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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Aniversário da morte de Sócrates


Aniversário da morte de Sócrates 15 de fevereiro (disputado) 399 AC Atenas, Grécia "A vida não examinada não vale a pena viver." - Sócrates
Um famoso ditado supostamente proferido por Sócrates em seu julgamento por impiedade e corrupção de jovens, pelo qual foi posteriormente condenado à morte.
Bertrand Russell comenta Uma História da Filosofia Ocidental (1945) “Os principais factos do julgamento e morte de Sócrates não são susceptíveis de dúvida. A acusação baseou-se na acusação de que: “Sócrates é um malfeitor e uma pessoa curiosa, que investiga as coisas debaixo da terra e acima do céu; e fazer com que o pior pareça ser a melhor causa, e ensinar tudo isso aos outros.“ Isso está registado no diálogo Apologia, que é geralmente considerado histórico. Este afirma ser o discurso que Sócrates fez em sua própria defesa no seu julgamento – não, claro, um relatório estenográfico, mas o que permaneceu na memória de Platão alguns anos depois do acontecimento, reunido e elaborado com arte literária. Platão esteve presente no julgamento, e certamente parece bastante claro que o que está estabelecido é o tipo de coisa que Platão se lembrava de Sócrates ter dito, e que a intenção é, em termos gerais, histórica. Isto, com todas as suas limitações, é suficiente para dar uma imagem bastante definida do carácter de Sócrates. Ao que parece, certa vez perguntaram ao Oráculo de Delfos se havia algum homem mais sábio que Sócrates, e ele respondeu que não. Sócrates afirma ter ficado completamente perplexo, pois não sabia de nada e, no entanto, um deus não pode mentir. Ele, portanto, andou entre homens considerados sábios, para ver se poderia convencer o deus do erro. Primeiro ele procurou um político, que "era considerado sábio por muitos, e ainda mais sábio por ele mesmo". Ele logo descobriu que o homem não era sábio e explicou-lhe isso, de maneira gentil, mas firme, "e a consequência foi que ele me odiou". Ele então foi até os poetas e pediu-lhes que explicassem passagens de seus escritos, mas eles não conseguiram fazê-lo. "Então eu soube que não é por sabedoria que os poetas escrevem poesia, mas por uma espécie de génio e inspiração." Depois procurou os artesãos, mas achou-os igualmente decepcionantes. No processo, diz ele, ele fez muitos inimigos perigosos. Finalmente concluiu que "só Deus é sábio; e com a sua resposta pretende mostrar que a sabedoria dos homens vale pouco ou nada; não está a falar de Sócrates, está apenas a usar o meu nome a título de ilustração, como se ele disse: Aquele, ó homens, é o mais sábio, aquele que, como Sócrates, sabe que sua sabedoria na verdade não vale nada. Esse negócio de mostrar pretendentes à sabedoria ocupa todo o seu tempo e o deixou em extrema pobreza, mas ele sente que é um dever defender o oráculo. pág. 86
A acusação dizia que Sócrates não só negava os deuses do Estado, mas também introduzia outros deuses próprios; seu promotor Meleto, porém, diz que Sócrates é um ateu completo e acrescenta: "Ele diz que o sol é pedra e a lua é terra." Sócrates responde que Meleto parece pensar que está processando Anaxágoras, cujas opiniões podem ser ouvidas no teatro por um dracma (presumivelmente nas peças de Eurípides). É claro que Sócrates salienta que esta nova acusação de ateísmo completo contradiz a acusação, e depois passa para considerações mais gerais. pág. 87
A Apologia dá uma imagem clara de um certo tipo de homem: um homem muito seguro de si, nobre, indiferente ao sucesso mundano, acreditando que é guiado por uma voz divina e persuadido de que o pensamento claro é o requisito mais importante para viver corretamente. Exceto neste último ponto, ele se assemelha a um mártir cristão ou a um puritano. Na passagem final, onde considera o que acontece após a morte, é impossível não sentir que acredita firmemente na imortalidade e que a sua professada incerteza é apenas assumida. Ele não se preocupa, como os cristãos, pelo medo do tormento eterno: não tem dúvidas de que a sua vida no outro mundo será feliz. No Fédon, o Sócrates platónico dá razões para a crença na imortalidade; se foram essas as razões que influenciaram o Sócrates histórico, é impossível dizer.” p. 89 — Bertrand Russell, Uma História da Filosofia Ocidental (1945), Livro Um Filosofia Antiga, Parte II. Cap: XI, Sócrates, p. 86, pág. 87 e pág. 89
Antecedentes: A Morte de Sócrates, 15 de fevereiro de 399 AEC Sócrates (c. 470-399 aC) foi uma figura altamente enigmática e polarizadora na sociedade ateniense. Em 399 aC, ele foi acusado de impiedade e de corromper a juventude. Após um julgamento que durou apenas um dia, ele foi condenado à morte e obrigado a beber uma bebida venenosa composta principalmente de cicuta, mel e leite (o mel era usado para mascarar o forte sabor amargo da cicuta e leite adicionado para não causar vómito ). Sócrates passou seu último dia na prisão, recusando ofertas de ajuda para escapar. As últimas palavras de Sócrates foram de acordo com Platão: “Crito, devemos um galo a Asclépio. Pague e não negligencie."
— Sócrates, Fédon 118a (Ὦ Κρίτων τῷ Ἀσκληπιῷ ὀφείλομεν ἀλεκτρυόνα. ἀλλὰ ἀπόδοτε καὶ μὴ ἀμ ελήσητε)

* O Oráculo de Delfos
Pítia era o título oficial da suma sacerdotisa do Templo de Apolo em Delfos. Ela serviu especificamente como oráculo e era comumente conhecida como Oráculo de Delfos. Os gregos antigos derivaram este nome de lugar do verbo πύθειν (púthein) 'apodrecer', que se refere ao cheiro doce e enjoativo do corpo em decomposição de uma monstruosa Píton depois de ter sido morto pelo deus Apolo. O Oráculo de Delfos era o oráculo de maior prestígio e autoridade entre os gregos antigos e estava entre as mulheres mais poderosas do mundo clássico. Muitos dos escritos antigos afirmavam que a Pítia entregava oráculos num estado frenético e hipnótico induzido por vapores que subiam de um abismo vulcânico na rocha no centro do templo. Quaisquer palavras que os Ptyhia pronunciassem, os sacerdotes délficos masculinos interpretavam como profecias enigmáticas. Esta interpretação antiga, no entanto, foi contestada por muitos estudiosos modernos e atualmente não é geologicamente sustentável. O templo sobreviveu até 390 DC, quando o imperador cristão romano Teodósio I silenciou o oráculo destruindo o templo e destruindo a maioria das estátuas e obras de arte na tentativa de remover todos os vestígios do paganismo grego, uma tarefa que foi amplamente bem-sucedida.
Imagem: Busto de Sócrates. Mármore, obra de arte romana (século I), talvez uma cópia de uma estátua de bronze perdida feita pelo escultor grego antigo Lísippo. Atualmente alojado no Museu do Louvre, Paris.

domingo, 12 de junho de 2022

‘Resistir às incertezas é parte da Educação’, diz Edgar Morin

Aos 97 anos (2019), o francês Edgar Morin, um dos maiores sociólogos vivos, autor de mais de 30 livros, entre eles títulos canônicos como “O Método” ou “Os Sete Saberes Necessários para a Educação do Futuro”, Morin desacelerou as viagens nos últimos anos, recolhido à vida em Montpellier , no Sul da França, mas decidiu cruzar o Atlântico para visitar o Brasil , onde, como conta, gostaria de ter morado.

Por mais de 40 minutos, discorreu, ora em francês, ora em espanhol, sobre os desafios da Educação em tempos críticos, mas driblara temas da política local.

Eis a entrevista:
Qual é o papel da Educação hoje?
O papel da Educação é de ajudar os alunos a enfrentar problemas da vida. Isso de uma forma geral, mas sobretudo num mundo em crise. Eu fiz vários livros sobre Educação e, para mim, a ideia fundamental é que falta nos programas de Educação alguns temas fundamentais para que as pessoas possam enfrentar problemas da vida.

Que temas são esses?
Em primeiro lugar, a Educação trata de conhecimento, mas é preciso fazer a pergunta: o que significa conhecer? Porque conhecer pode ser uma armadilha, que guarda ilusões, equívocos, erros. Devemos ensinar aos jovens todas as dificuldades do conhecimento, todas as possibilidades de erro. Por exemplo, uma percepção visual não é uma fotografia, é uma reconstrução com os olhos. As pessoas que estão longe de mim parecem pequenas aos meus olhos, mas na minha mente estão normais. Ou seja, todo conhecimento é uma tradução e uma reconstrução. E, em cada tradução, há possibilidade de erro. É muito importante ensinar a enfrentar o erro. O segundo problema da Educação é a compreensão humana. Não se ensina a compreender o outro. Quando falo do outro, não falo de estrangeiros, de pessoas que falam outra língua ou que são de outro país. Falo de quem está ao seu lado. É muito importante para a vida compreender esse outro. Então, tem a questão da crise. A crise é um momento de muito mais incertezas que em tempos normais. Há angústias e dificuldades. Na Educação em tempos ditos normais, ensinam-se certezas, e não incertezas. Por exemplo, quando a França era um país ocupado pelos alemães, havia uma situação de incerteza, e era preciso encontrar possibilidades de enfrentar isso. Resistir à incerteza é importante.

O senhor costuma dizer que estamos imersos numa crise. Que crise é esta?
Não é unicamente uma crise económica, aquela que começou em 2008, mas é uma crise de civilização, das relações humanas. É uma crise de mentalidades, uma crise da Humanidade que não chega a se tornar Humanidade porque a globalização criou uma unificação técnica do planeta, mas não fez uma compreensão das culturas. Ao contrário: as culturas se fecharam em si mesmas, quando começou a unificação técnico-económica. É uma crise generalizada, enfim. É preciso ensinar hoje em dia, as várias características da globalização. Há características positivas e muito negativas. Uma parte das populações asiáticas ou latino-americanas que saíram da pobreza e passaram à classe média, mas outra parte dos pobres caiu na miséria. O processo da globalização ainda está descontrolado e nos conduz à possibilidade de catástrofe generalizada. Esses problemas precisam estar na Educação. Para onde vamos? Onde estamos, humanos? Hoje em dia é necessário ter consciência de que pertencemos à espécie humana, que tem um destino comum frente a tantos perigos terríveis. Não existe essa consciência, mas o oposto dela. A crise, a angústia fazem com que as pessoas se fecham em suas próprias identidades, etnias, religiões, nações. A Educação precisa ensinar essa consciência de pertencimento à Humanidade.

O senhor disse que resistir é importante em tempos de crise. A Educação é uma forma de resistência?
Sim, resistência é um tema fundamental da Educação hoje. Existe uma onda generalizada de retrocessos, uma crise generalizada de democracia em muitos países. É uma degradação do pensamento político que não é nada mais do que uma obediência à economia. Vivemos a destruição da política em proveito da economia. O poder económico controla a política, e não mais o caminho oposto. Nessa onda de retrocessos, de crise na democracia, há o neo-autoritarismo, um novo tipo de poder, como na Turquia, na Rússia, na Hungria e aqui mesmo, no Brasil. A França também corre este perigo, além de outros países. É uma época de retrocessos e devemos resistir. Resistir pelos valores humanistas, resistir pelos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Temos que manter essa ideia de fraternidade humana, de uma economia solidária, devemos manter uma ideia de, digamos, oásis, outro tipo de vida que não obedeça a poderes econômicos. Isso é resistência.

O senhor citou a Hungria, um país que adotou medidas restritivas na Educação, fechando inclusive universidades. No Brasil, recentemente, o Ministério da Educação bloqueou 30% do orçamento para universidades…
Veja, cada país tem sua especificidade. Há uma tendência em todos os países, sobretudo nesses países autoritários, de se eliminar a cultura humanista em prol da adaptação a uma realidade económica imediata. Devemos resistir justamente a isso.

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro declarou em abril, no Twitter, que se pretende “descentralizar investimentos em faculdade de filosofia e sociologia (humanas)”, com o objetivo de “focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como Veterinária, Engenharia e Medicina”. Como o senhor vê isso?

Há uma necessidade vital de salvaguardar as Ciências Humanas e também de não fragmentar a cultura científica e a cultura humanista. O importante é manter a relação entre as duas. Porque a cultura humanista tem o poder da reflexão, da meditação sobre as descobertas da cultura científica. De novo: devemos resguardar todos os saberes.

Qual é a importância da Educação pública?
A Educação pública não pode ter um interferência, não pode ser regida, e, por isso, a princípio, é mais livre. Mas frequentemente perde essa liberdade. O ensino público precisa de uma reforma profunda, mas não há um só país que tenha chegado a uma Educação capaz de contemplar de forma igualitária o pensamento complexo, capaz de relacionar, sem fragmentar, a cultura humanista e a cultura científica.

O governo brasileiro vem defendendo o ensino das crianças em casa, o chamado “homeschooling”. O que o senhor acha desse modelo? E qual é o papel da escola na formação do indivíduo?
A vantagem da escola é que existe uma relação pessoal do professor com os alunos. Se o professor tem a paixão de ensinar, se tem o amor dos alunos… Olha, Platão dizia que, para ensinar, é necessário Eros, quer dizer, amor. A escola dá a possibilidade de relações concretas, e se existe essa paixão, o professor pode ajudar os pequenos a se tornarem adultos mais conscientes. A escola é uma possibilidade de fazer amigos e amigas, e isso é um tesouro que se carrega para toda a vida. Há este elemento que é muito importante na escola como lugar sede da Educação, o de não deixar a criança ilhada, isolada do mundo. Pode-se até ajudar com internet, televisão e outras coisas, mas é fundamental o aprendizado em coletivo.

Numa entrevista recente ao jornal “Le Monde”, o senhor disse que perdeu as ilusões. O que isso significa?
O que eu digo é que ficam comigo todas as aspirações da adolescência, mas não mais as ilusões.

Quais seriam suas ilusões perdidas?
A ilusão de pensar que poderíamos fazer um mundo totalmente novo. Não se pode conseguir um mundo totalmente harmonioso. Sempre haverá a luta entre diferentes forças, os conflitos, as brigas por união, por solidariedade. A luta é permanente, é parte de toda a História humana, não se pode pensar num ponto onde há harmonia total. A sociedade é um misto de ordem e desordem. A ilusão é a perfeição, e estamos num mundo imperfeito. Mas, não esqueçamos, ele pode ser melhorado.

domingo, 24 de julho de 2016

História da Verdade - O que é a verdade? E como a conhecemos?



A busca da verdade e a natureza do conhecimento: de Parménides ao ceticismo antigo
Introdução e Ramo da Filosofia
O texto apresentado aborda centralmente a Epistemologia (ou Teoria do Conhecimento), mantendo contritos laços com a Ontologia (Metafísica) e a Lógica. A Epistemologia dedica-se a investigar o que é o conhecimento, como este se distingue da mera crença ou opinião (doxa), de que modo justificamos as nossas afirmações e qual a própria natureza da verdade - questões fundacionais que continuam a ecoar nos debates contemporâneos sobre o fenómeno da pós-verdade. A perspetiva histórica exposta reflete o modo como o pensamento ocidental evoluiu na tentativa de responder a duas perguntas essenciais: o que é a verdade e como a podemos conhecer. Desde a afirmação da factividade do ser até à desconstrução cética, o percurso da filosofia antiga demonstra que a reflexão sobre a verdade não é apenas uma especulação teórica, mas a própria base para o rigor intelectual, a ética e o discurso público.

O desenvolvimento histórico e as obras de referência
Para compreender esta evolução epistemológica, é indispensável analisar o papel das obras e autores citados na bibliografia, organizados pelas suas linhas de contribuição

1.Os Pré-Socráticos e os primórdios da onto-epistemologia: antes do surgimento de teorias epistemológicas formais, a preocupação inicial focava-se na relação entre a linguagem, a aparência e a realidade subjacente. Em estudos como os de Barnes (1979/1982), Graham (2010a, 2010b) e Guthrie (1969), analisa-se como Parménides estabeleceu uma rutura: a verdade (aletheia) pertence ao Ser, imutável e pensado pela razão, enquanto a aparência pertence ao mundo dos sentidos. Por sua vez, Hesíodo (Theogony and Works and Days, trad. West, 1988) reflete a transição entre o pensamento poético-mítico e o início da procura por explicações ordenadas do cosmo.

2. O desafio dos sofistas e o relativismo: com o surgimento de figuras como Protágoras e Górgias, a verdade deixa de ser vista como algo absoluto e passa a ser considerada dependente da perspetiva ou do poder da persuasão. Em textos como Against the Sophists e Encomium on Helen de Isócrates (1936, 1945), assim como no tratado pseudo-aristotélico On Melissus, Xenophanes, and Gorgias (1936), explora-se a crítica sofística à capacidade da linguagem de captar a realidade objetiva, subordinando o conhecimento à utilidade e ao contexto político e social (Munn, 2023; Billings & Moore, 2023).

3. Platão e a definição de conhecimento: Platão dedicou grande parte da sua obra a combater o relativismo sofístico e a estabelecer os alicerces da epistemologia clássica. No diálogo Teeteto (Platonis Opera, Burnet, 1905; Rowe, 2015), Platão explora e rejeita as definições de conhecimento como perceção ou como crença verdadeira simples, conduzindo à formulação de que o conhecimento exige uma justificativa ou razão (logos). Já no diálogo Sofista, enfrenta o problema de como é possível dizer o que é falso (falar do "não-ser") e apresenta o conceito de veridador (truth-maker), articulando linguagem e mundo de modo a explicar como uma proposição pode ser verdadeira ou falsa sem cair em contradições ontológicas.

4. Aristóteles, lógica e fundamentação: Aristóteles formaliza o estudo das regras do pensamento e da estrutura da ciência. Na Metaphysics (trad. Reeve, 2016) e no De Generatione et Corruptione (trad. Williams, 1982), Aristóteles estabelece a teoria da correspondência da verdade, onde o que é dito corresponde ao que é na realidade. Através da lógica dedutiva e do modelo demonstrativo, investiga como derivamos conhecimento necessário de primeiros princípios indemonstráveis, mas apreendidos intuitivamente (Smith, 1995).

5. O período helenístico e o ceticismo: a filosofia pós-aristotélica dividiu-se entre a procura de critérios de certeza e a desconstrução sistemática desses critérios. Autores como Epicteto (Discourses, Fragments, Handbook, 2014), Epicuro (The Epicurus Reader, 1994) e os estudos de Hankinson (2003) procuraram estabelecer critérios empíricos ou racionais para garantir a apreensão segura da realidade (kataleptike phantasia). Por outro lado, Sexto Empírico (Against the Logicians, 1935) e as análises contemporâneas de Bett (2010) e Pellegrin (2010) representam o culminar do ceticismo antigo ao compilar argumentos para demonstrar a equivalência de razões opostas (isostheneia), levando à suspensão do juízo (epoche). O percurso iniciado na busca pela certeza culmina, assim, na conclusão cética de que nenhuma alegação de conhecimento absoluto está isenta de dúvida.

6. Pontes modernas e contemporâneas: A bibliografia estende-se a momentos posteriores para ilustrar a relevância contínua do tema. McGinnis (2010) demonstra a continuação do debate aristotélico no mundo islâmico através de Avicena. John Stuart Mill em On Liberty (1859/1991) defende a necessidade do debate aberto para aproximar a sociedade da verdade. Bertrand Russell (The Philosophy of Logical Atomism, 1972/2010) e Mulligan, Simons & Smith (Truth-Makers, 1984) retomam o problema platónico e aristotélico de perceber o que no mundo torna uma afirmação verdadeira. Por fim, Sean Carroll (The Big Picture, 2016) traz o debate para o contexto da física e da visão científica moderna sobre a realidade.

Conclusão
A história da reflexão sobre a verdade e o conhecimento não é uma linha reta em direção a certezas dogmáticas, mas sim um diálogo contínuo entre a procura de fundamentação racional e a constatação das limitações humanas. Ao viajar desde a intuição ontológica de  Parménides, passando pelos debates platónicos sobre a perceção e o relativismo, até ao rigor dedutivo de Aristóteles e à suspensão do juízo dos céticos, percebe-se que as interrogações antigas continuam vivas. Compreender este percurso é fundamental para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo, onde falar de pós-verdade não é um fenómeno inteiramente novo, mas o eco de disputas muito antigas entre a retórica persuasiva dos sofistas e a exigência de provas e justificações racionalmente válidas. Revisitando estas bases epistemológicas, obtemos as ferramentas críticas necessárias para avaliar discursos, questionar certezas infundadas e valorizar a procura honesta pelo conhecimento.

Bibliografia
Aristóteles, De Generatione et Corruptione. Trad. e notas de C. J. F. Williams. Oxford: Oxford University Press, 1982.
Aristóteles. Metaphysics. Trad., intro. e notas de C. D. C. Reeve. Indianápolis, IN: Hackett Publishing Company, Inc., 2016.
Barnes, Jonathan (1979) The Presocratic Philosophers. Londres e Nova Iorque, NY: Routledge & Kegan Paul, 1982.
Bett, Richard (2010) The Cambridge Companion to Ancient Scepticism. Cambridge: Cambridge University Press.
Billings, Joshua e Moore, Christopher, ed. (2023) The Cambridge Companion to the Sophists. Cambridge: Cambridge University Press.
Carroll, Sean (2016) The Big Picture: On The Origins of Life, Meaning, and the Universe Itself. Nova Iorque, NY: Dutton.
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Epicteto, Discourses, Fragments, Handbook. Trad. Robin Hard. Oxford: Oxford University Press, 2014.
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Graham, Daniel W. (2010a) The Texts of Early Greek Philosophy: The Complete Fragments and Selected Testimonies of the Major Presocratics, Part 1. Cambridge: Cambridge University Press.
Graham, Daniel W. (2010b) The Texts of Early Greek Philosophy: The Complete Fragments and Selected Testimonies of the Major Presocratics, Part 2. Cambridge: Cambridge University Press.
Guthrie, W. K. C. (1969) A History of Greek Philosophy, Vol. II: The Presocratic Tradition from Parmenides to Democritus. Cambridge: Cambridge University Press.
Hankinson, R. J. (2003) “Stoic Epistemology”. In The Cambridge Companion to Stoics, ed. Brad Inwood. Cambridge: Cambridge University Press, pp. 59–84.
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Isócrates, Encomium on Helen. In Isocrates, Vol. III Trad. Larue van Hook. Loeb Classical Library. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1945.
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Pellegrin, Pierre (2010) “Sextus Empiricus”, in Bett 2010: 120–141.
Platão. Platonis Opera, Tomus I: Tetralogia I-II. ed. John Burnet. Oxford: Clarendon Press, 1905
Platão. Theaetetus and Sophist, ed. Christopher Rowe. Cambridge: Cambridge University Press, 2015.
Pseudo-Aristóteles, “On Melissus, Xenophanes, and Gorgias”, in Aristotle, Minor Works. Trad. W. S. Hett. Loeb Classical Library. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1936.
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Sexto Empírico, Against the Logicians. Trad. R. G. Bury. Loeb Classical Library. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1935.
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