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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Dia Mundial do Elefante 20026


Introdução e Contexto Histórico

Celebrado anualmente a 12 de agosto, o Dia Mundial do Elefante - instituído em 2012 por iniciativa da realizadora canadiana Patricia Sims e da Elephant Reintroduction Foundation da Tailândia - constitui um marco global para a consciencialização sobre a preservação e gestão sustentável da família Elephantidae. Em 2026, a efeméride assume um caráter de acrescida urgência analítica: o declínio demográfico persistente em África e na Ásia impõe a revisão contínua das estratégias de gestão de ecossistemas, o combate ao comércio ilícito de marfim e a reavaliação ética dos modelos do ecoturismo e dos safaris.

1. Divergência taxonómica: as três espécies reconhecidas
A biogeografia contemporânea e a genómica populacional reconhecem atualmente três espécies distintas de elefantes:
  1. Elefante-de-savana-africano (Loxodonta africana): é o maior mamífero terrestre do planeta. Distribui-se maioritariamente pelas savanas e habitats abertos da África Subsaariana. Encontra-se classificado como Em Perigo (EN) pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN.
  2. Elefante-da-floresta-africano (Loxodonta cyclotis): distinguido formalmente do L. africana devido a evidências genéticas inequívocas, habita as florestas tropicais densas da África Central e Ocidental. De menor porte e com presas mais retas, está classificado como Em Perigo Crítico (CR) pela IUCN, tendo sofrido perdas drásticas devido à caça furtiva.
  3. Elefante-asiático (Elephas maximus): presente de forma fragmentada em 13 países do Sul e Sudeste Asiático. Morfologicamente caraterizado por orelhas menores e por uma única projeção digital na tromba, encontra-se igualmente classificado como Em Perigo (EN) na IUCN Red List.
2. Ponto de Situação Populacional e Ameaças
De acordo com os dados compilados no African Elephant Database mantido pela IUCN, estima-se que restem cerca de 400.000 a 415.000 elefantes africanos na natureza. Relatórios da World Wildlife Fund (WWF) e do programa CITES MIKE (Monitoring the Illegal Killing of Elephants) indicam que a população do elefante-da-floresta declinou mais de 86% em três décadas. A população selvagem de elefantes asiáticos é estimada em apenas 40.000 a 50.000 indivíduos.

As pressões antrópicas organizam-se em três eixos centrais:
  1. Caça furtiva e tráfico: a procura ilegal de marfim continua a perturbar as demografias locais.
  2. Fragmentação de habitat: a conversão agrícola e a urbanização destroem cenários de dispersão.
  3. Conflito Humano-Fauna (CHF): o aumento das sobreposições territoriais gera episódios letais de retaliação motivados pela destruição de culturas agrícolas.
3. Estratégias de Preservação e Conservação
As respostas institucionais assentam na transição para abordagens integradas de paisagem e tecnologia:
  1. Corredores ecológicos Transfronteiriços: iniciativas de grande escala, como a KAZA TFCA (Kavango-Zambezi Transfrontier Conservation Area), conectam parques nacionais em cinco países da África Austral, garantindo rotas de migração seguras.
  2. Tecnologia de rastreio e monitorização: implementação de coleiras com GPS via satélite geridas por organizações como a Save the Elephants e aplicação da plataforma de dados SMART (Spatial Monitoring and Reporting Tool) pelas brigadas de fiscalização.
  3. Mitigação biológica do CHF: desenvolvimento de cercas de colmeias (beehive fences) promovidas por projetos científicos como o Elephants and Bees, que aproveitam o repúdio natural dos elefantes relativamente às abelhas para afastar os animais de áreas agrícolas.
4. Restrições no turismo de safari e atividades recreativas
A indústria do ecoturismo atravessa uma reestruturação normativa impulsionada pelo bem-estar animal e por relatórios globais de entidades como a World Animal Protection.

Proibição de Safaris de Montaria (Elephant Rides)
A exploração turística assente na montaria e contacto direto tem sido desmantelada progressivamente:
Na África Austral (em particular no Botsuana), as diretivas da indústria de safari e das autoridades de conservação baniram as práticas comerciais de passeios a dorso de elefante.

No Sudeste Asiático (Tailândia), estudos de monitorização continuada promovidos pela World Animal Protection registam uma queda consistente na oferta de viagens a monte e a transição gradual para o modelo de "apenas observação" (observation-only sanctuaries).

Restrições de Capacidade e Impacto Ambiental em Safaris
Nos ecossistemas de safari em parque aberto (como no Parque Nacional do Chobe ou na Reserva do Masai Mara), os organismos governamentais aplicam diretrizes rigorosas:
  1. Lotação por avistamento: proibição de aglomeração de mais de 2 a 3 veículos em simultâneo junto a manadas.
  2. Manutenção de distâncias mínimas: para evitar stresse comportamental nas matriarcas e crias.
  3. Proibição do Off-Roading: Confinamento estrito aos trilhos oficiais para evitar a degradação da flora nativa.
Considerações Finais
A análise do estado de conservação dos elefantes em 2026 demonstra que a viabilidade a longo prazo da família Elephantidae depende da consolidação de corredores ecológicos contínuos, do combate intransigente ao crime ambiental e da transição definitiva do turismo recreativo para um modelo ético, sustentável e baseado exclusivamente na observação à distância.

sábado, 25 de julho de 2026

Girinos de Sintra ajudam a compreender como anfíbios lidam com o aquecimento do planeta

Uma investigação liderada por cientistas portugueses descobriu que os girinos desta espécie adaptam a sua dieta para compensar o aumento do gasto de energia causado pela subida da temperatura da água em que se desenvolvem.

Os anfíbios são considerados o grupo de vertebrados mais ameaçados do mundo. Estima-se que cerca de 41% de todas as espécies a nível global corram risco de extinção e as populações dessa classe continuam em declínio.

Entre 1980 e 2004, 91% do agravamento dos estatutos de conservação dos anfíbios foi causado por doenças e perda de habitat. Desde então, as alterações climáticas têm vindo a assumir uma dimensão cada vez mais destacada no rol de ameaças enfrentadas por esses animais, uma ameaça cujos efeitos são amplificados pela incessante destruição dos locais onde vivem.

Com aproximadamente duas em cada cinco espécies de anfíbios atualmente a serem empurradas cada vez mais para o precipício da extinção, os cientistas pedem medidas urgentes para conservar os seus habitats e aplacar as causas das grandes perdas.

Uma das grandes “leis” das ciências que se dedicam à conservação da Natureza dita que não se pode proteger o que não se conhece. Por isso, saber como os anfíbios, e outros organismos, lidam com os efeitos das alterações climáticas é fundamental para saber como e onde é preciso agir.

Um grupo de investigadores, liderado por cientistas do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, descobriu que um sapo que ocorre na Península Ibérica, sul de França e norte de África é capaz, quando ainda na forma de girino, de se adaptar ao aumento da temperatura da água onde está a desenvolver-se. Contudo, essa capacidade tem limites, que poderão ser duramente postos à prova à medida que a temperatura média da Terra sobe cada vez mais, porque os humanos continuam a lançar na atmosfera gases com efeito de estufa.

Mudar hábitos alimentares
Tal como os répteis e a maioria dos peixes, os anfíbios são animais ectotérmicos, ou, se quisermos, de “sangue frio”. Isso significa que a sua temperatura corporal é essencialmente regulada pela temperatura do meio envolvente. Assim, a temperatura da água em que os girinos nascem e crescem pode não só determinar se se desenvolvem de forma saudável e se poderão vir a ter problemas de saúde quando forem adultos, mas também, em última instância, a sua sobrevivência.

Em águas mais quentes, o metabolismo dos animais acelera, gastando mais energia e, por isso, obrigando a consumir mais calorias para manterem um bom peso corporal. Num artigo publicado na revista ‘Scientific Reports’, os investigadores descobriram que os girinos do sapo-comum (Bufo spinosus) são capazes de alterar o que comem consoante a temperatura da água.

Para isso, criaram, em laboratório, girinos capturados na Serra de Sintra, com diferentes condições de temperatura de 12, 16 e 20 graus Celsius, e com regimes de alimentação distintos.

Ao estudarem os pequenos sapos, percebeu-se que, quando a água estava mais fria, consumiam mais alimentos de origem animal, neste caso, larvas de mosquitos. Contudo, em águas mais quentes, os girinos comiam mais matéria vegetal (espinafres, nesta experiência) e aumentavam a taxa de consumo.

À ‘Green Savers’, Sara Bento, investigadora do CE3C e primeira autora do estudo, diz que essa adaptação da dieta à temperatura da água permite aos girinos de sapo-comum “reduzir alguns dos efeitos negativos associados ao aumento da temperatura”. No entanto, avisa que essa capacidade tem limites, pois, a partir de determinado ponto, quando a água se torna demasiado quente, é possível que não haja mudança de dieta que permita aos pequenos anfíbios dar a volta ao problema da perda de energia.

“Nessa situação, mesmo uma alimentação equilibrada e considerada ótima pode deixar de ser suficiente para compensar os custos metabólicos”, salienta a cientista.

E os limites dessa capacidade de adaptação são especialmente pressionados quando a temperatura da água está acima da média durante muito tempo ou durante ondas de calor. Como este estudo apenas testou temperaturas até aos 20 graus, Sara Bento diz que não foi possível saber ao certo a partir de que temperatura essa capacidade é anulada, o que, para se descortinar, exigirá novas investigações com temperaturas mais elevadas.

Desenvolvimento mais rápido, mas pior condição física
A investigação revelou também que, em águas mais quentes, os girinos de sapo-comum desenvolvem-se mais rapidamente, mas, quando na forma final, acabam por ficar mais pequenos do que sapos que se desenvolveram em águas mais frias e apresentam pior condição física.

“Esta relação já é amplamente conhecida em animais ectotérmicos e é designada por regra ‘temperatura–tamanho’”, explica Sara Bento. “Em condições mais quentes, o desenvolvimento tende a acelerar mais do que o crescimento, fazendo com que os animais atinjam a maturidade com menor tamanho corporal.”

Assim, os girinos que passaram a sua fase larvar em águas mais quentes podem, após a metamorfose, transitar para terra firme com menos peso e também com menos reservas de energia. E isso, segundo a investigadora, “pode afetar o seu desempenho durante as fases juvenil e adulta no meio terrestre”. Ainda assim, é possível, se bem que não certo, que os sapos-comuns que saiam da água mais pequenos possam recuperar quando na porção semiaquática das suas vidas e compensar os problemas causados pelas temperaturas mais altas das águas onde se desenvolveram.

Por isso, Sara Bento diz-nos que “os nossos resultados não nos permitem afirmar que este efeito, isoladamente, represente uma ameaça à sobrevivência da espécie”. No entanto, reconhece que apontam para um “potencial fator de risco”, que descreve como “importante”, especialmente se o aumento da temperatura da água se conjugar com outros fatores como a falta de alimento, a seca ou a predação.

Além dos efeitos da temperatura no desenvolvimento dos sapos, este trabalho mostrou também que águas mais quentes alteram as concentrações de azoto e de carbono nos tecidos dos animais na forma final, ou seja, nas fases juvenil e adulta das suas vidas.

Isso sugere que, em temperaturas mais elevadas, os girinos têm mais dificuldade em manter “o equilíbrio dos nutrientes no organismo”, como refere a cientista, o que pode resultar de alterações na dieta que o animal faz para compensar os efeitos das temperaturas mais elevadas.

Ainda que tal não tenha sido avaliado neste estudo, Sara Bento não põe de parte a possibilidade de os sapos, quando deixam a fase larvar, poderem vir a recuperar o equilíbrio dos nutrientes nos seus tecidos. Mas é possível que esse desequilíbrio possa tornar os sapos-comuns, pelo menos os juvenis que saíram de águas mais quentes, presas menos nutritivas para os predadores que deles se alimentam.

É preciso saber mais para se poder proteger
O sapo-comum está classificado na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza com o estatuto de “Pouco preocupante”, pelo que não é considerado uma espécie em risco de extinção. Esse estatuto está também refletido no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal de 2005, quando ainda tinha do nome científico Bufo bufo.

No Atlas dos Anfíbios e Répteis de Portugal, lançado em 2008, é dito que o sapo-comum é uma espécie que se encontra “de forma contínua” de norte a sul do país. Contudo, de acordo com a mesma fonte, esta espécie anteriormente considerada “muito abundante”, estava, na altura, a sofrer “um declínio generalizado das suas populações em grande parte da Península Ibérica e, em particular, nas zonas mais secas”. Essa queda em muito se deve, escreviam os especialistas, à destruição dos seus locais de reprodução, a explosões nocivas de algas nos charcos e albufeiras onde vivem por causa da pecuária intensiva, à competição com espécies exóticas e até à perseguição que lhes é lançada pelos humanos, por aversão.

Além disso, estes sapos podem percorrer vários quilómetros para chegarem aos locais de reprodução, pelo que sofrem uma elevada mortalidade por causa de atropelamentos.

Porém, “não existem dados recentes suficientes para caracterizar, com segurança, a atual tendência populacional desta espécie em Portugal”, diz Sara Bento. Por isso, defende que seria importante “uma atualização” das informações sobre os sapos-comuns no país, “baseada em monitorização padronizada da distribuição, abundância e sucesso reprodutor das populações”.

“Só com esses dados será possível detetar declínios, identificar as suas causas e avaliar de forma mais rigorosa o possível agravamento do estatuto de conservação desta e de outras espécies”, declara a investigadora do CE3C.

Para já, diz que “a prioridade deve ser proteger os habitats de reprodução a nível local”, como charcos, lagoas e troços de ribeira, para assegurar que conservam água “durante tempo suficiente para os girinos completarem a metamorfose”.

“Com o aumento previsto das temperaturas e dos eventos climáticos extremos como ondas de calor e secas severas na região mediterrânica, esse período com água poderá tornar-se mais curto e irregular”, avisa. Por isso, sublinha que é importante “limitar a drenagem e a captação de água durante a época de reprodução, preservar a qualidade da água e a vegetação ribeirinha, manter zonas com sombra que funcionem como refúgios térmicos e recuperar ou criar redes de charcos com diferentes profundidades”.

E essas medidas não beneficiariam apenas os sapos-comuns, mas também “muitas outras espécies de anfíbios e organismos dependentes destes ecossistemas”, assegura.

Colocando o sapo-comum no lugar de protagonista, servindo como “espécie-modelo”, esta equipa de cientistas quis perceber como é que animais ectotérmicos, especialmente os anfíbios, respondem ao aumento da temperatura, traço indelével das alterações climáticas que atualmente assolam o planeta.

Mas Sara Bento diz que os mecanismos que ela e a restante equipa observaram durante esta investigação “poderão ser relevantes para muitas outras espécies, incluindo espécies com estatuto de ameaça mais preocupante”.

Além do CE3C, este trabalho envolveu também o Laboratório Associado TERRA, o CHANGE – Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade, o Politécnico de Leiria, o MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente e instituições britânicas e suecas.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Cerca de 290 lobos em Portugal e quase 400 prejuízos comunicados este ano

Quase 400 comunicações de prejuízos atribuídos ao lobo-ibérico já chegaram este ano ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. O número foi avançado ontem, na Assembleia da República, durante uma audição sobre a proteção da espécie e os impactos na pecuária, e aproxima-se das 511 comunicações registadas em todo o ano anterior.
A audição, requerida pelo PAN e pelo Chega, decorreu na Comissão de Agricultura e Pescas e teve como pano de fundo o Programa Alcateia 2025-2035, aprovado pelo Ministério do Ambiente e Energia. Em debate estiveram as medidas de conservação do lobo-ibérico, mas também a resposta aos produtores pecuários afetados por ataques ao gado.
O ICNF associou o aumento das comunicações à atualização dos valores das compensações, admitindo que muitos produtores que anteriormente já não participavam os prejuízos poderão ter voltado a fazê-lo. O instituto defendeu ainda que o Programa Alcateia foi construído com entidades envolvidas no processo e que foram realizadas ações de comunicação para o fazer chegar aos interessados.
Mas os números abriram uma discussão mais larga sobre a eficácia das respostas no terreno. A Rewilding Portugal defendeu a criação de uma linha telefónica dedicada no ICNF para criadores sem meios digitais, a possibilidade de participação presencial nas juntas de freguesia, GNR ou serviços municipais, melhor articulação entre plataformas como IFAP e SENIRA e vistorias no próprio dia da comunicação. A entidade lembrou ainda que os valores das compensações foram atualizados em 2025 pela primeira vez desde 2017, após oito anos sem revisão.
A dimensão da população de lobo-ibérico em Portugal também entrou na discussão. A Palombar indicou que a espécie tem uma população pequena, fragmentada e em regressão, com uma redução de cerca de 20% da área de presença nas últimas duas décadas. O efetivo nacional foi estimado entre 190 e 390 animais, com uma média aproximada de 290 lobos.
A mesma associação defendeu que a coexistência passa por equipas de proximidade nas zonas onde surgem conflitos, apoio técnico às explorações, valorização da pastorícia, cães de proteção de gado e melhor prevenção. Segundo a Palombar, quando bem aplicadas, as medidas preventivas podem reduzir em 95% o número de ataques.
O BIOPOLIS/CIBIO alertou para a necessidade de análises forenses e genéticas que permitam identificar a origem dos ataques ao gado. A investigadora Raquel Godinho sublinhou a presença de cães errantes no território e o risco de hibridação entre cão e lobo, defendendo monitorização sistemática para distinguir ataques de lobos, cães ou híbridos.
O Grupo Lobo apontou o furtivismo como um dos principais problemas para a conservação da espécie e defendeu equipas de intervenção rápida, cães de proteção de gado, dispositivos de prevenção, melhoria do habitat e promoção de presas silvestres, como o corço. A associação admitiu o pagamento de prejuízos em caso de dúvida, mas rejeitou subsídios de risco generalizados, defendendo antes a valorização dos produtores que aplicam medidas de prevenção.
Da audição saiu um conjunto de prioridades: compensações mais rápidas, menos burocracia, equipas no terreno, controlo de cães errantes, combate ao furtivismo, melhor monitorização científica e apoio direto aos produtores em zonas de presença do lobo.
Em regiões como Trás-os-Montes, o Barroso e o Alto Tâmega, onde a pecuária extensiva mantém peso económico e social, a aplicação prática destas medidas será determinante para compatibilizar a conservação do lobo-ibérico com a atividade das explorações agrícolas.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

ONGA acusam Governo de se preparar para enfraquecer proteção do lobo-ibérico

Vinte e uma organizações não-governamentais de ambiente criticaram nesta terça-feira propostas de alteração ao Plano Estratégico da Política Agrícola Comum (PEPAC), considerando que as mudanças põem em causa a proteção do lobo-ibérico em Portugal e contradizem compromissos anteriormente assumidos pelo Governo.

Num comunicado conjunto, entidades como a Liga para a Proteção da Natureza (LPN), Quercus, a Rewilding Portugal, a Palombar, a WWF Portugal e a Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável apelam à ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, para que trave as alterações propostas pelo Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP) do Ministério da Agricultura e Mar.

Segundo as ONGA, as alterações previstas permitiriam que beneficiários de apoios do PEPAC — nomeadamente agricultores e produtores pecuários — continuassem a receber financiamento destinado à manutenção de cães de proteção de gado, mesmo depois de condenações por crimes ambientais relacionados com o abate de lobos.

As organizações consideram que esta possibilidade cria uma contradição nas políticas públicas de conservação da natureza. “Se legalmente se penaliza, e bem, quem abate esta espécie protegida, não se pode manter apoios para proteção da espécie aos mesmos que as abatem”, defendem no comunicado.

As associações sustentam ainda que as alterações representam um sinal “profundamente negativo” para a sociedade e para o setor agropecuário, ao enfraquecerem a coerência entre os apoios públicos e os objetivos de conservação do lobo-ibérico.

O comunicado recorda declarações feitas por Maria da Graça Carvalho em setembro de 2024, após Portugal ter votado favoravelmente a proposta da Comissão Europeia para reduzir o estatuto de proteção do lobo na Europa. Na altura, a ministra garantiu que não haveria alterações na política nacional de proteção da espécie.

“As alterações agora propostas contrariam diretamente essa promessa”, salientam as ONGA.

As organizações alertam também para a necessidade de reforçar o combate ao crime ambiental, lembrando que o abate ilegal continua a ser uma das principais ameaças ao lobo-ibérico em Portugal. Nesse sentido, defendem que os instrumentos de apoio público devem promover comportamentos compatíveis com os objetivos de conservação e não beneficiar, “na prática”, infratores condenados por crimes ambientais.

As associações subscritoras sublinham que acreditam na compatibilização entre atividade agropecuária e conservação da natureza, desde que existam políticas públicas coerentes e práticas de gestão sustentáveis.

O PEPAC é o instrumento que enquadra a aplicação dos fundos europeus da Política Agrícola Comum em Portugal, financiando medidas ligadas à agricultura, floresta e pecuária, incluindo ações de conservação da biodiversidade e proteção de espécies ameaçadas.

Entre as 21 entidades que assinam o comunicado estão também a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), o Grupo Lobo – Associação para a Conservação do Lobo e do seu Ecossistema, o GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente) e a Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente (CPADA).

Recuperação do lobo em Portugal
A 5 de dezembro de 2025, o Governo aprovou o Programa Alcateia 2025-2035, documento através do qual o país quer conseguir um estado de conservação favorável do lobo-ibérico.

Até 2035, o Programa Alcateia quer reverter a diminuição do número de lobos-ibéricos em Portugal, assegurando que esta espécie Em Perigo de extinção passa a estar em situação de conservação favorável. 

Em Portugal, o lobo esteve presente em todo o território continental até ao início do século xx. Desde então, e à semelhança do registado no resto da Europa, verificou-se uma drástica redução da sua área de distribuição e do respetivo efetivo populacional. 

Com o desaparecimento progressivo do lobo, de sul para norte e do litoral para o interior, a área de presença ficou circunscrita a áreas do Norte e Centro do País correspondendo atualmente a cerca de 20 % da distribuição original.

Hoje existem quatro núcleos populacionais: Peneda/Gerês, Alvão/Padrela, Bragança e Sul do Douro, segundo o Censo do Lobo-Ibérico 2019/2021. Foram detetadas 58 alcateias (56 confirmadas, 2 prováveis). Estima-se que a população ronde os 300 animais, o que corresponde ao valor médio da estimativa de 190 a 390 lobos. A população portuguesa representa cerca de 15 % da população ibérica de lobo.

terça-feira, 3 de março de 2026

Petição - Reconhecimento oficial de um Dia Europeu contra o Envenenamento de Vida Selvagem (1 de março)




1 de março poderia ser Dia Europeu contra o Envenenamento de Vida Selvagem. Porque a proteção da vida selvagem não pode depender das fronteiras, estamos a exigir que a União Europeia dê passos concretos e coordenados para travar o envenenamento ilegal de fauna em toda a Europa:
Reconhecimento oficial de um Dia Europeu contra o Envenenamento de Vida Selvagem (1 de março)
Criação de uma base de dados europeia para identificar focos e reforçar a monitorização
Aplicação efetiva do Plano Estratégico de Roma 2020–2030
As ferramentas existem. Os planos existem. Agora é preciso vontade política.
Assine a petição

No Dia Mundial da Vida Selvagem, que se assinala esta terça-feira, 3 de março, a Quercus divulgou o balanço da atividade dos seus três Centros de Recuperação de Animais Selvagens (CRAS) em 2025, revelando a entrada de 1.673 animais ao longo do ano.

Segundo o comunicado, o número representa um aumento de 7% face a 2024.Do total, cerca de 1.577 animais ingressaram com vida e 42,2% recuperaram e regressaram ao habitat natural.

Aves representam mais de 80% dos ingressos
As aves constituíram 83,8% dos animais recebidos, seguindo-se os mamíferos com 14,4% e os répteis e anfíbios com 1,7%.

O mês de julho concentrou o maior número de admissões, com cerca de 440 animais, o equivalente a 26% do total anual, em grande parte crias órfãs.

Entre as principais causas de ingresso destacam-se a queda do ninho ou orfandade, responsável por 35,1% dos casos, e traumatismos de origem desconhecida, com 19,3%. O comunicado refere ainda situações associadas a ações humanas ilegais, como tiro (1,1%), cativeiro ilegal (1,7%) e envenenamento (0,09%).

Espécies ameaçadas entre os animais acolhidos
Em 2025, os centros acolheram 127 indivíduos de espécies classificadas com estatuto de ameaça: 111 na categoria «Vulnerável», 10 «Em Perigo» e seis «Criticamente em Perigo».

Os CRAS integraram ainda 137 estagiários e voluntários e fazem parte da Rede Nacional de Centros de Recuperação para a Fauna, coordenada pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Monitorização e educação ambiental
A Quercus sublinha que o trabalho desenvolvido nestas estruturas permite identificar padrões nas causas de ingresso, fatores de ameaça e áreas com maior incidência, contribuindo para a implementação de medidas corretivas.

Os centros são igualmente referidos como espaços de recolha de informação biológica, permitindo avaliar o estado dos ecossistemas e das populações, apoiar investigação aplicada à conservação da natureza e promover ações de educação e sensibilização ambiental.

Os três centros em funcionamento são o CERAS, em Castelo Branco, o CRASM, no Cadaval, e o CRASSA, no Litoral Alentejano.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Falcões aliados dos produtores de cereja, reduzindo 81% de danos na produção e evitando o uso de pesticidas

Mais exemplos de SBN em que os agricultores, morcegos e aves de rapina ambos beneficiam

Os quiriquiri, pequenos falcões, caçam ratos, voles e aves canoras que danificam as culturas de cerejeira. Há décadas que os agricultores adicionam caixas de nidificação para atraí-los.

Podemos tentar cá. Não conheço nenhuma iniciativa destas. Aumentávamos a população de falcões especialmente o Peneireiro-das-torres e Falcão-peregrino e reduzíamos não só o furtivismo assim como reduziríamos exactamente uma das causas principias da vulnerabilidade destas duas espécies: o uso de pesticidas. Segue o estudo académico no Estado de Michigan (27.11. 2025)

Produtores de cereja do Michigan encontram um aliado inesperado na segurança alimentar: os falcões
A colheita da cereja terminou há meses. Mas no norte do Michigan, alguns produtores já antecipam o ressurgimento primaveril de uma pequena ave de rapina que poderá beneficiar a colheita da próxima temporada.

O peneireiro-americano é o falcão mais pequeno dos EUA. Enquanto aves de rapina, os peneireiros dissuadem aves mais pequenas que gostam de petiscar os frutos dos agricultores. No entanto, uma nova investigação sugere que estes "seguranças alados" podem ter um benefício adicional: a segurança alimentar.

Isto de acordo com um estudo da Universidade Estadual de Michigan (MSU), publicado a 27 de novembro no Journal of Applied Ecology.

“É fascinante observá-los em voo”, afirmou a autora principal, Olivia Smith. Eles pairam no ar enquanto examinam o solo abaixo em busca de insetos, ratos e pequenas aves.

As novas descobertas mostram que, ao afugentarem as aves que picam as cerejas, os peneireiros também evitam que estas contaminem as culturas com os seus dejetos. Segundo os investigadores, a investigação poderá ajudar os agricultores a cultivar alimentos mais seguros e saudáveis, gerando maiores lucros.

O desafio do controlo de pragas
“É difícil manter as aves fora das plantações”, disse Smith, professora assistente de horticultura e membro do Programa de Ecologia, Evolução e Comportamento da MSU.

Os produtores já tentaram métodos como redes, dispositivos ruidosos, espantalhos e pulverizações, mas estas abordagens podem ser dispendiosas e nem sempre funcionam. Mesmo com medidas de controlo em vigor, os produtores de cereja doce em estados como Michigan, Washington, Califórnia e Oregon perdem anualmente entre 5% a 30% da sua produção devido às aves.

As aves famintas representam outro problema: defecam. Algumas pessoas receiam que a sujidade que deixam para trás possa estar contaminada com agentes patogénicos que causam doenças nos seres humanos. Assim, os investigadores decidiram verificar se atrair predadores para patrulhar os pomares poderia ajudar a reduzir os riscos.

Resultados da patrulha aérea
A equipa focou-se em caixas de ninhos instaladas em oito pomares de cereja doce no norte do Michigan e descobriu que os peneireiros — que dependem de cavidades em árvores e outras fendas existentes para criar os seus filhotes — instalaram-se rapidamente.

Posteriormente, registaram todas as aves que conseguiam ver ou ouvir à medida que a época da colheita se aproximava. A equipa descobriu que aves como tordos, estorninhos e graxas tinham muito menos probabilidade de visitar os pomares e devorar os frutos quando os peneireiros nidificavam por perto. Ao afugentarem os visitantes famintos, os peneireiros reduziram a probabilidade de danos nas cerejas em mais de dez vezes.

Mas a sua presença teve outro benefício. Os investigadores também encontraram menos sinais de dejetos de aves nas cerejeiras. A presença de peneireiros foi associada a uma redução de 3 vezes nos dejetos avistados nos ramos.

“Certamente, os peneireiros também defecam”, disse a autora sénior Catherine Lindell, professora associada emérita de Biologia Integrativa. No entanto, o número de aves frugívoras que eles mantêm fora do pomar compensa largamente esse facto, acrescentou. De facto, descobriram que as cerejeiras mais próximas das caixas de ninhos dos peneireiros tinham menos probabilidade de estar cobertas de dejetos.

Segurança alimentar e saúde pública
A análise de ADN revelou que 10% dos dejetos continham Campylobacter, uma bactéria que causa frequentemente doenças de origem alimentar, com sintomas como diarreia, febre e cólicas estomacais.

Os investigadores ressalvam que isto não significa que a próxima taça de cerejas vá causar dores de estômago; nenhum dos surtos de doenças alimentares causados por Campylobacter foi associado a cerejas. Da mesma forma, Smith acrescentou que poderá ser cedo demais para culpar as aves por culturas contaminadas. Apenas um surto foi rastreado até aves: um surto de Campylobacter em 2008 causado por grou-comuns migratórios em campos de ervilhas no Alasca.

Contudo, a investigação sugere que os peneireiros poderiam ser uma forma de melhorar a segurança alimentar noutras culturas que têm sido associadas a surtos, como os vegetais de folha verde.

“Eles são realmente bons a manter o nível de dejetos baixo”, disse Olivia Smith. “Isso significa menos oportunidades de transmissão.”

“Isto não resolverá todos os problemas de aves que os agricultores enfrentam”, admitiu. Um dos problemas de depender dos peneireiros, por exemplo, é que eles têm mais probabilidade de se estabelecerem em algumas regiões do que noutras.

“Mas é uma ferramenta de baixo custo e baixa manutenção para os produtores utilizarem no seu conjunto de ferramentas de gestão de aves”, concluiu Lindell.

Leituras adicionais

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Craig, elefante ícone de Conservação da Natureza, morreu este fim-de-semana


Craig, o velho elefante que vivia no parque nacional de Amboseli, Quénia, morreu este fim-de-semana aos 54 anos de idade, aparentemente de velhice e devido ao desgaste da sua última série de molares. Este indivíduo era um símbolo, conhecido de muita gente

Apesar deste desfecho triste é positivo que Craig tenha conseguido ter uma vida longeva, a salvo das ameaças que continuam a pairar sobre esta espécie. As autoridades de conservação quenianas acompanharam a situação e tomaram as medidas para garantir que as presas deste magnífico animal, com 45 kg cada, não foram desviadas para fins ilícitos.

Fonte: Amboseli Trust for Elephants

domingo, 28 de dezembro de 2025

Caçadores - Predadores ou eco-delinquentes

Caçador exibindo sem remorso o abate de coelhos bravos e de codorniz (Crex crex

Muitos caçadores têm comportamentos desviantes, exibindo friamente os troféus da caça. 
Quando a caça prejudica a natureza
1. Redução de populações e perda de espécies
Quando a caça é intensa ou mal regulada, pode levar a quedas drásticas nas populações animais. Em Portugal, o coelho-bravo é um exemplo clássico. Esta espécie, fundamental para o ecossistema mediterrânico, sofreu fortes declínios devido à caça excessiva e a doenças como a mixomatose. A redução dos coelhos afetou predadores como o lince-ibérico e a águia-imperial-ibérica, mostrando que um desequilíbrio numa espécie pode ter efeitos em toda a cadeia alimentar.

2. Desequilíbrios nos ecossistemas
A caça excessiva de certas espécies altera a dinâmica natural. Por exemplo, a escassez de predadores deixou alguns herbívoros, como javalis e veados, aumentarem muito em número. Este crescimento pode causar danos às florestas, prejudicar a regeneração das árvores e até provocar acidentes rodoviários.
Em resumo: menos predadores → mais herbívoros → vegetação prejudicada → impacto no ecossistema.

3. Seleção artificial
Quando caçam sempre os maiores ou com melhores troféus, estamos a “selecionar” a população de forma artificial. Em veados e corços, por exemplo, isso pode reduzir o tamanho das hastes ao longo do tempo, alterando a diversidade genética e as características naturais da espécie.

Dois caçadores furtivos exibindo como troféus o abate de codornizão (Crex egregia) 

Dois parentes discretos dos campos: o cordonizão africano e o codornizão-europeu
Quando pensamos em aves agrícolas, raramente imaginamos espécies quase invisíveis, que vivem escondidas na vegetação e anunciam a sua presença mais pelo som do que pela visão. É o caso do codornizão (Crex egregia) e da codorniz (Crex crex), duas aves aparentadas que desempenham papéis ecológicos importantes em continentes diferentes.

Apesar de pertencerem ao mesmo género, estas espécies revelam como a biodiversidade responde de forma distinta aos usos da terra em África e na Europa.

Vidas paralelas em paisagens herbáceas
O cordonizão, típico da África subsaariana, habita pradarias húmidas, savanas e campos agrícolas tradicionais. A sua presença está intimamente ligada a áreas com vegetação herbácea densa, especialmente durante a estação das chuvas, quando encontra alimento e locais de nidificação.

Já o codornizão-europeu é um visitante de verão na Europa. Reproduz-se em prados de feno, pastagens extensivas e searas tradicionais, migrando para África no inverno. Extremamente discreto, é mais facilmente detetado pelo seu canto noturno repetitivo — o famoso “crex-crex” — do que pela observação direta.

Pequenos insetívoros, grandes reguladores
Ambas as espécies alimentam-se sobretudo de insetos e outros invertebrados, prestando um serviço ecossistémico essencial: o controlo biológico natural. Ao reduzirem populações de insetos herbívoros, contribuem para o equilíbrio dos agroecossistemas e diminuem a dependência de pesticidas.

Além disso, fazem parte das cadeias tróficas, servindo de alimento a aves de rapina e pequenos carnívoros, ajudando a manter a estabilidade ecológica das paisagens agrícolas e naturais.

Indicadores silenciosos da qualidade da paisagem
Tanto o cordonizão como o codornizão-europeu funcionam como espécies indicadoras. A sua presença sugere:
  1. Baixa intensificação agrícola
  2. Estrutura vegetal diversificada
  3. Práticas tradicionais compatíveis com a biodiversidade
No entanto, é na Europa que este papel ganha maior visibilidade. O codornizão-europeu tornou-se um verdadeiro símbolo da conservação dos prados agrícolas, sendo frequentemente usado como espécie-bandeira em programas agroambientais e na Rede Natura 2000.

Destinos diferentes, desafios comuns
Apesar de ambos estarem atualmente classificados como Pouco Preocupantes à escala global, enfrentam ameaças semelhantes:
  1. Intensificação agrícola
  2. Uso de pesticidas
  3. Perda de habitats herbáceos
No caso europeu, a ceifa mecanizada precoce representa uma das principais causas de mortalidade do codornizão, afetando diretamente o sucesso reprodutor. Em África, a conversão de pradarias naturais em agricultura intensiva pode comprometer as populações de cordonizão.

Conservar aves é conservar paisagens
A comparação entre Crex egregia e Crex crex mostra que proteger estas aves não é apenas uma questão de espécies, mas de modelos de uso do território. Onde subsistem práticas agrícolas extensivas e mosaicos de habitats, estas aves continuam a cumprir os seus serviços ecossistémicos de forma silenciosa, mas essencial.

Conservar o cordonizão e o codornizão-europeu é, em última análise, conservar paisagens vivas, produtivas e biodiversas — em África e na Europa.

Predadores ou eco-delinquentes
  1. Exploração deliberada da fauna sem consideração ecológica
  2. Indivíduos que causam dano ambiental intencional e recorrente
  3. O indivíduo justifica o acto ilegal (“é tradição”, “o Estado não protege”, “os animais são meus recursos”)
  4. Reduz a percepção de culpa
Referências bibliográficas 
  1. Benton, T. G., Vickery, J. A. & Wilson, J. D. (2003). Farmland biodiversity: is habitat heterogeneity the key? Trends in Ecology & Evolution, 18, 182–188.
  2. BirdLife International (2024). Species factsheet: Crex egregia.
  3. BirdLife International (2024b). Species factsheet: Crex crex.
  4. del Hoyo, J. et al. (2014). Handbook of the Birds of the World Alive. Lynx Edicions.
  5. Donald, P. F. et al. (2001).  Agricultural intensification and farmland bird declines. Proceedings of the Royal Society B, 268, 25–29.
  6. Begon, M., Townsend, C. R., & Harper, J. L. (2006). Ecology: From individuals to ecosystems. Blackwell Publishing.
  7. Cabral, M. J. et al. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza.
  8. Green, R. E. et al. (1997). A simulation model of the effect of mowing of agricultural grassland on the breeding success of the corncrake (Crex crex).Journal of Zoology 243.1 (1997): 81-115
  9. ICNF (vários anos). Relatórios de gestão cinegética e conservação da fauna.
  10. Krebs, C. J. (2009). Ecology: The experimental analysis of distribution and abundance. Pearson.
  11. Primack, R. B. (2014). Essentials of Conservation Biology. Sinauer Associates.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Hoje é o Dia Internacional do Lince-Ibérico


Espécie emblemática dos ecossistemas mediterrânicos da Península Ibérica, esteve praticamente extinta em Portugal Continental durante mais de duas décadas. Graças a um programa de reintrodução que ocorreu no Parque Natural do Vale do Guadiana, por pressão da União Europeia e em contrapartida do financiamento comunitário para a barragem da ribeira de Odelouca, existem actualmente mais de 350 linces em território nacional, estando a maioria nos concelhos de Mértola, Serpa e Alcoutim. Décadas atrás, a espécie também estava presente nas serras da Malcata, São Mamede, Espinhaço Cão, Monchique ou Caldeirão, no Tejo Internacional, Alentejo Litoral e Costa Vicentina, ou na região de Moura-Barrancos. A redução drástica das populações de coelho-bravo, a caça furtiva, a destruição de habitat ou o recurso a venenos foram as principais causas da sua extinção no território português. Em boa verdade, o lince-ibérico foi salvo sobretudo pela acção das autoridades espanholas, que conseguiram garantir a sobrevivência de duas populações até ao início do século, em Doñana e na zona mais oriental da Serra Morena. Se dependesse apenas de Portugal, hoje já não existiria o lince-ibérico.

sábado, 5 de julho de 2025

Francesa Neoen inaugura maior central solar do país na polémica herdade da Torre Bela

A francesa Neoen, que opera como produtora independente de energia renovável, anunciou esta quinta-feira a inauguração de um parque solar com uma capacidade de 272 megawatts-pico - o maior em Portugal até ao momento -, composto por  duas centrais fotovoltaicas contíguas - a Central Solar de Rio Maior (204 MWp) e a Central Solar da Torre Bela (68 MWp) - ambas integralmente detidas pela empresa. Localizado no concelho da Azambuja, este é também o quarto maior ativo renovável da Neoen em operação a nível global.

Depois de ter começado a injetar eletricidade na rede nacional no final de 2024, a central solar encontra-se já totalmente operacional. Segundo a produtora de energia, a produção anual da central ultrapassará os 500 GWh de energia renovável, o que equivale ao consumo de mais de 110 mil lares.

"Cerca de 80% da energia renovável produzida será adquirida pelo Estado Português, ao abrigo de dois contratos de aquisição de energia (PPA) com duração de 15 anos, atribuídos no leilão de capacidade renovável de 2019. A energia remanescente, bem como os certificados de origem, serão comercializados no mercado elétrico", esclareceu a Neoen em comunicado.

Além disso, explicou que as centrais solares de Rio Maior e Torre Bela foram desenvolvidas dentro do perímetro murado da Herdade da Torre Bela, uma propriedade com usos diversificados, que inclui várias atividades agrícolas e pecuárias. Envolta em polémica por causa de uma caçada de grandes dimensões na propriedade, em 2020, que resultou na morte de 540 animais, a Herdade da Torre Bela faz parte dos terrenos pertencentes à Sociedade Agrícola da Quinta do Convento da Visitação.

"O parque solar foi construído numa área arrendada desta herdade, sendo que o uso do restante terreno permanece sob gestão exclusiva dos proprietários", frisa a Neoen, que com estes dois novos projetos tem já uma capacidade total de 326 MWp em operação ou em construção em Portugal. Os outros ativos são a Central Solar de Coruche (8,8 MWp) e a Central Solar do Seixal (2,2 MWp), ambas em operação, e a Central Solar do Foral (43 MWp), que está em fase de construção.

Adicionalmente, a Neoen garante dispor de um pipeline "diversificado" de mais de 600 MW de projetos em desenvolvimento em Portugal, abrangendo as três tecnologias: solar, eólica e armazenamento, com destaque para vários projetos de baterias de larga escala, na ordem das centenas de megawatts. A empresa está também a apostar na hibridização, através de um parque eólico e de uma grande bateria em Rio Maior e Torre Bela.

Em termos da tecnologia de armazenamento, a Neoen conta com cerca de 400 MW de capacidade instalada na Europa e quase 1 GW de baterias com tecnologia "grid-forming" em operação na Austrália. 

"Nos últimos anos desenvolvemos um pipeline significativo de novos projetos – não apenas na área solar, mas também de energia eólica e no armazenamento em baterias – e temos uma grande vontade de contribuir ativamente para as metas ambiciosas de Portugal no domínio das energias renováveis”, disse Matilde Azevedo, responsável de Desenvolvimento de Negócio em Portugal. 

Por seu lado, Xavier Barbaro, CEO do Grupo Neoen, disse que a empresa quer "aprofundar o compromisso e transformar Rio Maior num verdadeiro Hub de energia verde. Queremos partilhar a nossa experiência no armazenamento em baterias para reforçar a resiliência da rede elétrica portuguesa, tal como já fizemos com sucesso noutros países.”

Fundada em 2008 e detida, desde abril de 2025, pela Brookfield Renewable Holdings, a Neoen é uma produtora independente de energia exclusivamente renovável, com especialização na produção de energia solar e eólica onshore, bem como em armazenamento de energia. Nos últimos seis anos a sua capacidade instalada ou em construção quadruplicou, atingindo atualmente 8,9 GW, com a ambição de chegar aos 10 GW em 2025. A empresa opera cerca de 200 ativos distribuídos por três continentes. 

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Dia Mundial da Biodiversidade

24-hour armed guards protect the last remaining Northern White Rhinos

Uma recente fotografia viral de um guarda armado 24 horas sentado ao lado de um dos últimos rinocerontes brancos do norte na Reserva Ol Pejeta, no Quénia, trouxe esta situação crítica à tona.
Esta imagem emocionante destaca as medidas desesperadas tomadas para proteger estas majestosas criaturas da extinção.

Em Março de 2018, Sudan faleceu. Houve tentativas de reprodução assistida (fertilização in vitro) para tentar preservar a espécie, mas sem sucesso.

A população total estimada de rinocerontes brancos, incluindo rinocerontes brancos do sul e do norte, é de cerca de 17.464. Os rinocerontes brancos do sul são a subespécie de rinoceronte mais abundante. No entanto, o rinoceronte-branco-do-norte está criticamente ameaçado de extinção, restando apenas dois indivíduos.

Apesar da caça ilegal contínua, os esforços para salvar as populações de rinocerontes e elefantes da região continuam. O rinoceronte-branco-do-sul serve como um farol de esperança no campo da conservação da vida selvagem. Como subespécie distinta, testemunhou uma reviravolta notável, graças aos esforços conjuntos de governos e conservacionistas dedicados no Sul de África. Estavam quase extintos com uma população de menos de 100 indivíduos. No entanto, as medidas de conservação proativas e sustentadas conseguiram aumentar os seus números para mais de 16.000. Esta incrível recuperação é uma prova do que pode ser alcançado através de esforços estratégicos e da colaboração internacional.

Conclusão
A fotografia emocionante do guarda armado e do rinoceronte-branco-do-norte serve como um poderoso lembrete dos desafios e responsabilidades que enfrentamos na conservação da vida selvagem. Salienta a necessidade de vigilância contínua, financiamento e cooperação global para proteger os tesouros insubstituíveis do nosso mundo natural. À medida que assistimos à potencial extinção do rinoceronte-branco-do-norte, precisamos de garantir que o seu destino não se repete com outras espécies ameaçadas.

segunda-feira, 17 de março de 2025

O vínculo amargo




Esta curta-metragem de animação, chamada "The Bitter Bond, foi lançada pela Born Free Foundation e denuncia a criação de leões em cativeiro na África do Sul. Porque existem reservas privadas onde são criados para que quem quiser e puder pagar possa ir e disparar.
Não há maior hipocrisia do que a do ser humano.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Boas notícias! Os casais de abutre-preto triplicaram em dois anos em Portugal



Seriamente ameaçado, em Portugal, o abutre-preto (Aegypius monachus) esteve, durante os últimos dois anos, sob a vigilância apertada de um programa nacional de conservação. Em 2022, a Volture Conservation Foundation colocou no terreno o projeto LIFE Aegypius. Financiado pela União Europeia, a iniciativa é apoiada pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, contando ainda com a colaboração de ONG como a Rewilding Portugal ou a Quercus.

A espécie foi monitorizada, a população local sensibilizada para a sua proteção, e as aves, quando feridas, tratadas em cativeiro e devolvidas à Natureza. Os esforços foram finalmente recompensados. Há dois anos, os casais que podiam ser vistos a sobrevoar os céus do território nacional eram apenas 40.
O número subiu agora para, pelo menos,108, podendo chegar até 116 casais. A ave, que se encontrava na cetegoria “criticamente em perigo” na lista vermelha da União Internacional da Conservação da Natureza, desceu um nível e está atualmente em “perigo de extinção”.

Os resultados mostram que os objetivos foram largamente ultrapassados. A duplicação da espécie estava apenas prevista para 2027, data do fim do projeto, mas o seu número triplicou em dois anos. Em 2023, quando foram contabilizados entre 78 e 81 casais nidificantes, o balanço já era animador. O aumento, no entanto, foi encarado com prudência e considerado como um possível reflexo do esforço de monitorização. Apesar dos resultados animadores, o abutre-preto continua muito vulnerável a eventos como incêndios florestais ou tempestades. 
A incerteza pairava ainda no ar, mas a contagem de 2024 trouxe alguma confiança de que o acréscimo se deve à expansão natural da espécie e é uma clara consequência das medidas de conservação que têm vindo a ser aplicadas. São boas notícias, mas é cedo para cantar vitória. O abutre-preto continua demasiado exposto aos perigos e há um longo caminho ainda a percorrer.

Expectativas para os próximos anos
Será, por enquanto, arriscado prever que, em 2028, a ave possa entrar na categoria “vulnerável”. A manter-se esta evolução, era o expectável, mas os técnicos envolvidos no projeto advertem que há demasiadas variáveis que não podem ser controladas. Basta um incêndio, uma grande tempestade ou qualquer outro evento que provoque um desequilíbrio acentuado nos habitats para todo o trabalho cair por terra.

É preciso ter ainda em conta a taxa de sobrevivência, um indicador que também melhorou em 2024, alcançado 51%. As cinco colónias do país registaram 48-49 crias que conseguiram ultrapassar o período mais crítico e se tornaram independentes.

Dado o achado tardio, a contagem das aves, neste local em particular, é ainda provisória, entre um e cinco casais e, pelo menos, uma cria. Vidigueira é a agora a quinta colónia de abutres-pretos em Portugal e que se junta às restantes localizadas no Douro Internacional, na fronteira com Espanha, na Serra da Malcata, na Beira Interior, no Tejo Internacional, entre Castelo Branco e Idanha-a-Nova, e na Herdade da Contenda, no Alentejo.

Em Portugal, o abutre-preto nidifica em cinco colónias. 

A colónia do Douro Internacional, a mais isolada, passou de três para oito casais nidificantes e expandiu-se para lá da fronteira, sendo também monitorizada pelos técnicos espanhóis.
Na Serra da Malcata o número de casais passou de quatro, em 2021, para 14, em 2023, e para 18 este ano. No Tejo Internacional, onde se encontra a mais antiga colónia (dois casais em 2010), foram monitorizados entre 61 e 64 casais, que tiveram este ano entre 24 e 25 crias. Destes casais, um quarto assentou arraiais em terras espanholas.
A Herdade da Contenda, no município de Moura, conta atualmente com 20-21 casais. Na Vidigueira, distrito de Beja, há cinco ninhos confirmados, mas falta ainda apurar o número total de crias. O projeto, que termina em dezembro de 2027, prevê ainda a monitorização do abutre-preto em zonas protegidas de Espanha, onde foram registados este ano 153 casais.

Mais medidas de proteção nos próximos meses
O balanço de 2024 está feito, mas o trabalho é para continuar. Duas novas medidas vão ser postas em prática já nos meses que se seguem para assegurar que o abutre-preto não volta a desaparecer do país, enquanto espécie nidificante, como aconteceu na década de 1970.O abutre-preto é a maior ave de rapina da Europa. 

Com a colaboração de criadores de gado e agricultores, o projeto irá criar campos de alimentação para a espécie, com vigilância sanitária implementada. A estratégia também inclui o setor da caça, que irá apoiar a transição para o uso de munições sem chumbo.

As munições sem chumbo vão ser, como tal, gratuitamente disponibilizadas para acelerar o processo. Sendo aves necrófagas, de resto, os abutres aguentam tudo, carne em avançado estado de decomposição, raiva e todo o tipo de bactérias que provocam infeções mortais em qualquer outro animal.

Uma espécie (quase) invencível
O superpoder do abutre para resistir a quase todas as doenças está no suco gástrico produzido pelo aparelho digestivo. Chega a ser até mil vezes mais ácido do que o nosso, dissolvendo cerca de 60% das toxinas ingeridas. Tudo o que escapa à lavagem gástrica é depois eficazmente combatido por um sistema imunológico à prova de bala. Alterações climáticas, caça e envenenamento por chumbo são alguns dos perigos a ameaçar os abutres. 

As bactérias agarradas às penas, no entanto, poderiam ser um problema para os outros animais em contacto com os abutres. Mas é precisamente por isso que as aves são carecas. Conseguindo enfiar a cabeça nas carcaças sem contaminar as penas, anulam o perigo de espalhar doenças. Além disso, ao urinarem sobre os pés, o ácido úrico trata de desinfetar tudo à sua volta, tornando-os inofensivos para o meio ambiente.

Não fossem as alterações climáticas e a atividade humana, o abutre seria praticamente invencível. Além do chumbo das munições da caça, os fármacos, em especial os antibióticos, usados na pecuária, podem enfraquecer o seu sistema imunológico e serem fatais para uma espécie vital no equilíbrio do ecossistema das zonas rurais. Fonte

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Como a morte de um pónei destruiu décadas de conservação


Na sequência da proposta da União Europeia, que vota em bloco, detendo portanto 27 votos em nome dos Estados membros, o Comité Permanente da Convenção decidiu ontem que os lobos passarão a poder ser capturados e vendidos, vivos ou mortos

Ursula von der Leyen já tinha mostrado não hesitar em usar a morte da sua velha pónei para caçar votos no mundo rural, piscando o olho, de uma assentada, aos criadores de gado, aos caçadores e aos populistas, ao autorizar há pouco mais de um ano a batida ao lobo que matou a (desprotegida) Dolly na sua quinta da Baixa Saxónia. Antes o presidente Macron abrira uma verdadeira caça ao lobo em França, promovendo a criação de “brigadas de intervenção” com luz verde para abater “com vigor” 19% dos cerca de 1100 animais existentes no país.

Não contente com o retrocesso civilizacional acenado perante 448 milhões de europeus, a Presidente da Comissão Europeia voltou a esquecer-se do tão, não há tanto tempo por si apregoado, Pacto Ecológico Europeu ao propôr em setembro a revisão formal – leia-se, o downgrade – do estatuto de proteção legal do lobo perante o secretariado da Convenção de Berna. Com a agravante de usar argumentos pouco rigorosos ou não validados do ponto de vista da ciência. De facto, dois terços das populações transfronteiriças de lobo na União encontram-se em estado vulnerável e alegar que se regista um aumento dos danos causados ao gado pelos lobos desde 2022 ou de riscos para a segurança pública é pura e simplesmente falso.

Na sequência da proposta da União Europeia, que vota em bloco, detendo portanto 27 votos em nome dos Estados membros, o Comité Permanente da Convenção decidiu ontem que os lobos passarão a poder ser capturados e vendidos, vivos ou mortos. Com a integração do Canis lupus no anexo III, a regulamentação da sua exploração, enquanto espécie da fauna selvagem, passará a garantir somente períodos de defeso ou a proibição temporária ou local dos abates.

Em 25 de setembro, a UE, na qualidade de Parte da Convenção, apresentou uma proposta para passar o lobo do anexo II para o anexo III da Convenção de Berna, ou seja, de “espécie de fauna estritamente protegida” para “espécie de fauna protegida”. Enquanto espécie estritamente protegida, ao abrigo do art.º 6.º da Convenção, é proibida a captura, detenção e abate bem como a destruição deliberada dos locais de reprodução ou de repouso; a perturbação deliberada da fauna selvagem, especialmente durante o período de reprodução, criação e hibernação, assim como a posse e o comércio interno destes animais, vivos ou mortos.

Aberta para assinatura dos Estados em setembro de 1979, a Convenção relativa à Conservação da Vida Selvagem e dos Habitats Naturais da Europa (Convenção de Berna), do Conselho da Europa, foi ratificada por Portugal em junho de 1981 e entrou em vigor no ano seguinte. Na reunião de ministros que aprovou a decisão de enfraquecer o estatuto de proteção do lobo, 43 anos depois, a Ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, que na véspera prometera votar contra, em apoio à posição mais progressista de Espanha ou da Irlanda, votou afinal a favor, mas dizendo que entre nós nada mudaria!

Em tempos em que tudo vale e estando a votação tremida, a ministra alemã do Ambiente, Steffi Lemke, mesmo sendo dos Verdes, não hesitou em dar uma ajuda a von der Leyen, chamando ao resultado “um sucesso para a conservação da natureza”. Já a federação europeia de caçadores FACE considerou a votação “uma tripla vitória para o lobo”. Mas como precisou o presidente da Liga para a Proteção das Aves (LPO), Allain Bougrain-Dubourg, “os lobos estão a ser sacrificados no altar da demagogia agrícola”.

Numa altura em que as populações europeias de lobo estão apenas a começar a recuperar da autêntica chacina que representou para a espécie os séculos XIX e XX, o Gabinete Europeu de Ambiente (EEB) apelidou este volte-face de “traição” à Convenção que agora celebra 45 anos e denunciou o abate como uma falsa solução para a predação de gado, contrária ao compromisso da Europa de salvaguardar e restaurar a biodiversidade. Mas infelizmente a voz dos cidadãos, representados em 300 organizações, e de milhares de cidadãos, inclusive no mundo rural, não foi ouvida uma vez mais. Tal como de resto as recomendações científicas na matéria.

Praticamente extinto na Alemanha no século XIX, foi somente no início deste século que as populações de lobo recuperaram. Na Áustria, os lobos foram exterminados em 1882e só em 2016 teve lugar uma nova reprodução. Em Portugal, o lobo é protegido desde 1988 e foi classificado como estando em perigo de extinção em 1990. Temos estimados entre 250 a 300 indivíduos, divididos por 60 alcateias. Com sub-populações a norte e a sul do rio Douro, apenas as populações a norte se encontram estáveis – em especial no alto Minho –, beneficiando da criação de um maior número de áreas protegidas: Parque Nacional da Peneda-Gerês, Alvão e Montesinho.

No nosso país, as compensações aos agricultores vítimas de predação podem demorar anos a ser pagas pelo ICNF. Também os investigadores se queixam de entraves e de terem de pedir licenças até para retirar amostras de excremento de uma estrada ou para instalarem uma câmara. Quanto ao censo nacional do lobo, o último tem mais de 20 anos e está por explicar o adiamento da publicação dos dados atualizados.

Ao contrário do mito, o lobo não é perigoso para o homem. A sua convivência pacífica com as comunidades rurais é possível e cruza-se com o restauro do seu habitat, que garante a disponibilidade de ungulados silvestres (corços, veados, javalis). Existem na atualidade medidas eficazes de proteção do gado e rebanhos, como cercas elétricas (financiadas pela UE), cães de guarda de gado ou a disponibilização de formação aos pastores. Receia-se que flexibilizar o seu abate possa tornar-se contraproducente, dada a disrupção que representará na estrutura social do animal. De resto, as estatísticas demonstram que apenas 0,065% das ovelhas dos 60 milhões de ovinos na UE são atacados por lobos.

Hoje, além da caça autorizada, aumentaram tanto a caça furtiva como o envenenamento. Mais grave é porém o facto de que esta medida é uma caixa de Pandora para futuras cedências na desregulamentação e desproteção de espécies e habitats. Não por acaso, a caça ao urso é já uma exigência da extrema-direita na Eslováquia. Na Roménia, país que alberga quase metade da população europeia destes grandes carnívoros, o parlamento autorizou este Verão o abate de perto de 500 ursos, mais do dobro do ano anterior. Faltam contudo as medidas de conservação que contrariem a redução dos habitats naturais e das presas de que se alimentam, ou as soluções para prevenir conflitos com humanos, ou mesmo ataques, desde a gestão do lixo à proteção dos turistas.

Predador de topo e necrófago, o lobo presta inúmeros serviços do ecossistema, não somente equilibrando populações de outros mamíferos, como prevenindo a transmissão de zoonoses. Apesar de ser protegido tanto pela Convenção de Berna como pela Diretiva Habitats – onde sofrerá também uma redução de estatuto do anexo IV para o anexo V –, inspirada naquela, o destino do lobo na Europa é hoje incerto.

Em Yellowstone, onde os lobos foram reintroduzidos em 1995, a sua presença moldou de forma indelével a paisagem, reequilibrando os ecossistemas e restaurando habitats. Mas se os lobos mudaram rios num dos mais antigos parques naturais do mundo conseguirão mudar as consciências e os interesses de ocasião? Fonte