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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Alterações climáticas estão a deslocar borboletas em todo o mundo


Uma em cada dez espécies de borboletas em todo o mundo já alterou a sua área de distribuição, com as alterações climáticas e os fenómenos meteorológicos extremos a serem responsáveis por quase 80% dos movimentos registados, revela um novo estudo liderado pela Monash University.

A investigação, publicada na revista científica Nature Ecology & Evolution, é a maior análise global deste tipo e avaliou 6.182 registos de alterações na distribuição de 1.758 espécies de borboletas em 105 países. O trabalho reuniu informação de literatura científica publicada em inglês e noutras línguas, bem como avaliações realizadas por 68 especialistas.

O autor principal do estudo, Shawan Chowdhury, responsável pelo Global Change Ecology Lab da School of Biological Sciences da Monash University, considera que os resultados revelam um mundo natural em rápida transformação e evidenciam falhas importantes na monitorização da biodiversidade.

“Encontrámos espécies de borboletas a alterar as suas áreas de distribuição em todos os continentes onde existem. A dimensão é impressionante e está a acontecer muito para além das regiões mais estudadas da Europa e da América do Norte”, afirma Shawan Chowdhury.

“As alterações climáticas são agora uma força dominante a redefinir os locais onde as espécies conseguem sobreviver. Para muitas borboletas, a única opção para sobreviver é deslocarem-se, muitas vezes rapidamente, para acompanhar as condições adequadas”, acrescenta.

Mais espécies avançam para novas áreas, mas algumas estão a desaparecer
O estudo mostra que 80% das espécies analisadas expandiram a sua área de distribuição, muitas vezes deslocando-se para novos territórios onde as condições climáticas se tornaram mais favoráveis devido ao aumento das temperaturas.

Ao mesmo tempo, 27% das espécies registaram uma redução da sua distribuição e 22% alteraram a sua presença ao longo de gradientes de altitude. No entanto, estas mudanças de altitude foram raramente documentadas nas regiões tropicais, uma situação considerada preocupante devido aos limites térmicos reduzidos das espécies que vivem nesses ecossistemas.

A análise revelou ainda diferenças significativas na quantidade de informação disponível entre regiões. Cinco países europeus - República Checa, Finlândia, Luxemburgo, Espanha e Suécia - destacaram-se por terem registos de alterações de distribuição para mais de metade das espécies de borboletas conhecidas.

Quando considerados apenas os países onde existem registos de espécies que alteraram a sua distribuição dentro ou fora do território nacional, 32 países apresentavam mudanças documentadas em pelo menos um quarto das espécies conhecidas e 10 países em mais de metade.

Falta de dados ameaça regiões tropicais
Para Shawan Chowdhury, uma das conclusões mais relevantes do estudo é a quantidade de informação que ainda permanece desconhecida.

“Uma das conclusões mais surpreendentes é a quantidade de evidência que estava em falta”, afirma.

“Quando incluímos estudos em línguas que não o inglês e conhecimento de especialistas, surgiu uma imagem global completamente diferente. Sem estas fontes, teríamos subestimado drasticamente os padrões globais de alteração de distribuição, sobretudo ignorando padrões importantes nos trópicos, onde vivem 80% das espécies de insetos.”

A investigação identifica grandes lacunas geográficas na monitorização da biodiversidade, nomeadamente na África Central, Sudeste Asiático, Nova Guiné e Bacia Amazónica, regiões consideradas hotspots globais de biodiversidade.

“Estas são as regiões onde as espécies são mais vulneráveis e onde sabemos menos”, alerta o investigador.

“As borboletas tropicais já vivem próximas dos seus limites térmicos superiores. Mesmo pequenos aumentos de temperatura podem ultrapassar esses limites, especialmente quando a alteração do uso do solo fragmenta os habitats de que as borboletas dependem para se deslocarem e acompanharem os climas adequados.”

Borboletas como sinais de alerta dos ecossistemas
Os autores defendem que uma monitorização global mais equilibrada, padronizada e multilingue é essencial para garantir que as estratégias de conservação sejam baseadas em informação completa.

“As borboletas são indicadores de alerta precoce e estão a emitir um aviso em todo o planeta. Se as suas áreas de distribuição estão a mudar desta forma, isso indica alterações profundas em todos os ecossistemas”, afirma Shawan Chowdhury.

“Precisamos urgentemente de uma monitorização global coordenada, sobretudo nos trópicos, para perceber o que as espécies estão a fazer, para onde estão a ir e como podemos protegê-las. Isto é particularmente importante para cumprir as metas do Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal.”

O estudo conclui que a redistribuição das espécies impulsionada pelo clima não é uma possibilidade futura, mas uma realidade atual e em aceleração, exigindo novas estratégias de conservação capazes de responder a um planeta onde cada vez mais espécies estão em movimento.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Dia Mundial do Elefante 20026


Introdução e Contexto Histórico

Celebrado anualmente a 12 de agosto, o Dia Mundial do Elefante - instituído em 2012 por iniciativa da realizadora canadiana Patricia Sims e da Elephant Reintroduction Foundation da Tailândia - constitui um marco global para a consciencialização sobre a preservação e gestão sustentável da família Elephantidae. Em 2026, a efeméride assume um caráter de acrescida urgência analítica: o declínio demográfico persistente em África e na Ásia impõe a revisão contínua das estratégias de gestão de ecossistemas, o combate ao comércio ilícito de marfim e a reavaliação ética dos modelos do ecoturismo e dos safaris.

1. Divergência taxonómica: as três espécies reconhecidas
A biogeografia contemporânea e a genómica populacional reconhecem atualmente três espécies distintas de elefantes:
  1. Elefante-de-savana-africano (Loxodonta africana): é o maior mamífero terrestre do planeta. Distribui-se maioritariamente pelas savanas e habitats abertos da África Subsaariana. Encontra-se classificado como Em Perigo (EN) pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN.
  2. Elefante-da-floresta-africano (Loxodonta cyclotis): distinguido formalmente do L. africana devido a evidências genéticas inequívocas, habita as florestas tropicais densas da África Central e Ocidental. De menor porte e com presas mais retas, está classificado como Em Perigo Crítico (CR) pela IUCN, tendo sofrido perdas drásticas devido à caça furtiva.
  3. Elefante-asiático (Elephas maximus): presente de forma fragmentada em 13 países do Sul e Sudeste Asiático. Morfologicamente caraterizado por orelhas menores e por uma única projeção digital na tromba, encontra-se igualmente classificado como Em Perigo (EN) na IUCN Red List.
2. Ponto de Situação Populacional e Ameaças
De acordo com os dados compilados no African Elephant Database mantido pela IUCN, estima-se que restem cerca de 400.000 a 415.000 elefantes africanos na natureza. Relatórios da World Wildlife Fund (WWF) e do programa CITES MIKE (Monitoring the Illegal Killing of Elephants) indicam que a população do elefante-da-floresta declinou mais de 86% em três décadas. A população selvagem de elefantes asiáticos é estimada em apenas 40.000 a 50.000 indivíduos.

As pressões antrópicas organizam-se em três eixos centrais:
  1. Caça furtiva e tráfico: a procura ilegal de marfim continua a perturbar as demografias locais.
  2. Fragmentação de habitat: a conversão agrícola e a urbanização destroem cenários de dispersão.
  3. Conflito Humano-Fauna (CHF): o aumento das sobreposições territoriais gera episódios letais de retaliação motivados pela destruição de culturas agrícolas.
3. Estratégias de Preservação e Conservação
As respostas institucionais assentam na transição para abordagens integradas de paisagem e tecnologia:
  1. Corredores ecológicos Transfronteiriços: iniciativas de grande escala, como a KAZA TFCA (Kavango-Zambezi Transfrontier Conservation Area), conectam parques nacionais em cinco países da África Austral, garantindo rotas de migração seguras.
  2. Tecnologia de rastreio e monitorização: implementação de coleiras com GPS via satélite geridas por organizações como a Save the Elephants e aplicação da plataforma de dados SMART (Spatial Monitoring and Reporting Tool) pelas brigadas de fiscalização.
  3. Mitigação biológica do CHF: desenvolvimento de cercas de colmeias (beehive fences) promovidas por projetos científicos como o Elephants and Bees, que aproveitam o repúdio natural dos elefantes relativamente às abelhas para afastar os animais de áreas agrícolas.
4. Restrições no turismo de safari e atividades recreativas
A indústria do ecoturismo atravessa uma reestruturação normativa impulsionada pelo bem-estar animal e por relatórios globais de entidades como a World Animal Protection.

Proibição de Safaris de Montaria (Elephant Rides)
A exploração turística assente na montaria e contacto direto tem sido desmantelada progressivamente:
Na África Austral (em particular no Botsuana), as diretivas da indústria de safari e das autoridades de conservação baniram as práticas comerciais de passeios a dorso de elefante.

No Sudeste Asiático (Tailândia), estudos de monitorização continuada promovidos pela World Animal Protection registam uma queda consistente na oferta de viagens a monte e a transição gradual para o modelo de "apenas observação" (observation-only sanctuaries).

Restrições de Capacidade e Impacto Ambiental em Safaris
Nos ecossistemas de safari em parque aberto (como no Parque Nacional do Chobe ou na Reserva do Masai Mara), os organismos governamentais aplicam diretrizes rigorosas:
  1. Lotação por avistamento: proibição de aglomeração de mais de 2 a 3 veículos em simultâneo junto a manadas.
  2. Manutenção de distâncias mínimas: para evitar stresse comportamental nas matriarcas e crias.
  3. Proibição do Off-Roading: Confinamento estrito aos trilhos oficiais para evitar a degradação da flora nativa.
Considerações Finais
A análise do estado de conservação dos elefantes em 2026 demonstra que a viabilidade a longo prazo da família Elephantidae depende da consolidação de corredores ecológicos contínuos, do combate intransigente ao crime ambiental e da transição definitiva do turismo recreativo para um modelo ético, sustentável e baseado exclusivamente na observação à distância.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Grande Muralha Verde restaura 1,66 milhão de hectares na África



Cerca de 1,66 milhão de hectares estão em processo de restauração no Sahel, região africana entre o deserto do Saara e a savana do Sudão. O resultado representa a principal conquista da iniciativa Acelerador da Grande Muralha Verde, que completou cinco anos e teve o relatório apresentado esta semana pela Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD).

Outros números em destaque do balanço incluem 24 milhões de toneladas de CO₂ equivalente sequestradas ou mitigadas, 4,6 milhões de empregos criados e 46 milhões de pessoas diretamente impactadas.

Segundo a UNCCD, o esforço envolve um conjunto de paisagens restauradas, áreas agrícolas, sistemas de água e comunidades. O objetivo é combinar a recuperação de terras com a segurança alimentar, a geração de oportunidades económicas, o acesso a energia limpa e o aumento da resiliência perante as alterações climáticas e a seca.

Grande Muralha Verde foi criada em 2007 pela União Africana e pela UNCCD e reúne atualmente 11 países fundadores, numa área de 156 milhões de hectares, do oeste do Senegal ao Corno de África. Já o "Acelerador" foi criado em 2021 para melhorar a coordenação da iniciativa, acompanhar os recursos financeiros e ajudar os países a medir os resultados das ações de restauração.

Resultados parciais
Apesar dos avanços, o próprio relatório alerta que ainda há limitações importantes no acompanhamento dos resultados. O Observatório da Grande Muralha Verde monitoriza mais de 389 projetos, porém menos de 90 apresentam atualmente dados de acordo com os indicadores harmonizados adotados pela iniciativa.

A UNCCD considera os resultados, portanto, iniciais. Além dos 1,66 milhão de hectares em restauração, os dados disponíveis apontam para a criação de 4,6 milhões de empregos, contra uma meta de 10 milhões até 2030, e a produção de 2.315 megawatts-hora de energia limpa. A entidade ressalta que os processos de restauração de terras podem levar anos ou décadas para produzir resultados completos e que o levantamento da totalidade dos projetos ainda está em curso.

Para tentar superar a fragmentação das informações, foi criado em 2024, em Ouagadougou, Burquina Faso, o Observatório da Grande Muralha Verde. A plataforma reúne informações sobre projetos, financiamento, resultados e dados geoespaciais. Segundo a UNCCD, o sistema já foi endossado por dez dos 11 países fundadores.

Também foram criadas coligações nacionais em nove dos 11 países, reunindo ministérios, sociedade civil, universidades, setor privado e meios de comunicação. A intenção é melhorar a coordenação das ações e transformar os compromissos financeiros em resultados verificáveis nos territórios.

Desafio do financiamento
O Acelerador foi lançado após a Cimeira One Planet, em 2021, quando parceiros técnicos e financeiros anunciaram mais de US$ 19 mil milhões em compromissos para a Grande Muralha Verde. A iniciativa passou a funcionar como uma estrutura para coordenar os esforços, acompanhar os recursos e fortalecer a capacidade dos países de demonstrar os resultados obtidos.

O relatório, porém, aponta que a distância entre compromissos e resultados continua a ser um desafio. Além da falta de dados completos, a UNCCD cita dificuldades de coordenação entre diferentes atores e o tempo necessário para que os recursos financeiros se transformem em ações no território.

A próxima etapa deve dar maior peso à comunicação, a mecanismos financeiros inovadores e à gestão transfronteiriça de terras e águas. Entre as possibilidades mencionadas estão obrigações verdes, créditos de carbono e mecanismos de financiamento combinado.

A experiência também procura ampliar a dimensão social da restauração. O relatório destaca iniciativas de geração de rendimento para mulheres, capacitação de jovens e fortalecimento de empreendimentos locais. Num dos exemplos citados pela UNCCD, mulheres do Mali receberam equipamentos e formação e ampliaram uma cooperativa de transformação de produtos agrícolas. No Chade, mulheres foram capacitadas para instalar e reparar painéis solares, transformando o acesso à energia em fonte de rendimento.

COP17
Seca, degradação da terra e restauração dos solos serão temas centrais na 17.ª Conferência das Partes (COP17) sobre Desertificação, que decorre entre os dias 17 e 28 de agosto em Ulan Bator, capital da Mongólia. 

domingo, 2 de agosto de 2026

Cientistas descobrem DNA misterioso: dois antepassados desconhecidos no genoma humano

A calote craniana encontrada no vale de Salkhit, no leste da Mongólia, pertenceu a uma mulher que viveu há cerca de 34.000 anos. Institut für Archäologie, Mongolische Akademie der Wissenschaften

Investigadores da conceituada University of California, em Berkeley, fizeram uma descoberta impressionante: identificaram segmentos de ADN no genoma dos humanos atuais, que provêm de antepassados até agora desconhecidos. Os cientistas falam de “antepassados fantasma”, porque destas populações humanas extintas nada se sabe por enquanto.

Hoje, o Homo sapiens é a única espécie humana ainda existente. No passado distante, porém, partilhava o planeta com numerosas outras linhagens de hominídeos.

Estudos anteriores já tinham mostrado que os humanos modernos se cruzaram com neandertais e com os chamados humanos de Denisova, gerando descendentes comuns. Muitos indivíduos conservam ainda hoje, no seu genoma, vestígios genéticos desses encontros. Agora, um novo estudo sugere que terão existido pelo menos mais dois grupos humanos desconhecidos, que também transmitiram ADN aos nossos antepassados.

Um destes antepassados até agora desconhecidos cruzou-se há mais de 50.000 anos, em África, com os antepassados dos humanos modernos, antes da última grande vaga migratória de Homo sapiens para a Europa e a Ásia. Os genes herdados nessa altura representam hoje cerca de 1% do genoma de todas as pessoas – aproximadamente a mesma proporção da componente neandertal do ADN.

Segundo os cálculos dos investigadores, esta enigmática linhagem humana terá divergido da linha evolutiva que conduziu ao humano moderno há cerca de 800.000 anos – aproximadamente na mesma altura em que também neandertais e humanos de Denisova se separaram entre si.

“Estudos anteriores já tinham sugerido a existência de uma chamada descendência fantasma – ou seja, vestígios genéticos de linhagens humanas desconhecidas e extintas no genoma dos humanos modernos”, explica a doutoranda de Berkeley Yulin Zhang, uma das primeiras autoras do estudo. “Até agora, porém, não se sabia se essa descendência desconhecida ocorria apenas em africanos, nem quando terá acontecido essa mistura. Conseguimos agora identificar e cartografar os segmentos de ADN correspondentes no genoma de humanos modernos e demonstrar que esta descendência fantasma está presente em todas as populações atuais – não apenas em africanos.”

Linha temporal: 1,8 milhões de anos
Ainda mais enigmático é o segundo antepassado, que os investigadores descrevem como “super-arcaico”. A sua linhagem humana ter-se-á separado das restantes há cerca de 1,8 milhões de anos. Há mais de 200.000 anos, terá provavelmente cruzado, na Eurásia, com os humanos de Denisova – e foi por essa via indireta que fragmentos desse ADN ancestral acabaram por entrar no genoma do humano moderno.

“O registo deste antepassado super-arcaico é particularmente intrigante, porque revela contribuições genéticas de uma linhagem humana que viveu há mais de um milhão de anos – apesar de, até agora, não existir qualquer ADN desta população decifrado”, afirmou Arjun Biddanda, pós-doutorando na Johns Hopkins University e um dos primeiros autores do estudo.

“Graças ao ADN antigo de neandertais e de humanos de Denisova, bem como a novos métodos genealógicos, estamos a perceber cada vez melhor que, ao longo da evolução, as populações humanas se misturaram repetidamente”, afirmou Priya Moorjani, professora de Biologia Molecular e Celular na University of California, em Berkeley. “A evolução humana assemelha-se, por isso, menos a uma árvore genealógica ramificada e mais a uma rede complexa, em que diferentes populações ficaram ligadas entre si através de sucessivas migrações e misturas.”

Diferença entre ADN neandertal e de Denisova
Atualmente, a maioria das pessoas fora de África possui cerca de 1% a 2% de ADN neandertal no seu genoma. Em média, entre 1% e 2% do genoma de europeus e asiáticos atuais provém de neandertais. Esse é o resultado de cruzamentos entre neandertais e primeiros humanos modernos há cerca de 50.000 a 60.000 anos, pouco depois de Homo sapiens ter saído de África.

Os segmentos de ADN herdados continuam a influenciar os humanos atuais. Algumas variantes estão associadas à resposta imunitária, às características da pele e do cabelo ou à adaptação a condições ambientais. Outras aumentam o risco de determinadas doenças ou influenciam a reação a infeções.

Grupos populacionais na Ásia e na Oceânia têm, além do ADN neandertal, componentes genéticas dos humanos de Denisova. Restos de humanos de Denisova com ADN sequenciado foram sobretudo identificados na região da Eurásia:

Há cerca de seis anos, o estudo do genoma do mais antigo fóssil humano até agora descoberto na Mongólia permitiu novos avanços no conhecimento da história antiga da nossa espécie. Investigadores do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, e da Academia de Ciências da Mongólia mostraram que, nos restos com cerca de 34.000 anos de uma mulher, cerca de 25% do ADN tinha origem em antepassados da Eurásia ocidental. Além disso, a equipa encontrou no genoma dessa mulher – tal como no de um humano com cerca de 40.000 anos da China – traços de ADN de Denisova, a forma humana extinta que viveu na Ásia antes de ali chegarem os humanos modernos.

É igualmente significativo que neandertais e humanos de Denisova também se tenham cruzado entre si. Sabe-se, a partir de um fóssil da gruta de Denisova, na cordilheira de Altai, no sul da Sibéria, perto das fronteiras com o Cazaquistão, a Mongólia e a China, que se tratava de uma mulher com mãe neandertal e pai de Denisova – uma prova direta de que ambas as formas humanas tiveram descendência comum.

Quem eram exatamente este “antepassado fantasma” e o “antepassado super-arcaico” continua por esclarecer. Os momentos de divergência calculados ajustam-se, contudo, a formas humanas já conhecidas: os antepassados fantasma poderão ter pertencido a grupos de Homo do Médio Pleistocénico que viveram em África há cerca de 800.000 anos. O antepassado super-arcaico poderá ter sido idêntico, ou estreitamente aparentado, a Homo erectus, espécie que colonizou a Eurásia há cerca de 1,8 milhões de anos.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Do ADN às 2.100 Línguas: o que a genética e o Ethnologue revelam sobre África


Se a África decidisse desenhar as suas fronteiras com base nas identidades reais do seu povo - como a Europa fez ao longo de séculos -, o resultado seria um mapa com milhares de países. Só a África sozinha teria mais Estados soberanos do que todos os países do mundo atual juntos. [mapa interactivo: aqui]

E isto não é um exagero poético. Trata-se de uma realidade confirmada tanto pelos linguistas como pelos geneticistas.

Enquanto a base de dados do Ethnologue regista mais de 2.100 línguas vivas no continente, a genética da população humana diz-nos algo ainda mais fascinante: a África alberga a maior diversidade de ADN de todo o planeta. Como o Homo sapiens surgiu lá e ali permaneceu durante centenas de milhares de anos antes de pequenos grupos migrarem para o resto do mundo, a variação genética acumulada entre duas comunidades africanas vizinhas pode ser muito maior do que a diferença entre um europeu e um asiático.

Quando cruzamos a história das línguas com a história do ADN, este mosaico humano organiza-se em cinco grandes grupos:

1. Níger-Congo
É o maior gigante demográfico e linguístico do continente, reunindo cerca de 1.650 grupos. Inclui as grandes populações da África Ocidental — como os Yorubá, Igbo, Akan e Fulas — e toda a família de povos Bantu (como os Zulus, Xhosas e Kikuyus). O seu ADN reflete a maior expansão agrícola e demográfica da história africana, que se espalhou do oeste para todo o centro e sul do continente ao longo dos últimos três milénios.

2. Afro-Asiática
Ocupando o Sahara, o Norte de África e o Chifre da África, este grupo (que junta Bérberes, Hausas, Amharas e Somalis) soma entre 200 e 300 etnias. Os seus genes e idiomas contam a história de pontes milenares e trocas constantes entre o continente africano e o Médio Oriente.

3. Nilo-Saariana
Distribuídos ao longo do Vale do Nilo e da faixa do Sahel, povos como os Dinka, Maasai e Nuer mantêm linhagens genéticas profundamente antigas. São populações históricas de pastores e guerreiros adaptados aos ecossistemas de savana, com características físicas e linguísticas muito próprias.

4. Khoisan
Os povos San (os chamados Bosquímanos) e Nama do sul da África representam um dos capítulos mais antigos do ser humano. Famosos pelas suas línguas compostas por sons de "cliques", o seu ADN revela um ramo que se separou do tronco principal da humanidade há mais de 100.000 anos. São, literalmente, uma janela viva para a história genética mais remota da nossa espécie.

5. Austronésia
Localizado exclusivamente na ilha de Madagáscar, o povo Malgaxe é um caso fascinante. Embora a ilha faça parte da geografia africana, a sua população nasceu de uma fusão extraordinária: navegadores vindos do Sudeste Asiático há 1.500 anos cruzaram-se com as populações Bantu vindas do continente.

No fundo, os mapas políticos que estudamos na escola apenas cobrem a superfície. Por trás de linhas desenhadas à régua em conferências coloniais no século XIX, a África continua a ser o maior reservatório de diversidade biológica e cultural que a humanidade tem para oferecer.

Fonte

Os rostos por trás do mapeamento humano e linguístico de África
A compreensão do mosaico humano africano resultou do trabalho complementar de antropólogos, linguistas e geneticistas de renome ao longo do último século. No campo da antropologia e da cartografia étnica, um dos primeiros grandes marcos foi estabelecido pelo antropólogo norte-americano George Murdock que, na sua obra de 1959, Africa: Its Peoples and Their Culture History, delineou e catalogou territorialmente mais de 800 regiões étnicas no continente. Esta base histórica de Murdock abriu caminho para iniciativas de catalogação sistemática como o compêndio Ethnologue, impulsionado inicialmente por Richard S. Pittman na década de 1950 e posteriormente expandido por Barbara Grimes, transformando-se na maior referência científica mundial para a identificação e classificação de mais de 2.100 línguas vivas africanas.

Paralelamente ao desenvolvimento das bases de dados, a organização estrutural deste vasto universo de idiomas deve-se ao trabalho do linguista Joseph Greenberg. A sua obra seminal de 1966, The Languages of Africa, revolucionou a linguística ao classificar a totalidade dos idiomas do continente nas quatro grandes macrofamílias tradicionais: Níger-Congo, Afro-Asiática, Nilo-Saariana e Khoisan. A rigorosa taxonomia desenvolvida por Greenberg permitiu aos cientistas rastrear não apenas a evolução dos idiomas, mas também os padrões de expansão e migração dos povos ao longo dos milénios.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Mais de 3.000 mortos e 13 milhões afetados por fenómenos climáticos em África em 2025

Mais de 3.000 pessoas morreram e 13 milhões foram afetadas devido aos fenómenos meteorológicos e climáticos extremos em 2025 no continente africano, disse hoje a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Estes fenómenos causaram “impactos em cascata em todos os setores da economia e da sociedade” africana, com os sinais das alterações climáticas “visíveis em toda a África, desde o aumento das temperaturas e da subida do nível do mar até às cheias e secas devastadoras”, disse a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, a propósito do relatório divulgado hoje por esta agência especializada das Nações Unidas.

“Este relatório evidencia não apenas a dimensão dos riscos, mas também a crescente importância dos alertas precoces, dos serviços climáticos e da ação coordenada para proteger vidas e meios de subsistência”, sublinhou a responsável.

Segundo o relatório, que reúne contributos de dezenas de especialistas, serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais, centros climáticos e parceiros do sistema das Nações Unidas, “o continente continua a ter dificuldades em lidar com estes impactos e apenas 40% dos países dispõem de sistemas de alerta precoce multirriscos, essenciais para salvar vidas e meios de subsistência”.

Ainda assim, enalteceram as melhorias no reforço da cooperação entre os serviços meteorológicos, os organismos de gestão de catástrofes e as autoridades locais, bem como os progressos nos serviços climáticos, como as previsões sazonais.

No mesmo relatório, a OMM detalhou que, em 2025, a temperatura média anual do ar à superfície em África ficou 0,51 graus centígrados acima da média do período 1991-2020.

Por outro lado, os glaciares africanos perderam mais de 90% da sua área desde o final do século XIX. No Monte Kilimanjaro, a área glaciar diminuiu de 11,4 quilómetros quadrados (km²) em 1900 para menos de 1 km² nos últimos anos.

Já o aquecimento dos oceanos prossegue em todo o continente, embora em 2025 o conteúdo térmico dos oceanos e a temperatura da superfície do mar tenham sido inferiores aos níveis recorde observados em 2023 e 2024, com a subida do nível do mar ao longo das costas africanas entre 1999 e 2025 a ultrapassar a média mundial de 3,6 milímetros por ano em várias regiões.

Quantos aos países lusófonos, foram registados totais anuais de precipitação acima da média na maior parte da África Austral em particular, Moçambique.

A agência recordou ainda que ciclones tropicais e as cheias afetaram várias zonas da África Austral no início de 2025.

“Moçambique foi atingido pelos ciclones Dikeledi, em janeiro, e Jude, em março, agravando os impactos já provocados pelo ciclone Chido, em dezembro de 2024”, recordou, detalhando que “mais de um milhão de pessoas foram afetadas pela passagem do Jude em Moçambique, tendo sido registadas 16 mortes e mais de 492 mil deslocados”.

sábado, 28 de março de 2026

'Crime mais grave contra a humanidade': o que significa a resolução da ONU sobre a escravatura e o que pode mudar?


Decisão tem peso simbólico, mas reforça o debate global sobre reparações, memória e responsabilidades históricas

A decisão da Assembleia Geral da ONU de classificar o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas como “o crime mais grave contra a humanidade” amplia o reconhecimento internacional sobre a gravidade do sistema escravagista e os seus efeitos duradouros. Embora não tenha caráter vinculativo — ou seja, não obriga os países a adotar medidas concretas —, a resolução é vista como um marco político que pode fortalecer as pressões por reparações e por medidas de reconhecimento histórico.

A formulação destaca o tráfico de africanos entre os séculos XV e XIX, período em que entre 12 e 15 milhões de pessoas foram levadas à força para as Américas, registando-se cerca de 2 milhões de mortes durante a travessia.

Para o secretário-geral António Guterres, o sistema foi “construído sobre vidas roubadas e trabalho roubado” e constituía “uma máquina de exploração em massa e de desumanização deliberada de homens, mulheres e crianças”.

Reconhecimento político e efeitos práticos
Na prática, a resolução não obriga os países a adotar medidas concretas, mas eleva o estatuto do tema dentro das Nações Unidas.

“Já é um passo enorme e significativo em termos políticos ter este debate na ONU, mesmo que tenha um valor mais simbólico”, afirmou Almaz Teffera, investigadora sénior sobre racismo na Human Rights Watch, à BBC.

Especialistas apontam que o principal efeito pode ser o fortalecimento das exigências de reparações, que incluem:
  1. Compensações financeiras;
  2. Pedidos formais de desculpa;
  3. Criação de fundos;
  4. Investimentos em educação.
Para a líder do Fórum Africano da Diáspora, Erieka Bennett, o reconhecimento tem um impacto emocional direto:
“Isto significa que eu sou reconhecida, significa que o meu ancestral finalmente descansa. Para mim, pessoalmente, como afro-americana, estou emocionada. Até que faça parte do que aconteceu, é muito difícil entender o que isso realmente significa.”

A resistência e os valores em debate
O tema enfrenta resistência de países como os Estados Unidos e o Reino Unido, que rejeitam reparações financeiras diretas. O ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, David Lammy, afirmou que “não se trata de transferência de dinheiro”. Entre os argumentos contrários estão a dificuldade de responsabilizar as gerações atuais e de identificar os descendentes diretos.

Os valores em discussão variam amplamente. As estimativas citadas incluem:
  • Pelo menos 33 biliões de dólares, em propostas associadas à Caricom;
  • Até 107 biliões de dólares, segundo Patrick Robinson.
Para o analista jurídico Luke Moffett, “legalmente, é uma montanha enorme que não pode ser escalada".
“Mas isso não significa que as partes envolvidas não devam sentar-se e negociar. As pessoas, no entanto, não devem esperar biliões de dólares. Também é provável que estas discussões levem décadas para chegar a algum tipo de acordo”, explica.

Além do dinheiro
Há uma crescente ênfase em medidas não financeiras. Segundo a representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), Sara Hamood, o aspeto financeiro é "apenas uma parte".
“Temos dito repetidamente que nenhum país enfrentou plenamente o legado da escravatura ou contabilizou de forma abrangente os seus impactos na vida das pessoas de ascendência africana. Pedidos formais de desculpa, o esclarecimento da verdade e a educação fazem parte de um amplo conjunto de medidas”, afirma.

Para os defensores, a resolução é um avanço, mas ainda insuficiente. A académica e ativista Esther Xosei duvida que a votação da ONU, por si só, tenha efeitos reais:
“É uma boa vitória [para o movimento por reparações], mas lembremo-nos de que isto é apenas uma declaração de intenções. Os corações e as mentes não serão conquistados na ONU. A verdadeira batalha será travada nas ruas, onde as pessoas ainda estão desinformadas sobre a história da escravatura e os seus efeitos duradouros na vida dos africanos e dos seus descendentes.”

A classificação também gerou críticas. Para o vice-embaixador dos EUA na ONU, Dan Negrea, há um equívoco em hierarquizar os crimes contra a humanidade:
“A afirmação de que alguns crimes contra a humanidade são menos graves do que outros diminui objetivamente o sofrimento de inúmeras vítimas e sobreviventes de outras atrocidades ao longo da história”, explica.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Rutura climática pode reduzir capacidade de terras para pastagem em 50% até 2100


Entre um terço e 50% das terras que têm hoje condições favoráveis para pastagens vão perder essa capacidade até 2100, devido ao aumento da temperatura, concluiu um estudo do Instituto de investigação de Potsdam sobre as alterações climáticas (PIK).

Esta atividade consiste em criar animais, como vacas, cabras e ovelhas, em espaços naturais, pradarias, na sua maioria, que cobrem cerca de um terço da superfície terrestre.

Até agora, estes sistemas agrícolas têm prosperado dentro de intervalos de temperatura (entre 3ºC negativos e 29°C), de precipitação (entre 50 e 2627 milímetros por ano), de humidade (de 39% a 67%) e velocidade do vento (entre um metro e seis metros por segundo).

É o que o estudo, publicado hoje na revista PNAS, chama “um espaço climático seguro”.

Mas, com a rutura climática global, estes parâmetros podem mudar e inutilizar um espaço de pastagem.

“As alterações climáticas vão reduzir os espaços onde a pastagem pode prosperar, comprometendo práticas agrícolas que existem desde há séculos”, disse Maximilian Kotz, co-autor do estudo e investigador do PIK e do Barcelona Supercomputing Center.

Segundo o cenário analisado, o estudo estima que entre 100 milhões a 400 milhões de pastores e criadores de gado podem ser afetados, bem como até 1,6 milhões de animais. O estudo estima que entre 51% e 81% das populações residem em países com fraco rendimento.

“É importante sublinhar que numerosas mudanças vão ser sentidas em países que já sofrem fome, instabilidade económica e política e níveis muito elevados de desigualdade de género”, realçou o autor principal, Chaohui Li, investigador do PIK na altura da realização do estudo e hoje no Barcelona Supercomputing Center.

A África é particularmente vulnerável e pode perder de 16% a 65% das suas pradarias, segundo a gravidade do cenário considerado.

As temperaturas no continente africano já se situam no limite do “espaço climático seguro”.

Estas conclusões, que em certos casos preveem o desaparecimento puro e simples de algumas pastagens, colocam em questão “a eficácia das estratégias de adaptação (…), como as mudanças de espécies ou a migração de rebanhos”, disse Prajal Pradhan, investigador do PIK e professor na Universidade de Groningue.

“Reduzir as emissões, através do afastamento rápido os combustíveis fósseis é a melhor estratégia de que dispomos para minimizar estes estragos potencialmente existenciais para a criação de gado”, concluiu Chaohui Li.

Segundo a agência da ONU para a alimentação e a agricultura, 26% da superfície terrestre e 70% da superfície agrícola estão cobertos de pradarias, que contribuem para a subsistência de mais de 800 milhões de pessoas

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Sebastian Bauer

Sebastian Bauer (pintor Polaco) - "Walking at rain, in Africa", 2024

Com forte presença nas redes sociais, Sebastian Bauer é um artista autodidata, ou seja, sem formação académica formal registada- aprendeu e desenvolveu a sua arte por meio da prática e experimentação.

Estilo:
Arte contemporânea com forte uso de cores vibrantes e soltas, muitas vezes explorando efeitos fluidos e espontâneos da pintura - especialmente em aquarelas e composições livres.

Temas recorrentes:
Memórias pessoais - cenas ligadas a pessoas, lugares, emoções, lembranças e experiências de vida.
Figuras humanas, animais e momentos do quotidiano aparecem frequentemente nas suas obras, muitas vezes transmitindo sensações de nostalgia, sentimento ou narrativa visual.

Técnica
Sebastian Bauer usa uma vasta gama de materiais e técnicas, variando com base na peça ou série:
1. Aquarela e gouache — preferidas pela sensação de fluidez e interação das cores.
2. Acrílicos — para trabalhos mais opacos e texturizados.
3. Tinta a tinta (ink) e pastéis — usados ocasionalmente para detalhes.
3.Ferramentas variadas: pincéis, espátulas, e por vezes até as mãos diretamente no suporte.

Abordagem Pessoal
Bauer pinta muitas vezes como forma de expressão interior e emocional, usando a arte para comunicar aquilo que não diz verbalmente.
Ele também se envolve em causas sociais, referindo que a arte lhe permite ajudar crianças menos favorecidas, o que adiciona um sentido humanitário à sua prática artística.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Craig, elefante ícone de Conservação da Natureza, morreu este fim-de-semana


Craig, o velho elefante que vivia no parque nacional de Amboseli, Quénia, morreu este fim-de-semana aos 54 anos de idade, aparentemente de velhice e devido ao desgaste da sua última série de molares. Este indivíduo era um símbolo, conhecido de muita gente

Apesar deste desfecho triste é positivo que Craig tenha conseguido ter uma vida longeva, a salvo das ameaças que continuam a pairar sobre esta espécie. As autoridades de conservação quenianas acompanharam a situação e tomaram as medidas para garantir que as presas deste magnífico animal, com 45 kg cada, não foram desviadas para fins ilícitos.

Fonte: Amboseli Trust for Elephants

domingo, 28 de dezembro de 2025

Caçadores - Predadores ou eco-delinquentes

Caçador exibindo sem remorso o abate de coelhos bravos e de codorniz (Crex crex

Muitos caçadores têm comportamentos desviantes, exibindo friamente os troféus da caça. 
Quando a caça prejudica a natureza
1. Redução de populações e perda de espécies
Quando a caça é intensa ou mal regulada, pode levar a quedas drásticas nas populações animais. Em Portugal, o coelho-bravo é um exemplo clássico. Esta espécie, fundamental para o ecossistema mediterrânico, sofreu fortes declínios devido à caça excessiva e a doenças como a mixomatose. A redução dos coelhos afetou predadores como o lince-ibérico e a águia-imperial-ibérica, mostrando que um desequilíbrio numa espécie pode ter efeitos em toda a cadeia alimentar.

2. Desequilíbrios nos ecossistemas
A caça excessiva de certas espécies altera a dinâmica natural. Por exemplo, a escassez de predadores deixou alguns herbívoros, como javalis e veados, aumentarem muito em número. Este crescimento pode causar danos às florestas, prejudicar a regeneração das árvores e até provocar acidentes rodoviários.
Em resumo: menos predadores → mais herbívoros → vegetação prejudicada → impacto no ecossistema.

3. Seleção artificial
Quando caçam sempre os maiores ou com melhores troféus, estamos a “selecionar” a população de forma artificial. Em veados e corços, por exemplo, isso pode reduzir o tamanho das hastes ao longo do tempo, alterando a diversidade genética e as características naturais da espécie.

Dois caçadores furtivos exibindo como troféus o abate de codornizão (Crex egregia) 

Dois parentes discretos dos campos: o cordonizão africano e o codornizão-europeu
Quando pensamos em aves agrícolas, raramente imaginamos espécies quase invisíveis, que vivem escondidas na vegetação e anunciam a sua presença mais pelo som do que pela visão. É o caso do codornizão (Crex egregia) e da codorniz (Crex crex), duas aves aparentadas que desempenham papéis ecológicos importantes em continentes diferentes.

Apesar de pertencerem ao mesmo género, estas espécies revelam como a biodiversidade responde de forma distinta aos usos da terra em África e na Europa.

Vidas paralelas em paisagens herbáceas
O cordonizão, típico da África subsaariana, habita pradarias húmidas, savanas e campos agrícolas tradicionais. A sua presença está intimamente ligada a áreas com vegetação herbácea densa, especialmente durante a estação das chuvas, quando encontra alimento e locais de nidificação.

Já o codornizão-europeu é um visitante de verão na Europa. Reproduz-se em prados de feno, pastagens extensivas e searas tradicionais, migrando para África no inverno. Extremamente discreto, é mais facilmente detetado pelo seu canto noturno repetitivo — o famoso “crex-crex” — do que pela observação direta.

Pequenos insetívoros, grandes reguladores
Ambas as espécies alimentam-se sobretudo de insetos e outros invertebrados, prestando um serviço ecossistémico essencial: o controlo biológico natural. Ao reduzirem populações de insetos herbívoros, contribuem para o equilíbrio dos agroecossistemas e diminuem a dependência de pesticidas.

Além disso, fazem parte das cadeias tróficas, servindo de alimento a aves de rapina e pequenos carnívoros, ajudando a manter a estabilidade ecológica das paisagens agrícolas e naturais.

Indicadores silenciosos da qualidade da paisagem
Tanto o cordonizão como o codornizão-europeu funcionam como espécies indicadoras. A sua presença sugere:
  1. Baixa intensificação agrícola
  2. Estrutura vegetal diversificada
  3. Práticas tradicionais compatíveis com a biodiversidade
No entanto, é na Europa que este papel ganha maior visibilidade. O codornizão-europeu tornou-se um verdadeiro símbolo da conservação dos prados agrícolas, sendo frequentemente usado como espécie-bandeira em programas agroambientais e na Rede Natura 2000.

Destinos diferentes, desafios comuns
Apesar de ambos estarem atualmente classificados como Pouco Preocupantes à escala global, enfrentam ameaças semelhantes:
  1. Intensificação agrícola
  2. Uso de pesticidas
  3. Perda de habitats herbáceos
No caso europeu, a ceifa mecanizada precoce representa uma das principais causas de mortalidade do codornizão, afetando diretamente o sucesso reprodutor. Em África, a conversão de pradarias naturais em agricultura intensiva pode comprometer as populações de cordonizão.

Conservar aves é conservar paisagens
A comparação entre Crex egregia e Crex crex mostra que proteger estas aves não é apenas uma questão de espécies, mas de modelos de uso do território. Onde subsistem práticas agrícolas extensivas e mosaicos de habitats, estas aves continuam a cumprir os seus serviços ecossistémicos de forma silenciosa, mas essencial.

Conservar o cordonizão e o codornizão-europeu é, em última análise, conservar paisagens vivas, produtivas e biodiversas — em África e na Europa.

Predadores ou eco-delinquentes
  1. Exploração deliberada da fauna sem consideração ecológica
  2. Indivíduos que causam dano ambiental intencional e recorrente
  3. O indivíduo justifica o acto ilegal (“é tradição”, “o Estado não protege”, “os animais são meus recursos”)
  4. Reduz a percepção de culpa
Referências bibliográficas 
  1. Benton, T. G., Vickery, J. A. & Wilson, J. D. (2003). Farmland biodiversity: is habitat heterogeneity the key? Trends in Ecology & Evolution, 18, 182–188.
  2. BirdLife International (2024). Species factsheet: Crex egregia.
  3. BirdLife International (2024b). Species factsheet: Crex crex.
  4. del Hoyo, J. et al. (2014). Handbook of the Birds of the World Alive. Lynx Edicions.
  5. Donald, P. F. et al. (2001).  Agricultural intensification and farmland bird declines. Proceedings of the Royal Society B, 268, 25–29.
  6. Begon, M., Townsend, C. R., & Harper, J. L. (2006). Ecology: From individuals to ecosystems. Blackwell Publishing.
  7. Cabral, M. J. et al. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza.
  8. Green, R. E. et al. (1997). A simulation model of the effect of mowing of agricultural grassland on the breeding success of the corncrake (Crex crex).Journal of Zoology 243.1 (1997): 81-115
  9. ICNF (vários anos). Relatórios de gestão cinegética e conservação da fauna.
  10. Krebs, C. J. (2009). Ecology: The experimental analysis of distribution and abundance. Pearson.
  11. Primack, R. B. (2014). Essentials of Conservation Biology. Sinauer Associates.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Estudo genético diz que os humanos terão chegado à Austrália há cerca de 60.000 anos, vindos de África

Como chegaram até ali? Simples, quase sempre a pé. Naquela altura, estávamos em plena Era Glaciar (Hürm) e o nível do mar era muito inferior ao de agora (100 a 120 m a menos), deixando extensas áreas, hoje submersas, fora de água. Duas massas terrestres, a primeira chamada Sundaland, na actual Indonésia e outra a Norte da Austrália que a unia a Timor Leste, bem como extensões de terra de outras ilhas, como Bornéu e Sumatra, deixaram pouca área marinha para atravessar, o que podia ser feito por simples pirogas ou com as jangadas tão típicas daquela zona.
Muito mais tarde, há cerca de 30 a 35.000 anos atrás, os humanos chegariam à América pela mesma razão, ao atravessar a pé o actual Estreito de Bering, que então era uma grande massa terrestre chamada Beríngia.
Estudo aqui

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Solos em vários países de África estão repletos de “químicos eternos” que ameaçam ecossistemas e saúde pública



Substâncias poluentes químicas estão a acumular-se nos solos e culturas agrícolas em níveis potencialmente perigosos para os ecossistemas e a saúde pública em vários países africanos.

A revelação é feita por uma investigação publicada este mês na revista ‘New Contaminants’, na qual um grupo de cientistas da China, do Quénia e da Rússia alerta para altas concentrações de ácido perfluorooctanossulfónico (PFOS), integrado na categoria dos poluentes persistentes conhecidos vulgarmente como “químico eternos” devido à sua resistência à degradação, em países como Gana, África do Sul, Quénia e Uganda.

Embora digam que o uso de PFOS tenha sido abandonado em muitas partes do mundo, os investigadores apontam que contaminação histórica, atividades industriais ainda em curso, o processamento de resíduos eletrónicos e descargas de águas residuais, por exemplo, continuam a introduzir essas substâncias nos solos agrícolas africanos.

“O nosso objetivo era chamar a atenção para um desafio ambiental silencioso que tem amplamente passado despercebido em África”, diz, citado em comunicado, Bonface Oginga, primeiro autor do estudo.

“O solo e os sistemas vegetais que suportam a produção de alimentos estão já sob stress. A presença de PFOS acrescenta ainda mais uma camada de pressão que os países não estão devidamente equipados para monitorizar ou gerir”, acrescenta.

A equipa refere que em alguns dos países estudados as lamas resultantes do tratamento de águas residuais contêm altos níveis de “químicos eternos”, pelo que, quando são usadas como fertilizantes agrícolas, esses poluentes entram nas culturas e nos alimentos produzidos. E, a partir daí, podem chegar às populações humanas.

“Compreender como é que os PFOS entram no solo e nas plantas é essencial para avaliar os riscos para as comunidades que dependem da agricultura local”, salienta Fredrick Owino Gudda, coautor do artigo.

No que toca aos impactos ecológicos, os cientistas indicam que a exposição aos PFOS pode afetar as comunidades de microrganismos que vivem e sustentam o bom funcionamento dos solos e interferir negativamente na absorção de nutrientes por parte das plantas. Em regiões onde os solos são já pobres em nutrientes essenciais para as plantas, como fósforo e nitrogénio, a produtividade agrícola pode ser ainda mais reduzida.

Assim, os investigadores apelam aos governos africanos e às respetivas agências ambientais que expandam os seus esforços de monitorização, que adoptem tecnologias avançadas de análise e que reforcem os regulamentos para combater os “químicos eternos”. A par de tudo isso, é imprescindível, argumentam os autores, investir na investigação científica.

“Ao fortalecerem a monitorização, a regulamentação e a investigação, os países africanos podem proteger melhor os seus solos, culturas agrícolas e comunidades face aos riscos de longo-prazo resultantes dos PFOS”, sublinha Chao Qin, que também assina este trabalho.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Mia Couto - O "Pensajeiro"


Humilde e encantador "Pensageiro" Mia Couto. 
O poeta observa a realidade do seu povo e percebe as desigualdades, como a falta de acesso à leitura e à educação. As suas viagens inspiram-nos a ser melhores e mais humanistas. Não só poesia e Moçambique, mas também uma consciência sobre as dificuldades das pessoas em geral e sobre a importância do conhecimento. E respeito pelas outras culturas. E línguas. E a oralidade.

domingo, 19 de outubro de 2025

Inside the planet’s race to adapt - Por dentro da corrida do planeta para se adaptar


Esta década decisiva exige ações sem precedentes para enfrentar o maior desafio da humanidade. Com acesso global, esta série em três partes examina as consequências reais das alterações climáticas para a nossa civilização, ao longo do século XXI e mais além.

O jornalista irlandês Philip Boucher-Hayes visita pontos críticos do clima, desde o degelo dos glaciares da Gronelândia até aos extremos climáticos da África Subsariana, desde a inundação de terras agrícolas no Bangladesh até ao degelo do permafrost siberiano. Encontra-se com especialistas e testemunhas que explicam a interconectividade da frágil ecologia mundial, à medida que atingimos pontos de inflexão dos quais pode não haver retorno.

A série analisa a nova ciência climática e enfrenta as duras realidades de um mundo em mudança – ecossistemas em colapso, mortandade marinha e fenómenos climáticos extremos crescentes. Mas também explora uma visão positiva para reimaginar economias, paisagens e infraestruturas – e soluções práticas, formas de mobilizar a determinação colectiva e desafiar a humanidade a tornar-se uma força transformadora, aproveitando a inovação para salvaguardar o futuro da civilização.

domingo, 28 de setembro de 2025

Colonialismo Verde - transição energética enriquece bilionários e devasta países do Sul, segundo a Oxfam


Os minerais para a transição energética, extraídos no Sul Global, estão a ser monopolizados pelos ultra-ricos do Ocidente, denuncia a Oxfam num relatório. Esta prática reforça padrões coloniais destrutivos.

Libertar os hidrocarbonetos do nosso quotidiano e voltar a nossa atenção para as energias renováveis. Este é o objectivo da transição energética, defendido e incentivado durante muitos anos em resposta à crise climática. No entanto, para promover esta transformação do sistema, são necessários minerais — lítio, cobalto, níquel e cobre —. E embora 70% deles se encontrem no subsolo do Sul Global, grande parte dos lucros acaba nos bolsos do 1% mais rico.

A 24 de setembro, a Oxfam divulgou um relatório que esclarece o funcionamento interno deste poderoso negócio. Segundo a ONG, os ultra-ricos — indivíduos, empresas e governos — estão a apropriar-se da transição em detrimento das comunidades de baixo rendimento. Não se trata de abandonar a lógica capitalista ou de questionar o consumo excessivo de energia. Também não se trata de imaginar uma partilha adequada dos lucros obtidos com os povos locais, que suportam o peso das repercussões nefastas da exploração mineira.

"Estes projetos envolvem frequentemente violência, trabalho forçado e danos ambientais."
Nesta corrida frenética aos minerais, os países do Sul Global estão a ver os seus recursos serem roubados e as suas terras confiscadas por multinacionais. "Estes projetos envolvem frequentemente violência, trabalho forçado e danos ambientais, e são implementados sem o consentimento das comunidades que vivem nos países em questão", escrevem os autores. Acrescentam: "Por outras palavras, a dinâmica que deu origem ao colonialismo histórico está a ressurgir em novas formas com a transição ecológica."

De acordo com o estudo da Oxfam, 60% dos territórios reconhecidos como terras indígenas estão ameaçados por projetos relacionados com a transição energética. Isto equivale à área total do Brasil, dos Estados Unidos e da Índia ou o dobro do tamanho do império colonial francês no seu auge. "Sem uma reforma urgente para proteger os direitos e os territórios, a transição apenas reforçará os padrões de mais de 500 anos de colonialismo energético, escravatura e exploração de biomassa na era do carvão e do petróleo", lamenta a Oxfam.

Tesla, a personificação do colonialismo verde
Uma alavanca fundamental na descarbonização do sector dos transportes, a conversão das frotas de veículos ocidentais para a energia eléctrica é uma clara ilustração deste desequilíbrio. Por um lado, as comunidades suportam os custos desta transição. Por outro, um bilionário vê o seu portefólio impulsionado pela crise climática.

Em 2024, a Tesla, propriedade do homem mais rico do mundo, Elon Musk, registou 5,63 mil milhões de dólares em lucros com a venda destes veículos elétricos. Ao mesmo tempo, a República Democrática do Congo recebeu apenas 17,5 milhões de dólares em royalties pelas enormes quantidades de minerais fornecidas para construir cada um destes automóveis — 3 quilogramas de cobalto por veículo.

A diferença é ainda mais abismal entre a fortuna do oligarca e o salário de uma pessoa que trabalha nas minas, estimado em 7 dólares por dia: "[Isto] significa que ele levaria quase dois anos a ganhar o que a Tesla ganha com um único carro", observam os autores.

França também envolvida
Elon Musk, que fez a saudação nazi no início deste ano, não é o único a lucrar à custa do Sul Global. A multinacional francesa TotalEnergies também utiliza esta estratégia. Em 2024, a sua subsidiária maioritária, a TE H2, lançou um projeto denominado Chbika em Marrocos. O objetivo? Desenvolver um gigawatt de capacidade solar e eólica onshore para alimentar a produção — através da eletrólise da água do mar dessalinizada — de hidrogénio verde, posteriormente transformado em amoníaco verde destinado ao mercado europeu.

Embora o conceito possa parecer obscuro, a intenção final é simples: fornecer à União Europeia recursos renováveis. Este visa atingir os objectivos definidos pelo plano REPowerUE, que visa reduzir a sua dependência dos combustíveis fósseis russos até 2027. Ou seja, Marrocos — bem como outros países do Sul Global, que detêm 70% do potencial eólico e solar do mundo — está excluído da transição devido à falta de financiamento acessível.

Mecanismos Financeiros Coloniais
"A arquitectura financeira internacional é [além disso] igualmente desequilibrada, uma vez que, moldada por séculos de poder colonial, continua a aprisionar os países de baixo rendimento numa dependência estrutural", refere o relatório. Quando um país rico investe num projecto de energia limpa, beneficia de taxas de juro de 3 a 6%. Por outro lado, quando o cliente é um país do Sul, os bancos inflacionam estas taxas para 13,5%. Por outras palavras, fornecer energia limpa a 100.000 pessoas custa 95 milhões de dólares ao Reino Unido mas 188 milhões de dólares à Nigéria. Esta diferença de tratamento justifica-se por uma percepção distorcida do risco, afirma o relatório, moldada por décadas de estereótipos negativos.

Os dados estão também viciados pela espiral da dívida em que as elites poderosas mergulharam os mais vulneráveis. "Os países ditos 'em desenvolvimento' têm uma dívida externa de 11,7 biliões de dólares, mais de 30 vezes o custo estimado para garantir o acesso universal à energia limpa até 2030", alerta a Oxfam. Esta espada de Dâmocles é um enorme obstáculo à sua transição energética.

Uma única estatística basta para demonstrar o absurdo da situação: 14% da energia consumida pelo 1% mais rico do planeta poderia satisfazer as necessidades energéticas básicas de todos aqueles sem electricidade. A grande maioria destas pessoas vive na África Subsariana. No entanto, em 2024, o continente terá captado apenas 2% do investimento global em energia limpa. Uma triste ironia que a Oxfam esteja a pedir o fim.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Mineração de ouro deixa cicatrizes tóxicas na reserva de Dimonika, no Congo


Acredita-se que estes buracos escancarados no coração da Reserva da Biosfera de Dimonika sejam o resultado da mineração de ouro. Observe esta vasta extensão, recordo que estamos numa reserva estadual,e veja por si mesmo: já não há floresta.
Localizada na República do Congo,a 50 km da costa atlântica, a Reserva da Biosfera de Dimonikacobre 136.000 hectares de floresta. Reconhecida como Património Mundial da UNESCO em 1988,esta área protegida serve como um laboratório vivo: para a conservação da biodiversidade, pesquisa científicae gestão sustentável dos recursos naturais.
Mas, desde a chegada daempresa chinesa City SARLno final de 2023,esta área protegida pode estar perigo. De acordo com os meios de comunicação locais, estas retroescavadeiras já destruíram5 hectares de floresta, o equivalente a sete campos de futebol. Alguns garimpeiros locais receberamc ompensação financeira da empresa para abandonar o local. 
Estes três homens recusaram. Tinham vindo com uma política de dar às pessoas uma pequena quantia [equivalente a 70 dólares] para libertar os lugares para que eles próprios pudessem vir trabalhar. Mas se pudéssemos ficar aqui, trabalharíamos durante décadas. 
Sem terra, esta comunidade local de cerca de 3.000 pessoas também está privada de água potável.O Rio Yanika, que costumava atravessar a área, está agora quase seco. Costumávamos ter fontes de água, fontes de água muito boas. Hoje está tudo amarelo, até tem medo de lavar as mãos nele.
No final de 2024,em resposta às preocupações das comunidades locais, a ONG Congo Nature Conservation recolheu amostras de água. As suas análises laboratoriais mostraram um teor anormalmente elevado de mercúrio. Assim, o nível normal é de 0,00005 mg/l, mas estamos nos 0,007 mg/l, que está bem acimado nível permitido em água doce. Isto é mais de 140 vezes mais do que o habitual.
O mercúrio ficará nos pulmões, no fígado, e, em segundo lugar, pode causar danos às pessoas que consomem essas águas. 
Portanto, é tempo de apontar e interromper a exploração anárquica de ouro nesta reserva de Dimonika. Em Brazzaville, as nossas equipas reuniram com um dos gerentes da empresa chinesa em causa, que negou ser responsável pelos danos. Os danos já eram visíveis antes de chegarmos. É como a chegada de um inquilino: se não houve um inventário feito antes de o inquilino ocupar a casa, e se é feito um inventário só depois de o inquilino já estar alojado, vemo-nos carregando tudo o que veio antes de nós. Os inquilinos anteriores nesta analogia seriam mineiros artesanais do distrito de Mvoutique aqui prospectam ouro há décadas com a autorização das autoridades locais. Alguns recusaram-se a deixar o local diante da empresa mineira e continuam a trabalhar a terra com ferramentas mais rudimentares. O que fazemos num ano, as máquinas chinesas fazem-no numa semana. Com a mineração artesanal de ouro, não conseguimos cortar 10 ou 15 árvores. Com as suas máquinas, arrasam tudo. Então, como vamos alimentar as nossas famílias? E os nossos filhos, como sobreviverão? Perante a escala do desastre, a ministra do Ambiente, Arlette Soudan-Nonault, ordenou a proibição das atividades da empresa em novembro de 2024. Mas, entretanto, a biodiversidade foi severamente danificada, a água está imprópria para consumo e alguns habitantes foram obrigados a fugir.

sábado, 28 de junho de 2025

Renate Dillmann - Pesquisadora alemã fala sobre mentiras, poder e manipulação


Renate Dillmann

Uma visão geral, abrangente e o papel que os principais meios de comunicação têm na forma errática e não factual dos acontecimentos a nível global.

A China não se intromete de forma escancarada como o ocidente. A China usa outros métodos de persuasão, como paralisia das negociações   comerciais, um apagão na comunicação diplomática e por aí vai, são sempre métodos velados. Mas conforme o poder deles crescem, aumentam as atividades marítimas ilegais apoiadas pelo governo em áreas economicamente ativas de outros países, vejam por exemplo o vídeo de muitos navios na Argentina com pesca predatória e exploração mineira em África.

sexta-feira, 20 de junho de 2025

José Mujica - Life in a globalized world

O antigo presidente do Uruguai José Alberto “Pepe” Mujica Cordano era um ícone da esquerda. Neste filme, a sua defesa por um mundo mais justo entrelaça-se com as histórias globalizadas dos migrantes africanos e dos trabalhadores espanhóis e japoneses.

O documentário mistura histórias de pessoas de três continentes: migrantes africanos que querem fugir para a Europa, trabalhadores espanhóis que já não se podem dar ao luxo de viver onde estão e funcionários japoneses que se sentem sozinhos no mundo moderno. Embora os continentes, as classes sociais e as etnias nos possam separar, no âmago da nossa existência humana somos todos um só. Todos nós temos desejos, vontades, esperanças e sonhos. É aqui que reside a oportunidade, não apenas para abordar os efeitos negativos da globalização, mas para criar algo novo em conjunto.

No plano global, Mujica foi uma voz que desafiou o cinismo de nosso tempo. Sua crítica ao consumismo, sua defesa radical da liberdade como tempo de vida e seu estilo de vida simples — morando numa chácara, dirigindo um Fusca, doando parte do salário — tornaram-se símbolos de autenticidade num mundo saturado de lideranças performáticas e tecnocráticas. Em entrevistas recentes, insistia na urgência de uma cultura da sobriedade e da responsabilidade ecológica, afirmando que se todos quisessem viver como os europeus, precisaríamos de três planetas.

Essa mensagem, embora muitas vezes vista como utópica, representa um alerta geopolítico de longo alcance. Num momento em que a ascensão da ultradireita desafia as instituições democráticas — inclusive no Brasil e no Cone Sul —, Mujica oferecia uma alternativa: uma esquerda ética, popular, viável e baseada na pedagogia política e no compromisso com o comum.
O antigo presidente do Uruguai, José 'Pepe' Mujica (20 de maio de 1935 - 13 de maio de 2025), guia-nos através deste filme, lembrando-nos repetidamente a nossa humanidade.