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terça-feira, 30 de junho de 2026

Greenpeace alerta para falhas na prevenção dos incêndios em Portugal

Segundo o estudo, os grandes incêndios são um problema estrutural e não uma fatalidade associada apenas ao Verão. A investigação conclui que o risco começa a construir-se muito antes da época crítica, impulsionado pela pressão das alterações climáticas, pela acumulação de combustível vegetal, pela gestão insuficiente da paisagem, pelo abandono rural, pela expansão da interface urbano-florestal e pela falta de integração do risco de incêndio no ordenamento do território.

A Greenpeace Portugal apresentou hoje  o relatório “Incêndios florestais em Portugal: mais de 80 anos mostram que o país tem de mudar”, um estudo inédito que analisa a evolução dos incêndios florestais em Portugal desde 1943 e conclui que o país continua demasiado dependente das condições meteorológicas e da resposta à emergência, falhando na prevenção estrutural do risco.

O relatório foi desenvolvido pelo Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais (CEIF), da ADAI/Universidade de Coimbra, sob coordenação científica do professor Domingos Xavier Viegas, e reúne mais de oito décadas de dados sobre incêndios em território nacional.

Segundo o estudo, os grandes incêndios são um problema estrutural e não uma fatalidade associada apenas ao Verão. A investigação conclui que o risco começa a construir-se muito antes da época crítica, impulsionado pela pressão das alterações climáticas, pela acumulação de combustível vegetal, pela gestão insuficiente da paisagem, pelo abandono rural, pela expansão da interface urbano-florestal e pela falta de integração do risco de incêndio no ordenamento do território.

Apesar da redução significativa do número de ignições nas últimas duas décadas, o relatório alerta que Portugal continua altamente vulnerável quando se conjugam fenómenos de calor extremo, seca e vento forte com uma paisagem pouco gerida.

Entre os anos analisados, 2003, 2005, 2017 e 2025 destacam-se pela dimensão da área ardida e pelo número de vítimas mortais, evidenciando um padrão de risco que, segundo os autores, permanece sem resposta estrutural. O estudo refere ainda que a maioria das ignições continua a ter origem humana, reforçando a necessidade de investir na investigação das causas, na sensibilização da população e em medidas preventivas.

Para o professor Domingos Xavier Viegas, a evolução dos incêndios resulta da conjugação de vários fatores, entre eles a crescente florestação do território, a redução da atividade agrícola, o despovoamento do interior e o agravamento das alterações climáticas.

“O conhecimento científico que hoje temos não nos permite continuar a fazer mais do mesmo”, afirma o coordenador do relatório, defendendo uma transformação profunda da gestão florestal e da paisagem. O investigador sublinha que, embora a capacidade de deteção e combate aos incêndios tenha melhorado significativamente nas últimas décadas, essa evolução não tem sido suficiente para evitar grandes incêndios em anos de condições meteorológicas extremas.

O diretor do CEIF destaca ainda que 2025 voltou a demonstrar a vulnerabilidade do país, com uma época marcada por temperaturas elevadas, seca meteorológica em grande parte do território e um aumento expressivo da área ardida durante o mês de agosto.

Para a Greenpeace Portugal, o relatório pretende contribuir para que o debate sobre os incêndios deixe de depender apenas da memória de cada verão e passe a assentar numa base científica sólida. O diretor da organização, Toni Melajoki Roseiro, considera que o documento deve servir como instrumento de escrutínio das políticas públicas e apoiar decisões sobre prioridades orçamentais e estratégias de prevenção.

Já Ana Farias Fonseca, coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal, alerta que o país precisa de atuar sobre as causas estruturais dos incêndios, defendendo que a prevenção deve decorrer durante todo o ano. “Sem prevenção estrutural, o combate chegará sempre tarde demais”, afirma.

Na sequência das conclusões do estudo, a Greenpeace apresenta um conjunto de exigências dirigidas ao poder político, entre as quais uma ação climática mais ambiciosa, uma gestão estratégica da paisagem, maior envolvimento do setor privado, reforço da prevenção social das ignições, maior transparência na aplicação dos recursos públicos, revitalização económica do mundo rural e a criação de um pacto ibérico para aumentar a resiliência aos incêndios florestais.

Segundo a organização ambiental, o conhecimento acumulado ao longo de mais de 80 anos demonstra que Portugal dispõe hoje da informação necessária para alterar o paradigma da prevenção e reduzir o impacto dos grandes incêndios nas populações, na economia e nos ecossistemas.

Petição: aqui

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quarta-feira, 24 de junho de 2026

Zonas protegidas ardem duas vezes menos, indica análise da WWF

As Zonas Especiais de Conservação (ZEC) da Rede Natura 2000 arderam duas vezes menos entre 2021 e 2025 do que o restante território, segundo uma análise da WWF Portugal, sugerindo uma abordagem integrada de prevenção e conservação da natureza.

“Os resultados desta análise sugerem a necessidade de uma abordagem integrada de políticas públicas que articule prevenção de incêndios, conservação da natureza e gestão ativa do território”, defendeu a associação ambientalista num comunicado hoje divulgado.

A análise da WWF Portugal, ao indicar que nas ZEC há menor proporção de área ardida, contraria estudos que indicam que estas áreas ardem mais. A organização cruzou dados de incêndios com informação sobre o uso do solo e habitats naturais em Portugal continental.

A diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal, Catarina Grilo, disse, citada no comunicado, que os resultados da análise mostram que a conservação da natureza “não é incompatível” com a prevenção de incêndios.

“Pelo contrário, as áreas classificadas analisadas registaram uma incidência proporcionalmente menor de área ardida do que o restante território, o que demonstra a importância de olhar para os incêndios de forma holística e integrando perceções não só dos setores florestal e da proteção civil, mas também da conservação da natureza”, sublinhou.

Por isso, concluiu, integrar prevenção de incêndios e conservação da natureza “não é apenas possível, é indispensável”.

De acordo com os dados divulgados no trabalho, com o título “Natureza e Incêndios: áreas e habitats mais afetados em Portugal”, entre 2021 e 2025 ardeu cerca de 6,1% da área fora das ZEC, face a 2,9 dentro dessas áreas.

A associação notou que cerca de um quarto da área ardida no período em causa ocorreu no interior das zonas protegidas e os incêndios afetam sobretudo matos e formações arbustivas, um tipo de vegetação que desempenha um “papel ecológico relevante”, mas que “continua a não ser tido em conta na gestão do território”.

A WWF Portugal salientou também que alguns habitats classificados exigem atenção redobrada, como charnecas, zonas rochosas e determinadas formações florestais, que apresentam “níveis relevantes de afetação pelo fogo”, e que por isso precisam de medidas de gestão e conservação específicas.

O estudo apontou para a importância não só de gerir de forma estratégica áreas de matos e mosaicos agroflorestais, como também considerar a distribuição de habitats na definição de medidas de prevenção, e integrar melhor o conhecimento científico nas políticas públicas.

Indicou ainda que as causas intencionais de incêndio têm maior expressão nas ZEC do que fora delas, algo que “merece aprofundamento”, inclusive “procurando explorar fatores de ordem social”.

sábado, 21 de março de 2026

No dia 21 de março, quando se assinala o Dia Mundial da Floresta, o retrato da agricultura nos territórios vulneráveis em Portugal está longe de ser verdejante


Falta de incentivos públicos compromete mosaico agroflorestal que previna fogos rurais. Apesar do aumento de apoios públicos à agricultura entre 2020 e 2023, a gestão ativa do território em Portugal diminuiu drasticamente. Desapareceram cerca de 800 mil hectares de áreas agrícolas declaradas (quase metade), enquanto o número de agricultores se manteve estável, indicando que há mais dinheiro, mas menos território gerido. 
A nova portaria que apoia o pastoreio extensivo (fundamental para reduzir combustível vegetal) vê-se limitada porque faltam pastores. O rácio de agricultores com mais de 65 anos por jovem (menos de 35) subiu de 14 para 1 em 2020, para 19 para 1 em 2023. 
Sem gestão ativa (pastoreio) e sem renovação geracional, o território torna-se acumulador de vegetação, comprometendo o mosaico agroflorestal, que é uma das principais defesas contra os incêndios rurais. 
A Zero crítica a natureza temporária dos apoios (limitados a 2026), defendendo que a prevenção de incêndios exige estratégias de longo prazo, não soluções avulsas dependentes de ciclos políticos. Propõe-se a criação de um rendimento equivalente a um Indexante dos Apoios Sociais para jovens agricultores em territórios vulneráveis. Fonte

sábado, 15 de novembro de 2025

Há alternativas ao eucalipto? Sim, há - exige uma mudança hercúlea de paradigma de floresta portuguesa


Ponto Prévio - Os bosques maduros são florestas antigas, ricas em biodiversidade especializada, mas extremamente raras em Portugal. Estes ambientes representam manchas cada vez mais escassas no território, resultado de séculos de exploração, degradação e fragmentação.

Vamos à análise
Pinheiro (Pinus, sp.) e Eucalitpto são lixo florestal! Um lixo florestal, pois endivida os pequenos proprietários e só crescem acácias depois dos incêndios. Há que haver uma política ecológica forte e interdisciplinar para restaurar a nossa floresta nativa, também rica em fibras para celulose, mas com crescimento mais lento. 

1.Na região Norte e Centro sugiro Choupo/álamo (Populus spp.)- porém a cadeia industrial em Portugal ainda está pouco desenvolvida e Bétula (Betula alba)

2. Outras árvores autóctones 
2.1..Medronheiro (Arbutus unedo)
Resiste bem ao fogo e rebenta vigorosamente.
Pode gerar rendimento pela produção de fruto.
2.2. Loureiro, amieiro, freixo, salgueiro
Adequados a zonas húmidas e linhas de água.
Muito úteis na restauração de ecossistemas.

3. Alternativas para sistemas agroflorestais / multifuncionais
3.1. Castanheiro + pastoreio
Elevado valor económico.
Melhora solos.
3.2. Olival ou nogueira combinados com floresta
Produção alimentar + proteção paisagística.
3.3. Sistemas silvopastoris com sobro ou azinheira
Produção de cortiça + sombra para gado. 

4. Reciclagem - contribuidor em ascensão
Portugal tem boa taxa de reciclagem, mas ainda expandível. Associação de Empresas de Resíduos alerta para a situação crítica dos aterros
Reduz significativamente a necessidade de pasta virgem.
Adequado para papel de impressão, embalagem e papel tissue (com mistura).

Sim, há um estudo da Wildforests que diz que o eucaliptal não é um deserto ecológico. Porém, salvaguardam que a diversidade e os padrões de vida das espécies animais em florestas plantadas para produção de madeira é ainda um assunto pouco estudado. Contribuir para este conhecimento foi um dos objetivos que levou a The Navigator Company a disponibilizar as suas propriedades para que o trabalho de campo do projeto WildForests pudesse ser realizado.

Antes do arranque deste projeto, a empresa já tinha identificado vários destes mamíferos nas propriedades que gere e já realizava algumas destas boas práticas, estando a integrar, caso a caso, outras recomendações emanadas do WildForest. A manutenção de pequenas manchas de vegetação nativa nas plantações, assim como de afloramentos rochosos e de árvores que permitem criar corredores ecológicos, contínuos ou descontínuos (stepping stones) são alguns exemplos. De resto, todo o projeto permite saber mais sobre as espécies presentes em eucaliptais e sobre as práticas que a favorecem, ajudando a The Navigator Company a tomar as melhores opções de gestão florestal a integrá-las na sua estratégia de conservação da biodiversidade.

Artigo científico aqui

terça-feira, 27 de maio de 2025

Colónia japonesa cria 'florestas de comida' no Pará e vira referência contra desmatamento


A equipe da BBC News Brasil visitou Tomé-Açu, no interior do Pará, para contar a história da comunidade japonesa que se instalou naquele pedaço da Amazônia e desenvolveu um método que tem revolucionado a produção agrícola na região.   

As primeiras levas de japoneses chegaram em 1929, quando o Japão vivia uma grave crise. As famílias receberam lotes cobertos por floresta, onde construíram casas e cultivaram plantações. 

Anos depois, o grupo foi alvo de uma série de restrições do governo brasileiro por causa da Segunda Guerra Mundial, período em que os mais velhos dizem ter vivido numa espécie de "campo de concentração". 

Com o fim da guerra, a colônia viveu um ciclo de prosperidade nos anos 1960, até que uma praga arrasou as plantações e forçou os agricultores a buscar alternativas. 

Foi então que, observando comunidades ribeirinhas locais e resgatando técnicas ancestrais japonesas, eles desenvolveram um método que privilegia a diversidade de espécies e produz alimentos o ano todo, ajudando a regenerar áreas desmatadas nas últimas décadas.  

Hoje as agroflorestas mantidas pelas famílias nipo-brasileiras atraem vários pesquisadores e agricultores interessados em replicá-las em outras partes do Brasil e do mundo. 

sábado, 3 de maio de 2025

Benefícios das florestas nativas


As árvores nativas são essenciais para os habitats de vida selvagem, estabilidade do ecossistema, saúde do solo, retenção de água e sequestro de carbono.
Também fornecem alimentos, medicamentos e rendimentos para comunidades

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Why Not Scotland?


Junte-se a Flo, uma jovem escocesa de Glasgow, numa viagem intensamente pessoal, enquanto procura exemplos de recuperação da natureza pela Europa.
Tal como muitos da sua geração, Flo está preocupada com o estado da natureza e tem medo de um futuro incerto. Mas durante as suas viagens, ela descobre lugares onde a natureza está a regressar de forma espetacular, dando novamente vida à paisagem e revitalizando as comunidades humanas. Encorajada por estas histórias de esperança e renovação, é levada a perguntar-se: Porque não a Escócia?
Em Portugal temos o projecto Rewilding Portugal ; Associação Bioliving e Cavalum

quarta-feira, 27 de março de 2024

A pandemia dos eucaliptos


Portugal, um país de curiosos recordes mundiais. A maior feijoada, o maior pão com chouriço ou os maiores chifres de um bode são alguns dos feitos registados no Guinness. O país é igualmente recordista mundial no uso de uma planta que vem do lado oposto do globo terrestre. Eucalyptus globulus. São perto de um milhão de hectares cobertos somente por esta espécie. Quase 30% daquilo a que chamamos floresta portuguesa.

“Se viajarmos de norte a sul do país, são assustadoras as áreas de monocultura de eucalipto pegadas umas às outras. A paisagem está completamente destruída. Daí se chamarem desertos verdes”, observa o biólogo e especialista em agrofloresta José Mateus.

“Ter um distrito inteiro em que a única floresta que existe são plantações, seja aqui, seja as palmeiras para óleo de palma, é desastroso”, anui Paulo Pereira, biólogo e co-autor da Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental. Publicada no início do outono, este projeto avaliou perto de 400 espécies de árvores e plantas nativas que estão hoje ameaçadas de extinção em Portugal, devido sobretudo à intensificação agrícola, às barragens, aos incêndios e às espécies invasoras.

Em 2017, um estudo internacional em que participou a Universidade de Coimbra concluíra: "os eucaliptais geram autênticos 'desertos' à sua volta, provocando uma dramática redução da biodiversidade do território". Em 2019, outro estudo realizado por investigadores de seis instituições de ensino superior e coordenado por Ernesto de Deus mostrou várias evidências do potencial invasor do eucalipto.

No verão passado, investigadores da Universidade Técnica de Munique e da Universidade de Zurique detetaram através de imagens de satélite 15 territórios da rede Natura 2000 afetados por eucaliptos, nove dos quais “fortemente afetados”. “Estes ecossistemas são únicos e albergam várias espécies ameaçadas”, lembraram ao jornal Público. Consideraram os eucaliptos uma das maiores ameaças ambientais, pois “substituem a vegetação existente e atuam como combustível para potenciais incêndios florestais futuros”. Um ciclo que, face às alterações climáticas, preveem cada vez mais recorrente em Portugal.

Monchique é um exemplo revelador. Há 17 anos que é considerado Zona de Proteção Especial da rede Natura 2000, com 50 espécies naturais entre as mais valiosas e ameaçadas do continente europeu. Já então o ICNF, Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, identificara as principais ameaças: a atividade de florestação intensiva com espécies exóticas, os incêndios florestais e a destruição da vegetação autóctone. Em 2018, Monchique ardeu brutalmente. Quem habita a serra tem visto com incredulidade e revolta o regressar dos eucaliptais industriais sobre as áreas ardidas, e o brotar descontrolado de eucaliptos no pós-fogo, espalhando-se para novos terrenos.

Após os trágicos incêndios de 2017, o governo alterou a famigerada “Lei do Eucalipto Livre”. Hoje, é apenas permitido plantar eucaliptos em áreas de eucaliptal já existentes, ou numa nova área se se arrancar uma área de eucalipto equivalente. Entretanto, nos meses entre o anúncio da nova lei e a sua entrada em vigor, a ganância que mora na sombra dos eucaliptais teve o seu apogeu. Os viveiros industriais, de onde nas últimas décadas saíram mais de um bilião destas árvores, esgotaram para responder à frenética corrida ao eucalipto. Números facultados pelo ICNF revelam a cumplicidade do instituto: as autorizações para alastrar eucalipto a novas áreas tiveram nesse ano de 2017 o seu pico, com mais de 2200 hectares aprovados.

De acordo com o Público, em 2009 o ICNF elaborara uma proposta para classificar o eucalipto como espécie invasora – proposta que terá desaparecido sem explicação.

Procurámos saber a posição do instituto hoje. Sediado na aparentemente impenetrável floresta de betão da Avenida da República, em Lisboa, o ICNF responde apenas por email. E a resposta é taxativa. “Facilmente se infere que o eucalipto não é uma espécie invasora”, lê-se, “porque não é suscetível de ocupar naturalmente o território de uma forma excessiva, provocando uma modificação significativa nos ecossistemas.” O instituto explica: o raio de dispersão das sementes é limitado, o vigor dos eucaliptos que brotam espontaneamente é inferior ao dos obtidos em viveiro, sendo eliminados precocemente e dominados pelos arbustos e árvores pré-existentes.

No mesmo email, defende que a análise dos incêndios não faz “qualquer referência a situações de ‘elevada inflamabilidade’ relacionados com qualquer espécie”. E aprova a reflorestação pós-fogo com novos eucaliptos. “A reflorestação com qualquer espécie florestal não provoca o seu aumento territorial e é fundamental como medida de contenção e minimização dos impactos no solo e biodiversidade após os incêndios florestais.”

O instituto cuja missão é a proteção da nossa floresta não avista qualquer relação entre eucaliptais e incêndios, nem o perigo de esta espécie se tornar dominante. Uma visão que, se não cola propriamente com a das populações ou da academia, cola perfeitamente com a da indústria do papel, de empresas como a Altri e a Navigator. De resto, recorda o ICNF, “a Estratégia Nacional para as Florestas em Portugal reconhece a necessidade de garantir resposta à procura de matérias-primas das principais fileiras silvo-industriais”.

Uma floresta ligada à máquina
Em apenas duas gerações, a floresta em Portugal passou de ser o sustento da vida nas aldeias, com base numa convivência quotidiana e ancestral, a um cobiçado recurso para a indústria. Primeiro com a intervenção autoritária do Estado Novo, e o Fundo de Fomento Florestal nos anos 50, depois com a intervenção autoritária do mercado, marcada pela entrada na CEE e pelo Projeto Florestal Português financiado pelo Banco Mundial, nos anos 80. E o interior do país, enquanto se encheu de monoculturas florestais de pinhal e o eucalipto, esvaziou-se de pessoas.

“Houve um grande crescimento de tudo o que é floresta artificial, por vezes completamente estranha à ecologia de cada lugar”, observa Paulo Pereira. Para o biólogo, o advento da engenharia agronómica trouxe consigo uma certa presunção do ser humano achar que controla todos os processos. “Em qualquer tipo de sistema agrícola intensivo, há aquela ideia de que a única coisa que nos interessa é o que temos a produzir. Tudo o resto é concorrência a eliminar. Isto é como ligar a nossa produção à máquina. Como se tivéssemos um doente de Covid ligado ao respirador. Só com a água a pingar, adubos, tratores, pulverização de inseticidas e herbicidas todo o ano se consegue manter a cultura. Estamos a criar um zombie, que não tem qualquer autonomia fora do cuidado humano.”

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Agricultura tem que ser reconhecida como fundamental para o país


A agricultura tem que ser reconhecida como fundamental para o país, a nível social, económico e ambiental, e é “urgente reintegrar” a agricultura e florestas e atribuir-lhe a devida importância política, apontou a associação SEDES.

“[…] Há pontos absolutamente transversais que, se não forem endereçados, colocam graves entraves à criação de valor no setor agrícola e florestal, a começar pela necessidade imperiosa de o reconhecer como setor fundamental para o país, tanto a nível económico, como social e ambiental”, segundo um documento que elenca as principais conclusões do relatório “Reflexões e Políticas para uma Agricultura Sustentável e Competitiva”.

O documento da SEDES – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social revelou ainda ser “urgente reintegrar” a agricultura e florestas e atribuir-lhes a “devida importância política”.

O Observatório da Agricultura identificou os principais desafios da agricultura – água, competitividade, comunicação, florestas, território, transferência de conhecimento e inovação -, tendo apontado para cada um destes um conjunto de medidas a implementar.

No que se refere à água, os principais constrangimentos e desafios prendem-se com as alterações climáticas, sendo que o Estado deverá tornar central na sua política agrícola a segurança alimentar, de modo a promover a produção de alimentos sustentáveis, de qualidade e a preços acessíveis.

“Portugal tem um enorme potencial para aumentar a sua produção, alargando as zonas dedicadas ao regadio sustentável. Simultaneamente, o regadio tem imensos benefícios no desenvolvimento das regiões. Desde logo, o aumento da produção e consequentemente da riqueza, facto incondicional para o não abandono das zonas rurais”, sublinhou.

Entre as principais medidas a implementar nesta área, de acordo com o documento, está a realização de um estudo que permita ter uma “visão de conjunto de todo o território nacional” no que diz respeito à gestão da água.

Por outro lado, o observatório referiu que uma agricultura competitiva é capaz de impulsionar o rendimento do setor e notou que a visão da sociedade ocidental sobre a agricultura é paradoxal.

“Por um lado, mantêm-se as acusações, na maioria das vezes infundadas ou demagogicamente sustentadas, de ser uma atividade consumidora/delapidadora de recursos e grande responsável pelo aquecimento global. Por outro lado, contrapõe-se que é um setor que se tem modernizado a ritmo elevado”, destacou.

Assim, é proposto, entre outras medidas, a valorização do património genético nacional no combate às alterações climáticas, o aumento das explorações e produções agrícolas, o investimento em produtos de qualidade, aproximar a agroindústria da produção e modernizar e dinamizar o ensino superior nas áreas da agronomia e agroindústria.

A SEDES concluiu ainda que o setor agrícola comunica pouco, “com uma mensagem complexa e, quase sempre, de forma reativa a mensagens menos positivas sobre si”, propondo assim uma melhoria da imagem pública do setor, através da divulgação de bons projetos, da criação de um Conselho Consultivo Agroflorestal Nacional e do desenvolvimento de um programa de comunicação e educação cívica.

Em matéria de florestas, os desafios são muito diversos, destacando-se a desagregação desta tutela política do Ministério da Agricultura, o abandono de uma parte significativa do território florestal, baixa produtividade dos montados, reduzida dimensão de áreas ocupadas por espécies autóctones, entre outros.

O documento propõe medidas como colocar novamente as florestas sob a tutela do Ministério da Agricultura, a criação de apoios públicos para a recuperação de áreas florestais, fomentar a pastorícia como forma de controlo de matos, criar um programa que financie a gestão agrupada de parcelas florestais, implementar um programa de apoio à recuperação ou rearborização das áreas de eucalipto degradadas e fomentar a literacia florestal.

Já no que diz respeito ao território, os constrangimentos divergem por área geográfica, mas estão relacionados com o ordenamento, infraestruturas de transporte e alterações climáticas.

Entre as principais medidas enumeradas está a criação de incentivos para as empresas se estabelecerem em regiões menos desenvolvidas, a promoção da cobertura de rede de banda larga em todo o território nacional, promover a eficiência energética, implementar programas de gestão e valorização de subprodutos e estimular investimentos em energia renováveis.

Por último, no que concerne à transferência do conhecimento e inovação, a SEDES disse que a aposta na renovação geracional na agricultura não tem surtido os resultados esperados e que o rejuvenescimento tem sido lento, sendo proposto assim o fomento da procura do ensino académico, a promoção entre a academia e agricultores e uma maior articulação entre programas de apoio e plataformas.

O relatório que deu origem a estas conclusões vai ser apresentado na sexta-feira, no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa.

Este estudo, que contou com os contributos de 23 especialistas, foi desenvolvido pelo Observatório da Agricultura em 2023 e coordenado por José Palha, presidente da direção da Associação Nacional de Produtores de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais (ANPOC).

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

O que é que as formigas nos dizem sobre a biodiversidade nas culturas para biocombustíveis?


Um estudo das comunidades de formigas mostra que a utilização de diversas fontes vegetais para a bioenergia é crucial para proteger os ecossistemas e, ao mesmo tempo, produzir combustíveis mais ecológicos.

Apesar de ser uma fonte de energia renovável, a utilização de biocombustível é controversa, uma vez que o cultivo de poucas culturas altamente produtivas para combustível pode levar à perda de biodiversidade nos sistemas de cultivo onde a biomassa é produzida. Um sistema de cultivo refere-se às culturas, à sua sequência e às práticas de gestão num determinado campo.

Agora, investigadores dos EUA compararam as comunidades de formigas em diferentes tipos de sistemas de cultivo de bioenergia para compreender melhor como estes sistemas moldam as comunidades bióticas e as suas funções. Os resultados foram publicados na revista Frontiers in Conservation Science.

“Encontrámos diferentes comunidades de formigas quando comparámos culturas anuais, sistemas perenes e diversas policulturas perenes com muitas espécies de plantas”, afirmou o primeiro autor, Nathan Haan, que recolheu dados para este estudo na Estação Biológica Kellogg da Universidade Estatal do Michigan e que atualmente investiga a ecologia de insetos como professor assistente na Universidade do Kentucky.

“Os sistemas perenes de cultivo de bioenergia, particularmente aqueles que incorporam maior diversidade de plantas, dão origem a uma comunidade de formigas diferente e mais diversificada do que os sistemas mais simples”, acrescentou.

Formigas e culturas
As formigas são atores abundantes e influentes nos prados e nos agroecossistemas. Podem ser importantes predadores, dispersores de sementes e engenheiros do solo. “Se uma grande parte das nossas paisagens se dedicar ao cultivo de culturas para combustível, as formigas são um candidato de topo para investigar como as comunidades de insetos podem diferir de cultura para cultura”, explicou Haan.

Os investigadores examinaram 10 sistemas de cultivo de bioenergia numa matriz experimental no Michigan. Os sistemas incluíam culturas anuais (milho e dois tipos de milho de vassoura), sistemas perenes simples (plurianuais) e sistemas perenes diversos (pradaria reconstruída, vegetação voluntária em sucessão e um sistema de talhadia de curta rotação com choupos).

Os investigadores capturaram quase 10.000 formigas individuais pertencentes a 22 espécies. Nos ecossistemas complexos, as formigas desempenhavam mais papéis funcionais – por exemplo, predador ou dispersor de sementes – do que nos sistemas simples. A riqueza de espécies era mais elevada nos sistemas diversificados e mais baixa nos sistemas simples. A composição da comunidade também diferiu: algumas espécies comuns de formigas foram encontradas em todos os sistemas de cultivo; espécies mais raras, no entanto, só apareceram em sistemas perenes com diversidade de plantas.

sábado, 4 de novembro de 2023

Alfredo Sendim: “O que está em causa não é o planeta nem a natureza, somos nós”

Food is the currency of Life
Como é que podemos explicar a alguém que vive a maior tempo na cidade e tem pouco contacto com o mundo rural o que é a agrofloresta?
A agrofloresta é essencialmente a ideia de coabitar com o sistema natural – ou ecossistemas – que nos criaram e estão à nossa volta e dos quais nós ainda hoje dependemos integralmente. Somos completamente dependentes dos recursos que eles produzem. E nós não sabemos de forma alguma, por muita capacidade e engenho que tenhamos, supri-los de outra forma sem ser através do sistema natural.

É muito fácil percebermos o modelo da agricultura, que passa essencialmente por termos uma relação com o que está à nossa volta, eliminando o sistema natural, um conjunto de elementos relacionados entre si e uma capacidade de auto-regeneração única. No fundo aprendemos a canalizar a energia deste sistema apenas para poucos elementos, que obviamente são interessantes para nós, sejam eles cereais, eucaliptos ou olivais. Quando o espaço é muito grande e o número de utilizadores é pequeno, esta fórmula até pode ser bastante razoável, por que se as pessoas destruírem um bocadinho de natureza e quando voltarem ao mesmo sítio já tudo tiver sido regenerado ecologicamente, não há qualquer problema. O problema é que esta modalidade acabou por arrombar o sistema, que deixou de ser capaz de produzir a energia que o faz funcionar.


E a Agrofloresta pode esta inverter essa realidade?
A agrofloresta é uma forma diferente de nos inserirmos na natureza, que já foi desenvolvida em Portugal na Idade Média, com aquele sistema que nos orgulhamos tanto, chamado montado. Este não é mais do que uma evidência, como que dizendo “vamos lá reagir, depois de termos destruído a natureza e os ecossistemas todos”. Aconteceu uma vez no Neolítico, outra, muito mais forte, a seguir ao Império Romano, e uma terceira depois de todo o período dos visigodos, seguido pelos árabes. Às tantas houve alguém que bateu com a mão na mesa e disse: e se nós tentássemos viver com o sistema?

O montado, por exemplo, é um sistema muito simplificado e muito domesticado, adaptado às nossas necessidades, mas é um sistema. A agrofloresta não é portanto mais do que a ideia de viver com um sistema natural, compreendendo-o e sendo nós também parte dele. Diria mesmo que a agrofloresta é hoje uma das expressões mais profundas da ética da agroecologia.

Em que sentido?
Por se opor a uma ética antropocentrada, muito maioritária no pensamento ocidental, que nos diz que não somos natureza, porque a natureza é violenta e selvagem e nós, por oposição, afastamo-nos dela, numa tentativa de nos divinizar. A natureza existe para a ordenarmos e para podermos usufruir dela. A ética da agroecologia é diferente, pois pressupõe umas determinadas capacidades para o homem, que os outros seres não têm, e isso dá-nos não só uma enorme responsabilidade, como nos coloca ao nível dos outros elementos da natureza, como parte dessa mesma natureza. Essa evidência é personalizada pela a árvore, o elemento vegetal que dura mais e é o motor deste sistema. São estes seres que, de forma bastante eficiente, conseguem fazer o milagre de transformar a luz do sol em matéria orgânica. Por isso, todos os outros reinos – o animal, os fungos, as bactérias, os protozoários – são complementares à árvore e ao reino vegetal. Um sistema que não tem este elemento central não é um sistema.

Fala-se muito do solo vivo e da sua importância para a humanidade, mas continuamos sem perceber que não há solo sem árvore. Quem alimenta o solo são as árvores e o sol funciona como uma bateria, pensada neste sistema para ser carregada através de um painel fotovoltaico que se chama biodiversidade e é formado por todos estes seres interrelacionados entre si.

E agricultura tradicional não permite o funcionamento desse regime?
Não porque inventámos uma outra forma de alimentar essa bateria, partindo o painel solar da biodiversidade, através de meios mecânicos e químicos, para a podermos usar de uma forma especulativa, muito contrária aos interesses das novas gerações.
É por isso que a agroecologia é uma ética e não um mero conjunto de técnicas. Mas é também uma abordagem prática, porque implica que aprendamos a viver com o sistema, e quem vive com o sistema é recolector, não é produtor.
Trata-se talvez da expressão mais atual dessa visão sistémica de não arrombar o sistema, mas sim perpetuá-lo, adaptando-o às nossas necessidades, mas sendo o homem, também um elemento ao seu serviço.

Há aqui duas ideias opostas, uma é que a ideia de domínio sobre a natureza, em oposto à agroecologia, é sinónimo de abundância. E depois há esta nova abordagem aos seres vivos e à importância que têm as plantas silvestres e os animais selvagens terão no sistema, de modo a garantir essa mesma abundância a longo prazo.

O mais possível. Na perspectiva antropocentrada o homem é o centro e só ele conta. Há uma ideia muito simples, que é a de imaginarmos que a dado momento chega um ser mais capacitado, com uma atitude perante a humanidade semelhante à que temos com a maioria dos nossos congéneres do reino animal. É um exercício simples e que pouca gente faz.

Acima de tudo é importante perceber a nossa iliteracia ecológica. Ao contrário do que muitas vezes se afirma, a ecologia não é uma mera ideologia de esquerda, mas sim uma ciência, criada precisamente para estudar o sistema que nos criou. E ao não reconhecermos isso ou ao não partilharmos esse conhecimento, assumimos uma posição apenas arrogante. E grande parte destas questões têm precisamente a ver com esse desconhecimento profundo da forma como o nosso sistema de vida e o planeta funcionam.

E como funciona afinal esse sistema?
Todos os ecossistemas são cíclicos, e todos eles vão acabar num estádio que designamos de deserto. O deserto é praticamente só minério, sem vida, porque não há matéria orgânica no solo. Os ecossistemas de deserto evoluem para um outro extremo que é o clímax, mas passando por uma fase intermédia que se chama acumulação. O clímax não significa maior quantidade, porque muitas vezes na fase de acumulação até há maior libertação de recursos, mas é seguramente a fase da eficiência. É importante percebermos que a atitude antropocentrada, ligada à agricultura industrial de monocultura, é a principal responsável pela delapidação destes recursos. E isto são dados científicos comprováveis, pois a parte terrestre do nosso planeta tem mais de 80% em condições de deserto, enquanto há doze mil anos, no Holoceno, tínhamos o quadro inverso, com 80% do planeta em estado de clímax.

Como é o caso do montado, que já referiu como exemplo desse conceito…
O montado é completamente uma agrofloresta, hoje muito querida por todas as pessoas que gostam deste tipo de conceitos, mas é também um símbolo. Foi criado na Idade Média e entretanto foi sendo aperfeiçoado até atingir esta última versão. é o que se chama um modelo de “sucessão dinâmica”, que serve não só para instalar o sistema e viver com o sistema, como também pretende e permite transformar rapidamente desertos em clímax. O sobreiro é um ser de clímax, que precisa de um sistema muito complexo, assim como o humano, para poder viver. E nós não percebemos estes conceitos básicos, assim como também não percebemos que, no Neolítico, entrámos pelo interior de Portugal e matámos tudo aquilo que se chama a megafauna, ou seja todos os animais maiores que nós, sem percebermos que estávamos a suprir uma ferramenta absolutamente essencial dos ecossistemas.

É curioso perceber que os miúdos conhecem os dinossauros todos mas não sabem os nomes dos animais que aqui viviam há quinhentos anos. Sem o sabermos, roubámos instrumentos fundamentais aos ecossistemas. Manipulámos os animais e os outros seres, vegetais, em função das nossas necessidades. Uma vaca, hoje, não é um instrumento num ecossistema, e cada vez que a domesticamos mais, mais lhe retiramos as capacidades de promoverem serviços no ecossistema.

Referiu que dois terços de Portugal são mato, mas que podem ser úteis. O que é possível fazer nessa parte do território?
Antes devemos perguntar-nos porque é que esses dois terços são mato, há quanto tempo o são e o que eram antes. A consequência desta abordagem não sistémica, de assaltar a natureza e de fazer agricultura é o mato, porque o mato é o deserto.

As plantas e os seres que nós vemos no mato são seres pioneiros, que estão a recuperar aquilo que nós estragámos. O drama disto é que em função das condições de clima e de sol cada uma destas etapas pode levar sete a setenta mil anos, e nas nossas condições de Mediterrâneo são mais para setenta do que para sete. Se apenas nos pusermos quietinhos a olhar para o mato à espera que regenere, vai demorar cinquenta mil anos. Não temos tempo para isso.

Aliás, a ideia que o homem só é capaz de destruir, não é capaz de regenerar activamente, não faz sentido. Não há nenhuma razão para que assim seja, por muito que haja algumas correntes de pensamento que gostem e utilizem essa ideia da origem maléfica da nossa espécie. Pelo contrário, somos tão capazes de destruir como de fazer coisas absolutamente maravilhosas. Esses dois terços já foram terras férteis, com florestas e bosques. Porque é que não comemos, por exemplo, plantas e frutos silvestres? A grande razão tem a ver com a agricultura. A agricultura do Neolítico levou à existência de mais humanos no Neolítico final. Mas esse entusiamo levou-nos à razia do ecossistema da Península Ibérica. O que se seguiu foram mais de dois mil anos de caos, de lei do mais forte, que apenas terminou com a chegada dos romanos, que convenceram os povos peninsulares que a comida do mato e do bosque, desse supermercado aberto que não podia ser taxado, não era boa. Fomos convencidos que a única comida boa era a domesticada e nunca mais se comeram bolotas nem produtos silvestres. Ou seja, virámos costas a uma diversidade enorme.

Tendo em conta o modelo económico que temos, como é que podemos encarar o consumo de bolota e de outros frutos silvestres no futuro?
Em primeiro lugar é preciso perceber que ninguém come trigo à dentada, na espiga. O trigo é um alimento extraordinário depois de transformado e processado em farinhas e noutro tipo de alimentos, portanto com a bolota há que se fazer o mesmo, aprender a processá-la e a transformá-la com utilidade prática. A questão da bolota é muito simples: no Mediterrâneo, uma área com carvalhos, por exemplo azinheiras e sobreiros, produz, mesmo com uma densidade baixa de árvores, mais quantidade de alimento do que qualquer cereal e sem gastar energia nas mobilizações de solo, sem provocar erosão, sem adubos, sem barragens e sem tubos. A bolota é tão interessante para a alimentação humana como qualquer cereal.

E a ideia de que se tem estar sempre a limpar, que sentido faz, tendo em conta que se devia aproveitar aquela biomassa?
Numa abordagem de monocultura, a limpeza não é mais do que retirar elementos do sistema para o poder controlar melhor. Normalmente aquilo a que chamamos limpezas são elementos do sistema que vão alimentar o solo. Quando comecei a fazer agricultura nos Açores, os meus colegas começaram a perguntar algo muito interessante, sobre a ração que eu tinha para o solo naquele ano, porque ali a noção que o solo, se não for alimentado – e não é com adubos – vai acabar.

Ou seja, para alimentar o mundo não é preciso recorrer aos transgénicos.
De forma alguma. Para alimentar o mundo é preciso, em primeiro lugar, percebermos o que é que comemos. Essa variável é fundamental. Outra questão é percebermos que somos a única espécie que não atende aos recursos quando pensa em multiplicar-se. Isto vem da tal divinação do ser humano. Se calhar temos de ter a consciência que com o planeta em 20% de clímax e 80% de deserto, se calhar não podemos ser tantos quantos gostaríamos de ser.

A não ser que se reverta...
E que nós caminhemos para a abundância. Mas mesmo assim temos de ter uma bitola para percebermos conscientemente e com métodos libertários, que nenhum ser neste planeta atua como nós. Não há nenhuma espécie que não atenda à forma como se reproduz em relação aos recursos que existem.

Se não houver recursos, vamos sofrer. Sendo que a questão fundamental passa pelo relacionamento entre nós próprios. Como diz o Papa Francisco é uma questão social. Nós nunca vamos reverter esta posição de domínio perante a natureza se não a invertermos entre nós próprios. Não somos iguais a um mosquito, porque temos funções diferentes no ecossistema, mas como São Francisco de Assis tão bem nos mostrou, também não somos nem mais nem menos que um mosquito, pelo que não podemos ter a arrogância de matar milhões de mosquitos apenas porque interessa fazer negócio.

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quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Aquecimento global deve atingir oferta mundial de alimentos antes de 1,5°C, diz especialista da ONU


É provável que o mundo enfrente grandes interrupções no abastecimento de alimentos bem antes que as temperaturas subam a meta de 1,5°C, alertou o presidente da conferência de desertificação da ONU, já que os impactos da crise climática se combinam com a escassez de água e práticas agrícolas inadequadas para ameaçar a agricultura global. .

Alain-Richard Donwahi, ex-ministro da Defesa da Costa do Marfim que liderou a cimeira Cop15 da ONU sobre desertificação no ano passado, disse que os efeitos da seca estão ocorrendo mais rapidamente do que o esperado.

“A mudança climática é uma pandemia que precisamos combater rapidamente. Veja o quão rápido a degradação do clima está indo – acho que está indo ainda mais rápido do que prevíamos”, disse ele. “ Todo mundo está fixado em 1,5 ºC [acima dos níveis pré-industriais], e é uma meta muito importante. Mas, na verdade, algumas coisas muito ruins podem acontecer, em termos de degradação do solo, escassez de água e desertificação, muito antes de 1,5°C.”

Os problemas de aumento das temperaturas, ondas de calor e secas e inundações mais intensas colocam em risco a segurança alimentar em muitas regiões, disse Donwahi. “[Veja] os efeitos das secas na segurança alimentar, os efeitos das secas na migração da população , o efeito das secas na inflação . Poderíamos ter uma aceleração de efeitos negativos, além da temperatura”, disse ele.

As más práticas agrícolas não estavam ajudando, disse ele. “A degradação do solo vem com maus hábitos, e a forma como fazemos nossa agricultura levará à degradação do solo. Quando o solo é afetado, o rendimento é afetado”, disse ele.

Donwahi pediu aos investidores do setor privado que se envolvam e aproveitem as oportunidades para obter lucro. “O setor privado tem interesse na agricultura e no melhor aproveitamento do solo. Estamos falando de [melhorar] os rendimentos. Estamos falando de agrofloresta , que é mais uma forma de o setor privado rentabilizar o investimento”, afirmou. “Temos que ser inovadores, para encontrar novos veículos para o financiamento.”

Governos de todo o mundo assinaram um tratado comprometendo-se a combater a desertificação em 1992, juntamente com a convenção-quadro da ONU sobre mudança climática, que é o tratado pai do acordo climático de Paris de 2015 , e a convenção da ONU sobre biodiversidade, que visa salvaguardar a abundância de espécies.

Mas o tratado de desertificação recebe menos atenção, e a Cop15 do ano passado sobre desertificação passou despercebida em comparação com a Cop27 do clima e a Cop15 da biodiversidade em dezembro passado. Os Cops da Desertificação são realizados com menos frequência do que as cimeiras do clima: a próxima conferência sobre a desertificação será realizada em Riad em dezembro de 2024, enquanto a próxima cimeira do clima, Cop28, será em Dubai no final de novembro .

Donwahi disse que o mundo não pode se dar ao luxo de ignorar a desertificação. “Precisamos resolver todos os problemas juntos. A desertificação e a seca levam à mudança climática, levam à perda de biodiversidade. E quando você tem alterações climáticas, você tem secas, inundações, tempestades.

“Não são apenas os países pobres, todos estão no mesmo barco [sobre a segurança alimentar]. Mudanças climáticas, secas, tempestades, inundações não conhecem fronteiras, não precisam de visto para entrar num país.”

terça-feira, 15 de agosto de 2023

Biocidas- Crisopa

 Chrysoperla carnea

Chrysoperla carnea, uma das espécies de crisopídeo verde comum, é um inseto da família Chrysopidae. Embora os adultos se alimentem de néctar, pólen e melada de pulgões, as larvas são predadores ativos e alimentam-se de pulgões, insetos e seus ovos.

terça-feira, 18 de julho de 2023

Árvores são santuários


"Árvores são santuários: quem quer que saiba falar com elas, ouvi-las, pode aprender a verdade. Elas não pregam lições e preceitos. Elas pregam, sem temer particularidades, as antigas leis da vida.

Uma árvore diz: um grão está escondido em mim, uma faísca, um pensamento, eu sou vida, da vida eterna. A tentativa e o risco da mãe eterna me conceber é única, única na textura e veias da minha pele, única no menor brincar das folhas nos meus ramos, única na menor das cicatrizes na minha casca. Eu fui feita para dar forma e revelar o eterno no menor dos meus mais especiais detalhes.

Árvores têm duradouros pensamentos, duradouros e restauradores respirares, e tão duradouras suas vidas quanto são as nossas. Elas são mais sábias do que nós somos, até que comecemos a ouvi-las. Mas quando aprendemos a ouvir as árvores, então, a brevidade, a rapidez, a inocência precipitada dos nossos pensamentos encontrarão incomparável alegria. Quem quer que aprenda a ouvir as árvores, acaba querendo ser como as árvores: não irão querer ser outra coisa senão o que realmente são. Aí está o Lar. Aí está a felicidade.” ~ Herman Hesse (1877-1962)

Texto completo: aqui

quinta-feira, 18 de maio de 2023

Árvores de má sorte


Os tubos de proteção estão vazios; as árvores morreram; sobrou lixo plástico a salpicar a paisagem. As plantações de árvores autóctones falham sistematicamente. Porquê?
Há sempre a hipótese das proveniências, mas a principal causa talvez não ande por aqui ...
A vala e cômoro foi a técnica mais usada nos grandes projetos de arborização pública do séc. XX: espreite-se o GoogleEarth: até parece que as montanhas do norte e centro foram cardadas pelo pente de um gigante. Estas arborizações tiveram como ponto de partida (condição inicial) montes cobertos por um mosaico de arbustos e pastagens graminoides perenes e anuais, estabilizado pela combinação de pastoreio e fogo pastoril – herbivoria pírica assim se diz agora. No tempo zero, o stock de carbono orgânico do solo atingira um máximo em equilíbrio com o macroclima. As arborizações de pinheiro-bravo a vala e cômoro prosperaram graças à "formação de solo" (sobretudo nos xistos), à concentração da água na vala, ao controlo da vegetação natural (os diásporos e propágulos foram arrojados para o fundo da cova), e à disponibilização de nutrientes através da mineralização da matéria orgânica do solo. Não fosse o fogo ...
Nas atuais plantações ao covacho com baixas densidades em solos martirizados por fogos severos (que consomem a matéria orgânica do solo), as árvores sofrem, ainda num estado precoce do desenvolvimento, as investidas da vegetação natural e passam sede e fome – falta-lhes, sobretudo, o azoto reduzido e o boro. Nestas condições, inevitável, o sucesso das plantações depende da fertilização química da terra e da contenção da progressão sucessional, através do controlo mecânico da vegetação ou do herbicida. O fogo controlado entra em seguida. A não perturbação do solo e esta insistência de que a floresta não precisa de ser fertilizada podem, afinal, ser contraproducentes.
Para serem eficazes e eficientes nos seus propósitos, a agricultura e a silvicultura enfrentam restrições biofísicas cuja mitigação/solução não está nas micorrizas, nos extratos de algas, nas misturas de aminoácidos, no imprinting epigenético, ou nas laudas desconexas aos benefícios da flora infestante ou de um microbioma que ninguém sabe como é, por exemplo. Os princípios fundamentais há que os procurar nas velhas agronomia e silvicultura. E, acrescento, convém que os ecólogos agrícolas e florestais entendam os mecanismos básicos da produção agrícola e florestal para que os ganhos sociais e ambientais dos atuais projetos de investigação no tema sejam reais. Por outras palavras, aproveita aprender umas coisas das engenharias agronómica e silvícola.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Financiamento para travar a desflorestação está muito aquém do que é preciso


Atualmente, estima-se que o financiamento, a nível mundial, para proteger as florestas da destruição é de entre dois e três mil milhões de dólares por ano. Mas um relatório da organização Energy Transitions Commission revela que, para proteger as florestas da destruição para fins económicos, reduzindo os incentivos à desflorestação, seriam precisos mais de 130 mil milhões de dólares ao ano.

Intitulado ‘Financiando a Transição: O custo de evitar a desflorestação’ (Financing the Transition: The Cost of Avoiding Deforestation, no original), o relatório, divulgado hoje, reconhece que é uma quantia “muito grande”, pelo que, além de ter de vir de pagamentos feitos pelas empresas no âmbito dos mercados voluntários de carbono, da filantropia e de um maior esforço por parte dos países mais ricos, proteger as florestas do mundo implicaria também uma série da ações não-financeiras.

Entre elas, reduzir a procura dos principais produtos que estão fortemente associados à desflorestação, e que a tornam atrativa, como o óleo de palma e a carne, criar modelos de negócio alternativos que permitam tornar lucrativa a conservação das florestas (como o ecoturismo e práticas sustentáveis que juntem a agricultura e a silvicultura), e também reforçar as medidas governamentais que travar a destruição das áreas florestais.

Contudo, os relatores reconhecem que implementar estas ações não-financeiras exige tempo, que podem ser apenas parte da solução e que podem não ser eficazes no curto prazo. Por isso, argumentam que, pelo menos para já, o pagamento de compensações às empresas e negócios que estão dependentes e beneficiam da desflorestação “desempenhará um papel importante” na proteção das florestas mais vulneráveis à destruição humana, pelo menos enquanto as ações não-financeiras não mostraram sinais de maturidade.

E salientam que os incentivos financeiros à proteção das florestas devem andar lado a lado com medidas como a ilegalização da desflorestação e a redução da procura por produtos associados a essa destruição.

Adair Turner, presidente da Energy Transitions Commission e membro da Câmara dos Lordes do Reino Unido, considera que sem um “significativo fluxo” de incentivos financeiros “qualquer redução da desflorestação chegará demasiado tarde para ser possível manter o aquecimento global bem abaixo dos dois graus Celsius”, tal como plasmado no Acordo Climático de Paris de 2015.

O responsável alerta, porém, que os apoios financeiros “por si só não conseguirão travar a desflorestação”, e que para tal são precisas ações para reduzir a procura dos produtos dessa destruição, sendo que, nesse âmbito, os governos, as empresas e os consumidores são inevitavelmente chamados a agir e a fazerem as escolhas necessárias e que são urgentes para assegurar um planeta habitável por muitas mais gerações.

O relatório recorda que quase 15% do total das emissões de dióxido de carbono produzidas pelas ações humanas derivam da desflorestação, pelo que travar e transformar as atividades que dela dependem e beneficiam é fulcral para combater o aquecimento global e a degradação dos ecossistemas.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Um quarto de todas as espécies conhecidas de abelhas não é visto desde 1990


Os nossos polinizadores estão em crescente declínio. Cerca de um quarto das populações de abelhas desapareceram. Em algumas populações o declínio foi de 40% ou superior. As causas associadas ao seu desaparecimento são sobretudo duas: alguns parasitas, entre eles alguns vírus. Mas, sobretudo, a utilização indiscriminada de pesticidas na agricultura, entre eles os neonicotinóides e o glifosato. Já escrevi sobre assunto. Os herbicidas à base de glifosato actuam como antimicrobianos no tracto digestivo dos insectos, destruindo a sua população microbiana e provocando-lhes a morte. Contudo, em muitos municípios portugueses, Matosinhos incluído, usam o ácido pelargónico (herbicida) com a etiqueta de "ecológico" (como se algum herbicida sintético pudesse ser ecológico) sabendo que este herbicida é também insecticida, fundamentalmente porque está comprovado que mata as abelhas. Por favor, fiquem atentos aos herbicidas aplicados nas vossas áreas, e, se quiserem ter uma cidadania activa e lutarem para que sejam abolidos, podem pedir ajuda por aqui.

Agrofloresta de sucessão: o futuro da agricultura sustentável está nas árvores?

São cada vez mais evidentes os efeitos das alterações climáticas, mas também as consequências da ação humana na natureza. Cenários como o aumento das temperaturas, secas severas e prolongadas ou a degradação dos solos têm-nos alertado para a necessidade de uma mudança de paradigma na agricultura convencional. Neste cenário, um “novo” tipo de agricultura, que está ainda a dar os primeiros passos no Mediterrâneo, reintroduz as árvores como elemento-chave para a sustentabilidade do processo e ecossistema.

Na Horta da Malhadinha, situada em Mértola, podemos encontrar um conjunto de plantas diversas. Todas elas cumprem uma determinada função, explica o agricultor António Coelho. Ali, desde 2019, está a ser implementado um sistema de agricultura regenerativa, a que se chama sintrópica ou agrofloresta de sucessão.

“Esta tipologia de agricultura trabalha muito em sucessão, na sucessão natural das espécies, mas também em estratificação”, refere. A estratificação indica a quantidade de luz que uma determinada planta necessita, e ela é caracterizada em função da luz que necessita. “Temos aqui plantas de estrato baixo, estrato médio, estrato alto e estrato emergente”, continua. “Normalmente, todas as que cumprem essa função de estrato emergente são plantas, a que também podemos chamar plantas cooperantes, que só servem basicamente para ser podadas e que vão, de alguma forma, criando toda essa dinâmica de nutrição do solo e de composição.”

Um choupo ou um eucalipto, por exemplo, são aqui plantas emergentes, nota o agricultor. “Servem para serem podadas constantemente e, através dessa dinâmica, não só nos providenciam matéria vegetal para cobrir o solo, mas também um conjunto de dinâmicas relacionadas com as próprias raízes das plantas, que vão libertando açúcares, à medida que elas se vão decompondo”, clarifica António. Aqui, nutrir o solo significa nutrir as plantas das quais nos alimentamos. Há várias árvores plantadas em fila. Entre elas, estão hortícolas e frutícolas.

A agricultura sintrópica é uma reaprendizagem da forma de fazer agricultura com a floresta. “Durante demasiado tempo, durante séculos, milénios, a agricultura acabou por ser compartimentada, deixando a floresta fora do sistema”, diz Pedro Nogueira, arquiteto paisagista. “Havia uma complementaridade, mas não uma integração da agricultura e da floresta. E a agricultura sintrópica revê essa separação e propõe esse tema muito mais integrado.”

Na Horta da Malhadinha, há uma promoção de uma grande biodiversidade de espécies e não há preconceito em relação às espécies a serem usadas. “Acima de tudo, queremos promover a biodiversidade e, dentro dessa biodiversidade, potencialmente, todas as espécies poderão fazer parte e, a partir daí, a forma como vamos assumindo as características diferenciais das várias plantas, ou nas suas funções produtivas, ou nas suas funções mais regeneradoras (...). Esse é o grande motor de fertilidade do sistema.”

Para Pedro Mendes Moreira, professor da Escola Superior Agrária de Coimbra, “as árvores têm de entrar no nosso sistema [agricultura].” Contudo, este é um sistema com mais variáveis. “Por isso é bem mais difícil de controlar e exige um conhecimento mais abrangente por parte dos agricultores”, considera. “A questão do número de espécies, a questão do clima, da luz”, enumera. “Se tenho uma monocultura, tenho de escolher a variedade mais adequada ao local. Em muitos casos, tenho uma receita que tenho de cumprir, especialmente em agricultura convencional, que foi uma forma de nivelar os problemas do local para o local.”

Praticar agricultura, imitando a natureza

O sistema agroflorestal de sucessão, também conhecido como agricultura sintrópica, foi desenvolvido pelo suíço Ernst Götsch, inspirado na forma como as florestas se desenvolvem.

A plantação é feita de forma sincronizada com espécies agrícolas (hortícolas e frutíferas) e espécies florestais. A plantação em alta densidade e diversidade só é possível graças à utilização de espécies de ciclo de vida curto, médio e longo, ocupando todos os estratos de uma floresta (rasteiro, baixo, médio, alto e emergente). Respeitando estes princípios, otimiza-se o aproveitamento da luz do sol, dos recursos hídricos e garantem-se plantações agrícolas mais produtivas.

Trata-se de regenerar pelo uso, uma vez que a criação de áreas agrícolas altamente produtivas – e que tendem à independência de insumos (fertilizantes e pesticidas) e irrigação – tem, como consequência, aquilo a que se chamam serviços do ecossistema, como a formação de solo, a regulação do microclima ou o favorecimento do ciclo da água. Ou seja, o plantio agrícola é concomitante à regeneração de ecossistemas.

“É um sistema muito complexo de gestão. É por isso que muitas vezes nem todas as pessoas o seguem”, afirma Pedro Mendes Moreira. “Primeiro temos de saber quais as plantas que lidam melhor umas com as outras. Depois, como é que podemos intervir nas plantas que estão presentes no sistema, para nos serem úteis e serem úteis ao próprio sistema. Basta lembrar a utilização de algumas plantas: umas são para a produção, mas outras podem ser, por exemplo, simplesmente para a biomassa. E nós vamos integrar essa biomassa no solo. E porque é que integrámos essa biomassa no solo? Porque se tivermos, por exemplo, estilha (material que é triturado dessas plantas que são produzidas), muitas vezes, só para a obtenção de biomassa, estamos a dar oportunidade para que os microrganismos se possam desenvolver, a que a captação da água seja mais fácil e, portanto, consigamos aumentar a matéria orgânica do solo.”

As árvores, diz perentoriamente, “devem ser uma parte da equação.” Mas é necessário também intervir no seu manuseamento. “É preciso ter controlo dessas árvores porque rapidamente elas tomam conta do sistema.”

Trabalhar a fertilidade dos sistemas

Como explica Pedro Nogueira, na agricultura sintrópica há uma grande preocupação com os mecanismos de fertilidade do sistema, que, segundo ele, têm sido cada vez mais “dissociados daquilo que é o alimento”. A regeneração ou a retroalimentação do sistema é essencial.

“Aquilo que mais se vê noutros modelos agrícolas é a devastação de um determinado local para inclusão de uma determinada espécie. E estes sistemas funcionam exatamente ao contrário. É ter essa base daquilo que queremos produzir”, diz António. “No nosso caso, são hortícolas e frutícolas. Mas há outras formas de o fazer. E, percebendo isso, percebemos também que outras espécies poderíamos incluir neste sistema, que nos permitissem manter a nossa atividade agrícola, mas melhorando substancialmente o local onde trabalhamos”, continua. Na sua opinião, essa retroalimentação do solo é uma das grandes mudanças em comparação com outros tipos de agricultura mesmo até o modelo de agricultura biológica “dito convencional”, que “emita um pouco o que são as outras agriculturas convencionais”. “Tendencialmente continuam a ser sistemas monoculturais. Tendencialmente continuam a não produzir para esse alimento de solo e continuam a ser sistemas eminentemente extrativistas”, acrescenta Pedro Nogueira.

A Horta da Malhadinha tem certificação biológica já desde 2008. Mas, garante António, praticar agricultura de sucessão são “sete passos acima”, no que à sustentabilidade diz respeito. “É tentar perceber como é que conseguimos ter uma atividade agrícola, de horticultura e de fruticultura, mas conciliando também esta parte florestal, não só porque ela vem regenerar tudo o que é más práticas e vem dar uma hipótese de recuperação dos solos através das técnicas utilizadas, mas também porque faz com que consigamos ter uma atividade que consiga suportar todo este investimento que vamos fazendo.”

Plantar água no sistema

A presença das árvores no sistema é fundamental na manutenção da água. Isso acontece devido à transpiração. “Sem florestas, não temos água, e é isso que também fazemos através de sistemas agroflorestais”, explica Pedro Nogueira.

Se noutros tipos de agricultura, se pensa na gestão hídrica, através da irrigação e da diminuição da dotação pelo tipo de irrigação proposta, aqui a preocupação é outra. “Tendencialmente ou crescentemente, fomos vendo as florestas como sítios de monoculturas, como sítios muito simplificados, não só na biodiversidade presente, mas também na composição, na arquitetura do próprio sítio”, analisa o arquiteto paisagista. “Além de serem espaços muito biodiversos, são espaços estratificados. Há plantas com necessidades luminosas muito distintas, precisam de muita luz, média e pouca luz, com alturas distintas, e todas elas a transpirar, a promover essa humidade relativa. Isto é água no sistema, isto é plantar água”, continua. “Quando temos esse sistema biodiverso estratificado, existe uma tendência do próprio sistema que faz com que a água desça ao nível do solo, quase um vórtex no próprio sistema, onde todos os estratos estão a produzir água e todos eles fazem com que a água desça ao nível do solo. Quando tens monoculturas, quando tens esses povoamentos florestais, onde há a transpiração a nível da copa, mas nada existe abaixo da copa, então essa água tendencialmente perde-se do sistema.”O cumulativo de árvores a transpirar no sistema permite assim que estes sejam também sistemas mais amenos e frescos.

Para Marina Nobre, cofundadora da associação Reflorestar Portugal, as árvores ainda não são utilizadas como poderiam ser na agricultura. “Existem políticas públicas que são arcaicas, e existem práticas que são subsidiadas e que não têm uma visão, tanto a nível urbano, como a nível do campo, de utilização do potencial das árvores.” Segundo a mesma, ainda é “muito retrógrado” aquilo que se verifica em Portugal ao nível de políticas públicas. “Tínhamos um arquiteto paisagista, que era o Ribeiro Telles – que morreu, creio que há dois anos –, que já há mais de 30 anos falava sobre questões agrossilvopastoris, de uma paisagem em mosaico, que os incêndios podem ser previsíveis... inclusive, ele previu estas enchentes que existiram agora em Lisboa, Algés, etc. Portanto, a informação existe”, sublinha.

“Depois existe uma máquina, capital, interesses e forças que são muitas vezes maiores do que a razão. E existem também muitos preconceitos e conceitos arcaicos dentro da própria ecologia”, completa. “Na página da Reflorestar, temos várias postagens polémicas, em relação às espécies que utilizamos, em relação ao método de plantação, porque as pessoas acham que é tudo muito perto... Mas trabalhar com a informação do sistema ou tentar replicar a forma como a natureza funciona, não vai junto com os métodos a que as pessoas geralmente estão habituadas e isso causa um bocado de estranheza.”

Desde 2018, a Reflorestar Portugal – criada após os incêndios em Pedrógão Grande – tem-se dedicado a melhorar a colaboração entre quem atua sobre as florestas e comunidades em Portugal e a disseminar os princípios da permacultura, da sintropia e as técnicas agroflorestais e métodos colaborativos. Entre várias outras iniciativas, realizaram uma série de cursos sobre agrofloresta de sucessão. “Os sistemas de produção alimentar da forma como são a nível do grande mercado mundial, de produção de alimentos, ou de produção de madeira, não tem como se manter a longo prazo. Porque um mesmo hectare, ano após ano, explorado em monocultura e com o cocktail de químicos e fertilizantes, não é economicamente viável”, reforça Marina. “Por isso é que a maior parte dos governos acaba por entrar com grandes subsídios, para que a agricultura consiga pagar as suas contas, mas não é sustentável em termos da terra. A terra acaba por deixar de produzir. Portanto, ou morre toda a gente sem comida, ou tem que se mudar a forma como as coisas são feitas.” Mais otimista, acrescenta: “E felizmente, existem muitos cientistas, engenheiros, agrónomos, florestais, biólogos, muitas pessoas, de várias áreas da ciência que já se dedicaram a estudar a viabilidade deste tipo de práticas, viabilidade económica, viabilidade ecológica, o restauro dos solos a nível da fixação de carbono, o restauro do ciclo da água e os resultados são realmente incríveis. Por isso, é uma questão de bom senso.”

Uma solução aplicável à larga escala?

Para António Coelho, este não é um tipo de agricultura que seja só para complementar. “Estamos a falar de um tipo de agricultura que, no Mediterrâneo, ainda é pequenino. É um sistema que está a dar os primeiros passos. Mas se recorreremos à origem, de onde vem esta tipologia de agricultura, vemos também que temos sistemas altamente produtivos e com alta capacidade de regeneração dos ecossistemas como um todo.” Na sua opinião, a ciência terá um papel fundamental na perceção de qual é a influência direta que existem nos ecossistemas e na viabilidade desta prática.

Segundo Pedro Mendes Moreira, é preciso estudar e investigar, para verificar se é ou não possível aplicar esta tipologia em grande escala. “Como é que podemos fornecer ao agricultor alguns modelos que possam ser mais exequíveis?”, coloca. Em causa está o custo da mão de obra para a poda das árvores, ou a mecanização numa prática agrícola onde os alimentos e plantas são plantados muito próximos. “Há questões que se prendem realmente com a mecanização. Há outros que se prendem com a simplificação dos sistemas. Apesar de falarmos na questão da biodiversidade, que é importantíssima, muitas vezes, a utilização de muitas espécies, em simultâneo, não significa que não possamos ter as infraestruturas ecológicas, ao lado do nosso campo de sintrópica, mas precisamos de simplificar para tornar possível a que mecanização funcione mais facilmente.

Fonte: Gerador