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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Mais um estudo científico a alertar porque é que as crianças olham tanto para alimentos pouco saudáveis nas idas ao supermercado

A recente investigação australiana que revelou que as crianças passam cerca de 17% do tempo de compras fixadas em locais estratégicos e que 99% dessa atenção vai para produtos pouco saudáveis insere-se num corpo científico sólido e em constante crescimento. A forma como o design das lojas e as embalagens capturam a atenção infantil tem sido amplamente documentada por investigadores em todo o mundo. A ciência comportamental e a nutrição comunitária há muito que analisam o fenómeno do "pester power" (o poder de persuasão e insistência das crianças sobre os pais durante as compras), e as técnicas de monitorização visual moderna, como a tecnologia de rastreamento ocular (eye-tracking), apenas vieram confirmar numericamente o que a observação direta e a psicologia do consumo já haviam mapeado.

A atenção das crianças aos ultraprocessados não é acidental, pois responde a estímulos biológicos e visuais diretos. A este respeito, a fixação visual automática em alimentos calóricos demonstra como o cérebro está programado para o consumo; um estudo publicado no PMC (PubMed Central) revelou que o cérebro humano está naturalmente programado para detetar e fixar o olhar em alimentos com maior densidade calórica de forma mais rápida. No entanto, enquanto os adultos conseguem exercer autorregulação e desviar o olhar, as crianças mantêm o foco visual preso nesses produtos, tornando-as o alvo perfeito para estratégias no ponto de venda.

A par desta vulnerabilidade biológica, o impacto das mascotes e personagens nas embalagens surge como uma das ferramentas mais poderosas no retalho. A investigação divulgada pelo MDPI / Nutrients avaliou a influência das personagens de desenhos animados e das cores vivas na escolha alimentar infantil, concluindo que estes elementos ativam respostas emocionais e comportamentos impulsivos no momento de decisão, sobrepondo-se a qualquer noção de valor nutricional.

Por fim, a importância da posição nas prateleiras completa este ciclo de atração no retalho. A localização estratégica nas pontas de corredor e junto às caixas registadoras explora a vulnerabilidade do momento final da compra, e os relatórios analíticos sobre o ambiente de consumo publicados pela World Health Organization (WHO) alertam que a exposição contínua a alimentos ricos em gorduras, açúcar e sal (HFSS) nas zonas de maior circulação dos supermercados correlaciona-se diretamente com um aumento substancial nas solicitações de compra por parte dos mais novos.

Para ler mais sobre o impacto do ambiente alimentar e das estratégias de marketing na saúde infantil, pode consultar investigações focadas em estudos com eye-tracking, tais como a Atenção visual e atratividade das embalagens alimentares nas crianças (PMC / PubMed Central) ou a Monitorização ocular de estímulos de marketing alimentar no retalho (MDPI Nutrients). Caso pretenda aprofundar estudos de impacto comportamental e políticas públicas sem eye-tracking, recomenda-se o Manual da Organização Mundial da Saúde sobre restrições ao marketing alimentar infantil (WHO) e a análise sobre O papel da exposição no ponto de venda e o comportamento de compra familiar (Appetite / ScienceDirect).

domingo, 1 de março de 2026

Sigue Sigue Sputnik - 21st Century Boy


Out of stereo, video
Sci-fi sex, let's go-go-go
Let's go
Saturn dreams, laser beams
21st century sex machines

Oh, can the Cartier
Toss the Tissot
Timex kid, time to go-go

I'm a space cowboy
I'm a 21st century whoopee boy
I'm a space cowboy

Siamese, Lebanese
Chinese speaking split TV's
Singapore, El Salvador
Coca Cola...
Mercury, luxury
Shove that Fender fist at me

I'm a space cowboy
I'm a 21st century whoopee boy
Ladies and gentlemen, Elvis 1990
I'm a space cowboy
I'm a 21st century whoopee boy
You might also like
Love Missile F1-11
Sigue Sigue Sputnik

Embryo, UFO
Freako, psycho horror show
Hips and lips and beauty queens
Venus ramp, sex tramp
Make-up muck my Vegas vamp

I'm a space cowboy
I'm a 21st century whoopee boy
I'm a space cowboy
I'm a 21st century whoopee boy

Sigue Sigue Sputnik: affordable firepower!

I am the ultimate product - product - product - pr-pr-pr-pr-product!

I'm a space cowboy
I'm a 21st century whoopee boy
I'm a space cowboy
G-g-g-g-generation whoopee boy

Let's go-go-go
Let's go, let's go
Let's go-go-go
Let's go, let's go
Let's go-go-go
Let's go, let's go
Let's go-go-go
Let's go, let's go
Mm-mmm, I love technology!

A banda era conhecida por ser extremamente futurista (para os padrões dos anos 80) e por misturar elementos que pareciam desconexos na época:
1. Visual inspirado em filmes como Blade Runner e Mad Max, com cabelos coloridos gigantes e roupas de PVC.
2. Eles pegaram a estrutura do Rock 'n' Roll dos anos 50 (estilo Elvis ou Gene Vincent) e a "destruíram" com sintetizadores pesados, batidas eletrónicas e muitos samples de filmes e comerciais.

Provocação: foram pioneiros em vender espaços publicitários entre as faixas dos seus álbuns, o que reforçava a temática consumista e distópica da música.

O nome da música é uma clara homenagem à canção "20th Century Boy" da banda de glam rock T. Rex, mostrando que eles se viam como a evolução tecnológica daquele som.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Death in Rome - Christmas song



Christmas Song

in this darkest hour
a light shining still
in this quiet night
there’s still time to kill

the storm moves on
from darkened skies
but bide your time
soon we will rise

and the angels on the gallery
sing about the king
born behind
a discount store
by broken rubbish bins

oh divine amnesia
oh divine forgiveness
oh divine indifference
let them seize you

when the clouds have lifted
a stream from the past
will soothe your mind
and you’ll find peace at last

surrounded by fools
was no place to be
but now we’ve moved on
to a sublime destiny

we’re fighting demons
a struggle everyday
the poison has a grip
it steals our days away

But Saint Joseph, Saint Robert
Saint Nicolas, Saint Rita
Saint Benoit
Are by our side

and glory
to the highest
in the highest
heights

Even if I don’t feel him

and peace
to all
decent people

and truth
only to those
who deserve it

A “Christmas Song” dos Death in Rome pega numa canção de Natal clássica, associada a conforto, família e calor emocional, e transforma-a através da sua interpretação musical. A letra permanece praticamente intacta, mas o arranjo minimalista, frio e melancólico cria um contraste forte com o imaginário tradicional do Natal. É uma crítica subtil ao Natal comercial e automático Em vez de transmitir aconchego e alegria, a música soa distante e desencantada, fazendo com que aquelas imagens de lareira, crianças e votos de felicidade pareçam memórias gastas ou rituais repetidos sem convicção. O resultado é uma leitura irónica e nostálgica, onde o Natal surge menos como um momento de união genuína e mais como uma tradição automática, envolta em solidão e vazio emocional. Assim, a canção não rejeita o Natal em si, mas expõe a fragilidade do seu simbolismo quando separado da experiência humana real, mostrando como a música pode alterar profundamente o significado de uma letra aparentemente inocente.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Outdoor espectacular - a acumulação de riqueza é uma pandemia


Tax wealth — Created by anonymous artist network Brandalism, the action comes ahead of Black Friday, when UK shoppers are expected to spend £6.5 billion as brands run discounted sales of their products.

Activists have hacked 100 advertising sites across London in a coordinated protest against the tax avoidance of big tech companies like Amazon, and the ​“destructive hyper-consumerism” of Black Friday.

Satirical artworks pasted over billboards and Tube ads by the anonymous artist network Brandalism accuse companies of dodging taxes, exploiting workers and fuelling environmental collapse. Ethical Consumer estimates Amazon’s corporation tax avoidance may have cost the UK around £575 million in 2024.

The interventions mark the launch of the ZAP Games – Zone Anti-Publicité – a two-week Europe-wide campaign that repurposes commercial ad spaces. Posters inside Tube carriages compare tech CEOs to parasites, while others criticise the carbon and water intensity of Amazon’s AI-driven data centres.

Brandalism argues Amazon’s advertising dominance shields its practices from scrutiny. ​“Amazon epitomises 21st century destructive hyper-consumerism,” said spokesperson Tona Merriman. ​“It bombards us with advertising in the run up to Black Friday whilst squeezing the pay and conditions of workers, amassing eye-watering profits and then dodging its taxes.”

More than 100 artworks have appeared across the capital. One by artist Michelle Tylicki shows a Monopoly board filled with social goods overshadowed by an encroaching Amazon logo. Another juxtaposes an Amazon data centre with a burning rainforest to highlight ecological damage.

Activists say injury rates in Amazon warehouses spike during Black Friday demand. This year, mass strikes and walk-outs are planned globally by Make Amazon Pay, a coalition backed by more than 400 parliamentarians. Amazon paid UK corporation tax in 2024 for the first time since 2020, but campaigners argue it still avoids far more than it contributes.

Human rights criticisms are also intensifying. UN Special Rapporteur Francesca Albanese has accused Amazon, along with Microsoft and Alphabet Inc. (Google’s parent company), of aiding Israel’s genocide against Palestinians through its cloud services. Israeli military officials have credited Amazon software with enhancing their ability to track and kill targets. More than 67,000 Palestinians have been killed since October 2023.


This is not the only fallout surrounding Black Friday this year. Last week, Zara workers across Europe announced they would stage protests in Spain, Belgium, France, Germany, Italy, Luxembourg and Portugal. Unions are demanding that parent company Inditex reinstate a profit-sharing scheme scrapped after the pandemic.

Rosa Galan of Spain’s CCOO union said Inditex’s growing profits were ​“the result of the work of its staff,” calling for a fairer distribution. Inditex, whose share price has doubled over the past three years, did not respond to requests for comment.

Mais fotos e info aqui

domingo, 16 de novembro de 2025

Dia de José Saramago


José Saramago, nascido em 1922 na aldeia ribatejana de Azinhaga e falecido em 2010, em Lanzarote, consolidou-se como uma das vozes literárias mais singulares e influentes da língua portuguesa. A sua vida, marcada por origens humildes, por um percurso autodidata e por uma profunda consciência social, moldou uma obra que interroga, de forma obstinada, as estruturas de poder, as fragilidades humanas e as possibilidades éticas do mundo contemporâneo. Tipógrafo, serralheiro mecânico, funcionário público, tradutor e jornalista, Saramago chega à literatura “tarde”, mas com uma maturidade que lhe permite transformar o romance num espaço de experimentação filosófica, histórica e política.

A obra saramaguiana caracteriza-se por uma escrita inconfundível: longos parágrafos, uso singular da pontuação, diálogos integrados no fluxo narrativo e um narrador irónico, muitas vezes cúmplice, que desmonta convenções literárias e desafia o leitor a participar no processo interpretativo. Essa forma, longe de ser mero artifício, revela uma visão do mundo onde a realidade é sempre problemática, polifónica, sujeita a reinterpretações constantes. A sua linguagem, simultaneamente coloquial e metafísica, cria um espaço literário em que o quotidiano se cruza com o fantástico, não como fuga, mas como método de conhecimento.

O pensamento de Saramago assenta numa postura humanista e crítica. Ateu declarado, questionador pertinaz de instituições — sobretudo políticas e religiosas —, o escritor vê a literatura como instrumento de desvelamento do que se oculta por trás dos discursos oficiais. Em obras como Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis ou História do Cerco de Lisboa, revisita a História para expor as suas lacunas e manipulações, revelando a força das narrativas no exercício do poder. Noutros romances, como Ensaio sobre a Cegueira e Ensaio sobre a Lucidez, constrói alegorias sociais que expõem a fragilidade das democracias, a tendência humana para a violência e a responsabilidade moral que cada indivíduo carrega, mesmo — ou sobretudo — quando tudo parece ruir.

A dimensão ética está também presente na centralidade que atribui à compaixão, à solidariedade e à memória das injustiças. Para Saramago, a humanidade só se reconhece plenamente quando se vê ao espelho das suas próprias misérias e contradições. Daí a insistência em narrativas que funcionam como experiências-limite, onde personagens comuns enfrentam situações extremas que as obrigam a reflectir sobre o sentido da liberdade, da dignidade e da convivência social.

A vida de Saramago, especialmente após conquistar o Prémio Nobel da Literatura em 1998, tornou-se também um gesto público de coerência com suas ideias. Ele utilizou a visibilidade para afirmar posições políticas contundentes, muitas vezes polémicas, mas sempre sustentadas por uma convicção ética profundamente enraizada. A sua mudança para Lanzarote após o episódio de censura de O Evangelho segundo Jesus Cristo é emblemática do modo como articulava criação literária, vida pessoal e intervenção pública.

No conjunto, vida, obra e pensamento formam uma unidade coerente: Saramago é um escritor que concebe a literatura como forma de resistência e de revelação; um intelectual que recusa simplificações e dogmas; um observador crítico que acredita, apesar de tudo, na possibilidade de o ser humano se tornar melhor. A sua escrita permanece como convite — e desafio — para que continuemos a interrogar o mundo com a mesma lucidez inconformada que ele cultivou ao longo de toda a vida.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Billy Bragg - Waiting for the Great Leap Forwards


“Waiting for the Great Leap Forwards”, lançada em 1988 por Billy Bragg, é uma canção que combina crítica política, autoironia e uma reflexão amarga sobre a relação entre ideais revolucionários e a realidade prática. Bragg desmonta, com humor e lucidez, a ideia do “grande salto em frente” — expressão historicamente ligada à retórica revolucionária — transformando-a numa metáfora para a promessa sempre adiada de mudança. A canção revela o cansaço e a frustração com a política institucional, mostrando como slogans, reformas e líderes que prometem transformação acabam frequentemente por reproduzir a mesma lógica de espera passiva. 

O artista não poupa ninguém, incluindo a si próprio: reconhece as contradições de ser um músico engajado que, ao mesmo tempo, depende da indústria cultural, e admite que até a rebeldia pode ser rapidamente transformada em mercadoria. 

Assim, critica a facilidade com que o mercado absorve e neutraliza o radicalismo, convertendo causas sociais em produtos de consumo. 

O humor é central à canção, não apenas como recurso estilístico, mas como arma política; serve para expor o absurdo da política-espetáculo e das ilusões utópicas embaladas em discursos grandiosos.

Apesar do tom cético, a música não capitula ao niilismo: permanece um fio de esperança, uma sugestão de que a verdadeira transformação não virá de um salto súbito, mas de uma prática constante de ação e questionamento. Em última análise, Bragg convida-nos a abandonar a espera pela mudança miraculosa e a encarar o processo político como algo construído no quotidiano — menos espetáculo, mais empenho real.

sábado, 8 de novembro de 2025

Meta ganha milhares de milhões de dólares com anúncios de burlas


A gigante tecnológica Meta, proprietária do Facebook, Instagram e WhatsApp, encontra-se sob fogo após a divulgação de um relatório explosivo. O documento alega que a empresa arrecada uma fatia significativa das suas receitas através da veiculação de anúncios fraudulentos.

A controversa fonte de receita da Meta
De acordo com um novo relatório da Reuters, a Meta estará a lucrar milhares de milhões de dólares anualmente com anúncios que promovem burlas e produtos ilegais nas suas plataformas. O documento expõe os números avassaladores por detrás deste problema e levanta novas questões sobre a aparente incapacidade da empresa em controlar a situação.

No ano passado, a própria Meta terá estimado que os anúncios fraudulentos poderiam representar até 10% da sua receita total, um valor que ascenderia a cerca de 16 mil milhões de dólares.

Nesta categoria incluem-se anúncios de "esquemas fraudulentos de comércio eletrónico e de investimento, casinos online ilegais e a venda de produtos médicos proibidos". A dimensão do problema é tal que investigadores da própria empresa calcularam que as suas aplicações "estiveram envolvidas num terço de todas as burlas bem-sucedidas nos EUA".

Políticas internas permissivas
O relatório detalha também como a Meta, em certas ocasiões, dificultou o trabalho das suas próprias equipas no combate a estes anúncios e como os seus processos internos permitem que infratores reincidentes continuem a comprar espaço publicitário.

O documento revela que um "pequeno anunciante" apanhado a "promover fraudes financeiras" só seria bloqueado após ser denunciado "pelo menos oito vezes". A política da Meta é ainda mais branda com os "maiores anunciantes", aos quais terá sido permitido "acumular mais de 500 infrações" sem serem removidos da plataforma.

Ainda que esta permissividade possa parecer chocante, o relatório da Reuters sublinha o dilema financeiro que a Meta enfrenta. Apenas quatro campanhas publicitárias, removidas pela empresa este ano, foram responsáveis por uma receita de 67 milhões de dólares.

Internamente, os executivos debatem-se com a forma de controlar os anúncios fraudulentos sem afetar negativamente os resultados financeiros da empresa. A certo ponto, os gestores terão sido instruídos a não "tomar medidas que pudessem custar à Meta mais de 0,15% da receita total da empresa".

Em reação ao relatório, a Meta comunicou à Reuters que a estimativa de 10% da receita proveniente de anúncios fraudulentos era "aproximada e excessivamente inclusiva", mas não partilhou um valor alternativo.

"Nos últimos 18 meses, reduzimos as denúncias de utilizadores sobre anúncios fraudulentos em 58% a nível global e, até agora em 2025, já removemos mais de 134 milhões de conteúdos publicitários fraudulentos." - afirmou o porta-voz Andy Stone.

sábado, 11 de outubro de 2025

O truque silencioso dos Bancos para te fazer gastar mais


Os bancos sabem mais sobre ti do que imaginas. Não apenas quanto dinheiro tens mas como e quando o gastas. E é com essa informação que aplicam um truque silencioso, quase invisível, que te leva a gastar mais sem te aperceberes. Mas no que consiste o truque silencioso dos bancos?

Este truque dos bancos não é magia. É psicologia (e dados)
Todos os bancos modernos utilizam sistemas de análise comportamental. Ou seja, algoritmos que estudam os teus hábitos de consumo, horários, tipo de compras e até o humor que transpareces nas tuas transações. Sim, o teu cartão também fala. E é aqui que entra o truque.

Cartões virtuais são seguros? Só se fizeres isto antes da compra!
O “limite invisível” que muda tudo
Quando recebes um aumento automático do limite de crédito ou do plafond do cartão, parece um gesto simpático, certo? Na realidade, é uma jogada calculada.

O banco aumenta ligeiramente o teu limite para dar-te uma falsa sensação de folga financeira. Não é suficiente para parecer excessivo, mas o bastante para te fazer pensar: “posso comprar isto, ainda tenho margem”.

E é assim que pequenas compras, 20€ aqui, 30€ ali, transformam-se em dívidas com juros de 15%, 18%, até 25%.

Os arredondamentos “sem dor”
Outro truque muito comum são os pagamentos automáticos arredondados:
Cada vez que pagas com o cartão, o sistema arredonda o valor para cima e coloca os cêntimos “de lado”, geralmente num fundo de poupança ou numa conta associada.

Parece uma boa ideia e até pode ser mas psicologicamente desliga-te do valor real que estás a gastar. Pagas 19,20€ mas sentes que gastaste “menos de 20€”. Esse “quase nada” repetido dezenas de vezes por mês é o que mantém os lucros constantes dos bancos de retalho.

O atraso calculado das notificações
Já reparaste que às vezes as notificações das tuas compras demoram a chegar? Não é sempre erro da app. Alguns bancos atrasam propositadamente o envio de alertas quando o cliente está a fazer várias transações seguidas.

A ideia é simples: não interromper o fluxo de compras. Se recebes notificações a cada 10 segundos, paras para pensar. Mas se só chegas a casa e vês todas de uma vez, já é tarde  e o cartão já trabalhou por ti.

Como não cair nestas armadilhas
Não há como escapar completamente, mas há formas de contrariar a psicologia do sistema:
  1. Desativa limites automáticos e aumentos “pré-aprovados”.
  2. Vê o teu saldo real, não o “disponível”.
  3. Usa apenas alertas imediatos por SMS ou push.
  4. Evita cartões com pagamento diferido porque mascaram o impacto do gasto.
O segredo é simples: quanto mais consciência tens do que gastas, menos te conseguem influenciar.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

“Humanity is missing the bigger picture”: Sandra Díaz explains



Sandra Díaz mais conhecida no campo da ciência é a Sandra Myrna Díaz, ecóloga argentina, nascida em 1961.

🔹 Quem é:
É considerada uma das cientistas mais influentes do mundo na área da ecologia funcional das plantas, biodiversidade e serviços dos ecossistemas.

🔹 Contribuições principais:

  • Desenvolveu o conceito de “síndromes funcionais das plantas”, que ajuda a compreender como diferentes espécies vegetais contribuem para o funcionamento dos ecossistemas.

  • Foi uma das principais autoras do Relatório Global da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES, 2019), um documento fundamental que alertou para a perda acelerada da biodiversidade global.

  • Criou a base de dados global TRY, a maior compilação de características funcionais de plantas do mundo.

🔹 Reconhecimentos:

  • Recebeu o Prémio Princesa das Astúrias de Investigação Científica e Técnica (2019).

  • Eleita entre as cientistas mais citadas em ecologia e meio ambiente.

  • Considerada referência mundial em debates sobre natureza, sustentabilidade e futuro do planeta.

terça-feira, 24 de junho de 2025

José Mujica: a sua reflexão sobre a riqueza, Milei, o peronismo e a Argentina


Pepe Mujica não foi um político comum. Foi um semeador de ideias, um artesão da coerência, um sonhador que, com os pés bem assentes na terra, nos ensinou que o poder só faz sentido se servir.
Pepe, foi um homem que soube transformar a dor em sabedoria e a política num ato de profunda humanidade. 
A sua vida simples, despojada de luxos, foi a sua maior lição. Mostrou-nos que a felicidade não está na acumulação, mas na liberdade interior e na capacidade de partilhar o pouco ou muito que se tem. A sua voz, cheia de ternura, rebeldia e filosofia, permanecerá um farol para aqueles que procuram caminhos mais humanos, mais justos e mais autênticos.
Mujica deixou-nos o seu exemplo, a sua humildade radical, o seu amor à terra e aos humildes, a sua visão crítica do sistema consumista que nos devora a alma. Resta-nos honrar o seu legado com ações, com coragem, com ternura, com esta ética de vida que nos convida a viver com menos para ser mais.

quinta-feira, 15 de maio de 2025

The Shitthropocene: Welcome to the Age of Cheap Crap


O Antropoceno Merda é uma visão antropológica simulada dos hábitos de consumo da humanidade, lançando um olhar satírico (mas brutalmente honesto) sobre como tudo se está a tornar uma merda e porque é que o impulso por mais pode destruir-nos a todos.

Já deve ter notado que muitas coisas parecem uma droga agora. Este filme não é sobre todas as coisas más — isso seria um filme demasiado longo. Mas trata-se do consumo, que é tanto uma causa como um sintoma da chatice.

Por uma série de razões, praticamente toda a gente está a produzir e a comprar demasiadas coisas, algo que fomos evolutivamente programados para querer. O que antes era uma vantagem (mais! = melhor!) está agora a contribuir para a destruição do planeta.

O Antropoceno é uma viagem desde as origens celulares da nossa falta de controlo dos impulsos até às formas como os nossos sistemas nervosos centrais foram pirateados em nome do capital. É também sobre como podemos começar a salvar-nos de nós mesmos.

David Byars é um premiado documentarista cujo trabalho abrange desde a apátrida na República Dominicana até às Terras Públicas dos Estados Unidos.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Boicote aos Produtos Americanos: Uma Resposta ao Impacto das Políticas de Trump (com lista de produtos e locais de compra)



Nos últimos tempos, a crescente onda de boicotes a produtos americanos tem ganhado força em várias partes do mundo, e Portugal não está imune a essa tendência. A razão? A resposta das políticas económicas de Donald Trump, que afectaram directamente países aliados, como a União Europeia, com a imposição de tarifas pesadas sobre o aço, alumínio e até produtos como o champanhe e o vinho, sectores vitais da economia portuguesa.

A situação é clara: produtos americanos, que antes eram consumidos com regularidade e até com uma certa adoração, passaram a ser vistos sob outra óptica. O boicote não é mais apenas uma opção de grupos políticos ou ativistas, mas uma resposta de cidadãos comuns, que, como protesto, estão a alterar hábitos de consumo e recusar apoiar marcas ou produtos relacionados com os EUA de Trump.

Em supermercados no Canadá, já se observa a iniciativa de marcar produtos com estrelas negras, uma forma simbólica de facilitar o boicote a produtos europeus com origem nos EUA. Produtos como o famoso Jack Daniel’s, as calças Levi’s ou até mesmo as séries da Netflix, associadas diretamente ao país, têm sido colocados de lado por muitos consumidores que não querem mais apoiar essas marcas enquanto as políticas de Trump persistirem.

Em Portugal, gestos semelhantes podem ocorrer, com mudanças simples de pasta de dentes, evitar as compras em grandes cadeias de distribuição americanas ou até mesmo desmarcar férias nos Estados Unidos. Tudo como forma de dizer “não” ao que consideram uma postura económica arrogante e agressiva por parte do governo americano.

Além disso, as recentes ameaças de Trump, como tarifas de até 200% sobre o champanhe, vinhos e outras bebidas alcoólicas da União Europeia, tem criado grande preocupação no sector vitivinícola português. Se implementadas, estas tarifas poderiam prejudicar gravemente as exportações de vinho, um dos principais produtos do país, especialmente para os Estados Unidos, que é o segundo maior mercado de exportação de vinho português.

Diante disso, é hora de reflectir sobre nossas escolhas como consumidores conscientes. O boicote aos produtos americanos, especialmente aqueles que estão ligados à indústria de luxo e entretenimento (HBO, Netflix, Disney, etc), pode ser uma resposta válida a estas políticas. Afinal de contas, as nossas decisões de compra não são apenas sobre o que consumimos, mas também sobre os valores que apoiamos.

Por isso, convidamos todos a reflectir sobre o impacto das suas escolhas de consumo e a considerar um boicote consciente aos produtos que, directa ou indiretamente, sustentam as políticas que prejudicam a economia e a imagem da União Europeia e, consequentemente, de Portugal. Vamos agir juntos e mostrar que o poder de compra pode ser uma poderosa ferramenta de protesto!



E será um dos subscritores da petição de protesto a enviar às empresas que, em Portugal, comercializam produtos dos EUA:

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Documentário: Antes que vire lixo


Na cidade de São Paulo, uma das mais influentes do Brasil, duas realidades contraditórias dividem o mesmo cenário, mas nem sempre são captadas pelo nosso olhar. 

Foi depois de cruzar a porta de um restaurante (onde um pedido chegou errado à mesa e a porção inteira de comida foi jogada fora) e se deparar com pessoas implorando por um pedaço de pão que a ideia do 'Antes que vire lixo' surgiu.
 
Neste documentário jornalístico mostramos algumas ações realizadas na cidade de São Paulo para tentar reduzir o desperdício de alimentos dos restaurantes, supermercados e feiras livres. 

Bora conferir? Produzida, gravada e editada por Beatriz Albertoni, Giulia Vidale e Paula Forster, a obra é resultado do nosso Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero (2016).

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Documentário - Decrescimento: salvar o mundo renunciando o consumo e a sustentabilidade


Decrescimento
Aborda a grande questão do crescimento económico num mundo finito do ponto de vista de um movimento social e profundamente ecológico conhecido como decrescimento. 
Professores, economistas, engenheiros e filósofos participam deste importante movimento em inúmeros países como França, Itália, Espanha, Reino Unido e Canadá.

Enquanto os governos confiam, com miopia política e científica, numa panaceia tecnológica para resolver a crise do ambiente e dos recursos a que estamos sujeitos, na esperança de adaptar o planeta e a própria humanidade à vontade do produtivismo, o decrescimento representa uma reformulação do nosso modo de vida , tendo em conta os limites da biosfera e as reais necessidades do ser humano.

Este documentário justapõe dois mundos. O mundo tal como é agora, um mundo de desejo, do “ter” e do “sempre mais”, caracterizado pela ausência de freios. É um mito que hoje está sendo destruído graças ao declínio dos recursos energéticos e das matérias-primas e à crise ambiental, tudo abordado em entrevistas com especialistas neste documentário. Mas outro mundo está a caminho, um mundo de “ser”, consciente dos limites da biosfera, onde os chamados “objetores de consciência ao crescimento” trabalham juntos para construir uma alternativa socioeconómica que seja ao mesmo tempo sustentável e libertadora.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Organizações ambientalistas reivindicam 15 medidas urgentes pela água


Mais de 70 organizações de seis movimentos ambientalistas, de norte a sul do país, apresentaram esta quinta-feira um manifesto reivindicativo que apela aos partidos políticos para que olhem para 15 medidas consideradas urgentes para proteção dos rios e da água.

"Aquilo que se pretende é efetivamente pôr na agenda política as questões da gestão da água e do uso eficiente da água, por forma a que esse recurso, que é finito, seja bem usado e para aquilo que é efetivamente necessário", disse à Lusa Paulo Constantino, porta-voz do Movimento pelo Tejo -- proTEJO, com sede em Vila Nova da Barquinha (Santarém).

Segundo alertou o dirigente, "as práticas que se vislumbram e que têm vindo a ser propostas conduzirão ao seu esgotamento e a uma escassez contínua por um excessivo consumo".

Entre as 15 reivindicações apresentadas, a poucas semanas das eleições legislativas de 10 de março, estão, por exemplo, medidas de combate à seca, de proteção de rios e águas subterrâneas, ou contra os transvases e construção de novas barragens, açudes e dessalinizadoras.

"Não pode haver ofertas ilimitadas de água", afirmou Constantino, tendo defendido a importância de "gerir as necessidades e as disponibilidades de água em cada bacia hidrográfica, satisfazendo as necessidades humanas e as necessidades ecológicas".

'Não aos transvases entre bacias hidrográficas' é a primeira reivindicação que consta num documento que os signatários enviaram na quarta-feira aos partidos políticos com assento parlamentar na Assembleia da República e a que a Lusa teve acesso.

Na lista de 15 reivindicações apresentadas, divididas entre o sim e o não, do lado a combater, segundo os signatários, está o "não aos transvases entre bacias hidrográficas, ao desperdício de água, aos projetos sustentados num aumento do consumo de água (dessalinizadoras, barragens), à construção da dessalinizadora do Algarve, e "à proliferação de barragens e açudes".

Do lado positivo elencam o "sim à proteção das águas subterrâneas, ao cumprimento integral e urgente da legislação comunitária e nacional (Diretiva Quadro da Água, Lei da Água) e à implementação urgente das medidas previstas nos Planos de Bacia Hidrográfica (PGRH), à definição e implementação rigorosa de regimes de caudais ecológicos", e à "implementação de processos de recuperação ecológica".

Ainda do lado positivo está o "sim ao efetivo controlo físico-químico e biológico dos efluentes libertados nos meios hídricos", à redução dos valores limite de emissão dos efluentes libertados pelas estações de tratamento, à definição de políticas eficazes no sentido de regulamentar a proliferação de monoculturas, à disseminação da informação 'online' de acesso livre, a uma estratégia de desenvolvimento conduzida por planos nacionais de restauro fluvial, de eliminação de barreiras transversais, de erradicação de invasoras e de eficiência hídrica a par do "desenvolvimento de programas que de uma forma massiva combatam a iliteracia ecológica".

Os movimentos ambientalistas pedem a "introdução destas questões na campanha eleitoral", e a "observação de um discurso com pensamento estratégico que represente um projeto viável de ação coletiva e individual responsável e com sentido de justiça intergeracional".

As 15 reivindicações pelos rios e pela água são subscritas por mais de 70 organizações nacionais e locais - que incluem Organizações Não Governamentais (ONG, ONGA, associações e municípios -, bem como cidadãos a título individual que fazem parte de seis movimentos com representatividade nas principais bacias hidrográficas do país (AMORA, Mondego Vivo, #MovRioDouro, MUNDA, PAS e proTEJO).

"(...) Chegámos à situação que nos coloca no limiar da sobrevivência face à rapidez das alterações climáticas e, em particular, face à degradação da quantidade e qualidade das águas superficiais e subterrâneas e respetivos ecossistemas", alertam os movimentos subscritores, num documento em que pedem aos decisores políticos para se "agir prioritariamente sobre as causas como forma de combater os efeitos".
Fonte: DN

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Dia de S.Valentim. Dias dos Namorados. Dia do Amor


São Valentim
São Valentim é um santo reconhecido pela Igreja Católica e pelas Igrejas Orientais que dá nome ao Dia dos Namorados em muitos países, onde o celebram como Dia de São Valentim. O nome refere-se a pelo menos três santos martirizados na Roma antiga.

A história que se conta atualmente é que o imperador Cláudio II, durante seu governo, proibiu a realização de casamentos em seu reino, com o objetivo de formar um grande e poderoso exército. Cláudio acreditava que os jovens, que não tivessem família, ou esposa, iam alistar-se com maior facilidade. No entanto, um bispo romano continuou a celebrar casamentos, mesmo com a proibição do imperador. O seu nome era Valentim e as suas cerimónias eram realizadas em segredo. A prática foi descoberta e Valentim foi preso e condenado à morte. Enquanto estava preso, muitos jovens atiravam flores e bilhetes dizendo que os jovens ainda acreditavam no amor. Entre as pessoas que escreveram mensagens ao bispo estava uma jovem cega, Artérias, filha do carcereiro, a qual conseguiu a permissão do pai para visitar Valentim. Os dois acabaram apaixonando-se e, milagrosamente, a jovem recuperou a visão. O bispo chegou a escrever uma carta de amor para a jovem com a seguinte assinatura: “de seu Valentim”, expressão ainda hoje utilizada. Valentim, depois da condenação de morte, foi decapitado em 14 de fevereiro de 270.

Contudo, consultando o Martirilógio Romano vê-se que existiram dois Valentim, um bispo, que curou um jovem com um problema de nascença, e outro Valentim que era sim cristão convicto e se apaixonou por Artérias, filha de um nobre romano e não de um carcereiro.

Desde 1969 a sua data não é mais celebrada oficialmente pela Igreja Católica em função da precariedade de comprovações históricas.

Dia dos Namorados
O dia 14 de fevereiro é considerado em muitos países como o Dia dos Namorados. Porém, no Brasil, João Doria, publicitário brasileiro, pretendendo alavancar as vendas do comércio no mês de junho, criou um dia dos namorados à brasileira, no dia 12 de junho, véspera de Santo António, conhecido santo casamenteiro na cultura portuguesa.

Há momentos musicais que sinto obrigação de partilhar. "Vou Me Encontrar Com Meu Querido". Vivaldi e  Philippe Jaroussky levam-me às lágrimas. O público assiste com enorme respeito perante todo este soberbo pedaço de música.


Agora estrelando com Jakub Orlinski!

Esta interpretação é pungente e muito bela!

domingo, 17 de dezembro de 2023

Feliz Natal Ecológico

Árvore de Natal de granny square - Trivento (Itália)

O Natal está chegar. Desejo a todos um bom Natal, feliz e simples. Muito mais escuta, presentes sois vocês próprios à mesa. Haja muita entreajuda.

Conselhos para um Natal mais ecológico:

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Urbano Tavares Rodrigues – 100.º aniversário do nascimento

Marcha pela Paz, Lisboa, 1983: José Saramago, Piteira Santos, Maria Rosa Colaço, Lopes Graça, Manuel da Fonseca, José Cardoso Pires e Urbano Tavares Rodrigues.

Urbano Tavares Rodrigues – 100.º aniversário do nascimento de um homem bom, antifascista e muito culto – 6 de dezembro de 1923.

"Não quer dizer que não haja coisas boas na União Soviética, porque há, mas os mandantes estão um bocado fossilizados."
Estavam. Agora é aquele canalha do Putin. Um bandido da pior espécie. Um miserável do KGB. 

O Amolecimento pela Sociedade de Consumo
Nos países subdesenvolvidos, a arte (literatura, pintura, escultura) entra quase sempre em conflito com as classes possidentes, com o poder instituído, com as normas de vida estabelecidas. Em revolta aberta, o artista, originário por via de regra da média e da pequena burguesia ou mais raramente das classes proletárias, contesta o status quo, propõe soluções revolucionárias ou, quando estas não podem sequer divisar-se, limita-se a derruir (ou a tentar fazê-lo pela crítica, violenta ou irónica) o baluarte dos preconceitos, das defesas que os beneficiários do sistema de produção ergueram contra as aspirações da maioria. Nas sociedades industriais mais adiantadas, o artista pode permanecer numa atitude idêntica de inconformismo; porém, os resultados da sua actividade de criação e reflexão tornam-se matéria vendável e, nalguns casos, matéria integrável.
O consumo do objecto artístico, seja ele o livro, o quadro ou o disco, quando feito sob uma tutela de opinião, que os meios de comunicação de massa, em escala larguíssima , exercem, torna-se, senão totalmente inócuo, pelo menos parcialmente esvaziado do seu conteúdo crítico. Despotencializa-se. Amolece. É o que se verifica, por exemplo, em boa parte, nos Estados Unidos. A ideologia repressiva da liberdade no mundo capitalista monopolista torna-se tanto mais perigosa quanto aborve, ou procura absorver, as próprias formas políticas de exercício das liberdades ditas essenciais, quando aceita no seu seio o escritor, acusador iconoclasta por natureza, recuperando-o em banho asséptico, limando-lhe os dentes. Mas, entendamo-nos, nem sempre o artista se dá conta dessa operação, até porque nem sempre, de facto, é ele próprio o paciente da operação que lhe reduz a perigosidade, senão que o é, sim, a sua obra, a qual, pelo poder diminutivo de uma dada comercialização, se rectifica.

Urbano Tavares Rodrigues, in "Ensaios de Escreviver"