento
1. A Metafísica da Interconexão: Superar o Antropocentrismo Ocidental
A metafísica ocidental clássica - particularmente na sua vertente dualista platónico-cristã e, mais tarde, na modernidade científica - definiu frequentemente o "ser" através do isolamento e da substância fixa. A natureza foi reduzida a um mecanismo causal cego, destituído de sentido intrínseco. Em contrapartida, uma metafísica ecológica (ou ecosofia) substitui a ontologia das substâncias isoladas pela ontologia das relações.

O filósofo norueguês Arne Næss, fundador da Ecologia Profunda (Deep Ecology), propôs uma viragem conceptual decisiva. Næss argumentou que a perceção ecológica não é um mero cálculo utilitarista sobre a conservação do meio ambiente, mas um questionamento filosófico profundo sobre quem somos. Para Næss, o processo de maturidade humana culmina no desenvolvimento do "Self" ecológico — uma expansão da identificação do "eu" que transcende os limites do ego individual para abraçar a totalidade da biosfera.

Nesta perspetiva, a metafísica deixa de ser a busca por entidades transcendentes num plano metafísico abstrato e passa a ser a revelação da imanência sagrada: a teia de dependências mútuas onde cada organismo carrega um valor intrínseco, independentemente da sua utilidade para a espécie humana.

2. Transcendência Imanente e Espiritualidade Naturalista
A física quântica e a teoria dos sistemas complexos vieram fundamentar empiricamente o que a tradição mística e a filosofia ecológica há muito intuíam. O físico Fritjof Capra, na sua obra A Teia da Vida, demonstra como a biologia contemporânea aponta para padrões de auto-organização que desafiam o mecanicismo reducionista.

Do ponto de vista filosófico e teológico, autores como Thomas Berry e Brian Swimme formularam a ideia da "História do Universo" como o novo texto sagrado. Para Berry, o universo não é uma "coleção de objetos", mas uma "comunhão de sujeitos".

É neste ponto que a transcendência ganha a sua definição mais fecunda:
  1. Transcendência vertical (clássica): a busca por um Princípio Absoluto fora ou acima da criação material.
  2. Transcendência horizontal/ecológica: A experiência de autotranscendência dentro do tecido da criação - o momento em que a consciência humana supera os seus limites egoicos para experienciar o pertencimento à totalidade cósmica.
Como aponta a investigação contemporânea no âmbito da Ecologia Espiritual (Spiritual Ecology), esta espiritualidade não exige a adesão a dogmas institucionais, mas constitui um compromisso existencial de solidariedade com os seres não-humanos. Trata-se de uma espiritualidade corporizada (embodied spirituality), na qual a matéria é compreendida como o veículo vivo da própria revelação cósmica.

3. Evidência Científica, Psicologia e Epistemologia da Natureza
A convergência entre transcendência, espiritualidade e ecologia tem sido validada por diversos estudos no campo da psicologia existencial e da neurociência.
  1. Física Teórica e Teoria dos Sistemas: Gregory Bateson, na sua obra Steps to an Ecology of Mind, defendeu que a "mente" não se situa exclusivamente dentro do crânio individual, mas é um atributo de todo o sistema ecossistémico imerso em circuitos de informação.
  2. Psicologia Ecossistémica: o conceito de "Overview Effect" (Efeito de Visão Global), documentado em astronautas ao contemplarem a Terra a partir do espaço, demonstra uma experiência psicológica profunda de autotranscendência, onde a perceção das fronteiras geopolíticas desvanece e surge uma consciência espiritual imediata da fragilidade e unidade do planeta.
  3. Saúde Mental e Autotranscendência: estudos recentes no campo da psicologia positiva e da psiquiatria (como os trabalhos sobre a experiência do sublime e do awe/fascínio) demonstram que estados de transcendência provocados pelo contacto direto com a natureza reduzem significativamente a atividade da Rede de Modo Padrão (Default Mode Network - DMN) no cérebro. Esta redução neurológica correlaciona-se com a atenuação do "eu" egocêntrico e o aumento da empatia, do comportamento pró-social e da responsabilidade ecológica.

Conclusão
Conectar transcendência, ecologia e espiritualidade através de uma lente metafísica não é um exercício estético ou saudosista, mas uma urgência civilizacional. A verdadeira transcendência ecológica exige que desmantelemos a ilusão da separação.

Ao reconhecer que o ser humano não está na Terra como um visitante externo, mas é a própria Terra a pensar, sentir e contemplar a sua existência, o ato de proteger o planeta deixa de ser um dever ético exterior para se tornar num ato de autocuidado sagrado. A espiritualidade ecológica devolve o mistério e a reverência à matéria. Ao reaprender a transcender a pequenez do ego, a humanidade poderá finalmente reocupar o seu lugar legítimo na grande teia da vida: não como senhora ou proprietária, mas como a expressão consciente da harmonia do cosmos.

Referências Bibliográficas
  1. Bateson, G. (1972). Steps to an Ecology of Mind: Collected Essays in Anthropology, Psychiatry, Evolution, and Epistemology. San Francisco: Chandler Publishing Company.
  2. Berry, T. (1988). The Dream of the Earth. San Francisco: Sierra Club Books.
  3. Capra, F. (1996). The Web of Life: A New Scientific Understanding of Living Systems. New York: Anchor Books.
  4. Chatlos, J. (2025). Spiritual Experience: Scientific, Philosophical, and Theological Implications. Zygon: Journal of Religion and Science, 59(4), 949–981.
  5. Devall, B., & Sessions, G. (1985). Deep Ecology: Living as if Nature Mattered. Salt Lake City: Peregrine Smith Books.
  6. Eliade, M. (1957). O Sagrado e o Profano: A essência das religiões. Lisboa: Livros do Brasil.
  7. Næss, A. (1989). Ecology, Community and Lifestyle: Outline of an Ecosophy. Cambridge: Cambridge University Press.
  8. Sponsel, L. E. (2012). Spiritual Ecology: A Quiet Revolution. Santa Barbara: Praeger.
  9. Taylor, B. (2010). Dark Green Religion: Nature Spirituality and the Planetary Future. Berkeley: University of California Press.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Nick Cave and Warren Ellis - We Are Not Alone


Melhor som aqui
Apresentação do álbum aqui
Letra
This world has ears and rocks have eyes
Nature loves to hide
The world is a bush full of fiery eyes

Nature loves to hide
I've travelled a lot, I was observed
I was observed and unaware

I've travelled a lot unaware I was observed, I was observed
We are not alone (Good news for life) 20X

Uma Meditação sobre a Natureza: "We Are Not Alone"
No seu trabalho colaborativo para o documentário A Pantera das Neves (The Velvet Queen), Nick Cave e Warren Ellis exploram a linha ténue que separa a humanidade do divino. A canção "We Are Not Alone" serve como o pulsar emocional desta jornada, afastando-se da obsessão moderna pelo "eu" em direção a uma ligação profunda e comunitária com o meio ambiente.

A música sugere que a "presença" não se resume apenas a outras pessoas; trata-se dos espíritos da paisagem, dos animais que nos observam das sombras e dos ecos ancestrais que habitam os lugares silenciosos do mundo. É uma chamada de atenção, assustadoramente bela, para pararmos, ouvirmos e reconhecermos o nosso lugar dentro da tapeçaria viva do planeta.

sexta-feira, 13 de março de 2026

The Marrow of the Infinite

Foto do meu amigo Rui Manuel Vitor Cortes

"The mountain does not hold the water;
it is the water,
and the water is the stone’s slow breath.

We do not look at the wild;
we are the wild looking back at itself,
remembering that the boundary of our skin
is as porous as the moss upon the rock.

To go out into the wild is to go in,
climbing not over the rocks, but through the soul,
where every moss-slicked boulder
is a scripture written in green and grey.

Our biological dance is in the spray;
we breathe what the forest exhales,
and the forest drinks what we let fall.
There is no "environment" out there to save -
only our own extended body,
leaping over the precipice in a roar of white foam.

We listen with the heart that reconnects.
In the rush of the current, we hear the world’s grief
and the world’s ancient, stubborn joy.

We stop being the masters of the flow
and become the flow itself—
held by the ancestors of the silt,
feeding the children of the sea.

The granite stands. The water moves.
And we, the watchers, are the bridge
where the mountain finally learns
how beautiful it is. "

João Soares, 13.03.2016

Pedi ao Gemini para criar uma música baseada no meu poema. Ouvir aqui

quinta-feira, 12 de março de 2026

Viktor Orri Árnason - Hino da Terra


Snæfellsnes é uma península no oeste da Islândia, conhecida pelas suas paisagens dramáticas e pelo glaciar Snæfellsjökull.
No âmbito do projeto “Our Common Nature” de Yo-Yo Ma, Viktor Orri Árnason compôs “Earth Hymn”. Filmado ao vivo à sombra do glaciar Snæfellsnes, com Yo-Yo Ma e um pequeno coro a cantar palavras retiradas da antiga poesia islandesa - este é um apelo ao mundo desde a orla de um planeta em mudança.
Esta é uma peça profundamente evocativa, inspirada na mitologia nórdica e na urgência climática atual. O texto original em nórdico antigo provém do Völuspá (A Profecia da Vidente), um dos poemas mais importantes da Edda em Verso.

I. O Renascimento
Sér hún upp koma
öðru sinni
jörð úr ægi
iðjagræna.
Falla fossar,
flýgur örn yfir,
sá er á fjalli
fiska veiðir.

Vê ela erguer-se, uma segunda vez,
a terra do oceano, de um verde exuberante;
caem as cascatas; sobrevoa a águia,
aquela que, no monte, captura o peixe.

II. A Morada de Ouro
Sal sér hún standa
sólu fegra,
gulli þaktan
á Gimlé.
Þar skulu dyggvar
dróttir byggja
og um aldurdaga
yndis njóta.

Vê ela um salão erguido,
mais brilhante que o sol,
coberto de ouro, em Gimlé:
ali habitarão as gentes honradas,
e para todo o sempre desfrutarão da alegria.

Notas Curiosas para Contexto
  1. Gimlé: na mitologia nórdica, é o lugar mais alto e belo, destinado a sobreviver ao Ragnarök (o fim do mundo). É o refúgio da luz.
  2. "Gentes honradas" (Dyggvar dróttir): a tradução de righteous people em Portugal ganha um peso ético e comunitário, remetendo para aqueles que vivem com integridade.
  3. O simbolismo: a imagem da águia a pescar no monte simboliza uma natureza que recuperou o seu vigor e abundância originais.
Créditos:
Viktor Orri Árnason, maestro e compositor
Yo-Yo Ma, violoncelo
Maria Konráðsdóttir - soprano, Hildigunnur Einarsdóttir - mezzo-soprano, Eyjólfur Eyjólfsson - tenor, Fjölnir Ólafsson - barítono, Philip Barkhudarov - baixo

terça-feira, 3 de março de 2026

The First Morning

The First Morning
"The world is old and breathing here,
In mossy lungs and silvered river.
No clock has dared to etch a line
Upon this cathedral of leaves and water.

To stand amidst this hallowed wild
Is to feel the earth find her stolen child;
The noise of the age begins to cease
In the ancient ache of a perfect peace. "

João Soares - 03.03.2026

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Entrevista a Gary Snyder - aos 92 anos


Snyder enfatiza que os seres humanos perderam a conexão com o local onde vivem. Ele defende que devemos conhecer intimamente a nossa "bacia hidrográfica" (watershed): quais plantas crescem ali, de onde vem a água, quais animais habitam à sua volta. Para ele, a ecologia não é um conceito abstrato, mas a prática de se tornar um "nativo" do lugar onde se pisa.

Ele discute sua longa permanência no Japão e como o Zen-Budismo moldou sua visão de mundo. Snyder explica que a prática espiritual não está separada do trabalho físico (como cortar lenha ou cuidar da terra). Ele vê a natureza como um "sangha" (comunidade espiritual) expandido, onde todos os seres vivos têm dignidade.

A conversa toca na importância de comunidades pequenas e autossustentáveis. Snyder acredita que a resistência contra a destruição ecológica começa na escala local, através do fortalecimento dos laços comunitários e da educação das novas gerações sobre o valor do seu ecossistema imediato.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Encontros Improváveis - John Muir

Parque Natural do Alvão
John Muir: o profeta da natureza
John Muir (1838–1914) foi o catalisador que mudou a percepção do mundo ocidental sobre a vida selvagem, movendo-a da exploração utilitária para a veneração espiritual.

"Wilderness is a necessity... there must be places for human beings to satisfy their souls." – John Muir

John Muir, frequentemente aclamado como o "Pai dos Parques Nacionais", foi uma das figuras mais influentes na formação da consciência ecológica moderna. O seu pensamento não era apenas uma teoria académica, mas uma filosofia vivida, profundamente enraizada numa visão espiritual e holística da natureza. Para Muir, o mundo natural não era um recurso a ser explorado, mas um templo sagrado onde a humanidade poderia encontrar renovação e verdade.

O panteísmo naturalista
No cerne da filosofia de Muir reside a convicção de que Deus e a Natureza são indissociáveis. Influenciado pelo transcendentalismo de Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, Muir via em cada glaciar, árvore ou tempestade uma manifestação direta do divino. Ele rejeitava a visão antropocêntrica — a ideia de que a Terra existe apenas para servir o Homem — e argumentava que todas as espécies possuem um valor intrínseco, independentemente da sua utilidade para a civilização.

Preservacionismo vs. Conservacionismo
Muir é o principal rosto do preservacionismo. Esta postura diferenciava-o de contemporâneos como Gifford Pinchot, que defendia o "conservacionismo" (a gestão eficiente dos recursos naturais para uso humano). Enquanto Pinchot olhava para as florestas como madeira em potencial, Muir via-as como essenciais para a saúde espiritual e psicológica da humanidade. Para ele, a natureza selvagem (wilderness) deveria ser mantida intacta, protegida de qualquer intervenção comercial.

Pontos-Chave do Pensamento de Muir
  1. Interconectividade: Muir antecipou conceitos da ecologia moderna ao afirmar que, quando tentamos isolar algo na natureza, descobrimos que está "preso a tudo o resto no Universo".
  2. A Natureza como terapia: Ele acreditava fervorosamente que o contacto com o mundo selvagem era a cura para os males do materialismo industrial, descrevendo a ida para as montanhas como um "regresso a casa".
  3. Ativismo político: A sua filosofia traduziu-se em ação direta, resultando na fundação do Sierra Club e na criação de parques icónicos como Yosemite, Mount Rainier  e Sequoia.
"Milhares de pessoas cansadas, de nervos abalados e demasiado civilizadas, estão a começar a descobrir que ir para as montanhas é ir para casa; que a vida selvagem é uma necessidade." — John Muir

A herança de Muir continua viva hoje, servindo de base para o movimento ambientalista global e para a compreensão de que a preservação do planeta é, em última análise, a preservação da nossa própria essência.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Sandrine Piau and Armand Amar : Vivaldi - "Nisi Dominus"




Cum dederit dilectis suis 
somnum; 
Ecce haereditas Domini, filii: 
Merces, fructus ventris. 

When he has given sleep
to those he loves,
Behold, children are an inheritance
of the Lord,
A reward, the fruit of the womb


Embora o "Nisi Dominus" (RV 608) de Antonio Vivaldi tenha passagens que soam profundamente melancólicas e introspectivas, ele não é uma música de luto (como um Requiem), mas sim um Salmo de louvor e confiança.

O Significado e o Texto
A obra é uma ambientação musical do Salmo 127 (ou 126 na Vulgata Latina). O tema central não é a morte, mas a dependência humana de Deus.

A Tradução do Título: "Nisi Dominus" significa "A menos que o Senhor...".

A Mensagem: O texto diz que, sem a bênção divina, o trabalho humano é inútil: "Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam".

Por que ela soa como luto?
A confusão é muito comum por causa de um movimento específico: o "Cum Dederit".

O "Cum Dederit": É o quarto movimento desta obra e um dos mais famosos de Vivaldi. Ele é lento (Largo), etéreo e possui uma linha vocal que parece flutuar sobre cordas em surdina.

O Tema do Sono: A letra deste movimento diz: "Pois ele dá o sono aos seus amados". Na música barroca, o "sono" era frequentemente uma metáfora para a morte ou para a paz espiritual absoluta.

Uso no Cinema: Essa faixa é constantemente usada em filmes para cenas de tragédia, introspecção ou luto (como no filme James Bond: Spectre ou Suburra), o que reforça essa associação emocional no nosso cérebro.

AspectoDescrição
GêneroMúsica Sacra (Vesperal)
VozEscrita originalmente para um Contralto (ou Contra-tenor)
SentimentoContemplação, serenidade e submissão divina

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Louva-a-deus - auxiliares da agricultura biológica


O louva-a-deus é um inseto que fascina os humanos há séculos. Os registos mostram que os antigos egípcios, assírios e gregos, acreditavam que o louva-a-deus tinha poderes proféticos e sobrenaturais. Eram capazes de identificar a localização de objetos, animais ou pessoas perdidas. Na França antiga, acreditavam que um louva-a-deus era capaz de levar uma criança perdida para casa.

Nos nossos dias, o louva-a-deus ainda é considerado especial. Em algumas partes de África, acreditam que traz boa sorte se um louva-a-deus pousar num humano. Na China e no Japão, o louva-a-deus é reverenciado por seus movimentos graciosos e formas contemplativas. Inclusive, os seus movimentos inspiraram dois estilos conhecidos de antigas artes marciais chinesas. São muitas vezes vitos como um símbolo de equilíbrio e paciência. Antes de atacar, eles observam atentamente os seus alvos e são conhecidos por fazerem poses estratégicas.

Os louva-a-deus são insetos pertencentes à Ordem Mantodea (do grego mantis - profeta; eidos - aparência). É, por isso, fácil perceber a origem do nome louva-a-deus.  Deve-se ao modo como seguram a frente de seus corpos e posicionam suas enormes patas dianteiras quando estão em repouso, parece que eles estão a orar ou a meditar. 

Atualmente, são conhecidas mais de 2.000 espécies de louva-a-deus e podem ser encontrados em todos os continentes, exceto na Antártida. A maioria das espécies habita ambientes tropicais e subtropicais. O tamanho varia muito consoante a espécie. Podem ir dos 3 aos 8 cm, embora algumas espécies tropicais podem crescer até aos 20 cm ou mais.

Em Portugal, são conhecidas nove espécies. A mais abundante é o louva-a-deus-comum (Mantis religiosa). É uma das espécies que atinge maiores dimensões com as fêmeas a atingirem oito centímetros de comprimento.

São especialistas em camuflagem e mimetismo. Muitas vezes, estão ao nosso lado e nem os vemos. A cor mais comum é o verde ou o castanho. Contudo, muitas espécies assumem a cor do seu habitat que as rodeia. Eles podem imitar folhas, galhos, flores e até outros insetos. Algumas espécies tropicais conseguem assemelhar-se tanto com flores que alguns polinizadores chegam a pousar neles em busca de néctar.

A sua estrutura também é fantástica. Têm pescoço longo e flexível que se dobra facilmente, permitindo que girem a cabeça 180° de um lado para o outro, dando-lhes um campo de visão de 300°. Na cabeça, têm uma armadura bucal trituradora, antenas longas e delgadas, grandes olhos capazes de focar o mesmo local ao mesmo tempo e 3 ocelos (órgãos sensoriais que detetam a intensidade e direção da luz, mas não são capazes de formar imagens) entre as antenas. Tórax longo. As patas anteriores são preênseis, com espinhos que ajudam a reter a presa. A rapidez destas é tal que podem caçar moscas em voo.

São animais solitários. As fêmeas são maiores do que os machos. Embora possuam asas, são fracos voadores (as fêmeas voam pior do que os machos). O acasalamento do louva-a-deus ocorre entre agosto e outubro. É frequente a fêmea comer o macho durante ou após a cópula, começando pela cabeça, pois os gânglios nervosos que controlam os movimentos de cópula são controlados nos abdominais que são devorados no fim.

A postura dos ovos ocorre no outono. Os ovos são depositados juntamente com uma espuma que endurece, constituindo uma ooteca (involucro) que pode conter entre 200 a 300 ovos. As larvas emergem na primavera (maio/junho) já com o inseto plenamente desenvolvido.

Utilidade do Louva-a-deus na horta
A sua utilidade na horta é reconhecida há muito tempo. É um dos insetos auxiliares mais uteis. Têm um apetite voraz e comem tudo que lhes passe pela frente, moscas, mosquitos, formigas, traças, grilos, afídios ou gafanhotos e por vezes, podem até alimentar-se de presas três vezes maiores do que eles. Também comem insetos benéficos na horta, mas a sua preferência é pelos insetos que coincidentemente causam os maiores danos às culturas da horta.

Quase sempre atacam de emboscada aproveitando as suas capacidades de camuflagem. Com muita paciência, esperam que as suas presas estejam suficientemente perto, e de seguida, num décimo de segundo, desferem um golpe certeiro com as patas anteriores que são como garras e ajudam a segurar a presa enquanto é consumida.

As crias são caçadoras vorazes logo desde o início. À medida que vão crescendo, o tamanho das suas presas vai aumentando de modo correspondente.

Contrariamente ao que alguns dizem, o louva-a-deus não é venenoso.

São uma ajuda importante no controlo de pragas na horta.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O Natal que Nos Habita


Bom dia, amigos. Desejo-vos Boas Festas e que o espírito de Natal não é um dia só, mas todos os dias. Pensei muito nisso e fiz um poema e um poster.

O Natal que Nos Habita
Que o Natal não seja vitrina,
nem corrida para comprar mais,
mas alegria que se faz mesa,
calor que nasce do convívio.

Natal é abraço que fica,
é tempo dado sem preço,
é ouvir, perdoar, cuidar,
é partilhar o que vem do coração.

Que nasça, em cada casa,
não o ouro, mas a presença,
não o luxo, mas o encontro,
não a pressa, mas a esperança.

E que o amor — tão antigo e novo —
seja o presente essencial,
fazendo de cada dia
um pouco mais de Natal.

Joao Soares, 22.12.2025

domingo, 21 de dezembro de 2025

Santuário Cósmico


O santuário cósmico não é um lugar delimitado por paredes ou altares visíveis. Ele existe na totalidade do universo e manifesta-se sempre que o ser humano reconhece a sacralidade da vida. Cada estrela, cada organismo vivo, cada sopro de ar compõe este templo maior, onde tudo está interligado por relações de dependência, equilíbrio e mistério.

A cosmologia científica descreve a evolução do cosmos desde o Big Bang, a formação das galáxias, das estrelas e dos planetas, até ao surgimento da vida. Ao fazê-lo, mostra que somos feitos da mesma matéria primordial que deu origem às estrelas. Esta perceção reforça a ideia do santuário cósmico: não somos visitantes externos, mas expressão consciente de um processo cósmico em contínua transformação. O templo não está fora de nós; ele prolonga-se na nossa própria existência.

A cosmogonia, por sua vez, oferece narrativas simbólicas sobre a origem do mundo. Mitos de criação, tradições religiosas e saberes ancestrais não competem com a ciência, mas respondem a outras perguntas: porquê existimos, qual o nosso lugar, que valores devem orientar a vida. Essas narrativas transformam o cosmos em espaço de significado, onde cada elemento participa de uma história sagrada.

Pensar o cosmos como santuário é admitir que a natureza não é apenas recurso, mas presença. O solo que pisamos, a água que bebemos e a luz que nos aquece participam de uma ordem mais ampla, que nos antecede e nos transcende. Nesse sentido, cuidar da Terra torna-se um gesto espiritual: preservar é reverenciar, destruir é profanar.

O santuário cósmico também convida à humildade. Diante da imensidão do universo, o ser humano percebe a sua pequenez, mas também a sua responsabilidade. Somos parte do todo e, ao mesmo tempo, conscientes dele. Essa consciência transforma-se em ética: uma forma de estar no mundo baseada no respeito, na cooperação e na gratidão.

Por fim, reconhecer o cosmos como santuário é reconciliar ciência e espiritualidade. O conhecimento científico revela as leis e processos que sustentam a vida; a contemplação espiritual atribui sentido e valor a essa revelação. Juntas, elas apontam para uma visão integrada da existência, onde viver é, em si, um acto sagrado.