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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Relembrar o pensamento de Charles Chaplin


"Em termos políticos, sou anarquista. Odeio governos, regras e grilhões. Não suporto animais enjaulados. As pessoas têm de ser livres." - Charles Chaplin
Esta frase foi dita pelo lendário cineasta e ator Charles Chaplin e reflete profundamente a postura humanista e anti-autoritária que marcou toda a sua vida e obra. Embora não pertença a um discurso oficial, a declaração resume a sua revolta contra as amarras institucionais, algo que ele expressava frequentemente em entrevistas e na sua própria arte. A personagem do Charlot era, na sua essência, a personificação do homem livre e marginal que desafiava constantemente as convenções sociais e a autoridade policial. Ao longo das décadas de 1930 e 1940, com o lançamento de obras primas como Tempos Modernos e O Grande Ditador, Chaplin usou o cinema para criticar ferozmente a desumanização industrial, o fascismo e o nacionalismo cego, o que acabou por atrair a atenção do governo dos Estados Unidos. Durante a era do Macarthismo, o FBI passou a vigiá-lo de perto, acusando-o falsamente de simpatias comunistas. O culminar deste sufoco político aconteceu em 1952, quando Chaplin viajou para Londres e o governo americano aproveitou a ocasião para lhe revogar o visto de reentrada no país. Revoltado com a perseguição e com o controlo estatal, o cineasta recusou-se a implorar o regresso e exilou-se na Suíça. Assim, quando Chaplin afirmava que odiava governos e não suportava ver pessoas como animais enjaulados, falava com o conhecimento de causa de quem sentiu na pele o peso do autoritarismo e da censura de um Estado que tentou travar a sua liberdade.
Este excerto pertence ao filme "O Grande Ditador" (The Great Dictator), lançado em 1940.
Esta cena, em específico, é o lendário discurso final do filme, amplamente considerado um dos momentos mais marcantes e emocionantes da história do cinema. No filme, Chaplin interpreta dois papéis: um ditador implacável chamado Adenoid Hynkel (uma sátira direta a Adolf Hitler) e um humilde barbeiro judeu. No final, o barbeiro é confundido com o ditador e é obrigado a discursar perante uma enorme multidão; em vez de propagar o ódio, ele quebra a personagem e faz este apelo universal à paz, à humanidade, à união e à liberdade.

sábado, 25 de abril de 2026

De James Monroe a Donald Trump


Entre a escravatura silenciada e a “regeneração nacional” trumpista, o que une as mensagens presidenciais não é a grandeza imperial, mas a tentativa de conter, em cada época, as fissuras abertas pelos de baixo.

Mais ou menos eficazes, os discursos governamentais estão carregados de ideologias e as suas análises requerem, entre outros procedimentos, o exame das estruturas e práticas sociais no interior das quais foram produzidos. Isto pode evitar a disseminação de abordagens unilineares e teleológicas que considerem os processos históricos como resultantes, fundamentalmente, da inquestionável vontade dos dominantes. Esta temporalidade de uma nota só bloqueia a perceção de contradições complexas e facilita a perceção da história como um processo imune a múltiplas formas de resistência e mesmo a revoluções advindas, em grande parte, da iniciativa dos dominados e dominadas.

A 2 de dezembro de 1823, o presidente dos EUA, James Monroe, apresentou uma mensagem ao Legislativo dos EUA acerca da política do conjunto da sua gestão governamental. Um dos eixos do discurso era o complexo processo de territorialização do jovem país. Oito décadas mais tarde, em dezembro de 1904, Theodore Roosevelt explicitou que, em relação ao novo contexto internacional, a mensagem que enviava ao Congresso atualizava as formulações de James Monroe.

Em novembro de 2025, Donald Trump, agora em cumprimento da Lei Goldwater-Nichols, enviou uma mensagem às duas Câmaras legislativas, na qual também afirmou que, no que toca à política internacional, especialmente com vista ao Hemisfério Ocidental, produziu o que ele próprio intitulou Corolário Trump.

A América para os americanos
Mesmo ausente do texto escrito, a famosa frase expressa, em termos muito gerais, a mensagem de 1823. Mas, de James Monroe ao MAGA, fica o problema: qual América?

Já no início, James Monroe justificou a sua mensagem com a referência à soberania do povo, pilar de um “sistema político” (expressão do próprio) que, fruto de “nossa revolução” (a independência dos EUA), é condição para que os seus cidadãos sejam os mais prósperos e felizes do mundo. Neste sentido, o presidente afirmou que a escolha de tal sistema pelos movimentos de independência fazia com que qualquer interferência das metrópoles fosse considerada uma agressão aos próprios EUA.

Em todo o texto, James Monroe (de onde veio o nome Monróvia, da atual Libéria) não se referiu aos escravos, cuja exploração era a base da economia do sul, inclusive da Virgínia, onde nasceram ele e mais três dos quatro primeiros presidentes dos EUA. Nem à Lei dos Três Quintos, que contabilizava 60% dos escravos em cada estado para fins de aumento da bancada dos sulistas na Câmara dos Representantes. Na única menção aos indígenas, James Monroe elogiou a repressão aos Arikaees, devidamente punidos pelo ataque para que o “espírito hostil” não se estendesse a outras tribos. Medidas “para conter o mal”, sentenciou (p. 6).

Nos idos de 1823, os EUA eram uma formação social com a forte presença de relações pré-capitalistas, uma classe dominante nacionalista, inclusive a fração esclavagista, sequiosa por ampliar a fronteira agrícola; um expansionismo que era conduzido em sentido mais estratégico pelos dirigentes da política estatal. A produção e exportação algodoeira para a indústria inglesa acelerava-se, mas com tecnologia ainda anterior à explosão dos anos 1830. Várias condições favoreciam uma agressiva política estatal de produção de uma territorialidade que articulasse a escravatura, no sul, e a dominação burguesa, a norte.

Esta relação de unidade e contradição entre o escravagismo e o capitalismo embrionário manifestava-se, inclusive, nas complexas negociações em torno dos impactos da incorporação de cada novo território, pois, ao implicar o acolhimento ou a rejeição do escravagismo, gerava efeitos sobre a correlação política interna do país. A questão da territorialidade também produzia tensões relativas às Caraíbas como rota comercial e/ou em termos militares.

A cada um, a sua revolução
James Monroe também silenciou sobre a única revolução de escravos vitoriosa da história, ocorrida no que é, desde então, o Haiti, com enorme repercussão nas três Américas e na Europa. A mensagem operou um corte entre relações de produção e sistema político, o que lhe permitiu legitimar, no plano discursivo, uma ordem escravagista. Não constituídos estruturalmente como sujeitos, os escravos não podem (?) fazer uma revolução.

Apropriações sociais de leitura: desde crianças, “sabemos” que James Monroe, uma espécie de Pai Natal, foi o primeiro governante a reconhecer a independência do Brasil, este país imperial escravagista. Pouco se ensina que, tal como os seus antecessores Jefferson e James Madison e todos os que o sucederam até à Guerra de Secessão, Monroe não reconheceu a independência do Haiti. Até propositadamente, a sua mensagem teve pequena repercussão imediata e só recebeu o nome de doutrina quando, cerca de duas décadas mais tarde, foi apropriada por patriotas preocupados em salvar a “América”, vista como nação branca ilhada pela decadência do escravagismo na Europa, em países independentes da América e mesmo em colónias francesas e britânicas.
Outras apropriações sociais vieram.

O populismo antissistema de Andrew Jackson
A ligação de Donald Trump a Andrew Jackson não é apenas uma preferência histórica passageira, mas sim uma escolha estratégica e pessoal que molda profundamente a sua identidade política. Para compreender esta admiração, é necessário olhar para Jackson como o grande divisor de águas da democracia americana no século XIX, uma vez que ele foi o primeiro presidente a não pertencer à elite aristocrática da Virgínia ou de Massachusetts. Sendo um militar de origem humilde, conhecido pelo seu temperamento explosivo e por uma lealdade feroz aos seus seguidores, Andrew Jackson serve de espelho para Trump, que se apresenta como uma figura externa ao sistema que chegou ao poder com a missão de o limpar e de devolver o governo aos cidadãos comuns.

O ponto central desta identificação reside no populismo antissistema, pois tal como Trump critica frequentemente a burocracia de Washington, também Jackson travou uma guerra aberta contra o Segundo Banco dos Estados Unidos, por o considerar uma ferramenta de corrupção das elites financeiras contra o trabalhador comum. Trump vê nesta postura de combatente o arquétipo do líder forte que não se verga às normas da etiqueta política sempre que estas interferem na sua agenda. Este simbolismo tornou-se evidente logo na tomada de posse de 2017, quando Trump escolheu o retrato de Jackson para decorar a parede da Sala Oval, enviando a mensagem clara de que não governaria como um republicano tradicional, mas como um herdeiro do Jacksonianismo, focado no nacionalismo económico e numa relação direta com a sua base eleitoral.

Além disso, Trump admira a resiliência física e política de Andrew Jackson, um homem que sobreviveu a duelos e enfrentou processos no Congresso sem nunca recuar. Para Trump, a política é vista como uma arena de força onde a vontade do povo, representada pelo líder, deve prevalecer sobre as instituições que tentam contê-la. Em suma, Jackson é o modelo ideal para Trump porque forneceu um precedente histórico para o seu estilo de liderança, sendo simultaneamente um herói para os seus apoiantes e uma figura profundamente disruptiva para os seus opositores.

Theodore Roosevelt e a aurora do imperialismo estado-unidense
Trinta anos após a Guerra de Secessão, os EUA não só se tornaram a primeira economia mundial como ingressaram no estágio imperialista do capitalismo. Ao lado de um extraordinário processo de acumulação e centralização de capital, deu-se uma intensa imigração – e, com ela, mais racismo – e o colonialismo de novo tipo. Houve um empobrecimento do campesinato e ampliação do número de trabalhadores urbanos, grande parte em situação de miséria nas grandes cidades industriais. Cresceram as mobilizações de massas e politizaram-se lutas, inclusive processos eleitorais.

Por intermédio da guerra com a Espanha, iniciou-se uma grande ofensiva sobre as Caraíbas, com o domínio de Cuba e Porto Rico, e, na bacia do Pacífico, a conquista do Havai, Ilhas de Guam e das Filipinas, onde haveria forte e heróica resistência popular. Enfim, a grande América em expansão marítima.

Tal como a mensagem de James Monroe, a de Th. Roosevelt era otimista. Ele afirmou que, numa sequência de bons governos, a prosperidade era notável e havia aprovação popular. Tudo isto dinamizado pelo industrialismo, a “nota dominante da sociedade moderna” e, com isso, a importância das relações capital-trabalho, “especialmente capital organizado e trabalho organizado” (p. 1). Ao contrário do silêncio de Monroe sobre os produtores diretos, Th. Roosevelt dedicou cerca de 11 das 33 páginas da sua mensagem a esta relação, referindo-se a políticas intervencionistas em múltiplas esferas da vida social: do direito dos trabalhadores se organizarem para se defenderem contra “abusos das grandes corporações” ao trabalho infantil e da mulher grávida, acrescentando que o maior dever da mulher é “ser mãe, dona de casa” (p. 10).

Mas, acima de tudo, defendia a responsabilidade e a tolerância entre capitalistas e assalariados. Ele próprio racista, declarou-se contra o preconceito em relação a migrantes e negou que houvesse riscos de chegarem em excesso, desde que fossem “do tipo certo”. No plano externo, expandiu a área de influência nas Caraíbas e na Bacia do Pacífico, onde forçou a política de portas abertas na China e arbitrou o conflito entre os impérios Japonês e Russo, o que lhe assegurou, em 1906, o Nobel da Paz.

James Monroe declarou opor-se à intervenção de potências europeias nos processos em curso pela independência na América porque estes adotavam um “sistema político” semelhante ao dos EUA e, portanto, superior ao delas. E, ao dirigir-se a elas, a sua posição era altiva, mas defensiva.

Já a mensagem de Th. Roosevelt era explicitamente agressiva. Alertava para os males que ocorreriam se, na ausência de “algum grau de controlo internacional sobre as nações infratoras”, as “potências mais civilizadas… de maior senso de obrigação internacional e com a mais aguda e generosa apreciação do certo e do errado, se desarmassem” (p. 29). Daí a importância de, sempre que necessário, elas, armadas, exercerem um poder de polícia internacional (id.).

A aparente mitigação do hobbesianismo primário ficava por conta da comunhão de interesses entre atacante e atacado. “Os nossos interesses e os dos nossos vizinhos do sul são… idênticos” (p. 30); ou as Filipinas não precisavam de “independência alguma…” (p. 36). E, num esforço de síntese transoceânica, afirmou que, “em relação a Cuba, Venezuela e Panamá, ao esforçarmo-nos para circunscrever o teatro de guerra no Extremo Oriente e para assegurar a abertura das portas na China, agimos no nosso próprio interesse, bem como no interesse da humanidade em geral” (p. 31).

domingo, 22 de março de 2026

«Manipulação climática»: gigantes dos combustíveis fósseis abandonam metas de neutralidade carbónica


Nova análise alerta que algumas das maiores petrolíferas mundiais entraram numa fase de manipulação para aumentarem os lucros

As grandes petrolíferas são acusadas de estarem a “abandonar discretamente” as suas promessas climáticas para justificarem a continuação do uso de combustíveis fósseis poluentes.

Uma nova investigação da Clean Creatives, um projeto para profissionais de relações públicas e publicidade conscientes do clima, acompanhou como as Big Oil têm vindo a mudar “de forma sistemática” a sua narrativa nos últimos quatro anos, apesar dos repetidos alertas sobre o aquecimento do planeta.

Intitulado Toxic Accounts: From Greenwashing to Gaslighting , o relatório analisa mais de 1.800 peças de campanha das gigantes dos combustíveis fósseis BP, Shell, ExxonMobil e Chevron entre 2020 e 2024.

Inclui anúncios pagos em redes sociais como o Facebook, YouTube, TikTok e Instagram, bem como spots de televisão, arquivos de bibliotecas, comunicados de imprensa, informação para investidores e discursos de executivos.

Grandes petrolíferas fazem “gaslighting” climático
No início do período analisado, as campanhas enfatizavam metas climáticas e compromissos com a transição para energia limpa, apresentando frequentemente as empresas como parceiras de transição.

No entanto, em 2023, a mensagem passou a apresentar cada vez mais o petróleo e o gás como “permanentes, indispensáveis e essenciais para a estabilidade económica e a segurança nacional”.

Em 2020, a BP passou da promessa de neutralidade carbónica e da retórica de “tornar as empresas mais verdes” para campanhas que, segundo a Clean Creatives, defendem a continuação da expansão do gás e do petróleo, ao mesmo tempo que recua nas suas ambições em matéria de energias renováveis.

A Chevron também abandonou o posicionamento “Human Energy” e passou para uma “mensagem nacionalista” que associa a produção interna de combustíveis fósseis à segurança económica e nacional, revela o relatório.

Investigadores alertam que, apesar das diferenças de tom, todas as grandes petrolíferas analisadas seguiram mudanças narrativas semelhantes, passando de se apresentarem como “parte da solução” para uma mensagem de “não podem viver sem nós”.

As campanhas passaram também a promover cada vez mais o gás natural liquefeito (GNL), a captura e armazenamento de carbono (CCS), o hidrogénio azul, os biocombustíveis e o gasóleo renovável como soluções climáticas, apesar de existirem provas de que estas tecnologias continuam a ser derivadas de combustíveis fósseis ou não estão comprovadas em larga escala.

“A velocidade com que as empresas passaram para mensagens centradas na segurança energética correlacionou-se com o seu desempenho financeiro”, lê-se no relatório.

“A Chevron e a ExxonMobil foram rápidas a orientar a sua mensagem para a predominância dos combustíveis fósseis e, como resultado, lideraram o mercado.”

O estudo concluiu também que a Shell, acusada no ano passado de minimizar o impacto climático dos combustíveis fósseis, deixou de se apresentar como líder da neutralidade carbónica para passar a destacar o GNL como mercado de crescimento a mais longo prazo.

Combustíveis fósseis mantêm-se “lucrativos” apesar da mudança de atitudes
“O ‘greenwashing’ assume agora uma nova forma”, afirma Nayantara Dutta, responsável pela investigação na Clean Creatives e autora principal do relatório.

“Em vez de fazerem afirmações falsas, as grandes petrolíferas promovem falsas soluções como a CCS e o gás natural, apesar de serem derivadas de combustíveis fósseis e de criarem uma dependência de longo prazo desses combustíveis.”

Dutta defende que as petrolíferas constroem uma narrativa que as mantém “lucrativas e no poder” perante uma oposição crescente.

A transição para longe dos combustíveis fósseis tornou-se um dos pontos de maior tensão na cimeira COP30 das Nações Unidas em Belém, no ano passado, apesar de não constar oficialmente da agenda.

Mais de 90 países, incluindo a Alemanha e os Países Baixos, apoiaram a ideia de um roteiro que permita a cada nação definir as suas próprias metas para avançar para a energia verde.

Apesar do apoio crescente a esta ideia, todas as referências aos combustíveis fósseis foram retiradas do acordo final nas últimas horas da cimeira. Isto significa que a esperança de um futuro sem combustíveis fósseis fica agora fora do âmbito das Nações Unidas.

Um relatório da Carbon Majors concluiu recentemente que 17 dos 20 maiores emissores em 2024 eram empresas controladas por países que vieram a bloquear o roteiro da COP30. Entre eles contam-se a Arábia Saudita, o Irão, o Qatar, a Índia, a Rússia e a China.

Irão: grandes petrolíferas e a guerra
“A transição do ‘greenwashing’ para a defesa da predominância da energia de origem fóssil é a mais recente reviravolta retórica na manipulação da opinião pública para aceitar as emissões de gases com efeito de estufa como apenas parte da atividade económica”, afirma Robert Brulle, sociólogo ambiental da Universidade Brown.

“Ao mesmo tempo, a guerra no Médio Oriente evidencia o erro da ideia de que os combustíveis fósseis proporcionam ‘segurança energética’.”

Vários especialistas têm usado a guerra contra o Irão para sublinhar a necessidade urgente de uma transição para a energia limpa, numa altura em que os preços do petróleo e do gás continuam a disparar.

A organização sem fins lucrativos 350.org apelou recentemente aos países do G7 para que apliquem um imposto sobre lucros extraordinários às grandes petrolíferas que, segundo a organização, estão a “lucrar” com a escalada do conflito no Médio Oriente.

Embora a guerra no Irão também tenha reforçado os apelos para que o Reino Unido abra novas licenças de perfuração no mar do Norte, uma análise da Universidade de Oxford concluiu que apostar nas energias renováveis é muito mais provável que faça baixar as faturas de energia das famílias.

“O que estamos a ver é a desinformação climática a evoluir em tempo real”, afirma Dana Schran, da coligação Climate Action Against Disinformation (CAAD).

“Em vez de negarem a crise, grandes petrolíferas como a BP e a Shell estão a reescrever a narrativa para que a expansão dos combustíveis fósseis pareça necessária e responsável. É um esforço sofisticado para proteger a influência política e os lucros, mesmo à medida que os impactos climáticos se agravam.”

Saber mais: 


segunda-feira, 16 de março de 2026

Pete Hegseth - Trump’s Stupidest Cabinet Member



At a press briefing on Friday, Defense Secretary Pete Hegseth complained about a CNN report that the Trump administration had underestimated Iran’s ability to disrupt global oil traffic by closing the Strait of Hormuz.

“Patently ridiculous,” Hegseth told reporters, adding — even as the strait’s blockage was proving to be Iran’s most powerful leverage in the war — we “don’t need to worry about it.” He also denied that the U.S. bombed the school where some 175 children were killed. Hegseth added that, as to CNN, “the sooner David Ellison takes over that network, the better.”

These remarks are remarkably stupid, on several levels.

First, CNN got it absolutely right in reporting that Trump’s national security team had underestimated Iran’s ability to disrupt global oil traffic. CNN cited “multiple sources familiar with the matter.”

The New York Times published a similar story, reporting that in the lead-up to the U.S.-Israeli attack, “Trump downplayed the risks to the energy markets.”

Even The Wall Street Journal, hardly a New York Times or CNN clone, substantiated the story on Friday, reporting that Trump rejected warnings that Iran would likely retaliate by closing the strait because he believed Iran would capitulate before doing so, and he assumed that even if Iran tried to close it, the U.S. military could handle it.

Second, Hegseth’s comment that we “don’t need to worry about” the blockage of the strait is not only false but flippantly insulting to an American public that deserves to know what the Trump regime is planning to do about soaring prices at the gas pump, directly due to that blockage.

Third, even if Hegseth believes that David Ellison’s ownership of CNN will silence CNN’s critical coverage of Trump, it’s remarkably stupid of Hegseth to say it out loud. “The sooner David Ellison takes over CNN, the better” is an open admission that Trump backed Ellison’s bid to acquire Warner Bros. Discovery, CNN’s parent, to silence criticism.

That deal is still pending, so Hegseth’s admission is likely to fuel even more opposition to it. California’s attorney general has already suggested he’ll go to court to block it. Now other attorneys general, the ACLU, and Democrats in Congress may join the case as co-plaintiffs.

Hegseth’s admission also confirms CNN’s worst fears that Ellison will throttle criticism of Trump - a fear that’s already caused several leading lights to exit. As Variety put it, “Anderson, cooped. Jake, tapped. Erin, burnt. Kasie, hunted. Wolf, blitzed.”

Ellison has already proven himself an unreliable steward of journalistic independence at CBS News. One departing producer there explained in a farewell memo to colleagues that she could no longer work where stories are “evaluated not just on their journalistic merit, but on whether they conform to a shifting set of ideological expectations — a dynamic that pressures producers and reporters to self-censor or avoid challenging narratives that might trigger backlash or unfavorable headlines.”

Finally, Hegseth’s denial that the U.S. is responsible for the deaths of nearly 200 schoolchildren in Iran is belied by mounting evidence that the U.S. did bomb the school. Hegseth’s further insistence that the U.S. “never targets civilians” is refuted by the U.S. military’s killing of at least 157 people on 40 small boats in the Caribbean without evidence they were “narcoterrorists” rather than civilians.

And, friends, this was just one news conference.

Pete Hegseth’s job is so far over his head that he can’t even see it. He evidently believes it’s to cheerlead and defend Trump with bonkers claims like “We didn't start this war, but under President Trump we’re finishing it” and “America is winning decisively, devastatingly, and without mercy” and “we will show no quarter for our enemies.” (“No quarter” means kill everyone and take no prisoners, which is a war crime.)

In the days leading up to the U.S. attack on Iran, Hegseth spent his time criticizing “wokeness” at American universities, feuding with Anthropic over safeguards for AI, and, in the day before the war began, forcing Scouting America to abandon programs aimed at promoting diversity.

He dismisses war crimes, pooh-poohs the rules of engagement, and projects unequivocal belligerence at a time when the United States is rapidly losing whatever moral standing it had in the world.

Granted, it’s difficult to select one of Trump’s Cabinet members as the stupidest. But Pete Hegseth stands out for sheer boneheaded ignorance.

segunda-feira, 9 de março de 2026

‘A very dangerous person’: alarm as Pete Hegseth revels in carnage of Iran war

Not a single senator probed the most dangerous part of Hegseth's background: his support for white Christian nationalism [Fonte]

Critics say brash, bombastic Fox News host out of his depth to guide US military through murky new Middle East conflict



Brash and bellicose, he sounded more like a cartoon bully than a sombre statesman. “Death and destruction from the sky all day long,” Pete Hegseth, wearing a red, white and and blue tie and pocket square, bragged to reporters at the Pentagon near Washington. “This was never meant to be a fair fight, and it is not a fair fight. We are punching them while they’re down, which is exactly how it should be.”

Hegseth, 45, a former Fox News TV host who now commands the world’s most powerful military, has this week become the face of Donald Trump’s war in Iran. That has set off alarm bells for critics who warn that the Secretary of Defense – pointedly rebranded “Secretary of War” – has rapidly transformed the Pentagon into the staging ground for an ideological and religious crusade.

With machismo, Christian nationalism and callousness toward the lives of US troops, they say, Hegseth’s puerile displays on TV are aimed at sating Trump’s desire for a warmonger worthy of the manosphere. This was reinforced by a lurid social media video that intersperses clips from Hollywood blockbusters such as Braveheart, Gladiator, Superman and Top Gun with Hegseth and real kill-shot footage of the attacks in Iran.

Janessa Goldbeck, chief executive of Vet Voice Foundation, a nonprofit advocacy organisation, said: “Pete Hegseth is a very dangerous person. He’s a white Christian nationalist and has the arsenal of the United States government at his disposal and a permission slip from President Trump to deploy carnage wherever he wishes against whomever he wishes.”

Hegseth’s rise would have been unthinkable under any other commander-in-chief. Born in Minneapolis, he studied politics at Princeton University and became publisher and editor of the Princeton Tory, a conservative student journal, where he frequently waded into culture-war issues such as feminism and homosexuality.

After leaving Princeton, Hegseth joined the US army national guard as an infantry officer. His service included deployments to Guantánamo Bay in Cuba and tours of Iraq and Afghanistan. He later revealed in a book that he told soldiers under his command in Iraq to ignore legal advice about when they were permitted to kill enemy combatants under their rules of engagement.

Hegseth became chief executive of Concerned Veterans for America, a conservative advocacy group, but departed in 2016 amid allegations of financial mismanagement, sexual impropriety and personal misconduct.

In 2018 Hegseth’s mother, Penelope, sent him an email that said: “You are an abuser of women – that is the ugly truth and I have no respect for any man that belittles, lies, cheats, sleeps around, and uses women for his own power and ego. You are that man (and have been for years) and as your mother, it pains me and embarrasses me to say that, but it is the sad, sad truth.”

Hegseth subsequently became a familiar face on TV as a contributor and co-host of Fox & Friends on Fox News, frequently interviewing Trump and defending his policies. He once wrote that, in the event of a Democratic election win, “the military and police … will be forced to make a choice” and “Yes, there will be some form of civil war”.

But Trump prevailed in 2024 and nominated Hegseth to serve as secretary of defence. At his confirmation hearing, senators raised serious questions about his record: disparaging remarks about women serving in the armed forces; allegations that he drank while on duty; claims of sexual assault and misconduct; his troubled tenure running two small veterans’ nonprofit organisations; and his lack of experience for a post overseeing the world’s most powerful military.

The Senate ultimately split 50–50, forcing the vice-president, JD Vance, to cast the tie-breaking vote. As defence secretary Hegseth has vowed to “unleash overwhelming and punishing violence” on enemies and promised to dispense with “stupid rules of engagement” – rules designed to restrict attacks on civilian populations.

Now, in his first week guiding the nation through a murky new Middle East conflict, Hegseth has largely forgone the solemnity of a traditional defence secretary in favour of the performative antics of a partisan broadcaster revelling in America’s capacity to inflict violence.

For years he had cultivated a hypermasculine “muscleman” aesthetic designed to play to Trump’s sensibilities and the rightwing media ecosystem. Now, faced with a geopolitical crisis that demands nuance and strategic foresight, he appears to many to be out of his depth.

Goldbeck, a Marine Corps veteran who was deployed overseas as a combat engineer officer, commented: “I wish I could say how cavalier, obtuse and hopeless Secretary Hegseth is at leading the Pentagon. I can’t even muster the words to describe his self-adulation, matched only in scope by his apparent moral depravity.”

She added: “Let’s not forget that Pete Hegseth is a former morning-show Fox News TV host, and has this cartoonish persona, speaking what he thinks is tough-guy language, but sounds to me as a veteran and to many of my peers who served in combat like somebody who is completely inept and pretending to have this macho persona.

“Honestly, it’s embarrassing. We know this guy is incompetent. I wouldn’t feel safe leaving Pete Hegseth in charge of putting together a DoorDash order.”

Hegseth at the International Christian Media Convention in Nashville last month. [Fonte]

Former White House officials share the concerns. Brett Bruen, president of the public affairs agency Global Situation Room and former global engagement director of the Barack Obama administration, said: “Hegseth is ill-suited for the kind of reassurance and strategy that Americans and our allies need to hear from the Pentagon right now.

“They don’t need a bumper sticker. They don’t need the bravado and the brashness that he brings. They need to know that America’s military is in strong, stable hands and what we have seen in his first couple of war press conferences is an inability to move beyond this Fox personality and into the role of leader of our nation’s military at a time of war.”

During his Pentagon briefing on the war on Wednesday, Hegseth adopted a bombastic tone, saying of Iranian leaders: “They are toast and they know it. Or at least soon enough they will know it. America is winning – decisively, devastatingly and without mercy.”

He bashed “fake news” while addressing the six army reservists killed in an Iranian attack on an operations center in Kuwait. “When a few drones get through or tragic things happen, it’s front-page news. I get it. The press only wants to make the president look bad. But try for once to report the reality. The terms of this war will be set by us at every step.”

The comments provoked uproar for their lack of empathy for America’s fallen. Jeremy Varon, a history professor at the New School for Social Research in New York, said: “That’s outrageous. You have a national effort by all media regardless of partisan bent to memorialise and honour the dead and he sees that simply as a tactic to bring down Trump.”

There was another aspect of Hegseth’s personality barely addressed by the Senate: his sympathy for Christian nationalism. Photos have shown him bearing two tattoos associated with crusader imagery. One depicts the Jerusalem cross – a cluster of five crosses long connected to medieval crusader iconography – on his chest.

Nearby is an image of a sword accompanied by the Latin phrase “Deus vult”, meaning “God wills it”, a slogan historically linked to the crusades and revived in recent years by various far-right groups. It appeared on clothing and flags carried by some participants in the January 6 Capitol attack.

Nor are the references merely symbolic. In his 2020 book, American Crusade, Hegseth wrote that those who benefit from “western civilisation” should “thank a crusader”. The book suggests that democratic politics alone may not suffice to achieve the goals of his political allies, declaring: “Voting is a weapon, but it’s not enough. We don’t want to fight, but, like our fellow Christians one thousand years ago, we must.”

There have been reports of more troubling behaviour. The New Yorker reported that a colleague at Concerned Veterans for America complained that he and another man repeatedly shouted “Kill all Muslims!” during a drunken episode at a bar while travelling for work.

Hegseth has previously endorsed the doctrine of “sphere sovereignty”, a worldview derived from the extremist beliefs of Christian reconstructionism (CR). The philosophy calls for capital punishment for homosexuality and strictly patriarchal families and churches.

The defence secretary attends Pilgrim Hill Reformed Fellowship, a church linked to the Communion of Reformed Evangelical Churches, a denomination co-founded by the pastor Doug Wilson, who has openly advocated a theocratic vision of society in which wives should submit to their husbands and women should be denied the vote. Wilson recently led a worship service at the Pentagon at Hegseth’s invitation.

Robert P Jones, president and founder of Public Religion Research Institute thinktank in Washington, said: “This is not one or two comments. It’s not a kind of one-off behaviour. This is like a longstanding publicly demonstrated orientation that Hegseth has. It’s not just a glorification of violence but a glorification of violence in the name of Christianity and civilisation.”

The Military Religious Freedom Foundation (MRFF) says it has received more than 200 complaints from service members about military commanders invoking extremist Christian rhetoric about biblical “end times” to justify involvement in the Iran war. Such language could also be offensive to Arab allies and provide Iran with the fodder it needs to justify its own holy war against the US.

Jones warned: “It casts this not as anything related to the public – is it about a nuclear programme? Is it about sponsoring terrorism? – which are legitimate political concerns. It takes it out of the realm of politics and casts it as a holy war of a supposedly Christian nation against a Muslim nation.”

Doug Pagitt, a pastor and executive director of the progressive Christian group Vote Common Good, compares Hegseth’s worldview to the historical heresy of Constantine, who allegedly painted a cross on his shield to conquer in the name of God – a theology the broader Christian church has spent centuries trying to distance itself from following the horrors of the Crusades.

Pagitt said: “It seems to me that Pete Hegseth has a worldview, which is contorted toward thinking that this administration has a particular divine calling. He believes – because he said it – that God has uniquely ordained Donald Trump and those that he chooses to accomplish very specific purposes in the world.

“Pete Hegseth’s own version of Christianity is one that’s built around a certain Christian advancement that comes through the domination of the governments of nations. He believes that not only is the military at his disposal to use for his purposes but it’s there to fulfill God’s agenda for the world.”

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sábado, 7 de março de 2026

Mafalda Livermore: a ironia faz-se sózinha


O caso de Mafalda Livermore é o exemplo acabado de como a realidade, por vezes, se encarrega de expor as maiores contradições sem precisar de floreados. A ironia faz-se sozinha porque o choque entre a retórica e a prática é absoluto: uma criminologista, ligada a um partido que se apresenta como o único capaz de limpar a corrupção e combater o "sistema" de privilégios, acaba exonerada por um caso de nepotismo direto e pela exploração de condições de habitabilidade indignas. Rever Prova dos Factos

A situação torna-se particularmente gritante quando observamos que o lucro vinha precisamente da população imigrante, o grupo que o partido mais utiliza como alvo do seu discurso de insegurança e desordem. Quando uma estrutura política que reclama a exclusividade da moralidade e da "lei e ordem" se vê enredada em esquemas de favorecimento familiar e na precarização de seres humanos, a narrativa de "pureza" colapsa. Não é necessário um debate ideológico profundo para perceber a incoerência; basta olhar para os factos, que se revelam tão opostos às promessas eleitorais que a própria situação se torna uma sátira da mensagem política que o partido tenta vender.

O Chega é um verdadeiro poço de bandidos de toda a ordem. Quase não há dia nenhum em que não se descubra que mais um bandido chegano foi caçado numa das milhentas falcatruas possíveis de serem feitas neste mundo de pseudo empresários nascidos nas redes sociais.
As escandaleiras envolvendo cheganos são tantas e de tal ordem que já ninguém se admira quando um qualquer noticiário abre com a noticia de um chegano metido em vigarices ou enfiado num qualquer processo judicial. Escolheram-nos a dedo o que não admira numa seita montada sobre milhentas assinaturas falsificadas pelas quais ninguém foi responsável nem responsabilizado. Até hoje ninguém percebe como um gangue de bandidos pode concorrer a eleições com órgãos diretivos ilegais, com contas não aprovadas pelo tribunal Constitucional e com estatutos reprovados pelo mesmo Tribunal. O Chega utiliza estas derrotas no Tribunal Constitucional para alimentar a sua própria narrativa: presentam-se como vítimas de uma perseguição das elites ou dos juízes "do sistema" e quanto mais o TC chumba os seus estatutos, mais o partido diz aos seus eleitores que "eles" (os poderes instituídos) estão a tentar calar a voz do povo.
Mas se toda esta vigarice causa estranheza a muita gente mais estranheza causa que 25% dos eleitores nacionais estejam de tal forma alienados e hipnotizados com este bando de gangsters que lhes entregam o seu voto.

domingo, 1 de março de 2026

Invasão do Irão


Esta guerra desencadeada contra o Irão não é um desvio táctico nem uma reacção nervosa a uma ameaça iminente, é a manifestação crua de um projecto de poder que perdeu qualquer pudor moral e que actua com a convicção de que a força substitui o direito. O governo de Israel não age como um actor sitiado que responde no limite da sobrevivência, age como uma potência militar convencida de que pode redesenhar o mapa humano da região à custa de quem estiver no seu caminho. O governo dos Estados Unidos, por sua vez, não é um aliado constrangido, é o garante estrutural dessa audácia, o fiador armado de uma política que já mostrou, na Palestina, até onde está disposto a ir.
Em Gaza não houve uma tragédia inevitável, houve um método. Não houve apenas o confronto com o Hamas, houve uma devastação sistemática de um território densamente povoado onde se sabia, com precisão estatística, que morreriam milhares de mulheres e crianças que nada tinham a ver com decisões militares. Quando hospitais são bombardeados, quando bairros inteiros são apagados do mapa, quando a fome e a ausência de cuidados médicos se tornam instrumentos de pressão, não se está perante um erro operacional, está-se perante uma escolha, e essa escolha foi repetida até se tornar uma rotina.
Genocídio é a palavra exacta. Não como um grito emocional, mas como uma descrição política de um processo que destrói deliberadamente as condições de existência de um povo enquanto tal. A morte massiva de civis deixou de ser uma consequência indesejada para se tornar uma variável integrada no cálculo estratégico. 
A indignação internacional é gerida como um ruído de fundo, tolerável enquanto não comprometer as alianças nem os contratos militares.
A ofensiva contra o Irão amplia esta lógica. 
A ameaça futura é convertida numa licença para a destruição presente. Invoca-se o perigo nuclear para justificar ataques, que se sabe de antemão, não ficarão confinados a instalações militares. 
A mensagem é clara e brutal. Quem desafia a arquitectura de poder imposta por Israel e garantida pelos Estados Unidos torna-se um alvo legítimo, e as populações civis tornam-se simplesmente danos previsíveis.
Os Estados Unidos desempenham aqui o papel de motor geopolítico. Financiam, armam, vetam resoluções, moldam narrativas e apresentam como defesa da ordem internacional aquilo que é, na prática, a sua corrosão selectiva. A sua superioridade militar e diplomática funciona como um escudo de impunidade. Israel executa no terreno com a confiança de quem sabe que não será travado por sanções sérias nem por um isolamento efectivo.
Esta convergência transforma ambos numa força motriz de instabilidade que ameaça não apenas uma região, mas o próprio princípio de que a vida civil deve estar protegida em qualquer conflito. Quando dois Estados com tal poder normalizam a destruição de populações inteiras em nome da segurança, enviam ao mundo um sinal devastador: a lei é opcional para quem tem força suficiente para a ignorar.
Não se trata de uma retórica exaltada, trata-se de constatar que esta aliança tem agido como um catalisador de guerras sucessivas, ampliando conflitos e reduzindo o espaço para soluções políticas. Ao escolher reiteradamente a via militar, ao aceitar como custo assumido a morte de inocentes, ao expandir o teatro de operações para além da Palestina até ao Irão, assumem-se como agentes centrais de uma lógica que corrói a própria ideia de uma humanidade partilhada.
A História acabará por registar esta fase não como uma defesa heróica de valores, mas como um período em que duas potências decidiram que a sua segurança e a sua indisfarçável ganância justificava tudo. 
E quando tudo é justificável, nada fica de pé. 
Nem cidades, nem direitos, nem a confiança mínima que sustenta a coexistência entre povos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Claro que o partido Chega e Iniciativa Liberal estão contra a proibição das redes sociais aos menores de 16 anos

Na passada quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026, o Parlamento português aprovou precisamente um projeto de lei (proposto pelo PSD) que acaba com o acesso livre de menores de 16 anos às redes sociais. Como se previa, o Chega e a Iniciativa Liberal foram os únicos partidos a votar contra a medida. Aqui está o resumo do que aconteceu e os argumentos que sustentam essa posição:
O que foi aprovado?
Idade Mínima: A "maioridade digital" sobe dos 13 para os 16 anos.
Consentimento Parental: Jovens entre os 13 e os 16 anos só podem ter conta se os pais autorizarem através da Chave Móvel Digital.
Restrições Técnicas: As plataformas ficam proibidas de usar scroll infinito, reprodução automática de vídeos (autoplay) e notificações não essenciais para este escalão etário.
Multas: As empresas que não cumprirem podem enfrentar coimas de até 2 milhões de euros.

Os argumentos do "Não" (Chega e IL)
Embora ambos tenham votado contra, as justificações focam-se em ângulos distintos
  1. Argumento Iniciativa Liberal (IL)- Defende que a solução deve passar pela literacia digital e não pela proibição. Mariana Leitão (líder da IL) afirmou que a medida exige uma "vigilância sobre todos" e que o Estado não deve substituir o papel dos pais na educação.
  2. Chega - André Ventura criticou a medida por considerá-la ineficaz e uma intromissão do Estado. O partido argumenta que proibir o acesso a jovens de 14 ou 15 anos — que já têm maturidade para outras decisões — é ignorar a realidade tecnológica atual.
Embora ambos os partidos sejam conhecidos por uma presença digital muito forte, as suas estratégias e "territórios" de eleição nas redes sociais são distintos, refletindo os seus diferentes públicos-alvo.

Com base em dados recentes de 2024 e 2025 (incluindo relatórios da CNE e MediaLab/ISCTE), aqui estão as redes mais utilizadas por cada um:

Chega: O Domínio das Massas e do Vídeo
O Chega foca-se em plataformas que permitem um alcance viral massivo e uma comunicação direta e emocional, centrada fortemente na figura do seu líder, André Ventura.
  1. Facebook: Continua a ser o grande "quartel-general" do partido. É onde obtêm o maior número de interações (reações e partilhas) e visualizações de vídeos, chegando a atingir marcas de 9 milhões de visualizações em períodos eleitorais.
  2. TikTok: É uma ferramenta vital para o partido chegar ao eleitorado mais jovem e segmentar conteúdos curtos e incisivos. Ventura é frequentemente o líder político com mais tração nesta rede.
  3. Instagram: Usado para uma mistura de atividade política e momentos mais humanizados do líder, gerando milhões de interações mensais.
  4. YouTube: Utilizado para transmissões em direto e arquivo de intervenções parlamentares, funcionando como um canal de TV próprio.
  5. WhatsApp e Telegram: Canais crescentes para mobilização direta da base de militantes sem filtros de algoritmos.
Iniciativa Liberal (IL): O "Microcosmos" de Elite e Debates
A Iniciativa Liberal foca-se em redes que privilegiam a discussão de ideias, a literacia financeira/económica e o humor gráfico (memes).
  1. X (antigo Twitter): É historicamente o "porto seguro" da IL. O partido domina frequentemente o debate político nesta rede, sendo onde o seu conteúdo é mais partilhado e discutido pela bolha mediática e política.
  2. Instagram: Usado de forma muito profissional para infográficos, cartazes digitais e uma comunicação visualmente limpa e moderna. É a rede principal para o seu público urbano e jovem adulto.
  3. Facebook: Embora presente, o engagement é geralmente inferior ao do Chega nesta rede, sendo usado mais para fins institucionais e contacto com eleitores fora dos grandes centros.
  4. LinkedIn: Ao contrário da maioria dos partidos, a IL tem uma presença relevante aqui, focando-se no eleitorado corporativo, empreendedores e profissionais liberais.
  5. TikTok: O partido tem vindo a reforçar a aposta aqui para competir pela atenção da Geração Z, embora com um estilo menos agressivo que o do Chega.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Mais umbigos que cabeças

This Incredible Map Tool Reveals Just How Much the Mercator Map Distorts the World [aqui]

Os provérbios são a nossa enciclopédia de bolso, e quando acordamos para o dia com as más notícias do dia anterior convém saber que "deus é grande e o mundo é pequeno". Tão pequeno que cabe num guardanapo. Era esse mesmo o significado que o latim atribuía à palavra mapa, sinónimo de toalha, lenço ou trapo. E era também mapa que chamavam ao pedaço de lona que, no silêncio expectante do circo, dava o sinal de largada para as corridas de bigas, também utilizadas como carros de guerra, como se aqueles cavalos fossem galopar pelos confins, a galgar fronteiras. Foi na superfície dessas telas que os romanos desenharam os limites do universo conhecido.

Os mapas retratam o melhor e o pior da nossa espécie: a curiosidade sôfrega e inquieta, a fome de descoberta, mas também vaidade agressiva e a sede de conquista e dominação. Os mapas fascinam porque contam histórias e revelam paixões. Mas são também os mapas que constroem nossa visão do mundo. As razões pelas quais o Norte nos aparece sempre virado para cima não são científicas, mas estratégicas e até ideológicas: o alto tem conotações positivas, enquanto o baixo é menosprezado. Associamos a pobreza aos países do Sul e a prosperidade aos países do Norte. A famosa imagem da Terra obtida pela Apollo 17, em 1972 -aquela bola azul, em forma de berlinde - foi rodada para efeitos de publicação, pois só sabemos ler o planeta posicionado dessa forma. No entanto, durante séculos o Leste costumava ocupar a posição superior, porque a luz vem do Oriente, lá onde nasce o dia.

Os mapas contam verdades, mas também algumas mentiras. São atlas das mentalidades, medos e ambições das sociedades que os inventaram. Todos sabemos que a terra é aquela bola redondinha, mas a projeção cartográfica mais utilizada ainda hoje, conhecida como Mercator, esconde distorções interessadas. Tão interesseiras como aquela que, em Tordesilhas, levou o nosso D. João II a reclamar como limites da expansão portuguesa as 360 léguas para lá de Cabo Verde. Foi esse desvio no meridiano do mapa do Tratado que permitiu a Portugal explorar as terras onde hoje se encontra o Brasil. Vistos daqui, os mapas-múndi que navegamos com a ponta dos dedos retratam um Ocidente enorme e central, sobredimensionado num hemisfério Norte que ocupa dois terços e relega o Sul a um minúsculo terço inferior. Não é essa, porém, a visão dos mapas que se estudam nas escolas orientais, onde a China e o Japão ocupam posição central, ou nas australianas onde os mapas retratam o nosso mundo de pernas para o ar.

Desde que se começámos a traçar geografias em guardanapos, tendemos a acreditar que somos e estamos no centro do mundo. Ao longo da história, muitos povos sofreram dessa miragem imprópria para habitantes de um planeta esférico. Segundo os gregos antigos, Zeus soltou duas águias nos confins do universo para saber onde ficava o centro da Terra. Inevitavelmente, as aves encontraram-se em Delfos, lugar marcado para a posteridade na pedra oval a que chamaram de "omphalus", ou seja, umbigo - da mesma forma que os chineses da época se julgavam o "império do meio". Ambos acreditavam ser o núcleo cartográfico do Universo e a única cultura civilizada, cada qual a julgar-se no epicentro de tudo. E talvez seja por isso que o mundo ainda tem mais umbigos do que cérebros. O delírio megalómano tem muitas vezes cinzelado geografias a golpes de invasão, guerra e dominação, em nome de purezas remotas e nações triunfantes. A história prova, porém, que pensamento e ciência resultam do cruzamento dos povos, em rotas de viagens, encontros e trocas. Na verdade, aprendemos sobre nós mesmos quando ousamos olhar outras paisagens e ouvir outras vozes. Só os outros nos dizem quem somos.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Era só o que faltava que eu não pudesse reflectir em voz alta - Amanhã votarei em António José Seguro!

Ainda tem dúvidas? 
Autarca do Chega de 49 anos aterrorizou um vizinho com tiros (!!). Além de lhe ter matado uma ovelha, o fulano causou danos avaliados em 20 mil euros à vítima, também resultantes de disparos de arma de fogo.
Amanhã voto ANTÓNIO SEGURO, faça chuva, faça Sol.

Amanhã irei votar contra o ódio, contra o fascismo, contra o racismo, contra a xenofobia, contra a homofobia, contra a misoginia, contra as touradas, contra a bufaria, contra a militarização das fronteiras, contra a criação de uma polícia migratória estatal e contra criminosos de colarinho branco. 

Não é só Portugal que está em causa. André Ventura partilha e difunde os pilares fundamentais do movimento Internacional Nacionalista, a saber: 

A. Nacionalismo Identitário: A defesa da "identidade cristã" e dos valores tradicionais contra o multiculturalismo. 

B. Populismo de Exclusão: A dicotomia entre o "povo de bem" e as "elites corruptas", estendendo-se frequentemente a ataques contra minorias (especialmente a comunidade cigana e imigrantes). 

C. Segurança e Autoritarismo: Defesa de penas mais pesadas (prisão perpétua, castração química) e um apoio incondicional às forças policiais. (vejam o ICE, nos EUA)

2. As Alianças Internacionais 
André Ventura tem sido muito eficaz a inserir-se na "Internacional Nacionalista". Ele não é apenas um admirador, é um parceiro ativo de figuras chave: 

Santiago Abascal (VOX) Espanha - O aliado mais próximo, com frequentes visitas mútuas e uma agenda comum para a Península Ibérica. 

Matteo Salvini (Lega) Itália - é parceiro no grupo parlamentar europeu Identidade e Democracia (ID). 

Marine Le Pen (RN) França - uma das principais referências e apoiante pública de Ventura em campanhas eleitorais. 

Viktor Orbán (Hungria)- Ventura aponta frequentemente a Hungria como modelo de defesa das fronteiras e da família. 

Donald Trump / Jair Bolsonaro- Ventura adoptou o estilo de comunicação direta e brutalista nas redes sociais e a retórica de "limpeza do sistema" destes líderes.

André Ventura pratica e abusa de deepfake, bots e mentiras.

Só tenho pena de não ter sido discutido o tema ecologia e ambiente.

Provavelmente este “ português de bem ”vai apresentar como defesa, que a ovelha o insultou ou era do Bangladesh (ironia)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

WhiteDate. 32 homens em Portugal tinham perfis no "Tinder Nazi"



Mais de 30 homens residentes em Portugal tinham contas na plataforma de encontros WhiteDate, conhecida como o "Tinder Nazi", um site que promovia encontros entre pessoas de ascendência europeia com valores "tradicionais".
 
O WhiteDate (que na tradução livre significa literalmente "Encontro Branco", referindo-se à etnia caucasiana) apresentava-se como um local para pessoas de valores "tradicionais" e de "ascendência europeia", que pretendiam contribuir para "criar uma sociedade racialmente pura".

O site foi, entretanto, apagado, mas graças ao trabalho de Martha Root (pseudónimo) - uma hacker alemã que levou a cabo a divulgação dos perfis e dados de quem tinha uma conta - é possível ainda consultar esta informação.

No site, criado pela própria, os utilizadores podem consultar um mapa mundo, onde são assinalados os perfis de quem tinha uma conta no WhiteDate. Para aprofundar a informação, pode-se ainda visitar estes perfis um a um e ler o que tinham na plataforma.


"Nascido em Portugal, mas a viver na Noruega, consciente do que significa ser europeu, procuro encontrar uma parceira de ascendência europeia para criar e cuidar de uma família", lê-se no perfil de um homem de 31 anos. 

Mais abaixo, nas orientações políticas, este utilizador admite ser de extrema-direita e até mesmo fascista.

"Estou farto de toda a degeneração que tem corroído a civilização ocidental, sobretudo nas relações entre homens e mulheres", lê-se numa outra biografia. "A necessidade de encontrar uma parceira a quem eu possa dedicar todo o meu coração na sociedade atual parece valer a pena apenas com a ajuda de iniciativas como esta comunidade romântica online para pessoas brancas", acrescenta.

E num outro perfil, este de um homem de 23 anos: "Acho que é importante para nós, brancos, termos os nossos próprios espaços, especialmente no que diz respeito às relações sexuais".

Nas dezenas de perfis, a grande maioria apresenta-se como "pro-white" ou "pró-branco", em português, com muitos a dizerem-se também anti-vacinas e a admitirem não terem sido vacinados contra a Covid-19.

As idades variam entre os 20 e os 50 anos.

Mas há um outro dado que se faz notar: em Portugal, não há um único perfil de uma mulher, apesar de todos estes homens estarem à procura de uma parceira.

De facto, no total dos oito mil perfis divulgados, com mais de 6.500 ativos na altura da exposição, cerca de 86% pertencia a homens. Apenas 14% dos utilizadores da plataforma eram mulheres.

Perante a disparidade, Martha Root chegou mesmo a ironizar, dizendo que a plataforma "faz com que a aldeia dos Smurf parecia uma utopia feminista".

A hacker alemã infiltrou-se na plataforma durante uma conferência tecnológica realizada em Hamburgo, na Alemanha, em dezembro de 2025, (onde apareceu mascarada de Power Ranger rosa para proteger a sua identidade) mas a ação resultou de um trabalho de vários meses.

Ao longo desse tempo, Root disse ter descoberto que a cibersegurança da plataforma era tão má que "faria a conta de AOL da tua avó corar".

"Imagina dizeres que fazes parte da ‘raça superior’ e esqueceres-te de proteger o teu próprio site - talvez seja melhor dominar o WordPress [plataforma de criação de sites] antes de dominar o mundo", atirou.

O WhiteDate era gerido, alegadamente, por uma mulher de extrema-direita a partir da Alemanha.

Dos cerca de 6.500 perfis ativos, cerca de metade eram dos Estados Unidos com 3.411 utilizadores. Seguia-se o Reino Unido, com 399 perfis, França, com 380, e o Canadá, com 357. A vizinha Espanha tinha 46 utilizadores. 

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Dois livros essenciais para compreender o fenómeno do crescimento contemporâneo da extrema-direita


Mark Sedgwick (2019) - Key Thinkers of the Radical Right 
O ressurgimento da extrema-direita na América e na Europa chamou a atenção para a existência de filósofos e escritores políticos cujos nomes são apenas ocasionalmente familiares e cujo pensamento é geralmente desconhecido. Chega a surpreender alguns o facto de a extrema-direita possuir de facto uma filosofia política, para além do nazismo ou do fascismo de Mussolini, ambos, na verdade, desacreditados e marginais. Em vez disso, a extrema-direita ressurgente inspira-se em pensadores consagrados como Nietzsche e Hegel, em pensadores menos conhecidos como Oswald Spengler e Julius Evola, e nos escritos relativamente obscuros de filósofos políticos contemporâneos como Alain de Benoist, em França, e Alexander Dugin, na Rússia. E há ainda toda uma panóplia de pensadores emergentes, muitas vezes americanos, alguns desconhecidos e outros famosos apenas pelas suas intervenções mediáticas. Este livro examina o cânone clássico, os pensadores modernos mais influentes e uma seleção de pensadores emergentes. Dezasseis especialistas explicam dezasseis pensadores, oferecendo uma introdução à sua vida e obra, um guia para o seu pensamento e uma explicação da recepção das suas obras. O livro fornece, portanto, uma introdução completa e autorizada ao pensamento por detrás das acrobacias e do ressurgimento, o pensamento da extrema-direita.


A. James McAdams e Alejandro Catrillon (2021) - Contemporary Far-Right Thinkers and the Future of Liberal Democracy
Este livro é a primeira análise sistemática dos esforços de um vasto leque de pensadores contemporâneos de extrema-direita para popularizar as suas críticas às normas e instituições liberal-democráticas e tornar as suas ideias objecto de debate político e académico contínuo.

O livro centra-se em pensadores influentes da Europa Ocidental e Oriental, Rússia, Estados Unidos, Canadá e Austrália. Entre eles estão Alain de Benoist, Guillaume Faye, Götz Kubitschek, Pat Buchanan, Fróði Midjord, Jason Jorjani, colaboradores da revista online Quillette e a figura enigmática conhecida como o Pervertido da Idade do Bronze. O livro explora os diversos fundamentos intelectuais das posições destes pensadores, as semelhanças e diferenças nas suas ideias e as suas perspetivas de influenciar as atitudes em relação à política democrática nos respetivos países. Examina diversos movimentos e correntes de pensamento, incluindo a Nova Direita Europeia, o Paleoconservadorismo, a Alt-right, o Identitarismo, o Nacionalismo Branco e o antifeminismo.

Oferecendo uma perspetiva global muito necessária, este livro será de grande interesse para estudantes e investigadores de populismo, extremismo de direita, política identitária, fascismo, racismo e conservadorismo.

Ler aqui uma entrevista James McAdams

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O Chega e o Ódio - "Ódio é muitas vezes demasiada importância ao que é somente desprezível"


Já li o livro excelente de Miguel Carvalho- "𝐏𝐨𝐫 𝐃𝐞𝐧𝐭𝐫𝐨 𝐝𝐨 𝐂𝐡𝐞𝐠𝐚 -𝐀 𝐟𝐚𝐜𝐞 𝐨𝐜𝐮𝐥𝐭𝐚 𝐝𝐚 𝐞𝐱𝐭𝐫𝐞𝐦𝐚-𝐝𝐢𝐫𝐞𝐢𝐭𝐚 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥".
A narrativa inflamada, os epítetos boçais, a opacidade das contas (afinal cai o pano de "Limpar Portugal" e financiamento deste "partido" (corrupto, quando acabamos de ler o livro) é também racista, fascista e xenófobo.
Outro aspecto que André Ventura e sua comandita proclamam é o candidato “do povo” contra as “elites. Nada mais falso. É alimentado por uma elite económica nacional e internacional que depois, caso chegue ao poder, vai cobrar e os portugueses ficam mais pobres e haverá austeridade.

Em junho de 2020 a Revista Visão já havia publicado extensa matéria sobre um banquete na luxuosa Quinta do Barruncho, nos arredores de Lisboa. O centro das atenções era André Ventura, que recém havia lançado o Chega (2019). Entre os convidados estava João Maria Bravo, dono da Sodarca, empresa com contratos milionários de fornecimento de armas às forças de segurança e ao exército.

Outro grande empresário presente era Miguel Félix da Costa, cuja família representou durante 75 anos a marca de lubrificantes Castrol em Portugal, atual homem forte da Slil, uma sociedade gestora de participações nas áreas do imobiliário e turismo, e que conta ainda com interesses na agricultura e na criação de cavalos. A eles se juntou Humberto Pedrosa, dono do grupo Barraqueiro, então administrador acionista da TAP, e João Pedro Gomes, do grande escritório de advogados BSGG.

Também comensal da Quinta do Barruncho foi Francisco Cruz Martins, que administra as imobiliárias Mocaja e Xaroco, ambas pertencentes à Breteuil Strategies, sediada no Chipre, um dos mais importantes paraísos fiscais europeus. O nome do advogado foi amplamente citado no escândalo dos “Papéis do Panamá”, por causa das ligações a sociedades offshore.

𝗤𝘂𝗲𝗺 𝗽𝗮𝗴𝗮 𝗼 𝗯𝗮𝗻𝗾𝘂𝗲𝘁𝗲 𝗲𝘀𝗰𝗼𝗹𝗵𝗲 𝗼 𝗽𝗿𝗮𝘁𝗼
Além deles, outros 70 grandes empresários de diversos ramos económicos portugueses, como representantes do antigo Grupo Espírito Santo. Carlos Barbot, dono do império empresarial das Tintas Barbot, e Paulo Mirpuri, ex-dono da falida operadora de aviação Air Luxor, CEO da Mirpuri Investments e da Hi-Fly, também estiveram nos almoços do Chega.
Entre os doadores do Chega já foram detectados membros da família Champalimaud, que figuram como maiores acionistas da CTT (Correios e banco) e do hotel de luxo The Oitavos, em Cascais, onde o partido organiza encontros com financiadores, dentre outros ramos de negócios.
O episódio recente da CNN foi mais um acto de vitimização, próprio dos ditadores. Recordo que André Ventura num debate para as Legislativas de 2024 disse "𝗘𝘂 𝗶𝗻𝘁𝗲𝗿𝗿𝗼𝗺𝗽𝗼 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝗾𝘂𝗶𝘀𝗲𝗿”. Lembram-se? Um total de 1.661 interrupções e cerca de 30% das interrupções foram feitas pelo líder do Chega.

𝗢 𝗴𝗿𝘂𝗽𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗹𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗮𝗿 𝗱𝗼 𝗖𝗵𝗲𝗴𝗮 𝗱𝗶𝘀𝘀𝗲𝗺𝗶𝗻𝗮 𝗺𝗲𝗻𝘁𝗶𝗿𝗮𝘀
Obriga frequentemente ao uso de fact-checking. Agora aprimoraram-se na deepfake recorrendo à Inteligência Artificial.
A camada principal do Chega é polarizar a nossa sociedade e instrumentalizar e promover o ódio e a intolerância.
Já dizia Camilo Castelo Branco, um grande escritor e por vezes muito esquecido entre nós, tal como p.ex. Aquilino Ribeiro escreveu o seguinte - "Ó𝐝𝐢𝐨 é 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐚𝐬 𝐯𝐞𝐳𝐞𝐬 𝐝𝐞𝐦𝐚𝐬𝐢𝐚𝐝𝐚 𝐢𝐦𝐩𝐨𝐫𝐭â𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐚𝐨 𝐪𝐮𝐞 é 𝐬𝐨𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐝𝐞𝐬𝐩𝐫𝐞𝐳í𝐯𝐞𝐥"  (Trecho retirado do seu romance "A Neta do Arcediago")
"Somente desprezível" significa que algo ou alguém é digno de desprezo e nada mais. Refere-se a algo ou alguém que não merece consideração, que é vil, abjeto ou sem valor, não apresentando qualquer outra qualidade.
Que merece ser desprezado: A expressão destaca a falta de valor e a indignidade.
Que não merece respeito: Implica que a pessoa ou coisa em questão é de baixo caráter, abjeta ou sórdida.
Sem outras qualidades: Sugere que, além de desprezível, não há nada de positivo a ser dito sobre o assunto.
Uma situação e efeito do ódio é a nível psicológico e de abalos de valores pessoais e colectivos. Ver estudo académico "Why we hate". 
Porém o aspecto perigoso do ódio é quando ele está na política, num partido, num agregado social. O ódio deriva de uma mentalidade “nós contra eles”, ao mesmo tempo que é um método simplificado para a difícil tarefa de gerir a diferença.

𝐏𝐨𝐥𝐚𝐫𝐢𝐳𝐚𝐫 𝐧ã𝐨 𝐬𝐢𝐠𝐧𝐢𝐟𝐢𝐜𝐚 𝐚𝐥𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫 𝐨 𝐜𝐨𝐧𝐟𝐥𝐢𝐭𝐨 𝐠𝐫𝐚𝐭𝐮𝐢𝐭𝐨 — 𝐬𝐢𝐠𝐧𝐢𝐟𝐢𝐜𝐚 𝐭𝐨𝐦𝐚𝐫 𝐩𝐨𝐬𝐢çã𝐨.
A política não se esgota no consenso, pelo que também é confronto quando o que está em jogo a dignidade de vidas inteiras. Polarizar não é rejeitar o diálogo, mas sim recusar a normalização da violência arbitrária. É traçar uma linha ética, mas não moralista, que diga que daqui não se ultrapassa. 

Afinal, existem momentos em que a empatia exige a tomada de posições e a capacidade de ouvir o outro cede lugar à resistência.

Contudo, o exercício da empatia não se restringe apenas aos opositores de opinião. Dentro dos nossos próprios espaços políticos, deve imperar a capacidade de ouvir o outro e de respeitar a sua humanidade, independentemente das diferenças. Na luta por um mundo mais justo, a empatia deve ser o alicerce de todas as nossas relações, não apenas com aqueles que pensam de forma diferente, mas também dentro dos espaços que ocupamos.

Em conclusão, é preciso mais do que nunca, resgatar a política como exercício de cuidado, como espaço de construção comum. Porque sem empatia, sem estratégia de educação ambiental e relações de proximidade a política perde o seu sentido.