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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A algoritização do ódio: as redes sociais, a extrema-direita e a erosão da democracia


A transformação do ecossistema digital de um espaço de ligação interpessoal numa máquina industrial de rentabilização da mediocridade e do sensacionalismo ultrapassa as fronteiras da mera desilusão tecnológica ou da crítica de consumo. A mutação da esfera pública numa arquitetura desenhada para viciar provocou uma fratura tectónica na vida democrática contemporânea. Longe de serem juízes neutros, os algoritmos de recomendação das grandes plataformas atuam como catalisadores de incentivos perversos onde a indignação, o ruído e a falsidade se sobrepõem sistematicamente ao conhecimento e à utilidade real. É precisamente nesta assimetria estrutural - onde a futilidade e o conflito são convertidos em capital publicitário - que reside a aliança simbiótica entre a arquitetura Big Tech e a ascensão dos movimentos de extrema-direita, num processo que conspira ativamente contra as fundações da democracia liberal.

1. O modelo de negócio da atenção e a proliferação das redes
A premissa central sobre a qual repousa o império das redes sociais é a maximização do tempo de ecrã (engagement). Como demonstraram os dados divulgados pela whistleblower Frances Haugen através dos Facebook Papers, os sistemas de recomendação priorizaram historicamente as reações emotivas de "indignação" (Angry), atribuindo-lhes cinco vezes mais peso algorítmico do que a um simples "Gosto". Esta decisão de engenharia não respondeu a uma neutralidade política, mas sim a um cálculo económico: a raiva e o ridículo desencadeiam reações biológicas mais rápidas, comentários mais acesos e partilha compulsiva.

O resultado é uma economia da atenção globalizada em que várias plataformas promovem ativamente a desinformação e rentabilizam o discurso de ódio:
  1. Facebook (Meta): continua a ser o pioneiro na monetização do clickbait e na otimização da raiva, cortando o alcance orgânico do jornalismo e da cultura para forçar o pagamento de promoção, enquanto distribui gratuitamente conteúdos divisivos.
  2. X / Twitter: sob a liderança de Elon Musk, a plataforma desmontou grande parte das suas equipas de moderação de conteúdo, alterou a verificação de contas para um modelo pago sem autenticação real e reconfigurou o algoritmo para ampliar posts de alto envolvimento emocional, tornando-se uma incubadora direta de teorias da conspiração e discurso extremista.
  3. TikTok: utiliza um algoritmo de recomendação hiper-otimizado que identifica fragilidades emocionais em segundos. Ao priorizar vídeos de curta duração baseados em choque, pânico moral ou desinformação médica e política, a rede cria espirais rápidas de radicalização para públicos extremamente jovens.
  4. YouTube (Google): o seu motor de recomendação foi documentado por diversos académicos por conduzir utilizadores ao longo de "tocas de coelho" (rabbit holes) ideológicas, onde vídeos moderados levam gradualmente a conteúdos cada vez mais extremistas e conspiratórios para reter a visualização contínua.
  5. Telegram e WhatsApp: funcionam como redes de comunicação opaca em massa onde a desinformação circula sem qualquer moderação de factos. A arquitetura de grupos e canais gigantes permite a orquestração de campanhas de difamação e pânico social longe do escrutínio público.
2. A extrema-direita e o uso ativo do algoritmo
Se a infraestrutura das redes sociais foi desenhada para priorizar o conflito e a polarização, os movimentos populistas e radicais revelaram-se os seus utilizadores mais eficazes. Contudo, existe um debate central sobre esta relação: a extrema-direita não é meramente um produto passivo do algoritmo, mas sim um ator político estratégico que aprendeu ativamente a instrumentalizar a plataforma. Muito antes da otimização algorítmica, estes movimentos já exploravam os limites da propaganda; com as redes sociais, encontraram o meio perfeito para dar escala global a ressentimentos sociais, económicos e culturais preexistentes.

Esta captura opera através de quatro eixos fundamentais:
  1. Simplicidade maniqueísta vs. complexidade: o discurso de extrema-direita constrói narrativas diretas de "nós contra eles", medo e ameaça. Tais mensagens adaptam-se com facilidade à leitura rápida do feed, ao contrário de análises ponderadas sobre políticas públicas ou causas como o ativismo ambiental e a ciência, que exigem nuance e acabam sufocadas pela máquina.
  2. Tática do clickbait emocional: ao alavancar títulos enganadores e factos distorcidos (que chegam a representar entre 60% a 70% dos artigos virais), estes atores transformam o pânico moral, o preconceito e a paranoia em mercadoria virótica.
  3. Exploração das bolhas de filtro: ao isolar os utilizadores em ecossistemas de validação mútua, os algoritmos criam câmaras de eco impermeáveis ao contraditório, expostas continuamente a versões hiperbolizadas da realidade.
  4. Guerra memética e humor de fronteira: o sensacionalismo assume frequentemente a forma de memes e conteúdos pretensamente humorísticos, suavizando o extremismo e permitindo espalhar desinformação a uma velocidade superior à da verdade.
3. A erosão democrática: a ruptura do consenso factual
A democracia não exige o acordo universal sobre valores, mas pressupõe um terreno mínimo de factos partilhados. O impacto devastador da desinformação foi empiricamente mensurado em investigações do MIT, que demonstraram que conteúdos falsos têm 70% mais probabilidade de ser partilhados do que a verdade e atingem as primeiras 1.500 pessoas cerca de seis vezes mais rápido. Quando a mentira circula a esta velocidade em múltiplas plataformas, a possibilidade de um debate público racional colapsa.

A transfiguração da praça pública num mercado de quinquilharia emocional corrói o sistema democrático de três formas críticas:
  1. Destruição da confiança nas instituições: o jornalismo de investigação e o conhecimento científico perdem sustentabilidade e alcance diante da enxurrada de lixo digital.
  2. Normalização do discurso de ódio: a validação algorítmica do conteúdo ruidoso desloca o limite do aceitável (Janela de Overton), dando centralidade a ideias anteriormente remetidas à margem do espectro político.
  3. Incapacidade de governação plural: uma cidadania submetida a fluxos constantes de medo perde a capacidade de ponderar escolhas políticas, transformando o debate democrático numa guerra cultural permanente.
Conclusão: da matéria-prima à soberania democrática
A crise das redes sociais não é um desvio de percurso ou uma falha acidental da tecnologia: é o resultado lógico de um modelo comercial que mercantiliza a psique humana. Ao transformar a atenção em moeda e a raiva em dividendo, os algoritmos revelaram-se eficientes desestabilizadores da ordem democrática. Reconhecer que a tecnologia oferece o terreno, mas que os atores políticos instrumentalizam ativamente a infraestrutura, é o primeiro passo para compreender que a defesa da democracia no século XXI passa obrigatoriamente pela regulação rigorosa, transparência algorítmica e limitação do modelo de negócio baseado na vigilância e na polarização. Sem a recuperação de um espaço público guiado pela verdade factual e pela utilidade real, a soberania popular continuará refém de uma arquitetura otimizada para a distração em massa e o lucro.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A bolha da inteligência artificial vai mesmo rebentar? O alerta do BCE e o dilema das gigantes de tecnologia


Há meses que os peritos e analistas do ecossistema tecnológico avisam que a bolha da Inteligência Artificial está prestes a rebentar. Contudo, olhando para a disparidade entre o investimento e o retorno financeiro real, torna-se evidente que o mercado já entrou numa fase clara de desaceleração e reajuste.

A narrativa de que mesmo empresas consolidadas como a Google enfrentam dificuldades em rentabilizar a IA reflete um problema estrutural no setor. Embora seja um mito que a Alphabet (dona da Google) tenha registado prejuízos trimestrais globais - mantendo-se como uma das empresas mais lucrativas do mundo -, a verdade é que os custos de infraestrutura exigidos pela IA generativa estão a pressionar fortemente as margens de lucro de todas as gigantes tecnológicas.

A matemática por trás desta crise de expectativas é simples. Estima-se que tenham sido investidos mais de 2 triliões de dólares à escala global em centros de dados, processadores e modelos de linguagem. No entanto, as receitas diretas geradas por serviços de IA permanecem numa fração muito reduzida desse valor. O investimento em capital (Capex) para infraestrutura de IA (centros de dados, energia e chips) ascende a centenas de milhares de milhões de dólares, enquanto as receitas diretas geradas por subscrições e APIs ainda crescem a um ritmo muito mais lento. Processar uma pesquisa ou tarefa através de um modelo de linguagem avançado custa substancialmente mais do que uma pesquisa tradicional na web, o que pressiona as margens de lucro mesmo com uma adoção massiva por parte dos utilizadores. À medida que as empresas tentam integrar estas ferramentas nos ecossistemas empresariais e nos smartphones, a pergunta impõe-se: quem vai pagar a conta a longo prazo?

A Nvidia continua a registar receitas recorde. No entanto, a sua rentabilidade a longo prazo depende diretamente de os seus clientes (Microsoft, Alphabet, Meta, Amazon) encontrarem modelos de negócio sustentáveis para rentabilizar essa capacidade computacional.

Esta incerteza operacional começou a ecoar nas instâncias reguladoras internacionais. Num relatório assinado por investigadores do Banco Central Europeu, a instituição emitiu um aviso formal sobre o risco de uma correção severa nos mercados acionistas dos Estados Unidos. O BCE traça um paralelo direto com anteriores expansões tecnológicas - como a bolha dot-com do final dos anos 90 ou o boom ferroviário do século XIX -, sublinhando que as atuais avaliações de mercado em Wall Street estão muito próximas de picos históricos irrealistas.

O grande perigo assinalado pelo regulador europeu reside no efeito de contágio sistémico. Embora a adoção da IA na Zona Euro seja mais moderada, os cidadãos e as instituições europeias têm uma exposição estimada em mais de 440 mil milhões de euros em ações tecnológicas norte-americanas através de fundos de pensões, seguradoras e instrumentos de poupança. Se a bolha rebentar em Nova Iorque, o impacto financeiro será sentido de forma direta na economia real do continente europeu.

Concluindo, a situação atual não significa o fim da Inteligência Artificial enquanto tecnologia transformadora, da mesma forma que o colapso do ano 2000 não destruiu a Internet. O mercado está sim a atravessar uma transição inevitável: o fim do capital especulativo ilimitado e a entrada numa fase de disciplina financeira, onde apenas as empresas capazes de demonstrar utilidade real e modelos de negócio rentáveis conseguirão sobreviver.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A anatomia do megaplano de 500 mil milhões da Nvidia com Wall Street



A Nvidia quer pôr Wall Street a financiar a próxima era da inteligência artificial como se financia uma casa ou uma estrada, mobilizando 500 mil milhões para chips, energia e centros de dados.

  1. Nvidia lançou um projeto ambicioso para mobilizar mais de 500 mil milhões de dólares em capital, envolvendo seis grandes gestoras financeiras para financiar infraestruturas de inteligência artificial.
  2. O plano visa transformar os chips gráficos da Nvidia em ativos financeiros estáveis, equiparando-os a infraestruturas tradicionais, o que pode revolucionar o financiamento na área da IA.
  3. Apesar do otimismo, o projeto enfrenta incertezas, como a falta de contratos assiandos e a necessidade de garantir a viabilidade dos investimentos em um mercado volátil.

ANvidia lançou um desafio a seis das maiores gestoras de capital do mundo para, em conjunto, desenharem um projeto de financiamento que pretende mobilizar mais de 500 mil milhões de dólares em capital para sustentar a construção de infraestruturas de inteligência artificial (IA).

O anúncio foi feito na segunda-feira através de memorandos de entendimento assinados entre a fabricante de chips e cada uma das seis instituições — Apollo Global Management, Blackstone, Blackrock, Brookfield Asset Management, Goldman Sachs e KKR — e apresentado ao vivo num painel conjunto na CNBC, algo raro entre concorrentes diretos do setor financeiro.

A ideia nasceu de uma abordagem direta de Jensen Huang aos parceiros financeiros. “Foi o Jensen que nos abordou. Temos uma crença profunda e muita confiança na NVIDIA e no que estão a fazer”, revelou David Solomon, presidente executivo do Goldman Sachs, explicando que o co-fundador da Nvidia colocou a proposta em cima da mesa e pediu à banca de investimento de Wall Street para ajudar a estruturar o acesso ao capital necessário.

O conceito central do plano multimilionário da tecnológica assenta na tentativa de transformar os chips gráficos da Nvidia, até agora vistos como equipamento tecnológico com depreciação rápida, num ativo financeiro com características semelhantes às de infraestruturas físicas tradicionais, como estradas com portagem ou imóveis comerciais.

“Esta é realmente a primeira vez que os chips tecnológicos se tornam uma classe de ativos investível. É um conceito muito grande porque estes sistemas informáticos não são como os nossos computadores pessoais ou como os nossos telemóveis. São agora ativos geradores de receita. São produtivos, têm uma vida longa, são fungíveis, são flexíveis”, referiu Jesen Huang.

O co-fundador da Nvidia insiste que a computação passou a fazer parte da infraestrutura básica das economias, no mesmo plano da eletricidade ou da rede elétrica.

“No fundo, o que é diferente nesta indústria e nesta forma de fazer computação é que o computador passou a ser parte da infraestrutura, como a eletricidade, como a Internet. E por isso é preciso pensar nisto como infraestrutura e construí-la de acordo com essa lógica”, afirmou o gestor, alertando ainda que cada gigawatt de capacidade instalada custa entre 50 mil milhões e 60 mil milhões de dólares, uma fatura que junta terrenos, energia, sistemas de arrefecimento e a própria computação.

Como vai funcionar o mecanismo de financiamento
A estrutura do projeto montado pela Nvidia, visto por muitos como inovadora, separa-se do modelo que a empresa tem usado, desde logo por não envolver capitais próprios das empresas mas dinheiro de terceiros (fundos de pensões, seguradoras e outros investidores institucionais) que será canalizado através das seis gestoras parceiras.

O modelo poderá permitir a alguns clientes financiar centros de dados e hardware sem suportarem integralmente o investimento nos seus próprios balanços. A lógica financeira que sustenta o projeto assenta na equiparação da computação a um ativo com garantias reais, algo já comum noutras classes de crédito.

“Os mercados de capitais têm sido, há muito tempo, mercados de financiamento garantido por ativos. (…) O que estamos a começar a ver é, de certa forma, financiamento baseado em ativos contra esta infraestrutura. Isso não é surpreendente, porque estes são ativos reais, têm valor real”, referiu David Solomon, CEO do Goldman Sachs, lembrando que há 9 biliões de dólares em fundos do mercado monetário norte-americano e mais de 100 biliões de dólares em ações cotadas nos EUA disponíveis para serem canalizados para este tipo de ativo.

Na prática, os chips e a infraestrutura à volta da inteligência artificial funcionam como colateral, à semelhança do que acontece quando um banco financia a compra de uma casa ou de um terreno, olhando não apenas para o risco de crédito do comprador, mas também para o valor do próprio bem.

“Podemos pensar nisto como um fluxo de receita, e podemos titularizá-lo ou efetivamente dividir esse risco e vendê-lo a investidores que queiram participar em qualquer ponto dessa cadeia”, explicou Waldemar Szlezak, responsável global de infraestruturas digitais da KKR. É esta divisão do risco por diferentes níveis de investidores, à semelhança do que acontece nos títulos hipotecários, que permite à Nvidia falar de uma nova classe de ativos.

Para que esse colateral tenha valor duradouro, a Nvidia terá de garantir que o equipamento financiado não perde utilidade caso o cliente original deixe de conseguir pagar.

“As arquiteturas dos sistemas vão ser especificadas de forma que, quando sabemos que vão ser implementadas, possamos melhorá-las continuamente — trazendo para elas todo o tipo de modelos de inteligência artificial fungíveis e flexíveis — e, se alguma coisa correr mal, outra empresa pode assumir o equipamento e operá-lo”, detalhou Jensen Huang.

Isto significa que os sistemas serão construídos segundo especificações uniformes da Nvidia, precisamente para que outra empresa possa assumir a operação do equipamento sem perda de valor caso o mutuário original falhe. Isso é ainda alicerçado na ideia de a própria Nvidia poder assumir uma parte limitada do risco das operações até 125 mil milhões de dólares, o equivalente a 25% do volume potencial de financiamento.

Apesar do otimismo, o anúncio do plano da Nvidia ficou, para já, limitado a memorandos de entendimento, e a experiência recente da própria Nvidia em projetos de investimento levanta dúvidas sobre a rapidez com que estes anúncios se convertem em capital aplicado.

Ainda assim, cada uma das seis instituições financeiras de Wall Street parceiras da Nvidia neste megaplano manterá total autonomia sobre as suas decisões de concessão de crédito, com a tecnológica a funcionar essencialmente como intermediária entre os clientes que precisam de capital e os financiadores dispostos a fornecê-lo.

“É o Jensen que está a liderar isto, a criar estruturas, porque há centenas de biliões de dólares de dinheiro no mundo”, esclareceu Bruce Flatt, CEO da Brookfield, resumindo assim o papel de Jesen Huang na criação deste mercado ainda inexistente.

Larry Fink, lendário CEO da Blackrock, foi mais longe e traçou um paralelo histórico direto com o nascimento de outro mercado de dívida garantida por ativos. “Isto é apenas o início, tal como foi quando comecei no mercado de títulos garantidos por hipotecas, nos anos 1970. E olho para isto como o futuro seguinte da engenharia financeira.”

A comparação feita por Larry Fink, que trabalhou no mercado de títulos garantidos por hipotecas desde os anos 1970, introduz um paralelo inevitável com os produtos financeiros que estiveram no centro da crise.

Efeito dominó nos mercados e na indústria da IA
Os beneficiários diretos deste financiamento serão os grandes operadores de armazenamento na cloud, laboratórios de inteligência artificial, startups que operam com ferramentas de IA e empresas que constroem centros de dados equipados com hardware da Nvidia

Jesen Huang lembrou que só nos últimos seis meses foram investidos globalmente cerca de 500 mil milhões de dólares em startups de IA, mas reconhece que ainda não há datas fixas para os primeiros acordos firmados do projeto, atribuindo essa tarefa às próprias gestoras. “Isso depende agora deles, temos de trabalhar arduamente, há muita coisa em preparação”, referiu o líder da Nvidia, sublinhando que “a procura não é o problema”.

Apesar do otimismo transmitido, o anúncio ficou, para já, limitado a memorandos de entendimento, sem contratos assinados nem detalhes sobre taxas de juro, tipos de mutuários ou calendário de execução. E a experiência recente da própria Nvidia em projetos de investimento levanta dúvidas sobre a rapidez com que estes anúncios se convertem em capital efetivamente desembolsado.

Basta lembrar que há cerca de 11 meses, a empresa anunciou um investimento de até 100 mil milhões de dólares na OpenAI para apoiar a construção de 10 gigawatts de capacidade, um plano que nunca chegou a materializar-se na forma originalmente descrita, embora a Nvidia tenha acabado por injetar 30 mil milhões de dólares na ronda de financiamento recorde fechada pela OpenAI este ano.

Agências de notação de risco como a Moody’s têm alertado para que o nível de despesas de capital no campo da inteligência artificial está a comprimir os fluxo de caixas e a empurrar as gigantes tecnológicas para maiores níveis de endividamento.

Além disso, o anúncio surge poucas semanas depois de um período de nervosismo nos mercados globais, em que investidores começaram a questionar se o investimento massivo das grandes tecnológicas em inteligência artificial se traduzirá em retorno proporcional.

Um dos investidores mais céticos em relação aos megaprojetos em IA é Michael Burry, conhecido pela aposta contra as hipotecas subprime na crise financeira de 2007-2009, que acusou empresas como Meta, Oracle, Microsoft, Google e Amazon de sobrestimar a vida útil dos seus chips de inteligência artificial e de subestimar a respetiva depreciação.

Também recentemente, agências de notação de risco como a Moody’s alertaram para que o nível de despesas de capital está a comprimir os fluxos de caixa e a empurrar as gigantes tecnológicas para maiores níveis de endividamento.

A analogia com o mercado hipotecário, evocada pelo próprio Larry Fink ao comparar o momento atual com o nascimento da titularização hipotecária nos anos da década de 1970, é também motivo de cautela entre analistas, porque foi precisamente o empacotamento de hipotecas subprime em produtos financeiros vendidos a investidores que esteve na origem do colapso financeiro de há quase duas décadas.

Nenhum dos participantes no painel da CNBC abordou diretamente esse paralelo mais desconfortável, ainda que vários tenham admitido riscos: Jim Zelter reconheceu que “vai haver excessos, vai haver recuos”, defendendo que a pluralidade de intervenientes no projeto ajuda a limitar o risco de concentração.

David Solomon foi na mesma linha ao admitir que nem todos os apostadores sairão vencedores, notando que “vai haver grandes empresas que vencem. Vai haver grandes empresas que acabam por não ser aquilo que as pessoas esperavam”

Outro ponto de destaque prende-se com a natureza circular deste tipo de operações, dado que a Nvidia ajuda os seus próprios clientes a obter financiamento para comprar os seus próprios chips, o que reforça as receitas da fabricante, mas também levanta preocupações sobre riscos concentrados no setor.

O plano da Nvidia promete abrir aos pequenos investidores uma via de acesso a um mercado que, até agora, esteve praticamente confinado a capital privado, uma vez que a maioria dos grandes laboratórios de inteligência artificial permanece por cotar em bolsa.

O comentador Steve Eisman, célebre pela aposta contra o mercado hipotecário retratada em “The Big Short“, de Michael Lewis, questionou recentemente numa entrevista à CNBC se a negociação em torno da inteligência artificial já não domina por completo o mercado bolsista, incluindo a banca que financia esta vaga de investimento, algo que Solomon considerou parcialmente correto, mas atribuiu também a um crescimento genuíno dos resultados das empresas do índice S&P 500. Larry Fink admitiu ainda que há resistência social ao avanço acelerado dos centros de dados, referindo uma moratória decretada pelo governador do seu próprio estado sobre este tipo de construções, e defendeu a necessidade de demonstrar que o investimento beneficia comunidades além dos investidores institucionais.
Bruce Flatt, por seu lado, sublinhou que o fator mais limitante de todo o processo não é o capital, mas o acesso a energia, apontando para 14 centrais nucleares atualmente em construção nos EUA e outras 40 planeadas, num setor que continua a demorar anos a expandir-se.

Para os pequenos investidores, o plano da Nvidia promete abrir uma via de acesso a um mercado que, até agora, esteve praticamente confinado a capital privado, uma vez que a maioria dos grandes laboratórios de inteligência artificial permanece por cotar em bolsa. Larry Fink adiantou que a Blackrock vai combinar financiamento privado e público, incluindo fundos de pensões de todo o mundo, com o objetivo de dar acesso a um investimento de retorno de longo prazo e elevada qualidade de crédito.

John Gray apontou a Coreweave como exemplo de uma empresa que começou por recorrer a capital privado e, depois da entrada em bolsa em março do ano passado, passou a ter acesso a outras fontes de financiamento, um percurso que John Gray espera repetir-se com a Anthropic e a OpenAI, caso avancem com a abertura do capital em bolsa.

Ao longo de toda a cadeia da inteligência artificial, o efeito esperado é o de acelerar a disponibilidade de capital para os operadores de centros de dados, fabricantes de equipamento, empresas de energia e fornecedores de componentes como memórias, sistemas de refrigeração ou conectores, áreas que Jesen Huang identificou como os principais pontos de estrangulamento da oferta atual.

O CEO da Nvidia insistiu que o caráter transversal da inteligência artificial reduz o risco do investimento, precisamente por a tecnologia não depender de um único setor, notando que “por ser multissetorial, o facto de termos uma plataforma que é fungível em todos os setores reduz efetivamente o risco do investimento e torna esta infraestrutura muito mais investível”.

Fica, no entanto, por comprovar se a procura projetada se mantém ao ritmo atual e se os laboratórios de inteligência artificial, muitos deles ainda sem lucros consolidados, conseguirão gerar o retorno necessário para justificar o volume de crédito que Wall Street se prepara agora para mobilizar.

domingo, 9 de agosto de 2026

A IA não é o maior problema de cibersegurança. São as pessoas

Os casos de Inteligência Artificial (IA) a escapar dos laboratórios, a infiltrar-se noutras empresas e a tentar enganar pessoas têm sido notícia nas últimas semanas. E, num desses casos, modelos de IA chegaram mesmo a trabalhar em conjunto para escapar dos seus ambientes de teste.

Significa isto que as máquinas estão a tomar conta de tudo? Não propriamente.
A IA não é a mente por detrás das ameaças cibernéticas mais disseminadas atualmente; são as pessoas que podem utilizar a IA de forma maliciosa - e para fins maliciosos. A IA deu aos agentes mal-intencionados um poder enorme, permitindo-lhes criar software malicioso, investigar alvos, elaborar esquemas convincentes e automatizar ataques a uma velocidade sem precedentes.

Um em cada quatro ataques que resultaram em violações de dados foi impulsionado por IA entre fevereiro de 2025 e março de 2026, segundo um relatório da IBM. E os norte-americanos perderam mais de 893 milhões de dólares (cerca de 775 milhões de euros) em burlas relacionadas com IA no ano passado, segundo o FBI.

Mas os especialistas dizem que os agentes de ameaça do mundo real - isto é, as pessoas - continuam a ser quem controla tais acontecimentos. Os agentes de IA apenas têm perpetuado métodos de ataque já existentes, como o phishing e as burlas com malware, em vez de criarem métodos totalmente novos.

“São os seres humanos que temos de vigiar”, alerta Oren Etzioni, professor emérito da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, e antigo CEO do Allen Institute for Artificial Intelligence. “A IA é apenas a ferramenta.”

A IA a agir de forma descontrolada
Alguns incidentes recentes mostraram aquilo de que a IA é capaz no mundo real, e não apenas em teoria, alimentando receios de que a tecnologia esteja a avançar demasiado depressa.

Em julho, modelos de teste da OpenAI (criadora do ChatGPT) ultrapassaram as suas limitações e invadiram os sistemas de outras empresas durante uma avaliação interna.

Dias depois, a Anthropic (criadora do Claude AI) afirmou ter descoberto que os seus modelos de IA tinham conseguido entrar nos sistemas de três empresas durante os testes.

Num teste separado, o modelo mais avançado da Anthropic utilizou identidades falsas para tentar enganar pessoas reais, segundo revelaram recentemente investigadores do AI Security Institute do Reino Unido.

Um dos modelos de IA da Meta (‘dona’ do Facebook, Instagram e WhatsApp) também conseguiu entrar numa empresa externa, informou a gigante das redes sociais.

Estas intrusões também demonstram como a IA pode ser imprevisível ao interpretar instruções. Os modelos da OpenAI, por exemplo, estavam a tentar realizar um teste de cibersegurança quando saíram do seu ambiente de teste e invadiram outra empresa, apesar de não terem recebido instruções para o fazer.

Patrick Fussell, responsável global pela simulação de adversários na IBM, comparou a IA a um génio.

“Queremos pedir-lhe um desejo, mas temos de ser muito, muito específicos quanto aos detalhes desse desejo”, diz à CNN. “Caso contrário, as coisas podem acabar por correr mal”, continua, em tom de aviso.

Mas estes casos também ocorreram em circunstâncias muito específicas.

A OpenAI desativou restrições que teriam impedido o seu modelo de “realizar atividades cibernéticas de alto risco”. A Anthropic realizou os seus testes sem as salvaguardas de segurança padrão presentes nos modelos disponibilizados ao público em geral. O AI Security Institute também desativou determinadas ferramentas que poderiam ter “reduzido o âmbito” das capacidades dos modelos.

Por norma, os investigadores fazem isto para avaliar plenamente as capacidades de um modelo.

“Eu não poderia entrar no ChatGPT ou no Claude, ou em algo semelhante, e isso, acidentalmente, invadir o FBI. Isso não vai acontecer”, adianta Adam Meyers, responsável pelas operações de combate a adversários na empresa de cibersegurança CrowdStrike. “O que estamos a ver é que estes testes são realizados em condições específicas, nas quais se monitoriza para perceber: ‘Será que isto faz algo que não era suposto fazer?’”

Como os hackers estão a utilizar a IA
Segundo os especialistas, a IA não está a agir de forma autónoma para conceber novos ataques. Em vez disso, está a ajudar os cibercriminosos a implementar técnicas já existentes muito mais rapidamente, tornando-as mais eficientes e eficazes.

Isto pode incluir a utilização de IA para analisar o site de uma empresa e descobrir quem deve ser visado, ou a utilização de um agente de IA para conduzir as primeiras negociações com uma vítima de extorsão informática. Os agentes de IA conseguem imitar conversas humanas, tanto através de texto como até de vozes específicas. Hackers com poucos conhecimentos técnicos podem agora recorrer à IA para executar esquemas sofisticados.

“Estão a utilizar a IA para melhorar a metodologia dos ciberataques, essencialmente, em todas as diferentes fases, mas continua, de certa forma, a ser uma atividade conduzida por seres humanos”, afirma Jud Dressler, responsável pelo centro de operações de risco da seguradora especializada em cibersegurança Resilience.

Segundo Meyers, antigamente os agentes mal-intencionados criavam à pressa scripts básicos - pequenos programas com instruções destinadas a automatizar tarefas - para atingir os seus objetivos. Agora, porém, conseguem produzir trabalho de maior qualidade que parece ter demorado três vezes mais tempo a desenvolver.

Também utilizam IA para tarefas que acontecem nos bastidores, como gerar a infraestrutura necessária para criar sites maliciosos.

“Com a IA, podem automatizar essa construção e, por isso, o custo de reconstrução tornou-se muito baixo. E isso muda as regras do jogo”, afirmou Rob Lefferts, vice-presidente corporativo de proteção contra ameaças da Microsoft.

A maior ameaça
Para Etzioni, os incidentes recentes são um momento de “canário na mina de carvão” para a IA e a cibersegurança - uma expressão que significa um importante sinal de alerta. E não é o único a pensar assim: Geoffrey Hinton, cientista informático galardoado com o Prémio Nobel e conhecido popularmente como o ‘padrinho da IA’, alertou recentemente para a probabilidade de surgirem mais ataques realizados por IA de forma descontrolada.

Os relatos sobre IA a agir de forma descontrolada reforçam a importância de implementar boas práticas de cibersegurança, como corrigir vulnerabilidades, monitorizar os agentes de IA no local de trabalho e estar atento a burlas de engenharia social e phishing, dizem os especialistas.

Mas, por mais avançada que a IA esteja a tornar-se, continua a ser um programa orquestrado por um ser humano. E são esses seres humanos que constituem a maior preocupação, porque são eles que tomam as decisões - como realizar operações de espionagem ou enganar utilizadores para lhes retirar enormes quantias de dinheiro - afirma Meyers.

As gigantes tecnológicas estão numa corrida para tornar a IA tão inteligente quanto os seres humanos, um marco teórico conhecido como “inteligência artificial geral” (AGI). Os incidentes recentes, contudo, intensificaram os apelos a um abrandamento do desenvolvimento.

Mais de 1200 trabalhadores de grandes empresas de IA, incluindo Dario Amodei, CEO da Anthropic, assinaram recentemente uma carta aberta a apelar ao governo norte-americano para ajudar a definir o ritmo do desenvolvimento da IA. A Casa Branca reuniu-se recentemente com grandes empresas de IA para discutir um quadro que permitiria ao governo analisar determinados modelos de IA antes de estes serem disponibilizados.

Muito provavelmente, os investigadores de cibersegurança já consideraram as ameaças associadas à AGI, porque as pessoas que trabalham nesta área tendem a ser paranoicas, adianta Fussell, da IBM. Mas ainda estamos muito longe de uma realidade em que os agentes de IA sejam tão inteligentes quanto os seres humanos, continua.

“É como perguntar a alguém: ‘Como seria viver noutro planeta?’”, exemplifica, continuando: “Conseguimos imaginar, de certa forma, mas está tão para além da nossa capacidade que é realmente difícil fazer um plano.”

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terça-feira, 4 de agosto de 2026

A Guerra da IA e o Mito da Missão: Por que os engenheiros escolhem o dinheiro às custas da ideologia

Anthropic CEO Dario Amodei weighed in on where the AI race is headed in a new essay [2024]

A recente polémica gerada por fugas de informação sobre Dario Amodei, cofundador e CEO da Anthropic, veio desmantelar a ideia romantizada da "missão ética" no mundo da Inteligência Artificial. Quando se soube do descontentamento do executivo com novos funcionários motivados por salários astronómicos - e não pela causa da segurança tecnológica -, a internet não perdoou. A notícia foi avançada pela AXIOS AI's talent wars have a loyalty problem. Uma fonte familiarizada com o assunto disse ao Axios que o CEO da Anthropic, Dario Amodei, expressou preocupação com a chegada de novos talentos à empresa motivados pelo salário em vez da missão . Como noticiado pelas reações irónicas ao caso de Dario Amodei, choveram piadas nas redes sociais. Afinal, ver um líder multimilionário parecer chocado com o facto de as pessoas trabalharem a troco de dinheiro gerou tiradas inevitáveis como "Última hora: CEO descobre que os trabalhadores pagam as contas em dólares e não com a missão da empresa". Analistas do setor, como o engenheiro Gergely Orosz, foram diretos à ferida: a Anthropic é das empresas que mais inflaciona os salários para desviar talentos da Google ou da Meta. Se o objetivo era testar a devoção ideológica dos candidatos, bastava pagar abaixo da média do mercado e ver quem sobrava.

No fundo, esta tensão salarial é apenas o sintoma visível de algo muito maior. No relatório oficial da tecnológica sobre a sua posição relativamente aos modelos de pesos abertos (open-weights), o próprio Dario Amodei deixa claro que a corrida à IA se tornou uma questão de soberania e segurança nacional contra potências como a China. É esta pressão geopolítica que força as grandes empresas a disputar os melhores cérebros do mundo a qualquer custo, criando um fosso gigante entre os discursos públicos dos executivos e os bastidores do mercado.

Esta batalha pelo futuro da tecnologia dividiu as figuras de topo do setor em duas filosofias opostas:

De um lado, os líderes norte-americanos dividem-se entre o controlo e a abertura.
  1. Dario Amodei (CEO da Anthropic) defende modelos fechados para travar a espionagem e o contrabando de chips;
  2. Sam Altman (CEO da OpenAI) continua a puxar pela escala gigante e proprietária, pagando pacotes milionários para reter a equipa;
  3. Mark Zuckerberg (CEO da Meta) aposta as fichas todas no código aberto com o Llama para travar o monopólio dos concorrentes; e
  4. Jensen Huang (CEO da Nvidia) incentiva o ecossistema aberto, garantindo que a procura por semicondutores continua em alta.
Do outro lado, a resposta da China tem sido fulminante.
  1. Liang Wenfeng (Fundador da DeepSeek) chocou Silicon Valley ao provar que é possível criar modelos de topo com uma fração do orçamento americano;
  2. Yang Zhilin (CEO da Moonshot AI) destaca-se na corrida aos modelos capazes de processar volumes massivos de texto;
  3. Zhang Peng (CEO da Zhipu AI) lidera a aposta na autonomia tecnológica chinesa;
  4. Eddie Wu (CEO do Alibaba Group) massificou a distribuição da família aberta Qwen;
  5. Liang Rubo (CEO da ByteDance) acelerou a integração da IA nas aplicações de consumo;
  6. Robin Li (CEO do Baidu) mantém a aposta no ecossistema proprietário ERNIE; e
  7. Pony Ma (CEO da Tencent) canalizou o modelo Hunyuan para a máquina do WeChat.
As piadas que dominaram a internet revelam uma verdade desconfortável para os executivos de Silicon Valley: a Inteligência Artificial já não é um debate filosófico sobre salvar o mundo. Tornou-se o centro de uma guerra económica implacável onde o altruísmo serve para o discurso de imprensa, mas é a riqueza geracional que decide quem ganha a corrida aos melhores engenheiros. 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Superinteligência Artificial chega em breve e deve ser acessível a todos, afirma Mark Zuckerberg



O CEO da Meta, Mark Zuckerberg, colocou a busca pela superinteligência artificial como o grande objetivo atual da empresa. Num artigo escrito para o The Wall Street Journal e publicado nesta terça-feira (28), o executivo reforçou a aposta e explicou ainda como a humanidade deve lidar com esta tecnologia.

Também conhecido pela sigla ASI (Artificial Superintelligence) em inglês, este é o sistema previsto para ser capaz de superar por uma grande margem a inteligência e a capacidade cognitiva de qualquer ser humano - isto em todas as áreas possíveis, incluindo raciocínio, criatividade e resolução de problemas.

O texto reflete as apostas corporativas da empresa dona do Instagram, WhatsApp e Facebook, além de líder em óculos inteligentes. Desde o ano passado, a empresa separou a divisão de inteligência artificial (IA) em diferentes frentes e estabeleceu o laboratório Meta Superintelligence Labs (MSL) como prioridade.

A seguir, destacamos os principais tópicos do artigo de Zuckerberg. O texto traz uma perspetiva otimista, mas que também aponta quais são os possíveis riscos deste futuro.

1. Ela está mesmo a chegar (e será incrível)
Logo no início do texto, o CEO refere que somos privilegiados como sociedade por "viver num momento incrível da história". Segundo ele, a dita superinteligência chegará dentro de alguns anos, embora não tenha sido indicado um prazo mais específico.

"As pessoas poderão utilizar uma superinteligência que supera a capacidade humana para criar e descobrir coisas novas e extraordinárias, construir novos negócios, expressar ideias, aprender novos conceitos e melhorar as suas vidas, saúde, relacionamentos e carreiras", diz Zuckerberg.

2. A superinteligência deve ser acessível
O principal tópico do texto envolve a distribuição da tecnologia. Para o CEO, de nada serve ter tantos recursos criados se eles não puderem ser utilizados pelo maior número possível de pessoas.

"Alguns argumentam que a própria superinteligência, ou um pequeno grupo de especialistas que a controla, deveria decidir o que é melhor para a humanidade. Eu discordo. Ela tem o potencial de iniciar uma nova era de capacitação pessoal, na qual os indivíduos têm maior liberdade para perseguir os seus interesses e alcançar o seu pleno potencial", explica.

Como exemplo, ele comentou como seria injusto se apenas uma pessoa no mundo tivesse um advogado "superinteligente", enquanto o cenário em que todos tivessem esse recurso resultaria numa justiça feita de forma muito mais eficiente.

3. Ele não entende as críticas contra a IA
Zuckerberg também se disse surpreendido ao notar que o discurso de muitas pessoas envolvidas com IA é "carregado de pessimismo apocalíptico". Ele discorda de quem acha que a IA vai eliminar a maioria dos empregos e que grande parte da relevância da humanidade seria prejudicada nesse cenário.

Zuckerberg refere também que isso pode criar um precedente delicado em termos de regulação. "A ideia de que a IA é tão perigosa ao ponto de o único caminho seguro ser uma concentração extrema de poder parece, ela própria, perigosa", escreve.

4. Existem riscos de segurança
Do ponto de vista da proteção contra riscos e utilizações mal-intencionadas, o executivo defende que não há uma fórmula única sobre como lidar com a superinteligência em todos os casos.

Em áreas como a cibersegurança, ele acredita que o software de código aberto "demonstrou que conceder a todos acesso total a sistemas poderosos é a melhor forma de garantir a segurança ao longo do tempo" - um passo que a Meta seguiu ao lançar os sistemas Llama mais abertos e ao associar-se à recente aliança no setor de IA.

Contudo, ele também acredita na necessidade de intervenção do Estado em determinados momentos. "No que diz respeito a outros riscos, incluindo os de natureza biológica, será benéfico haver uma maior coordenação entre governos e outras instituições quanto à implementação responsável de modelos de alta capacidade", explica.

5. Os trabalhos vão mudar (e aumentar)
Por fim, Zuckerberg acredita que a superinteligência deve ser usada para ajudar a inventar, e não para automatizar tarefas. Ele afirma que a humanidade sempre progrediu mais quando existiu "poder nas mãos das pessoas para que elas possam perseguir as suas próprias aspirações".

"À medida que todos obtêm ferramentas mais poderosas, cada pessoa tornará mais capaz de moldar o futuro, e não menos", defende o executivo. Exemplos citados por ele vão desde a descoberta de medicamentos até formas de melhorar um negócio.

"Será significativamente mais fácil começar negócios sem angariar grandes quantias de capital. Eu espero que a economia se torne mais empreendedora, com um número maior de pessoas a trabalhar em pequenas empresas em vez de grandes companhias", prevê.

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terça-feira, 28 de julho de 2026

A Grande Otimização: como a batalha entre a Nvidia, Elon Musk e as Big Techs vai financiar a Revolução Sustentável da IA


A indústria tecnológica atravessa uma das suas transformações mais profundas com a chamada Guerra dos Gigantes da IA. Contudo, longe de ser apenas uma disputa técnica para definir qual o chatbot mais rápido ou preciso, a verdadeira revolução está a mover-se dos laboratórios para a economia real. Um estudo recente da Boston Consulting Group (BCG) com a Temasek revela que a Inteligência Artificial poderá gerar entre 500 e 530 mil milhões de euros por ano até 2028, impulsionando a eficiência energética, a redução do risco climático e a otimização industrial.

Para capturar este valor na economia real, desenrola-se nos bastidores uma batalha feroz sobre quem controlará a infraestrutura e a arquitetura destes modelos, liderada por figuras como Jensen Huang, CEO da Nvidia, e Elon Musk, fundador da xAI.

1. A Regra dos 80/20: quem vai realmente lucrar com a IA?
Uma das conclusões mais marcantes do relatório da BCG desmonta uma ideia comum: entre 75% e 85% do valor económico criado pela IA ficará nas empresas que utilizarem a tecnologia (indústrias, utilities, seguradoras e operadores logísticos), cabendo aos fornecedores de tecnologia apenas 15% a 25%.

A maior fatia deste valor - cerca de 259 mil milhões de euros anuais - estará na otimização industrial (manutenção preditiva, gestão de linhas de produção e eficiência energética), seguida da gestão do risco climático (65 mil milhões de euros) e das redes elétricas inteligentes (28 mil milhões de euros).

É precisamente aqui que a visão de Jensen Huang se cruza com os números do mercado: para que a Nvidia venda massivamente o seu hardware, a tecnologia precisa de ser adotada globalmente por milhões de empresas tradicionais, e não apenas por um pequeno grupo de gigantes do ecossistema fechado.

2. O império do hardware e a aposta nos Modelos Abertos
Para acelerar esta adoção massiva, o CEO da Nvidia adotou uma estratégia clara: defender o ecossistema global de código aberto (open weights). Como reportado pela PCGuia sobre as declarações de Jensen Huang, o executivo defende abertamente que as empresas devem ser livres de utilizar modelos abertos desenvolvidos em qualquer parte do mundo - incluindo na China, como as soluções da Moonshot AI ou da DeepSeek.

Para a fabricante de chips, afastar os receios geopolíticos sobre alegados backdoors é vital. A verdadeira segurança e inovação advêm da transparência e da auditabilidade que o modelo aberto oferece, ponto detalhado pela Cybernews sobre a visão de Jensen Huang. Quanto mais baratos e acessíveis forem os modelos de IA, mais rápido a indústria transformadora e as redes elétricas implementarão a tecnologia, disparando a procura pelas GPUs da Nvidia.

3. Aliança indireta com Elon Musk e o fenómeno Grok
Elon Musk enquadra-se nesta dinâmica a partir da sua plataforma X e da sua empresa xAI. Ao desafiar o domínio de gigantes como a Meta, a Microsoft e a Google, Musk apostou na disponibilização aberta de partes do Grok, posicionando-se ao lado dos defensores do ecossistema open source.

Para treinar estes modelos em grande escala, a xAI tornou-se uma das maiores clientes de infraestrutura computacional do mundo. Esta relação gera uma convergência direta: Musk necessita do poder de processamento da Nvidia para rivalizar com a OpenAI, enquanto Huang beneficia destes investimentos para acelerar a construção dos data centers do futuro. Como destaca o TradingView sobre a posição pública da Nvidia, a coexistência entre modelos abertos e fechados é o único caminho para viabilizar a transformação digital da economia.

4. A reação geopolítica: Donald Trump e Xi Jinping
A intersecção entre o valor económico da IA e o controlo da tecnologia transformou a disputa numa prioridade de segurança nacional entre as duas maiores potências globais:
  1. A Administração Donald Trump: em Washington, a resposta ao avanço dos modelos abertos chineses tem sido de retórica punitiva. A administração Trump pondera impor sanções e restrições governamentais para proibir o uso de IA aberta de origem chinesa em empresas americanas, sob alegações de apropriação de propriedade intelectual. Esta postura colocou Jensen Huang em rota de colisão com a Casa Branca, tendo o CEO alertado que banir o ecossistema aberto prejudicará a competitividade do próprio tecido empresarial americano.
  2. A estratégia de Xi Jinping: por outro lado, o Presidente chinês, Xi Jinping, vê nos modelos abertos uma oportunidade estratégica. Ao apoiar laboratórios locais para lançarem modelos de código aberto de alta qualidade e custos reduzidos, a China contorna as sanções ao hardware, exporta tecnologia para o Sul Global e fornece às indústrias as ferramentas de otimização energética e operacional descritas no relatório da BCG.
Para entender melhor como estas tensões políticas e económicas se desenrolam no terreno, vale a pena acompanhar a análise sobre a viagem de Jensen Huang à China, que ilustra o papel do CEO da Nvidia como uma ponte diplomática informal entre Washington, Pequim e os maiores investidores mundiais de IA.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

OpenAI, Meta e xAI lançam nova vaga de modelos de IA hoje

A OpenAI anunciou que vai lançar oficialmente o GPT-5.6, o seu novo modelo de Inteligência Artificial esta quinta-feira, dia 9 de julho. Este novo modelo conta com um total de três variantes: Sol, Terra e Luna.

Deste trio, o GPT-5.6 Sol é o mais poderoso, enquanto o Terra é mais modesto e, apesar de apresentar um desempenho semelhante ao GPT-5.5, foi criado para uso quotidiano. Já o Luna, é apontado como o modelo mais acessível (do ponto de vista de custos) da empresa.

É importante lembrar que, antes de serem lançados publicamente, estas três variantes do GPT-5.6 tiveram de ser entregues ao governo dos EUA para serem conduzidos testes preliminares. A ordem assinada por Trump no começo de junho exigia que as empresas de Inteligência Artificial dessem ao governo dos EUA acesso aos seus modelos mais poderosos por um período 30 dias antes destes serem lançados publicamente.

A presidente do Banco Central Europeu (BCE) questionou hoje a responsabilização dos agentes de inteligência artificial (IA) em casos como roubos, numa conferência com o economista chefe da OpenAI, que defendeu a criação de um quadro legal.

Na altura, a OpenAI afirmou que “este tipo de processo de acesso governamental não deve ser o padrão a longo-prazo”, decidindo não obstante obedecer para garantir um lançamento sem obstáculos do GPT-5.6.

Conta o Axios que, após terem sido conduzidos múltiplos testes com a ajuda de técnicos especializados da OpenAI, a divisão do Departamento do Comércio alocada a estas avaliações terá decidido dar “luz verde” ao lançamento público do do GPT-5.6 e que tem agora chegada marcada para 9 de julho.

EUA levanta restrições às IAs mais potentes da Anthropic
Washington levantou as restrições que tinham obrigado a Anthropic a bloquear o acesso aos dois modelos mais potentes, anunciou a empresa norte-americana líder no setor da inteligência artificial (IA), com o acesso a ter sido restabelecido no começo de julho.

"Recebemos a notificação de que o Departamento do Comércio levantou os controlos de exportação sobre o Claude Fable 5 e o Mythos 5, impostos em nome da segurança nacional, declarou na terça-feira a Anthropic, na rede social X.

"Começaremos a restabelecer o acesso", acrescentou.

A 12 de junho, o Governo norte-americano obrigou, abruptamente, a Anthropic a bloquear o acesso a estes dois modelos de ponta, considerando que tinham sido detetadas falhas nas medidas de segurança destinadas a impedir o uso indevido para fins de ciberataques.

Pequim, 08 jul 2026 (Lusa) - As autoridades chinesas alertaram hoje para alegados riscos de segurança na ferramenta de programação com inteligência artificial Claude Code, da norte-americana Anthropic, num novo episódio da disputa tecnológica entre a China e os Estados Unidos.

Esta retirada forçada, uma situação inédita por parte de um governo, suscitou uma onda de críticas a nível mundial, reacendendo os debates sobre a soberania digital dos países dependentes das tecnologias norte-americanas.

Após negociações acirradas em Washington, sobre as quais poucos detalhes foram divulgados, o acesso ao Mythos 5 foi desbloqueado na sexta-feira para um pequeno grupo de "ciberdefensores e operadores de infraestruturas", mas apenas norte-americanos.

Os parceiros estrangeiros, nomeadamente agências estatais de cibersegurança na Europa e na Ásia, continuavam sem acesso nesta fase. A Anthropic, com relações turbulentas com a Administração Trump, não esclareceu se o levantamento do controlo das exportações implicava a reintegração desses parceiros não norte-americanos.

A decisão permitiu o regresso online do Fable 5, uma versão destinada ao grande público do Mythos, com restrições em matéria de cibersegurança e riscos de ataques biológicos e químicos.

Um novo rumor sugere que a Anthropic e a Samsung têm mantido contatos de forma a explorarem o desenvolvimento de chips personalizados dedicados a Inteligência Artificial. Também ajudará a combater a escassez de componentes na indústria tecnológica.

A OpenAI, rival norte-americana da Anthropic, lançou na sexta-feira o modelo mais potente da empresa até à data, o GPT-5.6, inicialmente com acesso limitado, aceitando, pela primeira vez, que o Governo norte-americano valide, cliente a cliente, os parceiros autorizados.

Durante muito tempo hostil a qualquer regulamentação da IA, acusada de ser um entrave à inovação face à China, a administração Trump iniciou uma reviravolta radical, tendo em conta as poderosas capacidades dos modelos de ponta.

As recentes decisões nesta área, tomadas num quadro jurídico ainda pouco claro e controverso, marcam uma retoma do controlo do Governo sobre esta tecnologia crucial.

Na terça-feira, o diretor da Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês), John Ratcliffe, comparou as capacidades dos modelos de IA mais avançados a "armas nucleares digitais", numa rara intervenção pública em Washington.

A atualização da OpenAI surge numa altura em que outras empresas tecnológicas aceleram o lançamento de novos modelos e ferramentas de IA no mercado.

A empresa de IA de Elon Musk, SpaceXAI, também conhecida como xAI, prepara-se, segundo notícias, para lançar um novo modelo de IA em parceria com a Anysphere, a empresa responsável pela ferramenta de programação com IA Cursor, de acordo com o site The Information, que cita um memorando enviado ao pessoal.

O The Information noticiou que o modelo poderá ser lançado já esta quarta-feira e deverá processar informação rapidamente, tornando-se competitivo, em alguns aspectos, com o Opus 4.8 da Anthropic e o GPT-5.5 da OpenAI.

Entretanto, a Meta lançou esta semana o Muse Image, o seu primeiro modelo de geração de imagens desenvolvido pelos Meta Superintelligence Labs.

Tal como outros geradores de imagens, o Muse Image permite criar e editar imagens a partir de instruções textuais. A Meta afirma que o modelo pode "actuar como parceiro criativo" e ajudar os utilizadores a "transformar ideias em visuais de alta qualidade" para partilhar no feed, nas stories ou em conversas.

No entanto, o modelo tem sido criticado porque os utilizadores com contas públicas no Instagram podem ser mencionados nas instruções, permitindo que outros gerem imagens que usam as suas publicações públicas como material de referência, a menos que desactivem essa opção nas definições.

A política da Meta indica que "as pessoas podem conseguir criar conteúdos com o seu conteúdo do Instagram utilizando funcionalidades de IA da Meta" e que os utilizadores "não serão notificados sobre conteúdos criados com funcionalidades de IA da Meta".

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sábado, 4 de julho de 2026

A Filantropia enganadora e porque é importante taxar os bilionários

Durante anos venderam a ideia de que a luta de classes era uma invenção da esquerda. Conversa de comunistas. Teorias de ressabiados. Inveja de quem teve sucesso. Uma fantasia repetida sempre que alguém ousava falar de desigualdade ou da concentração da riqueza.
Depois aparece Warren Buffett. Sim, Warren Buffett. Esse conhecido marxista. Admirador de Che Guevara. Frequentador assíduo da Festa do Avante. Praticamente um bolchevique de Wall Street.
E diz isto:
De repente, a teoria da conspiração da esquerda passou a ser uma confissão de um dos homens mais ricos do planeta. Buffett não disse que a luta de classes existiu. Disse que existe. Não disse que a sua classe ganhou. Disse que está a ganhar. [New York Times, 2006]
Durante décadas, convenceram milhões de pessoas de que falar em luta de classes era coisa de comunistas, sindicalistas e ressabiados. Entretanto, a guerra continuou a ser travada. E, segundo um dos seus principais protagonistas, está a correr bastante bem para um dos lados.

"Regra Buffett" nunca chegou a ser implementada.
Apesar de ter tido uma enorme tração mediática e o apoio explícito do então presidente Barack Obama, a proposta falhou o seu caminho legislativo no Congresso dos Estados Unidos.

Em 2012, o projeto de lei (batizado formalmente como Paying a Fair Share Act) foi levado a votação no Senado norte-americano. Embora tenha conseguido uma maioria simples de votos a favor (51 contra 45), a proposta foi travada pela oposição do Partido Republicano através de uma manobra de bloqueio parlamentar (o chamado filibuster), que exigia uma maioria qualificada de 60 votos para que o debate e a votação final pudessem avançar.

Os opositores da medida argumentaram na altura que aumentar os impostos sobre os mais ricos equivalia a uma "guerra de classes" e que a introdução desta taxa iria prejudicar o investimento privado, travar a criação de emprego e desacelerar a economia.

Assim, o sistema fiscal norte-americano manteve-se estruturalmente idêntico no que toca à proteção dos rendimentos de capital. Até hoje, os ganhos derivados de investimentos financeiros e ações continuam a ser taxados a taxas significativamente mais baixas do que os salários do trabalho, permitindo que a assimetria denunciada por Warren Buffett continue a ser uma realidade.

O outro lado da Filantropia
A generosidade proclamada pelos super-ricos através de iniciativas como o The Giving Pledge costuma recolher aplausos unânimes, mas, quando se vira a moeda, a filantropia dos multimilionários revela uma face muito mais cinzenta e amplamente criticada por economistas e sociólogos. Longe de ser um ato puramente altruísta, a transferência de fortunas para fundações privadas funciona, em grande parte, como um mecanismo altamente eficaz de evasão ou otimização fiscal. Ao canalizarem o seu dinheiro para estas estruturas, os bilionários obtêm deduções de impostos massivas, o que significa que o Estado — e, por arrastamento, os cidadãos comuns — deixa de arrecadar receitas que poderiam ser aplicadas em serviços públicos essenciais, como o SNS, a escola pública ou as infraestruturas.

Além da questão financeira, há um profundo défice democrático neste modelo. Quando a riqueza é transferida para fundações geridas pelos próprios magnatas ou pelas suas famílias, o poder de decisão sobre o que é prioritário para a sociedade passa das mãos de governos eleitos para as mãos de elites privadas. São os multimilionários que passam a ditar, segundo as suas convicções pessoais ou interesses de mercado, se o dinheiro deve ir para a cura de uma doença específica, para a exploração espacial ou para reformas educativas que nem sempre são testadas ou validadas. Este fenómeno cria uma espécie de plutocracia disfarçada de caridade, onde o destino do bem-estar social fica sujeito aos caprichos de um punhado de indivíduos que não respondem perante nenhum eleitorado. Ler como os ricos se tornaram mesquinhos

Por fim, não se pode ignorar o tremendo ganho de reputação e a lavagem de imagem, muitas vezes apelidada de philanthro-washing. Muitas destas fortunas colossais foram erguidas com base em práticas laborais controversas, salários baixos, lóbis políticos para travar direitos sociais ou modelos de negócio que aceleraram a crise climática. Ao doarem uma percentagem vistosa do que acumularam, estes empresários conseguem desviar as atenções do escrutínio público e das críticas à forma como geraram a sua riqueza, transformando-se de predadores económicos em benfeitores da humanidade, enquanto mantêm intacto o sistema económico que perpetua as desigualdades que eles próprios dizem combater.

A forma mais democrática é exigir regulação e taxação dos bilionários. 
A exigência de uma maior taxação sobre os bilionários tem deixado de ser um debate puramente académico para se tornar uma pressão política concreta, movida pela necessidade de corrigir o que muitos consideram ser uma falha estrutural do capitalismo moderno. A estratégia para viabilizar esta mudança assenta, primordialmente, na cooperação internacional, dado que os super-ricos operam numa economia globalizada que lhes permite deslocar o património para jurisdições com tributação mais favorável. Projetos como a proposta de um imposto global sobre a riqueza, que visa estabelecer uma taxa mínima anual sobre as maiores fortunas, são fundamentais para evitar a concorrência fiscal entre Estados e impedir a existência de paraísos fiscais que servem de refúgio ao capital.
A nível nacional, a luta pela justiça fiscal passa por reformas legislativas que alterem a forma como a riqueza é tributada, centrando-se na taxação de mais-valias não realizadas - o património latente que cresce sem ser tributado enquanto não é vendido - e no encerramento de lacunas que permitem aos multimilionários viver através de empréstimos garantidos pelas suas próprias ações, escapando assim ao imposto sobre o rendimento das pessoas singulares. Paralelamente, o reforço dos impostos sobre heranças é defendido como uma medida essencial para prevenir a cristalização de dinastias financeiras que exercem um poder desproporcional sobre a democracia. 
Esta causa tem vindo a ganhar força através da pressão cívica, com movimentos de cidadãos e até de investidores consciencializados a sublinharem que a filantropia voluntária é um paliativo insuficiente perante a necessidade urgente de um sistema redistributivo robusto, transparente e democrático, que reponha o equilíbrio entre a acumulação de capital privado e o financiamento dos bens e serviços públicos que sustentam a coesão social.

Saber mais:

domingo, 28 de junho de 2026

California’s proposed billionaire tax: what you need to know

I have some tremendous news to share: we've just won a decisive victory against Mark Zuckerberg and the Silicon Valley billionaires. Together with my colleague Emmanuel Saez, we’ve spent years working alongside California's civil society to make the 200 Silicon Valley billionaires - including Mark Zuckerberg and Peter Thiel - pay their fair share. Today (26/06/2026), they have just lost a crucial battle.
It all began in July 2025, when Donald Trump signed the One Big Beautiful Bill Act into law.
The legislation included sweeping budget cuts, slashing funding for Medicaid, the health insurance program that serves low-income Americans.
To offset these devastating cuts, the SEIU-UHW union has spent the past six months gathering signatures to put a ballot initiative before California voters that would impose a one-time 5% tax on Silicon Valley billionaires.The tax on extreme wealth could raise nearly $100 billion.
Panicked, the billionaires did everything they could to stop it. Everything.
The initiative first needed to collect roughly one million signatures to qualify for the November ballot.

So what did the billionaires do over the past few months?
They poured enormous sums of money into preventing the union from gathering enough signatures.
They spent hundreds of millions of dollars and used every tool at their disposal. According to some reports, they even paid homeless people (!!) to sabotage the signature drive. 
That tells you just how rattled they were.

But every one of their maneuvers failed miserably.
The billionaires didn't concede defeat, however, and fought until the very last minute to have the measure removed. The deadline was June 25.
They could count on California Governor Gavin Newsom, who worked behind the scenes to kill the initiative and shield the billionaires to the very end.

Despite enormous pressure, the union held firm.
It is now official and irreversible: Californians will vote on November 3 on whether to tax billionaires. The people will decide. This is a hugely important milestone.
Now comes four months of campaigning to convince Californians to vote in favor of taxing Mark Zuckerberg and the state's other billionaires.
A 5% tax on just 200 individuals could raise $100 billion to fund education and healthcare for millions of Californians.
Since 1982, the wealth of California's billionaires—the richest 0.0002% of the population—has increased thirtyfold.
It grew by 144% between 2023 and 2025 alone.
California's billionaires now hold $2.3 trillion in wealth - equivalent to roughly half of California's GDP and about 10% of U.S. GDP.That would be enough to offset the cuts imposed by the One Big Beautiful Bill Act.
According to a study we have just completed, California's billionaires pay only 0.07% of their wealth each year in California income tax - representing barely 0.2% of the state's total tax revenue.

Take Sergey Brin and Larry Page, Google's founders.
In 2019, 2020, and 2023, they reported no taxable income and paid no California income tax on the wealth generated by Alphabet.
Since 2019, their fortunes have increased by more than $400 billion.Sergey Brin is now spending tens of millions of dollars to defeat the billionaire tax initiative.
In the United States, extreme wealth has reached levels never seen before - not even during the Gilded Age of the late nineteenth and early twentieth centuries, when railroad, finance, and oil tycoons dominated the economy through monopolies.This is the concentration of wealth we must confront.
Because extreme wealth always brings with it extreme power: the power to crush competition, manipulate public debate, shape public policy, and buy elections.
Of course, billionaires will use that power to influence the November 3 ballot.
They are preparing to spend without limit while predicting every imaginable catastrophe should the 5% tax be adopted, backed by dubious studies and every kind of threat they can muster.

But democratic forces are more prepared than ever to take them on.
There is every reason to believe that the California ballot will be one of the defining political battles of the U.S. midterm elections.
If the measure passes, California's billionaire tax could quickly inspire similar initiatives in states such as New York, Washington, and Massachusetts.
In time, this process could very well lead to the creation of a federal tax on extreme wealth.
That's precisely what happened more than a century ago with the progressive income tax, which first emerged at the state level before being adopted by the federal government in 1913.

With a sufficiently large coalition of states - or, better yet, a federal tax - nothing would stand in the way of moving from a one-time levy to an annual tax on the largest fortunes, since wealthy Americans would not be able to escape taxation simply by moving to another state.

In 1978, California stood at the forefront of the anti-tax revolt by passing the famous Proposition 13, which capped property taxes and foreshadowed the conservative revolution that swept across the United States a few years later.

Nearly half a century later, history may be repeating itself - but in reverse.
California is now emerging as the front line in the fight for global tax justice. The November 3 vote could mark the beginning of a worldwide movement to end the tax impunity of the ultra-rich.