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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

The Durutti Column & Caoilfhionn Rose - Free From All The Chaos

Melhor som aqui
Letra
Beside the poplar trees, where I like to go.
Away from busy rhythms of the city, to the languid River Mersey.
Beneath the rain filled clouds, the wind carries a song,
Away from all the chaos, into Fletcher Moss.
Walking through the Alpine Gardens, loved by my gran,
Nothing seems to matter here, sitting on Rory's bench.
Beside the poplar trees.
Away from busy rhythms of the city, to the languid River Mersey.
Beneath the rain filled clouds, the wind carries a song,
Away from all the chaos, into Fletcher Moss.

A filosofia do desapego e da Natureza em Free From All The Chaos 
A faixa Free From All The Chaos, lançada no álbum Chronicle XL (2014) de The Durutti Column e com a voz radiante da cantora e compositora Caoilfhionn Rose, é uma obra de profunda ressonância contemplativa. Nascida no ambiente sereno do parque Fletcher Moss, em Manchester, a composição transforma-se num santuário sonoro que explora o impacto da paisagem natural no bem-estar psicológico e na busca pela paz interior. A lírica delicada funciona como um lembrete intimista de que a libertação da ansiedade e do peso das memórias passadas resulta de uma escolha consciente sobre a forma como percepcionamos o presente, utilizando a ligação com a terra e o tempo como meios fundamentais para a regeneração espiritual.

O videoclipe foi realizado por Rich Williams, no Fletcher Moss Park, Manchester. Curiosamente todos os colaboradores vivem na mesma cidade Manchester

A nível filosófico, a canção manifesta uma clara aproximação ao pensamento estoico, no qual a verdadeira tranquilidade, ou ataraxia, não depende da ausência de dificuldades externas, mas sim do domínio sobre a própria mente e sobre a interpretação das circunstâncias. Ao sugerir que a libertação depende do modo como escolhemos sonhar e encarar o tempo que passa, o tema reflete a máxima de que não são as coisas que nos perturbam, mas sim os julgamentos que fazemos sobre elas. Paralelamente, observa-se uma perspectiva fenomenológica da existência, em que o contacto direto com os elementos naturais convida à aceitação da impermanência e à consciência do momento presente como o único espaço onde a verdadeira cura pode ocorrer.

No plano literário, a obra dialoga com o transcendentalismo do século XIX, evocando a tradição de autores como Henry David Thoreau e Ralph Waldo Emerson, que viam na imersão na natureza a via primordial para a emancipação do espírito e para a descoberta da autenticidade pessoal, longe do ruído da sociedade. Transparece também a influência do lirismo romântico e contemplativo, próximo da poesia de William Wordsworth, na qual a beleza tranquila do mundo natural serve de bálsamo para as inquietações da alma. Integrada no universo musical de Vini Reilly, marcado historicamente pela melancolia e pelo luto, a voz de Caoilfhionn Rose acrescenta uma dimensão elegíaca e de esperança, onde a brevidade do texto poético condensa uma profunda busca por redenção, serenidade e desapego do caos quotidiano.

sábado, 27 de junho de 2026

Slowdive - Sugar for the Pill

Melhor som aqui
Letra
There's a buzzard of gulls
Travelling in the wind
Only lovers alive
Running in the dark

[Refrão]
And I rolled away, said we never wanted much
Just a rollercoast', our love has never known the way
Sugar for the pill, you know it's just the way things are
Cannot buy the Sun, this jealousy will break the whole

Cut across the sky
And move a little closer now
Lying in a bed of greed
You know I had the strangest dream

[Refrão] 2X

"Sugar for the Pill", da banda britânica de shoegaze Slowdive, é uma canção melancólica e atmosférica que explora a complexidade, o desgaste e a inevitabilidade do fim de uma relação amorosa. O título da música baseia-se numa conhecida metáfora inglesa ("sugarcoating the pill"), que significa adocicar ou suavizar uma pílula amarga para que seja mais fácil de engolir. No contexto da letra, esta imagem serve como o pilar central para descrever a tentativa infrutífera de mascarar uma realidade dolorosa: o amor entre duas pessoas esfriou e a rutura é inevitável.

Ao longo do tema, a narrativa evoca uma forte sensação de desapego, solidão partilhada e cansaço emocional. O vocalista Neil Halstead canta sobre um casal que parece estar fisicamente próximo, mas emocionalmente distante, comunicando através de silêncios ou de palavras que já não conseguem curar as feridas existentes. As referências ao vento, à perda de controlo e ao ato de "dar voltas" sugerem um ciclo vicioso de discussões ou de tentativas falhadas de salvar o que resta, onde ambos sabem que o desfecho será o afastamento.

A expressão "açúcar para a pílula" funciona, assim, como uma crítica a esse esforço de manter as aparências ou de adiar o sofrimento. Por mais que os envolvidos tentem encontrar desculpas, usar palavras meigas ou recorrer a falsos confortos para suavizar o impacto da separação, a verdade subjacente permanece amarga e imutável. A música capta precisamente o momento em que se ganha a consciência de que a ilusão já não funciona e de que é necessário encarar a dor de frente, sem anestesias.

Sonoramente, a faixa espelha esta mensagem com maestria. A linha de baixo constante e a guitarra minimalista e cheia de eco criam um ambiente flutuante, quase hipnótico, que traduz o sentimento de se estar à deriva. Em suma, "Sugar for the Pill" é uma reflexão íntima sobre a desilusão amorosa e a aceitação da perda, ilustrando a transição dolorosa entre o esforço de romantizar um problema e a inevitável rendição à realidade dos factos.

Neil Halstead explicou detalhadamente a origem da canção no podcast Song Exploder. A inspiração visual para o início da letra - a famosa imagem das gaivotas na bruma ("There's a blizzard of gulls...") - surgiu durante caminhadas que Neil fazia na costa de Cornualha (Cornwall), no sudoeste de Inglaterra, onde vive. O barulho e o caos das aves marinhas daquela região costeira ditaram o tom inicial. Também disse que se inspirou na música depois de ler o clássico Os Montes Uivantes (Wuthering Heights), de Emily Brontë. Neil Halstead revelou que leu o livro pela primeira vez em 2014, enquanto escrevia o álbum. Ele ficou fascinado pela envolvência da natureza na história e pela relação intensamente destrutiva e condenada entre Heathcliff e Cathy. Esse ambiente ventoso, selvagem e melancólico dos pântanos ingleses serviu de metáfora perfeita para o romance em ruínas que a música retrata.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

A Ancestralidade das Florestas

"O tempo aqui não avança,
ele se enraíza profundamente.
Um segredo guardado
nas cascas grossas das árvores,
onde a seiva é o sangue antigo
que batiza a terra,
um leito de folhas caídas,
de ossos esquecidos,
de águas que guardam o passado.

Vastidão antiga,
onde cada tronco retorcido
é um ancestral que observa,
e cada sombra,
um refúgio místico e quieto.

As copas tocam o céu numa prece silenciosa,
tecem redes de um verde que desafia os milénios.
A terra, em sua paciência densa e rude,
conhece o ciclo,
sabe que tudo, um dia, retornará a ela.

É um diálogo invisível,
tecido pelos micélios,
fios sutis sob o tapete do chão.
Aqui, não há o novo nem o velho,
apenas a eterna, a viva pulsação
que conecta tudo.

Respirar esta mata
é sorver a memória,
a essência de quem já foi bicho,
de quem foi vento que soprou,
de semente que germinou.
A floresta não narra a nossa história;
ela nos sonha,
sem interrupção,
eternamente."

João Soares, 14.02.216

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Saba, o segredo mais bem guardado das Caraíbas que Colombo desvalorizou



Situada a 45 quilómetros de St. Maarten, a ilha de Saba, com 13 quilómetros quadrados, não é o primeiro sítio que nos ocorre quando pensamos em turismo de aventura. Envolta em vegetação selvagem de todos os ângulos, esta ilha vulcânica quase parece vazia quando vista ao longe. Sem semáforos, nem arranha-céus, nem praias, nem multidões, permanece relativamente desconhecida, sendo uma das ilhas habitadas mais pequenas das Caraíbas.

No entanto, este isolamento é exactamente aquilo que torna Saba pouco convidativa e intrigante. Em 1493, a ilha chamou a atenção de Cristóvão Colombo, que preferiu não parar ali devido à sua costa escarpada. Ironicamente, aquilo que dissuadiu os exploradores atraiu, mais tarde, os bandidos: a ilha acabou por se tornar um dos esconderijos preferidos de piratas e contrabandistas, que se refugiavam nas suas falésias íngremes e enseadas isoladas.

Subir a Mount Scenery
Visível tanto a partir de terra como do mar, o vulcão adormecido de Mount Scenery é o pináculo de Saba e o ponto mais alto do Reino dos Países Baixos. Embora haja vários trilhos para percorrer, o mais extenuante é a escadaria de 1.064 degraus até ao cume– certamente não recomendado para principiantes.

Embora grande parte da terra tenha permanecido inutilizada até ao século XX, as encostas suaves foram cultivadas até à década de 1960, quando o Trilho de Mount Scenery começou a ser construído. “A minha tarefa era carregar cimento e água no burro do meu pai. Quatro homens e quatro burros. Comecei em 1969 e completei os degraus até ao último em 1970”, recorda o residente e guia, James ‘Crocodile’ Johnson.

Ao longo do trilho, verá flora e fauna selvagem de ambos os lados. O Giant Taro, ou ‘orelhas de elefante’, funciona como abrigo das chuvadas tropicais. Perto do cume, dois trilhos estreitos conduzem os caminhantes até ao centro da floresta nebulosa, densamente coberta de árvores de mogno e com uma neblina fresca bem-vinda.

Visite os melhores sítios para mergulhar
O pico de um vulcão extinto nas ilhas setentrionais das Pequenas Antilhas, Saba está rodeada por falésias e baías que conduzem a sítios de mergulho espectaculares. A ilha é particularmente famosa pelos seus pináculos e montes marinhos (vulcões subaquáticos) que se erguem até 26 metros acima da superfície. Existem mais de 30 sítios para mergulhar protegidos poucos minutos do porto e a ilha alberga o maior atol submerso do oceano Atlântico.

Os recifes em forma de anel são formados pela erupção de montes marinhos que expelem lava e criam ilhas oceânicas. Em seguida, corais minúsculos aderem a estas ilhas, criando o exosqueleto dos recifes. Com uma biodiversidade próspera, composta por baleias, tubarões, golfinhos, tartarugas e peixes, o Parque Nacional de Saba Bank foi criado em 2010.

Situado na extremidade oriental de um monte marinho em forma de ferradura, o Third Encounter atinge uma quantidade máxima de 33 metros e fica perto do misterioso Eye of the Needle. Estendendo-se 27 metros abaixo da superfície, o pináculo é o lar de tubarões-de-recife-caribenhos, tubarões-lixa, mantas, vários cardumes de peixes e uma garoupa de Nassau amigável chamada Charlie.

As famosas areias quentes e saliências dramáticas de Saba podem ser encontradas em Babylon, onde tartarugas-de-pente e tubarões-lixa deslizam graciosamente junto a fluxos de lava e rampas de areia. Um pouco mais a sul, as Hot Springs (Nascentes Quentes) realçam as origens vulcânicas da ilha com uma grande variedade de vida marinha e rochedos incrustados com corais.

Onde fazer caminhadas
É possível encontrar solitude em toda a ilha de Saba. Acordar com o suave coaxar de centenas de rãs arborícolas todos os dias. Existe natureza intocada em todos os cantos. Com as suas ruas serpenteantes e massas verdejantes, passear em Saba é como entrar e sair da ilha, mas também existem alguns trilhos de caminhada bem mantidos.

A vista do topo de Mount Scenery é deslumbrante, com fiapos de nuvens e vislumbres distantes da civilização, mas existem mais 20 trilhos de caminhada bem mantidos para caminhantes de todos os níveis. Partindo no mesmo ponto que o Trilho de Mount Scenery, em Windwardside, o Trilho Crispeenatravessa a floresta húmida secundária de Saba, onde poderá observar várias espécies de aves, insectos e flora vibrante.

Ponha o seu equilíbrio à prova no Ladder Trail (Trilho da Escada) – cerca de 800 degraus ao longo da costa. Este caminho foi outrora a principal rota para o transporte de mercadorias. Esculpida na rocha, a escadaria íngreme proporciona vistas panorâmicas do oceano e é uma lição de humildade.

Com poças tranquilas e ondas furiosas, o Tidepools Trail (Trilho das Poças de Maré) é um espectáculo para todos os sentidos. Este trilho fácil demora 25 minutos a percorrer (num só sentido) junto à costa e é uma maneira especial de observar rios de lava antigos e ecossistemas vibrantes.

Onde praticar snorkeling
A ilha é um destino mais indicado para mergulhadores e os praticantes de snorkeling costumam ser dirigidos para os recifes mais superficiais (Torrens Point, Tent Reef e Hole in the Corner), onde estarão mais seguros.

Os mares intocados e os vestígios vulcânicos atraem uma abundância de vida marinha para os recifes em redor de Saba. O Parque Marinho de Saba conta com mais de 30 sítios para mergulhar e alguns sítios para praticar snorkeling de fácil acesso. As águas pouco profundas de Wells Bay contêm uma variedade de espécies juvenis e estruturas subaquáticas interessantes. Também é um dos únicos locais de ilha onde pode entrar directamente no mar directamente a partir da costa, graças à sua praia que cresce e encolhe, dependendo das marés. Outro sítio de snorkeling popular fica na extremidade norte de Wells Bay. As águas protegidas e a transparência de Torrens Point proporcionam excelentes condições para um mergulho em águas rasas ou uma exploração de snorkeling mais experiente, com profundidades entre 1,5 e 9 metros. A opção mais comum para os visitantes é apanhar um barco para visitar alguns sítios para praticar snorkeling, com a ajuda de um guia

terça-feira, 26 de novembro de 2024

Conselhos para envelhecer bem


Escrito por uma alma de 90 anos!
42 lições que a vida me ensinou
“É algo que todos deveriam ler pelo menos uma vez por semana.”
“Certifique-se de ler até o fim.”
“Para celebrar o envelhecimento, escrevi as lições que a vida me ensinou. É a coluna mais pedida que já escrevi.”
“Meu conta-quilômetro rolou para 90 em agosto, então aqui estão elas mais uma vez.”
Escrito por Regina Brett, 90 anos, do Plain Dealer, Cleveland, Ohio.
“A vida não é justa, mas ainda é boa.”
“Quando em dúvida, dê o próximo pequeno passo.”
“A vida é curta demais para desperdiçá-la.”
“Seu trabalho não cuidará de você quando estiver doente, mas seus amigos e família sim.”
“Quite seus cartões de crédito todos os meses.”
“Você não precisa vencer todas as discussões. Seja fiel a si mesmo.”
“Chore com alguém. É mais curativo do que chorar sozinho.”
“Comece a economizar para a aposentadoria no primeiro cheque de salário.”
“Quando se trata de chocolate, a resistência é inútil.”
“Faça as pazes com o passado para que ele não estrague o presente.”
“Não faz mal deixar seus filhos verem você chorar.”
“Não compare sua vida com a dos outros. Você não conhece a jornada deles.”
“Se um relacionamento precisa ser segredo, você não deveria estar nele.”
“Respire fundo. Isso acalma a mente.”
“Desfaça-se de tudo que não for útil. O peso da desordem é maior do que você imagina.”
“O que não te mata realmente te fortalece.”
“Nunca é tarde demais para ser feliz. Mas isso depende apenas de você.”
“Quando for atrás do que ama, não aceite um não como resposta.”
“Use as velas, os lençóis bonitos e a lingerie especial. Hoje é uma ocasião especial.”
“Prepare-se, mas depois siga o fluxo.”
“Seja excêntrico agora. Não espere a velhice para usar roxo.”
“O órgão sexual mais importante é o cérebro.”
“Ninguém está no comando da sua felicidade além de você.”
“Reenquadre os desastres com a pergunta: ‘Isso vai importar em cinco anos?’”
“Escolha sempre a vida.”
“Perdoe, mas não esqueça.”
“O que os outros pensam de você não é da sua conta.”
“O tempo cura quase tudo. Apenas dê tempo.”
“Por melhor ou pior que uma situação seja, ela mudará.”
“Não se leve tão a sério. Ninguém mais leva.”
“Acredite em milagres.”
“Não audite a vida. Apenas apareça e aproveite agora.”
“Envelhecer é melhor que a alternativa: morrer jovem.”
“Seus filhos têm apenas uma infância. Não a desperdice.”
“No fim, tudo o que importa é que você amou.”
“Saia todos os dias. Milagres estão ao seu redor.”
“Se víssemos os problemas dos outros, pegaríamos de volta os nossos.”
“Invejar é perda de tempo. Valorize o que você já tem.”
“O melhor ainda está por vir.”
“Não importa como você se sente, levante-se, vista-se e apareça.”
“Desista do controle.”
“A vida não vem com um laço, mas ainda é um presente.”

domingo, 28 de abril de 2024

Zona de Coimbra de Monte Formoso em risco de extinção


Eucaliptos e pinheiro, pinheiro e eucaliptos e betão, hotéis e real state. Nas cidades, cantoneiras sem árvores, podas radicais continuam. Temos involuído a olhos vistos. Portugal está feio, pobre em diversidade florestal e pobre na criação de mais Paisagens protegidas.
Há pouco tempo passei por Coimbra.
A Zona de Coimbra de Monte Formoso, o último e único verdadeiro Jardim Natural Botânico de vegetação Nacional, está em vias de se tornar uma zona de prédios e estradas!!! Vamos perder um património natural Nacional que é de todos só porque alguém quer construir mais e mais e simplesmente não querem saber o que vão destruir!!! Contem-se nas fotos mais de 3 espécies de orquídeas, uma Empusa pennata (Louva-a-Deus) e uma diversidade fantástica de tantas outras flores e insectos! Colegas meus sinalizaram-na como zona de caça de andorinhas e andorinhões, milhafres, águias de asa redonda e até águias calçadas… mas como é tão extraordinário então toca a destruir! Toca a contribuir para a evolução da floresta nacional destruindo pouco a pouco os poucos jardins e paisagens realmente portuguesas e que mereciam queixa-crime no Ministério Público.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Relembrar Teófilo Braga - o Presidente da República que disse não ao automóvel


O Centenário da morte de Teófilo Braga (24.2.1843 - 28.1.1924) passou despercebido. Era açoriano e foi presidente da República durante dois mandatos, entre 1910 e 1915. Recusou automóvel oficial, considerando que isso seria um símbolo de ostentação e de distanciamento do povo. Ao tomar posse, recusou o automóvel oficial que lhe foi oferecido, preferindo usar o transporte público ou andar a pé, para poder estar mais próximo das pessoas. Excerto de um discurso de Teófilo Braga, em que ele explica a sua recusa do automóvel oficial: "Não quero automóvel. Não quero automóvel porque sou pobre. Não quero automóvel porque sou um homem do povo. Não quero automóvel porque não quero que me vejam como um aristocrata ou um monarca. Quero que me vejam como um companheiro, como um amigo, como um irmão."

A obra literária de Teófilo Braga é imensa e portanto impossível de a enumerar exaustivamente num documento resumo, como este pretende ser. Não queremos é deixar de mencionar alguns exemplos, quanto mais não seja para ilustrar a diversidade das áreas sobre que se debruçou. Assim, Folhas Verdes, de 1859, Stella Matutína, de 1863, Visão dos Tempos e Tempestades Sonoras, de 1864, A Ondina do Lago, de 1866, Torrentes, em 1869, Miragens Seculares de 1884, representam incursões no campo da poesia. Ainda neste campo escreve a História da Poesia Popular Portuguesa, em 1867, abrangendo o Romanceiro Geral e Cancioneiro Popular e A Floresta de Vários Romances de 1868.

Como investigador das origens dos povos, seguiu a linha da análise dos elementos tradicionais desde os mitos, passando pelos costumes e terminando nos contos de tradição oral, que lhe permitiram escrever obras como Os Contos Tradicionais do Povo Português, de 1883, O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições, em 1885, e História da Poesia Portuguesa, que lhe levou anos a escrever, procurando as suas origens através das várias épocas e escolas.

As áreas restantes das suas 360 obras, abrangem campos tão diversos como o da História Universal, História do Direito, da Universidade de Coimbra, do Teatro Português, da influência de Gil Vicente naquela forma de manifestação artística, da Literatura Portuguesa, das Novelas Portuguesas de Cavalaria, do Romantismo em Portugal, das Ideias Republicanas em Portugal, passando pelos folhetos de polémica literária e política e ensaios biográficos, como o que respeita a Filinto Elísio.
Além desta verdadeira enxurrada literária, nem sempre abordada com o rigor exigido, o que lhe valeu várias críticas dos meios literários da época, não se pode esquecer o seu contributo para a coordenação das obras de Camões, Bocage, João de Deus e Garrett, os prefácios para tantas obras dos escritores mais representativos e um sem-número de artigos escritos para os jornais do seu tempo.

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Olhos parados - Manoel de Barros


"Olhar, reparar tudo em volta, sem a menor intenção de poesia.
Girar os braços, respirar o ar fresco, lembrar dos parentes.
Lembrar da casa da gente, das irmãs, dos irmãos e dos pais da gente.
Lembrar que estão longe e ter saudades deles…
Lembrar da cidade onde se nasceu, com inocência, e rir sozinho.
Rir de coisas passadas. Ter saudade da pureza.
Lembrar de músicas, de bailes, de namoradas que a gente já teve.
Lembrar de lugares que a gente já andou e de coisas que a gente já viu.
Lembrar de viagens que a gente já fez e de amigos que ficaram longe.
Lembrar dos amigos que estão próximos e das conversas com eles.
Saber que a gente tem amigos de facto!
Tirar uma folha de árvore, ir mastigando, sentir os ventos pelo rosto…
Sentir o sol. Gostar de ver as coisas todas.
Gostar de estar ali caminhando. Gostar de estar assim esquecido.
Gostar desse momento. Gostar dessa emoção tão cheia de riquezas íntimas."

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Charles Baudelaire - A Natureza é um templo


A natureza é um templo onde vivos pilares
Podem deixar ouvir confusas vozes: e estas
Fazem o homem passar através de florestas
De símbolos que o vêem com olhos familiares.

Como os ecos do além confundem os rumores
Na mais profunda e tenebrosa unidade,
Tão vasta como a noite e como a claridade
Harmonizam-se os sons, os perfumes e as cores.

Há perfumes frescos como carnes de criança
Doces como oboés, ou verdes como as campinas.
E outros, corrompidos, mas ricos e triunfantes

Que possuem a efusão das coisas infinitas
Como o sândalo, o almíscar, o benjoim e o incenso,
Que cantam o êxtase, do espírito e dos sentidos.

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Sempre Henry David Thoreau

Eco-caminho Maia
"Os homens dizem muito conhecer
Mas, vede, quanta fantasia-
Ciências, artes , os saberes,
Mil utensílios de sabedoria,
Mas o sopro do vento
É tudo o que o corpo entende."

Ler mais:

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

A Esperança Digna de Espanto


Enganem-se os que pensam que só nascemos uma vez. Para quem quiser ver, a vida está cheia de nascimentos. Nascemos muitas vezes ao longo da infância, quando os olhos se abrem em espanto e alegria. Nascemos nas viagens sem mapa que a juventude arrisca. Nascemos na sementeira da vida adulta, entre invernos e primaveras maturando a misteriosa transformação que coloca na haste a flor e dentro da flor o perfume do fruto. Nascemos muitas vezes naquela idade avançada onde os trabalhos não cessam, mas se reconciliam com laços interiores e caminhos adiados. Nascemos quando nos descobrimos amados e capazes de amar. Nascemos no entusiasmo do riso e na noite de certas lágrimas. Nascemos na prece e no dom. Nascemos no perdão e no confronto. Nascemos em silêncio ou iluminados por uma palavra. Nascemos na tarefa e na partilha. Nascemos nos gestos ou para lá dos gestos. Nascemos dentro de nós e no coração de Deus.
Não podemos viver sem esperança, mas esta não é uma tarefa nem evidente, nem fácil. Precisamos de uma educação para a esperança. A esperança não é um lenitivo que adormece a dor até que ganhemos coragem para tratar a sério da vida, mas uma força que impregna já o presente e nos motiva para a transformação da história.
A esperança é, então, um dinamismo concreto, uma laboriosidade no aqui e no agora, um fazer aberto ao futuro.
Sobre o seu significado profundo e como se pratica, há aquela história do velho monge que se propunha alcançar o cimo de uma montanha e que, numa das etapas iniciais do caminho, pernoitou numa estalagem. O estalajadeiro reparou na sua fragilidade e tentou dissuadi-lo, enumerando os perigos que o espreitavam. O monge, porém, respondeu: ‘Tenho a certeza de que chegarei lá’. ‘E como é que um homem fraco como tu pode ter semelhante certeza? Para mais, vem aí um inverno duro’. O ancião retorquiu: ‘Coloquei lá em cima o meu coração e por isso sei que, mesmo assim inseguros, os meus passos hão de chegar lá’.
José Tolentino Mendonça, in Expresso, 12.01.2019

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Como reconhecer os sintomas do AVC - podemos salvar vidas


Durante o churrasco, Inês caiu. Queriam chamar uma ambulância mas ela insistiu que estava bem e que só tropeçara por causa dos sapatos novos. Ela estava um pouca pálida e tremia. Inês passou o resto da noite bem disposta e alegre. Mais tarde, o marido dela telefonou a informar, que a mulher fora internada no hospital. Às 23 horas falecera. Ela tinha tido um AVC durante o churrasco. Se os outros soubessem reconhecer os sintomas do AVC, ela poderia ainda estar viva. Algumas pessoas não morrem logo mas ficam durante muito tempo sujeitas a apoios e numa situação de desespero.
Só demora 1 minuto a ler o seguinte. 
Um neurologista disse, se ele consegue chegar ao pé de um individuo que sofreu um AVC, ele pode eliminar as sequelas de um AVC. Ele disse, o truque é diagnosticar e tratar a pessoa durante as primeiras 3 horas. 
Como reconhecer um AVC?
 Há 4 passos que devem ser seguidos para reconhecer um AVC. 
- Peça à pessoa para rir (ela não vai conseguir). 
- Peça à pessoa para dizer uma frase simples (por exemplo: hoje está um dia bonito). 
- Peça à pessoa para levantar os dois braços (não vai conseguir bem). 
- Peça à pessoa para mostrar a língua (se a língua estiver torta ou virar dum lado para o outro, é um sintoma). 
Se a pessoa tem alguns destes sintomas chamar imediatamente o 112, explicando tudo o que se está a passar. O paciente será atendido como prioritário num Serviço de Urgência onde o tratamento será prontamente instituído e o diagnóstico realizado.
Um cardiologista disse, se for possível divulgar estas dicas a um número elevado de pessoas, podemos ter a certeza, que alguma vida - eventualmente a nossa própria possa ser salva.
Mandamos todos os dias tantas coisas inúteis, também podemos encher as linhas com coisas importantes, não acham?
Se também consideram importante, partilhe.

terça-feira, 24 de outubro de 2023

Poema da Semana - "Nego submeter-me ao medo" por Rudolf Steiner

"Nego submeter-me ao medo,
Que tira a alegria de minha liberdade,
Que não me deixa arriscar nada,
Que me torna pequeno e mesquinho,
Que me amarra,
Que não me deixa ser direto e franco,
Que me persegue,
Que ocupa negativamente a minha imaginação,
Que sempre pinta visões sombrias. No entanto, não quero levantar barricadas por medo do medo. 
Eu quero viver, não quero encerrar-me.
Não quero ser amigável por medo de ser sincero.
Quero pisar firme porque estou seguro.
E não porque encobri meu medo.
E quando me calo, quero fazê-lo por amor.
E não por temer as consequências de minhas palavras.
Não quero acreditar em algo só por medo de acreditar.
Não quero filosofar por medo de que algo possa atingir-me de perto.
Não quero dobrar-me só porque tenho medo de não ser amável.
Não quero impor algo aos outros, pelo medo de que possam impor algo a mim.
Por medo de errar não quero tornar-me inativo.
Não quero fugir de volta para o velho, o inaceitável, por medo de não me sentir seguro no novo.
Não quero fazer-me de importante porque tenho medo de que senão poderia ser ignorado. 
Por convicção e amor quero fazer o que faço e deixar de fazer o que deixo de fazer.
Do medo quero arrancar o domínio e dá-lo ao amor.
E quero crer no reino que existe em mim."
Rudolf Steiner

sábado, 21 de outubro de 2023

Ansiedade climática: o síndrome das novas gerações

As alterações climáticas são cada vez mais uma questão de saúde mental, e a população mais afectada atualmente é a de faixa etária mais jovem.


É comum dizer-se que os jovens estão a ficar preocupados com o futuro do planeta e que isso lhes está a prejudicar o equilíbrio emocional e mental, mas na verdade este sintoma é comum a várias idades, com a diferença que os jovens se sentem mais inseguros e com menos poder de decisão.

Um estudo da revista Lancet, publicado em Dezembro 2021, revelou a primeira investigação com mais amplitude neste âmbito: foram entrevistadas 10 mil jovens (com idades entre 16 e 25 anos) em dez países (Austrália, Brasil, Finlândia, França, Índia, Nigéria, Filipinas, Portugal, Reino Unido e EUA). Mil participantes por país. Os jovens portugueses estavam entre aqueles que demonstravam mais ansiedade.

Nas conclusões do estudo face às alterações climáticas, 59% dos inquiridos “estavam muito ou extremamente preocupados e 84% estavam pelo menos moderadamente preocupados. Mais de 50% relataram cada uma das seguintes emoções: tristeza, ansiedade, raiva, impotência e culpa.

Mais de 45% dos entrevistados disseram que os seus sentimentos sobre as alterações climáticas afetaram negativamente a sua vida quotidiana e funcionamento, e muitos relataram um elevado número de pensamentos negativos sobre as alterações climáticas (por exemplo, 75% disseram que pensam que o futuro é assustador e 83% disseram que eles acham que as pessoas falharam em cuidar do planeta)”.

Perante uma amostra bastante representativa do que pensam os jovens sobre o impacto das alterações climáticas, uma das conclusões do estudo é que “essa angústia estava associada a crenças sobre resposta governamental inadequada e sentimentos de traição”, e que para eles “o futuro é assustador, a humanidade está condenada”, pois “não terão acesso às mesmas oportunidades que os seus pais tiveram”. Além disso, “consideram que tudo o que valorizam será destruído, a segurança está ameaçada e estão hesitantes em ter filhos”.

A pesquisa mostrou como a ansiedade climática pode ser uma experiência coletiva, mesmo que vivida com maior ou menor intensidade. Estamos quase em Dezembro de 2023 – dois anos depois do estudo referido – e as notícias sobre a crescente ansiedade e sentimento de impotência dos jovens continuam a dar sinais de alerta, como é referido nesta notícia da CBS do Canadá, publicada em agosto, na altura em que os fogos devastaram parte do país.

No dia 10 de Outubro – o Dia Mundial da Saúde Mental – a publicação Euro News sugeriu algumas ideias para evitar estados de eco-ansiedade. Uma delas referia-se à inércia causada pela quantidade de informação científica: “Não demore a fazer mudanças na sua vida ou a tornar-se um ativista enquanto lê o relatório do IPCC. Afinal, tem 1.800 páginas. Pode demorar um pouco.”

As alterações climáticas são assim e cada vez mais, também uma questão de saúde mental, e a população mais afectada atualmente é a de faixa etária mais jovem – porque se por um lado sentem que as decisões governamentais não são suficientes, por outro sentem uma grande pressão com a sua responsabilidade para com o futuro.

terça-feira, 6 de junho de 2023

Pico do Evereste - uma montanha de lixo


Antes do descalabro, em 1991, o Comitê de Controle de Poluição de Sagarmatha (SPCC) foi fundado para ajudar a manter limpa a região de Khumbu, em parte por meio do gerenciamento de locais de coleta de lixo controlados. Tudo estava mais ou menos controlado. Com a chegada de nômadas digitais, turistas de toas a espécie, só pensavam nas selfies no pico do Everest, ignorando o lixo que produziam. 
A primeira grande denúncia chego em  2015, onde se mostravam que as pilhas de lixo têm aumentado exponencialmente nesta região.
Na língua tibetana, o Monte Evereste é chamado de “Chomolungma” (“Qomolangma” em chinês), que significa “deusa mãe do mundo”. Para o povo sherpa, a montanha é um lugar sagrado, merecedor de dignidade e respeito.

Hoje, o Evereste está tão superlotado e cheio de lixo que é chamado de “o depósito de lixo mais alto do mundo”.

Mais de 600 pessoas tentam escalar o Monte Evereste a cada temporada de escalada durante as poucas semanas do ano, quando as condições climáticas são perfeitas. Além disso, para cada alpinista há pelo menos um trabalhador local que cozinha, transporta equipamentos e orienta a expedição. A montanha ficou tão superlotada que muitas vezes os alpinistas precisam ficar na fila por horas em condições de frio congelante para chegar ao topo, onde o ar é tão rarefeito que é necessária uma máscara de oxigênio para respirar. Eles caminham em fila indiana a passos de tartaruga sobre o Degrau Hillary, o último obstáculo antes do cume. Quando os alpinistas finalmente chegam ao cume, mal há espaço para ficar de pé por causa da superlotação.

Cada um desses alpinistas passa semanas na montanha, ajustando-se à altitude numa série de acampamentos antes de avançar para o cume. Nesse período, cada pessoa gera, em média, cerca de oito quilos de lixo, e a maior parte desse lixo fica na montanha. As encostas estão repletas de cilindros de oxigénio vazios descartados, barracas abandonadas, recipientes de comida e até fezes humanas. No Acampamento Base, há banheiros em tendas com grandes barris de coleta que podem ser carregados e esvaziados. Mas é aí que terminam as instalações sanitárias. No restante da expedição, os alpinistas precisam se aliviar na montanha.

Ninguém sabe exatamente quanto lixo há na montanha, mas é em toneladas. O lixo está vazando das geleiras e os acampamentos estão transbordando com pilhas de dejetos humanos. A mudança climática está fazendo com que a neve e o gelo derretam, expondo ainda mais lixo que foi coberto por décadas. Todo esse lixo está destruindo o ambiente natural e representa um sério risco à saúde de todos que vivem na bacia hidrográfica do Evereste.

A bacia hidrográfica do Parque Nacional de Sagarmatha é uma importante fonte de água para milhares de pessoas que vivem em comunidades ao redor do Monte Evereste. A bacia hidrográfica inclui a terra que direciona as chuvas e o degelo das montanhas para os córregos e rios. Não há gestão de resíduos ou instalações sanitárias na área, então o lixo e o esgoto são despejados em grandes poços fora das aldeias locais, onde são levados para os cursos d'água durante a estação das monções. A bacia hidrográfica local foi contaminada, o que pode ser incrivelmente perigoso para a saúde da população local. Sabe-se que a água contaminada com matéria fecal causa a propagação de doenças mortais transmitidas pela água, como cólera e hepatite A.

O que sobe tem que descer
Tanto os governos quanto as organizações não-governamentais (ONGs) tentaram – e estão tentando – limpar a lixeira no Monte Everest. Em 2019, o governo nepalês lançou uma campanha para limpar 10.000 quilos  de lixo da montanha. Eles também iniciaram uma iniciativa de depósito, que está em andamento desde 2014. Quem visita o Monte Evereste tem que pagar um depósito de $ 4.000, e o dinheiro é devolvido se a pessoa retornar com oito quilos de lixo - a quantia média que um único pessoa produz durante a subida.

Não são apenas as autoridades locais tentando fazer a diferença. Durante anos, o Comitê de Controle de Poluição de Sagarmatha (SPCC) trabalhou incansavelmente para manter a região limpa. O SPCC é uma ONG sem fins lucrativos administrada por sherpas locais. Eles gerenciam o lixo na área ao redor do Monte Everest, garantem que as pessoas tenham permissão legal para escalar e educam os visitantes sobre como cuidar do meio ambiente.

O Projeto de Biogás do Monte Evereste também está a trabalhar para encontrar uma solução sustentável de longo prazo para o problema de saneamento da área. Eles têm planos de construir um sistema movido a energia solar que transformaria dejetos humanos em combustível para as comunidades locais. De acordo com o site do projeto, isso impediria que as fezes humanas fossem despejadas nas aldeias locais, o que reduziria o risco de contaminação da água e criaria mais empregos locais.

Desde que Edmund Hillary e Tenzing Norgay chegaram ao cume em 1953, mais de 4.000 pessoas seguiram seus passos, e outras centenas tentam a escalada a cada temporada. Algumas pessoas argumentaram que o governo nepalês deveria ter regras mais rígidas sobre quantas pessoas podem tentar escalar o Monte Everest a cada ano, mas o Nepal depende da renda que os alpinistas trazem para a área. No Nepal, uma em cada quatro pessoas vive abaixo da linha da pobreza, e as licenças de escalada geram milhões de dólares em receita para a economia local. Os visitantes do parque também geram empregos e salário para a população local que oferece hospedagem ou trabalha como carregadores e guias.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

John Haines


O domínio físico do campo tinha em mim a sua contrapartida. Os caminhos que percorria conduziam para o exterior, para as montanhas e os pântanos, mas também conduziam ao interior. E a partir do estudo das coisas que eu piso, e a partir da leitura e do raciocínio, surgiu um tipo de exploração, eu próprio e a terra. A certa altura, na minha mente os dois tornaram-se um só. Seguir o caminho e não olhar para trás. A pé, em direcção às montanhas, uma marca elevada, uma pistas de pegadas revelariam para onde eu tinha ido. Que o resto da humanidade me encontrasse, se o conseguisse.

Biografia: 

Entrevista:

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Empilhar pedras pode prejudicar a biodiversidade


Num artigo publicado na revista científica Human-Wildlife Interactions, uma equipa internacional de investigadores, da qual fazem parte vários investigadores do cE3c, alerta que o empilhamento de pedras pode prejudicar várias espécies, algumas das quais já ameaçadas de extinção. A criação de montinhos de pedras tem-se tornado uma prática popular um pouco por todo o mundo, encontrando-se associada ao turismo de natureza e à partilha de fotografias nas redes sociais.

Em passeio ou numa caminhada, pode já ter encontrado um destes montinhos de pedras. São cada vez mais populares e surgem inclusive em áreas protegidas – por exemplo no Parque Nacional do Teide em Tenerife, nas Ilhas Canárias (Espanha) ou no Parque Nacional de Thingvellir na Islândia –, onde se encontram associados ao crescimento do turismo de aventura e de natureza e à partilha de fotos nas redes sociais. Mas estas estruturas modificam o habitat de várias espécies animais e vegetais que utilizam rochas como refúgio ou que dependem das condições microclimáticas associadas às mesmas, prejudicando a biodiversidade nestes locais.

Montinhos de pedras no Parque Nacional de Thingvellir na Islândia. ©: Filipe Tavares.

Também em Portugal existem locais onde os visitantes deixam a sua marca – como na Serra da Estrela e em diversas praias na Costa Vicentina, por exemplo. Apesar de poderem ser úteis como marco de orientação em zonas montanhosas, chamados de mariolas neste caso, os montes de pedras, quando não têm o intuito de sinalizar o caminho podem induzir caminhantes em erro e trazer danos para a biodiversidade. No artigo de opinião agora publicado, os investigadores alertam para o potencial impacto desta prática.

“Esta prática tem um impacto preocupante em zonas sensíveis para a conservação da natureza, pois existem diversas espécies, particularmente em zonas áridas, que dependem das condições microclimáticas associadas às pedras existentes nos seus habitats. Nas Ilhas Selvagens por exemplo, a maioria das pedras com mais de um palmo de diâmetro dão abrigo a uma ou mais osgas-das-Selvagens, uma espécie endémica e ameaçada de extinção. As pedras isoladas criam condições especiais de temperatura e humidade que são importantes para várias espécies e a disposição das pedras influencia a dinâmica entre predadores e presas ou entre competidores. Por isso mover, retirar ou partir estas pedras pode provocar um desequilíbrio no ecossistema”, explica Ricardo Rocha, primeiro autor deste artigo. Ricardo Rocha é investigador do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais – cE3c, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e investigador do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos – CIBIO-InBIO, da Universidade do Porto.

Os investigadores descrevem o potencial impacto desta prática na Ponta de São Lourenço, o local mais a leste da Ilha da Madeira, incluído na Rede Natura 2000 e no Parque Natural da Madeira. Sendo um destino de turismo de natureza muito popular, nos últimos anos estas estruturas têm-se multiplicado, levando à erosão do solo e a danos na vegetação. Aqui, a perturbação de habitat associada à construção de montinhos de pedras ameaça várias espécies endémicas com distribuições muito reduzidas, como o briófito Riccia atlantica, classificada como ‘Criticamente em Perigo’ pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês).

Lagartixa da Madeira (Teira dugesii), único réptil nativo da ilha, que depende das rochas para refúgio. ©: Ricardo Rocha.

Na Madeira, o único réptil nativo da ilha – a lagartixa da Madeira (Teira dugesii) – depende destas rochas para se refugiar. A Ponta de São Lourenço acolhe também uma grande diversidade de invertebrados – como a tarântula-insular (Hogna insularum), endémica do arquipélago, e a aranha-flor-da-Madeira (Misumena nigromaculata), endémica especificamente da Madeira – que dependem da disponibilidade e da não perturbação destas rochas para sobreviver. É também esse o caso de vários moluscos terrestres endémicos da Ilha da Madeira, como o caracol de São Lourenço (Amphorella tornatellina minor), que se encontra restrita à Ponta de São Lourenço.

“Existem várias espécies que dependem destas pedras como abrigo e, por isso, pedimos a quem visita zonas sensíveis para a conservação da natureza que não mova estas pedras. Limitem-se aos trilhos pré-existente e tentem reduzir o vosso impacto ao máximo. Não é fácil antecipar quais as consequências que atividades aparentemente inócuas, como a construção destes montinhos de pedras, podem ter em zonas com espécies sensíveis e ameaçadas”, alerta Ricardo Rocha.

Painel informativo na Ponta de São Lourenço, Parque Natural da Madeira, alertando os visitantes para a importância de respeitar e preservar os valores do local, em particular para a importância de não mover as pedras. ©: Ricardo Rocha.

Em zonas urbanizadas, como na Praça do Comércio, em Lisboa, onde também podemos encontrar estas estruturas, a atividade não é particularmente problemática, do ponto de vista do investigador. “No entanto, mesmo nestas zonas, a construção destes montinhos de pedras eventualmente leva a banalização destas estruturas, e isso pode, quase que por contágio, induzir a construção destes montes de pedras em zonas mais sensíveis”, explica Ricardo Rocha. Deste modo, os investigadores incentivam também as autoridades a impor restrições na construção destas estruturas e a desmantelar as já existentes, de modo a não encorajar novas construções que possam constituir uma ameaça à biodiversidade em zonas particularmente sensíveis.

quinta-feira, 6 de abril de 2023

O sherpa recordista de subidas do Evereste: “Não há futuro no Nepal”


Um alpinista malaio sobreviveu por pouco depois que um guia sherpa nepalês o puxou do cume do Monte Everest num resgate “muito raro” em alta altitude, disse uma autoridade do governo na quarta-feira. Gelje Sherpa, 30, estava guiando um cliente chinês até o cume do Everest, a 8.849 metros , em 18 de fevereiro, quando viu o alpinista malaio agarrado a uma corda e tremendo de frio extremo na área chamada de “zona da morte”, onde as temperaturas pode cair para menos 30ºC ou menos. Gelje puxou o alpinista 600 metros  para baixo da área de Balcony até o colo sul, durante um período de cerca de seis horas, onde Nima Tahi Sherpa, outro guia, se juntou ao resgate. “Nós envolvemos o alpinista  numa esteira de dormir, arrastamos na neve ou o carregamos nas costas até o acampamento III”, disse Gelje. 
Um helicóptero usando uma longa linha o ergueu do acampamento III de 7.162 metros de altura até ao acampamento base. “É quase impossível resgatar alpinistas nesta altitude”, disse Bigyan Koirala, funcionário do Departamento de Turismo, à Reuters. “É uma operação muito rara.” Gelje disse que convenceu seu cliente chinês a desistir de sua tentativa de cume e descer a montanha, dizendo que era importante para ele resgatar o alpinista. “Salvar uma vida é mais importante do que rezar no mosteiro”, disse Gelje, um budista devoto. Tashi Lakhpa Sherpa, da empresa Seven Summit Treks, que forneceu logística para o alpinista malaio, se recusou a identificá-lo, citando a privacidade de seu cliente. 
O alpinista foi colocado num voo para a Malásia na semana passada. O Nepal emitiu um recorde de 478 licenças para o Evereste durante a temporada de escalada de março a maio deste ano. Pelo menos 12 alpinistas morreram - o maior número em oito anos, e outros cinco ainda estão desaparecidos nas encostas do Evereste. examinava os altos e baixos da vida sentado em uma poltrona na pequena e organizada sala de estar de seu apartamento alugado, enquanto sua esposa servia chá. 
“Não há futuro no Nepal”, disse o pai de dois filhos de 53 anos à Reuters no fim de semana. “Por que ficar aqui?” ele perguntou, falando no seu nepalês nativo e um pouco de inglês quebrado. “Precisamos de um futuro para nós mesmos… para os nossos filhos.” 
Usando um boné de beisebol com a legenda “Everest Man” e seu rosto escurecido pelo vento e pelas queimaduras da neve, Kami Rita está claramente orgulhoso das suas conquistas. Mas ele também é grato porque o dinheiro que ganhou como guia em expedições nas montanhas o ajudou a se mudar para a capital do Nepal para que seus filhos pudessem ter a educação que ele nunca recebeu. 
O filho, de 24 anos, estuda turismo e a filha, de 22, faz curso de Tecnologia da Informação. “Isso não teria sido possível se eu tivesse continuado em Thame e não tivesse começado a escalar”, disse Kami Rita, que deixou a escola em seu vilarejo nas montanhas quando tinha cerca de 12 anos. 
Prémios e certificados do Guinness World Record enchem a vitrina atrás dele, e pósteres de Kami Rita no Monte Everest adornam as paredes, mas ele falou em emigrar para os Estados Unidos para encontrar novas oportunidades para sua família. Kami Rita nasceu na mesma aldeia do Himalaia que Tenzing Norgay, o sherpa que junto com o neozelandês Sir Edmund Hillary fez o primeiro cume do Monte Evereste há 70 anos. 
A vila de Thame fica em Solukhumbu, um distrito que se tornou a Meca dos montanhistas desde a primeira escalada bem-sucedida em 29 de maio de 1953. Localizada na fronteira com o Tibete da China, a maior glória de Solukhumbu é o Monte Evereste, o pico mais alto do mundo com 8.849 metros, mas também abriga Lhotse (8.516 metros), Malaku (8.481 metros), Cho Oyu (8.201 metros), Gyachung Kang (7.952 metros) e Nuptse (7.855 metros) - todos nomes que qualquer alpinista de ponta gostaria de ter seu currículo. 
Os sherpas, um grupo étnico que vive na região do Everest, sempre foram a espinha dorsal das expedições nas montanhas. Eles consertam cordas, escadas, carregam cargas e também cozinham, ganhando algo entre $ 2.500 e $ 16.500 ou mais, dependendo da experiência, durante uma única expedição. 
Mas os jovens sherpas, segundo Kami Rita, estão se afastando dessa vida. “A nova geração de sherpas não gosta de escalar. Eles querem ir para o exterior em busca de uma carreira melhor”, disse. “Em 10 a 15 anos haverá menos sherpas para guiar os alpinistas. O número deles já é baixo agora.” Muitos guias sherpas renomeados deixaram o Nepal em busca de melhores oportunidades no Ocidente, principalmente nos Estados Unidos. De fato, o famoso Tenzing Norgay também emigrou, mas apenas até a vizinha Índia, onde trabalhou para uma escola de escalada. O alpinismo e o trekking atraem milhares de estrangeiros ao Nepal todos os anos, contribuindo com mais de 4% para a economia de US$ 40 biliões. O país ganhou US$ 5,8 milhões em taxas de permissão - US$ 5 milhões apenas do Monte Everest - durante a temporada de escalada de março a maio deste ano. Funcionários de empresas de turismo estimam que mais de 500.000 pessoas estão empregadas no turismo, mas muitas permanecem economicamente vulneráveis ​​nesta nação empobrecida de 30 milhões de pessoas. “O governo faz pouco pelo bem-estar dos sherpas”, disse Kami Rita, instando as autoridades a lançar esquemas de bem-estar como um fundo de previdência, benefícios de aposentadoria e facilidades de educação para seus filhos. As expedições que contratam sherpas devem fazer um seguro de vida para eles, mas o pagamento é de apenas 1,5 milhão de rúpias nepalesas (cerca de US$ 11.300). Três sherpas morreram no mês passado ao cruzar a traiçoeira cascata de gelo Khumbu no Everest. “Isso deve ser aumentado para 5 milhões de rúpias (cerca de US$ 38.000)”, disse Kami Rita, esfregando suavemente um hematoma em sua bochecha. ($ 1 = 131,83 rúpias nepalesas). Quão relevante é este anúncio para você? 1.000 pessoas estão empregadas no turismo, mas muitas permanecem economicamente vulneráveis ​​nesta nação empobrecida de 30 milhões de pessoas. “O governo faz pouco pelo bem-estar dos sherpas”, disse Kami Rita, instando as autoridades a lançar esquemas de bem-estar como um fundo de previdência, benefícios de aposentadoria e facilidades de educação para seus filhos. As expedições que contratam sherpas devem fazer um seguro de vida para eles, mas o pagamento é de apenas 1,5 milhão de rúpias nepalesas (cerca de US$ 11.300). 

sábado, 31 de dezembro de 2022

Bom 2023

O Homem tem que interagir sobre o ambiente mas devia ser de uma forma mais espiritual e não da forma tão depredadora como está a proceder. Devia contemplá-la e fazer parte da Natureza, da GeoTerra e não contra ela. Reduzir o desperdício, percepcioná-la e cuidar dela. Agir para além da papelada técnica e maçadoramente doentia assim como mitigar o consumismo e virtualidades. Uma simples folha num campo e/ou pousada no meu rosto é para mim um encanto e de uma intensa felicidade. Ou estar rodeado das nossas irmãs árvores, como as adoro. Uma vivência mais frugal, próxima da Natureza. Simplicidade voluntária. Decrescimento. 
Que 2023 vos traga o que mais vos iluminar e nutrir! Amor, Saúde, Paz, Alegria, Abundância, Luz!