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sábado, 17 de outubro de 2026

Qual é a percentagem de habitação social nos vários países da União Europeia?

A Suíça e a Alemanha registam taxas de arrendamento elevadas, com mais de metade da população a alugar casa. Em contrapartida, os países dos Balcãs apresentam taxas de aquisição de habitação própria mais elevadas, embora muitas casas estejam sobrelotadas.

A crise da habitação é uma preocupação crescente em toda a Europa, marcada pela escassez e pelo aumento das rendas. Cerca de 70% dos residentes na UE são proprietários das suas casas, enquanto os restantes 30% são arrendatários. Cerca de 17% da população da UE vive em condições de sobrelotação.

Na Europa, o panorama da habitação é variado, com uma divisão significativa entre proprietários e arrendatários. Em oito dos 36 países europeus, mais de 90% da população vivia em casa própria em 2022, de acordo com o Eurostat.

Mais de metade da população arrenda na Alemanha e na Suíça
Na Alemanha, a proporção de arrendatários ultrapassou os 50% em 2022, o que a torna única entre os países da UE. A Suíça, tendo em conta a Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA, o Reino Unido e os países candidatos), apresenta a percentagem mais elevada de arrendatários, com 57,7%.
Taxa de proprietários mais elevada nos países dos Balcãs
A Macedónia do Norte, a Albânia e a Roménia apresentam taxas de habitação própria superiores a 95%. Com exceção da Turquia, a taxa de propriedade de habitação era mais elevada nos países dos Balcãs, uma tendência que se estende à Hungria, Sérvia, Croácia e Montenegro.

Em contrapartida, países como a Áustria, a Turquia, a Dinamarca, a França, a Suécia e o Reino Unido situam-se abaixo da taxa média de habitação própria da UE, que é de 69,1%.

Entre os "quatro grandes" da UE, a Espanha e a Itália registam as taxas mais elevadas, com três em cada quatro residentes a viver em casa própria.
Políticas públicas e habitação social de arrendamento
Os países europeus adoptaram várias medidas políticas para garantir habitação a preços acessíveis, nomeadamente subsídios de habitação, habitação social de arrendamento e regulamentação das rendas.

Em média, a habitação social representa 8% do parque habitacional total da UE, de acordo com o relatório da OCDE sobre habitação a preços acessíveis. Trata-se de alojamentos residenciais para arrendamento a preços inferiores aos do mercado e atribuídos de acordo com regras específicas e não com mecanismos de mercado.

Os Países Baixos, a Áustria e a Dinamarca têm as maiores percentagens de habitação social, constituindo mais de 20% do seu parque habitacional total.
O Reino Unido, a França, a Irlanda, a Islândia e a Finlândia têm sectores moderados de habitação social, variando entre 10% e 19%.
O sector é relativamente pequeno na Suíça (8%) e na Alemanha (2,7%), onde mais de metade da população é arrendatária.
Tem divisões suficientes na sua casa?
A qualidade da habitação é fundamental. A OCDE sublinha que as casas sobrelotadas e com pouco espaço afetam negativamente a saúde, especialmente das crianças. O número médio de divisões por pessoa e as taxas de sobrelotação são indicadores-chave da qualidade da habitação.

Em 2022, o número médio de divisões por pessoa na UE era de 1,6, variando entre 2,3 divisões em Malta e 1,1 divisões na Polónia, Roménia e Eslováquia.

O número médio de quartos por pessoa era inferior nos países candidatos dos Balcãs, o que se correlaciona com taxas mais elevadas de sobrelotação. Apesar das elevadas taxas de propriedade nos países dos Balcãs, a sobrelotação continua a ser um problema nestas regiões.

Pelo menos metade da população do Montenegro, da Albânia e da Sérvia vivia em casas sobrelotadas. Na UE, a taxa de sobrelotação era de 16,8%.

Entre os países da UE, as taxas mais elevadas de sobrelotação foram observadas na Letónia (41,7%), na Roménia (40,5%) e na Bulgária (36,2%), enquanto as mais baixas foram observadas em Chipre (2,2%), Malta (2,8%) e Países Baixos (2,9%).

Apelo à habitação a preços acessíveis
Em janeiro de 2024, um coletivo de 100 fornecedores de habitação pública, cooperativa e social, juntamente com decisores políticos e investigadores, reuniu-se no Parlamento Europeu. Liderado pela Housing Europe, o grupo divulgou um manifesto que delineia três passos para garantir uma habitação acessível e digna para todos na UE:

  • Adotar um novo paradigma de habitação
  • Apoiar o movimento para uma transição energética justa
  • Abordar as causas profundas para acabar com a exclusão habitacional
Em particular, o manifesto apelou ao apoio à habitação pública, cooperativa, social e de iniciativa comunitária como espinha dorsal dos sistemas nacionais de habitação.

sábado, 19 de setembro de 2026

A praga dos amontoados de pedras na Torre: tradição das mariolas ou destruição do Parque Natural?


Recentemente o Pedro Sarda viajou com os seus filhos até à “Torre”, o ponto mais alto de Portugal Continental. Já não ia à Torre há bastante tempo. Partilho a sua indignação.
"No essencial não tinha mudado assim tanto desde a minha última visita ao mesmo local. 
No entanto desta vez fui confrontado com um espectáculo verdadeiramente decadente. Ao que parece virou moda amontoar pedrinhas em montes simulando as chamadas “mariolas”. 
As mariolas originais têm um contexto, uma história e sobretudo uma finalidade. 
As chamadas mariolas eram (talvez cada vez menos) “marcas” deixadas na paisagem, habitualmente por pastores, com a finalidade de marcar o caminho. 
Esses pequenos amontoados de pedras eram colocados em locais estratégicos para que quem fosse a caminhar pudesse ter noção da direcção certa a seguir, em particular em períodos de fraca visibilidade. 
A “modinha” de começar a amontoar pedras só porque alguém se lembrou que é giro, ou só porque “sim”, não só não tem qualquer finalidade como tem até diversos impactos negativos. 
Desde logo, o mais evidente, para quem tiver o mínimo de sensibilidade, é o paisagístico. O cenário era em pouco ou nada diferente de uma autêntico cemitério. Aqueles amontoados de calhaus pareciam verdadeiramente sepulturas. O que, pode-se afirmar, até faz um pouco sentido já que ali parecia “jazer” o que outrora era uma paisagem relativamente natural. 
Por isso a meu ver a designação mais adequada não é de “mariolas” mas neste caso de “merdiolas”. Suponho que se nota o tom demasiado “irritado” nas minhas palavras o que se deve justamente a estar... profundamente irritado. 
Nas proximidades da entrada para uma das galerias de lojas com Produtos Regionais encontrei um autocolante bastante discreto onde se apelava ao bom senso dos visitantes (apelar ao bom senso em Portugal?) justamente no sentido de não adoptarem essa prática. As razões (impactos negativos da remoção das pedras do solo) transcritas no “aviso” eram: 
- Deixa o solo exposto a ventos fortes, evaporação e erosão 
- Desprotege a vegetação do vento e do solo  
- Modifica o habitate da fauna endémica 
- Altera o equilíbrio ecológico de habitats e paisagens protegidas (convém não esquecer que estamos neste caso a falar de um Parque Natural)
- Deixa uma profunda marca humana na paisagem natural 
- O equilíbrio precário dos amontoados torna-os perigosos para animais ou crianças que deles se aproximem. 
- As “mariolas” (pequenos amontoados de pedras) têm, em ambiente de montanha, a função tradicional de marcar a direcção correcta em caminhos pedestres. Reproduzi-las aleatoriamente inutiliza a função essencial das originais. 
Como mencionei o autocolante era efectivamente bastante discreto. Ainda assim, creio que mesmo com um autocolante mais visível ou até um cartaz o resultado não seria assim tão substancialmente diferente. Face à dimensão da estupidez e parolice “humanas” suponho que só medidas mais radicais têm a capacidade de surtir algum efeito. 
Um amigo do Sabugal (relativamente próximo da Torre), quando partilhava com ele a minha indignação perante aquele cenário decepcionante, contou-me que algumas escolas de Seia, creio, desenvolveram uma acção de sensibilização com os alunos na qual procederam á remoção de vários desses amontoados tentando repor a paisagem natural e sensibilizando obviamente para o problema. 
Não sei exactamente quando é que decorreu a acção mas entretanto muitas hordas de turistas terão passado pela torre fazendo questão de deixar a sua “assinatura” pindérica. 
Também os meus filhos, quando chocados com o panorama, derrubaram alguns dos pequenos mamarrachos mas ainda foram criticados por uns parolos, por sinal franceses, que devem ter um apurado sentido de gosto artístico assim como um ainda maior conhecimento das coisas do mundo natural. Provavelmente terão também lá deixado a sua Torre Eifel feita de calhaus. (Parece que a estupidez é mesmo das coisas mais universais que existem). 
De qualquer forma, mais do que esta triste situação em particular, acredito que a situação está bastante para além desta situação em específico e que se prende com questões porventura mais profundas e diria até... filosóficas. 
O Toque de Tânatos porque parece que onde quer que o ser humano chegue, faz questão de onde toca... o transformar em Merda. Por outras palavras, faz questão de estragar. Uma realidade ou “fenómeno” que tende a ser tanto mais provável quanto mais animais da espécie humana chegarem a determinado local. Como se não bastasse...parece que tudo o que basta para começar uma qualquer moda estúpida, com impacto para os habitats locais, é... simplesmente alguém começar. Depois com a banalização das redes sociais e afins é uma questão de tempo (muito pouco tempo) até se espalhar como um vírus. 
É importante falar das redes sociais pois, ao que parece, os “artistas” (pimba) fazem questão de “postar” com todo o orgulho as suas “obras de arte”. 
Este é um daqueles momentos em que o meu desencantamento com a espécie humana é de tal ordem que invejo Thoreau que decidiu isolar-se numa cabana no bosque. (o livro é Walden ou a Vida nos Bosques de Henry David Thoreau).
Creio que, no que a esta questão diz respeito (assim bem como a muitas outras), não se pode esperar que subitamente as criaturas que seguem a “modinha” dos montes de calhaus adquiram consciência e deixem de o fazer. 
Pelo que percebi, a Torre é um território muito particular administrado de forma conjunta por vários municípios da região (vem-me, assim à cabeça, Seia, Manteigas...). Parece-me fundamental a colocação no local de placas de considerável dimensão a dissuadir da prática em questão. Como provavelmente não será o suficiente, creio que faria todo o sentido a afectação de um pequeno corpo de “Guardas” responsáveis por zelar pelo espaço, nomeadamente proibindo determinantemente a prática. No caso de simples presença dos Guardas não ser suficiente, creio que é um daqueles casos em que passar multa se justifica plenamente e é na verdade necessário. Por vezes é esse o único local onde doí verdadeiramente aos portugueses: no bolso!!!"


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O ecossocialismo do decrescimento na era da Inteligência Artificial: entre o colapso e a esperança emancipatória


Ontem examinámos as causas e os efeitos da rutura ecológica: do fim da estabilidade do Holoceno à supremacia da massa produzida sobre a biomassa viva. Hoje, a aceleração exponencial da IA eleva os riscos e a complexidade a um patamar sem precedentes. Este ensaio examina as propostas da economia ecológica para navegar esta rutura e materializar a transição rumo ao Ecoceno.

Introdução: o impasse do século XXI e o novo vetor digital
Vivemos sob a sombra de uma contradição histórica. À medida que os relatórios científicos confirmam a ultrapassagem dos limites planetários - do aquecimento global à perda acelerada de biodiversidade -, as respostas das elites políticas e económicas continuam ancoradas na promessa do "Crescimento Verde". A narrativa dominante propõe que a mesma lógica de acumulação, concorrência e extração que nos trouxe à crise ecológica será a força capaz de nos salvar, bastando para isso substituir o combustível fóssil pelo eletrão limpo.

Contudo, esta miragem tornou-se ainda mais complexa e perigosa com a emergência da Inteligência Artificial (IA) generativa e da supercomputação. Longe de ser um instrumento neutro de desmaterialização, a IA revelou-se um acelerador extrativista: uma infraestrutura intensiva que exige quantidades astronómicas de energia, água potável para refrigeração de data centers e minerais críticos extraídos do Sul Global.

É perante esta dupla crise - ecológica e sociotécnica - que emerge uma síntese política rigorosa: o Ecossocialismo do Decrescimento. Não se trata de uma coleção de desejos utópicos ou de um apelo ao neoludismo, mas de um diagnóstico sobre os limites materiais do planeta e uma proposta de reconfiguração da civilização humana. Emerge, assim, a questão fundamental: estará nesta síntese a nossa verdadeira esperança?

I. A anatomia da ilusão: o falhanço do crescimento verde e o impacto da IA
Para compreender a urgência desta abordagem, é necessário desmontar o mito do "desacoplamento" (decoupling) entre o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e o impacto ambiental. A evidência empírica demonstra que o desacoplamento absoluto, global e rápido o suficiente para evitar o colapso climático é inviável no âmbito do capitalismo.
O capitalismo exige uma expansão contínua para evitar a sua própria crise de acumulação. Quando uma tecnologia melhora a eficiência no uso de um recurso, o mercado expande a produção total - o histórico Efeito Jevons.

A aceleração da Inteligência Artificial agrava esta dinâmica de três formas centrais:
  1. Aumento metabólico: a expansão da IA está a catapultar a procura por eletricidade em várias regiões, adiando o fecho de centrais a carvão e a gás para alimentar data centers.
  2. Neocolonialismo extrativista: a corrida aos chips e servidores intensifica o extrativismo de lítio, cobalto e terras raras, concentrando a degradação ambiental no Sul Global para servir o consumo digital do Norte
  3. Aceleração da extração fóssil: as maiores empresas de tecnologia (Big Tech) comercializam algoritmos de IA concebidos especificamente para otimizar e acelerar a exploração de novas jazidas petrolíferas.
I. A síntese necessária: decrescimento, ecossocialismo e o planeamento Ex-Ante
O decrescimento reintroduz os limites da biologia e da física na economia. Contudo, como adverte o sociólogo e economista marxista John Bellamy Foster (no ensaio publicado no portal A Terra é Redonda), é imperativo reconhecer o "teorema da impossibilidade": não existe decrescimento dentro do capitalismo. O decrescimento não deve ser visto como uma simples inversão contabilística do PIB, mas sim como um processo de desacumulação de capital focado nas economias hiperdesenvolvidas.

Por outro lado, o ecossocialismo fornece a chave de leitura de classe e o mecanismo prático de transição:
  1. O planeamento democrático Ex-Ante: diferente do mercado capitalista, que atua ex-post (corrigindo danos apenas após a busca desenfreada do lucro), o planeamento ecossocialista atua ex-ante. Isto permite subordinar a produção - e o próprio uso da supercomputação e da IA - à "hierarquia das necessidades humanas reais", desmantelando indústrias destrutivas e expandindo a infraestrutura pública.
  2. A descomodificação da vida: transformação da habitação, transporte, saúde, nutrição e energia em bens comuns (commons), retirando-os da especulação financeira.
  3. Sobriedade digital e soberania tecnológica: submeter o desenvolvimento sociotécnico ao controlo coletivo. A capacidade computacional deve ser direcionada para a modelação climática, otimização de redes elétricas renováveis e medicina pública, e não para a criação de bolhas financeiras, vigilância ou publicidade direcionada.
  4. Redução da jornada de trabalho: diminuir a semana de trabalho para redistribuir o emprego e libertar tempo humano, substituindo o consumo hiperativo pela riqueza das relações sociais e da cultura.
O debate interno: desenvolvimento sustentável vs. comunismo do decrescimento
Nesta construção teórica, vale destacar o debate vivo no seio da ecologia política. Se por um lado Kohei Saito argumenta que a obra tardia de Marx já continha a semente de um "comunista do decrescimento", autores como John Bellamy Foster ressalvam que desenhar essa continuidade direta pode incorrer num anacronismo histórico. Marx defendia o desenvolvimento humano sustentável e a superação da ruptura metabólica num mundo industrial ainda incipiente. O ecossocialismo do decrescimento surge, assim, não como um dogma estático do século XIX, mas como a aplicação viva e renovada do materialismo histórico às condições da "economia de mundo cheio" do século XXI.

III. Estará aqui a esperança?
A palavra "esperança" corre o risco de ser esvaziada se for confundida com um otimismo ingénuo. O filósofo Ernst Bloch propôs o conceito de esperança concreta: a identificação das tendências reais no presente que contêm a semente de um futuro transformado.

Neste sentido, o ecossocialismo do decrescimento representa a esperança mais realista de que dispomos.

A verdadeira postura irrealista é continuar a acreditar que a expansão económica infinita - agora acelerada pela IA - pode coexistir com a estabilidade de um planeta finito. Esta síntese oferece uma bússola política que recusa simultaneamente o colapso ecológico e a barbárie social.

A esperança desta proposta não reside na expetativa de que as elites adotem este modelo voluntariamente, mas na sua capacidade de articular lutas históricas dispersas:
  1. Une os trabalhadores do setor tecnológico e da economia em geral - esgotados pelo ritmo de trabalho e ameaçados pela automação - à exigência de semanas de trabalho mais curtas e soberania sobre o seu tempo.
  2. Une as comunidades do Sul Global resistentes ao extrativismo à exigência de reparações históricas e climáticas.
  3. Une os movimentos urbanos que lutam pelo direito à habitação e aos serviços públicos contra a especulação do capital corporativo.
Conclusão: a coragem de imaginar o futuro
O ecossocialismo do decrescimento convida-nos a ultrapassar o "realismo capitalista" - a ideia de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

Estará aqui a esperança? Sim, mas uma esperança exigente e combativa. Não se trata de uma garantia de vitória, mas de um projeto de emancipação. O ecossocialismo do decrescimento não promete um paraíso de consumo ilimitado nem um ciberespaço infinito, mas propõe algo mais sustentável: uma sociedade assente na abundância de tempo, na justiça social, na soberania tecnológica e na harmonia metabólica com a Terra.

Referências Bibliográficas 
  1. Altvater, E. (2010). O Capitalismo Fóssil e a sua Alternativa Ecossocialista. Em A Crise Socioambiental: Perspectivas Ecossocialistas. Expressão Popular.
  2. Crawford, K. (2023). Atlas da Inteligência Artificial: Poder, Política e os Custos Planetários da IA. Editora Unesp.
  3. Foster, J. B. (2025, 30 de janeiro). Ecossocialismo e decrescimento. A Terra é Redonda.
  4. Hickel, J. (2021). Menos é Mais: Como o Decrescimento Salvará o Mundo. Editorial Presença / Editora Autêntica.
  5. Jackson, T. (2013). Prosperidade Sem Crescimento: Economia para um Planeta Finito. Editora Planeta do Brasil / Edições 70.
  6. Kallis, G. (2020). Decrescimento. Editora Autonomia Literária.
  7. Löwy, M. (2014). O que é o Ecossocialismo? (2.ª ed.). Editora Cortez / Editora Boitempo.
  8. Parrique, T. (2022). A Economia do Decrescimento. Tese e síntese executiva.
  9. Raworth, K. (2019). Economia Donut: Sete formas de pensar como um economista do século XXI. Editora Zahar / Sextante.
  10. Saito, K. (2023). O Capital no Antropoceno (Brasil) / Desacelerar: Manifesto pelo Decrescimento Ecossocialista (Portugal). Editora Boitempo / Editorial Presença.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Existe um colonialismo digital por parte das big techs? Peter Schmidt analisa


Peter Schmidt, escritor, pesquisador e ativista norte-americano, é uma das principais vozes internacionais no debate sobre os impactos das plataformas digitais na sociedade contemporânea.

Cofundador do coletivo internacional Amigos da Atenção e diretor da Strother School of Radical Attention, em Brooklyn, Nova York (EUA), Schmidt defende o chamado "ativismo da atenção" como forma de enfrentar o poder das big techs e preservar a autonomia humana diante da economia da atenção.

Em entrevista ao Roda Viva desta segunda-feira (29), Schmidt analisa como as plataformas digitais influenciam o comportamento humano, o debate público e a democracia, além de apresentar sua proposta de resgatar espaços de convivência livres de telas.

Autor do conceito de "human fracking", expressão que compara a exploração da subjetividade humana à extração agressiva de petróleo.

Como as big techs transformam atenção em lucro
Ao ser questionado sobre o significado do termo "human fracking", Schmidt explicou que a expressão é uma metáfora para descrever a forma como as big techs transformam a atenção dos usuários em lucro.

Segundo o pesquisador, as plataformas digitais inundam as pessoas com estímulos constantes, fragmentando a capacidade de concentração em períodos cada vez menores, o que aumenta o tempo de permanência nas telas e, consequentemente, o valor desse tempo para o mercado publicitário.

Então, esse tempo na tela pode ser vendido a uma empresa de publicidade. Assim, é um processo extrativo-violento, porque o fracking tradicional é muito danoso para o ambiente, é associado à desestabilização da terra e à intoxicação da água, e o fracking humano, essa extração de nossos seres, dos nossos cérebros, de nossa atenção, também é muito danoso.

Peter afirmou que, assim como o fraturamento hidráulico (fracking) causa impactos ambientais ao desestabilizar o solo e contaminar a água, o "human fracking" desestabiliza a percepção da realidade e "intoxica" a mente com desinformação e conteúdos que estimulam a raiva.

Para ele, a metáfora ajuda a compreender o caráter extrativo do modelo de negócios das big techs, baseado na exploração da atenção humana.

Inspiração para o novo livro
Questionado pelo apresentador Ernesto Paglia sobre o título de seu novo livro, "Attensity! A Manifesto of the Attention Liberation Movement", Peter Schmidt explicou a origem do termo "Attensity", um neologismo resgatado da Psicologia do início do século XX.

Segundo o pesquisador, a palavra foi criada pelo psicólogo britânico Edward Titchener para descrever o ato de "prestar atenção à própria atenção", por meio da auto-observação.

Schmidt afirmou que ele e outros artistas, escritores e educadores decidiram recuperar o conceito por considerá-lo especialmente atual.

Estamos num momento em que a gente precisa prestar atenção à nossa atenção. Nossa atenção tem sido explorada por uma indústria muito poderosa, com uma sofisticação tecnológica sem precedentes na história humana afirmou, Shmidt

A obra, escrita de forma colaborativa, propõe um manifesto pelo que Schmidt chama de "movimento de libertação da atenção" e alerta para os impactos da indústria digital na cognição humana e no funcionamento da democracia.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

The Theory of the Vulgar Class


On Sunday Donald Trump celebrated his 80th birthday with a cage match on the White House lawn. The match and the events that surrounded it — especially the press conference with UFC fighters, shown above, held on the steps of the Lincoln Memorial — were a desecration of America’s capital, whose monuments and buildings have always endeavored to represent small-r republican virtues. The whole affair was an affront to the values on which this nation was founded and also unspeakably vulgar.

That last criticism may strike some readers as elitist and trivial. Yet the vulgarity that is the hallmark of Trump and his surrounding circle of oligarchs is a symptom of something not at all trivial: The collapse of social norms. As I argued yesterday, these norms historically played a key role in mitigating abuses of power and privilege during the Gilded Age, the last time America suffered from extreme income and wealth inequality (though not nearly as extreme as what we have now).

Norms matter. In his classic book The Theory of the Leisure Class — published in 1899, at the apogee of the Gilded Age — Thorstein Veblen famously argued that much of the behavior of his era’s elite was driven not by the desire to enjoy life but by the desire to impress others. Partly they did this through conspicuous consumption. Thus they built lavish mansions staffed by legions of servants.

However, members of the Gilded Age elite didn’t solely aim to display their wealth. They also tried to appear respectable. There were surely many private affairs and betrayals we will never know about. But the important point is that the super-wealthy of that era presented to the American public an image of being responsible members of society:

John D. Rockefeller and family

The contrast with the public behavior of Trump’s band of uber-wealthy is startling:


In addition to modeling upstanding behavior, the extremely rich of the Gilded Age were expected to have, or pretend to have, some virtues that were part of the aristocratic ideal, including a sense of noblesse oblige displayed by good works. Veblen was quite cynical about philanthropy, yet even he didn’t dismiss it completely, stating that:
The fact itself that distinction or a decent good fame is sought by this method [such as the endowment of a university, public library or museum] is evidence of a prevalent sense of the legitimacy, and of the presumptive effectual presence, of a non-emulative, non-invidious interest, as a consistent factor in the habits of thought of modern communities.
(Veblen’s lasting intellectual influence did not come from his sparkling prose style.)

Today’s oligarchs, by contrast, have largely given up on the old norms of social and individual responsibility. They give very little money to good causes and their vulgar taste reflects their in-your-face attitude towards the public. In our current hyper-Gilded Age, extreme vulgarity and the decline of philanthropy are really different aspects of the same phenomenon: the rise of an elite so disconnected from ordinary Americans that it feels no need to even appear to be honorable.

So in a real sense we are living in the midst of a reenactment of the decline and fall of the Roman Republic, not a second American Gilded Age. No, I’m not one of those men who thinks about ancient Rome all the time. But there are some obvious parallels.

While the causes of the decline of republican government and Rome’s eventual transition to one-man rule were doubtless complex, there is broad consensus among historians that a key factor was the emergence of extreme inequality. A handful of men became incredibly wealthy from the spoils of Rome’s eastern conquests, and their wealth and power eventually became too great for the rules of constitutional, republican government to contain. Sound uncomfortably familiar?

The death throes of the Republic went on for many years. Politicians declared their rivals enemies of the state, deployed violent gangs to disrupt the rule of law, established temporary dictatorships, and more. The installation of Augustus as emperor in 27 BC was just the final act.

And during this long twilight of constitutional government, one of the ways the extremely wealthy and powerful sought both to demonstrate their wealth and to curry favor with the mob was by sponsoring gladiatorial games.

The vulgarity of the Trumpian elite isn’t in itself that important. But it’s a symptom of a collapse in values and norms that, unless confronted and reversed, may herald the end of the American experiment. We should heed the words of the Stoic philosopher Seneca about the rise and fall of the Roman Republic: “Increases are of sluggish growth, but the way to ruin is rapid.”

terça-feira, 2 de junho de 2026

Ouçam o discurso de Noah Eckstein: O fim da escuta - porque já não sabemos debater? Um manifesto anti-polarização


Noah Eckstein inicia o seu discurso de forma descontraída, recorrendo à estrutura de uma piada tradicional: um cristão, um muçulmano e um judeu entram num bar. Contudo, contextualiza que, na sua própria família, essa união resultou no casamento dos seus avós e, gerações mais tarde, no seu próprio nascimento como um judeu orgulhoso que também celebra as heranças cristã e muçulmana da sua família.

O ponto central da mensagem de Eckstein baseia-se na lição que aprendeu com os seus avós (um muçulmano paquistanês que cresceu durante a guerra de 1947 e um refugiado judeu do Holocausto): o oposto da divisão não é o acordo, mas sim a compreensão. Ele destaca que o mundo atual nos empurra constantemente para binários e visões polarizadas (esquerda vs. direita, progressista vs. conservador, nós vs. eles), exigindo sempre que escolhamos um lado.

Os seus avós discordavam em inúmeros temas morais e ideológicos, mas mantinham o hábito de se sentar à mesa a debater e a demonstrar preocupação mútua. Eckstein lamenta que a sociedade atual tenha perdido essa capacidade; os debates tornaram-se mais barulhentos, as pessoas discutem apenas para vencer ou humilhar o adversário, e o indivíduo do outro lado deixou de ser visto como uma pessoa para passar a ser visto como um obstáculo.

O orador salienta que tentar compreender quem pensa de forma diferente não significa desculpar atos monstruosos ou abdicar dos próprios ideais. Pelo contrário, compreender o percurso e as motivações do outro é uma ferramenta crucial, aplicável tanto aos grandes conflitos geopolíticos como às pequenas interações do dia a dia — seja com um familiar no jantar de Ação de Graças ou com um colega de turma na faculdade.

Ao concluir, Eckstein deixa um desafio aos recém-graduados de Harvard: quando encontrarem alguém com quem discordam, devem defender as suas convicções, mas também devem colocar-se no lugar do outro e escutar como se pudessem estar errados. Lembra que os seus avós morreram fiéis às suas próprias crenças e tradições, sem nunca cederem nos seus ideais, mas mantiveram sempre o respeito mútuo. Num mundo profundamente fraturado, a verdadeira mudança e a cura das divisões só serão possíveis através de um esforço genuíno para compreender a humanidade do próximo.

Uma pequena bio aqui

Fez-me relembrar uma citação famosa "O oposto da guerra não é a paz... É a criação!" que consta numa obra de teatro musical, "Rent" (1996) composta por Jonathan Larson.

Em 2005 estreou a adaptação para o cinema de Rent, sob a direção de Chris Columbus.

sábado, 16 de maio de 2026

Vamos rebentar o Pacote Laboral do Luís?


Luís Montenegro chama-lhe reforma laboral, modernização do mercado de trabalho, adaptação aos novos tempos e reforço da competitividade das empresas. As palavras mudam conforme o governo, mas a lógica mantém-se sempre igual: retirar direitos a quem trabalha para aumentar a margem de manobra de quem manda. E é importante perceber isto com clareza, porque muitos destes pacotes laborais são apresentados de forma técnica, confusa e quase burocrática, precisamente para que a maioria das pessoas não compreenda imediatamente o impacto real que terão na sua vida quotidiana.

O problema começa logo na própria ideia de “flexibilidade”. Quando um governo fala em flexibilizar horários, facilitar mecanismos de gestão ou adaptar relações laborais às necessidades das empresas, quase nunca está a falar de melhorar a vida do trabalhador. Está a falar de dar ao patrão mais poder para alterar horários, reorganizar turnos, exigir disponibilidade constante e gerir os trabalhadores como peças ajustáveis de uma máquina.

Na prática, isto significa uma vida mais instável. Significa pessoas que deixam de conseguir organizar a semana, marcar consultas, acompanhar os filhos, planear fins de semana ou simplesmente descansar sem ansiedade. Hoje já existem milhares de trabalhadores que vivem permanentemente agarrados ao telemóvel à espera de alterações de turno, chamadas de última hora ou pedidos “urgentes” da empresa. O que este pacote faz é normalizar essa realidade e transformá-la num modelo de funcionamento quase permanente.

E há aqui uma dimensão humana que raramente aparece nos debates televisivos. Um trabalhador não é apenas força de produção. Não é um recurso humano, como gostam agora de dizer. É uma pessoa com corpo, desgaste físico, vida familiar, problemas pessoais, necessidade de descanso e limites emocionais. Quando o trabalho invade tudo, quando a pessoa deixa de conseguir separar vida profissional de vida pessoal, começa um processo lento de destruição psicológica que depois aparece disfarçado em palavras modernas como "burnout", ansiedade crónica ou fadiga emocional. Antigamente chamava-se simplesmente: esgotamento.

Outro aspecto profundamente perigoso deste pacote é a facilitação da precariedade. Contratos mais frágeis, períodos experimentais mais longos, despedimentos indirectamente simplificados e mecanismos que tornam mais fácil substituir trabalhadores permanentes por vínculos temporários criam uma sociedade assente no medo. E o medo é uma das ferramentas mais eficazes de controlo laboral.

Um trabalhador precário raramente reclama.
Aceita mais abusos, faz mais horas, tolera humilhações, evita conflitos e cala injustiças porque sabe que pode ser substituído rapidamente. Quando alguém vive com receio constante de perder o emprego, deixa de negociar condições, passa apenas a tentar sobreviver. É precisamente isso que interessa a muitos sectores patronais: mão-de-obra cansada, insegura e facilmente descartável.

Fala-se muito da necessidade de aumentar a produtividade, mas raramente se diz uma verdade simples: nenhum país constrói prosperidade sustentável à custa de salários baixos e insegurança permanente. Portugal é talvez o melhor exemplo disso. Tivemos décadas de “flexibilidade laboral”, salários comprimidos e precariedade massiva. O resultado não foi uma economia altamente desenvolvida. Foi uma geração inteira obrigada a emigrar, trabalhadores qualificados a ganhar perto do salário mínimo e milhares de pessoas empregadas em full-time que continuam pobres.

Depois existe uma questão central que quase nunca é explicada devidamente à população: o enfraquecimento da contratação colectiva e dos sindicatos. Quando se atacam mecanismos colectivos de negociação, o trabalhador fica isolado perante a empresa. E essa relação nunca é equilibrada. Nunca foi.

Uma empresa possui departamentos jurídicos, recursos financeiros, poder hierárquico e capacidade para pressionar. O trabalhador tem contas para pagar ao fim do mês. É por isso que os direitos laborais nasceram da luta colectiva e não da generosidade patronal. O descanso semanal, as férias pagas, o limite de horas de trabalho, a licença de maternidade, os subsídios e as indemnizações não apareceram porque os patrões decidiram ser bondosos. Foram conquistados com greves, repressão, despedimentos e décadas de conflito social.

Sempre que um governo tenta enfraquecer essa capacidade colectiva de resistência, está objectivamente a transferir poder para o lado empresarial. E quando o equilíbrio desaparece, os abusos aumentam inevitavelmente. Não por maldade individual deste ou daquele patrão, mas porque o próprio sistema funciona assim.

Se houver possibilidade de reduzir despesa à custa do trabalhador, grande parte das empresas acabará por fazê-lo para sobreviver à concorrência.

Há ainda outro problema profundamente grave que raramente entra no debate: a destruição lenta da própria ideia de estabilidade de vida. Durante décadas, trabalhar significava, pelo menos teoricamente, conseguir construir alguma segurança. Ter uma casa, formar família, fazer planos a médio prazo, acreditar minimamente no futuro. Hoje, cada vez mais trabalhadores vivem numa espécie de suspensão permanente. Não sabem quanto tempo ficarão empregados, não conseguem prever rendimentos, não conseguem planear a vida e vivem constantemente entre recibos, contratos curtos, avaliações de desempenho e medo de cortes.

Uma sociedade assim torna-se inevitavelmente mais ansiosa, mais individualista e mais frágil.
As pessoas deixam de participar civicamente, deixam de ter energia psicológica para contestar injustiças e acabam reduzidas a uma rotina de sobrevivência. Trabalham mais horas, vivem pior e sentem-se permanentemente culpadas por não conseguirem acompanhar tudo.

O mais perverso é que tudo isto é apresentado como inevitável, como se fosse uma lei da natureza. Dizem-nos que “o mercado exige”, que “a economia obriga”, que “a competitividade internacional impõe sacrifícios”. Mas não há nada de inevitável aqui. São escolhas políticas muito concretas. Escolhe-se proteger lucros ou proteger trabalhadores. Escolhe-se distribuir riqueza ou concentrá-la. Escolhe-se tratar o trabalho humano como parte digna da vida colectiva ou como mero instrumento de rentabilidade.

E aquilo que este tipo de pacote revela, no fundo, é uma visão muito clara da sociedade, uma visão onde quem trabalha deve estar permanentemente disponível, agradecido por ter emprego e disposto a sacrificar descanso, estabilidade e saúde mental em nome de uma produtividade que quase nunca beneficia verdadeiramente quem produz a riqueza.

É precisamente por isso que a Greve Geral de 3 de Junho é tão importante!
Porque chega um momento em que continuar calado deixa de ser prudência e passa a ser rendição. Quem hoje acha que isto não afectará directamente a sua vida acabará mais cedo ou mais tarde por sentir na pele horários mais desumanos, maior insegurança, mais pressão e menos qualidade de vida. Os direitos laborais nunca foram oferecidos, foram conquistados, e cada vez que os trabalhadores desistem de os defender, o poder económico avança mais um passo sobre aquilo que resta da sua dignidade.

No dia 3 de Junho, estar presente não é apenas um acto político. É um acto de defesa própria!

quinta-feira, 7 de maio de 2026

The Geometry of Peace: A Tribute to Susumu Yokota (1960-2015)


To listen to "Cherry Blossom" is to witness a digital sunrise over an ancient forest. It is not merely a song, but a living ecosystem of sound that bridges the gap between the pulse of the machine and the rhythm of the of the heart.

An Ecological Resonance
This track breathes. It captures the essence of ecological interconnectedness, where the repetitive, hypnotic loops mimic the cycles of the seasons. It suggests that our technology is not an enemy of nature, but a mirror of it—a "botanic electronica" where every synthesizer swell feels like a petal unfurling in slow motion. It reminds us that we are not separate from the Earth; we are the Earth processing beauty through frequency and light.

The Human Tapestry
In its ethereal textures, there is a profound human connection. Yokota weaves an invisible thread of silk that connects every listener across time and space. To be moved by this music is to participate in a collective meditation. It strips away the ego, leaving only a shared sense of wonder. It is a universal language that speaks of our common fragility and our capacity for grace.

An Act of Active Pacifism
Above all, this music is a manifesto of active pacifism. In a world defined by noise, aggression, and the sharpness of conflict, choosing to dwell in this sonic landscape is a radical act of resistance.
It is a unilateral disarmament of the soul.
It replaces the "iron and fire" of modern discord with a "transparency of spirit."
By refusing to be loud or violent, it achieves a strength that no weapon possesses.

To carry this melody within you is to walk through the world with an open heart, proving that softness is not weakness, but the ultimate form of resilience. It is a quiet revolution that begins in the ear and ends in a more peaceful way of being.


Yokota was at the forefront of Japan's electronic music scene as it blossomed in the early '90s. His vast and exceptional body of work found him fans from far beyond the realms of the dance community, with Bjork, Phillip Glass, and Radiohead's Thom Yorke just a few names from his long list of admirers. His music found homes on revered labels such as Harthouse, Sublime Records, Reel Musiq, Leaf, and his own Skintone imprint, and his music saw him invited to perform DJ sets at the world's best-loved dance venues. He was the first Japanese artist to play at Berlin's Love Parade, and – alongside Ken Ishii – represented Asia magnificently during dance music's halcyon days through the late '90s and early '00s. His sound veered from techno to acid, ambient to house, breaks to drum & bass, and he recorded under innumerable aliases – including Stevia, Ebi, Prism, Ringo, Yin & Yan, Anima Mundi.

Though he died tragically in 2015, his incredible back catalogue continues to shine brightly, and it's of little surprise that labels are opting to re-issue the best of his music. Earlier in 2021, UK label Cosmic Soup presented a collection of house and techno sounds Yokota recorded under the secret alias 246, and now it's the turn of his ambient-leaning 'Symbol' to enjoy another jaunt under the spotlight. Previously released on British imprint Lo-Recordings, the blissfully horizontal album is formed around a core of samples borrowed from classical music – manipulated and repurposed alongside Yokota's masterful programming.

Borrowing passages and snippets from classical masters including Debussy, Tchaikovsky, and Ravel, he expertly lifts the emotion behind the original music while uniquely reimagine the music. From the soothing strings of opening track 'Long Long Silk Bridge' to the mesmerising chants of 'Symbol', the album overflows with imagination and spellbinding beauty. Yokota was a true master of electronic music composition, and 'Symbol' is among his most playfully seductive albums. Penetrable but profound, its re-issue represents a wonderful opportunity for new audiences to marvel at his studio prowess.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Ecologia Real: Por que a autonomia da natureza é a nossa própria essência


A imagem da pega-rabuda, empoleirada com altivez sobre o tronco rugoso e coberto de líquenes, funciona como um manifesto visual da ecologia profunda, desafiando a visão antropocêntrica que teima em colocar o ser humano no topo de uma hierarquia imaginária. Nesta perspectiva, a ave não existe para o nosso deleite ou utilidade; ela possui um valor intrínseco e o direito inalienável de florescer por si mesma. O contraste entre a sua plumagem alvinegra e o brilho iridescente das suas asas revela a sofisticação da vida selvagem, que opera sob as leis de uma liberdade universal muito mais antiga e vasta do que as convenções sociais humanas.

Ao integrarmos o conceito de liberdade universal na ecologia, compreendemos que a autonomia deste ser está indissociavelmente ligada à integridade do ecossistema que o acolhe. Não existe liberdade real num mundo fragmentado; a verdadeira emancipação ocorre quando reconhecemos que fazemos parte de uma teia interdependente, onde o destino da ave, da árvore e do homem é rigorosamente o mesmo. É, por isso, nosso dever ético transmitir às gerações seguintes o princípio de do no harm e o respeito absoluto pelos nichos ecológicos, garantindo que o legado da biodiversidade seja preservado. Este texto convida à reflexão de que proteger o espaço de existência desta criatura é um ato de preservação da nossa própria essência, celebrando uma existência onde cada ser vivo é um cidadão soberano da biosfera, livre para cumprir o seu papel evolutivo na complexa rede de interações e equilíbrios que sustenta a biosfera.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Chameleons - Saviours Are A Dangerous Thing

[Intro]
Here he comes now

[Verse 1]
Here he comes gliding down the street
Thousand dollar trainers on his feet
All the monkeys part to let him pass
Thinks he's Jesus riding on an ass

[Pre-Chorus]
Super Nero and his ego smile
As they worship the king, dancing the tango
With opinions, roasted minions
Bow as they're kissing the ring

[Chorus]
Saviours are a dangerous thing
Saviours are a dangerous thing

[Verse 2]
Here he comes to sweep you off your feet
With his little orange parakeet
Bringing as he offers something sweet
Suck-suck-suck-suck-sucking on the teat

[Pre-Chorus]
Young Narcissus and his sisters swoon
In the madness they bring, dancing the fandango
Celebration population sings
Dancing the king

[Chorus]

[Bridge]
Far from you, I feel so very far from you
From everything you say and do, I feel so very far from you

[Pre-Chorus]
Super Nero and his ego smile
As they worship the king

[Chorus]

[Outro]
I feel so very far from you
From everything you say and do
I feel so very far from you
From everything you think is true
Here he comes now, saviours are a dangerous thing

Significado da canção
A canção "Saviours Are A Dangerous Thing", lançada pelo The Chameleons em 2024 (do álbum Arctic Moon), é uma crítica contundente ao cenário político global e ao perigo de seguir cegamente figuras messiânicas ou autoritárias.

De acordo com o vocalista e compositor Mark Burgess, o significado central gira em torno de três eixos:

1. Crítica ao Populismo e Autocracia
Burgess afirmou em diversas entrevistas que a letra reflete como as pessoas tendem a buscar "salvadores" em tempos de crise. Ele mencionou especificamente o comportamento de oficiais do governo que "fazem fila para beijar o anel de palhaços" que se comportam mais como reis autoproclamados do que como funcionários eleitos. A música faz referências visuais e líricas (como o "pequeno periquito laranja") que muitos interpretam como uma crítica à figura de Donald Trump e outros líderes populistas similares.

2. Ecos da História (Anos 1930)
O compositor declarou ver muitos paralelos perigosos entre o clima político atual e a década de 1930 na Europa — o período que precedeu a Segunda Guerra Mundial e viu a ascensão do fascismo. A canção alerta que a propaganda sedutora muitas vezes usa a "máscara da esperança" para esconder ideologias perigosas.

3. A Sedução da Propaganda
A letra explora como a humanidade se rende facilmente a promessas vazias de salvação, apenas para acabar presa por "algemas invisíveis". Termos como "Super Nero" e referências a Narciso na letra reforçam a ideia de líderes egocêntricos que queimam o mundo enquanto sorriem, enquanto seus seguidores (os "minions") os adoram cegamente.

Resumo do Conceito
O título já resume a tese da banda: "Salvadores são uma coisa perigosa". A mensagem é um chamado à vigilância individual e ao ceticismo diante de quem promete soluções fáceis para problemas complexos.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Death in Rome - Christmas song



Christmas Song

in this darkest hour
a light shining still
in this quiet night
there’s still time to kill

the storm moves on
from darkened skies
but bide your time
soon we will rise

and the angels on the gallery
sing about the king
born behind
a discount store
by broken rubbish bins

oh divine amnesia
oh divine forgiveness
oh divine indifference
let them seize you

when the clouds have lifted
a stream from the past
will soothe your mind
and you’ll find peace at last

surrounded by fools
was no place to be
but now we’ve moved on
to a sublime destiny

we’re fighting demons
a struggle everyday
the poison has a grip
it steals our days away

But Saint Joseph, Saint Robert
Saint Nicolas, Saint Rita
Saint Benoit
Are by our side

and glory
to the highest
in the highest
heights

Even if I don’t feel him

and peace
to all
decent people

and truth
only to those
who deserve it

A “Christmas Song” dos Death in Rome pega numa canção de Natal clássica, associada a conforto, família e calor emocional, e transforma-a através da sua interpretação musical. A letra permanece praticamente intacta, mas o arranjo minimalista, frio e melancólico cria um contraste forte com o imaginário tradicional do Natal. É uma crítica subtil ao Natal comercial e automático Em vez de transmitir aconchego e alegria, a música soa distante e desencantada, fazendo com que aquelas imagens de lareira, crianças e votos de felicidade pareçam memórias gastas ou rituais repetidos sem convicção. O resultado é uma leitura irónica e nostálgica, onde o Natal surge menos como um momento de união genuína e mais como uma tradição automática, envolta em solidão e vazio emocional. Assim, a canção não rejeita o Natal em si, mas expõe a fragilidade do seu simbolismo quando separado da experiência humana real, mostrando como a música pode alterar profundamente o significado de uma letra aparentemente inocente.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Contributo sobre o Manifesto por um Pacto Nacional pela Floresta e pelo Território

A SPECO e 23 outras ONGA enviaram para o governo um contributo sobre o manifesto que ainda continua aberto à subscrição individual e de grupo sobre a necessidade de se estabelecer um Pacto Nacional sobre a Floresta e o Território.



São 23 as Organizações Não Governamentais e/ou Associações de Ambiente que se juntaram à Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO) e assinaram este manifesto, que abaixo se junta, aberto à subscrição pública desde 25 de Agosto. Mais de 1500 cidadãos de diferentes quadrantes da sociedade, nomeadamente técnicos, professores, investigadores de laboratórios de Estado e de fundações, já o subscreveram.

Não podemos ficar parados. Cansámo-nos de esperar que as políticas estratégicas surtam efeito. Têm sido formadas comissões de estudo, disponibilizados financiamentos do PRR, do Fundo Ambiental, mas a acção continuada, a efectiva melhoria que se almeja para levar um pouco de dignidade e sustentabilidade ao Portugal interior tarda em concretizar.

Para além das povoações, também as Áreas Protegidas têm sido delapidadas e deixadas ao abandono. Depois de 1985 e 2017, 2025 foi já considerado o terceiro ano que afectou consideravelmente Áreas Protegidas, espaços que mereciam uma atenção redobrada pelo valor que representam, não só a nível nacional como europeu.

Precisamos de acção, já! Estamos dispostos a ajudar e a apoiar, a convocar a ciência, as empresas, os autarcas e as comunidades. Não podemos esperar por diagnósticos, novas comissões técnicas e independentes. As anteriores já diagnosticaram as causas e propuseram soluções, mas nada foi feito. Os erros perpetuam-se e o plano de ordenamento do território tarda em ser posto em prática.

É este apelo que as 22 ONGA transmitem ao Governo. Através deste Manifesto mostramo-nos disponíveis para apoiar um plano de acção que tenha efeitos directos no território. O ordenamento do território e a conservação da natureza nas suas Áreas Protegidas são as melhores ferramentas para o combate às alterações climáticas e para a sustentabilidade das populações do interior do país.

As organizações signatárias:



Leia o manifesto abaixo, e assine aqui.

sábado, 28 de junho de 2025

Sex Pistols - Bodies


She was a girl from BirminghamShe just had an abortionShe was a case of insanityHer name was Pauline, she lived in a tree
She was a no-one who killed her babyShe sent her letters from the countryShe was an animalShe was a bloody disgrace
Body, I'm not an animalBody, I'm not an animal
Dragged on a table in a factoryIllegitimate place to beIn a packet in a lavatoryDie little baby screaming
Body, screaming, fucking, bloody messNot an animal, it's an abortion
Body I'm not an animalMummy, mummy, mummy, I'm an abortionThrobbing squirm, gurgling bloody mess
I'm not a dischargeI'm not a loss in proteinI'm not a throbbing squirm
Ah! Fuck this and fuck thatFuck it all the fuck out of the fucking bratShe don't wanna a baby that looks like thatI don't wanna a baby that looks like that
Body, I'm not an animalBody, an abortionBody, I'm not an animalBody, I'm not an animalAn animalI'm not an animalI'm not an animal, an animal, an-an-an animalI'm not a bodyI'm not an animal, an animal, an-an-an animalI'm not an animalMummy! Uh!

A Crítica Social e a Controvérsia em 'Bodies' dos Sex Pistols (1977)
A música 'Bodies' dos Sex Pistols é uma das mais controversas e provocativas do punk rock, refletindo a crítica social agressiva que caracteriza a banda. A letra narra a história de Pauline, uma adolescente que realizou um aborto e é descrita de maneira perturbadora e desumanizada. A repetição das frases 'I'm not an animal' e 'I'm not an abortion' sugere um grito de identidade e humanidade, questionando as visões sociais sobre o aborto e a marginalização de indivíduos.

O uso de linguagem explícita e imagens chocantes serve para chamar a atenção para as condições desumanas e a falta de empatia enfrentadas por pessoas como Pauline. A banda utiliza a música como um espelho crítico da sociedade, desafiando o ouvinte a refletir sobre temas de autonomia corporal, estigma social e a brutalidade com que certos temas são tratados. A abordagem direta e sem censura é típica do estilo punk dos Sex Pistols, que não temia abordar questões controversas de frente.

'Bodies' não é apenas uma música, mas um manifesto sobre a complexidade das escolhas pessoais e as consequências sociais que acompanham essas escolhas. Através de sua letra provocativa, os Sex Pistols convidam a uma reflexão sobre como a sociedade julga e trata os mais vulneráveis, especialmente em questões tão divisivas como o aborto. A música permanece um exemplo poderoso de como a arte pode ser usada para provocar discussão e mudança social.

Saber mais:

quarta-feira, 7 de maio de 2025

A greve histórica da CP e a ferrovia em Portugal


Os comboios estão totalmente parados porque o Governo negociou com os sindicatos e dois dias depois disse que não ia cumprir nada do que negociou. Mais transparente não há. Montenegro conseguiu o pleno, juntar todos os sindicatos, todas as profissões da ferrovia porque andou a gozar com quem trabalha. O Governo diz que a culpa é de estar em gestão, mas os governos podem legislar em gestão e este legislou. Montenegro aprovou, já em gestão, investimento em milhões, nomeadamente no Plano Nacional Ferroviário, nomeou novos dirigentes, anunciou a deportação - palavra impronunciável - de trabalhadores. Os trabalhadores da ferrovia não aceitaram a imposição de um aumento inferior ao salário mínimo, depois houve nova negociação, chegaram a um acordo, e dois dias depois o Governo diz que não aceita o que tinha assinado. A greve geral da ferrovia foi a resposta, mostrando quem é essencial ao país - quem trabalha. Um dos escribas do status quo, João Miguel Tavares, deixou uma ideia no Público, da Sonae, proibir a greve no sector público. Este é o calibre democrático deste projecto político - ganhem mal, mentimos, e logo a seguir proibimos que se manifestem. Eis o projecto político das classes dirigentes portuguesas.

A ferrovia em Portugal foi preterida às PPPs nas auto-estradas, o comboio - o meio mais seguro, confortável e ecológico - é desprezado, a CP abre concursos e não consegue ter trabalhadores, até o anúncio da alta velocidade é uma incógnita para financiar a Banca porque o PRR só dá uma ínfima parte - e é com dívida; nem de Lisboa a Caldas da Rainha se consegue ir em menos de 2 horas; os trabalhadores fazem turnos atrás de turnos, adoecem a trabalhar e trazem para casa pouco mais do que o salário mínimo.

Disseram e bem que não aceitam aumentos inferiores ao salário mínimo. Todo o jogo deste e dos Governos desde a Troika é aumentar o salário mínimo e não aumentar o médio, de tal forma que dentro de pouco tempo - se não se seguir o exemplo destas greves sérias - todos estaremos a ganhar o salário mínimo. Por isso, estes trabalhadores hoje representam-nos a todos. Contra viver com o mínimo, por uma ferrovia decente, que nos transporte com conforto. Um país que pensa nas pessoas.

domingo, 29 de dezembro de 2024

Cientistas alertam para riscos de 'vida espelho' com potencial devastador


Cientistas internacionais emitiram um alerta sobre a ameaça existencial representada por "vida espelho", micro-organismos sintéticos criados como reflexos estruturais de micróbios naturais. Esses organismos poderiam superar as defesas naturais de seres humanos, animais e plantas, causando danos irreversíveis, segundo um grupo de 40 pesquisadores, incluindo dois ganhadores do Prêmio Nobel.
Em um artigo divulgado na revista Science, publicado pelo Financial Times, os pesquisadores argumentam que os avanços na biologia sintética, embora promovam importantes inovações na saúde, também trazem o risco de gerar novos organismos potencialmente mortais, seja por acidente ou intencionalmente.

O perigo da "vida espelho"
A "vida espelho" baseia-se no fenômeno científico da quiralidade, ou "mão única", em que moléculas possuem a mesma composição química, mas são estruturalmente diferentes por serem imagens espelhadas. Micróbios espelho poderiam evadir o sistema imunológico humano e as defesas naturais de outros organismos, causando infecções letais e superando espécies naturais em diversos ecossistemas.

Segundo Jack Szostak, professor da Universidade de Chicago e ganhador do Nobel de Fisiologia ou Medicina, "a liberação de bactérias espelho no ambiente poderia ser pior do que qualquer desafio enfrentado anteriormente, e muito além de nossa capacidade de mitigação".

Michael Kay, bioquímico da Universidade de Utah, acrescenta que esses organismos seriam a "última espécie invasora", com capacidade de superar as defesas naturais de corpos humanos e ecossistemas.

Avanços tecnológicos e riscos globais
Os cientistas enfatizam a necessidade de ação internacional para regulamentar o desenvolvimento dessa tecnologia antes que ela se torne viável.

Com o rápido progresso nas tecnologias de biologia sintética impulsionadas por inteligência artificial, a criação de células vivas espelho deve ser possível em apenas 10 anos, segundo Vaughn Cooper, professor de microbiologia da Universidade de Pittsburgh.

O artigo no Science também aponta que os avanços recentes mostram que bactérias comuns, como a E. coli, podem crescer com fontes de alimentos que não possuem uma especificidade quiral, refutando a ideia de que organismos espelho seriam inviáveis por falta de nutrição adequada.
Medidas regulatórias urgentes

Os autores sugerem a adoção de modelos de regulamentação, como as Diretrizes de Biossegurança de Tianjin, elaboradas em 2021. Essas diretrizes promovem a colaboração internacional para monitorar e limitar tecnologias que poderiam facilitar a criação de organismos sintéticos perigosos.

Apesar das incertezas, os cientistas concordam que a ameaça é grave. "Bactérias espelho poderiam causar uma onda de infecções devastadoras se escapassem de um laboratório", alerta Eörs Szathmáry, professor de biologia evolutiva da Universidade Eötvös, na Hungria.

O avanço da biologia sintética trouxe benefícios inegáveis para a humanidade, mas também apresenta riscos consideráveis. O desenvolvimento de micro-organismos sintéticos "espelho" requer atenção global imediata para evitar um potencial desastre ambiental e biológico que poderia ameaçar todas as formas de vida conhecidas.