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domingo, 26 de julho de 2026

Porque é que a Inteligência Artificial consome tanta energia e água?


Toda a pergunta feita a um chatbot - até um simples "bom dia"- passa por servidores que consomem eletricidade. Na maioria dos casos, essa infraestrutura também usa água para arrefecimento, o que torna esse consumo hídrico um dos principais pontos de tensão sobre a sustentabilidade da IA.

De acordo com o relatório de eletricidade da Agência Internacional de Energia (IEA), os centros de dados consumiram cerca de 415 terawatt-hora (TWh) em 2024, perto de 1,5% de toda a eletricidade do planeta, com previsão de duplicar até 2030.

Mas o que mais preocupa é que boa parte dos centros de dados já opera em regiões com stresse hídrico, aumentando a pressão sobre um recurso escasso e mal distribuído.

Vejamos a seguir por que razão os modelos de IA consomem tanta energia e água, como funcionam os centros de dados por trás desta tecnologia e quais as soluções que as empresas testam para reduzir este impacto.

Por que razão a inteligência artificial consome tanta energia?
O principal motivo do consumo elevado é o processamento paralelo em escala industrial. Treinar um modelo de linguagem exige milhares de GPUs a operar simultaneamente durante semanas, analisando volumes massivos de dados até ajustar mil milhões de parâmetros.

Mas o consumo não termina com o treino. Cada nova pergunta feita a um chatbot ativa esse modelo novamente - e são mil milhões dessas consultas por dia, sustentando uma procura contínua por eletricidade.

O funcionamento constante gera calor, que precisa de ser dissipado por sistemas de arrefecimento. É por isso que, além da energia, o consumo de água também entra na equação dos centros de dados.

Uma análise publicada pela MIT Technology Review estima que treinar o GPT-4 consumiu cerca de 50 gigawatt-hora, energia suficiente para abastecer a cidade de São Francisco durante três dias inteiros.

Mas esse gasto de treino é pontual - a fase de uso diário, chamada de inferência, responde por entre 80% e 90% de toda a capacidade computacional da IA hoje, segundo investigadores ouvidos pela publicação.

O papel das GPUs no processamento
As GPUs (unidades de processamento gráfico) - aquelas mesmas usadas para renderizar gráficos em jogos de vídeo - ganharam com a IA um novo papel. Elas conseguem realizar milhões de cálculos ao mesmo tempo, algo essencial para treinar e executar os sofisticados modelos de linguagem.

Hoje, chips avançados, como o H100 da Nvidia, são projetados especificamente para este tipo de tarefa intensiva; consomem grandes quantidades de energia e exigem sistemas robustos de refrigeração para evitar o sobreaquecimento.

Em centros de dados de grande porte, é comum encontrar mais de 10 mil GPUs a funcionar em conjunto. Quanto maior o modelo de IA, mais chips são necessários - e maior o consumo total de eletricidade.

Por que razão a IA também consome água?
Como os servidores aquecem absurdamente, boa parte dos centros de dados usa água para os arrefecer o tempo todo e evitar falhas por sobreaquecimento. Outros, porém, dependem apenas de arrefecimento a ar, sem uso de água.

O consumo acontece de três formas: diretamente, no arrefecimento dos centros de dados; indiretamente, na geração da eletricidade que os abastece; e também na fabricação dos componentes eletrónicos que sustentam a IA.

Esta escala só tende a crescer. Um levantamento divulgado pela aliança GDSA projeta que o uso global de água pela IA pode saltar de 1,1 mil milhões para 6,6 mil milhões de metros cúbicos até 2027 - mais da metade do consumo anual do Reino Unido.

Como funciona o arrefecimento dos centros de dados
Os centros de dados removem o calor dos servidores por meio de dois métodos principais:
  1. Arrefecimento a ar: usa ar condicionado industrial para direcionar o ar gelado pela frente dos computadores e recolher o ar quente pelo corredor traseiro dos equipamentos.
  2. Arrefecimento líquido: fixa placas com canais de água tratada diretamente sobre os processadores, ou mergulha os próprios servidores em tanques com óleo dielétrico (que não conduz eletricidade), enviando o fluido aquecido para torres externas, onde é arrefecido.
O uso de água para controlar a temperatura dos servidores

Uma análise do Lincoln Institute of Land Policy sobre o impacto hídrico e territorial dos data centers estima que um centro de dados de médio porte consome tanta água quanto uma pequena cidade. Já instalações de grande escala chegam a gastar até 19 milhões de litros (5 milhões de galões) por dia, segundo o centro de investigação.

No Texas, um estudo do Houston Advanced Research Center (HARC) projeta que os centros de dados da região vão consumir 399 mil milhões de galões de água em 2030, o equivalente a 1,51 mil milhões de metros cúbicos.

O que são os centros de dados e por que razão importam tanto?
Espécie de "cérebros" da internet, os centros de dados são instalações físicas que albergam computadores, servidores e sistemas de armazenamento de uma organização para guardar e processar dados.

No contexto da IA, a importância dos centros de dados explodiu com a chegada dos complexos de hiperescala (Hyperscale), que revolucionaram a infraestrutura física ao trocar processadores comuns (CPUs) por superchips (GPUs e TPUs) focados em cálculos massivos.

O sobreaquecimento sem precedentes gerado por estes superchips exigiu a troca do ar condicionado tradicional por sistemas de arrefecimento líquido direto no chip. Mas quem realmente empurra o consumo elétrico para um patamar monstruoso são os próprios chips - a ponto de empresas de tecnologia estarem a comprar e a reativar centrais nucleares dedicadas para dar conta da procura.

Neste cenário, estas estruturas gigantescas tornaram-se o epicentro de uma corrida geopolítica por infraestrutura e capacidade computacional, na qual o grande desafio é garantir respostas em tempo real e, ao mesmo tempo, conter a procura por energia.

Infraestrutura necessária para executar modelos de IA
A operação de um modelo de IA depende de uma cadeia de equipamentos interligados. Entre os principais estão:
  1. Servidores com GPUs e CPUs: processam e armazenam os dados dos modelos;
  2. Sistemas de armazenamento: guardam dados de treino e backups;
  3. Equipamentos de rede: conectam os servidores entre si e à internet;
  4. Sistemas de arrefecimento: mantêm a temperatura sob controlo e evitam falhas;
  5. Geradores e baterias de emergência: garantem funcionamento contínuo durante cortes de energia.
Quais são os impactos ambientais da IA - e o que estão as empresas a fazer?
A IA gera impactos ambientais concretos, como emissões de carbono, consumo excessivo de água e lixo eletrónico, enquanto as empresas de tecnologia testam soluções que ainda não resolvem completamente o problema.

Segundo um artigo de investigação da Penn State University, o crescimento dos centros de dados amplia as emissões de gases de efeito de estufa, uma vez que boa parte da eletricidade usada ainda vem de fontes fósseis.
As iniciativas das empresas ainda não cobrem todos os riscos potenciais e efetivos.

Principais riscos ambientais:
  1. Emissões de carbono ligadas à eletricidade de origem fóssil;
  2. Stresse hídrico em regiões que já enfrentam escassez de água;
  3. Geração de lixo eletrónico pela vida útil curta das GPUs;
  4. Uso de geradores a gasóleo como reforço energético, poluindo o ar local.
Iniciativas para reduzir o impacto:
  1. Arrefecimento por imersão ou circuito fechado, que poupa água;
  2. Contratos de energia sem emissão de carbono, como o acordo assinado pela Microsoft para reativar a central nuclear de Three Mile Island;
  3. Metas de "zero água" para arrefecimento assumidas por grandes empresas de tecnologia;
  4. Modelos de IA menores e mais eficientes, treinados para tarefas específicas.
Mesmo com os avanços, investigadores do Lincoln Institute of Land Policy afirmam que a falta de transparência das empresas dificulta medir o real impacto ambiental da IA no mundo.

O futuro da inteligência artificial será mais sustentável?
A resposta a esta pergunta ainda é um grande ponto de interrogação: as soluções em desenvolvimento podem reduzir o consumo por tarefa de IA, mas a procura por centros de dados cresce mais rápido do que qualquer refinação conseguiria compensar.

Investigadores da Penn State University sobre eficiência energética e IA apontam que, sem mudanças, os centros de dados podem responder por até 20% do consumo elétrico global entre 2030 e 2035, pressionando redes já sobrecarregadas.

A eficiência energética por watt tem melhorado a cada nova geração de chips, reduzindo a energia gasta em cada cálculo - mas não ao ritmo necessário para compensar o crescimento da procura. Modelos de IA menores, treinados para tarefas específicas, também ajudam a evitar o desperdício de capacidade.

Para tornar o setor mais transparente, a União Europeia exige, desde 2024, através do regulamento de monitorização da Comissão Europeia, que os centros de dados comuniquem o seu consumo de energia e água. Contudo, o primeiro ciclo de relatórios mostrou falhas: apenas cerca de um terço das instalações enviou dados, e os números do consumo de água continuam pouco fiáveis.

As perspectivas apontam que, mantido o ritmo atual, a IA tende, sim, a tornar-se mais eficiente - mas não necessariamente mais sustentável.

O grande problema da IA não é apenas quanto cada sistema consome, mas quantas vezes é utilizado: quanto mais pessoas recorrem a chatbots e geradores de imagem, maior é a pressão sobre recursos naturais já escassos.

Formulada assim, a pergunta certa é: até que ponto a conveniência de uma resposta instantânea da IA vale o custo ambiental por trás dela - e quem deve pagar essa conta?

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Live Nation, dona da Meo Arena Condenada: O Escândalo de Monopólio e o Crime Ambiental que a Indústria da Música Tenta Esconder


A Live Nation, a maior promotora de espetáculos do mundo e detentora da maior empresa de venda de bilhetes, a Ticketmaster, foi condenada por um júri norte-americano por ter estabelecido um monopólio ilegal no mercado da música ao vivo. Poderá ter de pagar uma multa avultada ou separar-se mesmo da empresa de bilhética. A empresa vai recorrer.

A Live Nation, a maior promotora de música do mundo e em Portugal dona da Meo Arena, em Lisboa, foi formalmente condenada por um júri norte-americano por ter estabelecido um monopólio ilegal no mercado dos eventos ao vivo.

A Live Nation e a Ticketmaster, gigante da bilhética adquirida pela Live Nation em 2010, foram levadas a tribunal por mais de trinta estados norte-americanos, que conseguiram demonstrar ao júri do caso de que a empresa violou leis de direito à concorrência.

De acordo com esses mesmos estados, a Live Nation - que em Portugal assumiu também o controlo da promotora Ritmos e Blues - recorreu a ameaças contra artistas e salas de espetáculos para que recorressem aos seus serviços, retaliando quando não o faziam - excluindo, por exemplo, certas salas de algumas das digressões mais lucrativas que promoveu.

Multa ou separação
Segundo noticia a imprensa norte-americana, a Live Nation poderá, agora, ser condenada a pagar uma multa avultada ou, em último caso, a separar-se da Ticketmaster. Em comunicado citado pela “Rolling Stone”, a promotora afirmou que o veredicto do júri não constitui “a última palavra neste caso”, prometendo recorrer da decisão. O caso poderá vir a arrastar-se, nos tribunais, durante anos.

Já Stephen Parker, diretor executivo da National Independent Venue Association, que representa salas de espetáculos independentes nos Estados Unidos, exigiu a separação da Live Nation e da Ticketmaster. “Não deviam ser responsáveis por mais de 50% das digressões”, afirmou à revista norte-americana. “As indemnizações pagas aos estados devem ser entregues às salas de espetáculos, promotoras, festivais independentes e aos fãs, que há 15 anos que sofrem com este monopólio”.

Sem acordo
No início de março, uma semana após o início do julgamento, a Live Nation anunciou ter chegado a acordo com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, comprometendo-se a pagar uma indemnização no valor de 200 milhões de dólares e a permitir que a Ticketmaster passe a poder ser utilizada por plataformas concorrentes.

Porém, apenas sete desses estados aceitaram o acordo oferecido pelo Departamento de Justiça, com os restantes a decidir continuar com o caso.


O julgamento também ganhou contornos políticos, com a Live Nation a pedir à administração Trump para que interviesse no caso. O “Wall Street Journal” escreveu que o presidente tomou parte em algumas discussões pré-acordo.

Em Portugal, a Live Nation é promotora de alguns dos maiores espetáculos do ano, como os dois concertos de Bad Bunny no Estádio da Luz, em maio, ou os recentes espetáculos de Rosalía na Meo Arena.

Impacto Ambiental
A Live Nation é frequentemente criticada pelo impacto ecológico das digressões globais ("Stadium Tours"), que geram emissões massivas de CO2 devido ao transporte de toneladas de equipamento e deslocações aéreas.

Greenwashing vs. Ação 
A empresa lançou a plataforma Green Nation,  prometendo reduzir emissões em 50% até 2030 e eliminar plásticos de uso único. 
Charter de Sustentabilidade da Live Nation para veres as promessas oficiais (como a redução de 50% nas emissões até 2030).
No entanto, críticos argumentam que estas medidas são insuficientes face à escala do desperdício gerado em festivais e à logística global que a empresa incentiva para manter o seu domínio.

Por outras palavras, enquanto a empresa instala painéis solares nalguns recintos, o seu modelo de negócio baseado na exclusividade e em "mega-festivais" aumenta a pegada carbónica per capita comparado com concertos locais menores.

1. O Estudo do MIT (Janeiro de 2026)
Recentemente, o MIT (Climate Machine) publicou aquela que é considerada a primeira avaliação abrangente das emissões da música ao vivo nos EUA e no Reino Unido, com o apoio da própria Live Nation e de bandas como os Coldplay.

O que diz: o estudo revela que as emissões não vêm apenas do palco, mas de decisões logísticas.
Dados: as viagens dos fãs representam entre 62% (EUA) e 77% (Reino Unido) das emissões totais de um evento.

2. O Peso do "Scope 3" (Emissões Indiretas)
A Live Nation foca-se muito no "Scope 1 e 2" (emissões diretas dos seus recintos), mas especialistas em sustentabilidade apontam que o verdadeiro impacto está no Scope 3:
Logística Global: a promoção de mega-digressões mundiais exige o transporte de centenas de toneladas de aço, luzes e ecrãs em aviões de carga e dezenas de camiões.
Resíduos Sólidos: estudos citados pela Greenly indicam que a indústria de eventos gera cerca de 1.2 mil milhões de toneladas de CO₂ anualmente. Festivais de grande escala (como os geridos pela Live Nation) produzem, em média, 100 toneladas de resíduos por dia.

3. O Impacto da Tecnologia (NFTs e Streaming)
Embora menos visível, a Live Nation explorou o mercado de bilhetes NFT e colecionáveis digitais. Estudos da Digiconomist mostram que a infraestrutura de blockchain para estes ativos (dependendo da rede utilizada) pode ter um consumo energético equivalente ao de pequenas cidades, algo que colide com as metas ambientais da empresa.

Links e Recursos Sugeridos para Aprofundar:
Estudo MIT Climate Machine:
Relatório sobre Emissões da Música ao Vivo (Análise do impacto real).
Carbonmark:
Análise da pegada de carbono da indústria de eventos.
The Guardian: Frequentemente publicam investigações sobre o lixo deixado em festivais geridos por grandes promotoras [como este sobre progressos ecológicos destes eventos na Austrália]

sábado, 6 de dezembro de 2025

Que fazer aos cigarros electrónicos usados?


Além dos graves riscos à saúde associados ao uso de cigarros eletrónicos, esses dispositivos também representam uma ameaça significativa ao meio ambiente. O seu descarte inadequado gera uma série de consequências nocivas.

Frequentemente, quando os dispositivos chegam ao fim da sua vida útil, são abandonados como lixo comum em locais públicos, como parques, calçadas ou beiras de estrada. Além do impacto visual, esse descarte irregular pode causar danos materiais — como furos em pneus de veículos — e contribuir para a poluição ambiental.

No entanto, os problemas são ainda mais profundos. Os cigarros eletrónicos contêm metais pesados, como antimónio, níquel e chumbo, que podem infiltrar-se no solo e nos corpos de água quando descartados de forma incorreta. Muitos modelos, especialmente os descartáveis, são alimentados por baterias de íon-lítio, que oferecem risco de incêndio ou explosão se manuseadas inadequadamente, mesmo em aterros sanitários. Além disso, as carcaças de plástico podem degradar-se em microplásticos, agravando a contaminação do solo e da água.

De acordo com as normas ambientais, os cigarros eletrónicos usados devem ser encaminhados para pontos de coleta especializados em resíduos eletrónicos ou para instalações autorizadas a manusear resíduos perigosos, garantindo assim um descarte seguro e responsável.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Extração de minerais no fundo do mar pode devastar ecossistemas marinhos, alerta estudo


A extração de minerais nas profundezas do oceano pode trazer efeitos devastadores aos ecossistemas marinhos, alertaram cientistas da Universidade do Havai num estudo publicado na revista Nature Communications.

A investigação concluiu que as nuvens de partículas suspensas na água geradas pela extração de minerais no fundo do mar podem privar de alimento os organismos microscópicos que sustentam toda a cadeia alimentar oceânica, com impacto potencial nas pescas e no consumo humano.

Esta extração em mar profundo visa perfurar o fundo do oceano para recolher materiais ricos em cobre, ferro, zinco e outros minerais críticos usados em veículos elétricos, tecnologias digitais e aplicações militares. Embora ainda não tenha começado à escala comercial, vários países estão já a preparar operações à medida que cresce a procura por estes materiais essenciais à transição energética.

Os investigadores estudaram amostras recolhidas em 2022 numa zona do Pacífico situada entre os 200 e 1.500 metros de profundidade. Segundo o estudo, os resíduos libertados durante os testes de extração criaram nuvens de partículas com o mesmo tamanho dos alimentos ingeridos pelo zooplâncton, pequenos organismos que servem de base à cadeia alimentar marinha.

Ao contrário de estudos anteriores centrados nos danos causados no leito oceânico, esta investigação foca-se nos efeitos no ecossistema marinho. Os cientistas consideraram urgente avaliar a profundidade e qualidade adequadas para devolver a água e sedimentos ao oceano.

Brian Popp, autor principal do estudo, defendeu que “poderá nem sequer ser necessário escavar o fundo do mar” e sugere fontes alternativas de metais, como a reciclagem de baterias e equipamentos eletrónicos ou o reaproveitamento de resíduos mineiros.

Já Michael Dowd, coautor do estudo, advertiu ainda que “se apenas uma empresa operar numa pequena área, o impacto será limitado, mas se várias empresas explorarem durante anos, os efeitos podem espalhar-se por toda a região”.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Sabia que estamos a deitar mais de metade do lixo no sítio errado? Não é o único comportamento que temos de mudar



Vai na rua e tem um resíduo em mãos. Deita-o para o chão porque não há contentores por perto, mas pode estar enganado se pensa que a culpa é de não existir um contentor “ali à mão”. A vice-presidente da ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável, Susana Fonseca, esclarece a situação: “O lixo é nosso, a responsabilidade é nossa e nós é que temos de encontrar uma solução.”

Separar o lixo e distribuí-lo pelos diferentes contentores coloridos é um dos primeiros hábitos a ganhar se queremos ajudar o ambiente. “É benéfico para todos nós, enquanto sociedade, porque quando separamos na origem conseguimos aproveitar muito mais daquelas matérias-primas”, garante Susana Fonseca, que admite “uma certa desresponsabilização e falta de proatividade” por parte da população no ato de reciclar.

Em concreto, qual será o problema de misturar todo o lixo num só caixote? A vice-presidente daquela associação explica à CNN Portugal que quando os resíduos são misturados “corre-se um maior risco de haver contaminações”. Contaminação esta que dificulta o tratamento dos resíduos, podendo mesmo comprometer a recuperação dos materiais recicláveis, de acordo com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA). “A separação deve acontecer tão cedo quanto possível”, não só para melhorar as hipóteses de reciclar, mas também para minimizar o número de tratamentos pelos quais o resíduo passa antes de poder ser reciclado.

Do plástico recolhido em 2023, 77% foi encontrado no fluxo indiferenciado. O metal fica à frente com 81% a ser recolhido do lixo indiferenciado. Já o cartão e o papel destacam-se pela positiva, com 47% destes resíduos a serem retirados do lixo de recolha seletiva, mas mais de metade - 53% - ainda na recolha indiferenciada. Os dados são da APA, que alerta para a “quantidade muito significativa de resíduos com potencial de serem encaminhados para reciclagem que existe no fluxo indiferenciado”.

“É urgente inverter esta realidade”. O presidente da APA, José Pimenta Machado, refere-se à deposição em aterro dos resíduos dos portugueses que, com “pequenos gestos individuais”, pode ser diminuída. Os gestos em causa, “somados, têm um impacto considerável” e, não sendo possível evitar por completo a produção de resíduos, “é fundamental assegurar o seu encaminhamento para um destino adequado”, conta.

Portugal foi responsável pela produção de mais de cinco mil toneladas de resíduos urbanos, só em 2023, de acordo com os dados disponibilizados pela agência. “O país tem de acordar, estamos em estado de emergência.” O apelo é feito por José Pimenta Machado, que, em entrevista à CNN Portugal, revela que no ano passado 53% do nosso lixo foi parar aos aterros. Em 2023, esta percentagem era mais elevada - 59% -, mas a diferença continua a ser pouco expressiva. Deste total, 12% conheceram o seu destino na valorização energética - um processo de queima controlada que permite produzir energia a partir de todos os resíduos que não estão próprios para serem reciclados ou utilizados na compostagem. Para Susana Fonseca, “estarmos a incinerar os [resíduos] orgânicos também é uma má solução.”

A vice-presidente da associação ZERO critica o desperdício de “matéria orgânica” que é “fundamental para os nossos solos, particularmente em Portugal, que tem solos pobres nesta matéria”, refere. “Nós estamos a colocá-los em aterro e depois vamos comprar os fertilizantes para o solo”, acrescenta, sublinhando aquilo que acredita ser “uma má gestão de recursos”.

A boa notícia é que não somos obrigados a deitar fora estes biorresíduos (restos de comida, por exemplo). A compostagem doméstica pode ser uma solução e, de acordo com Susana Fonseca, é “uma das formas mais eficazes de reduzirmos a quantidade de resíduos orgânicos que saem das nossas casas.” Descrita pela vice-presidente da ZERO como “um processo relativamente simples”, a compostagem pode ser feita “no nosso quintal ou mesmo na nossa varanda”. O solo é quem mais beneficia desta prática, mas a população, especialmente as comunidades próximas de aterros, não fica nada atrás. “Estes resíduos são os que criam mais problemas, por causa dos cheiros, a atração de ratos e aves, por exemplo”, explica.

Apostar na prevenção
“Uma das formas mais eficazes de reduzirmos os resíduos que produzimos é começar a tentar reduzir o nosso consumo”. Além da reciclagem, reduzir o consumo próprio - e o desperdício - poderá ser uma maneira tão ou mais eficiente de minimizar o impacto ambiental do nosso lixo, indica Susana Fonseca.

Já se sentiu seduzido pelas promoções dos supermercados? Se sim, provavelmente não é o único. Fazer uma lista e pensar bem naquilo que é realmente preciso comprar, pode ajudá-lo. Pimenta Machado aconselha a população a ganhar o hábito de “planear antecipadamente as refeições de forma a comprar apenas as quantidades e os produtos necessários”. Susana Fonseca argumenta a favor “porque quando ficamos deslumbrados pelas promoções, muitas vezes o que compramos acaba por se estragar”.

Ser criterioso nas compras pode ajudar o ambiente, e podemos sê-lo a vários níveis. “Quando falamos em resíduos urbanos, os têxteis, os objetos que compramos para a casa e até o equipamento eletrónico fazem parte, portanto devemos pensar muito bem sobre a necessidade de comprar algo novo”, esclarece a vice-presidente da ZERO. No caso das roupas e dos móveis, podem ganhar uma segunda vida, se, como afirma, “o primeiro reflexo não for deitar fora”: “Estando em boas condições, podem ser doados ou vendidos em segunda mão”.

“As garrafas reutilizáveis” e os “nossos próprios sacos” devem substituir as embalagens descartáveis, diz Susana Fonseca, e mesmo as compras a granel - que devem ser “privilegiadas” - “funcionam bem se levarmos sacos”, caso contrário corremos o risco de estar a comprar uma pequena quantidade e a levá-la “dentro de um saco grande, que é pior do que se comprássemos um produto embalado”, refere. O presidente da APA reforça que “escolher produtos reutilizáveis é apostar na durabilidade”.

Se não pensa duas vezes antes de deitar um alimento fora, talvez o deva começar a fazer. “Nos produtos que são mais sensíveis precisamos de ter um cuidado a redobrar, mas muitos produtos vão para o lixo e ainda podem ser aproveitados”, afirma a vice-presidente da ZERO. Congelar ou pré-confecionar os alimentos que se podem vir a estragar evita “o desperdício para o ambiente e para os orçamentos familiares.” José Pimenta Machado adiciona mais um conselho à lista: “A aposta pode passar pelo reaproveitamento das sobras de refeições anteriores na confecção de novas receitas.”

As soluções que nos restam para além destas não são tão aliciantes. “Ou começamos a exportar resíduos ou regressamos às lixeiras”, alerta o presidente da APA. Isto num cenário em que, segundo os dados mais recentes de 2024, temos em média “14% de aterro disponível” e a maior parte dos nossos resíduos urbanos continua a ter os aterros como destino final.

O Plano Estratégico para os Resíduos Urbanos (PERSU 2030), aprovado pelo Governo, dita que, em 2035, apenas 10% dos nossos resíduos urbanos podem ser encaminhados para os aterros.

sábado, 25 de outubro de 2025

Impactos Ambientais da Inteligência Artificial

  1. Consumo energético elevado

  2. Uso intensivo de água

    • O resfriamento dos servidores de IA requer grandes quantidades de água

    • De acordo com a OCDE, a produção de chips (parte essencial da IA) também usa muita água durante a fabricação.A Greenpeace estima que os data centers consumiram cerca de 175 mil milhões de litros de água em 2023, e que esse valor pode mais do que triplicar até 2030. 

  3. Emissões de gases de efeito estufa (GEE)

    • O aumento do consumo de energia de data centers alimentados por combustíveis fósseis leva a mais emissões de CO₂. 

    • No relatório da OECD, é sublinhado que tanto a operação (uso) quanto a produção de hardware contribuem para as emissões de GEE. 

  4. E-lixo (resíduos eletrónicos)

    • Há previsão de grande crescimento no lixo eletrónico por causa da IA: um estudo indicou que até 2030 podem ser geradas entre 1,2 a 5 milhões de toneladas métricas de e-lixo associadas à IA. 

    • Isso vem tanto do crescimento dos data centers (e necessidade de mais hardware) quanto da renovação frequente de componentes especializados (como GPUs).

  5. Efeitos indiretos (“rebote” / paradoxos)

    • Há risco de efeito rebote: a eficiência proporcionada pela IA (ex: otimização de processos) pode paradoxalmente levar a um aumento do consumo geral se incentivar mais uso ou produzir novas demandas. 

    • Ou seja, nem sempre “IA mais eficiente” significa menos impacto ambiental — depende muito de como a tecnologia é usada e escalada.

  6. Impactos na saúde pública

    • A pegada ambiental da IA (especialmente emissões e uso de energia) também pode afetar a saúde pública: um estudo aponta que a operação dos data centers pode emitir poluentes que têm custo em termos de saúde (ex: partículas, poluição do ar). 

    • Esses custos de saúde podem afetar desproporcionalmente comunidades mais vulneráveis. 


Estudos específicos de impacto

  • Um artigo recente avaliou todo o ciclo de vida dos modelos de linguagem (incluindo produção de hardware): estimou-se, por exemplo, 493 toneladas métricas de CO₂ emitidas e quase 2,8 milhões de litros de água consumidos durante o desenvolvimento/treino. 

  • Também há uma análise ética (“elemental ethics”) que discute como a extração de minerais para hardware e o uso de água impactam comunidades locais. 


Conclusão com base nas fontes

  • Os impactos ambientais da IA são reais e significativos, especialmente no que toca a energia, água e resíduos eletrónicos.

  • No entanto, não é tudo negativo: se bem gerida, a IA pode ajudar em soluções ambientais (monitorização, otimização energética, agricultura, etc.).

  • É importante haver transparência, regulamentação e estratégias para mitigar esses impactos: por exemplo, adoção de energia renovável, design de data centers mais eficientes e políticas de reciclagem de hardware.

Artigos académicos








quinta-feira, 15 de maio de 2025

The Shitthropocene: Welcome to the Age of Cheap Crap


O Antropoceno Merda é uma visão antropológica simulada dos hábitos de consumo da humanidade, lançando um olhar satírico (mas brutalmente honesto) sobre como tudo se está a tornar uma merda e porque é que o impulso por mais pode destruir-nos a todos.

Já deve ter notado que muitas coisas parecem uma droga agora. Este filme não é sobre todas as coisas más — isso seria um filme demasiado longo. Mas trata-se do consumo, que é tanto uma causa como um sintoma da chatice.

Por uma série de razões, praticamente toda a gente está a produzir e a comprar demasiadas coisas, algo que fomos evolutivamente programados para querer. O que antes era uma vantagem (mais! = melhor!) está agora a contribuir para a destruição do planeta.

O Antropoceno é uma viagem desde as origens celulares da nossa falta de controlo dos impulsos até às formas como os nossos sistemas nervosos centrais foram pirateados em nome do capital. É também sobre como podemos começar a salvar-nos de nós mesmos.

David Byars é um premiado documentarista cujo trabalho abrange desde a apátrida na República Dominicana até às Terras Públicas dos Estados Unidos.

sábado, 21 de setembro de 2024

A Inteligência Artificial gera um problema ambiental. Veja o que o mundo pode fazer a respeito.


Há grandes esperanças de que a inteligência artificial (IA) possa ajudar a enfrentar algumas das maiores emergências ambientais do mundo. Entre outras coisas, a tecnologia já está sendo usada para mapear a dragagem destrutiva de areia e mapear as emissões de metano, um potente gás de efeito estufa.

Mas quando se trata do meio ambiente, há um lado negativo na explosão da IA e de sua infraestrutura associada, de acordo com um crescente corpo de pesquisas. A proliferação de data centers que abrigam servidores de IA produz lixo eletrônico. Eles são grandes consumidores de água, que está se tornando escassa em muitos lugares. Eles dependem de minerais essenciais e elementos raros, que muitas vezes são extraídos de forma insustentável. Além disso, usam grandes quantidades de eletricidade, estimulando a emissão de gases de efeito estufa que aquecem o planeta.

“Ainda há muito que não sabemos sobre o impacto ambiental da IA, mas alguns dos dados que temos são preocupantes”, disse Golestan (Sally) Radwan, Diretor digital do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). “Precisamos ter certeza de que o efeito líquido da IA no planeta é positivo antes de implantarmos a tecnologia em escala.”

Esta semana, o PNUMA lançou uma nota sobre a pegada ambiental da IA e considera como a tecnologia pode ser implementada de forma sustentável. Ela segue um importante relatório do PNUMA, Navigating New Horizons (Navegando Novos Horizontes), que também examinou as promessas e os perigos da IA. Veja a seguir o que essas publicações revelaram.

Antes de tudo, o que é IA?
IA é um termo abrangente para um grupo de tecnologias que podem processar informações e, pelo menos superficialmente, imitar o pensamento humano. Formas rudimentares de IA existem desde a década de 1950. Mas a tecnologia evoluiu em um ritmo alucinante nos últimos anos, em parte devido aos avanços na capacidade de computação e à explosão de dados, que é crucial para o treinamento de modelos de IA.

Por que as pessoas estão entusiasmadas com o potencial da IA no que diz respeito ao meio ambiente?
O grande benefício da IA é que ela pode detectar padrões nos dados, como anomalias e semelhanças, e usar o conhecimento histórico para prever com precisão os resultados futuros. Isso poderia tornar a IA inestimável para monitorar o meio ambiente e ajudar governos, empresas e indivíduos a fazer escolhas mais favoráveis ao planeta. Ela também pode aumentar a eficiência. O PNUMA, por exemplo, usa a IA para detectar quando as instalações de petróleo e gás libertam metano, um gás de efeito estufa que impulsiona as mudanças climáticas.

Avanços como esses estão alimentando a esperança de que a IA possa ajudar o mundo a enfrentar pelo menos alguns aspectos da crise ambiental que inclui mudanças climáticas, perda da natureza e da biodiversidade, e poluição e resíduos.

Então, como a IA é problemática para o meio ambiente?
A maioria das instalações de IA em grande escala tem ocorrido em data centers, inclusive aqueles operados por provedores de serviços em nuvem. Esses data centers podem causar um grande impacto no planeta. Os componentes eletrônicos que eles abrigam dependem de uma quantidade impressionante de grãos: para fabricar um computador de 2 kg, são necessários 800 kg de matérias-primas. Além disso, os microchips que alimentam a IA precisam de elementos de terras raros, que muitas vezes são extraídos de maneiras destrutivas para o meio ambiente, observou a Navigating New Horizons.

O segundo problema é que os data centers produzem lixo eletrónico, que geralmente contém substâncias perigosas, como mercúrio e chumbo.

Em terceiro lugar, os data centers usam água durante a construção e, quando entram em operação, usam a água para resfriar os componentes elétricos. Globalmente, a infraestrutura relacionada à IA poderá em breve consumir seis vezes mais água do que a Dinamarca, um país de 6 milhões de habitantes, de acordo com uma estimativa. Isso é um problema quando um quarto da humanidade já não tem acesso a água limpa e saneamento.

Por fim, para alimentar seus eletrônicos complexos, os data centers que hospedam a tecnologia de IA precisam de muita energia, que na maioria dos lugares ainda vem da queima de combustíveis fósseis, produzindo gases de efeito estufa que aquecem o planeta. Uma solicitação feita por meio do ChatGPT, um assistente virtual baseado em IA, consome 10 vezes mais eletricidade do que uma pesquisa no Google, informou a Agência Internacional de Energia. Embora os dados globais sejam escassos, a agência estima que, no centro tecnológico da Irlanda, a ascensão da IA poderá fazer com que os data centers respondam por quase 35% do uso de energia do país até 2026.

Impulsionado em parte pela explosão da IA, o número de data centers aumentou de 500.000 em 2012 para 8 milhões, e os especialistas esperam que as demandas da tecnologia no planeta continuem crescendo.

Alguns disseram que, quando se trata do meio ambiente, a IA é um curinga. Por que isso acontece?
Temos um bom controle sobre os possíveis impactos ambientais dos data centers. Mas é impossível prever como os próprios aplicativos baseados em IA afetarão o planeta. Alguns especialistas temem que eles possam ter consequências não intencionais. Por exemplo, o desenvolvimento de carros autônomos movidos a IA poderia fazer com que mais pessoas dirigissem em vez de andar de bicicleta ou usar o transporte público, aumentando as emissões de gases de efeito estufa. Além disso, há o que os especialistas chamam de efeitos de ordem superior. A IA, por exemplo, poderia ser usada para gerar desinformação sobre as mudanças climáticas, minimizando a ameaça aos olhos do público.

Alguém está fazendo algo a respeito dos impactos ambientais da IA?
Mais de 190 países adotaram uma série de recomendações não vinculantes sobre o uso ético da IA, que abrange o meio ambiente. Além disso, tanto a União Europeia quanto os Estados Unidos da América introduziram uma legislação para atenuar o impacto ambiental da IA. Mas políticas como essas são poucas e distantes entre si, diz Radwan.

“Os governos estão correndo para desenvolver estratégias nacionais de IA, mas raramente levam em conta o meio ambiente e a sustentabilidade. A falta de proteções ambientais não é menos perigosa do que a falta de outras proteções relacionadas à IA.”

Como o mundo pode controlar as consequências ambientais da IA?
Na nova nota sobre a questão, o PNUMA recomenda cinco coisas principais. Em primeiro lugar, os países podem estabelecer procedimentos padronizados para medir o impacto ambiental da IA; no momento, há uma escassez de informações confiáveis sobre o assunto. Em segundo lugar, com o apoio do PNUMA, os governos podem desenvolver regulamentações que exijam que as empresas divulguem as consequências ambientais diretas dos produtos e serviços baseados em IA. Em terceiro lugar, as empresas de tecnologia podem tornar os algoritmos de IA mais eficientes, reduzindo sua demanda por energia, reciclando água e reutilizando componentes quando possível. Em quarto lugar, os países podem incentivar as empresas a tornar seus data centers mais ecológicos, inclusive usando energia renovável e compensando suas emissões de carbono. Por fim, os países podem inserir suas políticas relacionadas à IA em suas regulamentações ambientais mais amplas.

O PNUMA está em ajudar o mundo a enfrentar melhor os desafios ambientais do futuro. Para isso, intensificamos nosso trabalho de previsão estratégica, examinando o horizonte em busca de ameaças emergentes ao planeta. Esse processo culminou no desenvolvimento do Navigating New Horizons - A Global Foresight Report on Planetary Health and Human Wellbeing (Navegando por novos horizontes - um relatório de previsão global sobre saúde planetária e bem-estar humano), publicado no início deste ano. Produzido em colaboração com o Conselho Internacional de Ciências, o relatório examinou oito mudanças globais que estão acelerando a tripla crise planetária: mudança climática, perda da natureza e da biodiversidade, poluição e resíduos.

sexta-feira, 15 de março de 2024

O mar não está para peixe!


Auntlantis: 2Sweeping the Floor2
A typical mundane workday for the Aunties of Auntlantis.Aunties take a break on the beach after a day of cleaning the ocean.
A nap on the beach is the best way to relax.
Inspired by Plato, great pacific garbage patch and poor birdies with bellies full of plastic trash.

This is an incredible video by Nice Aunties, an ground-breaking and innovative Japanese activist group who draw attention to a wide range of issues relating to ocean conservation and the destruction of our planet with outstandingly creative communications.

Original version posted on Instagram on 9 March 2024

domingo, 14 de maio de 2023

Dia Mundial do Comércio Justo


Os 10 princípios
Todos os produtos considerados de comércio justo devem seguir estes dez princípios:
1-Criar oportunidades para produtores economicamente desfavorecidos
2-Transparência e Responsabilidade
3-Práticas de negociação justas
4-Pagamento justo
5-Garantir a inexistência de trabalho infantil ou trabalho forçado
6-Compromisso com a não discriminação, igualdade de género e empoderamento económico das mulheres e liberdade de associação
7-Garantir boas condições de trabalho
8-Capacitação dos produtores
9-Promoção do comércio justo
10-Ação climática e proteção do ambiente


sábado, 1 de abril de 2023

UE: Portugal em último lugar na recolha de resíduos elétricos e eletrónicos


Portugal é o pior país da União Europeia no tratamento de Resíduos de Equipamentos Eléctricos e Electrónicos (REEE), ficando abaixo da média europeia (45%), segundo dados do Eurostat. Apenas 32% dos REEE foram recolhidos em 2020, muito abaixo da meta europeia de 65%.

Em 2020, os equipamentos colocados no mercado chegaram às 212 mil toneladas, e a recolha não ultrapassou as 59 mil toneladas.

Segundo a Zero, existe subfinanciamento do sistema de gestão dos REEE, porque são muito baixos os valores que as empresas que criam os equipamentos pagam às entidades gestoras dos REEE, quando os equipamentos se tornam resíduos.

A Zero defende que os equipamentos elétricos e eletrónicos deviam ter um sistema de depósito/retorno como as embalagens de bebidas de plástico e vidro, de forma a que as pessoas recebessem o valor do depósito pago inicialmente quando compram um novo equipamento e entregam o antigo.

As empresas quando entregam, por exemplo, um frigorifico novo, muitas vezes não recolhem o frigorífico velho, não cumprindo a lei. Muitas vezes a recolha dos frigoríficos, como se viu numa reportagem da SIC, é feito por transportadoras que os vendem a sucateiros.

O mercado paralelo da reciclagem, em Portugal, fica com muitos destes electrodomésticos em fim de vida. De acordo com um estudo da Eletrão, três em cada quatro equipamento elétricos e eletrónicos usados e colocados na via pública ou nos circuitos municipais vão parar ao mercado paralelo.

Uma solução para este problema é que ocorra inspeção junto dos retalhistas para acederem às informações relativamente aos equipamentos que foram vendidos e os que foram recolhidos.

quarta-feira, 22 de março de 2023

Patrik Prosko - Esculturas anamórficas impressionantes


Artista tcheco faz retratos de grandes proporções usando materiais do quotidiano. O de Nikola Tesla, por exemplo, foi montado com peças de computador, lâmpadas e dispositivos eletrónicos.

Site:

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Economia Verde: eis os 5R’s da sustentabilidade


Em 2004, aquando da Cimeira do G8, foi sugerida a já conhecida regra dos 3Rs que diz respeito aos conceitos: Reduzir, Reutilizar e Reciclar. Desde então, grande parte dos países se mobilizou com o objetivo de implementar os 3Rs nas suas estratégias, mas o avançar do tempo tem vindo a tornar a sociedade de consumo numa sociedade ainda mais preocupada com a “sustentabilidade das coisas”. Neste sentido, surgem mais dois Rs que vêm completar a tríade: Recondicionar e Reparar.

Desperta para a importância dos 5 Rs, a Cash Converters, empresa líder na compra e venda de produtos em segunda mão, esclarece, em comunicado, os cinco conceitos que constituem a base atual da sustentabilidade e da gestão de resíduos, e que devem ser tidos em conta a favor da economia circular.

1.Reduzir
Implica ter clareza face às necessidades e, principalmente, tê-la no momento da decisão de compra. Reduzir é sinónimo de deixar para trás alguns artigos que já não são utilizados e evitar as compras por impulso apenas para aproveitar descontos, por exemplo. Este R leva não só à poupança monetária como também à poupança de tempo, recursos naturais e materiais.

2.Reutilizar
A reutilização pressupõe a utilização de produtos mais do que uma vez, com o objetivo de reduzir o impacto dos mesmos no ambiente, nomeadamente, através da produção de produtos novos ou destruição dos mesmos. Exemplo de reutilização é a substituição de garrafas de água descartáveis por garrafas de aço inoxidável, a utilização de sacos de tecido em vez de sacos de plástico e, mais do que nunca, a compra de produtos em segunda mão, que lhes permite dar uma nova vida.

3.Reciclar
O terceiro pilar da tríade de Rs conta com a separação de produtos e materiais de modo que seja possível evitar que os mesmos acabem em aterros, prejudiciais ao ambiente. Em casa, nas empresas e até na rua, os ecopontos coloridos devem fazer parte do cenário para garantir um melhor futuro para o ambiente.

4.Reparar/Recondicionar
O 4º pilar dos 5 existentes atualmente defende a reparação de produtos danificados ou com defeito para que o tempo de vida do mesmo possa ser estendido. A curto prazo, para as empresas, este R pode não trazer benefícios para o negócio, já que as pessoas passam a preferir reparar os produtos que já têm. Porém, a longo prazo, irá ajudar a consolidar o posicionamento de uma empresa socialmente responsável e aumentar a venda de novos produtos com base na sua reputação.

5.Recusar
Hoje já é possível recusar a compra de produtos que sejam embalados em plástico ou recusar palhinhas em restaurantes – um comportamento que faz toda a diferença. Recusar determinados produtos ou materiais permitirá eliminar grande parte dos resíduos produzidos, incentivar a procura de novas alternativas e ter um papel mais ativo na preservação da sustentabilidade.

Com loja online e cinco lojas físicas em Lisboa (Rua Antoni Pereira Carrilho, 5; Rua José Rodrigues Migueis, 1; Rua Pinheiro Chagas, 101B; Edf.Trevo – Rua Quinta Do Paizinho, 2 R/C B) e Porto (Rua Fernandes Tomas, 432), a Cash Converters apela ao consumo inteligente e consciente e promove a compra de segunda mão como solução sustentável à Sexta-Feira do consumo desmedido.

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Escultura - Mount Recyclemore


Rush, now 60, has dedicated his life to recycling, at whatever level. I Am a Mutoid, a new film by Letmiya Sztalryd airing on BBC Four on Sunday, profiles this genial outsider artist who most recently hit the headlines with Mount Recyclemore, a sculpture depicting the G7 leaders in recycled metal and electronic components, positioned to face them as they met in Cornwall this month. That work was created by Rush and collaborator Alex Wreckage (possibly not his real surname) to indict the mountains of defunct computers and outmoded mobile phones slowly choking the planet. Does he think Johnson, Biden and the others will take heed? “Probably not,” he says, “but this is a ground-up movement. Ordinary people around the world seemed touched and inspired by it. Maybe our leaders will eventually catch up.”

Rush’s career as a salvage artist began one midsummer’s morning in the early 1980s when he was in the bath. He decided to shave off his hair. Once shorn, he went out on to Portobello Road in London, but he felt self-conscious so he came back in and glued a rabbit pelt to his bald head, then went out again. Later, he gussied the rabbit fur into a kind of Mohican and became something of a local character, looking like a figure from 2000AD, the British weekly comic he’d loved as a kid that featured a dystopian Mega-City. “You learn a lot from looking funny. Some people get scared, some angry. Sometimes you have to fight. And sometimes you find people who don’t feel threatened.”

He became obsessed with wheels, keeping motorbike spare parts and drip trays for oil in his bedroom. His hands were rarely clean. In London in 1984, he and a bunch of ex-punks formed the MWC. They put on parades down Portobello Road looking like cyberpunk comic book heroes or extras from the Mad Max franchise. They drove mutated motorbikes and flat-bed trucks from which flames rose into the sky, to soundtracks of snarling guitar and dub reggae. These events were a cross between theatre, circus, installation art and – as often as not – really bad traffic jams. “I had no desire to be taken over by society,” says Rush, “or be part of the straight world. I didn’t want to have roots. I wanted to keep on the move.”

He was inspired by his late father, the artist and single parent Peter Rush who, in the late 1960s and 70s, decided the family should hit the road. Peter bought a caravan, painted it jauntily and set off from Romney Marsh in Kent. They got as far as Salisbury, where Peter was knocked over by a car and injured so badly that life on the road came to an end. The MWC was, in part, a reprise of that alternative lifestyle: a collective of artists, musicians and disaffected Britons who creatively reinvented themselves as a tribe of human mutants living on the road, in squats, and – in Rush’s case at one point – a decommissioned Korean war helicopter sitting in a junkyard.

If you don’t mutate, you’re dead. That’s why I'm drawn to being on the road. My life has been about reclaiming the nomadic spirit
They were treated as pariahs by the early 1980s club scene in London, refused admission for looking too weird or potentially troublesome. So they created their own culture, a party scene in squats and abandoned warehouses that predated and inspired late 1980s rave culture. “The Thatcher years were really hard on us,” says Rush. “We became part of the traveller community who experienced persecution.” The culmination of that persecution, Rush tells me, was the Battle of the Beanfield in 1985. The Mutoid Waste Company joined about 140 vehicles known as the Peace Convoy, which headed to Stonehenge for a free festival. But English Heritage took out a last-minute injunction banning the festival and police arrested 537 people from the convoy after a bloody battle.

“That was it for us,” says Rush. “We were effectively driven out of the country.” He and his friends went into exile on the continent for a decade, only occasionally popping back. “In Europe, there wasn’t anything like a party scene or illegal warehouse parties. So we started putting on shows. We were mostly welcomed, unlike at home.” Why didn’t you just settle down? “That wouldn’t have been the mutoid way,” he laughs. But what is the mutoid way? “We’re mutating all the time. If you don’t mutate, you’re dead. That’s why we’re drawn to travellers and being on the road.”

Rush thinks humanity took a wrong turn when we became farmers and set aside the nomadic, hunter-gatherer existence that had characterised our species until then. “My life has been about reclaiming that nomadic spirit. All the festivals we’ve taken part in over the years are really just an echo of what happened when nomadic tribes came into the valleys in summer and partied.”

But he is not the refusenik outsider he used to be. “The key moment came when one of my sons got sick from Agent Orange or DDT or whatever it was left in Berlin’s no man’s land. He needed more serious treatment than dangleberries and herbal tea.” In 1995, after 10 years wandering Europe, he and the MWC returned to Britain, where his son got proper hospital treatment and Rush made his peace with straight society for the sake of his family.

Before Mount Recyclemore, he was probably best known for his long association with Glastonbury. In 1987, the mutoids were allocated a field at the festival site. There, the recyclers built Carhenge and surrounded it with what Rush calls “an apocalyptic Disneyland on acid”. There were sculptures, installations and dinosaurs assembled from scrap metal. Drums were omnipresent and festivalgoers at various levels of consciousness joined the mutoids in beating oil barrels, car wrecks and metal statues.

In later years, Rush’s pyrotechnical spectacles, animatronic robots, sculptures, stage shows and mutant parade of strange vehicles driven by even stranger humans have become key to Glastonbury’s ethos. Rush was behind such annual spectacles as Unfairground, Trash City, Joe Strummer’s Memorial Tree (made from exhaust pipes) and a giant mechanical phoenix that hung over the Pyramid Stage as the Rolling Stones headlined in 2013. Most recently, he built Glastonbury on Sea, a replica of a seaside pier which seemed to imagine the kind of architecture Somerset will need if sea levels rise thanks to the climate crisis.

In 2012, he was invited to art direct and perform the closing ceremony of the Paralympic Games in London. The pariah had become a national treasure. “We’d been hounded out of Britain and now we were representing Britain. The whole thing blew our minds.” During the ceremony, Prince Edward arrived in a mashup of a 1930s gangster car and an Afghan armoured vehicle, and then the MWC drove into the stadium in salvaged, pimped-up rides and put on a show that was as visually compelling as Danny Boyle’s opening ceremony for the Olympics earlier that summer.

Lockdown has given Rush the chance to concentrate on creating other things. Fossil-like works mostly, made from spanners and bike chains, as well as a sculpture consisting of all his dogs from over the years, their heads and bodies crafted from repurposed drills, carburettors and other detritus. It’s a touching memorial: pets reborn as trans-canine mutants.

Some of his work was recently on show at Fulham town hall in London, part of a show called Art in the Age of Now. Does this mean Rush is finally joining the art world, and moving from the street and field to the gallery? “I’ve never wanted to be part of the art world,” he says, “because that would involve cosying up to people I don’t really understand or like.”

While he is a contemporary of such YBAs as Damien Hirst and Tracey Emin, unlike them Rush never went to art school or had his oeuvre collected by Charles Saatchi. That said, he has worked with Banksy and Hirst. The latter gave him tips on how to make bronze versions of sculptures originally created from recycled aluminium.

When lockdown ends, he is hoping to return to his European travels – and put on exhibitions in museums. “I don’t want to be in galleries,” he says. “I want to be in museums like the V&A, Tate Modern and the Musée d’Orsay in Paris.” What’s the distinction? “Private galleries own you and your art. I don’t want that. My principle has long been that if a child thinks a work of art is bollocks, it’s probably no good. Kids can see through nonsense. And I try to remain a child in that sense. Some people think you need to grow up. You don’t. You just need to learn how to keep playing. I’m lucky enough to be still doing that.”

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Deserto no Chile é a lixeira das "pessoas sem escrúpulos"


Pilhas de roupa descartada, um cemitério de sapatos, montanhas de pneus e carros despedaçados "crescem" no deserto chileno de Atacama.

É considerado o local mais seco do mundo e, como tal, alberga um ecossistema único e extremamente frágil. No entanto, está a ser ameaçado pelos montes de lixo que os visitantes ali têm despejado. 

"São as pessoas sem escrúpulos do mundo que vêm deixar aqui o seu lixo. Ainda não há consciência para resolver este problema", lamenta Patrício Ferreira, presidente da câmara da cidade de Alto Hospício, situada no deserto.

Muita da roupa em segunda mão ou que não é vendida na Europa, na Ásia ou nos Estados Unidos vai para o Chile. A partir daí segue para ser vendida por toda a América Latina ou acaba nas lixeiras do deserto de Atacama. 

Os carros usados entram no país pela zona de comércio livre de Iquique, no norte do país. Muitos são exportados para o Peru, a Bolívia ou o Paraguai, enquanto outros são igualmente despejados no deserto.

O ecossistema de Atacama tem um grande interesse científico. Especialistas já lá encontraram microrganismos que se adaptaram a um lugar praticamente sem água e nutrientes. Os cientistas acreditam que estes seres vivos podem guardar segredos de evolução e sobrevivência na Terra e noutros planetas.[artigo científico aqui]

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Pele de cogumelo pode ser usada para criar chips eletrónicos biodegradáveis


O mundo está em constante mudança e nós, claro está, temos que mudar a avançar com ele. Neste sentido, as investigações trazem novidades com regularidade, como, por exemplo, novas formas mais sustentáveis de criar os produtos que usamos no nosso dia-a-dia.

Assim, dados mais recentes indicam que a pele dos cogumelos pode ser usada como substrato para a criação de chips eletrónicos biodegradáveis.

Pele de cogumelo para fazer chips biodegradáveis

Com a exigência da produção de cada vez mais chips eletrónicos para responder às necessidades do mercado, a indústria depara-se com um problema a curto e longo prazo relacionado com a poluição desses mesmos componentes. Como tal, é fundamental que sejam encontradas soluções para lidar com este problema que nos afeta a todos.

Assim, as investigações científicas realizadas por cientistas austríacos podem agora ter encontrado uma alternativa amiga do ambiente. Trata-se de uma pesquisa designada MycelioTronics e consiste no uso de pele de fungos como forma de substrato para a criação de PCBs (Printed Circuit Boards) biodegradáveis. Os investigadores descobriram que assim que a pele é removida e seca, esta consegue desenvolver muitas das propriedades encontradas nos PCBs que são usados em todos os dispositivos eletrónicos do mercado.

A pesquisa baseia-se no fungo Ganoderma lucidum para a criação de chips e PCBs, cuja pele é fina, flexível e pode ser dobrada mais de 2.000 vezes, preservando ainda assim a sua integridade estrutural. Para além disso é também um bom isolante e pode suportar temperaturas acima dos 200 graus, o que é mais do que os PCBs conseguem suportar.

Mas, como é normal, tudo isto tem que ser aplicado na prática para ver se é ou não viável. Assim, os investigadores já realizaram várias experiências onde revestiram a pele seca do fungo com uma camada de cobre, crómio e ouro de forma a melhorar a condutividade. Por cima usaram um laser para imprimir trilhos condutores e descobriram que o produto se comportava como um PCB, tendo ainda como vantagem o facto de ser biodegradável.


O fungo Ganoderma lucidum é uma espécie de cogumelo muito popular na Ásia, sendo também conhecido pelo nome Reishi e usado na medicina tradicional chinesa há mais de 4.000 anos. Há quem o descreva como cogumelo da imortalidade.

Assim, quem sabe daqui a uns anos os chips dos nossos equipamentos tecnológicos não serão baseados neste cogumelo, evitando assim enormes quantidade de resíduos?