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domingo, 17 de agosto de 2025
"Vamos embora", disse a ministra quando ia a ser confrontada com o que se está a passar nos incêndios
sexta-feira, 5 de abril de 2024
Miguel Guimarães e Ana Paula Martins geriram em conta pessoal fundo solidário de 1,4 milhões pejado de irregularidades. Não se sabe onde pára auditoria prometida
Miguel Guimarães (ex-bastonário da Ordem dos Médicos) e Ana Paula Martins (ex-bastonária da Ordem dos Farmacêuticos) serão, no próximo hemiciclo, colegas de bancada do PSD, mas já são ‘velhos conhecidos’, a tal ponto que geriram uma conta bancária pessoal conjunta (com Eurico Castro Alves) para gerir 1,4 milhões de euros de uma angariação de fundos em 2020 durante a pandemia, com financiamento quase em exclusivo de farmacêuticas. A gestão do dinheiro em conta pessoal – e não titulada pelas duas ordens profissionais – foi uma das muitas irregularidades e mesmo ilegalidades detectadas no decurso de uma investigação do PÁGINA UM no final de 2022. A existência de facturas falsas de quase 980 mil euros na Ordem dos Médicos foi apenas um dos problemas mais graves então encontrados. Miguel Guimarães garantiu então que estava a ser concluída uma auditoria às contas pela consultora BDO, mas mais de um ano depois, não se vislumbram conclusões. Perante a recusa da Ordem dos Médicos, uma sentença do Tribunal Administrativo exige agora que o actual bastonário, Carlos Cortes, revele o contrato da auditoria com a BDO (para confirmar se existe) e provas cabais que expliquem o alegado atraso. Há meses que o PÁGINA UM insiste em saber se a Procuradoria-Geral da República está a investigar a gestão muito particular da campanha ‘Todos por Quem Cuida’, mas nunca obteve resposta.
A gestão de um fundo de 1,4 milhões de euros de uma campanha para apoiar entidades na luta contra a pandemia da covid-19, promovida pela Ordem dos Médicos e Ordem dos Farmacêuticos a partir de 2020, estava pejada de irregularidades e mesmo ilegalidades, incluindo facturas falsas e fugas ao fisco, mas em 11 de Dezembro de 2022, em reacção às notícias do PÁGINA UM, o então bastonário dos médicos, Miguel Guimarães, garantia ao Correio da Manhã que o “fundo é à prova de bala e que foi tudo contabilizado” e que “está a ser concluída uma auditoria, pedida pelas duas ordens e pela Apifarma”.
Catorze meses depois, sem ser conhecida publicamente qualquer auditoria – a Ordem dos Médicos garante agora nunca ter sido concluída –, o Tribunal Administrativo de Lisboa obrigou anteontem, por sentença (que incluiu também os pareceres do Colégio de Pediatria sobre vacinação de menores contra a covid-19), que a Ordem dos Médicos, agora liderada por Carlos Cortes, disponibilize ao PÁGINA UM “a cópia do contrato celebrado entre a Ordem dos Médicos e a BDO & Associados, SROC, Lda., ou os documentos que comprove a adjudicação da auditoria às atividades e contas da ação solidária ‘Todos por Quem Cuida’, e ainda as comunicações que existam e estejam na posse da Entidade Requerida de ‘onde seja possível compreender os motivos para a eventual não conclusão da auditoria’ expurgados os dados pessoais deles constantes”. A Ordem dos Médicos tem 10 dias para cumprir a sentença.
Na verdade, existem sérias dúvidas sobre a existência de qualquer auditoria às contas daquele fundo gerido pessoalmente por Miguel Guimarães e Ana Paula Martins (antiga bastonária da Ordem dos Farmacêuticos), ambos agora na iminência de se tornarem deputados na Assembleia da República pelo PSD. A alegada realização da auditoria serviu, numa primeira fase em 2022, para tentar convencer o Tribunal Administrativo de Lisboa, a não disponibilizar o acesso às contas e operações logísticas da campanha “Todos por Quem Cuida” então solicitada pelo PÁGINA UM. Não teve as duas ordens sucesso. Depois, com a publicação das investigações do PÁGINA UM sobre as ilegalidades e irregularidades na gestão do fundo, o anúncio da realização de uma auditoria serviu para dar uma aura de credibilidade e seriedade.
Contudo, a existir um contrato entre a Ordem dos Médicos e a BDO & Associados, este deveria obrigatoriamente constar no Portal Base. E não está. Aliás, até à data nunca houve qualquer relação contratual entre estas duas entidades. Também entre a Ordem dos Farmacêuticos e a BDO não existem, até à data, quaisquer contratos registados na plataforma de contratação pública, como é obrigatório por lei.
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quarta-feira, 27 de março de 2024
A pandemia dos eucaliptos
Portugal, um país de curiosos recordes mundiais. A maior feijoada, o maior pão com chouriço ou os maiores chifres de um bode são alguns dos feitos registados no Guinness. O país é igualmente recordista mundial no uso de uma planta que vem do lado oposto do globo terrestre. Eucalyptus globulus. São perto de um milhão de hectares cobertos somente por esta espécie. Quase 30% daquilo a que chamamos floresta portuguesa.
“Se viajarmos de norte a sul do país, são assustadoras as áreas de monocultura de eucalipto pegadas umas às outras. A paisagem está completamente destruída. Daí se chamarem desertos verdes”, observa o biólogo e especialista em agrofloresta José Mateus.
“Ter um distrito inteiro em que a única floresta que existe são plantações, seja aqui, seja as palmeiras para óleo de palma, é desastroso”, anui Paulo Pereira, biólogo e co-autor da Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental. Publicada no início do outono, este projeto avaliou perto de 400 espécies de árvores e plantas nativas que estão hoje ameaçadas de extinção em Portugal, devido sobretudo à intensificação agrícola, às barragens, aos incêndios e às espécies invasoras.
Em 2017, um estudo internacional em que participou a Universidade de Coimbra concluíra: "os eucaliptais geram autênticos 'desertos' à sua volta, provocando uma dramática redução da biodiversidade do território". Em 2019, outro estudo realizado por investigadores de seis instituições de ensino superior e coordenado por Ernesto de Deus mostrou várias evidências do potencial invasor do eucalipto.
No verão passado, investigadores da Universidade Técnica de Munique e da Universidade de Zurique detetaram através de imagens de satélite 15 territórios da rede Natura 2000 afetados por eucaliptos, nove dos quais “fortemente afetados”. “Estes ecossistemas são únicos e albergam várias espécies ameaçadas”, lembraram ao jornal Público. Consideraram os eucaliptos uma das maiores ameaças ambientais, pois “substituem a vegetação existente e atuam como combustível para potenciais incêndios florestais futuros”. Um ciclo que, face às alterações climáticas, preveem cada vez mais recorrente em Portugal.
Monchique é um exemplo revelador. Há 17 anos que é considerado Zona de Proteção Especial da rede Natura 2000, com 50 espécies naturais entre as mais valiosas e ameaçadas do continente europeu. Já então o ICNF, Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, identificara as principais ameaças: a atividade de florestação intensiva com espécies exóticas, os incêndios florestais e a destruição da vegetação autóctone. Em 2018, Monchique ardeu brutalmente. Quem habita a serra tem visto com incredulidade e revolta o regressar dos eucaliptais industriais sobre as áreas ardidas, e o brotar descontrolado de eucaliptos no pós-fogo, espalhando-se para novos terrenos.
Após os trágicos incêndios de 2017, o governo alterou a famigerada “Lei do Eucalipto Livre”. Hoje, é apenas permitido plantar eucaliptos em áreas de eucaliptal já existentes, ou numa nova área se se arrancar uma área de eucalipto equivalente. Entretanto, nos meses entre o anúncio da nova lei e a sua entrada em vigor, a ganância que mora na sombra dos eucaliptais teve o seu apogeu. Os viveiros industriais, de onde nas últimas décadas saíram mais de um bilião destas árvores, esgotaram para responder à frenética corrida ao eucalipto. Números facultados pelo ICNF revelam a cumplicidade do instituto: as autorizações para alastrar eucalipto a novas áreas tiveram nesse ano de 2017 o seu pico, com mais de 2200 hectares aprovados.
De acordo com o Público, em 2009 o ICNF elaborara uma proposta para classificar o eucalipto como espécie invasora – proposta que terá desaparecido sem explicação.
Procurámos saber a posição do instituto hoje. Sediado na aparentemente impenetrável floresta de betão da Avenida da República, em Lisboa, o ICNF responde apenas por email. E a resposta é taxativa. “Facilmente se infere que o eucalipto não é uma espécie invasora”, lê-se, “porque não é suscetível de ocupar naturalmente o território de uma forma excessiva, provocando uma modificação significativa nos ecossistemas.” O instituto explica: o raio de dispersão das sementes é limitado, o vigor dos eucaliptos que brotam espontaneamente é inferior ao dos obtidos em viveiro, sendo eliminados precocemente e dominados pelos arbustos e árvores pré-existentes.
No mesmo email, defende que a análise dos incêndios não faz “qualquer referência a situações de ‘elevada inflamabilidade’ relacionados com qualquer espécie”. E aprova a reflorestação pós-fogo com novos eucaliptos. “A reflorestação com qualquer espécie florestal não provoca o seu aumento territorial e é fundamental como medida de contenção e minimização dos impactos no solo e biodiversidade após os incêndios florestais.”
O instituto cuja missão é a proteção da nossa floresta não avista qualquer relação entre eucaliptais e incêndios, nem o perigo de esta espécie se tornar dominante. Uma visão que, se não cola propriamente com a das populações ou da academia, cola perfeitamente com a da indústria do papel, de empresas como a Altri e a Navigator. De resto, recorda o ICNF, “a Estratégia Nacional para as Florestas em Portugal reconhece a necessidade de garantir resposta à procura de matérias-primas das principais fileiras silvo-industriais”.
Uma floresta ligada à máquina
Em apenas duas gerações, a floresta em Portugal passou de ser o sustento da vida nas aldeias, com base numa convivência quotidiana e ancestral, a um cobiçado recurso para a indústria. Primeiro com a intervenção autoritária do Estado Novo, e o Fundo de Fomento Florestal nos anos 50, depois com a intervenção autoritária do mercado, marcada pela entrada na CEE e pelo Projeto Florestal Português financiado pelo Banco Mundial, nos anos 80. E o interior do país, enquanto se encheu de monoculturas florestais de pinhal e o eucalipto, esvaziou-se de pessoas.
“Houve um grande crescimento de tudo o que é floresta artificial, por vezes completamente estranha à ecologia de cada lugar”, observa Paulo Pereira. Para o biólogo, o advento da engenharia agronómica trouxe consigo uma certa presunção do ser humano achar que controla todos os processos. “Em qualquer tipo de sistema agrícola intensivo, há aquela ideia de que a única coisa que nos interessa é o que temos a produzir. Tudo o resto é concorrência a eliminar. Isto é como ligar a nossa produção à máquina. Como se tivéssemos um doente de Covid ligado ao respirador. Só com a água a pingar, adubos, tratores, pulverização de inseticidas e herbicidas todo o ano se consegue manter a cultura. Estamos a criar um zombie, que não tem qualquer autonomia fora do cuidado humano.”
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segunda-feira, 3 de julho de 2023
As suas roupas estão a pô-lo doente? O mundo opaco dos químicos na moda
A primeira coisa que aconteceu quando Mary, hospedeira-de-bordo da Alaska Airlines, recebeu um novo uniforme sintético de alto desempenho na primavera de 2011 foi uma tosse seca. Então uma erupção floresceu no seu peito. Em seguida, vieram enxaquecas, nevoeiro cerebral, coração acelerado e visão embaçada.
Mary (cujo nome omiti para proteger seu emprego) foi uma das centenas de hospedeiras da Alaska Airlines relatando naquele ano que os uniformes estavam a causar erupções cutâneas com bolhas, pálpebras inchadas com crostas de pus, urticária e, no caso mais grave, problemas respiratórios e reações alérgicas tão graves que um hospedeiro-de-bordo, John, teve que ser retirado do avião e levado pelo pronto-socorro várias vezes.
Testes encomendados pela Alaska Airlines e pelo sindicato dos comissários de bordo revelaram fosfato de tributil, chumbo, arsénico, cobalto, antimónio, corantes dispersos restritos conhecidos por causar reações alérgicas, tolueno, cromo hexavalente e fumarato de dimetila, um antifúngico recentemente banido em a União Europeia. Mas o fabricante de uniformes, Twin Hill, evitou a culpa no tribunal, dizendo que nenhum desses muitos produtos químicos misturados, por conta própria, estava presente em níveis altos o suficiente para causar todas as diferentes reações. A Alaska Airlines anunciou em 2013 que compraria novos uniformes, sem admitir que os uniformes causaram problemas de saúde. Um processo de hospedeiros-de-bordo contra Twin Hill foi arquivado em 2016 por falta de provas.
Mas um estudo de Harvard de 2018 descobriu que, após a introdução dos uniformes , o número de hospedeiros-de-bordo com sensibilidade química múltipla, dor de garganta, tosse, falta de ar, coceira na pele, erupções cutâneas e urticária, coceira nos olhos, perda de voz e visão turva aumentou. tudo mais ou menos em dobro. “Este estudo encontrou uma relação entre queixas de saúde e a introdução de novos uniformes”, concluíram os autores do estudo.
Em 2021, John, que gozava de perfeita saúde antes da introdução dos uniformes, morreu aos 66 anos, após anos a procurar e a não conseguir tratamento para os seus sintomas. A causa oficial de sua morte foi paragem cardiorrespiratória, asma secundária. Mary, que continuou com alguma dificuldade a trabalhar para a Alaska Airlines, foi diagnosticada no ano passado com três doenças autoimunes: doença mista do tecido conjuntivo, lúpus e Sjögren. O parceiro sobrevivente de Mary e John dizem que os uniformes foram os culpados.
Esta história dos hospedeiros-de-bordo doentes repetiu-se várias vezes, já que a American Airlines, a Delta e a Southwest introduziram novos uniformes , que eram de poliéster de cores vivas em vez do antigo modo de espera, lã, e foram revestidos com camadas anti-rugas, resistentes a manchas e tecnologia têxtil retardante de chama.
Mary e John estão longe de estar sozinhos. O impacto da exposição a produtos químicos nocivos em trabalhadores têxteis, muitos dos quais trabalham em países em desenvolvimento, foi bem documentado e inclui problemas respiratórios, erupções cutâneas e até morte, mas eu estava menos ciente de que tantos nos EUA estavam a relatar efeitos nocivos simplesmente de vestir roupas. Em vez disso, como descobri enquanto pesquisava para o meu livro To Dye For: How Toxic Fashion is Making us Sick – and How We Can Fight Back , eles fazem parte de um grupo diverso e díspar de pessoas que acreditam ter sofrido com os efeitos de drogas tóxicas na saúde e moda.
“Os comissários de bordo são o canário na mina de carvão por causa da duração e consistência da sua exposição”, disse a Dra. Irina Mordukhovich, uma das autoras do estudo de Harvard. “Isso não significa que outras pessoas da população não estejam sendo afetadas de alguma forma. Digamos que alguém tenha roupas com os mesmos componentes – eles podem nem perceber; eles simplesmente não usam tanto.
Karly Hiser é enfermeira pediátrica em Grand Rapids, Michigan. O seu filho mais velho era um bebé quando o seu eczema piorou, disse ela. Ela trocou a sua família por sabonetes sem fragrância e produtos de limpeza não tóxicos, e o lambuzou com loção, vaselina e creme esteróide prescrito após longos banhos. “Tudo o que tentamos não ajudou”, disse ela. Feridas abertas desenvolveram-se nas suas mãos e atrás dos joelhos, e elas foram infectadas.
Como qualquer pai com orçamento limitado, Hiser comprava roupas baratas de marcas do mercado de massa, incluindo roupas desportivas de poliéster, mas recusava-se a vestir as roupas. “Ele é um garoto muito doce, bem comportado e discreto. E todas as manhãs para se vestir era um pesadelo, apenas ataques de raiva”, disse ela. O que finalmente tornou o eczema do seu filho administrável, disse ela, foi pegar a máquina de costura de sua avó, comprar tecidos não tóxicos numa loja online e costurar todas as roupas sozinha.
Apesar de seu trabalho como enfermeira, Hiser levou mais de um ano para descobrir o que ela agora acredita firmemente: que as roupas eram o problema. “Sabe, como a rotulagem nutricional para alimentos, eu preferiria que houvesse uma rotulagem melhor para roupas”, disse ela. “Nem todos os produtos químicos são ruins ou prejudiciais, mas eu gostaria de pelo menos estar ciente do que está nas roupas das crianças.”
Jaclyn é ex-gerente de produção de moda na cidade de Nova York. Ela me contou sobre a sua experiência abrindo caixas de amostras da Ásia e da América do Sul todos os dias e sendo atingida no rosto pelo cheiro pungente de produtos químicos sintéticos. Depois de anos tocando nessas roupas recém-feitas, ela desenvolveu erupções cutâneas nas mãos e nos braços. Quando o seu dermatologista a testou para alergias, ela descobriu que era alérgica a vários produtos químicos normalmente usados na produção de moda, incluindo um corante disperso azul usado para tingir poliéster. Infelizmente, não havia nada que ela pudesse fazer para se proteger – todos esses alérgenos são perfeitamente legais para vestir. Mesmo que ela deixe o emprego, ela tem que usar roupas para viver. A sua saúde piorou depois disso, ela acredita,
Produtos químicos em roupas são uma área complexa, opaca e pouco pesquisada. “Não há necessariamente muitas evidências para decidir o que é um limite seguro de um produto químico”, disse Mordukhovich. “Mesmo que cada produto químico esteja abaixo dos limites que seriam considerados um problema de segurança direto, o que não sabemos é se você tem centenas de produtos químicos interagindo juntos, quais efeitos isso tem?”
Para seu doutorado no departamento de toxicologia integrada e saúde ambiental da Duke, a Dra. Kirsten Overdahl passou anos destilando e catalogando corantes dispersos num esforço para provar, em artigo submetido para revisão por pares, que eles são sensibilizadores da pele. A maioria nem mesmo é rotulada ou catalogada na literatura, muito menos testada quanto à segurança. “Eu vejo todos os dias, apenas em nossos dados brutos que os instrumentos produzem, que muitas vezes existem milhares de produtos químicos em uma amostra que não podem ser comparados a um produto químico conhecido. Isso é absolutamente aterrorizante”, disse ela. “Isso não significa que todo produto químico é ruim. Talvez seja inofensivo. Mas se não conseguirmos associar um nome a uma estrutura química, isso significa que os dados não estão disponíveis. Então você não pode dizer que não é seguro, mas também não pode dizer que é seguro.”
Recentemente, pesquisadores e defensores intensificaram a prática de comprar e testar roupas comuns e os resultados são esclarecedores. O Centro de Saúde Ambiental da Califórnia encontrou altos níveis do BPA, produto químico que desregula as hormonas, em meias de poliéster e elastano e sutiãs desportivos de dezenas de grandes marcas, incluindo Nike, Athleta, Hanes, Champion, New Balance e Fruit of the Loom, em até 19 vezes o limite de segurança da Califórnia.
Quando a Canadian Broadcasting Corporation testou 38 peças de roupas infantis das marcas de moda ultrarápidas Zaful, AliExpress e Shein, descobriu que uma em cada cinco tinha níveis elevados de produtos químicos tóxicos, como chumbo, PFAS e ftalatos. Este ano, a marca de calcinhas de época Thinx resolveu um processo decorrente de um teste feito por um professor da Notre Dame mostrando altos níveis de flúor, indicando a presença de PFAS, uma classe altamente tóxica de “produtos químicos eternos” que fornecem repelência à água e manchas.
Alguns dos produtos químicos que os cientistas descobriram nas roupas - como fosfato de tributil , fumarato de dimetila e corantes dispersos - podem ser extremamente tóxicos ou perigosos, causando reações na pele ou asma. Foi comprovado que outros, além de seu uso em roupas, têm ligações com câncer, toxicidade reprodutiva, alergias e sensibilização da pele.
Um estudo de 2022 da professora Miriam Diamond, da Universidade de Toronto, e do professor Graham Peaslee, da Notre Dame, estimou, entretanto, que, em média, as crianças que usam uniformes escolares resistentes a manchas seriam expostas a 1,03 partes por bilião de PFAS por quilograma de seu corpo. peso por dia através da pele. Os PFAS têm sido associados a vários tipos de cancro, anormalidades fetais, distúrbios reprodutivos, obesidade e redução da função do sistema imunológico. Quando se acumula no sangue, os PFAS são considerados tóxicos no nível de partes por bilhão. Mais pesquisas são necessárias sobre a rapidez com que o PFAS derramado da roupa pode ser absorvido pela pele e pela corrente sanguínea, mas os resultados são alarmantes o suficiente para estimular os bombeiros a se revoltarem contra seus equipamentos de proteção carregados com PFAS .
Alguns produtos químicos encontrados em roupas, como BPA, PFAS e ftalatos, foram encontrados em experimentos com prazo determinado e estudos longitudinais para imitar hormônios e interferir em nosso sistema endócrino, causando uma cascata pouco compreendida de efeitos à saúde que variam de flutuações extremas de peso e fadiga para infertilidade e doença crônica.
Uma vez que a exposição cessa, alguns produtos químicos, como o BPA, podem ser metabolizados e eliminados pelo corpo, acabando por se decompor e desaparecer. Outros, como os metais pesados, se acumulam no organismo e no meio ambiente, durando décadas ou, no caso do PFAS, para sempre.
Quando testadas em contextos diferentes da moda, descobriu-se que muitas dessas substâncias, como pesticidas e solventes, danificam o corpo ao longo de anos de exposição crónica, ainda que infinitamente pequena. A presença deles na moda preocupa alguns especialistas. Como Diamond, da Universidade de Toronto, me disse: “Sabemos que os produtos químicos são continuamente perdidos de qualquer material ao longo do tempo. É uma realidade física que os produtos químicos migram para a sua pele a partir de suas roupas, com e sem suor.”
“Vemos as tendências, mas não podemos identificar as tendências para este e aquele produto químico”, disse-me em 2021 o Dr. Åke Bergman, um toxicologista ambiental sueco especializado em desreguladores endócrinos, sobre o aumento de distúrbios reprodutivos e infertilidade. Ele fez parte de uma força-tarefa convocada em 2020 para aconselhar a Suécia sobre a tributação de produtos químicos tóxicos usados na moda. “Há um uso enorme de um grande número de produtos químicos. Sentimos fortemente que existe uma ligação entre as exposições a esses produtos químicos e os efeitos observados”.
Apesar de todas as evidências, no entanto – os resultados dos testes tóxicos que estão se acumulando, os pesquisadores e advogados na América do Norte e na Europa tocando o alarme , os relatos de queimaduras na pele causadas por sapatos, meias e sutiãs no site da Comissão de Segurança de Produtos de Consumo – este é um assunto extremamente difícil de fazer declarações conclusivas e uma área impopular de pesquisa científica. Não há estudos relacionando as experiências dos funcionários da moda e das companhias aéreas com as experiências da população em geral, nem estudos examinando os efeitos da exposição diária crônica por meio do uso de tecidos com esses contaminantes e acabamentos perigosos próximos à nossa pele. Enquanto isso, a própria complexidade da moda se presta ao ofuscamento e à confusão.
Nos Estados Unidos, não há padrões federais para o que pode ser colocado em roupas e vendido para adultos. A UE proibiu mais de 30 substâncias para uso na moda e rejeitará algumas remessas na fronteira, mas seu programa de testes é pequeno e facilmente contornado.
Além da moda, está claro que muitos americanos estão preocupados com o fato de o governo estar a falhar em seu trabalho de nos proteger de substâncias nocivas. Alimentos orgânicos que prometem ser livres de resíduos de pesticidas são o setor que mais cresce no mercado de alimentos, com vendas atingindo US$ 57,5 biliões em 2021. A beleza vem logo atrás, com milhões de mulheres reformando todos os armários de banheiro na última década, deitando fora o legado marcas com ingredientes tóxicos como ftalatos e parabenos. Influenciadores, blogueiros e marcas de beleza alimentaram esse medo e desconfiança para angariar engajamento e vender produtos – enquanto muitas vezes vão longe demais ao demonizar substâncias perfeitamente seguras.
No entanto, a moda, uma indústria global de US$ 2,5 triliões, de alguma forma escapou completamente do mesmo escrutínio.
Uma razão é que nem os consumidores nem os profissionais sabem quais, ou mesmo quantas, substâncias químicas são usadas para fabricar, processar, tecer, tingir, finalizar e montar roupas e acessórios.
“Está ficando mais difícil evitar esses produtos químicos”, diz a Dra. Elizabeth Seymour, do Centro de Saúde Ambiental de Dallas, sobre aditivos como solventes e metais pesados. “Existem vários produtos químicos que são colocados em tudo. E suas roupas estão incluídas nisso.” Mas enquanto produtos de beleza, limpeza e alimentos embalados vêm com uma lista de ingredientes, a moda não, embora os testes revelem que ele possui alguns dos perfis químicos mais complicados e multicamadas de qualquer produto, chegando a 50 produtos químicos ou mais.
Depois de pesquisar isso durante dois anos, agora tenho mais cuidado com minhas próprias roupas. Evito marcas de moda baratas, falsificadas ou ultrarrápidas. Eu compro a empresas em quem confio, que se preocupam com a sua reputação e têm um programa de gestão dos produtos químicos ou rótulos como bluesign, Oeko-Tex ou GOTS. Escolho fibras naturais sempre que possível e evito promessas extravagantes como repelência a manchas, acabamentos antiodores, tecidos fáceis de cuidar e antirrugas. Eu lavo qualquer roupa nova antes de usá-la, com sabão em pó não tóxico e sem perfume. E eu confio no meu nariz – se algo cheira mal, eu devolvo.
Mas o que eu realmente quero ver é a ação dos nossos governos. Alguns estados têm requisitos de rotulagem ou proibições futuras de PFAS em roupas, mas o governo federal não regulamenta quais produtos químicos podem ser colocados em roupas e vendidos a consumidores adultos. Precisamos de uma revisão total de como gerenciamos produtos químicos em produtos de consumo neste país.
Eu gostaria de ver o governo federal alcançar o bom trabalho que está sendo feito pela União Européia – e ir além. Deve implementar impostos e tarifas sobre produtos químicos não testados para financiar pesquisas desesperadamente necessárias, exigir que as empresas químicas registrem todos os produtos químicos em uso e compartilhem qualquer pesquisa associada, banir certas classes de produtos químicos para uso na moda e expandir a capacidade da Consumer Product Safety Commission de testar e lembre-se da moda tóxica.
Estas podem parecer grandes perguntas. Então, talvez possamos começar simples. Vamos exigir que a moda venha com uma lista de ingredientes – uma lista de ingredientes realmente completa. Porque se os consumidores realmente soubessem o que há em suas roupas, bem, eles poderiam não querer usá-las.
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quarta-feira, 24 de maio de 2023
2022 foi o segundo pior ano na União Europeia em área ardida. Portugal teve o terceiro pior registo do ano na EU
O mais recente relatório disponibilizado no âmbito dos Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS, na sigla em inglês), aponta 2022 como o segundo pior ano na Europa em termos de áreas ardidas e número de incêndios desde 2006. A área ardida na União Europeia (UE) foi a segunda maior de sempre, apenas atrás do ano de 2017. A área ardida na EU foi estimada em 881.275 hectares. Os estados-membros mais atingidos foram, por ordem decrescente de área ardida, a Espanha, a Roménia e Portugal. De acordo com o relatório, a análise preliminar dos prejuízos económicos decorrentes dos incêndios florestais na UE estima perdas de cerca de 2,5 mil milhões de euros.
Em 2022, Portugal manteve-se no “pódio” da área ardida na EU, com 112.063 hectares, o pior registo desde 2017. A área ardida no nosso país foi apenas ultrapassada pela área ardida em Espanha, com 315.705 hectares mapeados, e na Roménia, com 162.518 hectares. Em 2023, de 1 de janeiro até ao momento já arderam 7.590 hectares, o equivalente a 3/4 da superfície do concelho de Lisboa.
Importa ter presente a presença sistemática de Portugal no “pódio” da área ardida na União Europeia, em termos absolutos. Mesmo sem ter em consideração os fenómenos associados às alterações climáticas, o território nacional foi predisposto a um elevado perigo de incêndios, fruto da ausência de medidas políticas de combate ao êxodo rural e, pelo contrário, à aposta política na massificação da produção de madeira associada ao minifúndio, ao desmantelamento de serviços de apoio técnico no terreno (extensão florestal) e de regulação de mercados, claramente a funcionar em concorrência imperfeita. A manutenção desta aposta, associada às alterações climáticas e ao avanço da desertificação, tornam cada vez mais apertada a janela de oportunidade para a adoção de medidas, necessariamente musculadas, de alteração do status quo em parte muito significativa do território continental português.
A Acréscimo tem forte convicção da perda de oportunidade associada ao que vendo sendo conhecido do desempenho do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) e do que se perspetiva para o próximo PDR (Programa de Desenvolvimento Rural 2030).
É evidente para a Acréscimo a falta de medidas estruturais para enfrentar o problema dos incêndios florestais no pós-2017 em Portugal. Atribuímos ponto positivo à evacuação de populações durante as ocorrência para evitar mortalidade humana. Todavia, este ponto positivo não é mais do que uma medida de recurso. Por outro lado, as “portas giratórias” continuam a condicionar o Estado a medidas políticas para o colapso.
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sexta-feira, 5 de maio de 2023
OMS declara fim da pandemia
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terça-feira, 18 de abril de 2023
A falácia do fogo controlado
Relatório - Efeitos do fogo controlado num eucaliptal na Austrália
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sábado, 8 de abril de 2023
Monchique: gestão da floresta requer revisão em matéria de prevenção
Estando mais de 80 % do concelho de Monchique classificado com perigosidade elevada de incêndio e localizando-se numa das regiões mais quentes do país, estando 86% da área do concelho de Monchique classificada como Zona Especial de Conservação (ZEC) no âmbito da Rede Natura 2000, a autarquia de Monchique não faz notar que o eucalipto tornou-se a sua principal espécie florestal no concelho. Vá lá saber-se porquê ...
O ministro do Ambiente e da Ação Climática, Duarte Cordeiro, e o Secretário de Estado da Conservação da Natureza e das Florestas, João Paulo Catarino, efetuaram uma visita ao concelho de Monchique no passado 31 de março, na sequência da qual a autarquia emitiu um comunicado, enunciando a matéria de debate e as reflexões, ou conclusões, em apreço.
Nesse âmbito, foi debatida a "necessidade de compatibilizar os diferentes instrumentos de gestão territorial e as atividades socioeconómicas nos territórios rurais de baixa densidade, uma vez que as políticas de proibição das últimas décadas conduziram este concelho ao abandono e ao envelhecimento", não contribuindo nem para a redução dos incêndios rurais nem para a conservação da natureza.
Na reuniões realizadas, foi também abordada a "necessidade imperiosa de alteração do Decreto-Lei n.º 82/2021, de 13 de outubro, que regulamenta o SGIFR (Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais), na medida em que condiciona as atividades de edificação, fruição e uso de maquinaria nos espaços florestais, em função da perigosidade de incêndio e nos dias de risco de incêndio rural muito elevado e máximo."
No comunicado, a Câmara de Monchique refere que "estando mais de 80 % do concelho de Monchique classificado com perigosidade elevada de incêndio e localizando-se numa das regiões mais quentes do país, estas proibições colocam em causa a execução das próprias medidas de prevenção de incêndio, mas também a sobrevivência das pequenas e médias empresas do sector florestal e do turismo, assim como contribui para o aumento do abandono dos espaços rurais e para o seu envelhecimento."
Assim, impera a "necessidade de alteração do Programa de Reordenamento e Gestão da Paisagem (PRGP) da Serra de Monchique e Silves (SMS)", matéria que foi igualmente assunto de debate.
Este instrumento de gestão do território à escala da Paisagem, cujo objetivo é tornar esta paisagem mais resiliente aos incêndios rurais, a autarquia adverte que se "se mantiver a sua atual redação votará ao abandono, no curto médio prazo, um terço da área florestal do concelho", pelo que é "urgente a sua revisão."
Mais, estando 86% da área do concelho de Monchique classificada como Zona Especial de Conservação (ZEC) no âmbito da Rede Natura 2000, foram também debatidos os Planos de Gestão da Rede Natura 2000 (ZPE/ZEC Monchique e Arade/Odelouca), os quais "devem constituir-se como instrumentos efetivos de salvaguarda e restauro dos habitats prioritários, apoiando a comunidade local na valorização do património natural."
Integrada nesta visita, ao debate seguiu-se a "visita a projetos exemplificativos das ações que têm vindo a ser executadas no concelho: Faixa Primária de Gestão de Combustível no troço Madrinha/Chilrão; restauro ambiental LIFE RELICT “Preserving Continental Laurissilva Relics”; e condomínios de aldeia das Corchas e Portela da Serenada" - informa a autarquia monchiquense.
A autarquia de Monchique faz notar também que nas reuniões participaram os membros do governo, autarcas e atores locais, nomeadamente a ASPAFLOBAL, entidade que participou no debate dos desafios do ordenamento florestal no concelho de Monchique.
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segunda-feira, 14 de novembro de 2022
Portugal sobe no índice de desempenho climático e fica entre os 15 melhores
Portugal está no grupo dos 15 países com melhor desempenho climático, subindo mesmo duas posições, segundo o Índice de Desempenho das Alterações Climáticas, publicado hoje e que analisa o progresso em 59 países com as emissões mais elevadas.
O Índice de Desempenho das Alterações Climáticas (Climate Change Performance Índex, CCPI, na sigla original) traduz o desempenho das políticas climáticas de 59 países, numa lista com 63 posições, mas na qual as três primeiras não são ocupadas, como usualmente, por nenhum país estar completamente alinhado com o objetivo, saído do Acordo de Paris de 2015, de manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C (graus celsius).
Na lista, hoje divulgada na conferência da ONU sobre o clima (COP27) que decorre em Sharm el-Sheikh, no Egito, surge primeiro (no quarto lugar) a Dinamarca, seguida da Suécia e depois do Chile.
Num sistema de cores, os países a verde são classificados como tendo um alto desempenho climático, depois a amarelo os países com um desempenho médio, a laranja um desempenho baixo e a vermelho um desempenho muito baixo.
Portugal surge no grupo dos países a verde, na 14.ª posição, depois de países como Marrocos, Índia ou Estónia, com uma grande subida, ou a Noruega e Reino Unido, que desceram quatro lugares em relação ao anterior índice. A Finlândia, a Alemanha, o Luxemburgo e Malta surgem depois de Portugal e “fecham” a lista verde.
A amarelo está a União Europeia como um bloco, o Egito, que organiza a COP27, Espanha, com uma subida de 11 lugares, Indonésia, Itália, França (que desceu 11 posições) ou Nova Zelândia, entre outros.
E na lista laranja, também entre outros, a Irlanda, o Brasil, a Bélgica, a África do Sul, a Turquia e a Argentina.
Com a pior performance, no vermelho, estão 14 países, a começar pelo Japão e com o Irão em último lugar da lista, da qual fazem parte os maiores emissores de gases com efeito de estufa do mundo, a China e os Estados Unidos, além de outros como a Federação Russa, a Austrália, o Canadá ou a Arábia Saudita.
Os progressos em matéria de mitigação climática, e destacando Portugal, foram hoje divulgados pela associação ambientalista Zero, que participou no CCPI, e que explica que para os cálculos são usadas as estatísticas mais recentes da Agência Internacional de Energia relativas ao ano 2020 (o último ano disponível) e uma avaliação de peritos.
“O CCPI é uma ferramenta importante para aumentar a transparência na política climática internacional e permite a comparação dos esforços de proteção do clima e do progresso feito por cada país”, diz a associação, acrescentando que o índice pretende também pressionar política e socialmente os países que não tomaram medidas que contribuam o suficiente para a estabilidade climática global, destacando ao mesmo tempo os que têm melhores práticas.
Na análise da posição de Portugal, que subiu dois lugares graças ao fecho das centrais a carvão do Pego e de Sines, levando a uma melhoria na categoria de emissões de gases com efeito de estufa, e da publicação da Lei de Bases do Clima, nota-se o fraco desempenho no setor dos transportes, floresta e agricultura.
Já as categorias de utilização de energia, energias renováveis e política climática a classificação é média, tendo em conta especialmente a elevada quota de energias renováveis.
A Zero nota as melhorias alcançadas por Portugal, mas diz também que “há falta de ambição em algumas áreas, nomeadamente no que diz respeito aos subsídios aos combustíveis fósseis, cujo fim está apenas previsto para 2030”.
E releva que, nos transportes, as emissões não estão contidas, por falta de “políticas eficazes para o setor”, e não é suficientemente promovida a agricultura sustentável, com a agricultura intensiva e a monocultura a receberem “muitos incentivos”.
Em termos gerais, o destaque vai para países como Chile, Marrocos e índia, que têm vindo a subir no índice, e pelo lado negativo os Estados Unidos e a China, que desceu 13 lugares (a maior descida) pelos novos investimentos em centrais a carvão.
A Zero destaca ainda a subida de três lugares do bloco União Europeia, especialmente pelo pacote legislativo “Objetivo 55”, que visa reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em pelo menos 55% até 2030.
Mas nota as diferenças entre Estados. A Polónia e a Hungria estão na lista vermelha e a Dinamarca e a Suécia ocupam as primeiras posições (quarto e quinto lugar, respetivamente).
O índice, publicado anualmente desde 2005, é da responsabilidade da organização não-governamental de ambiente alemã Germanwatch e do NewClimate Institute e avalia quatro categorias: emissões de gases com efeito de estufa (40% de peso na classificação final), energia renovável, uso de energia e política climática.
É publicado em conjunto com a Rede Internacional de Ação Climática (CAN International). Os países que compõem o índice são responsáveis coletivamente por cerca de 90% das emissões globais de gases de efeito de estufa.
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quinta-feira, 19 de agosto de 2021
Entrevista a Jorge Paiva: “Não há educação ambiental em Portugal”
Jorge Paiva diz-se “desiludido” com o comportamento das pessoas – mais ainda “com a hipocrisia dos decisores políticos nas questões ambientais”. Fala abertamente, dir-se-ia que praticamente sem filtros, como homem livre e cidadão crítico face às contradições que observa nos comportamentos e nas (in)decisões dos líderes governamentais, e não se refere apenas a Portugal.
Com a afabilidade que lhe é própria, o cientista cuja história de vida está intimamente ligada às plantas e aos seus segredos, embora avesso às exibições políticas e ao “show off” ambiental, recebe-nos no gabinete que ainda mantém no Departamento de Ciências da Vida, na Universidade de Coimbra.
Como taxonomista (que define os grupos de organismos biológicos com base nas suas características comuns), percorreu meio mundo em missões científicas: África, Austrália, América do Sul e, claro, Península Ibérica.
Distinguido com o estatuto de sócio de honra da Sociedade Portuguesa de Ecologia, a juntar às muitas provas de reconhecimento público e académico, é curioso o facto de, em 2020, a autarquia de Tomar ter aprovado, por unanimidade, atribuir o nome de Jorge Paiva ao carvalho-português centenário que se encontra no jardim da Biblioteca Municipal António Cartaxo da Fonseca. A ideia foi proposta pela Associação Sociocultural e Ambiental “30Por1Linha”, em parceria com a Escola Secundária de Santa Maria do Olival, que apresentou um requerimento ao município, aliando o botânico a esse exemplar da espécie classificada Quercus faginea.
Foram, então, marcantes as suas lições sobre a biodiversidade e, particularmente, o desafio que o botânico ali apresentou em relação aos sabores das comidas mais prováveis nos povos da antiga Lusitânia, coordenando um jantar que permitiu à comunidade escolar nabantina “saber como se alimentavam” esses caçadores e guerreiros lusitanos contemporâneos de Viriato: plantas como o dente-de-leão (para a salada), o saramago (para a sopa) e outros produtos selvagens que acompanhavam o javali e a lebre, com pão de bolota ou de castanha, a par de uma bebida alcoólica feita de frutos silvestres (a sidra, recordada pelo grego Estrabão), entre outros velhos pitéus.
Ao salientar a importância do património biológico para a sobrevivência humana, Jorge Paiva surpreende-se com o alheamento da sociedade consumista, que privilegia o património material. Quando este pedagogo costuma contar a história da floresta lusitana aos mais novos, o teixo (planta extremamente tóxica e letal até para o gado, entretanto desaparecida da serra da Lousã) parece que assume o papel de bruxa malvada, que ninguém quer ter próximo e que, por isso, corre o risco de se extinguir. Todavia, como nos apercebemos ao longo da entrevista, os maus na narrativa ambiental são outros.
sinalAberto (sA) – É uma preocupação mundial evitar os impactos do aquecimento global de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais e respectivas trajectórias de emissão de gases de efeito estufa, como expressa o relatório especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. O que pensa disto?
Jorge Paiva (JP) – Eu não acredito em nenhuma das atitudes que os políticos têm tido, desde há mais de trinta anos, reunindo-se internacionalmente e resolvendo que vão actuar. Porém, na reunião seguinte, chegam à conclusão de que não fizeram nada. De maneira que andamos nisto, porque os políticos mundiais ainda não se consciencializaram, não têm consciência da realidade. É por isso que eu insisto na educação ambiental, sobretudo nas escolas. Mas, neste momento, estou desiludido porque, quando esses jovens chegam a adultos, a sociedade consumista já os tem manipulados. Até agora, praticamente, ainda não se fez nada de concreto. Ao menos, tomem uma atitude mais frontal, como o fez Donald Trump, declarando que não queria colaborar. Dizer que colaboram e, depois, não fazerem nada é uma farsa!
sA – A obra pedagógica Litoral – Um Espaço de Descoberta, de que é co-autor (com Cristina Fernandes e José Alho, entre outros), chama a atenção das novas gerações para um ambiente de transição que voga ao sabor das marés. Um quarto de século depois de ter sido escrito, o que foi feito na defesa da diversidade biológica? A lição que o livro transporta foi bem apreendida pelos jovens a que se destinava?
JP – Não, a lição não foi bem compreendida por esses jovens, porque as pessoas esquecem. Inclusivamente, a nossa comunicação social não actua de uma forma pedagógica, antes pelo contrário. Isto está tudo interligado. Nesta sociedade consumista, também interessa que os órgãos da comunicação social, particularmente as televisões e as rádios, entrem neste processo. Estes assuntos são pouco mostrados nas televisões. E, quando é mostrada qualquer coisa, acontece fora de horas!
Quanto à diversidade biológica, também pouco tem sido feito. O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), neste momento, é uma entidade burocrática. Não tem capacidade para actuar, porque não tem pessoal suficiente para as respostas. Apenas dá respostas burocráticas!
Degradação das zonas litorais
sA – É sabido que o litoral constitui uma unidade paisagística de extrema complexidade e sensibilidade, pelo seu valor biológico e ambiental. No entanto, assistimos à destruição das dunas, à degradação das lagoas costeiras e a uma acentuada urbanização e industrialização, com aumentados índices de poluição. O que se espera que as pessoas façam, confrontadas com as suas comodidades e as grandes pressões turísticas?
JP – Há entidades turísticas e hotéis que gostam de construir em cima da duna, mas a culpa é das autarquias que autorizam. Aí, o responsável já não é o governo central. E há muitas construções feitas sobre o património marítimo. Na faixa litoral, há inclusivamente um hospital [neste caso, o Centro Clínico Champalimaud, que está localizado na zona ribeirinha de Belém, em Lisboa]. Eu nunca entraria nesse hospital construído num local expressamente proibido!
E as pessoas também gostam de fazer a casa o mais próximo possível da praia, esquecendo-se das consequências. Quando começaram a ver o avanço do mar, construíram paredões que seguravam de um lado, mas tiveram de fazer outros no outro lado… Assim, a anterior linha da nossa costa, vista do ar, parece um pente!
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segunda-feira, 20 de julho de 2020
Carta aos amigos e amigas do exterior, por Frei Betto
No Brasil ocorre um genocídio! No momento em que escrevo, 16/7, a Covid-19, surgida aqui em fevereiro deste ano, já matou 76 mil pessoas. Já são quase 2 milhões de infectados. Até domingo, 19/7, chegaremos a 80 mil vítimas fatais. É possível que agora, ao você ler este apelo dramático, já cheguem a 100 mil.
Quando lembro que na guerra do Vietnã, ao longo de 20 anos, 58 mil vidas de militares usamericanos foram sacrificadas, tenho o alcance da gravidade do que ocorre em meu país. Esse horror causa indignação e revolta. E todos sabemos que medidas de precaução e restrição, adotadas em tantos outros países, poderiam ter evitado tamanha mortandade.
Esse genocídio não resulta da indiferença do governo Bolsonaro. É intencional. Bolsonaro se compraz da morte alheia. Quando deputado federal, em entrevista à TV, em 1999, ele declarou: “Através do voto você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, se um dia partirmos para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez: matando uns 30 mil”.
Ao votar a favor do impeachment da presidente Dilma, ofertou seu voto à memória do mais notório torturador do Exército, o coronel Brilhante Ustra.
Por ser tão obcecado pela morte, uma de suas principais políticas de governo é a libertação do comércio de armas e munições. Questionado à porta do palácio presidencial se não se importava com as vítimas da pandemia, respondeu: "Não estou acreditando nesses números" (27/3, 92 mortes); "Todos nós iremos morrer um dia" (29/3, 136 mortes); "E daí? Quer que eu faça o quê?" (28/4, 5.017 mortes).
Por que essa política necrófila? Desde o início ele declarou que o importante não era salvar vidas, e sim a economia. Daí sua recusa em decretar lockdown, acatar as orientações da OMS e importar respiradores e equipamentos de proteção individual. Foi preciso a Suprema Corte delegar essa responsabilidade a governadores e prefeitos.
Bolsonaro sequer respeitou a autoridade de seus próprios ministros da Saúde. Desde fevereiro o Brasil teve dois, ambos demitidos por se recusarem a adotar a mesma atitude do presidente. Agora, à frente do ministério, está o general Pazuello, que nada entende de questão sanitária; tentou ocultar os dados sobre a evolução dos números de vítimas do coronavírus; empregou 38 militares em funções importantes do ministério, sem a requerida qualificação; e cancelou as entrevistas diárias pelas quais a população recebia orientação.
Seria exaustivo enumerar aqui quantas medidas de liberação de recursos para socorro das vítimas e das famílias de baixa renda (mais de 100 milhões de brasileiros) jamais foram efetivadas.
As razões da intencionalidade criminosa do governo Bolsonaro são evidentes. Deixar morrer os idosos, para economizar recursos da Previdência Social. Deixar morrer os portadores de doenças preexistentes, para economizar recursos do SUS, o sistema nacional de saúde. Deixar morrer os pobres, para economizar recursos do Bolsa Família e de outros programas sociais destinados aos 52,5 milhões de brasileiros que vivem na pobreza e aos 13,5 milhões que se encontram na extrema pobreza. (Dados do governo federal).
Não satisfeito com tais medidas letais, agora o presidente vetou, no projeto de lei sancionado a 3/7, o trecho que obrigava o uso de máscaras em estabelecimentos comerciais, templos religiosos e instituições de ensino. Vetou também a imposição de multas para quem descumprir as regras e a obrigação do governo de distribuir máscaras para os mais pobres, principais vítimas da Covid-19, e aos presos (750 mil). Esses vetos, no entanto, não anulam legislações locais que já estabelecem a obrigatoriedade do uso de máscara.
Em 8/7, Bolsonaro derrubou trechos da lei, aprovada pelo Senado, que obrigavam o governo a fornecer água potável e materiais de higiene e limpeza, instalação de internet e distribuição de cestas básicas, sementes e ferramentas agrícolas, para aldeias indígenas. Vetou também verba emergencial destinada à saúde indígena, bem como facilitar o acesso de indígenas e quilombolas ao auxílio emergencial de 600 reais (100 euros ou 120 dólares) por três meses. Vetou ainda a obrigação de o governo oferecer mais leitos hospitalares, ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea a povos indígenas e quilombolas.
Indígenas e quilombolas têm sido dizimados pela crescente devastação socioambiental, em especial na Amazônia.
Por favor, divulguem ao máximo esse crime de lesa-humanidade. É preciso que as denúncias do que ocorre no Brasil cheguem à mídia de seu país, às redes digitais, ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, e ao Tribunal Internacional de Haia, bem como aos bancos e empresas que abrigam investidores tão cobiçados pelo governo Bolsonaro.
Muito antes de o jornal The Economist fazê-lo, nas redes digitais trato o presidente por BolsoNero – enquanto Roma arde em chamas, ele toca lira e faz propaganda da cloroquina, remédio sem nenhuma eficácia científica contra o novo coronavírus. Porém, seus fabricantes são aliados políticos do presidente...
Agradeço seu solidário interesse em divulgar esta carta. Só a pressão vinda do exterior será capaz de deter o genocídio que assola o nosso querido e maravilhoso Brasil.
Fraternalmente,
Frei Betto
Frei Betto é frade dominicano e escritor, assessor da FAO e de movimentos sociais
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terça-feira, 19 de maio de 2020
O Ocidente face ao Coronavírus 2: arrogância e decadência, por Cristina Semblano
| Para melhor leitura do artigo aqui |
Enquanto os mortos da pandemia se contam aos milhares por dia nos países ocidentais e, nomeadamente, na Europa e nos Estados Unidos, comentadores e medias mainstream entretêm-nos dias afora com as mentiras da China que demorou tempo a revelar o novo vírus (o que é certamente verdade), favorecendo a sua propagação. Os mesmos entretêm-nos com o problema dos números falsos comunicados pela China e, cereja no topo do bolo, falam-nos, com ou sem reportagens a corroborá-lo, no autoritarismo do regime para combater a epidemia.
Não sendo, de forma alguma, defensora do regime chinês – como, aliás, de qualquer regime autoritário –, não deixo, todavia, de interpretar esta avalanche de comentários e análises dos responsáveis das nossas democracias liberais como uma tentativa para esconder a sua própria incúria, não só face à antecipação de uma situação deste tipo, perfeitamente previsível – não fora o SARS-CoV-1 na China em 2002-2004 [1], o MERS-CoV [2] na Península Arábica em 2012, e os alertas regulares dos epidemiologistas –, mas também à sua gestão, caótica, irresponsável e opaca.
Em vez de nos preocuparmos com o atraso do governo chinês em comunicar sobre a pandemia (há tempo para, em seu tempo, o fazer), deveríamos interrogar-nos sobre as razões pelas quais, tendo esta sido declarada em finais de Dezembro, na China, não nos antecipámos para lhe fazer frente, chegando ao cúmulo de sustentar – como a então ministra francesa da Saúde, Agnès Buzyn, em 23 de Janeiro – que o risco de propagação do vírus em França era quase nulo, já que as autoridades chinesas o estavam a conter em Wuhan...
Para além da falta de antecipação dos riscos de pandemia – em geral – e desta – uma vez declarada – em particular, haveria que olhar com modéstia para o que estava a ser feito na China – berço da pandemia – e nos países limítrofes – Coreia do Sul, Taiwan, Singapura... – para a conter, e a jugular. É que os chineses são, com os sauditas, os grandes especialistas mundiais de coronavírus, por um lado; por outro, tinham um relativo avanço em relação a nós, pelo que a China nos poderia ter servido, de alguma forma, de laboratório...
Mas uma tal postura era impossível de assumir. O Ocidente desenvolvido revelou-se – com a rara excepção, na Europa, da mercantilista e predadora Alemanha [3] – “sub-desenvolvido” para fazer face à crise sanitária, com um défice abissal do mínimo sindical em matéria de máscaras, luvas, batas, toucas, testes, respiradores e profissionais de saúde, resultado de décadas de destruição dos serviços públicos da saúde, da gestão de hospitais como empresas privadas e da globalização que, em nome da competitividade, delegou para países terceiros investigação e produção científica e fabrico de bens essenciais à soberania sanitária.
Perante um vírus intrusivo, a quem se abriu de par em par as portas principais de entrada – como se de um hóspede de honra se tratasse –, com as mãos cheias de nada para proteger as populações, e fazendo assentar este vazio criminal numa vulgata científica adaptada às circunstâncias – o uso de máscara é desaconselhável na ausência de contaminação, a prática de testes a larga escala pode ser contraprodutiva... –, os governantes dos nossos países viram-se, em última instância, acossados ao confinamento dos cidadãos – em detrimento da actividade económica que sempre privilegiaram, contrariamente, afinal, à produtivista China [4] –, expondo-se ao risco de uma potencial explosão de ocorrências no fim do período de isolamento.
Indispensável para conter o risco de revolta iminente das populações, o confinamento destas últimas – sem equivalente na história da Humanidade e sem nenhuma outra justificação que não seja a falta de meios para adoptar as boas práticas – vai constituir um poderoso instrumento nas mãos dos poderes políticos neoliberais, permitindo-lhes mudar a responsabilidade de campo, ou seja, transpô-la do plano colectivo (político), onde efectivamente se encontra, para o plano individual, segundo o princípio basilar do neoliberalismo. Cada cidadão é doravante responsável pelo que lhe vier a acontecer, com a agravante de que poderá também vir a ser responsável, com a sua atitude, pelo que vier a acontecer aos outros.
De culpado e criminoso, o Estado tornou-se zeloso e protector da população, não hesitando em fazer uso do seu arsenal preventivo-repressivo para chamar à ordem ou sancionar os cidadãos prevaricadores, desde os drones a sobrevoar os céus de Itália, Espanha ou França, para lembrar à população as instruções governamentais decorrentes dos estados de emergência entretanto adoptados, até à aplicação de coimas e penas de prisão a cidadãos “culpados de irem apanhar ar”. O Inimigo mudou de campo. Deixou de ser o Estado austeritário que cortou na saúde para dar às multinacionais e à finança, a sua impreparação e gestão criminosas, mas o Outro, o que sai à rua, vizinho, familiar ou desconhecido.
O processo de inversão da responsabilidade, do campo político para o individual, foi acompanhado pela estratégia do medo, que a própria adopção do estado de confinamento, se bem que parcial e tardia, contribuiu para forjar – como é que governos que sempre privilegiaram o Deus-mercado passaram a privilegiar os humanos? –, mas que foi cientemente ampliada e instrumentalizada, através, nomeadamente, das conhecidas encenações das conferências de imprensa a contar o número de mortos e de sobreviventes, de infectados e de suspeitos, de camas e de ventiladores, e a responsabilizar os comportamentos individuais de forma, não só infantilizante, como, sobretudo, descontextualizada.
Com efeito, o contexto é apenas um: o de Estados que confinaram os cidadãos a larga escala – com excepção dos das “actividades essenciais para a economia”, que enviaram para o labor de mãos nuas, expondo-os a uma contaminação certa e a uma morte provável – por que se despojaram dos meios necessários para os proteger. É esta causalidade que a inversão do campo da responsabilidade quis romper, e é ela que não deve falhar na análise, quando os mesmos Estados vierem apresentar aos trabalhadores que confinaram compulsivamente, e aos outros, reformados, desempregados e demais precários, a factura do confinamento.
Resta saber se a estratégia do medo que acompanhou este último resultará. Mas o que se sabe, para já, é que milhões de pessoas, anestesiadas, se barricaram, sem revolta aparente, oferecendo ao espectro dos poderes políticos uma experiência em tamanho natural da predisposição à submissão voluntária. Ao romper as cadeias da causalidade, e reduzidos à vida nua (Agamben) [5] num cenário em que o medo do vírus parece ter mutado em vírus do medo, os livres cidadãos das nossas democracias liberais parecem mais predispostos do que nunca a aceitar a perpetuação dos estados de emergência e o confisco duradouro da Vida.
É que, como no-lo lembra Agamben, o que é preocupante não é tanto, ou, sobretudo, o presente, é o que virá a seguir. “Tal como as guerras que deixaram em herança à paz uma série de tecnologias nefastas, do arame farpado às centrais nucleares, também é provável que, após a urgência sanitária, os governos sejam tentados a levar a cabo experiências que ainda não tinham conseguido concretizar antes: fechar universidades e escolas, dispensar aulas através de plataformas, pôr um termo definitivo aos encontros e às discussões políticas ou culturais, limitar os intercâmbios a mensagens electrónicas e, sempre que puderem, substituírem por máquinas o contacto – o contágio – entre os seres humanos.” [6] Será necessário acrescentar: e proceder ao seu rastreio digital, que a Europa e os Estados Unidos estão a organizar, à imagem da autoritária China?
[1] Acrónimo inglês de Several Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 1 (Síndrome Respiratório Agudo Severo); o que designamos por coronavírus 2, no título, ou a OMS por covid-19, tem como nome científico SARS-CoV-2.
[2] Acrónimo em inglês de Middle East respiratory syndrome-related coronavirus, ou Síndrome Respiratório do Médio Oriente.
[3] Com efeito, se a Alemanha, que confinou mais tarde e desconfinou mais cedo, fica, de muito longe, melhor na fotografia da gestão da crise sanitária, com menos de 8000 mortos (7861) em 13 de de Maio, contra cerca de 31.000 na Itália (31.106), 27.000 em França (27.074) e em Espanha (27.321), é, em grande parte, porque goza da vantagem sanitária e industrial que lhe advém de mecanismos europeus concebidos para ela: os do mercado único e da moeda única, que vieram ancorar-se numa indústria previamente (e por razões históricas) mais desenvolvida e, por conseguinte, mais atractiva para os capitais produtivos, o que, juntamente com a mão-de-obra barata do seu Hinterland da Europa de Leste, se traduzem numa indústria poderosa e competitiva. Quanto à margem de manobra orçamental que permite à Alemanha gastar sem olhar para a despesa para fazer face à crise sanitária, se ela se deve igualmente ao sub-investimento crónico da Alemanha, tal sub-investimento não afectou o sector da saúde, devido – como no-lo explica o historiador Johann Chapoutot (entrevista a Médiapart, 24.04.2020) – à pressão de um eleitorado de direita composto de reformados detentores de pensões privadas (fundos de pensões) adepto do défice zero, mas não em detrimento da (sua) saúde.
[4] Com efeito, se é verdade que a China tentou, no início, censurar a divulgação do vírus, também não é menos verdade que a partir de meados de Janeiro adoptou medidas drásticas de contenção da epidemia, que levaram à paralisia quase total da actividade económica.
[5] Por “vida nua” entendemos, como o filósofo italiano Giorgio Agamben (Homo sacer, volume I, O poder soberano e a vida nua, 1997), a politização da vida natural, que é o fundamento do poder soberano e da sua manutenção, ou seja, a constituição de uma vida que não é apenas natural, mas considerada na sua relação com o poder e mantida através deste. Para Agamben, a vida nua é o ponto de ancoragem do poder, ou seja, o que torna possível o seu exercício. A soberania não se exerce sobre sujeitos de direito, mas sobre a vida nua, ou seja, sobre uma vida que se encontra exposta à violência do poder soberano, e que é o fundamento deste poder. A vida nua resulta de uma decisão soberana que a qualifica e lhe determina o valor.
[6] Chiarimenti (Esclarecimentos), Quodlibet, 17 de Março, traduzido para português a partir da tradução para francês de Martin Rueff, “Giorgio Agamben: 'Qu’est-ce donc une société qui ne reconnaît pas d’autre valeur que la survie?'”; in l’Obs, 27 de Abril de 2020.
Economista; assistente de Economia na Universidade de Paris III-Sorbonne Nouvelle; autarca na região de Paris
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sábado, 25 de abril de 2020
segunda-feira, 20 de abril de 2020
New Environmental Performance Index (EPI) Available at NASA’s SEDAC
The 2020 release of the EPI ranks 180 countries in environmental health and ecosystem vitality based on 32 indicators.
The 2020 release of the Environmental Performance Index (EPI) is now available at NASA’s Socioeconomic Data and Applications Center (SEDAC). Produced every two years since 2006, the 2020 EPI (doi:10.7927/f54c-0r44) ranks 180 countries in environmental health and ecosystem vitality based on 32 performance indicators in 11 issue categories: air quality, sanitation and drinking water, heavy metals, waste management, biodiversity and habitat, ecosystem services, fisheries, climate change, pollution emissions, agriculture, and water resources. The 2020 release includes a report, data sets for download, and a gallery of nearly 100 maps visualizing changes in performance over more than two decades.
Summary EPI 2020 global map available through NASA's SEDAC showing aggregate 2020 EPI scores, with darker colors indicating higher EPI scores. Click on image for larger view. Image: YCELP, Yale University, and CIESIN, Columbia University. 2020. 2020 Environmental Performance Index (EPI). Palisades, NY: NASA SEDAC. doi:10.7927/f54c-0r44. Accessed 25 November 2020.
The EPI provides quantitative metrics for evaluating a country’s environmental performance in different policy categories relative to clearly defined targets, and aggregates data on many indicators of sustainability into a single number – the EPI Score, which ranges from 0 to 100. Its proximity-to-target methodology facilitates cross-country comparisons among economic and regional peer groups.
Nations with the top five EPI scores in 2020 are Denmark (82.5), Luxembourg (82.3), Switzerland (81.5), the United Kingdom (81.3), and France (80.0). The United States received an EPI score of 69.3 (mainly due to low scores on Water Resources and Waste Management), ranking it in 24th place behind Malta. The five lowest-scoring nations in 2020 are Côte d’Ivoire (25.8), Sierra Leone (25.7), Afghanistan (25.5), Myanmar (25.1), and Liberia (22.6). For detailed information about the EPI methodology and a full summary of results, please see the 2020 EPI Report.
Developed by the Yale Center for Environmental Law and Policy (YCELP) and Columbia University’s Center for International Earth Science Information Network (CIESIN), the EPI is archived at and distributed by SEDAC. SEDAC is the home for socioeconomic data in NASA’s Earth Observing System Data and Information System (EOSDIS) collection. Hosted at CIESIN, SEDAC synthesizes Earth science and socioeconomic data and information in ways useful to a wide range of decision makers and other applied users, and serves as an “Information Gateway” between the socioeconomic and Earth science data and information domains.
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