Mostrar mensagens com a etiqueta Bolota. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bolota. Mostrar todas as mensagens

sábado, 4 de novembro de 2023

Alfredo Sendim: “O que está em causa não é o planeta nem a natureza, somos nós”

Food is the currency of Life
Como é que podemos explicar a alguém que vive a maior tempo na cidade e tem pouco contacto com o mundo rural o que é a agrofloresta?
A agrofloresta é essencialmente a ideia de coabitar com o sistema natural – ou ecossistemas – que nos criaram e estão à nossa volta e dos quais nós ainda hoje dependemos integralmente. Somos completamente dependentes dos recursos que eles produzem. E nós não sabemos de forma alguma, por muita capacidade e engenho que tenhamos, supri-los de outra forma sem ser através do sistema natural.

É muito fácil percebermos o modelo da agricultura, que passa essencialmente por termos uma relação com o que está à nossa volta, eliminando o sistema natural, um conjunto de elementos relacionados entre si e uma capacidade de auto-regeneração única. No fundo aprendemos a canalizar a energia deste sistema apenas para poucos elementos, que obviamente são interessantes para nós, sejam eles cereais, eucaliptos ou olivais. Quando o espaço é muito grande e o número de utilizadores é pequeno, esta fórmula até pode ser bastante razoável, por que se as pessoas destruírem um bocadinho de natureza e quando voltarem ao mesmo sítio já tudo tiver sido regenerado ecologicamente, não há qualquer problema. O problema é que esta modalidade acabou por arrombar o sistema, que deixou de ser capaz de produzir a energia que o faz funcionar.


E a Agrofloresta pode esta inverter essa realidade?
A agrofloresta é uma forma diferente de nos inserirmos na natureza, que já foi desenvolvida em Portugal na Idade Média, com aquele sistema que nos orgulhamos tanto, chamado montado. Este não é mais do que uma evidência, como que dizendo “vamos lá reagir, depois de termos destruído a natureza e os ecossistemas todos”. Aconteceu uma vez no Neolítico, outra, muito mais forte, a seguir ao Império Romano, e uma terceira depois de todo o período dos visigodos, seguido pelos árabes. Às tantas houve alguém que bateu com a mão na mesa e disse: e se nós tentássemos viver com o sistema?

O montado, por exemplo, é um sistema muito simplificado e muito domesticado, adaptado às nossas necessidades, mas é um sistema. A agrofloresta não é portanto mais do que a ideia de viver com um sistema natural, compreendendo-o e sendo nós também parte dele. Diria mesmo que a agrofloresta é hoje uma das expressões mais profundas da ética da agroecologia.

Em que sentido?
Por se opor a uma ética antropocentrada, muito maioritária no pensamento ocidental, que nos diz que não somos natureza, porque a natureza é violenta e selvagem e nós, por oposição, afastamo-nos dela, numa tentativa de nos divinizar. A natureza existe para a ordenarmos e para podermos usufruir dela. A ética da agroecologia é diferente, pois pressupõe umas determinadas capacidades para o homem, que os outros seres não têm, e isso dá-nos não só uma enorme responsabilidade, como nos coloca ao nível dos outros elementos da natureza, como parte dessa mesma natureza. Essa evidência é personalizada pela a árvore, o elemento vegetal que dura mais e é o motor deste sistema. São estes seres que, de forma bastante eficiente, conseguem fazer o milagre de transformar a luz do sol em matéria orgânica. Por isso, todos os outros reinos – o animal, os fungos, as bactérias, os protozoários – são complementares à árvore e ao reino vegetal. Um sistema que não tem este elemento central não é um sistema.

Fala-se muito do solo vivo e da sua importância para a humanidade, mas continuamos sem perceber que não há solo sem árvore. Quem alimenta o solo são as árvores e o sol funciona como uma bateria, pensada neste sistema para ser carregada através de um painel fotovoltaico que se chama biodiversidade e é formado por todos estes seres interrelacionados entre si.

E agricultura tradicional não permite o funcionamento desse regime?
Não porque inventámos uma outra forma de alimentar essa bateria, partindo o painel solar da biodiversidade, através de meios mecânicos e químicos, para a podermos usar de uma forma especulativa, muito contrária aos interesses das novas gerações.
É por isso que a agroecologia é uma ética e não um mero conjunto de técnicas. Mas é também uma abordagem prática, porque implica que aprendamos a viver com o sistema, e quem vive com o sistema é recolector, não é produtor.
Trata-se talvez da expressão mais atual dessa visão sistémica de não arrombar o sistema, mas sim perpetuá-lo, adaptando-o às nossas necessidades, mas sendo o homem, também um elemento ao seu serviço.

Há aqui duas ideias opostas, uma é que a ideia de domínio sobre a natureza, em oposto à agroecologia, é sinónimo de abundância. E depois há esta nova abordagem aos seres vivos e à importância que têm as plantas silvestres e os animais selvagens terão no sistema, de modo a garantir essa mesma abundância a longo prazo.

O mais possível. Na perspectiva antropocentrada o homem é o centro e só ele conta. Há uma ideia muito simples, que é a de imaginarmos que a dado momento chega um ser mais capacitado, com uma atitude perante a humanidade semelhante à que temos com a maioria dos nossos congéneres do reino animal. É um exercício simples e que pouca gente faz.

Acima de tudo é importante perceber a nossa iliteracia ecológica. Ao contrário do que muitas vezes se afirma, a ecologia não é uma mera ideologia de esquerda, mas sim uma ciência, criada precisamente para estudar o sistema que nos criou. E ao não reconhecermos isso ou ao não partilharmos esse conhecimento, assumimos uma posição apenas arrogante. E grande parte destas questões têm precisamente a ver com esse desconhecimento profundo da forma como o nosso sistema de vida e o planeta funcionam.

E como funciona afinal esse sistema?
Todos os ecossistemas são cíclicos, e todos eles vão acabar num estádio que designamos de deserto. O deserto é praticamente só minério, sem vida, porque não há matéria orgânica no solo. Os ecossistemas de deserto evoluem para um outro extremo que é o clímax, mas passando por uma fase intermédia que se chama acumulação. O clímax não significa maior quantidade, porque muitas vezes na fase de acumulação até há maior libertação de recursos, mas é seguramente a fase da eficiência. É importante percebermos que a atitude antropocentrada, ligada à agricultura industrial de monocultura, é a principal responsável pela delapidação destes recursos. E isto são dados científicos comprováveis, pois a parte terrestre do nosso planeta tem mais de 80% em condições de deserto, enquanto há doze mil anos, no Holoceno, tínhamos o quadro inverso, com 80% do planeta em estado de clímax.

Como é o caso do montado, que já referiu como exemplo desse conceito…
O montado é completamente uma agrofloresta, hoje muito querida por todas as pessoas que gostam deste tipo de conceitos, mas é também um símbolo. Foi criado na Idade Média e entretanto foi sendo aperfeiçoado até atingir esta última versão. é o que se chama um modelo de “sucessão dinâmica”, que serve não só para instalar o sistema e viver com o sistema, como também pretende e permite transformar rapidamente desertos em clímax. O sobreiro é um ser de clímax, que precisa de um sistema muito complexo, assim como o humano, para poder viver. E nós não percebemos estes conceitos básicos, assim como também não percebemos que, no Neolítico, entrámos pelo interior de Portugal e matámos tudo aquilo que se chama a megafauna, ou seja todos os animais maiores que nós, sem percebermos que estávamos a suprir uma ferramenta absolutamente essencial dos ecossistemas.

É curioso perceber que os miúdos conhecem os dinossauros todos mas não sabem os nomes dos animais que aqui viviam há quinhentos anos. Sem o sabermos, roubámos instrumentos fundamentais aos ecossistemas. Manipulámos os animais e os outros seres, vegetais, em função das nossas necessidades. Uma vaca, hoje, não é um instrumento num ecossistema, e cada vez que a domesticamos mais, mais lhe retiramos as capacidades de promoverem serviços no ecossistema.

Referiu que dois terços de Portugal são mato, mas que podem ser úteis. O que é possível fazer nessa parte do território?
Antes devemos perguntar-nos porque é que esses dois terços são mato, há quanto tempo o são e o que eram antes. A consequência desta abordagem não sistémica, de assaltar a natureza e de fazer agricultura é o mato, porque o mato é o deserto.

As plantas e os seres que nós vemos no mato são seres pioneiros, que estão a recuperar aquilo que nós estragámos. O drama disto é que em função das condições de clima e de sol cada uma destas etapas pode levar sete a setenta mil anos, e nas nossas condições de Mediterrâneo são mais para setenta do que para sete. Se apenas nos pusermos quietinhos a olhar para o mato à espera que regenere, vai demorar cinquenta mil anos. Não temos tempo para isso.

Aliás, a ideia que o homem só é capaz de destruir, não é capaz de regenerar activamente, não faz sentido. Não há nenhuma razão para que assim seja, por muito que haja algumas correntes de pensamento que gostem e utilizem essa ideia da origem maléfica da nossa espécie. Pelo contrário, somos tão capazes de destruir como de fazer coisas absolutamente maravilhosas. Esses dois terços já foram terras férteis, com florestas e bosques. Porque é que não comemos, por exemplo, plantas e frutos silvestres? A grande razão tem a ver com a agricultura. A agricultura do Neolítico levou à existência de mais humanos no Neolítico final. Mas esse entusiamo levou-nos à razia do ecossistema da Península Ibérica. O que se seguiu foram mais de dois mil anos de caos, de lei do mais forte, que apenas terminou com a chegada dos romanos, que convenceram os povos peninsulares que a comida do mato e do bosque, desse supermercado aberto que não podia ser taxado, não era boa. Fomos convencidos que a única comida boa era a domesticada e nunca mais se comeram bolotas nem produtos silvestres. Ou seja, virámos costas a uma diversidade enorme.

Tendo em conta o modelo económico que temos, como é que podemos encarar o consumo de bolota e de outros frutos silvestres no futuro?
Em primeiro lugar é preciso perceber que ninguém come trigo à dentada, na espiga. O trigo é um alimento extraordinário depois de transformado e processado em farinhas e noutro tipo de alimentos, portanto com a bolota há que se fazer o mesmo, aprender a processá-la e a transformá-la com utilidade prática. A questão da bolota é muito simples: no Mediterrâneo, uma área com carvalhos, por exemplo azinheiras e sobreiros, produz, mesmo com uma densidade baixa de árvores, mais quantidade de alimento do que qualquer cereal e sem gastar energia nas mobilizações de solo, sem provocar erosão, sem adubos, sem barragens e sem tubos. A bolota é tão interessante para a alimentação humana como qualquer cereal.

E a ideia de que se tem estar sempre a limpar, que sentido faz, tendo em conta que se devia aproveitar aquela biomassa?
Numa abordagem de monocultura, a limpeza não é mais do que retirar elementos do sistema para o poder controlar melhor. Normalmente aquilo a que chamamos limpezas são elementos do sistema que vão alimentar o solo. Quando comecei a fazer agricultura nos Açores, os meus colegas começaram a perguntar algo muito interessante, sobre a ração que eu tinha para o solo naquele ano, porque ali a noção que o solo, se não for alimentado – e não é com adubos – vai acabar.

Ou seja, para alimentar o mundo não é preciso recorrer aos transgénicos.
De forma alguma. Para alimentar o mundo é preciso, em primeiro lugar, percebermos o que é que comemos. Essa variável é fundamental. Outra questão é percebermos que somos a única espécie que não atende aos recursos quando pensa em multiplicar-se. Isto vem da tal divinação do ser humano. Se calhar temos de ter a consciência que com o planeta em 20% de clímax e 80% de deserto, se calhar não podemos ser tantos quantos gostaríamos de ser.

A não ser que se reverta...
E que nós caminhemos para a abundância. Mas mesmo assim temos de ter uma bitola para percebermos conscientemente e com métodos libertários, que nenhum ser neste planeta atua como nós. Não há nenhuma espécie que não atenda à forma como se reproduz em relação aos recursos que existem.

Se não houver recursos, vamos sofrer. Sendo que a questão fundamental passa pelo relacionamento entre nós próprios. Como diz o Papa Francisco é uma questão social. Nós nunca vamos reverter esta posição de domínio perante a natureza se não a invertermos entre nós próprios. Não somos iguais a um mosquito, porque temos funções diferentes no ecossistema, mas como São Francisco de Assis tão bem nos mostrou, também não somos nem mais nem menos que um mosquito, pelo que não podemos ter a arrogância de matar milhões de mosquitos apenas porque interessa fazer negócio.

Saber mais:

terça-feira, 25 de abril de 2023

Poema da Semana: "A Terra" de Miguel Torga

A Terra

Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.

Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.

Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!

Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.

Terra, minha aliada
Na criação!
Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração!

E por isso te rasgo de magia
E te lanço nos braços a colheita
Que hás de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.

Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro dum corpo nu, moreno!

A charrua das leivas não concebe
Uma bolota que não dê carvalhos;
A minha, planta orvalhos...
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos.

Terra, minha canção!
Ode de pólo a pólo erguida
Pela beleza que não sabe a pão
Mas ao gosto da vida!

Odes, livro de poemas. 1ª edição 1946.
Miguel Torga

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Simbologia do Carvalho (Quercus robur)


Foto de Bernd Markowsky

Árvore milenar, o carvalho é uma espécie pertencente ao género denominado Quercus, procedente do hemisfério norte. Por ser uma planta que pode viver mais de 2 mil anos e que produz uma das madeiras mais fortes e resistente do mundo, o Carvalho se tornou uma espécie cercada de simbologia. Tradicionalmente, o carvalho é um símbolo de força e resistência, pois é uma árvore imponente e de grande longevidade. Nesta acepção, faz parte de muitos brasões de localidades.

Muitas nações, incluindo a Alemanha e a Inglaterra, escolheram o poderoso Carvalho como árvore nacional. Nos Estados Unidos, Iowa, Connecticut, Maryland, Nova Jersey, Geórgia e Illinois, todos têm carvalhos como árvores do estado pela mesma razão – o simbolismo do carvalho é consistente e seguro.

Muitas tradições em todo o Mundo consideram o carvalho como uma árvore sagrada devido à sua robustez e majestosidade. Considerava-se que havia uma forte relação de poder com os céus pelo facto de os carvalhos atraírem os raios e, por esse motivo, controlarem os trovões e as tempestades. Estas árvores estavam assim em contacto com as divindades e representavam-nas de alguma forma na Terra.

Símbolo de força moral e física, como o atesta a sua expressão em latim, robur, o mesmo termo utilizado para robustez e força, o carvalho representa a árvore por excelência e, através dela, o centro ou o eixo do Mundo. Na Idade Média, considerava-se que o carvalho tinha uma influência mágica sobre o tempo e a madeira de carvalho fazia parte das poções da feitiçaria que provocavam trovoadas e tempestades. 

A sua importância como meio de comunicação entre o Céu e a Terra, ou entre os homens e as divindades, é notória em muitas culturas. O carvalho tem uma grande relevância na simbologia bíblica. Abraão recebeu as revelações de Deus junto a um carvalho, tanto em Hébron como em Siquém. O Antigo Testamento mencionava também que a morada de Abraão em Hebrón era junto a um frondoso carvalho. 

Era a árvore de Zeus, na Grécia, de Júpiter, em Roma, e de vários outros deuses do Norte e do Leste da Europa.
 
Os gregos o chamavam de árvore de Zeus, o principal deus grego. O primeiro oráculo grego a ser estabelecido foi o de Dodona, no Épiro, que tinha como centro uma árvore sagrada de carvalho que respondia às questões a ela formuladas através do ruído de suas folhas e dos pássaros que nela habitavam. A interpretação dos ruídos era feita pelos sacerdotes.

O bosque da deusa Diana estava cheio de carvalhos que eram também o símbolo da deusa. 

O folclore grego também nos diz que os Dryads vivem nos carvalhos. Aqui Artemis vela por eles. Se a árvore de um Dryad morrer, eles desvanecem-se em nada.

Ulisses, na Odisseia, consulta o carvalho de Zeus no seu regresso a casa. 

As coroas que homenageavam os soldados romanos pelos seus feitos nas batalhas eram feitas de folhas de carvalho e bolotas.

Plínio, o Velho, mencionou os druidas celtas relacionando o seu nome com o nome celta de carvalho, duir, e por isso passaram a ser conhecidos posteriormente como "homens de carvalho". Esta comparação devia-se ao facto de os druidas serem considerados homens de sabedoria e força, qualidades também atribuídas ao carvalho. Os celtas assumiram o carvalho como uma divindade e um símbolo de acolhimento ou lar e também uma espécie de templo, dado o seu forte tronco e os seus ramos e folhagens espessos. Por esta razão, na Irlanda, as igrejas eram chamadas de dairthech, "casas de carvalho", o mesmo nome que entre os druidas significava bosque sagrado.

O Espírito do Carvalho aparece no calendário das Árvores Celtas como o 7º mês. No Ogham, é também a 7ª consonante. Não é surpreendente que os Celtas tenham tido o carvalho em grande consideração, pois era a Árvore do Dagda, que proporciona protecção aos líderes e guerreiros. Eles viam esta árvore como representando o máximo em hospitalidade e segurança, assim como um símbolo místico de verdade e bravura. Neste cenário, o Carvalho ficou como um lembrete firme de que a humanidade tem a capacidade de superar todas as adversidades, assim como uma tremenda capacidade de bondade até mesmo para com estranhos cujo caminho cruzamos.

Para os povos germânicos, o carvalho era a árvore do Deus Trovão, Thor.

Saber mais:
Leo Tolstoi- Parábola do Carvalho
Carvalho- O Pai da Montanha

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Dia Mundial da Bolota



O Dia Mundial da Bolota celebra-se a 10 de Novembro
Este dia tem como objetivo consciencializar a população sobre a destruição da floresta autóctone em Portugal, que é constituída principalmente por carvalhos. A bolota é o fruto do carvalho, assim como do sobreiro e da azinheira, que existem em maior abundância no Alentejo. A parte superior da bolota é a cúpula e a sua semente é um aquénio.

Porque se comemora?
A bolota foi um dos principais recursos alimentares ancestrais, pelo que a adaptação do nosso organismo a esse alimento estará gravada algures no nosso código genético.

Durante milhares de anos inúmeras culturas, como os celtas, prosperaram com o consumo de bolotas. Na Antiguidade Grega, o fruto era considerado o alimento dos homens invencíveis. Desde essa altura, a bolota, sobretudo de azinheira, cuja composição nutricional é excelente, tem vindo a ser a mais consumida tradicionalmente.

Os lusitanos e outros povos pré-romanos da Península Ibérica faziam farinha das bolotas para preparar pão, o que ainda é feito no século XXI. As bolotas também são usadas em algumas preparações culinárias típicas de Portugal.

Origem da Data
Foi a Escola Secundária Quinta das Palmeiras, da Covilhã, que criou esta data, celebrada pela primeira vez em 2009.

O que pode fazer?
A data celebra-se especialmente nas escolas, onde se realizam atividades educativas: os mais pequenos semeiam bolotas em vasos ou em campos, na esperança de verem nascer uma árvore. Também se realizam caminhadas e recolhas de bolotas, entre outras iniciativas.

E-Livro

Saber mais:

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Sobre a Terra, havia sobreiros…


Todos os meses, o projecto “Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental”, ligado à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, dá-lhe a conhecer as paisagens e a biodiversidade que povoam as obras literárias de escritores portugueses.

“Sentados em fardos de palha, faziam o caminho até ao campo em silêncio. O mesmo vento que passava pelos rostos, como árvores, dos homens era o vento que passava pelo rosto do rapaz. Quando desciam sobre a terra, havia sobreiros. O pai tinha o machado na mão e começava a subir a um sobreiro que conhecia de outros verões da sua vida. Josué procurava uma saca e, por baixo das copas agitadas dos sobreiros, ia enchendo-a de pedações de cortiça. Quando os homens arrancavam uma prancha de cortiça, tinham cuidado para que não caísse em cima de Josué. O pai afastava as pernadas do sobreiro para conseguir segui-lo com o olhar.

[…] Os homens acertavam com os machados nos sobreiros e arrancavam-lhes pranchas de cortiça como se lhes arrancasse a pele. O tronco das árvores ficava mais claro, ficava liso e tinha pequenas gotas de água.“

José Luís Peixoto, “O último dia de todos os verões”, Cal

Sobre a terra, o sobro. 
Sobre o silêncio, o sobreiro. 
Sob o vento, o sovereiro. 
Sob o chaparro, uma criança.

Quercus suber, dizem os cientistas. “Sobe-me”, dizem os sobreiros à criança que foi — que ainda é — José Luís Peixoto. A sua escrita, como a sua vida, é pontuada de sobreiros: “Costumava passar muito tempo a brincar no campo e, durante essas aventuras, os sobreiros eram convites a trepar.” No Alto Alentejo, o vento que passava pelo rosto do rapaz é o mesmo vento que agora varre a palavra suber e nos cicia “subam”…

Subir a um sobreiro — é este o convite do excerto acima. Podemos subi-lo com o machado dos tiradores de cortiça, trepá-lo com os (a)braços de uma criança, escalá-lo com a lupa do biólogo. E lá do cimo “das copas agitadas dos sobreiros”, haveremos de saber o sabor do suber.

Os pés, às vezes descalços, dos tiradores de cortiça sabem que o sobreiro é uma árvore forte e robusta, habitualmente com 10 a 15 m de altura, e que os sobros que conhecem “de outros verões da sua vida” podem atingir os 25 metros e os 300 anos. De machucos e chaparros, tornam-se “sobreiros solenes como patriarcas” (José Cardoso Pires). As mãos encortiçadas dos corticeiros aprenderam que a extracção das pranchas se faz através do manejo certeiro de um único instrumento, a machada corticeira, usada apenas nesta função, com cortes cuidados no tecido morto da casca, sem ferir os tecidos vivos do interior. A arte sóbria do descortiçamento permanece tradicional — quase táctil, quase intacta — desde tempos ancestrais. A transmissão deste conhecimento é feita de forma oral, atravessando montados e gerações: o machado na mão do pai, já a saca na mão do filho a enchê-la de pedações de cortiça.

Aos olhos de uma criança, o sobreiro é uma imagem poderosa de resistência e força. Marinhar por ele acima, engolfar-se nos seus ramos, saborear-lhes as bolotas, é uma aventura sobre as ondas da planície. Aos olhos dos poetas, “o fuste vermelho de um sobreiro” (Urbano Tavares Rodrigues) é uma imagem dolorosa de fragilidade e força. Quando os homens acertam com os seus machados para lhes arrancar as “pranchas de cortiça como se lhes arrancasse a pele”, é também a nossa pele que se comove. Quase ouvimos, como Saramago, os gritos do sobreiro: “e o que fica à mostra é a carne eriçada e sofrida, mas isto são fraquezas do narrador, imaginar que as árvores se arrepelam e gritam”. Gritos mudos, talvez, pois o sobro é ser do silêncio. Ou, a avivar a paisagem, gritos feitos só de cor… e de “pequenas gotas de água”.

Os biólogos dizem-nos que, de entre todas as nossas espécies arbóreas, o Quercus suber, endémico da região mediterrânica, é a que se encontra mais largamente disseminada no território português, razão bastante para ter sido declarada, em 2011, a Árvore Nacional de Portugal - texto da proposta e legislação. Os botânicos ensinam-nos que foi através da observação da cortiça (súber) – com as primeiríssimas lentes de microscópio – que, em 1667, o naturalista Robert Hooke descobriu a estrutura celular das plantas. De tão leve, a cortiça flutua hoje nas pranchas de surf, voga no deck das embarcações, voa até Marte nos foguetões da NASA. Leve, linda, limpa: as estimativas apontam para cerca de 10 milhões de toneladas de CO2 absorvidos anualmente pelos sobreiros em Portugal. Como pernadas de sobreiro, os diversos ramos das Ciências da Natureza sustentam que o montado de sobro e o sobreiral são dos ecossistemas mais ricos de toda a Europa e um dos 35 hotspots mundiais da biodiversidade. A sustentável leveza do ser, do súber, do sobro!


Joana Portela pertence ao grupo de investigadores ligados ao “Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental”. Esta é a primeira crónica da série “Escrita com Raízes”.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

A importância da Floresta Autóctone em Portugal


Por Jorge Araújo

Sob a designação genérica de floresta encobre-se um equívoco de consequências gravosas: no mesmo saco, incluímos o que resta da floresta autóctone (bosque, mata), o que foi domesticado pelo Homem (montado) e os povoamentos arbóreos para produção (pinhais, eucaliptais, castinçais).

O neolítico trouxe a reconversão progressiva do modo de vida de caçador-recolector para o agro-pastoril e, consequentemente, uma pressão sobre a floresta para libertação de terrenos destinados à pastorícia e à agricultura. Se até então, a floresta tinha evoluído ao sabor dos movimentos tectónicos e das alterações climáticas, na escala dos milhões de anos, a partir do neolítico, a intervenção humana acelerou drasticamente a sua mutação, na escala dos milhares ou mesmo das centenas de anos.

A chegada dos romanos à Ibéria por volta de 218 aC veio acentuar essa pressão pois, não só pretendiam substituir os cartagineses e fenícios na exploração das riquezas minerais, mas também produzir trigo, de que necessitavam para alimentar o Império. Aliás, todo o Norte de África, integrado no Império Romano, formatou-se como um imenso celeiro de Roma. Durante os 600 anos que permaneceram na Península, os romanos substituíram a economia de subsistência das primitivas tribos por grandes unidades de exploração agrícola, produtoras de azeite, vinho, cereais e pecuária. Em suma, com os romanos, assistiu-se à primeira grande transferência de solo florestal para a agricultura e a pastorícia.

Não esqueçamos ainda que a madeira foi, até ao advento dos combustíveis fósseis, e mesmo depois em muitas regiões, a principal fonte de energia para aquecimento e indústrias; as energias do vento e da água eram supletivas e aproveitadas para moagem e pouco mais. Portanto, a floresta autóctone teve de ser ela a suprir a “parte de leão” das necessidades energéticas, ao mesmo tempo que se via progressivamente amputada do seu solo em proveito da agricultura e da pastorícia; e isto... durante séculos!

Uma solução airosa foi encontrada no Sul onde dominavam as quercíneas perenifólias, a azinheira e o sobreiro. A astúcia consistiu em desadensar o bosque, abrindo espaço para o pastoreio, nomeadamente do porco preto, mas poupando as árvores, as quais foram sujeitas à poda, que favorece a produção de bolota, de que se alimentavam os suínos. A esta solução atribui-se a designação de “montado”. A cortiça, adquirindo um estatuto económico relevante, contribuiu para a sustentação económica dos montados, na perspetiva de sua exploração em uso múltiplo.

Mas mesmo o montado, apesar do compromisso que representava com a pastorícia, não resistiu, já no séc. XX, à agricultura impulsionada pela política que visava a auto-suficiência da produção do trigo. Em 1929, inspirado na “Bataglia del grano” promovida por Mussolini, na Itália, o Estado Novo, ignorando as advertências de quem sabia, designadamente do Prof. Azevedo Gomes, lançou a “campanha do trigo” que teve a sua maior expressão no Alentejo e, por via da qual, foi subsidiado o arroteamento de vastas áreas de montado e matos para expansão da cultura do trigo. A erosão e o esgotamento da pouca fertilidade dos solos, maioritariamente delgados, conduziram rapidamente ao insucesso: a partir de 1934, a produção não cessou de decair.

Chegados ao séc. XXI, Portugal tem pela frente um desígnio maior: reconstituir grande parte do seu património florestal, inspirando-se na composição das florestas autóctones.

Em boa verdade, a maior parte do coberto vegetal que tem ardido, é composto por uns miseráveis povoamentos de pinheiros e de eucaliptos com que foi substituída a floresta autóctone ou ocupados os campos abandonados pelas culturas tradicionais, pouco resilientes no contexto da economia aberta. Quem atravessar as nossas Beiras (e não só), encontrará extensas manchas verdes, enganosamente florestais, candidatas a mudarem para cinzento, e extensas manchas cinzentas à espera de reverdecerem para de novo voltarem a arder.

Impõe-se quebrar este ciclo verde-cinza. Não vale a pena culpabilizar a economia; do mesmo modo que só se eliminarão os plásticos abandonados quando estes forem generalizadamente reconhecidos como matéria-prima valiosa para indústrias transformadoras, também a floresta só será protegida quando o seu repovoamento, manutenção e proteção assentarem numa equação económica robusta. Mas, para tal, importa atribuir valor ao que tem valor: isto é, aos serviços que a floresta nos presta.

• As florestas são sumidouros de carbono, e produtores de oxigénio que nós consumimos em cada segundo das nossas vidas. Quanto vale este serviço?

• As florestas são a única barreira eficaz contra a desertificação: cortam o vento, retêm a água, enriquecem o solo, regulam o regime das chuvas, refrescam o ambiente. Estamos dispostos a prescindir delas? Quanto vale este serviço?

• As florestas pintam paisagens que nos encantam, e nos repousam fazendo esfumar-se o stress; oferecem-nos também ambientes propícios a atividades de lazer e desporto. Quanto vale este serviço?

• As florestas e a sua biodiversidade são um dos ativos do território mais importantes para a promoção do turismo. Quanto vale este serviço?

• As florestas fornecem-nos diversos materiais como madeira, cortiça e resina, que o Homem explora desde sempre; mas também frutos, cogumelos, mel e muito mais.

Enquanto não estivermos dispostos a reconhecer e contabilizar os inúmeros e insubstituíveis serviços que a floresta nos presta, se for genuína e acarinhada, encararemos sempre a reflorestação como um pesado encargo e não como um investimento. E é aí que está o busílis!

A par da floresta autóctone, pode e deve haver, em terrenos apropriados e de forma regulada, agricultura florestal (silvicultura) para produção de madeiras e de pasta de celulose, que se enquadram, é bom de ver, na fileira do sequestro de carbono desde que, depois de usados, esses materiais não sejam queimados, mas sim reciclados.

Daí a importância, também, da economia circular!

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Manual da Bolota (2019) e o Manifesto da Bolota





O “manifesto” da bolota
E se por alguma razão, após a expansão marítima dos povos europeus nos séculos XIV e XV, a população mundial tivesse sofrido um aumento exponencial? Certamente que a utilização de recursos naturais durante esse período teria sido muito mais intensa. E se na época renascentista as civilizações ocidentais tivessem as tecnologias de hoje? Provavelmente teriam utilizado em larga escala os jazigos minerais e petrolíferos, e teriam consumido muitos mais recursos hídricos e biológicos de modo a suportar uma população em rápido crescimento. E sendo seres humanos como nós, talvez apenas quando a escassez desses recursos se repercutisse na população, sobretudo nas classes mais influentes e com maior capacidade económica, começassem a tomar sérias medidas de gestão e conservação. Mas, talvez já fosse tarde de mais. Felizmente, e porque não ocorreu nenhum aumento populacional significativo como o que se observa hoje, não foi exatamente isso que sucedeu. Mas, e se tivesse acontecido? Que recursos teriam sobrado? Todas as civilizações edificaram-se e desenvolveram-se com recursos naturais. Sem eles, as civilizações regridem, desaparecem, guerreiam-se entre si para se apoderarem do pouco que ainda está disponível. O que teria chegado até hoje? Será que no século XXI existiria alguma verdadeira civilização? Seres humanos haveria certamente, mas as civilizações só se constroem com recursos naturais. Se os nossos antepassados tivessem esgotados as matérias-primas e ecossistemas de que agora dependemos, o que teria sobrado para nós? Certamente muito pouco, assim como muito pouco haveria da nossa civilização e do nosso modo de vida atual. E não tenhamos a ilusão de que alguma tecnologia nos valeria. Todas as tecnologias que dispomos só são possíveis pois usamos recursos naturais para as construir e pôr a funcionar. E como será daqui alguns séculos? Como serão as civilizações? Que recursos lhes vamos deixar? E quais lhes queremos deixar? Como seremos lembrados pela História? A civilização do salto tecnológico ou a responsável pelo declínio civilizacional? Também só haverá História se houver civilização. Uma coisa é certa, um futuro com milhares de milhões de seres humanos, tal como hoje acontece, só ocorrerá se lhes deixarmos recursos, ou então a Terra transformar-se-á numa espécie de Ilha da Páscoa a girar em torno do Sol, e nós as suas gigantes cabeças! O ser humano sempre necessitou dos recursos naturais para a sua sobrevivência. Ainda hoje, a nossa dependência é total. A água e o oxigénio, os alimentos e medicamentos, as fontes de energia e as matérias-primas que possibilitam o nosso estilo de vida moderno provêm todos eles, sem exceção, da Natureza. E assim foi ao longo de toda a nossa História.
Apesar da vastidão do nosso planeta, apenas parte é habitável. Necessitamos de terra firme e de temperaturas não demasiadamente extremas para podermos estabelecer populações em larga escala. Sendo o Homem o único animal que consegue viver em todos os biomas, apenas em alguns locais se edificaram verdadeiras civilizações e ocorreu um profundo aumento populacional. Curiosamente (ou não), quase todas emergiram em áreas semelhantes, desenvolvendo-se onde haviam bosques e florestas. Observando a distribuição atual da população humana, as grandes concentrações ocorrem na Índia e sudeste asiático, nas zonas tropicais da África e América, na Europa e restante região mediterrânea e em algumas regiões do continente norte-americano. Quando cruzamos estes dados com um qualquer mapa dos principais biomas, a distribuição parece tirada a “papel-químico” com a das florestas tropicais, das florestas de caducifólias e do bosque mediterrâneo.
Onde há árvores, ou melhor, onde havia, e temperaturas não demasiadamente baixas, é onde se encontram os grandes aglomerados humanos. Para compreendermos melhor esta relação, talvez seja necessário pensarmos naquilo que uma população humana precisa para sobreviver e se expandir: água, alimento, abrigo, combustível, medicamentos e algumas matérias-primas. Tudo isto pode ser retirado das árvores? A resposta é sim! Mas a floresta proporciona-nos muito mais recursos que aqueles que se obtêm diretamente das árvores. Elas são o suporte da biodiversidade. Delas dependem muitos animais, plantas, fungos, protistas e bactérias que o Homem utiliza diariamente. São também as florestas que proporcionaram muito do atual solo agrícola e permitem uma maior fiabilidade e previsibilidade dos ciclos hidrológicos, fundamentais para o estabelecimento e crescimento de qualquer comunidade. Em suma, foi nestes bosques e florestas que o Homem encontrou os recursos necessários à sua sobrevivência. O reverso da medalha foi a drástica redução e fragmentação destes biomas. Atualmente, a destruição das florestas tropicais encontra-se a um ritmo avassalador, com consequências dramáticas, sobejamente conhecidas. Por estranho que nos possa parecer, fenómeno semelhante ocorreu na Europa central e do sul, e ao longo da parte meridional da América do Norte. As civilizações ocidentais, onde se encontram os países mais ricos e desenvolvidos, edificaram-se em zonas outrora ocupadas por florestas em que a maioria das espécies se reproduzia a partir da germinação de uma semente muito particular, a bolota. Estes carvalhais, quer fossem de folha caduca ou persistente, atingissem porte arbóreo acentuado ou não ultrapassassem o tamanho de um arbusto, dominavam a maioria destas regiões. E hoje, o que sobrou desses ecossistemas? Apesar da velocidade da regressão destes biomas não ser comparável ao ritmo da desflorestação observada nos trópicos, a redução total de área dos bosques e florestas das regiões temperadas é muito, mas mesmo muito superior ao ponto de que os poucos carvalhais existentes não serem ecossistemas naturais, pois de alguma forma já sofreram intervenção do Homem.
A interferência humana nos carvalhais primitivos já ocorreu, e este facto é irreversível. Mas não se pense que a ocupação antrópica é necessariamente um fator negativo para os ecossistemas. Os montados, onde o sobreiro e a azinheira dominam, são um dos melhores exemplos em que árvores, sustentabilidade ambiental e atividades humanas se conjugam quase na perfeição. No entanto, a inexistência de carvalhais naturais não deixa de ser revelador da extensão da intervenção humana. Do mesmo modo, também só o Homem poderá inverter, ou pelo menos, compensar parcialmente o seu impacto na Natureza e permitir que os carvalhais autóctones recuperem um pouco da sua extensão original. Os benefícios diretos no ambiente, tais como o aumento da biodiversidade, melhores recursos hídricos, a recuperação dos solos, a diminuição do aquecimento global, da poluição atmosférica e do risco de incêndio são algumas consequências diretas extremamente benéficas para nós. Basta apenas que cresçam mais carvalhos. Todos os carvalhos se desenvolvem a partir de uma bolota. É da germinação de muitas destas sementes que se formam os carvalhais. Se queremos participar na conservação da Natureza, necessitamos de recuperá-los. Basta para isso semearmos bolotas. Simples, não é? Bastaria apenas um dia por ano em que recolhêssemos e semeássemos bolotas de espécies autóctones, diretamente no campo, ou as levássemos para casa e as colocássemos em vasos. No ano seguinte teríamos carvalhos para plantar. Os diferentes biomas que constituem a biosfera encontram-se interligados e interdependentes. A melhoria num dos seus componentes tem efeitos positivos e multiplicativos em todos os outros. O inverso também acontece. Apesar da grande capacidade regenerativa da Natureza, os equilíbrios naturais globais encontram-se interligados, de um modo que a ciência ainda não conseguiu desvendar a sua total complexidade. Os carvalhos não existem em todos os continentes. Apenas no hemisfério norte, essencialmente em regiões temperadas e mediterrâneas, é que ocorrem naturalmente as plantas do género Quercus sp. Contudo, uma parte significativa da população mundial vive nestes locais. Para muitos, é aí que nós vivemos, e é aí que a nossa ação pode ser decisiva e é aí que podemos fazer algo para nós, por nós e pelos nossos, os de hoje e os de amanhã. E quase que basta apenas um dia. Um dia em que a nossa insignificante ação local, na força que a união faz, seja um dia verdadeiramente mundial. Esse dia pode ser qualquer um... mas também pode ter data marcada. Vamos fazer do dia 10 de novembro um dia de contributo para o nosso mundo. Vamos transformá-lo no Dia Mundial da Bolota.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Alfredo Sendim - Histórias de Mudança


Alfredo Sendim, em Portugal, tinha sempre vivido em Lisboa e era um apaixonado pelo mar – a sua ligação à terra era inexistente. Queria entrar em Oceanografia mas acabou por entrar em Engenharia Zootécnica em Évora, na altura um desterro aos seus olhos. Acabou por se render aos encantos da cidade e, consequentemente, do campo.

Inesperadamente, após um período de 15 anos de nacionalização, surgiu a oportunidade de voltar à Herdade do Freixo do Meio, outrora da sua família e, acabado de se licenciar, abraçou o projecto com a mãe, ainda que sem qualquer experiência. Voltaram à Herdade no ano de 1990 com três culturas: a cortiça, as ovelhas e o trigo (já em completo declínio).

No início não tinha quaisquer noções de questões relacionadas com a natureza mas foi descobrindo através da experiência e também por casualidade – por exemplo, começou a trabalhar com Ana Fonseca no Freixo, que acabada de se licenciar em Ciências do Ambiente lhe pediu para fazer uma tese de mestrado sobre o montado. E, de repente, metade da sua vida é investida e dedicada à produção de alimentos e matérias primas na agricultura, na floresta e na pecuária.

Alfredo não identifica um momento em que mudou radicalmente e passou a ser muito mais consciente em relação a problemas sociais ou ambientais, olha apenas como uma construção gradual, de consciência crescente, que provavelmente terá começado a ser mais firme a partir dos seus 30 anos.

É perante esta consciência de colaboração activa com a Natureza, numa linha muito humilde entre a responsabilidade e desapropriação da terra, que Alfredo foi percebendo e vai concretizando a sua vocação em voltar a investir no montado, através da agroecologia.
A agroecologia surge como a solução por excelência: resolve todas as nossas necessidades respeitando a lógica e os tempos da Natureza, não matando os bichos que matamos diariamente, não saturando a terra mas contribuindo para o melhor funcionamento da terra, dos seus ecossistemas e biodiversidade – dá-nos exactamente o que precisamos, na quantidade e diversidade que precisamos.

E é assim que o grande projecto Herdade do Freixo do Meio ganhou bases firmes para se lançar e acolher os demais projectos que lá podemos encontrar hoje em dia, procurando a sustentabilidade económica a par da prática efectiva de políticas sociais e ambientais adequadas.

Por exemplo, quando percebeu que a falta de clientes se devia a uma enorme ignorância, da qual o próprio Alfredo já tinha sido alvo, relativamente às vantagens deste modo de gestão e produção, criou também serviços turístico-didácticos, para promover a informação e, desta forma, maior consciência. Também nesta lógica, integrou e fez outros integrarem o programa CSA, gerando mais comunidade, mais partilha, mais cooperação e, claro, mais segurança. O programa CSA combate, também, a desresponsabilização de tudo o que é importante e comum tornando todos aqueles que o integram co-responsáveis por tudo o que se pratica na Herdade do Freixo, neste caso.

A este projecto já se renderam agricultores, escolas, consumidores… isto porque a Herdade do Freixo do Meio garante uma sustentabilidade e segurança alimentar inigualáveis. Hoje em dia o Freixo do Meio acolhe também pequenos negócios complementares (produção de ovos, mel, entre outros), assentando a sua gestão na complementaridade. 

Alfredo é um exemplo de alguém que não desistiu até encontrar soluções sustentáveis e rentáveis para a agricultura biológica. E mostra-nos como é acessível a todos, não numa perspectiva imediata mas gradual e sobretudo de desenvolvimento pessoal, sugerindo a consciência como primeiro passo.

“Estou cada vez mais convencido de que um dos papéis mais dignos do homem é a capacidade de entendermos o funcionamento do que está à nossa volta. Temos essa capacidade por termos a ligação com o material e o espiritual. Quando percebemos o funcionamento da natureza, somos capazes de verdadeiramente criar édenes.”

Alfredo Sendim desafia-nos a uma função muito simples: contribuirmos para a construção de uma realidade maravilhosa neste planeta quer a nível de relacionamento humano, quer a nível da natureza.

Livro: Agroecologia- Miguel Altieri

Conceitos:

Agricultura Biológica: tipo de produção que visa produzir alimentos e fibras têxteis de elevada qualidade, saudáveis, ao mesmo tempo que promove práticas sustentáveis e de impacto positivo no ecossistema agrícola. Através do uso adequado de métodos preventivos e culturais, tais como as rotações, os adubos verdes (não se recorre à aplicação de pesticidas nem adubos químicos de síntese, nem ao uso de organismos geneticamente modificados), a compostagem, as consociações e a instalação de sebes vivas, entre outros, melhora a fertilidade do solo e a biodiversidade.

Agroecologia: é uma abordagem integrada da agricultura e alimentação, a nível local, espelho da sabedoria e experiências tradicionais. Que une a ecologia, a cultura, a economia e a sociedade e permite a manutenção de uma agricultura produtiva que assegura rendimentos regulares e optimiza a utilização de recursos locais ao mesmo tempo que reduz os impactos ambientais e socio-económicos negativos resultantes de práticas intensivas. Conserva o ambiente saudável e potencializa o futuro das comunidades exactamente porque respeita activamente os ecossistemas.

CSA - Community-Supported Agriculture: agricultura que é suportada pela comunidade, isto é, uma forma alternativa de produção alimentar em que os consumidores e produtores cooperam e partilham os riscos e benefícios.


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A relação dos gaios e das bolotas- os gaios são semeadores de carvalhos e de Quercus



                                                              Foto: Jerzystrzelecki

É no Outono que amadurecem as bolotas dos carvalhos e de outras árvores da espécie Quercus, como sobreiros e azinheiras. Esta é uma oportunidade bem aproveitada pelos gaios, que as armazenam debaixo de folhas e de vegetação rasteira.

“As bolotas são enterradas e ficam bem escondidas. Caso contrário, outros animais poderiam roubá-las, pois há inúmeros animais que gostam de comer bolotas, desde inúmeros ratinhos aos javalis e muitas aves”, explica Paulo Catry, investigador do MARE-Centro de Ciências do Mar e do Ambiente.

Este ornitólogo lembra que “as bolotas são super-abundantes no Outono e se armazenadas, fornecem um rico alimento para o Inverno”

Os gaios são aves da família dos corvídeos (Corvidae). São omnívoros e comem o que estiver disponível, incluindo insectos e ovos de outras aves, mas as bolotas são a parte mais importante da sua dieta.

Calcula-se que cada gaio esconde vários milhares de bolotas por ano, que depois do Inverno vão ser importantes ainda nos restantes meses. Para as comer, partem a casca com o bico e comem o que está no interior.

Têm uma memória incrível e podem memorizar durante meses centenas de esconderijos de bolotas”, adianta Paulo Catry.

‘Semeadores’ de carvalhos

No entanto, todos os anos, são muitas as bolotas que acabam por ficar esquecidas nos seus esconderijos, acabando por dar origem a novas árvores, o que transforma os gaios num dos mais importantes “semeadores” de carvalhos e de outras plantas da espécie Quercus – tanto no campo como em jardins de cidades.

Muito variável é a distância a que os gaios escondem estes alimentos: tanto podem ficar enterrados a cerca de três metros da árvore onde foram colhidos, como a pouco mais de meio quilómetro, concluíram dois investigadores espanhóis do CEAM-Centro de Estudos Ambientais do Mediterrâneo, Josep Pons e Juli Pausas.

As bolotas das azinheiras (Quercus ilex) estão entre as mais apreciadas por estas aves, seguidas pelas do sobreiro (Quercus suber) e do carvalho-cerquinho (Quercus faginea), notam os mesmos investigadores.

Os gaios apreciam as bolotas do sobreiro. 

Já Paulo Catry reconhece que não é fácil observar gaios nesta actividade, uma vez que são aves “muito discretas” no campo. Ainda assim, por vezes um observador mais atento poderá avistar um gaio a passar com uma bolota no bico, geralmente as maiores.

Fonte: Wilder

terça-feira, 23 de novembro de 2004

Dia da Floresta Autóctone- Principais espécies, sementeiras e plantações



Dia 23 de Novembro comemora-se o Dia da Floresta Autóctone, uma data importante para relevar a importância económica e ecológica das espécies florestais portuguesas e a necessidade de as salvaguardar da destruição, quer seja pelo fogo, pela ocupação do território ou pela má gestão.

A participação e colaboração de todos é fundamental para que a nossa floresta autóctone esteja cada vez mais protegida. Todos nós podemos dar o nosso contributo e fazer a diferença na sua defesa e propagação. Bastará que cada um de nós recolha algumas sementes, faça-as germinar e plante num terreno das imediações para que a floresta portuguesa retome cada vez mais a sua riqueza e biodiversidade. Contando com a colaboração de todos, deixamos aqui algumas informações úteis para que cada vez mais o nosso país veja as suas espécies autóctones reconquistarem espaços que hoje estão desprovidos da diversidade de fauna e flora que no passado os caracterizou.

Calendário para Sementeiras e Plantações

Recolher sementes: Mais adequado de Setembro a Dezembro

Semear: Aceitável de Novembro a Maio, sendo mais adequado a partir do fim do
Inverno (Março a Abril), para evitar as geadas quando existir a germinação
das sementes.

Plantar árvores e arbustos: Aconselha-se a partir de Novembro, sendo mais adequado no Inverno, existindo algumas espécies que podem ser plantadas no início da Primavera.

Sementeira

A propagação por sementes é aconselhada para espécies em que a sua reprodução só seja possível através desta técnica e para espécies que produzam grande quantidade de sementes de fácil recolha.
A recolha de sementes é muito simples, basta apanhar os frutos debaixo de uma grande árvore de preferência saudável e vigorosa, acondicionar em local seco, frio e arejado até se proceder à sementeira num local preferencialmente não muito afastado do sítio onde foram recolhidas as sementes.
As sementeiras efectuam-se normalmente na Primavera (Março a Abril), embora algumas espécies, como por exemplo o Carvalho, possam ser semeadas no Outono imediatamente após a sua recolha.
Aconselha-se para a sementeira de árvores, a abertura de covachos, onde se semeia cada semente em buracos separados, feitos com uma ferramenta ou pau, tapando de seguida o buraco com terra.
A profundidade dos covachos, depende do tamanho da semente e do tipo de solo,sendo que as sementes maiores (castanhas e bolotas) necessitam de covas maiores e mais profundas (5-8 cm), enquanto que para outras espécies é suficiente apenas a profundidade de 1 a 3 cm.
Após a sementeira aguarda-se pela época da germinação para saber qual o sucesso.

Plantação

A maioria das plantações de árvores no nosso país está associada mais aos valores económicos do que ecológicos, nomeadamente com as monoculturas de pinheiro-bravo e eucalipto. Em geral, o valor conservacionista destas plantações é baixo. Poucas espécies de plantas e da fauna silvestre estão adaptadas às monoculturas destas árvores.
Neste sentido, é fundamental fomentar outras espécies de árvores mais importantes ecologicamente, como as nossas árvores autóctones (carvalhos,sobreiro, azinheira, freixo, etc.).
As plantas novas podem ser produzidas num viveiro, por exemplo numa escola, ou serem adquiridas em viveiros especializados, que fornecem jovens árvores certificadas.
O local de plantação pode ser, por exemplo, no pátio de uma escola, num jardim, ou numa mata municipal.
È necessário proceder-se à preparação do terreno com a abertura de covachos, onde vão ser plantadas as árvores. Convém que exista terra boa no local para aumentar o sucesso futuro da plantação.
Não se deve descurar a rega das árvores com alguma regularidade após a plantação e nos períodos mais secos para que as árvores não sequem.

Árvores Autóctones da Floresta Portuguesa (mais frequentes)

Espécies da Floresta Mediterrânica e Atlântica

Medronheiro
Arbutus unedo
Zambujeiro Olea europaea var. sylvestris
Pinheiro-manso Pinus pinea
Pinheiro-bravo Pinus pinaster
Cerejeira-brava Prunus avium
Carvalho-português Quercus faginea
Carvalho-negral
Quercus pyrenaica
Carvalho-alvarinho
Quercus robur
Azinheira
Quercus rotundifólia
Sobreiro Quercus suber


Espécies Ripícolas - Associadas a cursos de água

Amieiro
Alnus glutinosa
Freixo Fraxinus angustifolia
Choupo-negro Populus nigra
Borrazeira-negra Salix atrocinerea
Salgueiro-branco Salix alba
Ulmeiro Ulmus minor

Fonte: Associação Quercus

quinta-feira, 4 de março de 2004

Toponímia portuense ligada aos carvalhos

Por João Gonçalves da Costa O Primeiro de Janeiro, 26/Nov/2003

Travessa da Carvalhosa

A toponímia portuense está muito ligada ao antigo coberto vegetal duma cidade que evoluiu, lentamente, desde tempos pré-históricos. Porto, Gaia e Portugal estão, igualmente, ligados à existência da Gália, uma planta palustre em vias de extinção, nas turfeiras e zonas húmidas do litoral. Por hoje, gostaríamos de analisar uma grande quantidade de topónimos, que conotam Carvalhos ou os lugares onde eles predominavam. Os espaços que hoje chamamos de parques eram designados, nas Terras do Norte de Bouças, com origem no adj. lat. baltea, pl., que significa várias coisas: «terreno que produz lenha, chamiços, guiços, e mato para a cama do gado, com vista à correcção das terras fundas, especialmente tojo, urzes, carqueja, arbustos; e árvores, normalmente pinheiros, eucaliptos e carvalhos». A designação nortenha de Bouça oscila entre bouzas, balça, bauzas, bustelos, etc. A sua verdadeira origem é, de certeza, pré-latina, isto é, celta. 
O actual Concelho de Matosinhos fora chamado de Bouças! Na toponímia portuense, temos a Viela da Bouça, a Bouça do Canastreiro, o lugar da Bouça do Ribas, a Rua das Bouças, a travessa da Bouça. Estas designações urbanas, praticamente em desuso, provam que os Carvalhos tinham muitos espaços na Cidade. Seguindo, agora, pelo caminho dos chaparros, tão queridos dos Alentejanos, vamos encontrar a Rua das Azinheiras, como prova que, por estas terras do Baixo-Douro também havia burros e Azinheiras, ou seja Quercus ilex L. Toponímia dos Carvalhos Ligada mais directamente à existência de Carvalhos Robles, Q. robur L., intramuros, encontrámos um número importante de nomes que conotam o Carvalho comum dos tempos primitivos: Carvalheiras, Carvalhido, Carvalho, Carvalhosa, com referência e ruas, travessas, vielas e uma freguesia, que é o Carvalhido. 
Começando por um espaço que deve ser dos mais antigos, referimos os Carvalhos do Largo do Priorado, ali mesmo junto da Igreja Românica de Cedofeita, muito perto da antiga Rua e lugar da Carvalhosa, hoje Rua de Aníbal Cunha. A existência destes Carvalhos junto da Igreja prova do apreço que as civilizações pré-cristãs tinham pelos Carvalhos sagrados. 
Em termos de topónimos nacionais, os Carvalhos fornecem um enorme leque de nomes de lugares, freguesias, vilas, povos, etc. É interessante verificar como os povos distinguiam entre Carvalhinhos, Chaparros, Carvalheiras e Carvalhos. As Carvalheiras são nomes que os Minhotos atribuem às árvores mais velhas, geralmente muito fecundas em frutos (bolotas ou glandes). 
A designação de chaparro é, de preferência, extensiva aos juvenis dos Sobreiros, Azinheiras e Carrascos. Esta última designação também se reporta a plantas jovens. Gostaríamos, agora, de confrontar o nome genérico do Carvalho, Quercus, com outros nomes que conotam Carvalhos, mormente: Cerca, Cerquido, Cerquinho, Cercal, Cercado e Carvalhido. 
É, realmente. muito difícil demonstrar que Carvalho e Quercus têm origem e raiz comuns. José Pedro Machado ajuda-nos a essa compreensão ( 1). Cerca vem do lat. circa, «à volta de, à roda, de todos os lados; nas vizinhanças de». Cercal lat. *cerquale, de *cerquu- por quercuu- / *kuerkuu > Quercuu-, com o sentido de «Carvalho». Paul Aerbischer diz que *Quercus provém duma forma dissimilada, no Latim de Espanha e Itália: * Cerquus > Quercus ( * Kuerkus ), equivalente ao Celta Carbalium. A forma Carvalhido provém do colectivo medieval *Carballietum ( de *Karballiu), que evolui foneticamente para Carvalhido: Karballium > *Karballetum > * Karballetu > * Karballedo > *Karballido > Carvalhido. Como se trata dum nome de origem Celta, devemos ter em atenção e articulação do -CE- latino, que deve pronunciar-se /KE/, afastando-se das pronúncias portuguesa, castelhana e italiana. 
Ver a pronúncia restaurado do Latim Clássico. 
Assim chegámos ao Q. E. D. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Livros Horizonte, Lisboa., 1997, vol. I, II e III.