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terça-feira, 31 de março de 2026

Forrest Dickison


Forrest Dickison é um conceituado ilustrador e pintor norte-americano, nascido em 1989 em Moscow, Idaho, onde reside e mantém o seu atelier até hoje. A sua formação é marcada por uma sólida base técnica no storytelling visual e na pintura tradicional a óleo, o que lhe permitiu transitar com naturalidade entre as Belas Artes e o mercado editorial. Academicamente, Dickison consolidou o seu conhecimento em artes narrativas, atuando hoje também como professor no Camperdown Writers' Kiln.

O seu estilo artístico é dual: na ilustração, apresenta um traço lúdico e dinâmico que remete à estética clássica da animação, com cores vibrantes e personagens expressivos; já na pintura de paisagem (fine art), adota uma abordagem impressionista e atmosférica, focada na técnica en plein air. Os seus temas principais dividem-se entre a captura da luz dramática e das vastas formações de nuvens das colinas de Palouse e das montanhas de Montana, e a criação de mundos de fantasia para a literatura infantil.

Embora muitas vezes associado a comunidades religiosas pelo seu local de residência, Dickison não é mórmon. Ele é um artista de confissão cristã evangélica reformada, mantendo uma colaboração estreita com a editora Canon Press e com o autor N.D. Wilson, com quem desenvolveu projetos de grande sucesso, incluindo a série Hello Ninja (adaptada para a Netflix) e diversas obras de narrativa épica e histórica.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Anna von Hausswolff - The Mysterious Vanishing of Electra


My feet are not enough
My feet are not enough
My feet are not enough
My feet are not enough
Oh, to save me

Oh, to save me

His search is not enough
His search is not enough
Oh, to find me

Oh, to find me

My love is not enough
Oh, my love is not enough-ough
To save me
Oh, to save me

You search through the forest and the bottomless sea
And you cry
Push the trees, push the sky, push the air aside
You look at their faces and their meaningless loss
And you cry
Who is she, who is she, who is she who is she to say goodbye?


A Impotência perante a erda
Em "The Mysterious Vanishing Of Electra", o tema central do álbum Dead Magic (2018) ganha uma forma visceral. Anna von Hausswolff não se limita a cantar sobre o luto; ela constrói um exorcismo sonoro que explora a paralisia e a frustração humana perante o que é irreversível.

O Simbolismo da busca e o peso do Mito
O título remete imediatamente para Electra, um nome com fortes raízes na tragédia grega (o complexo de Electra) No entanto, a letra expande este arquétipo para uma narrativa de perda universal e desesperada.

A composição assenta na ideia de insuficiência:
  1. A limitação humana: A repetição de frases como "My feet are not enough" (Os meus pés não são suficientes) e "My love is not enough" sublinha que nem o esforço físico nem a devoção emocional conseguem resgatar quem se partiu.
  2. Cenários míticos: Ao evocar buscas por "florestas e mares sem fundo", a artista transporta o desespero do plano terreno para um cenário quase lendário, onde a "desaparição" de Electra parece definitiva.
  3. A incompreensão: A pergunta "Who is she to say goodbye?" (Quem é ela para dizer adeus?) revela a perplexidade e a revolta de quem fica para trás, incapaz de aceitar o destino.
Uma Performance de Pura Urgência
A estrutura da canção reflete uma urgência que é tanto física como espiritual. A repetição exaustiva dos versos, aliada aos vocais de Anna — que evoluem de melodias introspectivas para gritos guturais —, simboliza uma dor que já não cabe em palavras comuns. É o som de uma alma a tentar conter o inconformável.

A catedral de som: o Órgão de Tubos
O peso emocional da obra é sustentado por uma base sonora monumental, fruto de uma escolha artística rigorosa:
  1. O local: o instrumento foi registado na Marmorkirken (Igreja de Mármore), em Copenhaga. Anna escolheu este local pela acústica única do enorme domo, afirmando que o som do órgão parecia "cristalizar" e disparar notas como ondas hipnotizantes.
  2. O instrumento: trata-se de um órgão Marcussen & Søn de 1963, que incorpora tubos originais de 1894, conferindo uma textura histórica e imponente à faixa.
  3. Produção: gravado ao vivo em estéreo com o produtor Randall Dunn, o órgão cria o drone cavernoso que serve de fundação à música.
Embora o videoclipe oficial, realizado por Maria von Hausswolff, apresente uma estética visual sombria em cenários exteriores, é a reverberação das paredes desta igreja dinamarquesa que ancora a sensação de isolamento e transcendência da canção.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Sandrine Piau and Armand Amar : Vivaldi - "Nisi Dominus"




Cum dederit dilectis suis 
somnum; 
Ecce haereditas Domini, filii: 
Merces, fructus ventris. 

When he has given sleep
to those he loves,
Behold, children are an inheritance
of the Lord,
A reward, the fruit of the womb


Embora o "Nisi Dominus" (RV 608) de Antonio Vivaldi tenha passagens que soam profundamente melancólicas e introspectivas, ele não é uma música de luto (como um Requiem), mas sim um Salmo de louvor e confiança.

O Significado e o Texto
A obra é uma ambientação musical do Salmo 127 (ou 126 na Vulgata Latina). O tema central não é a morte, mas a dependência humana de Deus.

A Tradução do Título: "Nisi Dominus" significa "A menos que o Senhor...".

A Mensagem: O texto diz que, sem a bênção divina, o trabalho humano é inútil: "Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam".

Por que ela soa como luto?
A confusão é muito comum por causa de um movimento específico: o "Cum Dederit".

O "Cum Dederit": É o quarto movimento desta obra e um dos mais famosos de Vivaldi. Ele é lento (Largo), etéreo e possui uma linha vocal que parece flutuar sobre cordas em surdina.

O Tema do Sono: A letra deste movimento diz: "Pois ele dá o sono aos seus amados". Na música barroca, o "sono" era frequentemente uma metáfora para a morte ou para a paz espiritual absoluta.

Uso no Cinema: Essa faixa é constantemente usada em filmes para cenas de tragédia, introspecção ou luto (como no filme James Bond: Spectre ou Suburra), o que reforça essa associação emocional no nosso cérebro.

AspectoDescrição
GêneroMúsica Sacra (Vesperal)
VozEscrita originalmente para um Contralto (ou Contra-tenor)
SentimentoContemplação, serenidade e submissão divina

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Boxing Day ou dia de Santo Estevão


Hoje é feriado no Reino Unido, e em vários países europeus. Em terras de Sua Majestade celebra-se o Boxing Day, que coincide com o o dia de Santo Estevão. Na Idade Média, e mesmo nos séculos seguintes, era um dia dedicado à caridade. As famílias abastadas dispensavam os trabalhadores e criados, e ofereciam-lhes comida e dinheiro, como recompensa por terem servido os patrões na Consoada e no dia de Natal. As igrejas abriam as caixas das esmolas, e distribuíam pelos pobres, e as famílias mais carenciadas da comunidade recebiam ofertas dos mais ricos. Pensa-se que este costume já existia no início da Cristandade, no final do Império Romano. No Reino Unido, quando o dia 26 calha a um Sábado ou Domingo, o feriado é transferido para o primeiro dia útil seguinte. O dia de Santo Estevão é celebrado em várias regiões ou países europeus, ou que fizeram parte do Império Britânico (África do Sul, Austrália, Canadá, Chipre, etc).

terça-feira, 17 de junho de 2025

Flor de Murta


Em Junho a murta (Myrtus communis) encontra-se no seu pico de floração. Este é um dos arbustos mais emblemáticos da flora portuguesa, contudo, já foi mais comum na nossa paisagem. Incêndios, secas prolongadas e lavouras reduziram drasticamente a sua ocorrência. 

Ocorre perto de linhas de água e barrancos, bermas de estradas e caminhos, sebes e taludes, preferencialmente em encostas mais frescas e umbrias. Os seus frutos e as suas folhas podem ser utilizados em fitoterapia, como condimento ou na alimentação humana. 

Curiosamente, a flor da murta surge ligada à História de Portugal. Luísa Clara de Portugal (1702-1779), fidalga natural de Lisboa, ficou conhecida pela sua relação extraconjugal com o rei D. João V. Já era casada e mãe de três filhos quando iniciou a sua relação com o rei, de quem teve uma filha, Maria Rita Gertrudes de Portugal, que foi freira no Convento de Santos-o-Novo. Após terminar o caso com D. João V, foi amante do Duque de Lafões, de quem teve uma filha, D. Ana de Bragança. Pela sua beleza, ficou conhecida na Corte como a Flor de Murta, e deu origem a uma canção, cuja autoria alguns atribuem ao próprio rei D. João V:




Oh! flor da murta
Raminho de freixo
Deixar d'amar-te
É que t'eu não deixo.
Morrer sim
Mas deixar-te não
Oh! flor da murta
Amor do meu coração.
Oh! flor da murta
Do meu coração
Deixar d'amar-te
Ai não deixo, não.

Tal como defendeu Jorge de Sena, a sociedade portuguesa não conheceu o puritanismo protestante. O adultério foi tolerado, desde que com discrição e “sem escândalo público”. É assim a arte portuguesa de amar.

sábado, 29 de outubro de 2022

A Festa de Babette [1987]


O tema central do pietismo é a experiência do crente com Deus, sua condição de pecador e o caminho para sua salvação. Sublinhava-se a necessidade da conversão individual e do nascer de uma nova conduta no crente, desapegada do mundo material e firmada no apoio mútuo da comunidade reunida em culto ao redor do estudo da Bíblia.

Ao enfatizar a dimensão experiencial e a prática da fé, os pietistas, por um lado, desenvolveram uma moralidade ascética por vezes áspera, especialmente no que tange à alimentação, vestimenta e lazer; por outro lado, enfatizaram um sentimento de responsabilidade para com o mundo, do qual desdobraram-se atividades de missão e caridade. Além disso, dada a ênfase no contato direto da pessoa com Deus, as diferenciações entre clero e laicato foram amainadas e o sentimento de pertença eclesiástica arrefecido nas experiências de pequenos grupos ecclesiola in ecclesiae, os "collegia pietatis".

Defendia uma experiência vitalista da fé, pela demonstração e comprovação desta numa piedade prática, através da rejeição do espírito mundano e pela participação ativa dos leigos em reuniões ou conventículos de «cristãos conversos».

Semelhante à tese de Max Weber que correlaciona o protestantismo a uma instituição secular, no caso o espírito do capitalismo, o sociólogo Robert K. Merton correlaciona o pietismo e o puritanismo ao surgimento das ciências naturais.

Em 1871, numa noite de tempestade, Babette chega a um vilarejo na Dinamarca, fugindo de França durante a repressão à Comuna de Paris. Ela se emprega como faxineira e cozinheira na casa de duas solteironas, filhas de um rigoroso pastor. Ali ela vive por catorze anos, até que um dia fica sabendo que havia ganho uma fortuna na lotaria e, ao invés de voltar à França, ela pede permissão para preparar um jantar em comemoração do centésimo aniversário do pastor. A princípio, os convidados ficam assustados, temendo ferir alguma lei divina ao aceitar um jantar francês, mas acabam comparecendo e se deliciam com a festa de Babette.

As irmãs Martine (Birgitte Federspiel) e Philippa (Bodil Kjer), idosas e pias, vivem numa pequena aldeia na remota costa oeste da Jutlândia, na Dinamarca do século XIX. O seu pai foi um pastor que fundou uma pequena assembleia piestistica. Depois do pai morrer e da austera assembleia deixar de atrair novos convertidos, as irmãs envelhecidas presidem agora uma cada vez mais pequena congregação de idosos crentes.

A história recua 49 anos, mostrando as irmãs durante a sua juventude. As belas raparigas têm muitos pretendentes, mas o seu pai rejeita-os a todos e ridiculariza o casamento. Cada uma das irmãs é cortejada por um apaixonado pretendente de visita à Jutlândia - Martina por um jovem encantador oficial de cavalaria sueco, Lorens Löwenhielm, e Philippa por um famoso barítono, Achille Papin, da Ópera de Paris, numa pausa que fez no silêncio da costa dinamarquesa. Ambas as irmãs decidem permanecer com o pai e rejeitar a possibilidade de viver noutro sítio que não a Jutlândia.

Trinta e cinco anos mais tarde aparece à sua porta Babette Hersant (Stéphane Audran) com uma carta de Papin, onde este explica que ela é uma refugiada de um golpe contra-revolucionário em Paris, e recomendado que a aceitem como criada. As irmãs não podem contratar Babette, mas esta se oferece para trabalhar de graça. Babette trabalha como cozinheira na sua casa durante catorze anos, servindo uma versão melhorada das refeições simples típicas da natureza abstinente da congregação, vindo lentamente a ganhar o seu respeito. A única ligação que a mantém com sua vida anterior é um bilhete de lotaria que um amigo seu em Paris lhe compra todos os anos. Um dia Babette ganha 10 000 francos com este bilhete de lotaria e em vez de usar o dinheiro para voltar a Paris e retomar o seu anterior estilo de vida, decide gastar o dinheiro na preparação de um jantar para as duas irmãs e à pequena congregação, aproveitando a celebração do centésimo aniversário do pastor que a fundou. Mais do que um banquete, a refeição é uma manifestação de apreço da parte de Babette e um ato de auto-sacrifício. Babette não revela a ninguém que gasta todo o prémio da lotaria naquela refeição.

Receitas da Festa de Babette [em Inglês]
Filme traduzido em Francês mas com menor qualidade de imagem.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

O Vaticano removeu 14 livros da Bíblia em 1684? Verificação de Factos

Fonte: aqui
A ideia de que o Vaticano removeu catorze livros da Bíblia em 1684, deixando intacta apenas a edição de 1611 da King James, é um dos mitos mais difundidos na internet, mas carece de qualquer base histórica. Na realidade, a Igreja Católica definiu a sua lista de livros sagrados muito antes, no século IV, através de assembleias fundamentais como o Council of Rome de 382 e os sínodos norte-africanos, onde teólogos de relevo como Agostinho de Hipona ajudaram a consolidar o Development of the Old Testament canon. Esta mesma lista de 73 livros permaneceu intocável na tradição católica e foi solenemente reafirmada de forma infalível em meados do século XVI no Canon of Trent da Igreja Católica, demonstrando que o ano de 1684 não registou qualquer decreto papal, alteração eclesiástica ou conspiração do Vaticano para modificar a estrutura das Escrituras. [1]
Quando a tradução protestante da Bíblia King James foi publicada em 1611, ela continha oitenta livros e não os sessenta e seis que encontramos nas edições evangélicas e protestantes atuais, conforme detalha a List of books of the King James Version. Seguindo uma tradição metodológica iniciada por Martinho Lutero, os tradutores anglicanos decidiram agrupar catorze livros históricos e sapiendiais - que os católicos chamam de deuterocanónicos e os protestantes de Apócrifos - numa secção separada entre o Antigo e o Novo Testamento. Estes textos eram considerados úteis para a instrução moral e o conhecimento histórico, mas os reformadores optaram por não os utilizar para a formulação de dogmas ou doutrinas de fé. [1, 2]
Durante o século XVII e seguintes, Bíblias com e sem esta secção intertestamentária coexistiram no mercado tipográfico europeu. A verdadeira exclusão sistemática destes livros deveu-se à pressão interna de movimentos puritanos e a critérios estritamente económicos de produção em massa. Imprimir os catorze livros apócrifos encarecia significativamente os custos com papel, tinta e transporte dos volumes. O ponto de viragem definitivo ocorreu em 1826, quando a decisão histórica da British and Foreign Bible Society cortou todo o financiamento e subsídios a edições que incluíssem estes textos após a polémica conhecida como a Apocrypha controversy, fixando o padrão comercial contemporâneo da Bíblia protestante reduzida. Entretanto, as Bíblias de tradição Católica e Ortodoxa mantiveram estes escritos exatamente como foram delimitados na Antiguidade cristã do século IV, comprovando que estes livros nunca foram eliminados de todas as versões do cristianismo mundial. [1, 2, 3, 4, 5]

Texto falso 

Typically when the Bible is brought up in conversation, what comes to mind is a source of truth that has not been tampered with.

However, when this book was originally published it contained 80 books and current editions only have 66, and we have to wonder what exact purpose the removal of 14 books would serve?

The Vatican Church or Roman catholic church has been associated with deception for ages. Vatican atrocities have ranged from genocide many centuries ago against the Cathars to child molestation is more recent years.

The Bible was originally translated from Latin into English in 1611. This “original” Bible contained 80 books, including the Apocrypha, which means hidden. The King James Bible of 1611 was not translated from Latin, but directly from the original ancient languages: Hebrew and Aramaic for the Old Testament, and Greek for the New Testament. The Apocrypha section was translated primarily from Greek, with only one book (2 Esdras) relying on a Latin text. 

These Apocrypha books made up the end of the Old Testament, and included the following books:

• 1 Esdras
• 2 Esdras
• Tobit
• Judith
• The rest of Esther
• The Wisdom of Solomon
• Ecclesiasticus
• Baruch with the epistle Jeremiah
• The Songs of the 3 Holy children
• The history of Susana
• bel and the dragon
• The prayer for Manasses
• 1 Maccabees
• 2 Maccabees

The 1611 King James Version (KJV) was actually preceded by several English translations. The very first complete English translation was Wycliffe's Bible in 1382, which was translated from the Latin Vulgate.


In this first edition, Bible Jesus’ name was spelled Iesus, pronounced Yahushua. You have to wonder why it was changed to Jesus, contrary to the original pronunciation and spelling.

One of the most interesting books of the removed was the “Wisdom of Solomon”. Solomon is one of the most legendary biblical figures from the Bible, as he was the son of David and the wisest man that ever lived.

Typically, he is portrayed as a benevolent figure, however, this book will change everything that you ever learned about him.

For example, read this excerpt:

Wisdom of Solomon 2:1-24
1 For the ungodly said reasoning with themselves, but not aright, our life is short and tedious and in the death of a man there is no remedy: neither was there any man known to have returned from the grave.
2 For we are born at all adventure: and we shall be hereafter as though we had never been: for the breath in our nostrils is as smoke, and the little spark in the moving of our heart
3 Which being extinguished, our body shall be turned into ashes, and our spirit shall vanish as the soft air,
4 And our name shall be forgotten in time, and no man shall have our works in remembrance, and our life shall pass away as the trace of a cloud, and shall be dispersed as a mist, that is driven away, with the beams of the sun, and overcome with the heat thereof.
5 For our time is very shadow that passeth away; and after our end there is no returning: for it is fast sealed, so that no man cometh again.
6 Come on there for let us enjoy the good things that are present: and let us speedily use the creatures like as in youth.
7 Let us fill ourselves with costly wine and ointments: and let no flower of the Spring pass by us.
8 Let us crown ourselves with rosebuds, before they be withered:
9 Let none of us go without his part of our voluptuousness: let us leave tokens of our joyfulness in every place: for this is our portion and our lot is this.
10 Let us oppress the poor righteous man, let us not spare the widow, nor reverence the ancient gray hairs of the aged.
11 Let our strength be the law of justice: for that which is feeble is found to be nothing worth.
12 Therefore let us lie in wait for the righteous; because HE is not of our turn, and HE is clean contrary to our doings. He upbraideth us with our offending of the law, and ojecteth to our infamy the transgression of our education.
13 HE professeth to have the knowledge of the MOST HIGH, and calleth HIS self the child of the LORD.
14 HE was made to reprove our thoughts
15 HE is grievous unto us even to behold, for HIS life is not like other men’s, HIS ways are of another fashion.
16 We are esteemed of HIM as counterfeits: HE abstaineth from our ways as from filthiness: HE pronounceth the end of the just to be blessed, and maketh HIS boast that GOD is HIS father.
17 Let us see if HIS words be true: and let us prove what shall happen in the end of HIM.
18 For if the just man be the Son of THE MOST HIGH, HE will help HIM and deliver HIM from the hands of HIS enemies.
19 Let us examine HIM with despitefulness and torture, that we may know HIS meekness and prove HIS patience.
20 Let us condemn HIM with a shameful death: for by HIS own mouth HE shall be respected…..

These verses bring to mind a few different important questions, such as:

• Who is Solomon speaking of killing with a “shameful death”?
• Why did the Vatican vote to have these 14 books removed from the Bible?
• Why did Solomon sound so crazy and evil in this book?

It seems that Solomon was speaking of Jesus. But Jesus was born roughly 900 years after his death. Could he have prophesied Jesus’ coming? Let’s consider why this could be, who Solomon was talking about?

• They killed the SON with a shameful death
• The SON’s actions or fashions were different from everyone else’s
• HE claims to be and IS the child of The MOST HIGH
• He was a righteous poor man who would look at Solomon and others like him as “counterfeits”.
• HE professeth to have knowledge of The MOST HIGH

Then listen to what Solomon has to say:
• HE was made to reprove (criticize) our thoughts
• We are esteemed of HIM as counterfeits: HE abstaineth from our ways as from filthiness: HE pronounceth the end of the just to be blessed, and maketh HIS boast that GOD is HIS father
• For if the just man be the Son of THE MOST HIGH, HE will help HIM and deliver HIM from the hands of HIS enemies.

And one last thing I would like to point out is when Solomon says;
• Let us oppress the poor righteous man, let us not spare the widow, nor reverence the ancient gray hairs of the aged.

In contradiction to everything most of us know and believe about Solomon, in these verses he sounds completely evil. According to most Biblical teachings in modern times, we are told to believe that he is the wisest man in the history of the world.

It should be noted that Solomon was largely involved in the Occult. Much of the knowledge and teachings that Aleister Crowley preached about were based on the Lesser Keys of Solomon. Solomon worshiped multiple gods and had a weakness for women.

It is also worth mentioning that the Temple of Solomon is considered the spiritual birthplace of Freemasonry, which is a secret society of sorts that has been responsible for much of the corruption taking place in our world today.

It has never been stated for sure as to why these books were removed from the Bible, although various speculations have been made. We have to wonder if something darker isn’t behind their removal, and what exactly they are hiding away with these books.

Typically, when something is removed from our direct site by those in power, they don’t expect for us to look any deeper than the surface, but when we do, there is almost always more to uncover than we would have ever imagined.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

500 anos depois de Thomas More: cansados da Utopia, desligados da Cultura


“Sem dúvida, caro More, para vos falar com toda a franqueza, em toda a parte em que a propriedade é privada, em que o dinheiro é senhor absoluto, é difícil e quase impossível que os negócios públicos sejam bem orientados, floresçam e prosperem.”

Faz agora 500 anos que estas palavras foram escritas por Thomas More na sua marcante Utopia, proferidas nesse texto por um português, Mestre Rafael. Este imaginário português é a personagem perfeita para em 1516 questionar todo o statu quo e apresentar uma ilha com um modelo de governo e de vida radicalmente diferente dos conhecidos. Nesse momento, a Europa letrada via nos portugueses os arautos da mudança, da inovação, da utopia.

More sabia bem o quão irreal era a sua narrativa, ou não a tivesse designado como “não-lugar”, o não-topos. Mas isso não o inibiu de lançar para o papel o desejo tornado texto de algo diferente, mesmo que impossível. Era, obviamente, o confronto, matizado com algumas coisas de outros pensadores, especialmente, de Platão, que o pensador procurava lançar na discussão.

E esta vontade de falar e de reflectir sobre uma não-realidade, algo de não realizável, é a dimensão que tão correntemente se percebe que nos falta hoje em dia. Parece que somos cada vez mais incapazes de pensar além do corriqueiro dia-a-dia, do normal e do banal “politicamente correcto”, como se o próprio acto de ir mais além no pensamento fosse uma não-necessidade, um pecado, até, uma mácula que nos acusaria de irresponsabilidade.

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quinta-feira, 24 de abril de 2008

Happy Easter - PEACEaster: Polifonia Portuguesa pelo Coro da Catedral Westminster


1 - "Hodie nobis", Pedro de Cristo (1550-16180)
2 - "Alma Redemptoris Mater", Aires Fernandes (data desconhecida)

Pedro de Cristo é um compositor Português da Renascença. Ele é um dos mais importantes polifonistas Português dos séculos XVI e XVII. 1571 - Mosteiro de Santa Cruz (Coimbra).

Entre os outros compositores Português cujas obras estão preservadas em manuscritos de Santa Cruz, um dos melhores é Aires Fernandes. Infelizmente, nada se sabe ainda por sua vida, embora seja provável que ele trabalhou em Coimbra, eventualmente, os pedaços da catedral e relativamente poucas peças completas.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Thomas More, o homem mais honesto (e incompreendido) da Inglaterra


Toda utopia é um conjunto de ideias perigosas cercadas de emoções baratas e boas intenções por todos os lados. Ou, numa variante “geoideológica”, é a definição genérica para qualquer ilha de loucura cercada por todos os lados de atos insanos e seguidores ingênuos. Já da Utopia, país fictício que consagrou seu autor e transformou um topónimo em substantivo comum, pode-se dizer que é uma ilha de sabedoria, cercada infelizmente de ignorância e falsificação por todos os lados.

Na cartografia da aventura humana sobre a terra, utopias ocupam territórios extensos, infelizmente em constante expansão — e, perdoem-me o clichê, costumam estar ocupadas por mares de sangue e montanhas de cadáveres. Porque a loucura, já disse um recente vilão de cinema, é como a gravidade: só precisa de um pequeno empurrão…

De antemão: este não é um artigo sobre a incompreensão e intolerância dos homens — mas “apenas” a saga de um dos homens mais injustiçados de seu tempo, e um dos mais incompreendidos da história contemporânea: Thomas More, aliás, Thomas Morus — ou melhor, S. Tomás More, santo da Igreja Católica. Um fiel servidor do Rei, “mas de Deus primeiro”.

Um homem de família, um servo da Justiça
Conta-se que S. Tomás More (1478-1535) costumava se apresentar como um homem “de família honrada, sem ser célebre”, e “um razoável conhecedor das letras”. Era filho de Sir John More, juiz investido cavaleiro por Eduardo IV, e de Agnes Graunger More, mas coube a ele tornar ilustre o sobrenome — tarefa que desempenhou com o talento de poucos e a modéstia de raríssimos homens.

Educado na St Anthony School, uma das melhores escolas inglesas de seu tempo, desde cedo More se preparou para a vida pública, mas sem descuidar da lapidação interna, quer dizer, da construção discreta e silenciosa de um espírito forte, lúcido e sem afetação — tão em dissonância com a postura empolada dos pares que conheceu, com quem dialogou, e que precisou enfrentar. O também ilustre renascentista Erasmo de Roterdam registou em cartas e diários que era um prazer conviver com More e a sua família — um tópico que por sinal renderia outro longo artigo. Mas este quer falar sobretudo do homem público e do grande escritor.

As datas de sua formação são prodigiosas. Numa época em que não parecia existir a mitologia social da juventude, nem regulações contra “o trabalho infantil”, More começou a servir o Arcebispo de Canterbury e Lord Chanceler da Inglaterra John Morton com apenas 12 anos. Vendo no moço Tomás um potencial enorme, Morton o recomendou para uma vaga na Universidade de Oxford, onde iniciou seus estudos, tornando-se hábil em grego e latim. Mas, dois anos depois, More teve que abandonar Oxford por decisão do pai — católico fervoroso, que desejava fazer dele seu herdeiro profissional e espiritual. O bom filho e aluno brilhante iniciou assim a formação jurídica em Londres, onde permaneceu até 1502. Tinha “apenas” 24 anos.

Mas, já disseram os poetas, ninguém atravessa a vida com a exatidão certeira de uma flecha. No meio dessa trajetória, More se sentiu atraído pela vida contemplativa. E para refletir e meditar sobre sua vocação, ingressou como hóspede no mosteiro da Cartuxa que ficava nos arredores de Londres e se destacava como um dos mais importantes centros religiosos da Inglaterra. Desse período de penitência e oração, do qual abriu mão para cumprir sua vocação de “homem de família e servo de Deus”, More guardou para o resto da vida a convicção da importância de ser um homem fiel e contrito, e a certeza de que sua missão era atuar na sociedade como leigo — mas sempre vivendo “na amizade de Deus, longe das distrações mundanas”.

More se casou aos 27 anos com Jane Colt, dez anos mais jovem do que ele, e tiveram três filhas (Margarete, Isabel, Cecília) e um filho (João). Após seis anos de casamento, Jane faleceu de uma das doenças fatais da época (as mais prováveis são tifo, gripe disenteria). More, que já tinha assumido a guarda de duas outras meninas (Ana Cresacre e Margarete Griggs), viu revelada ali uma de suas educações de pai e educador. E, para desempenhá-la à altura, resolveu se casar novamente; dessa vez, com Alice Middleton, também viúva com uma filha (consta que também chamada Alice). O novo casal assumiu a educação de todas aquelas crianças, num ambiente familiar que era ao mesmo tempo religioso e alegre, abundante e espiritualmente modesto. Anos mais tarde, More escreveria que não sabia distinguir qual das duas esposas ele tinha amado mais.

Para espanto dos historiadores e biógrafos, surpreende que em meio a tantas atribuições familiares Tomás More tenha encontrado tempo e talento para consolidar a sua carreira de homem público. E é fato que ele conseguiu: além de advogado e jurista, foi diplomata atuante, ajudando a resolver grandes querelas de estado, e ainda se elegeu para o Parlamento. E ainda encontrou tempo para construir uma obra filosófica e literária que somam cerca de duas dezenas de livros. Mas a inveja (que é inimiga dos justos) e a ignorância (a detratora dos sábios) fez com que More padecesse dupla incompreensão — uma em vida, outra posterior.

Um rei, seis esposas e um grande amigo desconsiderado
O mundo foi sempre um território de conflitos, políticos e eventualmente religiosos. Para fazer frente aos confrontos de época, a Inglaterra precisou de um lorde chanceler da envergadura de Tomás More — que logo se notabilizou pela defesa da Fé (numa Europa conturbada, que em breve seria atingida pela cisão da Reforma protestante), mas sobretudo pelas iniciativas voltadas para a melhoria da educação, da infraestrutura e da relação da Inglaterra com os países vizinhos.

O posto de Chancelaria que More ocupava era o mais alto da Inglaterra, só abaixo do próprio rei. E se dependesse apenas dele mesmo, de seu talento e sua boa fé, tudo conduziria a um desfecho feliz. Ocorre que o monarca da ocasião era Henrique VIII,  famoso principalmente pelo caráter atrabiliário e pela vida conjugal infiel e inconstante. E coube a More ser chanceler justamente quando o monarca lutava para anular seu casamento com Catarina de Aragão para se unir à lendária dama da corte Ana Bolena, que poderia afinal lhe dar o herdeiro masculino que ainda não tinha conseguido. Disposto a impor sua vontade, Henrique VIII apresentava a alternativa de aprovação de uma Lei do Divórcio. Mas no meio do caminho havia uma pedra: o leal servidor Tomás More — contrário às duas pretensões do monarca.

A querela tomou enormes proporções, e boa parte dela está devidamente registrada nos livros de  História. Do conflito irredutível entre o Henrique VIII e o Papa da época (Leão X), surgiu a Igreja Anglicana, separada de Roma e chefiada pelo próprio monarca, auto proclamado Chefe Supremo da nova Igreja. Mas do conflito com o lorde chanceler (e até então seu grande amigo) Tomás More nasceu a tragédia que iria marcar o destino da história das amizades — mas também engrandeceria a legião dos santos católicos.

More renunciou ao cargo — e ainda hoje é avaliado como um de seus melhores ocupantes. Pretendia se recolher à vida privada e se manter em silêncio. Mas o irascível monarca tinha outros planos.

A morte na (e pela) fé da Igreja Católica
Para Henrique VIII, More representava mais do que um chanceler competente e leal: era também um amigo querido. Mas por sua elevadíssima autoridade moral, sempre em alta conta no país e no exterior, representava circunstancialmente uma “pedra no sapato real”. O rei então deduziu que não tinha outra saída: se More não aceitasse nem apoiasse publicamente suas decisões, precisaria tomar medidas enérgicas contra seu velho conselheiro e camarada.

Resumo da tragédia: Tomás More permaneceu longamente detido (por um ano e alguns meses) na Torre de Londres. E, diante de sua resistência, de homem “fiel ao rei, mas a Deus primeiro”, acabou sendo decapitado a 6 de julho de 1535.

O julgamento de Tomás More foi presidido pela Suprema Corte da Inglaterra. O próprio acusado optou por se defender sozinho das diversas imputações — e durante todo o processo tratou de deixar claro que não reconhecia a legitimidade de Henrique VIII como “Chefe Supremo da Igreja” na Inglaterra. Afinal, isso equivaleria a admitir algo essencialmente “contrário não apenas aos desígnios de Cristo, mas também à própria Carta Magna”, então consagrada como a Lei maior do país. Consta que vários amigos (católicos devotos, mas igualmente afeiçoados a More) chegaram a lhe implorar que assinasse o Ato de Supremacia, legitimando a proposta heterodoxa do monarca — um documento que já tinha sido referendado por longa lista de homens eminentes do Reino. Mas a História também registra que o futuro santo objetou (com fleuma e sábia ironia): “E quando vocês forem para o Paraíso, por ter seguido sua consciência, e eu para o Inferno, por não ter seguido a minha, vocês me acompanharão por camaradagem?”

Impotente diante da vontade férrea de More, mas tendo na mão o martelo da Lei, a Suprema Corte decretou a sentença de execução em breves 15 minutos. A execução aconteceu cinco dias depois — e durante este período More ficou sem comer, mortificando-se e dando os “retoques necessários" em seu testamento e em sua obra (outro grande legado que deixou).

Aqui, mais uma vez, História e lenda se confundem. Fiquemos com a versão de que, no dia da execução, More acordou às cinco horas e recebeu o último sacramento de confissão; fez uma pequena e rápida refeição matinal; às 9 horas, foi levado de carroça ao local da execução, onde o aguardavam o carrasco e uma pequena multidão comovida, que repetia, antecipando o julgamento futuro da Igreja: “Deus abençoe São Tomás More”. Ã beira da execução, contam que ele teria perdoado o carrasco (também consternado) e dirigido ao povo suas últimas famosas palavras: “Morro um fiel servo do Rei, mas de Deus primeiro”. O resto foi a decapitação — e a glória.

Ao ser notificado do cumprimento da sentença, consta ainda que Henrique VIII reconheceu: “Dói saber que matei o homem mais honesto da Inglaterra”.

A segunda morte, por incompreensão (e uma grande injustiça)
A História tanto condena quanto absolve — e não necessariamente nessa ordem. Às vezes, penalidade e remissão acontecem juntas, ao longo dos séculos.

Pois, passados alguns séculos, o governo inglês e a própria Igreja Anglicana admitiram que More tinha sido vítima “dos desmandos daqueles tempos”.  Em 1886, o Papa Leão XIII o beatificou — e Pio XI finalmente o canonizou em 1935. Desde 1970, sua data é comemorada em 22 de junho. Por fim, numa combinação de justiça e ironia, em 1980 a Igreja Anglicana o incluiu em seu calendário litúrgico.

Atualmente, São Tomás More é festejado e aclamado como: padroeiro das crianças adotivas e dos casamentos difíceis; como profissional da justiça zeloso e dedicado, passou a ser também padroeiro dos advogados, promotores e juízes. Mas não apenas isso: no ano 2000 São João Paulo II o proclamou patrono também dos políticos e governantes. Mas todo esse reconhecimento não o livrou da incompreensão póstuma — e de uma segunda injustiça.

Injusto é, sobretudo, o esquecimento de sua vasta obra, composta de mais de 20 volumes mas “reduzida” na memória dos homens a um único livro: sua famosa Utopia, publicada em 1516. Fora dos círculos acadêmicos e especializados, poucos parecem ter ciência de escritos importantes e notáveis como Diálogo contra as Heresias, Réplica a Martinho Lutero ou Um homem Só (Cartas da torre), que trata de seu confinamento final. A bem da verdade, até mesmo seu livro renomado padece de um doloroso desvirtuamento: mais citada e copiada da que efetivamente lida, sua fábula pioneira sobre uma sociedade planificada, e situada cá pelos lados do Novo Mundo, descreve uma sociedade insular onde as cidades são simetricamente semelhantes, onde todas as religiões estão previstas, e onde a riqueza é planejadamente distribuída, não havendo ricos e pobres — não havendo, a rigor, nem mesmo o dinheiro.

(Quem não terá ouvido, ou sentido na pele, os efeitos da ação de implementar tal sociedade?…)

Quando entrou para os dicionários como substantivo comum, a palavra utopia ganhou autoridade de ideal sagrado e indiscutível — embora sempre com um contraponto advertindo para certos “perigos e exageros”:

“Utopia

substantivo feminino

1. Qualquer concepção ou descrição de uma sociedade justa, sem desequilíbrios sociais e econômicos, em que todo o povo usufrui de boas condições de vida;

2. Ideal impossível de ser realizado; fantasia; quimera”.

Ao longo do tempo, as duas definições têm contribuído para empilhar cadáveres e acumular mares de sangue, suor e lágrimas (para repetirmos a expressão tão inglesa): a primeira lança o convite tentador para a construção de um mundo justo, enquanto a segunda adverte para o caráter quimérico desse ideal, que mesmo assim (ou talvez justamente por isso) tem sido teimosamente replicado. Neste diálogo de surdos, neste verdadeiro prontuário de equívocos, poucos se dão conta do engano maior — cujo esclarecimento aos menos faria jus à grandeza e à boa fé de São Tomás More.

Por citarem o livro principalmente “de ouvido ou de internet”, o fato é que a maioria de seus leitores (os que o defendem e os que o detratam) não tem a noção verdadeira dos propósitos do livro — ou mesmo de sua própria estrutura narrativa. E tais “detalhes” fazem toda a diferença.

Antes de mais nada: o testemunho entusiasmado da visita à Ilha de Utopia, que constitui a (quase) totalidade do livro, não é do autor Tomás More, mas de um amigo, o “notável Rafael Hitlodeu”, sobre cuja existência real os historiadores e demais especialistas tendem a divergir. Mas o principal é que o registro sobre as finanças, a estrutura política planejada, os costumes um tanto artificiais — tudo faz parte do depoimento de Rafael. Na verdade, More só assume a primeira pessoa narrativa nos últimos parágrafos do livro — e, ao contrário do que se supõe, sua intenção é criticar. Confiram:

“Quando Rafael terminou sua história, várias das leis e costumes dos utopienses descritos por ele me pareceram um tanto absurdos. Seus métodos de fazer guerra, suas cerimônias religiosas e seus costumes sociais são alguns deles. Mas minha principal objeção referia-se à base de todo o sistema, ou seja, sua vida comunal e sua economia sem moeda”. (Os grifos sãos meus)

Em consideração misericordiosa ao cansaço do amigo, que terminava de falar por longas horas, o fato é que Tomás More apenas comenta que se absteve de refutar, aguardando uma ocasião mais propícia — que ele, cautelosamente, delega à imaginação dos leitores. Todos nós.

Crescem os enganos, renova-se a lenda
Na cartografia dos erros de interpretação dos homens, a utopia efetivamente delineada por São Tomás More (com o intuito de ajudar a corrigir “o caráter dos homens”) ocupa um lugar acanhado, cercada por continentes imensos de enganos. Mas consola saber que sua verdadeira história está registrada em edições bem cuidadas de suas 'Obras Completas', que o leitor pode encontrar em qualquer pesquisa rápida na internet. Mencione-se aqui ao menos uma edição, da Yale University Press (The Complete Works of St. Thomas More).

Mas vale também recordar as palavras de More, após decretarem sua sentença fatal. Não se sabe se fiéis e verídicas, mas elas estão numa das cenas finais do filme O  Homem que Não Vendeu Sua Alma (A Man for All Seasons), de Fred Zinnemann (1966), proferidas por Paul Scofield, em performance emocionante, literalmente dignas de um Oscar (que lhe foi outorgado, como Melhor Ator):

“Não pratico mal algum, não digo mal algum, não penso mal algum. E, se isso não basta para manter um homem vivo, então de boa fé não desejo viver”.

sábado, 24 de fevereiro de 2007