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sábado, 18 de julho de 2026

Anatomia de um arboricídio: o sacrifício de um Pinheiro-Manso em Lisboa

A recente condenação de um pinheiro-manso histórico em Lisboa reabriu o debate sobre a forma leviana como o património natural urbano é gerido em Portugal. No centro da polémica, José Ribeiro e Castro alega que a decisão de abate foi tomada com base num parecer técnico contratado a privados, uma manobra que serviu para ignorar e contornar as indicações expressas em sentido contrário dadas pelos técnicos oficiais da Câmara Municipal de Lisboa. Para justificar o corte, a narrativa oficial recorreu ao clássico exagero mediático, empolando o perigo com expressões alarmistas como "dezenas de toneladas" em risco de queda, e invocando os habituais argumentos dos passeios levantados ou de tubagens danificadas. No entanto, não faltaram alertas legítimos da sociedade civil, com o Fórum Cidadania Lx a encabeçar os avisos de que estávamos perante um atentado ambiental desnecessário.

Este abate coloca Lisboa em total contraciclo com as grandes cidades europeias, que hoje competem para expandir as suas copas urbanas. Ao contrário do que a ignorância política faz crer, a ciência atual oferece inúmeras tecnologias que previnem o arboricídio, sem que seja necessário invocar o exemplo máximo da engenharia tradicional japonesa, o Nemawashi. O progresso tecnológico permite-nos, de facto, resolver estes conflitos sem recurso à motosserra. Para o problema das raízes e dos passeios, existem tecnologias subterrâneas como as células de solo modulares e as barreiras físicas, que direcionam o crescimento radicular para baixo e protegem o pavimento. Para a avaliação da saúde da árvore, o diagnóstico pode ser feito com o rigor de uma ecografia através de tomógrafos sonoros e resistógrafos, que revelam se o tronco está oco sem desferir um único golpe. Numa escala macro, as metrópoles usam sensores de inclinação IoT, drones e laser LiDAR por satélite para vigiar o stress hídrico, complementados por plataformas de cadastro aberto e QR Codes que dão a cada árvore um bilhete de identidade digital, permitindo ao cidadão fiscalizar a legalidade de qualquer intervenção e combater a impunidade.

O argumento do custo financeiro destas tecnologias também não colhe. O mercado oferece hoje soluções em vários patamares: se a monitorização contínua por sensores IoT exige orçamentos de grandes capitais, o desenvolvimento de aplicações de denúncia urbana e a instalação de barreiras de raiz são investimentos perfeitamente acessíveis a qualquer pequeno município. Os especialistas são unânimes: investir na preservação é altamente rentável, pois o custo de manter uma árvore adulta saudável é uma ínfima fração do prejuízo económico e ambiental que resulta da sua remoção, da reparação de infraestruturas e do agravamento das ilhas de calor urbanas. No fundo, este caso expõe uma crise de mentalidade. Confundir a gestão de árvores urbanas com o trabalho de um homem de motosserra é o mesmo que confundir um cirurgião com um carniceiro. Ambos usam ferramentas de corte e ambos alteram o corpo, mas enquanto o primeiro estuda anos para curar e preservar a vida, o segundo apenas quer despachar o trabalho, amputando cegamente o que lhe aparece à frente. Lisboa perdeu mais do que um pinheiro; perdeu a oportunidade de demonstrar maturidade e respeito pela ciência.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Toda a verdade sobre a Rússia, NATO, União Europeia, EUA e Ucrânia e, por fim, a China


1. A Ucrânia tem mesmo forças nazis? 
A Ucrânia não é um Estado nazi e Volodymyr Zelensky não lidera forças nazis. A narrativa de que o país está dominado por neonazis é uma das principais ferramentas de propaganda e desinformação utilizadas pelo governo russo para justificar a invasão perante a sua própria população e o mundo. Na verdade, o próprio presidente Zelensky é judeu e perdeu familiares no Holocausto, tendo sido eleito democraticamente em 2019 com mais de 73% dos votos, o que torna a acusação de liderar um regime nazi uma contradição óbvia. Além disso, embora existam grupos de extrema-direita na Ucrânia — assim como na Rússia e na maioria dos países europeus —, o seu peso político real é residual, visto que nas últimas eleições legislativas a coligação de partidos de extrema-direita obteve apenas cerca de 2% dos votos, não conseguindo sequer representação no Parlamento ucraniano.
O mito alimentado por Moscovo baseia-se sobretudo nas origens do Batalhão Azov. Em 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia e fomentou a guerra no Donbass, o exército ucraniano estava desestruturado e surgiram milícias voluntárias para defender o território. O grupo Azov original foi de facto fundado por indivíduos com ligações a fações radicais de ultradireita e claques de futebol, utilizando símbolos visuais controversos. No entanto, ainda no final de 2014, o governo ucraniano integrou oficialmente o grupo na Guarda Nacional, iniciando um processo profundo de reestruturação. Ao longo dos anos, os líderes políticos radicais foram afastados, a unidade foi despolitizada e transformada numa força militar regular de defesa. Inclusive, o governo dos Estados Unidos levantou as restrições ao fornecimento de armas à brigada após confirmar que esta se tinha tornado uma unidade militar profissional padrão. Para a Rússia, o rótulo de "nazi" carrega um peso histórico e emocional gigantesco herdado da Segunda Guerra Mundial, sendo utilizado de forma estratégica para desumanizar o adversário e criar um falso pretexto moral para a agressão militar.

2. As eleições na Rússia não são consideradas democráticas, livres ou justas por analistas internacionais, pelas Nações Unidas, pela União Europeia e por organizações independentes de direitos humanos. 
O sistema político russo é classificado como um regime autoritário ou uma autocracia eleitoral, o que significa que o país mantém a aparência de uma democracia — com urnas, boletins de voto e campanhas —, mas todo o processo é rigidamente controlado pelo Kremlin para garantir a permanência de Vladimir Putin no poder. O principal pilar desta falta de democraticidade é a eliminação sistemática da oposição real, onde qualquer candidato que represente uma ameaça séria é impedido de concorrer, seja através do exílio, de desqualificações burocráticas por parte da Comissão Eleitoral Central ou da prisão sob acusações politizadas, como aconteceu emblematicamente com Alexei Navalny. Para simular uma pluralidade, o regime permite apenas a participação da chamada "oposição sistémica", composta por partidos minoritários que fingem competir, mas que na prática apoiam as diretrizes do governo e nunca criticam diretamente o presidente ou a guerra.
Além da ausência de adversários reais, o processo é profundamente distorcido pelo controlo total dos meios de comunicação social, uma vez que todas as grandes cadeias de televisão, jornais e rádios são estatais ou pertencem a aliados de Putin, enquanto a internet e a imprensa independente enfrentam uma censura feroz. Organizações independentes de monitorização eleitoral denunciam consistentemente fraudes massivas nas contagens de votos, incluindo o enchimento de urnas, a manipulação de sistemas de voto eletrónico que não permitem auditoria e a forte coação sobre funcionários públicos e trabalhadores de empresas estatais, que são obrigados a votar sob ameaça de demissão. Adicionalmente, as eleições russas carecem de observadores internacionais credíveis e incluem votações forçadas em territórios ucranianos ocupados militarmente, o que viola o direito internacional. Em suma, o objetivo destas eleições não é dar uma escolha ao povo, mas sim fazer uma demonstração de força, utilizando maiorias esmagadoras fabricadas para legitimar as políticas do regime perante o mundo e desanimar qualquer oposição interna.

3. E a historieta do Tio Sam e de Putin é também falsa. 
A "historieta do Tio Sam e de Putin" refere-se à narrativa de que a guerra na Ucrânia é apenas um conflito provocado exclusivamente pelo "Tio Sam" (os Estados Unidos) para encurralar o Putin, ou à ideia romântica de que a Rússia é uma vítima inocente que foi obrigada a atacar para se defender do expansionismo ocidental, sim, essa também é uma versão altamente distorcida e falsa da realidade.
Essa narrativa - muito repetida pela propaganda russa e por setores que adotam uma postura anti-EUA automática - ignora deliberadamente a história, a soberania da Ucrânia e as próprias ambições imperialistas de Vladimir Putin. A análise factual desmitifica essa história em bloco:
  • A Ucrânia é um país independente e soberano desde 1991. A decisão de se aproximar da União Europeia ou da NATO não foi uma "invasão disfarçada" dos Estados Unidos, mas sim uma escolha democrática do próprio povo ucraniano. 
  •  Histórica e economicamente, os ucranianos assistiram ao crescimento e à prosperidade de vizinhos ex-comunistas que se juntaram ao Ocidente (como a Polónia e os países bálticos), enquanto as nações que ficaram sob a órbita da Rússia (como a Bielorrússia) estagnaram em ditaduras. 
  • A aproximação ao Ocidente foi uma tentativa da Ucrânia de garantir a sua própria segurança e modernização, e não uma conspiração americana.
Além disso, a própria NATO nunca forçou a entrada de nenhum país. São os países da Europa de Leste que pedem desesperadamente para aderir à aliança porque têm, compreensivelmente, medo do histórico de agressão da Rússia. O argumento de Putin de que se sentiu "ameaçado" cai por terra quando olhamos para os factos: a NATO é uma aliança defensiva e nenhum país ocidental tinha planos ou intenções de invadir o território russo, que possui o maior arsenal nuclear do planeta e, portanto, uma capacidade de dissuasão total.
O erro central dessa "historieta" é retirar totalmente a culpa a Vladimir Putin e o direito de escolha à Ucrânia, tratando o conflito como se os ucranianos fossem meros peões sem vontade própria num tabuleiro de xadrez entre Washington e Moscovo. A verdade é que a invasão foi um ato de agressão deliberado, planeado pelo Kremlin com o objetivo de anexar territórios, travar a democratização de um país vizinho e restaurar a antiga esfera de influência da era soviética.

4. A afirmação de que o Donbas e a região histórica da Novorossiya -  que engloba cidades como Odessa, Mykolaiv, Dnipro e Kharkiv - nunca foram da Ucrânia é historicamente falsa, tratando-se de um mito construído pelo nacionalismo russo para tentar legitimar as suas pretensões territoriais atuais. 
Muito antes de o Império Russo ou da Imperatriz Catarina, a Grande, terem conquistado estas terras no final do século XVIII, o território do sul e do leste da Ucrânia não era um vazio demográfico; a área era conhecida como os "Campos Selvagens" e estava sob o controlo e a profunda influência dos Cossacos Ucranianos, que ali estabeleceram povoações agrícolas, feitorias e rotas comerciais. O próprio termo Novorossiya ("Nova Rússia") foi apenas uma designação administrativa e colonial criada pelo Império Russo em 1764, funcionando exatamente da mesma forma que o Império Britânico criou a "Nova Inglaterra" na América do Norte. Além disso, os censos do próprio Império Russo (como o de 1897) comprovam que a esmagadora maioria dos camponeses que colonizaram e cultivaram o interior dessa região eram ucranianos, fixando-se os russos sobretudo como funcionários públicos e operários nas grandes cidades nascentes.
A propaganda russa costuma alegar que as grandes cidades da região foram fundadas do zero por russos, mas a verdade é que muitas foram erguidas sobre antigos colonatos ucranianos, tártaros ou fortalezas otomanas já existentes, como é o caso de Odessa, construída no local do antigo porto tártaro de Hadjibey. Com o colapso do Império Russo em 1917, o nome Novorossiya desapareceu dos mapas oficiais e os próprios habitantes escolheram o seu destino ao integrarem o Donbas, Kharkiv, Odessa e Mykolaiv na recém-declarada República Popular da Ucrânia, precisamente porque a maioria da população partilhava essa identidade. Mais tarde, quando os bolcheviques desenharam as fronteiras da União Soviética, incluíram estas regiões na Ucrânia Soviética pelo mesmo motivo demográfico. O teste definitivo de pertença ocorreu em dezembro de 1991, aquando do referendo para a independência da Ucrânia: mesmo nas zonas com maior presença da língua russa, a população votou massivamente a favor de fazer parte da Ucrânia independente, com aprovações que atingiram os 83,9% em Donetsk, 83,8% em Luhansk, 86,3% em Kharkiv e 85,3% em Odessa. Ignorar esta autodeterminação com base num rótulo colonial do século XVIII seria o equivalente a dizer que o Brasil pertence hoje a Portugal ou que os Estados Unidos são território britânico.

Por isso, sim. Portugal proibiu a equipa russa de trampolim de usar bandeira e hino na Taça do Mundo de Ginástica. É apenas um gesto simbólico, mas neste caso e pelo que atrás já referi, Portugal agiu bem.

P.S. A "grande" China, por exemplo, bane qualquer cantor/artista que exiba a bandeira de Taiwan, do Tibete, Hong Kong ou do povo Uigur. 
𝐎 𝐠𝐨𝐯𝐞𝐫𝐧𝐨 𝐝𝐚 𝐑𝐞𝐩𝐮́𝐛𝐥𝐢𝐜𝐚 𝐏𝐨𝐩𝐮𝐥𝐚𝐫 𝐝𝐚 𝐂𝐡𝐢𝐧𝐚 𝐚𝐝𝐨𝐭𝐚 𝐮𝐦𝐚 𝐩𝐨𝐥𝐢́𝐭𝐢𝐜𝐚 𝐝𝐞 𝐭𝐨𝐥𝐞𝐫𝐚̂𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐳𝐞𝐫𝐨 𝐞𝐦 𝐫𝐞𝐥𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐚 𝐪𝐮𝐚𝐥𝐪𝐮𝐞𝐫 𝐦𝐚𝐧𝐢𝐟𝐞𝐬𝐭𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐩𝐨𝐬𝐬𝐚 𝐬𝐞𝐫 𝐢𝐧𝐭𝐞𝐫𝐩𝐫𝐞𝐭𝐚𝐝𝐚 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐮𝐦 𝐪𝐮𝐞𝐬𝐭𝐢𝐨𝐧𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐝𝐚 𝐬𝐮𝐚 𝐬𝐨𝐛𝐞𝐫𝐚𝐧𝐢𝐚 𝐭𝐞𝐫𝐫𝐢𝐭𝐨𝐫𝐢𝐚𝐥, 𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐢𝐧𝐜𝐥𝐮𝐢 𝐬𝐢́𝐦𝐛𝐨𝐥𝐨𝐬 𝐥𝐢𝐠𝐚𝐝𝐨𝐬 𝐚 𝐓𝐚𝐢𝐰𝐚𝐧, 𝐚𝐨 𝐓𝐢𝐛𝐞𝐭𝐞, 𝐇𝐨𝐧𝐠 𝐊𝐨𝐧𝐠 𝐞 𝐚̀ 𝐫𝐞𝐠𝐢𝐚̃𝐨 𝐝𝐞 𝐗𝐢𝐧𝐣𝐢𝐚𝐧𝐠, 𝐥𝐚𝐫 𝐝𝐨 𝐩𝐨𝐯𝐨 𝐔𝐢𝐠𝐮𝐫. 
Na massiva e altamente regulada indústria do entretenimento chinesa, a exibição de bandeiras ou o apoio a estas causas resulta num banimento praticamente imediato e severo. Este processo de cancelamento cultural e económico envolve a rescisão instantânea de contratos publicitários, o cancelamento de digressões e a remoção completa do catálogo musical e audiovisual do artista das principais plataformas de streaming do país, como o Weibo e o NetEase. Em casos de produções televisivas ou cinematográficas já gravadas, o governo exige frequentemente que as cenas do artista sejam cortadas ou que o seu rosto seja desfocado digitalmente.
Ao longo dos anos, diversos nomes da cultura pop internacional e regional sofreram estas sanções. A cantora Lady Gaga e a banda Maroon 5, por exemplo, viram as suas músicas banidas e concertos cancelados após demonstrarem apoio ou se encontrarem com o Dalai Lama, líder espiritual tibetano. No cenário do K-pop, a cantora taiwanesa Chou Tzu-yu, integrante do grupo Twice, causou uma enorme polémica na China continental em 2015 após segurar a bandeira de Taiwan num programa de televisão sul-coreano, o que a pressionou a gravar um pedido de desculpas público afirmando que "só existe uma China". Para as autoridades de Pequim, o acesso ao gigantesco mercado de consumo chinês é tratado como um privilégio condicionado ao respeito absoluto pelas diretrizes políticas e pela integridade territorial defendida pelo Partido Comunista Chinês.
A situação aplica-se igualmente a Hong Kong, que se tornou outra das grandes linhas vermelhas para o governo chinês, especialmente após os protestos pró-democracia de 2014 e 2019. Qualquer artista, seja local ou internacional, que expresse a mínima simpatia ou apoio aos manifestantes enfrenta exatamente o mesmo mecanismo de retaliação e censura. Figuras de destaque do entretenimento da própria cidade, como a cantora de Cantopop Denise Ho e o conceituado ator Anthony Wong, viram as suas carreiras na China continental completamente destruídas por demonstrarem apoio ao movimento democrático, resultando na remoção das suas obras de todas as plataformas digitais, contratos rescindidos e um boicote total por parte da indústria, acabando mesmo por sofrer perseguição judicial no próprio território de Hong Kong ao abrigo da nova Lei de Segurança Nacional. No panorama internacional, partilhar uma simples mensagem de solidariedade para com Hong Kong nas redes sociais é o suficiente para desencadear o cancelamento de digressões e a fúria dos consumidores nacionalistas. Tudo isto reforça a mensagem inabalável de Pequim: para operar ou lucrar no mercado chinês, o alinhamento com a narrativa oficial sobre a soberania e a estabilidade de todos os seus territórios, incluindo as suas Regiões Administrativas Especiais, tem de ser absoluto

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Dia de Mísia - "Ausência"


Letra
Namorei a tua ausência
Por tantas noites vazias
Que agora pede à prudência
Que eu te ausente dos meus dias

É que a ausência de ti
É uma noite tão escura
Que eu não sei sair dali
Sem ir à tua procura

O corpo senta-se ausente
Na cama onde não se deita
E sabe o melhor presente
Que a noite não aceita

Meu amor, chegou a hora
De o tempo negar o espaço
Em que o corpo se namora
Por ausência ou por cansaço
Meu amor, choras?

No entanto és sempre tu
Sempre que canto o meu fado
É quase o teu corpo nu
Que quase que tenho ao lado

Tenho a noite por exílio
A tua ausência por lei
Vem em meu auxílio
Ou nunca mais cantarei

O corpo senta-se ausente
Na cama onde não se deita
E sabe o melhor presente
Que a noite não aceita

Meu amor, chegou a hora
De o tempo negar o espaço
Em que o corpo se namora
Por ausência ou por cansaço
Meu amor, chegou a hora

Significado da canção
A letra explora o vazio psicológico e físico deixado pela perda do ser amado. O eu lírico descreve uma relação quase obsessiva com a própria solidão, chegando a dizer que "namorou a ausência" durante tantas noites que agora precisa de fazer um esforço consciente para afastar essa sombra dos seus dias. A falta da outra pessoa é comparada a uma noite escura e intransitável, um labirinto de onde não se consegue sair sem ceder à tentação de ir à procura de quem partiu.

Há uma forte presença do corpo e do espaço físico: a cama vazia onde o corpo já não se deita e o exílio da noite. No final, a ausência funde-se com a própria arte da fadista. Ela confessa que o seu fado será sempre sobre essa pessoa e lança um apelo desesperado: se o amor não vier em seu auxílio para quebrar este silêncio, a dor será tão grande que a impedirá de voltar a cantar.

Pequena homenagem
Filha de pai português e mãe catalã (bailarina de cabaré), Mísia trouxe para o fado muita inovação, maior projecção universal, uma sensualidade provocadora, uma ginga malandra e uma alegria solar.

A genuína essência de Mísia reside na audácia de ter sido a grande anarquista e esteta do fado, uma artista singular que habitou a fronteira exacta entre a tradição mais visceral e a vanguarda mais culta.

Longe de se fechar no purismo das tascas ou no fado-destino resignado, Mísia limpou o género do bafio do passado e elevou-o ao estatuto de alta literatura, desafiando os maiores escritores contemporâneos — como José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Lídia Jorge e António Lobo Antunes — a escreverem para a sua voz. Havia na sua presença uma solenidade aristocrática misturada com uma atitude punk e até gótica, mas reduzir a sua obra à dor é ignorar a sua vibrante veia artística.

Mísia apoiava muito o seu canto no registo de peito, o que conferia à sua música uma ressonância profunda, noturna e ligeiramente rouca - características muito valorizadas tanto no fado clássico como no ambiente de cabaré que ela tanto adorava.

Mísia avant-garde introduziu instrumentos "proibidos" no fado tradicional - como o violino, o violoncelo, o piano e o acordeão - criando uma atmosfera de fado de câmara.

A sua melancolia não era de resignação (o típico "fado-destino"); era uma melancolia de combate, sensual, visceral e assumidamente trágica.

No fundo, Mísia libertou o fado das suas próprias amarras, provando que a tradição também se faz com pele, desejo, fragilidade humana, muita sensualidade, uma pitada de humor, festa e uma enorme liberdade criativa.

sábado, 13 de junho de 2026

Infocracia: Digitalização e a Crise da Democracia

Já tinha lido algumas obras de Byung-Chul Han aqui e aqui
A sua vida invulgar sempre despertou a minha curiosidade.
Para terem uma ideia, Han é um antigo metalúrgico que resolveu deixar a Coreia do Sul para estudar filosofia na Alemanha sem entender uma única palavra de alemão. Como não bastasse, debruçou-se sobre Heidegger e, pouco tempo depois, tornou-se uma espécie de celebridade.
A sua enorme popularidade não se deve à sua vocação para se expor; pelo contrário, Han vive afastado da turbulência gerada pelas redes sociais. Ainda assim, é popular. Creio que isso se deve ao facto de Han tratar-se, sobretudo, de um filósofo extremamente intuitivo e perspicaz. Os seus argumentos não se constroem em torno de uma linguagem técnico-filosófica fechada nos seus termos e conceitos, destinada apenas aos seus pares, mas antes a aforismos que deixam transparecer, com suavidade e leveza, a beleza do seu pensamento. Este pequeno ensaio é prova do seu brilhantismo.

Nesta obra o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han faz um diagnóstico cirúrgico - e bastante sombrio - de como a internet, as redes sociais e os algoritmos mudaram a estrutura do poder.

Se no passado o capitalismo dominava os corpos e as indústrias, hoje o poder é exercido através do controle e da manipulação dos fluxos de dados. O livro defende que não vivemos mais numa democracia tradicional, mas sim em uma infocracia.

Os pilares centrais do livro
1. O regime de informação e a falsa liberdade
Han explica que saímos do modelo disciplinar (onde o poder reprimia as pessoas e era visto como um "vigia" violento) e entramos no regime de informação.
A grande armadilha da infocracia é que ela não opera pela proibição, mas pela sedução: nós nos sentimos livres e consumimos/produzimos dados voluntariamente o tempo todo. Essa sensação de liberdade é o que garante a eficácia da dominação. O poder agora é psicopolítico: ele entra na mente do indivíduo e prevê seus comportamentos sem que ele perceba.

2. A destruição da esfera pública e do discurso racional
Para que a democracia funcione, é preciso haver debate, escuta e um discurso racional (a ideia da esfera pública de Habermas). Han argumenta que a digitalização destruiu isso:
  • As redes sociais funcionam no modelo de "bolhas de filtro", onde os algoritmos nos mostram apenas o que já concordamos.
  • O debate deu lugar à polarização e à criação de "tribos digitais" que não dialogam entre si, apenas atacam.
  • A comunicação atual é rápida, fragmentada e guiada pelo like, o que impede a reflexão profunda e o amadurecimento das ideias políticas.
3. Da democracia à Pós-Democracia digital (Dataísmo)
O autor alerta para o perigo do "Dataísmo" — a crença cega de que os dados e a Inteligência Artificial podem resolver todos os problemas humanos. Na infocracia, a política perde a ideologia e a visão de futuro, transformando-se em uma mera gestão de sistemas baseada em Big Data. Os políticos correm o risco de serem substituídos por especialistas e cientistas de computação, esvaziando o verdadeiro sentido da ação política.

4. A crise da verdade e o novo niilismo
O último grande ponto do livro é o descolamento da informação em relação à realidade. Na era das fake news, dos exércitos de trolls e da desinformação em massa, a verdade factual perde a importância. O que importa é o impacto emocional e a velocidade com que a informação circula. Isso gera um niilismo contemporâneo: as pessoas perdem a crença na existência de uma verdade comum, fragmentando a base de confiança que sustenta a sociedade.

O grande aviso de Han: a informação, que teoricamente deveria nos libertar e nos manter informados, tornou-se a ferramenta mais sofisticada de vigilância, controle e deformação do processo democrático.

sábado, 6 de junho de 2026

Evangelina Mascardi baroque lute: Preludio e Fuga de Sylvius Leopold Weiss

Tenho tido a incrível sorte de assistir a inúmeros concertos ao vivo ao longo dos anos, desfrutando tanto de ambientes íntimos em recintos fechados como de atuações ao ar livre, rodeadas pela natureza. Há uma alquimia única quando música bela é tocada com tanta naturalidade por um verdadeiro mestre e, para mim, Evangelina Mascardi personifica essa perfeição. O seu domínio do alaúde é absolutamente hipnotizante.

O meu profundo amor por este instrumento estende-se também à brilhante obra do alaúdista e compositor alemão Sylvius Leopold Weiss. As suas composições transmitem uma beleza profunda e intemporal que ressoa profundamente, especialmente quando trazidas à vida por artistas que compreendem a alma delicada do alaúde.

Ouvir esta música no seio da natureza é uma experiência sublime - onde o suave dedilhar das cordas se funde na perfeição com o farfalhar das folhas e o céu aberto. É uma lembrança de quão poderosa e reconfortante a arte pura pode ser.

Biografia de Evangelina Mascardi

Tocar um instrumento musical como o alaúde barroco em plena natureza é uma experiência que cruza de forma profunda a biologia, a cultura e a sensibilidade humana. Para compreender esta ação, podemos dividi-la em duas perspetivas fundamentais: a biofilia e a etnobiologia. A biofilia, um conceito popularizado pelo biólogo E. O. Wilson, sugere que os seres humanos possuem uma tendência inata para procurar conexões com o mundo natural e outras formas de vida. Ao levar um instrumento para um bosque, para uma praia ou para um jardim, o músico não está apenas a contemplar a paisagem, mas sim a interagir ativamente com ela. A música transforma-se num diálogo e numa busca por bem-estar, onde o ritmo do dedilhar e o timbre do instrumento se alinham instintivamente com o som do vento, das ondas ou do canto dos pássaros. No caso específico do alaúde barroco, esta ligação é ainda mais íntima devido à sua natureza inteiramente orgânica, construída com madeiras ressonantes leves e cordas delicadas, produzindo um som acústico e suave que não agride o ecossistema, mas funde-se perfeitamente com ele.

Por outro lado, embora o ato isolado de tocar não seja uma ciência, a relação humana e cultural que o sustenta é o objeto de estudo perfeito para a etnobiologia. Esta disciplina estuda as complexas interações entre as sociedades humanas e os ecossistemas ao seu redor. Quando analisamos o alaúde barroco sob esta lente, entramos no campo da etnobotânica aplicada à luthieria, que é a arte de construir instrumentos de corda. A própria existência do alaúde é o resultado de séculos de conhecimento acumulado por artesãos europeus sobre as propriedades físicas e acústicas das árvores. Para criar o tampo harmónico do instrumento, por exemplo, utiliza-se historicamente o abeto de ressonância, uma madeira proveniente de árvores que crescem em altitudes elevadas e em condições de frio extremo, como nos Alpes. Este crescimento lento gera anéis de madeira extremamente compactos e regulares, garantindo uma elasticidade e uma rigidez únicas que permitem ao instrumento vibrar com a máxima sensibilidade. Já para a construção da concha traseira do alaúde, recorre-se a madeiras como o ácer, que reflete o som rapidamente e confere brilho e clareza às notas, ou o teixo e as madeiras de árvores de fruto, como a ameixoeira, que trazem doçura e harmónicos calorosos à música.

Existe ainda uma ponte fascinante entre estes conceitos chamada biomúsica ou zoomusicologia, que estuda a música humana que incorpora ou responde diretamente aos sons do ambiente. No período Barroco, compositores como Sylvius Leopold Weiss criavam obras inspiradas na imitação da natureza, tentando traduzir paisagens e movimentos do mundo natural para as cordas do instrumento. Ao interpretar estas peças ao ar livre, o músico está, na verdade, a devolver essa matéria-prima florestal, agora transformada em património cultural, ao seu local de origem. Cria-se assim uma simbiose física e ambiental instantânea, uma vez que a madeira, sendo um material vivo e higroscópico, reage diretamente ao microclima, expandindo-se ou contraindo-se com a humidade e a temperatura do ar. Hoje em dia, esta relação enfrenta até desafios ecológicos modernos, pois as alterações climáticas e os invernos menos rigorosos na Europa fazem com que as árvores cresçam mais depressa, forçando os construtores de instrumentos a subir cada vez mais alto nas montanhas para encontrar a madeira ideal. Assim, tocar este instrumento na natureza manifesta o impulso biofílico de pertença ao mundo vivo e, em simultâneo, celebra o conhecimento etnobotânico que permitiu transformar a floresta em arte pura.

Finalmente, saber que o instrumento foi construído em 2024 pelo conceituado luthier Cezar Mateus, em Nova Jérsia, liga o passado histórico diretamente ao presente globalizado.

Do ponto de vista da etnobotânica moderna, a construção deste alaúde específico reflete a complexa jornada dos materiais na atualidade. Embora Cezar Mateus trabalhe nos Estados Unidos, um construtor desse nível mantém a tradição rigorosa de importar as madeiras europeias ideais, como o abeto dos Alpes para o tampo harmónico e o ácer ou o teixo para o corpo. Isto demonstra como o conhecimento tradicional sobre as árvores europeias cruzou o Atlântico, sendo aplicado por um mestre artesão nas Américas para criar um instrumento que, depois, viaja de volta à Europa para ser tocado na natureza pela alaudista Evangelina Mascardi. É a globalização ao serviço da preservação duma arte ecológica e histórica.

Além disso, o facto de ser um instrumento tão recente traz uma dinâmica física única para a biofilia e para a acústica ao ar livre. Um alaúde construído em 2024 é um instrumento "jovem". As suas madeiras ainda estão a aprender a vibrar juntas e são extremamente sensíveis às condições atmosféricas. Quando a artista o retira do ambiente controlado de um estúdio e o toca num espaço natural, o instrumento enfrenta o seu batismo de fogo ambiental, reagindo de forma muito viva à humidade e à temperatura daquele momento. Há uma beleza poética nisso: um instrumento feito recentemente com árvores antigas, esculpido do outro lado do oceano, a cantar e a vibrar pela primeira vez em plena sintonia com a natureza europeia.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Tempos de escalamento de guerra

Esta pintora Alemã fascina-me bastante.

Esta pintura e uma breve ausência do ruído das redes sociais e de notícias da praxis de políticos medíocres que nos sobressaltam como colectivo, levou-me a esta reflexão.

"Tempos de escalamento de guerra revelam uma tensão central do pensamento político moderno: a contradição entre o progresso técnico e a fragilidade ética. Nunca a humanidade dispôs de tantos instrumentos para cooperar globalmente, e nunca foi tão evidente a facilidade com que o medo, o nacionalismo e a lógica de poder se sobrepõem à razão política. O escalamento não nasce apenas de armas, mas de discursos que normalizam a excepção, a desumanização do outro e a ideia de que a violência é inevitável.

Ainda assim, o pensamento político moderno não se esgota no realismo cínico. Da tradição iluminista aos movimentos democráticos contemporâneos, persiste a noção de que a política pode ser um espaço de contenção da barbárie, e não o seu motor. A esperança, neste contexto, não é ingenuidade: é uma práctica consciente. Ela manifesta-se na defesa do direito internacional, na diplomacia, na sociedade civil activa e na recusa em aceitar a guerra como destino.
Agir em tempo de medo exige, antes de tudo, resistir à sua naturalização política. O medo não é apenas uma emoção individual, mas um dispositivo colectivo que pode ser mobilizado para justificar a suspensão do juízo crítico, a concentração de poder e a erosão do espaço público. Reconhecer esta dimensão é um primeiro gesto de acção: tornar o medo objecto de reflexão, e não princípio de decisão.

Pensar politicamente no contexto contemporâneo implica, em última instância, uma escolha normativa fundamental: ou a reprodução de lógicas securitárias que intensificam o medo, a polarização e o conflito, ou o compromisso crítico com a construção de horizontes políticos partilhados, capazes de sustentar a possibilidade de um futuro comum, mesmo em contextos marcados pela incerteza e pela escalada da violência."

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Trump não queria que Machado se tornasse presidente porque ela aceitou o Prémio Nobel da Paz — o "pecado supremo"


Segundo fontes próximas da Casa Branca, o presidente Trump estaria insatisfeito com a vencedora do Prémio Nobel da Paz, María Corina Machado, porque esta não lhe entregou o prémio.
A informação foi inicialmente divulgada pelo Washington Post, que falou com duas fontes que afirmaram que Trump perdeu o interesse em apoiar a líder da oposição venezuelana, que governou o país, porque esta aceitou o Prémio Nobel da Paz, o que, aos olhos do presidente, foi o "pecado supremo".
Embora Machado tenha lançado recentemente uma ofensiva para conquistar a simpatia de Trump, o presidente parece tê-la rejeitado, principalmente num discurso televisivo no fim de semana.
Durante a conferência de imprensa, Trump disse: "Acho que seria muito difícil para ela ser a líder. Não tem o apoio interno nem o respeito do país"

Trump novamente a mostrar o que é: um corrupto, homem de negócios polémico e várias vezes falido, um ditador e um cérebro de miúdo com birras. E o mundo treme todo...

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Juan José Millás - Que Ninguém Durma


Este romance de Juan José Millás, escrito em 2018, recebeu merecidamente  o Prémio Leyenda 2020.  Inicialmente fez-me sentir como um estranho naquilo que considerava a minha casa. Porque, sim, a escrita deste autor valenciano é para mim uma espécie de refúgio onde me sinto confortável e em casa há muitos anos. Cada vez que leio um dos seus romances, sinto-me reconfortado, como alguém que entra no quarto onde passou a infância depois de se mudar.

Então, abri a porta (a primeira página) e perguntei-me: quem mexeu nas minhas coisas? Por um instante, tudo pareceu diferente, mas, felizmente, essa sensação não durou muito. É verdade que a história se passa principalmente no táxi de Lucía e, para mim esse meio de transporte não utilizo com muita frequência; no entanto, logo me senti à vontade com a história novamente, pois comecei a vislumbrar, nas minúcias das frases, as peculiaridades da prosa de Millás.

O romance começa quando a protagonista, Lucía, perde o emprego de programadora. Naquele dia, ela volta para casa num horário incomum. O seu prédio parece diferente do habitual, talvez por ela ter voltado num horário tão atípico, no meio da manhã de um dia de semana. Quem trabalha reconhecerá essa sensação: as mesmas ruas familiares parecem diferentes nos horários em que as pessoas normalmente estão a trabalhar. Uma sensação muito curiosa. Enfim, Lucía está no seu apartamento, pensando no que fará da vida a partir daquele momento. Ela acaba de ser demitida, e não esperava por isso. Está sozinha e não parece ter nenhum relacionamento próximo com ninguém. Ela mora sozinha e enfrenta esse novo problema sozinha.

Em casa, ela ouve através de uma claraboia que um de seus vizinhos está a ouvindo ópera. Os acordes de "Nessun dorma  ", de Puccini, chegam até ela abafados pela distância, mas duas coisas acontecem: primeiro, despertam algo dentro dela e aguçam um novo interesse em conhecer esse vizinho amante de ópera; e segundo, como consequência do primeiro, dão a ela um novo propósito. Se esperávamos que a história fosse sobre Lucía conhecendo seu vizinho e seguindo um caminho convencional, estávamos muito enganados. Ela chega a conhecer o vizinho, brevemente e de forma muito superficial, mas logo depois ele se muda e ela o perde de vista. O seu interesse em conhecê-lo se transformará num interesse em encontrar esse vizinho, que está em algum lugar de Madrid.

Lucía, cuja vida até então fora guiada pela racionalidade e pelo mundo objectivo dos computadores, toma diversas decisões: torna-se taxista e percorre as ruas de Madrid (ou talvez Pequim?), na esperança de um dia encontrar aquele vizinho que ouvia Puccini. Como resultado, ela se envolve cada vez mais na fantasia de Nessun Dorma : toca a ópera no seu táxi, veste-se de Turandot, a princesa da ópera, e mistura fantasia e realidade enquanto persegue o  seu objectivo, encontrando diferentes pessoas e situações ao longo do caminho.

A realidade torna-se difusa e subjetiva à medida que a narrativa se desenrola. As memórias de infância de Lucía entrelaçam-se com o seu presente, e ela tenta embelezar o seu presente (que, refletindo bem, é bastante sombrio e solitário) com várias fantasias. O passado reforça essas fantasias, e nunca sabemos ao certo se as memórias que ela evoca — recordações quase oníricas da sua mãe, o incidente com o pássaro, a frase "Algo vai acontecer") têm algum fundamento na realidade. Mas isso não importa, porque a mistura de realidade e ficção, a dicotomia Madrid/Pequim, vida/ópera, funciona bem, e o livro é simultaneamente fácil e envolvente de ler.

Adorei como Millás gradualmente confunde a realidade, como usa motivos da ópera de Puccini, os humanos-pássaro e os mapas sobrepostos de Madrid e Pequim para nos atrair para o mundo instável onde a protagonista vagueia, de mãos dadas com as suas obsessões, seus desejos, sua ânsia de se reinventar e desafiar as convenções sociais e, não podemos esquecer, a sua profunda solidão. 

Comecei a lê-lo compulsivamente e gostei imenso. Permiti que a voz do protagonista entrasse na minha mente, brincasse comigo. Assim absorto, cheguei às páginas finais, onde a última cena me deixou sem palavras. Aquela história era Millás. Era o meu quarto de infância. Era a fumaça de um cigarro esquecido. Era um táxi em que raramente eu ando, mas que parecia meu.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Ainda a invasão da Venezuela por Trump


“Todos os Membros devem abster-se, nas suas relações internacionais, da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado, ou de qqer outra forma incompatível com os Propósitos das Nações Unidas"
Art. 2º, §4º, da Carta ONU

Meia dúzia de notas sobre Trump e  Nicolás Maduro.
1. Maduro e Trump estão bem um para o outro. Trump, perdeu as eleições de 2020 e recusou reconhecer o resultado, algo inédito na história moderna dos EUA. Tentou pressionar instituições para reverter o resultado eleitoral. Trump tentou manter o poder contra o resultado eleitoral.

2. Em maio de 2018, Maduro foi reeleito para um mandato de seis anos numa polémica eleição, não reconhecida pela oposição, pela Organização dos Estados Americanos e União Europeia, além de países como Estados Unidos e Brasil. Em janeiro de 2019, foi empossado para um segundo mandato. Isso acabou gerando uma grave crise política interna, com a Assembleia Nacional não reconhecendo a posse do presidente e várias nações do mundo removeram os seus embaixadores de Caracas, como protesto. Para a oposição, Nicolás Maduro estava, efetivamente, transformando a Venezuela numa ditadura sob seu comando.

3. Porém, esta intervenção americana é ilegítima e injustificada — representa uma gravíssima violação do Direito Internacional Público. Não é uma manobra de defesa, é uma manobra de dominação geoestratégica. Trump apresenta a desculpa dos cartéis de droga, mas o objetivo é chegar ao petróleo, ao lítio, ao ouro, aos minerais raros. Um regresso à lógica imperialista do século XIX que legitima outras intervenções e ocupações noutras partes do mundo. Uma visão de uma tripartição do globo, em que os EUA dominam o continente americano, a Rússia fica com a Ucrânia e a China ocupa Taiwan.

4. Além disso, esta intervenção na Venezuela é também uma conveniente manobra de diversão para os incómodos Epstein Files. Trump é um perigoso narcísico, um autoritário anti-democrático que só conhece o cotão do seu umbigo e instintos viscerais. Move-se por uma lógica egoísta, transacional e pela lei da força.

5. Mesmo sendo obviamente desejável uma mudança de regime na Venezuela, é assustador que seja feita desta forma.

6. A imposição pela força não pode ser aplaudida, mesmo quando é contra regimes de que não gostamos. Porque a pergunta obrigatória é esta: e quando esta imposição pela força for feita contra regimes, líderes ou países de que gostamos?


Trump anunciou a invasão nas redes sociais. Inédito. Desrespeitou auscultação prévia do Senado e do Congresso!


E quando o próximo ciclo de ficheiros Epstein for libertado, Trump invadirá a Gronelândia!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Paz ecológica e paz interior


Em cada 1º dia de Janeiro, crio uma lista de objectivos e medito sobre este dia, Dia Mundial da Paz. Preencho o dia escutando música. A música, independentemente do estilo, oferece uma playlist de aprendizado e reflexão. Cada canção ajuda-nos a perceber diferentes dimensões da paz: a empatia, a atenção ao mundo, a consciência da memória ecológica, a capacidade de escutar e respeitar o espaço do outro, e a necessidade de transformação pessoal e colectiva. Aqui segue o texto e a minha sugestão de playlist.

Paz ecológica e paz interior
Quando pensamos em paz, muitas vezes imaginamos apenas a ausência de guerra. Mas a paz é também a capacidade de habitar o mundo sem o ferir e de habitar-nos sem ruído excessivo. Em tempos de crises ecológicas e sociais, aprender a escutar tornou-se uma prática ética, quase revolucionária.

O pós-punk, nascido da fratura e da inquietação urbana, pode parecer sombrio à primeira audição. Mas é precisamente aí que mora a sua lição: recusar o excesso, escutar o vazio e sentir a tensão antes que ela se torne destruição. Entre riffs secos e atmosferas introspectivas, encontramos ensinamentos sobre respeito ao mundo e a nós mesmos.

A música pode refletir a terra ferida e a memória do que perdemos. Canções como “Cities in Dust” dos Siouxsie and the Banshees lembram-nos que civilizações desaparecem, mas deixam vestígios que não podemos ignorar. “Requiem” do Killing Joke é um grito diante do colapso ambiental e social, enquanto “A Forest” do The Cure transforma a natureza em labirinto, mostrando-nos que quando nos perdemos, percebemos a importância da atenção e do cuidado. A paz ecológica é, assim, reconhecer os limites antes que seja tarde demais.

O silêncio e o espaço são fundamentais tanto na música quanto na natureza. Álbuns como “Spirit of Eden” do Talk Talk respiram, respeitam o tempo e o espaço entre as notas — como um ecossistema saudável. Canções como “The Colour of Spring” de Mark Hollis mostram a fragilidade e a atenção às nuances, lembrando-nos da interdependência do mundo natural. E “An Ending (Ascent)” de Brian Eno cria uma paisagem sonora que coexiste sem dominar, ensinando que escutar é, de fato, um ato ecológico.

A paz do mundo começa na paz do indivíduo. Joy Division, em “Atmosphere”, convida-nos a caminhar com cuidado entre os outros, reconhecendo limites e espaço alheio. “Silent Air” do The Sound faz do ar uma metáfora de equilíbrio interior: invisível, mas essencial. E “Faith” do The Cure mostra que aceitar a fragilidade é uma forma de resistência, uma paz construída dentro de nós mesmos.

Mesmo na melancolia do pós-punk, há sinais de reconciliação e esperança. “I Believe in You” do Talk Talk funciona como uma oração laica, celebrando a vida e a esperança. “Second Skin” dos Chameleons lembra-nos da necessidade de transformação e adaptação, como a própria natureza nos ensina.

Em última análise, a paz, seja ecológica ou interior, não se proclama: pratica-se. Nas nossas escolhas, na forma como caminhamos pelo mundo, como consumimos e até como ouvimos música, reside o poder de transformação. O pós-punk, com a sua intensidade e sensibilidade, ensina que menos ruído é mais sentido, e que talvez a revolução mais urgente seja voltar a ouvir o mundo antes que ele se cale.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Boston Baroque — "Glory to God" from Handel's Messiah


Ele está desde o início dos tempos. Muito antes de Buda, Ísis, Zeus, Jesus, Maomé, etc...Ele não condena, não critica, não espolia. Não massacra. Ele é o caminho, o bálsamo. É Luz, Perdão, Amor. 
Tema muito bonito. Vozes encantadoras.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Fleet Foxes - White Winter Hymnal


Esta é uma canção evocativa em estilo de harmonia vocal fechada da banda indie-folk americana Fleet Foxes, originária de Seattle, no estado de Washington, EUA. O título é "White Winter Hymnal". A canção não é explicitamente espiritual, mas possui um forte impacto espiritual. A sua letra é propositadamente misteriosa para permitir ao ouvinte criar o seu próprio significado. A música conquistou uma enorme base de fãs nas redes sociais e nos serviços de streaming desde o seu lançamento, há cerca de 15 anos. O videoclipe explora o tema das esperanças (carinhosas) perdidas, mas que continuam a persistir no espírito natalício.

I was following the, I was following the

I was following the pack
All swallowed in their coats
With scarves of red tied 'round their throats
To keep their little heads
From fallin' in the snow
And I turned 'round and there you go
And, Michael, you would fall
And turn the white snow red as strawberries
In the summertime

Em “White Winter Hymnal”, do Fleet Foxes, a repetição do verso “I was following the pack” (“Eu estava seguindo o grupo”) e a imagem dos “scarves of red tied 'round their throats” (“lenços vermelhos amarrados em seus pescoços”) criam um clima de infância protegida, mas também sugerem uma sensação de uniformidade e vulnerabilidade compartilhada. O vocalista Robin Pecknold explicou que a música foi inspirada pela experiência de ver amigos de infância se afastarem e, às vezes, seguirem caminhos autodestrutivos. Isso dá um significado mais profundo ao trecho em que “Michael” cai e mancha a neve branca de vermelho, simbolizando a perda da inocência e o impacto das escolhas difíceis que surgem com o amadurecimento.

Embora Pecknold tenha dito que a letra é “bastante sem sentido” e foi criada como uma introdução ao álbum, a canção desperta sentimentos de nostalgia e melancolia, reforçados pelo arranjo vocal suave e pela repetição das imagens. A neve branca, tradicionalmente ligada à pureza e à infância, sendo manchada de vermelho, pode ser vista como uma metáfora para a transição da inocência para a experiência e para as mudanças e perdas inevitáveis da vida. O fato de “White Winter Hymnal” ter se tornado um hino não oficial das festas de fim de ano, mesmo sem citar o Natal, mostra seu apelo universal à memória, à passagem do tempo e à saudade de tempos mais simples.

O trabalho do grupo tem sido consistentemente elogiado pela crítica musical, que destacou o lirismo e o estilo de produção, para além de mencionar frequentemente o uso de instrumentação refinada e harmonias vocais. O álbum de estreia da banda foi classificado pela Rolling Stone como um dos melhores da década e foi também incluído no livro "1001 Álbuns Para Ouvir Antes de Morrer". A banda foi nomeada para dois prémios Grammy: o primeiro na categoria de Melhor Álbum Folk em 2012, com "Helplessness Blues", e o segundo na categoria de Melhor Álbum de Música Alternativa em 2022, com "Shore".


Santuário Cósmico


O santuário cósmico não é um lugar delimitado por paredes ou altares visíveis. Ele existe na totalidade do universo e manifesta-se sempre que o ser humano reconhece a sacralidade da vida. Cada estrela, cada organismo vivo, cada sopro de ar compõe este templo maior, onde tudo está interligado por relações de dependência, equilíbrio e mistério.

A cosmologia científica descreve a evolução do cosmos desde o Big Bang, a formação das galáxias, das estrelas e dos planetas, até ao surgimento da vida. Ao fazê-lo, mostra que somos feitos da mesma matéria primordial que deu origem às estrelas. Esta perceção reforça a ideia do santuário cósmico: não somos visitantes externos, mas expressão consciente de um processo cósmico em contínua transformação. O templo não está fora de nós; ele prolonga-se na nossa própria existência.

A cosmogonia, por sua vez, oferece narrativas simbólicas sobre a origem do mundo. Mitos de criação, tradições religiosas e saberes ancestrais não competem com a ciência, mas respondem a outras perguntas: porquê existimos, qual o nosso lugar, que valores devem orientar a vida. Essas narrativas transformam o cosmos em espaço de significado, onde cada elemento participa de uma história sagrada.

Pensar o cosmos como santuário é admitir que a natureza não é apenas recurso, mas presença. O solo que pisamos, a água que bebemos e a luz que nos aquece participam de uma ordem mais ampla, que nos antecede e nos transcende. Nesse sentido, cuidar da Terra torna-se um gesto espiritual: preservar é reverenciar, destruir é profanar.

O santuário cósmico também convida à humildade. Diante da imensidão do universo, o ser humano percebe a sua pequenez, mas também a sua responsabilidade. Somos parte do todo e, ao mesmo tempo, conscientes dele. Essa consciência transforma-se em ética: uma forma de estar no mundo baseada no respeito, na cooperação e na gratidão.

Por fim, reconhecer o cosmos como santuário é reconciliar ciência e espiritualidade. O conhecimento científico revela as leis e processos que sustentam a vida; a contemplação espiritual atribui sentido e valor a essa revelação. Juntas, elas apontam para uma visão integrada da existência, onde viver é, em si, um acto sagrado.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

18 dezembro - Dia Internacional dos Migrantes



Assinala-se hoje, dia 18 de Dezembro, o Dia Internacional dos Migrantes.

Fomos um país de emigrantes. Não podemos fingir que não sabemos o que isto significa. Nas últimas semanas Portugal indignou-se. E bem. Uma rede foi desmantelada por explorar imigrantes. Pessoas. Seres humanos. Gente que veio à procura do que tantos portugueses também procuraram durante décadas: uma vida melhor. 
Convém não termos memória curta.

Fomos um país de emigrantes. Milhões de portugueses sentiram frio em França, medo na Alemanha, solidão no Luxemburgo, saudades em Angola, no Brasil, na Suíça. Fugiam da pobreza, do regime do Estado Novo, da falta de futuro.
Não era escolha. Era sobrevivência.

Hoje o mapa mudou. Mas a dor não.

Os imigrantes que chegam a Portugal também sentem frio em Lamego, Paços de Ferreira, Anadia, Beja ou Alenquer. Também sentem medo. Também têm saudades da mãe. Também trazem a vida inteira numa mala e a esperança num contrato que muitas vezes não existe.

Ser migrante, com I ou com E, é um acto de coragem. E explorar essa coragem é uma vergonha colectiva. Este não é um tema de direita ou de esquerda.
Não é um debate de teclado fácil nem de likes rápidos.
É um teste à nossa humanidade, à nossa memória e aos nossos valores.

Se fomos emigrantes, não podemos aceitar ser exploradores.
Se exigimos dignidade lá fora, temos de garantir dignidade cá dentro.

Porque nenhum país é verdadeiramente desenvolvido enquanto fecha os olhos à desumanização dos mais frágeis.

E isto não é política. É consciência.

Os trabalhadores estrangeiros representam um importante contributo para a Segurança Social em Portugal.
Em 2023, as contribuições sociais dos imigrantes representaram mais de 2,6 mil milhões de euros.
No ano passado, em 2024, esse contributo foi de 3,6 mil milhões de euros, um valor recorde (os brasileiros representam 36,7% desse total, seguindo-se os indianos com 6,6%, os nepaleses com 4,3%, os cabo-verdianos com 3,9% e os angolanos com 3,5%).
A quantia que os imigrantes colocam nos cofres da Segurança Social é cinco vezes superior ao que lhes é pago em prestações sociais. Fonte

A mobilidade humana acompanha a história da humanidade como um caminho de superação, adaptação e procura de novas oportunidades. Num contexto global marcado pela interligação entre países e culturas, a migração continua a desempenhar um papel determinante na transformação social, económica e cultural das sociedades.

Ainda assim, muitas pessoas migrantes vivem em contextos de vulnerabilidade, enfrentando discriminação, exclusão e obstáculos no acesso a direitos fundamentais como a saúde, a habitação, a educação, a justiça e a participação cívica.

Este ano, sob o tema “A minha grande história: culturas e desenvolvimento”, somos convidados a reconhecer cada experiência migratória como parte essencial do desenvolvimento coletivo. Valorizar estas histórias é também um apelo à promoção de políticas mais equitativas, ao reforço da cooperação e à criação de respostas especializadas que assegurem proteção, dignidade e igualdade de oportunidades para todas as pessoas.

Em 2005, compreendendo que as pessoas migrantes vítimas de crime apresentam necessidades específicas que exigem um apoio especializado, a APAV criou a Unidade de Apoio à Vítima Migrante e de Discriminação (UAVMD) em Lisboa.

A partir de 2024, este serviço passou a designar-se APAV SAFE — Apoio a Vítimas Estrangeiras, de Crimes de Ódio, de Tráfico e Exploração de Pessoas, sendo concebido para responder às necessidades específicas de pessoas de nacionalidade não portuguesa, incluindo imigrantes, refugiados, requerentes de asilo, turistas ou pessoas temporariamente no país, que tenham sido vítimas de crime ou violência, independentemente da sua situação legal ou administrativa.

É ainda uma resposta especializada na intervenção com vítimas de tráfico de seres humanos, diferentes formas de exploração, crimes de ódio e discriminação, bem como práticas tradicionais nefastas, como a mutilação genital feminina, o casamento forçado ou crimes de honra.

Sediada nos Serviços de Apoio à Vítima de Lisboa, a APAV SAFE consolidou-se como unidade central de referência, assegurando apoio direto às vítimas e suporte técnico aos restantes serviços da Associação.

Ao longo de 20 anos, o trabalho desenvolvido tem contribuído para uma intervenção mais ajustada, informada e digna, reforçando o acesso das vítimas aos seus direitos e a proteção de pessoas em situação de especial vulnerabilidade.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Morreu Constança Cunha e Sá, figura singular do jornalismo português


Bem que andávamos desassossegados com o silêncio de Constança e Sá, sobretudo na rede X. Jornalista corajosa e frontal.
 
Ouvir os seus argumentos nos tempos da Troika era um bálsamo numa época bem negra que o País atravessou. Tinha a acutilância e a inteligência como algumas das características mais marcantes.

Outra característica marcante: no debate público em geral, representou sempre um compromisso com a verdade e com a independência editorial.

A primeira visibilidade foi na redação do Independente, do qual foi diretora-adjunta e diretora, tendo ainda sido redatora principal no Diário Económico. Porém ficou ainda mais famosa e conhecemos a sua personalidade na Televisão.

Durante muitos anos, integrou então a redação da TVI, em que foi editora de Política, mas abandonou esta estação de televisão em 2020 quando a Cofina estava em vias de entrar na Media Capital. "Saí da TVI, que durante muitos anos foi a minha casa, por uma questão de dignidade, saúde mental e higiene. Nunca acabaria a minha vida profissional a trabalhar para a Cofina. Lamento", justificou então.

Era assim, uma mulher de valores.

Um ano depois, acabaria por voltar à TVI para fazer comentário político.

Amante de livros e música erudita, fumadora assumida, na vida pessoal foi uma mulher de paixões e prazeres. Constança Cunha e Sá nunca se deixou encantar por carros. Até hoje, não tirou a carta de condução. "Nunca me inscrevi para tirar a carta e já não o vou fazer. Odeio burocracias e papelada", assumiu, sem medo das palavras.

Sentidos pêsames à família e amigos. Sentida vénia, Constança, que nunca se vergou ao sistema plutocrático.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Minha homenagem a Pam Hogg


Designer de moda, artista, DJ e música, mas mais do que isso, ícone da cultura visual britânica desde os anos 80, morreu esta quarta-feira a escocesa Pam Hogg, com um percurso marcado pela independência e por uma estética inspirada no punk e pós-punk, que atravessou a moda, a música, a boémia ou as artes visuais. No campo da música, para além de ter sido líder da banda Doll, vestiu imensa gente (de Lady GaGa a Rihanna, de Grace Jones a Beyoncé), tendo uma relação – profissional e pessoal – privilegiada com nomes tão diversos como Siouxsie Sioux, Debbie Harry, Björk, Duran Duran, Peaches, Chicks on Speed, Nick Cave ou Bobby Gillespie, inspirando várias movimentações, do pós-punk aos neo-românticos, passando pelo electroclash. Era também uma ativista. A sua última colecção, de 2024, focava-se nas questões ambientais e na Palestina. “É um mundo injusto e desigual este, por favor, usem a vossa voz, no presente, para o corrigir”, foi uma das suas derradeiras proclamações.

Saber mais

Site oficial

domingo, 16 de novembro de 2025

Palácio da Horta Seca - Isto não é política. É um banquete.


No exato momento em que o discurso oficial exige "moderação salarial" aos trabalhadores, em que a inflação esmaga o poder de compra e em que se negoceia um pacote laboral desenhado para "flexibilizar" (leia-se precarizar) ainda mais a vida de quem produz a riqueza, o Governo decide celebrar os seus verdadeiros parceiros.

E como o faz? Com um brinde simbólico, a entrega de um palácio.
Não é um escritório vago num bairro periférico. É o Palácio da Horta Seca, um símbolo de luxo e poder na artéria mais cara de Lisboa, um edifício histórico que o povo português pagou para restaurar.

Isto é mais do que um favor, é uma declaração de vassalagem. É o Estado, que devia ser o garante do bem comum, a curvar-se e a premiar a confederação patronal que, por definição, representa os interesses dos grandes grupos económicos, os mesmos que exigem menos direitos, menos salários e menos impostos.


É um ato de profundo desdém. É olhar nos olhos dos trabalhadores em greve, dos jovens precários, dos reformados com pensões miseráveis, e dizer-lhes, sem pudor: "Para vocês, sacrifícios e contas certas. Para eles, o luxo dos palácios que vocês pagaram."


Não se trata de uma simples cedência de instalações. Trata-se da materialização da captura do poder político pelo poder económico. É a transformação do património de todos na gorjeta luxuosa para o topo da pirâmide. É um escárnio que transforma a concertação social numa farsa, onde um dos lados negoceia no conforto de um palácio e o outro na incerteza do fim do mês.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Dias Perfeitos (Perfect Days) 2023


O filme Dias Perfeitos (Perfect Days, 2023), dirigido por Wim Wenders, é uma obra contemplativa e profundamente humanista que aborda temas como rotina, simplicidade, solidão, e o sentido da vida.

A história segue Hirayama, um homem de meia-idade que trabalha limpando casas de banho públicos em Tóquio. À primeira vista, leva uma vida monótona e solitária, mas o filme revela pouco a pouco a beleza e a plenitude que ele encontra nas pequenas coisas do quotidiano: o som das folhas ao vento, a luz da manhã, a música que ouve em cassetes antigas, os livros que lê, as fotografias que tira.

🌿 Temas centrais:

  • A dignidade do trabalho simples: Hirayama faz o seu trabalho com dedicação e calma, mostrando que há valor e beleza mesmo nas tarefas mais humildes.

  • A contemplação do quotidiano: o filme celebra o minimalismo e a atenção plena — viver o presente e encontrar alegria em gestos simples.

  • O silêncio e a introspeção: Wenders usa longos planos e pouca fala, convidando o espectador a observar e refletir junto com o protagonista.

  • A solidão e a escolha de um estilo de vida: Hirayama parece viver à margem da sociedade moderna, mas o faz por escolha — há uma liberdade na sua rotina.

  • A natureza e a cidade: o contraste entre o betão urbano e o verde das árvores reflete a harmonia que o personagem busca entre o mundo humano e o natural.

🎬 Destaques:

  • Koji Yakusho (no papel de Hirayama) ganhou o prémio de Melhor Ator no Festival de Cannes 2023.

  • A banda sonora é nostálgica, com músicas de Lou Reed, Patti Smith e The Animals — canções que traduzem o estado de espírito do protagonista.

  • A fotografia é poética e meticulosa, mostrando Tóquio como uma cidade silenciosamente viva.

Em suma, Dias Perfeitos é um filme sobre a beleza da rotina e a profundidade da simplicidade, uma espécie de meditação visual sobre o que significa viver bem — mesmo (ou talvez sobretudo) quando se vive com pouco.

🧍‍♂️ Resumo 

Hirayama (interpretado magistralmente por Koji Yakusho) vive uma rotina precisa e quase ritualística: acorda cedo, arruma a cama, cuida das plantas, apanha o mesmo comboio, limpa os sanitários públicos de Tóquio com esmero e, no tempo livre, lê livros usados, tira fotos em filme analógico e ouve música em cassetes antigas.

Essa repetição não é um vazio, mas uma forma de contemplação — uma vida em harmonia com o presente. Contudo, o filme deixa escapar, aos poucos, fragmentos do passado de Hirayama, sugerindo que ele escolheu esse modo de vida após um afastamento profundo da sua antiga realidade.

Quando a sobrinha adolescente, Niko, o visita inesperadamente, descobrimos que Hirayama pertence a uma família abastada, provavelmente da elite empresarial japonesa. A visita mostra o contraste entre o seu modo de vida simples e o materialismo do mundo que ele deixou para trás. Niko, fascinada pela autenticidade do tio, decide fugir da sua casa, e esse encontro reacende em Hirayama uma certa ternura, mas também uma melancolia silenciosa — ele sabe que as suas escolhas o afastaram de vínculos humanos.


🎞️ O final

No último ato, depois de reencontrar o irmão (pai de Niko), Hirayama regressa à sua rotina. Tudo parece igual — ele volta a acordar cedo, limpar, almoçar sozinho, dirigir. Mas há uma subtil diferença emocional: a visita da sobrinha parece ter reavivado algo dentro dele.

O filme termina com ele dentro do carro, conduzindo para o trabalho, enquanto ouve “Feeling Good” de Nina Simone. A câmara foca lentamente o seu rosto: ele sorri, depois o sorriso se desfaz, e lágrimas discretas surgem. O ecrã escurece.


🌅 Significado simbólico do final

Essa sequência final é profundamente ambígua — e é aí que está a sua força:

  • A lágrima não é tristeza pura. É um momento de epifania. Hirayama sente, por um instante, a plenitude da sua própria existência. É o reconhecimento da beleza e da dor de estar vivo.

  • “Feeling Good” reforça essa ideia: a música fala de recomeços (“It’s a new dawn, it’s a new day, it’s a new life for me”), ecoando o possível renascimento interior do protagonista.

  • O sorriso que se transforma em emoção mostra que, embora ele viva só, ele sente profundamente — o filme desmonta a ideia de que uma vida simples é uma vida vazia.

  • O ciclo recomeça, mas não de forma mecânica: cada dia é o mesmo e, ao mesmo tempo, único — daí o título Dias Perfeitos.


🕊️ Em essência

Wenders convida-nos a olhar para o quotidiano com outros olhos — a encontrar o sagrado no banal, o extraordinário no comum.
Hirayama é uma espécie de monge urbano, alguém que, através da rotina e do silêncio, alcançou uma forma serena de iluminação.