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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

TORTURETWINN - Remember Me

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A canção "REMEMBER ME" do duo TORTURETWINN condensa a essência de uma cena alternativa em ascensão que reinterpreta nostalgias passadas sob uma lente profundamente digital e contemporânea. O projeto musical formou-se em Richmond, Virgínia (EUA) no ano de 2020, durante o período da pandemia. TORTURETWINN move-se no cruzamento entre o Darkwave, o Post-Punk Revival e o Synthpop. A sua sonoridade assenta em linhas de baixo pulsantes e repetitivas, sintetizadores retro-futuristas frios e vocais repletos de reverberação, criando um ambiente dançante porém soturno.

O projeto insere-se na vaga de renovação da subcultura goth e post-punk que emergiu na transição dos anos 1990 para a década de 2000, marcada pelo universo do Mall Goth e pela cultura de internet da era Y2K. Esta estética recupera a obsessão pela tecnologia de início do milénio - como ecrãs de tubos catódicos, estética de videojogos antigos e plataformas digitais primitivas -, a moda industrial misturada com o minimalismo cyberpunk e o isolamento urbano transformado em expressão artística através do espírito independente do Do It Yourself.

O videoclipe de "REMEMBER ME" funciona como uma meditação visual sobre o esquecimento, a obsessão e a mortalidade na era digital. A repetição do mantra do título contrasta com cenários estáticos e iluminação de néon em forte claroscuro, simbolizando o medo de desaparecer da memória do outro num mundo saturado de informação. O constante jogo de espelhos e enquadramentos simétricos entre os dois membros reforça o conceito de "gémeos" implícito no nome da banda, opondo o eu real à sua própria projeção fantasmagórica.

Os membros pertencem à Geração Z, uma geração que cresceu imersa no ambiente digital e carrega uma ansiedade existencial característica de quem vivencia as relações humanas mediadas por ecrãs. Em termos filosóficos, a obra bebe do Existencialismo de Albert Camus e do Niiilismo, refletindo o desapego e a procura de significado num mundo frio, além de tocar na Hauntologia teorizada por Mark Fisher - a sensação de que vivemos assombrados por estéticas do passado. Na literatura, o lirismo conecta-se ao Romantismo Obscuro de Edgar Allan Poe pela fascinação com o declínio e a morte, cruzando-se com a literatura Cyberpunk de William Gibson, onde a alta tecnologia coexiste com a solidão humana.

Página Oficial
TORTURETWINN

domingo, 2 de agosto de 2026

Gold & Youth - Time To Kill

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Letra
Poisoned hollowed townies
Wallow on the corners
Take the power lines back home

Burn the tallied autos,
Count the highest collar
Take their woes and daughters home

No burden kept, in calling lies
This is our time to feel
Just hardened heads to realign
This is our time to kill

Leave our hallowed county
Wade into the waters
Piecing puzzles on our own

Age in patient autumn
Paying no mind to quarrel
Wash the colors from the board

No burden kept, in calling lies
This is our time to feel
Just hardened heads to realign
This is our time to kill

A phone line, a deft touch, a hard look, this wasted luck

Till the day I wouldn't hold out, know that I won't

Gold & Youth e a Revolta Noturna em "Time To Kill"

Os canadianos Gold & Youth, projeto originário de Vancouver, lançaram em "Time To Kill" uma faixa marcante de indie pop e synth-pop alternativo. A sonoridade do grupo é construída a partir de sintetizadores vintage, linhas de baixo proeminentes e um contraste vocal marcante, criando uma atmosfera simultaneamente melancólica e energética.

O videoclipe da canção, realizado por Natalie Rae Robison e protagonizado por Jonathan Rogers e Natalia Yurieva, mergulha numa estética visceral a preto e branco para acompanhar um casal numa espiral de liberdade e pequena transgressão noturna. Ao invadirem uma piscina pública vazia, roubarem artigos numa loja de conveniência 24 horas ou acenderem velas de faíscas no meio de uma estrada deserta, os dois redefinem o próprio título da música. Aqui, "matar o tempo" deixa de ser sinónimo de apatia corporativa para se transformar na urgência de reclamar a juventude e o controlo da própria vida, fazendo da madrugada um refúgio contra a rigidez do quotidiano. Esta deambulação errante evoca diretamente o espírito da Geração Beat e de obras como On the Road de Jack Kerouac, onde a cidade se converte no palco de uma busca por liberdade absoluta, ainda que efémera.

Por trás desta atmosfera urbana e cinzenta, o projeto revela uma densa bagagem concetual. O existencialismo de Albert Camus e Jean-Paul Sartre transparece na resposta ao absurdo da rotina, enquanto a crítica social se alinha com as ideias de Mark Fisher sobre o Realismo Capitalista - a sensação sufocante de um sistema que nos consome por completo sem deixar alternativas no horizonte. Ao fundir essa inquietação com a ficção distópica de J.G. Ballard e George Orwell, a banda entrega um manifesto audiovisual afiado sobre a solidão, a ansiedade e a procura desesperada por sentido no mundo atual.

Página oficial
Gold and Youth
Gold and Youth youtube

sábado, 1 de novembro de 2025

Ghost Cop - All Souls Day

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Os Ghost Cop são um duo de música eletrónica sediado em Nova Iorque, nos Estados Unidos, formado pela vocalista e artista multidisciplinar Lucy Swope e pelo produtor e músico Sean Dack.  A sonoridade do projeto - que a própria banda descreve de forma provocatória como "feel-bad dance music" - assenta numa fusão densa de Darkwave, Synth-pop, Coldwave e Post-punk, profundamente impregnada pela estética e pelas bandas sonoras de filmes de terror e de ficção científica da década de 1970 e 1980. O estilo é de facto inovador precisamente porque o duo não se limita a replicar a nostalgia retro dos anos 80: eles desconstroem o género. Enquanto o Synthwave tradicional tende a ser brilhante ou focado em melodias melancólicas fluídas, os Ghost Cop sobrepõem graves analógicos punitivos, ritmos industriais secos e linhas de sintetizador pontiagudas a vocais frios, sussurrados e etéreos. O resultado é um híbrido cinemático e noturno - uma música dançável, mas que mantém uma tensão e claustrofobia constantes, como se a pista de dança fosse o cenário de um filme slasher ou cyberpunk.  
No tema "All Souls Day" (lançado no álbum Trouble em 2024), a canção explora o significado espiritual e profano do Dia dos Fiéis Defuntos. O tema aborda a fronteira porosa entre os vivos e os mortos, a memória, o luto coletivo e a permanência dos "fantasmas" interpessoais que carregamos. É uma reflexão sobre a finitude, onde a dança serve como um ritual moderno de purgação e invocação, sugerindo que as nossas perturbações e remorsos não desaparecem; apenas mudam de forma e habitam as sombras do presente.  No plano visual e videográfico, os Ghost Cop são conhecidos por realizar e produzir a sua própria identidade estética. O videoclipe de "All Souls Day" utiliza uma linguagem cinematográfica em lo-fi e película texturada, carregada de iluminação contrastada e claros-escuros típicos do cinema giallo e do terror B. O significado do vídeo centra-se na despersonalização e na vigilância: figuras em movimento contínuo que transitam entre a presença e a ausência, transmitindo a ideia de que a cidade moderna é um cemitério de memórias e que os corpos em movimento estão possuídos pelo próprio ritmo da máquina.  
As influências literárias e filosóficas do duo e desta faixa em específico ancoram-se no Existencialismo (a busca de sentido perante a finitude e o absurdo) e nas teorias do filósofo francês Jacques Derrida sobre a "Hauntologia" (Hauntology) - o conceito de que o presente está sempre assombrado pelos "fantasmas" dos futuros perdidos do passado. Do ponto de vista literário, nota-se a forte influência da ficção científica distópica de J.G. Ballard (o erotismo mecânico e a alienação urbana), o terror psicológico de H.P. Lovecraft e Edgar Allan Poe (o medo do invisível e o macabro) e a poesia do Romantismo Negro, onde a beleza e a decadência caminham lado a lado.  

The H. P. Lovecraft Archive

Páginas oficiais
Ghost Cop

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Como se traduz brain rot?



Brain rot foi eleita palavra do ano. Junta-se ao leque de expressões com que vamos fingindo abordar seriamente os efeitos das redes sociais nas sociedades contemporâneas, como já em 2020 tinha acontecido com doomscrolling.

Durante a semana passada, ainda que possa ter passado despercebido no meio de tanto acontecimento, foi notícia o facto de a expressão brain rot ter sido considerada palavra do ano. Numa votação online em que participaram 37 mil internautas promovida pela Oxford University Press, editora do famoso dicionário Oxford, a expressão levou a melhor sobre uma série de outros termos de calão da internet que compunham a lista. E rapidamente correu o mundo, num movimento habitual que já se vai tornando ritual sempre que chega esta altura do ano. Tops, listas, nomeações e eleições online do outro lado do mundo invadem os nossos alinhamentos noticiosos, especialmente quando confirmam vieses ou servem para marcar posições. E neste caso não é excepção.

Com a notícia sobre a palavra do ano, jornais por todo o mundo estrearam a expressão nas suas páginas, repetindo dezenas de vezes o alinhamento da peça: palavra do ano, shortlist completa, dados sobre crescimento da utilização, facto sobre o surgimento da expressão referido originalmente no comunicado, conclusão vaga sobre os perigos para que esta expressão aponta. A eleição de uma palavra entre outras numa votação online sugere o apodrecimento cerebral promovido pelo consumo excessivo de redes sociais e, simultaneamente, revela-nos como a toxina já se espalhou por todo o corpo social.

O viral como crítica do viral
Entre as linhas ténues das conclusões vagas, brain rot junta-se ao leque de expressões com que vamos fingindo abordar seriamente os efeitos das redes sociais nas sociedades contemporâneas, com honras de palavra do ano, como em 2020 tinha acontecido com doomscrolling. Paradoxalmente, a constatação dos efeitos nocivos das redes sociais e da deterioração do valor do conteúdo a que estas obrigam, não serve de pretexto para interromper por instantes este ciclo. Serve-lhe antes como reforço: gerando centenas de artigos de valor duvidoso que reforçam as dinâmicas de poder online, nos embrulham nesta cultura sem tempo e sem local, onde o viral se confunde com global, e a crítica se assemelha a um reflexo do objeto criticado.

Esta circularidade pode ser vista como uma demonstração cultural da nossa condição póstuma, como apelidou Marina Garcés no seu livro Novo Iluminismo Radical. “O problema é que quando a cultura se reduz à crítica da cultura, a sua autonomia fica condenada à auto-referencialidade: a filosofia como crítica da filosofia, a arte como crítica da instituição arte, a literatura como crítica das formas literárias, etc” — escreve a filósofa, e, a propósito deste exemplo específico, podemos acrescentar algo como o viral como crítica do viral. Se por um lado se estabelece uma crítica sobre um modo de estar online, essa crítica é mais uma constatação (ou uma contemplação?) do que um questionamento — retomando Garcés, “um exercício de crítica que só consegue mover-se no espaço existente entre o que já foi e a impossibilidade de ser outra coisa”.

Constatar como as redes sociais se tornaram tóxicas, que têm efeitos nocivos na saúde mental e que quase todos passamos tempo demais agarrados aos telemóveis tornou-se quase um ritual nas próprias redes sociais, mas à medida que o tempo passa, esses momentos tornam-se cada vez mais coreográficos. Cada um purga os seus vícios ou exprime as suas virtudes, na partilha de mais um viral, sem que se conquiste nem um centímetro ao fantasma da impossibilidade. Apropriando Mark Fisher, “o cancelamento do futuro é acompanhada de uma diminuição das expectativas”, e estes momentos de constatação, mais do que criticar as raízes do problema, normalizam-no, como se não houvesse alternativa.

Se no seu texto Fisher utiliza a música como exemplo, as palavras que escreve encaixam na perfeição quando pensamos no panorama mediático e cultural: “Nos últimos dez a quinze anos, a Internet e a tecnologia das telecomunicações móveis alteraram a textura da experiência quotidiana de forma irreconhecível. No entanto, talvez por causa de tudo isto, há uma sensação crescente de que a cultura perdeu a capacidade de apreender e articular o presente. Ou pode ser que, num sentido muito importante, já não haja presente para apreender e articular”. Em vez de uma crítica com valor emancipatório, nas palavras de Garcés, “que nos devolva a capacidade de elaborar o sentido e o valor da experiência humana a partir da afirmação da sua liberdade e da sua dignidade”, o que é servido é uma espécie de meme, mascarado de reflexão com uma referência histórica ou intelectual, neste caso a alusão a Thoreau que terá usado a expressão pela primeira vez em 1854 no livro Walden.

Não é que fosse expectável que os conteúdos em torno da palavra do ano desencadeassem um momento revolucionário de reflexão global em torno do sentido das nossas vidas neste mundo digital. Mas a escolha desta palavra em específico, em mais um ano marcado por guerras e uma discussão em torno do genocídio, pela amplificação do entusiasmo desmedido da Inteligência Artificial ou a ausência de respostas perante alguns dos maiores problemas da humanidade, é sintomática. Mostra-nos que estamos a passar demasiado tempo online e a limitar com isso a nossa visão do mundo, mas também as diferentes escalas em que hoje nos movemos, e a forma como continuamos a olhar para a tecnologia: numa perspectiva despolitizada, como se fosse uma inevitabilidade que nos é imposta e não o resultado de um conjunto de processos dos quais, mais ou menos, todos fazemos parte. Individualista, retomando à dimensão do comportamento individual um fenómeno social com características sistémicas evidentes, desde a ausência de regulação adequada até à implicação das empresas que desenvolvem as grandes plataformas tecnológicas nas grandes questões do presente. E como uma espécie de caixote para os males do mundo, onde pela indefinição tudo acaba por caber, servindo como bode expiatório para a podridão dos cérebros, neste caso.

A escolha de uma palavra popularizada pelas gerações mais novas, e as próprias palavras do comunicado que apontam estas gerações como os principais responsáveis pelo uso e criação do conteúdo digital a que o termo se refere, fazem outro desvio importante. Dando a esta questão uma patine geracional, reforça-se o preconceito em torno do mau uso das redes sociais como sendo uma característica exclusiva dos mais jovens — quando basta passar 10 minutos no Facebook para percebermos que atravessa todas as gerações. Mas mais do que isso: a tendência para a infantilização e despolitização do debate em torno deste tipo de questões faz com que raramente se unam os pontos que traçam o mapa da economia do espaço digital de forma coerente. Por outras palavras, raramente se expõe que o nosso cérebro não apodrece por uma espécie de depressão colectiva, mas porque o modelo económico vigente em grande parte da internet que compõe o nosso quotidiano passa, em parte, por apodrecê-lo, tirando-nos a capacidade de decidir livremente com complexos esquemas de persuasão detalhadamente pensados; e não só, roubando o horizonte fora das redes sociais.

Em 2018, o artista James Bridle denunciava num ensaio e numa TedTalk como a proliferação de vídeos viciantes no YouTube não era um sinal do acaso, nem fruto de uma intenção de quem concebe os algoritmos de recomendação, mas antes uma intricada relação de interdependência entre infraestrutura tecnológica (que quer maximizar o tempo na plataforma) e incentivos económicos (é barato fazer conteúdos online e fácil monetizá-los). Desde então, o contraste acentuou-se ainda mais e, hoje, o que vemos como virais e fenómenos da internet (e que muitas vezes começam como tal) são alguns dos conteúdos melhor remunerados online. Desde os canais de YouTube como Mr. Beast, ou o famoso entre os mais novos Skibidi Toilet, ao gigante mercado da influência que já faz circular milhões. A internet tornou-se num gigante mercado de entretenimento, mas ao longo dos anos, por muito que constatamos que este facto alterou diferentes circunstâncias da vida social (proliferação de fake news, polarização do espaço público, perda de valor do jornalismo, e podíamos continuar) continuamos sem ter uma solução à medida. Talvez porque estejamos a ver mal o problema.

Num texto publicado no seu substack em 2021, Kevin Munger, professor de Ciência da Computação num departamento de Ciência Política partilhava, a propósito da deterioração do Facebook, um ponto de vista que parte de uma premissa provocadora para expandir a reflexão: o Facebook são os outros. O mesmo racional podemos aplicar à internet no geral, aos sucessivos formatos de qualidade duvidosa e à nossa querida palavra do ano: brain rot são os outros.

Nesse texto, Munger sugere que a nossa constatação sobre a fraca qualidade dos conteúdos é, de certa forma, uma confronto com pessoas, grupos e comunidades a que não acedemos nas nossas bolhas. Ao contrário dos meios de comunicação em massa, dos media estabelecidos, onde apenas alguns conseguem aceder, por capacidade ou conhecimentos, Munger sustenta que as redes sociais são uma forma de democracia passiva com efeitos algo perversos. Os algoritmos e as redes sociais têm um papel aparentemente inclusivo, integrando todos no espaço digital, mas ao mesmo tempo deixam os mais desprotegidos à mercê das lógicas predatórias, de estratégias altamente aditivas e da capacidade de persuasão dos algoritmos. O que faz com que, em última análise, a deterioração da internet seja um sintoma da nossa incapacidade de tomar conta uns dos outros — no sentido de os equipar com as ferramentas necessárias para uma utilização crítica e benéfica das tecnologias. “A democratização da comunicação online demonstrou a hipocrisia deste ponto de vista. Sempre houve um imperativo moral para sermos mais atenciosos e inclusivos; agora é uma necessidade política. Todos nós odiamos o Facebook, e o Facebook (a empresa) é, reconhecidamente, terrível. Mas, em grande medida, odiamos o Facebook porque o Facebook são outras pessoas” – escreve, apontando aos efeitos sistémicos e prevalentes desta marginalização digital.

Nietzsche não é um hamburguer
O brain rot está longe de ser circunscrito a uma experiência individual e essa é outra característica que a eleição da palavra do ano falha em abordar. Não são só os nossos cérebros que estão podres, mas muitos dos sistemas em que vários cérebros se interligam. E a diferença entre um conteúdo sem valor do TikTok, que consumimos enquanto estamos na casa de banho, e uma notícia num bloco informativo num canal mainstream sobre um viral, um hype tecnológico desmedido ou enquadrando de forma errada conteúdos que surgem online, continuam a ser centenas de milhares de visualizações. O mesmo sistema que apodrece os cérebros através de investimentos avultados em investigação de padrões de design de interfaces e algoritmos que fomentem a adição, e renega a responsabilidade sobre os efeitos causados em discursos bonitos e pseudo-ciência publicada em blogs, é retro-alimentado por uma sociedade que, como dizia Fisher, não tem revelado a capacidade de compreender e articular o presente. Que baixou as expectativas e se deixa fascinar por qualquer viral.

Noutro escrito famoso, Fisher diz que os estudantes hoje em dia querem ler Nietzsche como quem come um hamburguer, e que estes não se apercebem que a complexidade e a indigestibilidade de Nietzsche é, em parte, o que lhe confere o valor que tem. O mesmo racional se pode mais uma vez expandir e aplicar à nossa apreciação dos fenómenos contemporâneos e do foro tecnológico. Queremos explicá-los e nomeá-los com a mesma simplicidade que partilhamos um viral, sem percebermos que essa constante simplificação é parte do problema e não da solução. Não precisamos de mais um termo engraçado que descreva vagamente o que nos acontece quando nos perdemos no TikTok, precisamos de perceber o que nos falta e procuramos nesta espiral, e que forças estão em jogo nesta interação.

Um caso paradigmático desta décalage entre a mediatização dos fenómenos e a sua compreensão, e a forma como alimenta e reforça para um brain rot generalizado, é a Inteligência Artificial e todo o discurso mainstream que se tem gerado. Artigos a afirmar que a Inteligência Artificial pensa, a propaganda desmedida das qualidades da tecnologia em segmentos críticos onde escasseiam os testes ou a simples incompreensão da diferença entre os setups científicos e a aplicabilidade prática das soluções — que geram promessas como “a IA pode resolver a crise climática”, “a IA consegue ler mentes” ou “a IA agora pode prever crimes” — denunciam outro sintoma característico da tal condição póstuma: a delegação da inteligência (como lhe chama Garcés). E como a nossa relação com a tecnologia nos envolve nesta espiral de apodrecimento não só quando estamos no TikTok.

A tecnologia ou é o nosso fim, ou a solução
“Do que se trata é de delegar a própria inteligência, num gesto de pessimismo antropológico sem precedentes” afirma Marina Garcés, continuando mais à frente: “a credulidade do nosso tempo entrega-nos a um dogma de duas faces: ou o apocalipse ou o solucionismo. Ou a irreversibilidade da destruição, até da extinção, ou a inquestionabilidade de soluções técnicas que nunca está nas nossas mãos encontrar”. Ou a estupidez da nossa utilização das redes sociais, ou a magnificência das máquinas na demonstração de inteligência. “Humanos estúpidos, num mundo inteligente: é a utopia perfeita” — assim descreve a ideologia dominante que ecoa por todo o nosso edifício mediático.

Numa internet que se edificou sobre a promessa do acesso universal ao saber, “o problema do acesso não é, portanto, o da disponibilidade, mas o do caminho” como escreve Garcés. Não é que na internet não haja bom conteúdo, não se produza conhecimento de valor, ou que toda a internet seja necessariamente construída de forma a manter-nos viciados; é que toda a cultura mainstream, ecoando a ideologia de Silicon Valley, gerou mecanismos de neutralização da crítica, como a saturação da atenção, a segmentação de públicos, a uniformização das linguagens e a hegemonia do solucionismo, sugere a filósofa.

No espaço de opinião que ocupa na revista Sábado, José Pacheco Pereira escreve uma curta nota sobre a escolha da palavra do ano. Elogia a escolha, diz que “é por isto que em muitas coisas os ingleses são muito melhores do que nós”, e termina com um “a podridão já por cá anda”, em reflexão sobre as palavras do ano na lista portuguesa. Concedendo que a escolha é interessante pelo factor novidade, não deixa de me assaltar a questão: qual o valor percebido nesta escolha resultante de uma votação online? E o que se espera que daí venha, ou o que significa no esquema geral das coisas? A resposta é nenhum e nada.Já não temos qualquer expectativa da mudança, contentamo-nos com qualquer neologismo que nos ajude a expressar o espanto com que assistimos aos fenómenos que não compreendemos. Sem que nos habituemos à sua complexidade e contribuindo muitas vezes para o ruído que queríamos calar e que nos distrai da discussão da política e da economia da internet. De viral em viral, de promessa em promessa, o vírus infiltra todos os corpos e transforma-nos numa espécie de exército de zombies que normaliza e essencializa a tecnologia, como se fosse uma inevitabilidade do futuro, vinda de um mundo paralelo, e não fosse o resultado concreto de muitos anos da história do capitalismo, e da interação de sistemas sociais.

Se o conceito de fim da história sugerida por Fukuyama já foi por muitos refutada, incluindo pelo próprio, não seria descabido recuperá-la para ilustrar o discurso em torno da tecnologia e da internet. A maioria do discurso que se gera em torno da internet desliga-a do curso da história, quer no que toca ao seu passado e a forma como chegámos onde chegámos, quer no que toca o seu presente e as soluções que têm sido procuradas. A especificidade de algumas das componentes técnicas, e a complexidade das hipotéticas soluções políticas não nos mobilizaram em torno de debates necessários mas praticamente afastaram esses debates do nosso quotidiano. E enquanto passamos atestados à podridão dos cérebros de cada um, convivemos com um mercado global da venda de dados que servem de base para a criação de estratégias que nos mantém viciados nas redes, com uma crescente normalização da vigilância e propostas dos reguladores para aceder ao conteúdo de comunicações privadas, com um aparelho mediático viciado nas redes de conteúdo duvidoso, e com um sistema de incentivos económicos onde é mais apetecível fazer anúncios da Prozis do que bom jornalismo, para dar um exemplo.

Os cérebros podem estar a apodrecer mas não devemos continuar a vê-lo como o princípio de um fenómeno: a putridão só se apodera de corpos mortos ou indefesos.

sábado, 1 de outubro de 2022

Música do BioTerra: HOLYGRAM - Still There

Hoje celebra-se em todo o mundo o Dia Mundial da Música

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Letra
I saw you there 
We started walking in lines 
The sea was wild 
It left a taste in my mouth 
And I don’t know why 
We started falling apart 
So ease my mind 
With your dystopian hands 
And I’m still there 

And I don’t know why 
We started falling apart 
I saw you change 
In our dandelion grave 
And I’m still there 
I’m still there… 

I saw you there 
We started walking in lines 
The sea was wild 
It left a taste in my mouth 
And I’m still there 
Standing there 
You started walking away 

I saw you 
You started walking away 
The sea was wild

A letra de "Still There" é minimalista, poética e intencionalmente ambígua, mas carrega uma forte carga de isolamento urbano e desilusão amorosa. A música narra um distanciamento, no qual o eu lírico descreve um momento em que ele e outra pessoa "começaram a caminhar em linhas" - uma metáfora para uma rotina rígida e sem conexão real - até que, de repente, tudo começou a desmoronar sem que ele consiga compreender o motivo real.

Este cenário de ambientes distópicos e cinzentos é reforçado pelo uso de termos como "dystopian hands" (mãos distópicas) e "dandelion grave" (túmulo de dentes-de-leão), que traduzem perfeitamente a identidade do álbum Modern Cults, focado na exploração da vida nas grandes metrópoles, na solidão moderna e na forma como as relações humanas se tornaram frias, mecânicas e quase industriais.

Por fim, o refrão e o próprio título da canção entregam o verdadeiro peso psicológico da narrativa através da frase "And I'm still there" (E eu ainda estou lá). Enquanto a outra pessoa seguiu em frente e mudou, o narrador permanece estático, preso mentalmente ao exato momento e lugar em que o relacionamento acabou, transformando a faixa numa obra sobre a incapacidade de superar o passado e sobre como a memória se pode tornar uma espécie de assombração ou um "holograma" que se repete indefinidamente na mente.

Inspirações Filosóficas, Romancistas e Poéticas
No plano filosófico, a faixa ancora-se fortemente no conceito de Hauntology (Hantologie), teorizado por Jacques Derrida e mais tarde transposto para a cultura pop por Mark Fisher. Esta linha de pensamento aborda a persistência de fantasmas do passado que continuam a infetar e a moldar o presente, uma ideia que o Holygram traduz na dor de viver num loop temporal onde o ontem nunca morre. Esta suspensão do tempo remete também para o filósofo Henri Bergson e o seu conceito de "Duração" (Durée), que defende o tempo psicológico da mente — onde as memórias se sobrepõem à realidade cronológica do relógio — como a verdadeira experiência humana.

Na romancística, "Still There" bebe diretamente da literatura da memória involuntária de Marcel Proust em Em Busca do Tempo Perdido, onde pequenos fragmentos do quotidiano desencadeiam recordações avassaladoras, embora aqui despovoadas de doçura e transformadas numa prisão psicológica. A narrativa da canção aproxima-se ainda da literatura gótica de suspense de autores como Henry James, em A Volta do Parafuso, ou Daphne du Maurier, em Rebecca, obras onde os espaços físicos e as habitações estão permanentemente impregnados e assombrados pelo eco de traumas e de relações passadas, tornando o quarto do protagonista num espelho da sua própria ruína emocional.

Por fim, a fundação poética da canção assenta na melancolia e na decadência do Spleen de Charles Baudelaire e dos poetas simbolistas franceses do século XIX, que encontravam uma beleza trágica na agonia do isolamento. No entanto, é a obsessão de Edgar Allan Poe com a perda da mulher amada e a eterna vigília dos amantes face à morte — como nos poemas O Corvo ou Annabel Lee — que ressoa de forma mais pungente na lírica da canção, condenando o eu lírico a habitar a penumbra, crente de que aquela presença intangível continua, obstinadamente, ali.

domingo, 8 de agosto de 2021

Filme: Last Night in Soho - A Noite Passada em Soho (2021)


O filme Last Night in Soho (2021), realizado por Edgar Wright e coescrito por Krysty Wilson-Cairns, estrutura-se como um thriller psicológico profundamente interdisciplinar que entretece a estética do terror com reflexões sobre a memória, o trauma e a obsessão.

Sinopse
O thriller psicológico realizado por Edgar Wright, ironiza e lamenta a fascinação romantizada por uma década passada. O filme acompanha Eloise (Thomasin McKenzie), uma jovem aspirante a estilista obcecada pelos anos 60 que viaja no tempo e vive a vida de Sandie (Anya Taylor-Joy), uma cantora da época, apenas para descobrir que o glamour do passado esconde uma realidade sórdida de exploração e trauma.

O terror psicológico em Last Night in Soho nasce do desmantelamento da mente da protagonista, Ellie, à medida que a sua obsessão pelo passado deixa de ser um refúgio e se transforma num pesadelo invasivo. Ao contrário do terror tradicional baseado apenas em monstros ou violência física, o filme de Edgar Wright constrói o medo através do confronto constante da personagem com a sua própria perceção, a herança do trauma e a perda de controlo sobre a realidade.

Em primeiro lugar, o terror manifesta-se na dissolução das fronteiras entre a ilusão e o mundo real. Inicialmente, as viagens de Ellie até aos anos 1960 acontecem apenas nos seus sonhos, mas a linha que separa a vigília do sono esbate-se rapidamente. As visões de Sandie e dos homens sem rosto começam a invadir a sua vida quotidiana em pleno dia - em reflexos de espelhos, nas aulas da faculdade ou no local de trabalho. A incapacidade de confiar nos próprios sentidos gera uma paranoia sufocante, intensificada pelo trauma intergeracional e pela herança de doença mental. Sabendo que a sua mãe sofria de esquizofrenia e cometeu suicídio após ter visões, Ellie vive num estado permanente de dúvida interior, questionando se está verdadeiramente a testemunhar eventos sobrenaturais ou se está a sucumbir à mesma espiral de loucura que destruiu a sua família.

Além disso, a empatia obsessiva de Ellie por Sandie transforma-se numa experiência traumática na primeira pessoa. Ellie não é uma mera espectadora do passado; ela absorve e sente o medo, a manipulação e a exploração que Sandie sofreu no meio noturno de Soho. O terror surge quando se percebe presa à tragédia de outra mulher, revivendo abusos sem qualquer poder para intervir ou salvar a vítima.

Por fim, o filme utiliza a desconstrução da nostalgia como a sua maior armadilha psicológica. A idealização romântica dos Swinging Sixties revela-se um ambiente claustrofóbico e de pesadelo. O horror psicológico atinge o seu auge quando a estética vibrante, a música estimulante e as luzes de néon passam a representar a fachada de uma rede sórdida de exploração e violência, transformando o sonho dourado de Ellie numa prisão assombrada pelos fantasmas do passado.

A Hauntologia de Soho - uma leitura médica, social e filosófica do filme

No âmbito filosófico, a obra opera uma desconstrução crítica da nostalgia ao alinhar-se com os conceitos de hauntologia - a assombração do presente pelas ilusões do passado - e com as teorias de Svetlana Boym sobre a nostalgia restaurativa versus reflexiva, desmistificando o mito idílico da "Swinging London" para expor a misoginia e a exploração subjacentes. Em consonância com a teoria crítica feminista, a narrativa aborda a reificação do corpo feminino pela indústria do entretenimento e desafia perspetivas morais maniqueístas, questionando a fronteira entre a condição de vítima e a de algoz no desfecho da história.

No domínio da saúde mental, a fita mobiliza quadros da neuropsiquiatria como motores da tensão e do isolamento. A sensibilidade empática e a sinestesia da protagonista Eloise articulam-se com a herança psiquiátrica de uma mãe vitimada pela psicose, gerando um constante estado de paranoia em torno da dúvida entre o discernimento da realidade e o início de um surto. Paralelamente, a trajetória da personagem Sandie reflete o impacto do trauma complexo (C-PTSD) e da violência sistémica, demonstrando a dissociação como mecanismo de defesa da identidade, enquanto a fixação pela década de 1960 surge como uma resposta de esquiva cognitiva e negação da adaptação ao presente.

A dimensão musical do filme funciona como a ponte sensorial entre a filosofia da memória e a saúde mental da protagonista. A banda sonora dos anos 60 não serve apenas de adorno de época, mas atua como um gatilho auditivo que desencadeia os episódios de imersão e dissociação. A música molda o ritmo das alucinações, transformando canções pop aparentemente ingénuas em ecos assustadores de uma época marcada pelo trauma, onde o ritmo auditivo dita a espiral de degradação psicológica de Eloise.

Sobre o Filme

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Byung-Chul Han: Psychopolitics and The Burnout Society


O advento do neoliberalismo tem sido o marco central para uma teoria cultural do século XXI. De Mark Fisher a Byung-Chul Han, a mensagem permanece a mesma: somos novas pessoas com novos ambientes socioeconómicos e políticos. E para isso é necessária uma nova análise.