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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Pode HAARP provocar terramotos? Verdade por trás do boato que surge após cada desastre natural


Sempre que ocorre um grande desastre natural, o termo HAARP volta a ser tendência nas redes sociais. Já aconteceu depois de terramotos, furacões, inundações ou incêndios florestais. Os recentes sismos registados na Venezuela não foram exceção.

Em plataformas como a X circularam mensagens que afirmavam, sem provas, que os Estados Unidos teriam usado o projeto HAARP para provocar os terramotos. Vários meios especializados em verificação desmentiram estas afirmações e lembram que não existe evidência científica que as sustente.

O que é afinal o projeto HAARP
HAARP é o acrónimo de High-frequency Active Auroral Research Program (Programa de Investigação de Aurora Ativa de Alta Frequência). Trata-se de uma instalação científica situada no Alasca cujo objetivo é estudar a ionosfera, uma camada da atmosfera terrestre localizada entre cerca de 60 e mais de 500 quilómetros de altitude.

Segundo explica a própria entidade, utiliza ondas de rádio de alta frequência para gerar pequenas perturbações controladas nessa região da atmosfera e compreender melhor fenómenos que afetam as comunicações por rádio, a navegação por satélite e outros sistemas tecnológicos. Entre 1993 e 2014 foi gerida pela Força Aérea e pela Marinha dos Estados Unidos e, desde 2015, pertence à Universidade do Alasca Fairbanks.

A instalação sublinha ainda que as suas experiências são públicas e que a investigação está centrada exclusivamente no estudo da ionosfera.

Porque é associado a terramotos e outros desastres
Apesar de o programa ter uma finalidade científica, há anos que o HAARP é alvo de numerosas teorias da conspiração.

Em diferentes momentos foi-lhe atribuída falsamente a capacidade de provocar terramotos, furacões, inundações, incêndios florestais ou até controlar o clima. Após a DANA que assolou a Comunidade Valenciana em outubro de 2024, por exemplo, voltaram a circular nas redes sociais mensagens que garantiam, sem provas, que a catástrofe tinha sido provocada pelo HAARP.

Uma investigação da equipa de verificação da Euronews documentou como estas teorias da conspiração se propagaram em diferentes idiomas e desmontou várias das afirmações que se tornaram virais.

Narrativas semelhantes também reapareceram após os terramotos em Marrocos e na Birmânia ou depois do furacão Milton nos Estados Unidos. Após os terramotos na Venezuela, voltaram a difundir-se publicações que afirmavam que os Estados Unidos tinham utilizado o HAARP para danificar infraestruturas do país ou provocar os sismos. Mas trata-se de um boato sem base científica.

Pode o HAARP provocar terramotos ou controlar o clima
A resposta, segundo os responsáveis pelo projeto e a comunidade científica, é negativa.

No seu apartado de perguntas frequentes, o HAARP salienta que as ondas de rádio que utiliza interagem apenas com a ionosfera e não com a troposfera nem com a estratosfera, as camadas inferiores onde se desenvolve o tempo atmosférico. Por isso, garante que não tem capacidade para modificar o clima.

Os investigadores acrescentam que o HAARP também não pode provocar nem intensificar fenómenos naturais como terramotos, furacões ou inundações. Os sinais emitidos pelo HAARP destinam-se a estudar processos físicos na atmosfera superior e não têm capacidade para alterar a crosta terrestre nem os processos geológicos responsáveis pelos sismos.

Os verificadores que analisaram as mensagens difundidas após o terramoto na Venezuela recordam ainda que não existe nenhuma evidência científica que relacione o HAARP com a atividade sísmica.

Teoria da conspiração que ressurgue após cada grande desastre
O caso da Venezuela segue um padrão habitual na desinformação sobre fenómenos naturais. Sempre que ocorre um terramoto ou um episódio meteorológico extremo, voltam a surgir publicações que atribuem o fenómeno a tecnologias secretas ou a alegadas armas climáticas, apesar de não existir evidência científica que sustente essas afirmações.

O HAARP tem sido um dos protagonistas recorrentes dessas narrativas. As autoridades do projeto insistem que o HAARP tem uma finalidade exclusivamente científica: estudar a ionosfera para melhorar o conhecimento sobre as comunicações e o denominado 'clima espacial', um conceito distinto do clima terrestre. Segundo os responsáveis, a instalação não tem capacidade para controlar o clima nem para provocar terramotos.

terça-feira, 31 de março de 2026

O pior país do mundo


Por Paulo Nogueira Batista Jr *
Preparem-se para um artigo violento. A nossa paciência esgota-se e, com ela, desaparece também a capacidade de medir palavras e fazer as devidas ressalvas. Para determinados assuntos, pelo menos. Qual é o pior país do mundo? A concorrência é forte. Temos, por exemplo, a Inglaterra e a Holanda. Ao longo da vida, tive a oportunidade de conhecer vários ingleses e holandeses. E devo dizer: poucos se salvam. Os ingleses, nem se fala, estão na origem de grande parte dos males que enfrentamos no mundo. Os holandeses, menores, menos conhecidos nas suas abjeções, destacam-se pela antipatia e preconceitos contra estrangeiros. Deram bastante liberdade aos judeus em tempos remotos, é verdade, mas figuraram entre os principais e entusiásticos colaboradores dos nazis na perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Em contraste com os dinamarqueses, que resistiram obstinadamente, como relatou Hannah Arendt no seu célebre livro Eichmann em Jerusalém. Cerca de ¾ dos judeus que viviam na Holanda foram assassinados! Já a história dos judeus dinamarqueses é sui generis, conta Arendt. A resistência dos dinamarqueses à perseguição dos judeus foi única entre todos os países da Europa, fossem países ocupados, aliados de Hitler ou verdadeiramente neutros e independentes. Ninguém se igualou à Dinamarca.

Estou a desviar-me um pouco do assunto, porém. Não era da Holanda ou da Dinamarca que queria falar, países pequenos e irrelevantes para o quadro mundial. Retomo o tema principal. Seriam os Estados Unidos o pior país do mundo? Há muitos motivos para pensar assim; eu próprio morei oito longos anos em Washington e sei como os americanos podem ser desagradáveis e até detestáveis. Muito mais importante: o Império americano tem uma longa lista de crimes e agressões contra outros países. Os seus últimos feitos foram o ataque à Venezuela e a intensificação do embargo criminoso contra Cuba, além da agressão ao Irão.

Mas ninguém consegue superar o estado genocida e terrorista de Israel. Um alerta meio óbvio: vou falar aqui do estado de Israel (que nunca deveria ter sido criado) e do projeto sionista que levou à sua criação – e não propriamente do povo judeu ou dos judeus em geral. Note-se, entretanto, que as políticas do governo de Israel são apoiadas pela maioria dos judeus israelitas, em especial a agressão ao Irão e a oposição à criação de um Estado palestiniano. Essas políticas são apoiadas também pela maioria das comunidades sionistas em outros países, inclusive aqui no Brasil e – mais importante – nos Estados Unidos.

O lobby sionista nos Estados Unidos
O cientista político americano John Mearsheimer, em coautoria com Stephen Walt, escreveu um importante livro, publicado em 2007, sobre o que ele denomina de “Israel lobby”, cuja influência decisiva nos Estados Unidos, notadamente em Nova Iorque e Washington, acaba por subordinar a política externa dos Estados Unidos – um caso clássico do rabo a abanar o cão. Um país pequeno, com 10 milhões de habitantes, dita as regras à superpotência, os Estados Unidos, contribuindo para acentuar a sua delinquência. A mais recente demonstração da força desse lobby foi precisamente o ataque ao Irão. Os Estados Unidos acabaram por se envolver numa guerra para servir não os próprios interesses, mas os de um país estrangeiro, como denunciou Joseph Kent ao renunciar ao cargo de diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, para o qual foi nomeado pelo próprio Donald Trump.

Os judeus sionistas financiam campanhas sórdidas, corrompem, elegem e controlam políticos para a Presidência e o Congresso, controlam grande parte da comunicação social, são donos de bancos e outras instituições financeiras privadas e têm forte influência em Hollywood e na indústria da pornografia. Mandam e desmandam. Beneficiam os seus serviçais e ameaçam, chantageiam e punem os seus críticos. Jeffrey Epstein, não por acaso, era judeu. Esses sionistas são todos eles criminosos, apoiantes de assassinos de crianças palestinianas, iranianas e de outros países. E assassinar crianças é o crime mais grave que se pode cometer. Nos Estilhaços, o meu livro mais recente, cheguei a escrever que o sofrimento das crianças não só desmente a existência de Deus, como prova a do Diabo. E quem representa o Diabo na Terra hoje? Quem melhor que Israel e os seus apoiantes no resto do mundo?

O lobby israelita faz parte, na verdade, de algo maior e mais desastroso para os Estados Unidos – a subordinação das políticas públicas a bilionários e lobbies privados – entre os quais figuram também as big techs (gigantes da tecnologia), o complexo industrial-militar (que ganha com todas as guerras), o lobby cubano (focado em boicotar Cuba), o lobby pró-armas, o lobby financeiro (que se sobrepõe em grande parte ao israelita), entre outros. Não há democracia, mas plutocracia – o governo dos ricos. E cleptocracia – o governo dos ladrões. E, também, kakistocracia – o governo dos piores. Não é o que se vê, diga-se de passagem, na Rússia e na China.

Génios e mediocridades judaicas
Os judeus têm, desde tempos remotos, forte presença nos meios financeiros privados – em bancos e demais instituições financeiras. Sabem ganhar dinheiro. Mas isso não quer dizer grande coisa. Muitos ditos “génios financeiros” não passam em geral de figuras bizarras. A dedicação a assuntos financeiros parece levar inexoravelmente a uma perda continuada de massa cerebral e criatividade, além de solapar valores éticos.

Bem. Uma das singularidades do povo judeu é a mistura de génios, verdadeiros génios, com uma massa criminosa e/ou medíocre. Entre os génios, podemos recordar Karl Marx, Gustav Mahler, Sigmund Freud, Franz Kafka e Albert Einstein. A própria Hannah Arendt foi, não diria genial, mas certamente uma intelectual de enorme destaque. E entre economistas judeus americanos de projeção hoje em dia podemos mencionar Joseph Stiglitz, Paul Krugman e Jeffrey Sachs (nenhum deles sionista). Para mim, entretanto, o judeu mais importante de todos foi Heinrich Heine, um poeta alemão da primeira metade do século XIX, que figura com destaque nos Estilhaços e por quem tenho verdadeira paixão desde os meus 22 anos.

Por outro lado, a galeria de mediocridades judaicas é extensa. Dou alguns exemplos ao acaso. Aqui no Brasil temos Celso Lafer, discípulo fervoroso e acrítico de Hannah Arendt, e ministro das Relações Exteriores no governo Fernando Henrique Cardoso, o mais limitado que já comandou o Itamaraty (superado apenas por Ernesto Araújo, nomeado por Bolsonaro). Outro exemplo, este da área financeira brasileira: Luís Stuhlberger. Até recentemente, eu nunca ouvira falar dele. Sinal alarmante de ignorância financeira, pois ele é um destacado e respeitado judeu, que integra as hostes da Faria Lima. Não merece respeito, porém. Vejam a entrevista que ele deu ao jornal Valor (publicada a 30 de maio de 2025, p. C3), um verdadeiro festival de asneiras políticas, económicas e culturais, inclusive na linguagem salpicada de termos ingleses para os quais há palavras rigorosamente equivalentes na nossa língua.

Mas vamos voltar aos Estados Unidos. Como mencionei, os judeus têm, historicamente, forte presença no setor financeiro privado – em bancos, fundos de investimento e outras instituições financeiras. Menos conhecida é a presença desse lobby no setor financeiro público, especialmente nos Estados Unidos. No FMI, por exemplo, onde trabalhei durante oito anos, todos ou quase todos os representantes do governo americano na Administração e na Direção eram judeus americanos (alguns bem inteligentes). Mais importante: o lobby domina também o Tesouro dos EUA (o ministério das finanças deles). Nas décadas recentes, a maioria dos Secretários do Tesouro dos EUA foram também judeus americanos. A “comunidade” marca presença. É o Tesouro quem dita as regras no FMI, no Banco Mundial e no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), entidades financeiras sediadas em Washington. Não é por acaso, por exemplo, que uma mediocridade brasileira, o judeu Ilan Goldfayn, foi alçado à presidência do BID. Ele está lá para cumprir as ordens do Tesouro americano, leia-se, do lobby sionista.

A reação do Irão
Não vale a pena, entretanto, gastar pólvora com fracos. O que importa são as barbaridades que o estado terrorista de Israel está a cometer em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano e, agora, com o ataque ao Irão. Não se deve perder de vista que a guerra foi iniciada por Israel. Os Estados Unidos acompanharam a agressão. O Irão já provou que não é nenhum país indefeso. Pelo contrário, está a castigar Israel com uma chuva de mísseis balísticos e drones, que atingem Telavive e Haifa, entre outros locais. As indicações são de que a economia israelita está a ser arruinada. E os israelitas estão a provar do próprio veneno. Israel desencadeou uma guerra regional, com consequências económicas, sociais e políticas para o mundo inteiro. Esse país criminoso precisa de ser travado. Vida longa ao Irão e ao grande povo iraniano! Que não lhes falte munição, mísseis e drones para deter Israel e outros inimigos da humanidade!

*Economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Lançou no final de 2019, pela editora LeYa, o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata. A segunda edição, atualizada e ampliada, foi publicada em 2021.

Ler mais aqui
Trump's Magical Thinking

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Belgrado - Jeszcze Raz


Jeszcze Raz
Belgrado

Może kiedy wyjdziesz na ulicę, może kiedy wyjdziesz na ulicę
Jeszcze raz
Może będzie inaczej jeśli spojrzysz na wszystko jeszcze raz
Nie mów nic do mnie tylko popatrz na wszystko jeszcze raz
Zero kontaktu

Jeszcze raz
Nie mów nic do mnie tylko popatrz na wszystko jeszcze raz
Nie ma rady na milczenie, nie ma rady na milczenie

Jeszcze raz
Może będzie inaczej jeśli spojrzysz na wszystko jeszcze raz
Nie mów nic do mnie tylko popatrz na wszystko jeszcze raz
Zero kontaktu

Jeszcze raz
Nie mów nic do mnie tylko popatrz na wszystko jeszcze raz
Rozejrzyj się
Zastanów się

Tradução
Mais uma vez
Jeszcze Raz

Talvez quando você sair na rua, talvez quando você sair para a rua
Mais uma vez
Talvez seja diferente se você olhar tudo de novo
Não diga nada para mim, basta olhar para tudo de novo
Contato zero

Mais uma vez
Não diga nada para mim, basta olhar para tudo de novo
Ele não pode ficar em silêncio, ele não pode ficar em silêncio

Mais uma vez
Talvez seja diferente se você olhar tudo de novo
Não diga nada para mim, basta olhar para tudo de novo
Contato zero

Mais uma vez
Não diga nada para mim, basta olhar para tudo de novo
Olhar ao redor
Pense nisso

A música 'Jeszcze Raz' da banda Belgrado é uma reflexão profunda sobre a necessidade de revisitar e reavaliar nossas percepções e ações. A repetição da frase 'jeszcze raz', que significa 'mais uma vez' em polaco, sugere uma insistência em olhar para as coisas sob uma nova perspectiva. A letra convida o ouvinte a sair para a rua e observar tudo novamente, como se a primeira visão não fosse suficiente para compreender a realidade em sua totalidade.

A canção também aborda o tema do silêncio e da falta de comunicação, como evidenciado nas linhas 'Nie mów nic do mnie tylko popatrz na wszystko jeszcze raz' ('Não diga nada para mim, apenas olhe para tudo mais uma vez') e 'Zero kontaktu' ('Zero contato'). Esse silêncio pode ser interpretado como uma barreira emocional ou uma desconexão entre as pessoas, sugerindo que, às vezes, as palavras não são necessárias para entender o que está acontecendo ao nosso redor. Em vez disso, a observação e a reflexão silenciosa podem ser mais reveladoras.

Belgrado, uma banda conhecida por seu estilo pós-punk, utiliza uma abordagem minimalista tanto na música quanto na letra para transmitir uma mensagem poderosa. A repetição e a simplicidade das palavras criam uma atmosfera introspectiva, incentivando o ouvinte a parar e pensar sobre suas próprias experiências e percepções. A música é um convite à introspecção e à reconsideração, sugerindo que, ao olhar para as coisas mais uma vez, podemos encontrar novas respostas e entendimentos.

sábado, 17 de janeiro de 2026

A petromoralidade de Trump



Em 1953, a Inglaterra e os Estados Unidos da América coordenam esforços para depor o governo democrático do Irão. Até há pouco tempo, a CIA e o MI6 negaram ter promovido um plano para derrubar o primeiro-ministro eleito, Mohammed Mossadegh, até que, em 2013, um relatório publicado pela CIA admitiu a manipulação da imprensa, as operações de propaganda e o financiamento de protestos contra o governo, reconhecendo a autoria do golpe.

A monarquia apoiada pelo Ocidente converteu-se numa ditadura brutal. A recente nacionalização do petróleo, motivo não assumido para o golpe de Estado, foi revertida a favor de empresas britânicas, norte-americanas, holandesas e francesas. Durante 38 anos, os iranianos sofreram as brutas consequências da intervenção imperialista. O profundo ressentimento popular aberto por essas décadas de repressão e exploração pavimentaram o caminho para a Revolução de 1979 e a instauração de um regime teocrático e violento, contra o qual o povo iraniano agora resiste corajosamente nas ruas.

Independentemente das coordenadas ideológicas de cada um, não acredito que exista um historiador ou analista intelectualmente honesto que não estabeleça um nexo de causalidade entre a intervenção externa motivada pelo controlo de petróleo e a ascensão do regime repressivo liderado por Ali Kahmenei. Da mesma forma, ninguém nega as verdadeiras motivações que levaram à destruição do Iraque, deixando um rasto de guerra e morte, milhões de refugiados e a ascensão do DAESH.

Tanto esforço dedicado à mentira, encobrimento e malabarismos morais para afinal acabarmos aqui. Séculos de doutrina da “guerra justa” arduamente pensada por filósofos, historiadores, teólogos, militares, glosadores e intelectuais, tudo arrasado numa frase digna do absolutismo mais raso, não de um príncipe, mas de um canalha: “os limites da guerra são os limites da minha moral”, ou seja, nenhuns.

Trump não precisou de uma tese hipócrita e mentirosa para justificar a operação militar especial e a ocupação (do poder) na Venezuela, não precisou de autorização do Congresso nem de fingir respeito pelo direito internacional. Bastou-lhe a legitimidade conferida pelas poderosas petrolíferas norte-americanas e o seu vazio ético e moral.

É tudo assustador, mas será suficiente para demolir um edifício normativo internacional fundado no século XVII e edificado depois de duas guerras mundiais, cem milhões de mortos e mais do que um genocídio? Não, isto não é trabalho para um homem só.

O resto, o bocado que falta, está a ser-lhe servido na bandeja da quieta complacência europeia e da terna cumplicidade dos que exclamam “as pessoas falam do petróleo como se isso fosse uma razão menos digna para uma intervenção”.

Não celebro o fim da hipocrisia, acho que havia nela uma réstia de ilusão sobre um mundo em que os pequenos conseguem proteger-se contra os desvarios dos grandes. Está na moda teorizar sobre o interesse nacional, reduzindo-o à legitimidade de pilhar os vencidos. Até admito que nos EUA essa tese seja “natural”, o que me espanta é a síndrome de Estocolmo em países periféricos e mínimos mas com 1,7 milhões de km² de águas marítimas e uma plataforma continental que pode chegar a 4 milhões de km².

Em nenhuma circunstância Portugal teria a possibilidade de garantir militarmente a sua soberania no Atlântico, o que inclui os Açores. Será assim tão difícil compreender que é do interesse de Portugal e da maioria dos estados (que não são superpotências) alinhar pela defesa do direito internacional e do respeito pela soberania?

Enquanto escrevo, tropas alemãs, norueguesas, suecas e dinamarquesas são simbolicamente desembarcadas para “defender” a Gronelândia dos apetites vorazes do sr. Trump. Mas há em Portugal quem ache que o nosso destino é escolher um dos líderes imperiais autoritários para ser o “nosso líder autoritário”. Sonham com o império e aceitam patrioticamente converter-se em pequeno jardineiro do seu quintal… que patético “interesse nacional”.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Carbofascismo

Um odor pútrido emana das margens do Lago Maracaibo, no oeste da Venezuela, uma região pontilhada por plataformas petrolíferas.

O que é “carbofascismo”?
Carbofascismo é um termo teórico usado para descrever uma tendência político‑ideológica que combina negação das crises ecológicas, defesa irrestrita de combustíveis fósseis e respostas autoritárias à política ambiental, refletindo um tipo de reação de direita que protege interesses carboníferos e a fossilização política da sociedade em detrimento de democracia ecológica ou justiça climática. Em outras palavras, ele denuncia uma visão política que prioriza a expansão contínua do uso de carbono fóssil (petróleo, carvão, gás) mesmo quando isso ameaça ecossistemas, sociedades e direitos humanos.

O termo é usado em pesquisas críticas sobre as conexões entre dependência de combustíveis fósseis, políticas autoritárias e resistência à transição ecológica. Não se refere a um partido ou movimento claramente definido historicamente, mas a um padrão ideológico observável em certas respostas políticas às crises climáticas e ecológicas.

Quem e quando foi cunhado?
O conceito de carbofascismo foi proposto pelo historiador ambiental Jean‑Baptiste Fressoz, segundo estudos posteriores de outros pesquisadores.

Jean‑Baptiste Fressoz é um historiador ambiental francês que aparece como a pessoa que coincidentemente introduziu o termo (ou pelo menos sua forma teórica original) para descrever essa combinação de negacionismo climático, defesa de combustíveis fósseis e elementos autoritários de governo e política.

O ensaio de Antoine Acker intitulado What Could Carbofascism Look Like? (Que aspecto o carbofascismo poderia ter?) expõe e discute este conceito a partir de uma perspectiva histórica e crítica, indicando que o termo foi cozinhado no debate académico sobre crise climática e política autoritária no contexto da pandemia de COVID‑19 e das respostas políticas globais.

Ou seja: não é um termo histórico clássico como “fascismo” (inventado nos anos 1910), mas sim um neologismo relativamente recente no debate académico, especialmente na historiografia ambiental crítica da última década.

Contexto de uso
O carbofascismo aparece em análises críticas de políticas públicas, movimentos sociais e respostas governamentais à crise climática, frequentemente ligadas ao estudo de como interesses econômicos fósseis influenciam e moldam democracias para preservar combustíveis sujos e bloquear medidas ambientais urgentes.

Isso é diferente, por exemplo, de ecofascismo — outro neologismo na crítica política — que costuma focar em extrema direita que usa a ecologia como pretexto para políticas autoritárias ou racistas, enquanto o termo carbofascismo enfatiza a defesa de combustíveis fósseis e a resposta política autoritária à crise climática.

Resumo rápido
Definição: ideologia política crítica que conecta defesa de combustíveis fósseis, negação de crises ecológicas e tendências autoritárias.

Origem do termo: cunhado no debate académico contemporâneo, ligado ao historiador ambiental Jean‑Baptiste Fressoz e analisado em ensaios como o de Antoine Acker.

Quando surgiu: no debate ecológico e político das últimas décadas (especialmente na era COVID‑19 e da intensificação do debate climático), portanto é um neologismo recente.

Fontes:

domingo, 11 de janeiro de 2026

Ataque directo: Trump reverte avanços na acção climática nos primeiros 10 dias de 2026



Passados apenas 10 dias de 2026, Donald Trump já lançou uma série de ataques sucessivos ao clima.

A administração dos EUA tem vindo a afastar-se gradualmente de reconhecer o seu envolvimento na crise climática ou de a enfrentar, apesar de ser o segundo maior emissor anual de gases com efeito de estufa e, historicamente, o maior contribuinte para o aquecimento global.

No ano passado, os EUA não enviaram qualquer delegação às negociações da COP30 e, desde então, apagaram todas as referências a combustíveis fósseis do site da sua Agência de Proteção Ambiental. Entretanto, Trump tem criticado o boom das energias renováveis e levado a sua atitude "drill baby drill" ao plano global.

Eis um resumo do que o Presidente dos EUA fez até agora, com menos de duas semanas de 2026.

EUA retiram-se de tratado climático da ONU

Esta semana, o Presidente foi acusado de "descer a um novo mínimo" depois de retirar os EUA de um tratado climático crucial numa retirada abrangente das instituições globais.

Num Memorando Presidencial assinado a 7 de janeiro, Trump argumentou ser "contrário aos interesses dos EUA" permanecer membro, participar ou prestar apoio a mais de 60 organizações, tratados e convenções internacionais.

Isto inclui a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC), que visa estabilizar as emissões de gases com efeito de estufa, e o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), a principal autoridade mundial em ciência do clima.

"Numa altura em que a subida do nível do mar, o calor recorde e desastres mortais exigem ação urgente e coordenada, o governo dos EUA escolhe recuar", afirma Rebecca Brown, presidente e CEO do Center for International Environmental Law (CIEL).

"A decisão de retirar financiamento e sair da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC) não absolve os EUA das suas obrigações legais de prevenir as alterações climáticas e reparar os danos climáticos, como o mais alto tribunal do mundo deixou claro no ano passado".

Venezuela: controlo do petróleo
Após forças especiais dos EUA terem capturado o Presidente da Venezuela e a sua mulher numa operação relâmpago, Trump mostrou claro interesse nas reservas de petróleo.

A Venezuela detém as maiores reservas provadas de petróleo bruto do mundo, estimadas em 303 mil milhões de barris (Bbbl), superando petroestados como a Arábia Saudita e o Irão.

Trump confirmou de imediato que os EUA estariam "muito fortemente envolvidos" na indústria petrolífera do país, com planos para enviar grandes empresas norte-americanas para reparar a infraestrutura petrolífera da Venezuela e "começar a fazer dinheiro para o país". Numa entrevista a 8 de janeiro, disse que os EUA poderiam explorar as reservas de petróleo da Venezuela durante anos.

"Numa era de agravamento acelerado da crise climática, cobiçar as vastas reservas de petróleo da Venezuela desta forma é simultaneamente imprudente e perigoso", diz Mads Christensen, da Greenpeace International.

"O único caminho seguro passa por uma transição justa longe dos combustíveis fósseis, que proteja a saúde, salvaguarde os ecossistemas e apoie as comunidades, em vez de as sacrificar por lucros de curto prazo".

Novas orientações alimentares
Os Departamentos de Saúde e Serviços Humanos e da Agricultura dos EUA foram alvo de críticas após publicarem as orientações alimentares de 2026, que incentivam as famílias norte-americanas a privilegiarem dietas assentes em "alimentos integrais e densos em nutrientes".

A nova pirâmide alimentar coloca uma imagem de um bife de vaca e carne de vaca picada no topo, na secção "proteína", apesar de a carne de vaca ser responsável por emissões de gases com efeito de estufa 20 vezes superiores por grama de proteína do que alternativas de base vegetal, como feijões e lentilhas.

Nenhum destes alimentos surge na pirâmide alimentar, mas ambos são referidos nas orientações completas.

"Embora existam muitas formas de satisfazer as nossas necessidades de proteína, nem todas as fontes de proteína têm o mesmo impacto nas pessoas ou no planeta", afirma Raychel Santo, investigadora de alimentação e clima no World Resources Institute (WRI).

"A carne de vaca e o borrego, em particular, têm alguns dos custos ambientais mais elevados entre os alimentos ricos em proteína, com emissões de gases com efeito de estufa, uso do solo e poluição da água significativamente superiores por onça de proteína face à maioria das alternativas".

Bloqueio de Trump às renováveis
No ano passado, a administração Trump suspendeu concessões em todos os projetos eólicos offshore nos EUA, invocando preocupações de segurança nacional. A medida travou trabalhos em cinco locais, incluindo os parques Revolution Wind e Sunrise Wind da Ørsted, bem como áreas de empresas como a Equinor e a Dominion Energy.

Segue-se à crítica constante de Trump às energias renováveis, que já descreveu como a "burla do século". Mas a decisão teve consequências dispendiosas que transitaram para o novo ano.

Na semana passada, Ørsted apresentou uma ação judicial contra a suspensão do governo dos EUA, argumentando que já tinha obtido todas as licenças federais e estaduais exigidas em 2023. O seu projeto Sunrise Wind deverá custar ao promotor mais de 1 milhão de dólares por dia (cerca de 859 100 euros).

O Departamento do Interior afirmou, em dezembro, que a pausa daria ao governo "tempo para trabalhar com concessionários e parceiros estaduais na avaliação da possibilidade de mitigar os riscos de segurança nacional colocados por estes projetos".

Interesse de Trump na Gronelândia
A obsessão crescente de Trump com a Gronelândia suscitou preocupações entre ambientalistas relativamente aos seus recursos minerais críticos, vistos como "essenciais" para a transição para a energia verde.

Um levantamento de 2023 concluiu que 25 dos 34 minerais considerados "matérias-primas críticas" pela Comissão Europeia foram encontrados na Gronelândia. Estima-se que o território detenha entre 36 e 42 milhões de toneladas métricas de óxidos de terras raras, o que o torna a segunda maior reserva depois da China.

Explorar estes recursos poderia ajudar os EUA a reduzir a dependência da China, que atualmente processa mais de 90 por cento dos minerais de terras raras do mundo, e reforçar a posição dos EUA à medida que a procura aumenta.

Desde o primeiro mandato, Trump tem procurado responder a este tema, aprovando leis para aumentar a produção mineral norte-americana e intensificando a mineração em mar profundo, tanto em águas dos EUA como em águas internacionais.

No entanto, alguns especialistas acreditam que as reservas minerais da Gronelândia podem ser apenas uma cortina de fumo para os verdadeiros motivos de Trump.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Três Contratenores no Palácio de Versailles


Baroque recital: Concours de virtuosité des castrati

00:00:00 - Ouverture - Vespasiano | Ariosti 
00:04:51 - Sagace è la mano | Hasse 
00:10:47 - Lascia la spina | Handel 
00:17:25 - Tra le procelle assorto | Graun 
00:24:25 - Se il mio amor fu il tuo delitto | Handel 
00:30:15 - La gioia immortal | Porpora 
00:35:14 - Arrival of the Queen of Sheba | Handel 
00:38:28 - Crude furie degli orridi abissi | Handel 
00:42:19 - Alto Giove | Porpora 
00:53:24 - Vo solcando un mar crudele | Vinci 
01:01:12 - Temi lo sdegno mio | Porpora 
01:06:17 - Sound the trumpet | Purcell 
01:09:17 - Pur ti miro | Monteverdi

Filippo Mineccia | Alto
Samuel Mariño | Soprano
Valer Sabadus | Mezzo-soprano

Orchestre de l'Opéra Royal
Conducted by Stefan Plewniak

Os castrati foram as primeiras "estrelas" da história da música. Cantavam frequentemente o papel principal (e, em Roma, todos os papéis femininos nas óperas), criando uma verdadeira competição de virtuosismo e emoção em palco entre os cantores, com o público a fazer de árbitro através dos seus pedidos de encore. E se três dos melhores intérpretes do nosso tempo participassem nesta Competição de Virtuosismo? Apresentamos Valer Sabadus (Arad, 1986), Filippo Mineccia (Florença, 1981) e Samuel Mariño (Caracas, 1993). Árias virtuosas, duetos de amor e trios combativos trouxeram o triunfo aos castrati: cabe a cada ouvinte encontrar o seu próprio campeão!

Saber mais:

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

FIFA cria (grande) prémio sobre a paz e o primeiro vencedor é Donald Trump



Presidente dos Estados Unidos recebe prémio que vai passar a ser atribuído a "indivíduos que tenham feito ações extraordinárias e excecionais pela paz"

Não é um Prémio Nobel da Paz, mas é o mais perto disso. A FIFA atribuiu ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, um prémio relacionado com a paz, que se chama FIFA Peace Prize (Prémio FIFA da Paz).

Após a divulgação de um vídeo em que exaltam a procura da paz por parte do presidente norte-americano, lembrando os acordos alcançados, nomeadamente na Faixa de Gaza, o organismo que gere o futebol mundial quis congratular oficialmente Donald Trump.

Trata-se de um prémio em ouro, com várias mãos a tocarem uma bola que as encima. Um prémio grande em tamanho e que é também acompanhado por uma medalha, além de um certificado em que constam as razões para a atribuição deste prémio.

De acordo com Gianni Infantino, que gere a FIFA e tem estreitado laços com Donald Trump, este é um prémio que passará a ser entregue a "indivíduos que tenham feito ações extraordinárias e excecionais pela paz".

Donald Trump, que subiu rapidamente a palco para receber aquilo que confirmou ser uma das suas maiores honras, destacou os esforços feitos para acabar com vários conflitos. "Esta é realmente uma das maiores honras da minha vida. [Há] tantas guerras que conseguimos acabar, em alguns casos até antes de começarem, mesmo antes de começarem", apontou, referindo-se nomeadamente a um possível conflito entre Paquistão e Irão.

De recordar que o presidente norte-americano tinha dito mesmo antes da atribuição do Nobel da Paz, que acabou por ir parar à venezuelana Maria Corina Machado, que tinha conseguido acabar com sete guerras, o que é comprovadamente falso, como pode confirmar neste artigo da CNN Portugal.

"Salvámos milhões de vidas: no Congo, por exemplo, morreram 10 milhões de pessoas. Também com a Índia e o Paquistão, impedimos que as guerras acontecessem mesmo antes de começarem", reiterou, referindo-se à República Democrática do Congo.

"Gianni [Infantino] fez um trabalho incrível, estabeleceu um novo recorde de vendas de bilhetes. É uma bela homenagem a si e ao jogo de futebol, ou como lhe chamamos futebol. Os números ultrapassam tudo o que pensávamos ser possível", culminou.

terça-feira, 5 de março de 2024

Le concours des castrats: Arias with Mineccia, Mariño and Sabadus


Baroque recital: Concours de virtuosité des castrati 

00:00:00 - Ouverture - Vespasiano | Ariosti 
00:04:51 - Sagace è la mano | Hasse 
00:10:47 - Lascia la spina | Handel 
00:17:25 - Tra le procelle assorto | Graun 
00:24:25 - Se il mio amor fu il tuo delitto | Handel 
00:30:15 - La gioia immortal | Porpora 
00:35:14 - Arrival of the Queen of Sheba | Handel 
00:38:28 - Crude furie degli orridi abissi | Handel 
00:42:19 - Alto Giove | Porpora 
00:53:24 - Vo solcando un mar crudele | Vinci 
01:01:12 - Temi lo sdegno mio | Porpora 
01:06:17 - Sound the trumpet | Purcell 
01:09:17 - Pur ti miro | Monteverdi 

Filippo Mineccia | Alto 
Samuel Mariño | Soprano 
Valer Sabadus | Mezzo-soprano 
Orchestre de l'Opéra Royal 
Conducted by Stefan Plewniak

sábado, 20 de janeiro de 2024

Não há liberdade religiosa num terço dos países do mundo


O relatório sobre liberdade religiosa no mundo de 2023 indica que, em cerca de um terço dos países do mundo, não há liberdade religiosa ou há uma violação, revelou hoje a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (FAIS).
"Dos 196 países analisados, em 61 há restrições à liberdade religiosa. Este relatório mostra-nos que em cerca de um terço dos países do mundo não há liberdade religiosa ou há uma violação da liberdade religiosa", destacou a diretora em Portugal da FAIS.
A Fundação Ajuda à Igreja que Sofre apresenta na tarde de sábado, no Seminário Maior de Coimbra, o Relatório da Liberdade Religiosa no Mundo 2023, um documento que costumam publicar de dois em dois anos.
Em declarações à agência Lusa, Catarina Martins de Bettencourt explicou que o documento analisou "todas as religiões em 196 países do mundo, na perspetiva da liberdade religiosa"."Outra conclusão muito importante deste relatório é que cerca de 62% da população mundial vive nestes 61 países, onde não há efetivamente liberdade religiosa", constatou.
Os países onde há ausência de liberdade religiosa situam-se "em África, Meio Oriente e Ásia" e, pela primeira vez, o relatório menciona o continente americano, "por causa da situação que se vive em Cuba, Venezuela e também na Nicarágua".
Segundo a diretora em Portugal da FAIS, o relatório distingue os países onde se verifica discriminação religiosa e os países onde há perseguição, com pessoas a serem presas ou mortas com base na sua fé.
"No caso da perseguição com base na religião, temos países como a Índia, Paquistão, Afeganistão, China, Arábia Saudita e Irão, no continente asiático. Se olharmos para a África, há perseguição em países como a Nigéria, Mali, Sudão, República Democrática do Congo e no norte de Moçambique", referiu.
Questionada sobre a realidade na Europa, Catarina Martins de Bettencourt evidenciou que no relatório não constam países da Europa, apesar de já existirem "alguns sinais de preocupação".
"Há, às vezes, alguma discriminação e a profanação de alguns símbolos religiosos no continente europeu. Mas, na nossa análise e tendo em conta toda a gravidade do que se vive no resto do mundo, nós consideramos que a Europa ainda é um continente onde há relativa liberdade religiosa", apontou.
No caso de Portugal, considerou que é um país onde se pode exercer livremente a fé, independentemente de qual seja.
"A realidade no mundo é diferente. Há muitas pessoas que, infelizmente, vivem em países onde não há essa possibilidade de viver livremente a sua fé. Há pessoas que são discriminadas em termos de acesso à educação, acesso à saúde, acesso ao mercado de trabalho, só porque são de determinada religião", sustentou.
À Lusa, Catarina Martins de Bettencourt frisou ainda a importância deste relatório, que pretendem apresentar em todas as dioceses do país, por pretender provocar uma reflexão.
"Descrevemos algumas situações que foram acontecendo, ao longo desse ano, e que precisamos refletir. Gostaríamos que os nossos governos olhassem para este relatório e para as suas conclusões e, de alguma forma, também tomassem medidas que evitem esta escalada", alertou.
O relatório aponta também no sentido da "importância da educação", inclusive em contexto escolar.
"É muito importante educarmos as crianças desde pequenas, no sentido de perceberem o que é que é cada religião, as diferenças entre todas as religiões e ensiná-las no sentido da tolerância. Ensinar a não discriminar ninguém, a não perseguir ninguém, apenas porque é de uma religião ou de outra", concluiu.

terça-feira, 21 de novembro de 2023

History: Adolph Hitler Was Financed by Wall Street, the U.S. Federal Reserve and the Bank of England



Wall Street creditors are the main actors.

They were firmly behind Nazi Germany. They financed Operation Barbarossa and the invasion of the Soviet Union in 1941.
1932 Secret Agreement: Wall Street Finances Hitler’s Nazi Party

“On January 4th, 1932, a meeting was held between British financier Montagu Norman (Governor of the Bank of England), Adolf Hitler and Franz Von Papen (who became Chancellor a few months later in May 1932) At this meeting, an agreement on the financing of theNationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP or Nazi Party) was reached.

This meeting was also attended by US policy-makers and the Dulles brothers, something which their biographers do not like to mention.

A year later, on January 14th, 1933, another meeting was held between Adolph Hitler, Germany’s Financier Baron Kurt von Schroeder, Chancellor Franz von Papen and Hitler’s Economic Advisor Wilhelm Keppler took place, where Hitler’s program was fully approved.” (Y. Rubtsov, text below)

Upon the accession of Adolph Hitler as Chancellor in March 1933, a massive privatization program was initiated which bears the finger-prints of Wall Street.

Dr. Hjalmar Schacht –re-appointed in March 1933 by Adolph Hitler to the position of President of The Reichsbank — was invited to the White House (May 1933) by President Franklin D. Roosevelt.

“After his meeting with the U.S. President and the big bankers on Wall Street, America allocated Germany new loans totalling $1 billion” [equivalent to $23.7 billion in 2023, PPP estimate] (Y. Rubtsov, op cit)

The Deutsche Reichsbahn (German Railways) was privatized. The Nazi government sold off State owned shipbuilding companies, state infrastructure and public utilities.

With a “Nazi- Liberal” slant, –no doubt with “conditionalities”- the privatization program was negotiated with Germany’s Wall Street creditors. Several major banking institutions including Deutsche Bank and Dresden Bank were also privatized.

“[T]he government of the Nazi Party sold off public ownership in several State-owned firms in the mid-1930s. These firms belonged to a wide range of sectors: steel, mining, banking, local public utilities, shipyards, ship-lines, railways, etc.

In addition, the delivery of some public services that were produced by government prior to the 1930s, especially social and labor-related services, was transferred to the private sector, mainly to organizations within the party.” (Germa Bel, University of Barcelona)

The proceeds of the privatization program were used to repay outstanding debts as well as fund Nazi Germany’s buoyant military industrial complex.

Numerous U.S. conglomerates had invested in Nazi Germany’s arms industry including Ford and General Motors:

Both General Motors and Ford insist that they bear little or no responsibility for the operations of their German subsidiaries, which controlled 70 percent of the German car market at the outbreak of war in 1939 and rapidly retooled themselves to become suppliers of war materiel to the German army.

… In certain instances, American managers of both GM and Ford went along with the conversion of their German plants to military production at a time when U.S. government documents show they were still resisting calls by the Roosevelt administration to step up military production in their plants at home. (Washington Post, November 30, 1998)
“A Famous American Family” Sleeping with the Enemy. The Role of Prescott Bush

Of significance: “A famous American family” made its fortune from the Nazis, according to John Loftus’s documented historical analysis.

Prescott Bush (grandfather of George W. Bush) was a partner in Brown Brothers Harriman & Co. and director of the Union Banking Corporation, closely linked to the interests of German corporations, including Thyssen Stahl, an important company involved in the arms industry of the Third Reich.

The Bush family links to Nazi Germany’s war economy were first brought to light at the Nuremberg trials in the testimony of Nazi Germany’s steel magnate Fritz Thyssen.

Thyssen was a partner of George W. Bush’s grandfather Prescott Bush:

“From 1945 until 1949 in Nuremberg, one of the lengthiest and, it now appears, most futile interrogations of a Nazi war crimes suspect began in the American Zone of Occupied Germany.

Multibillionaire steel magnate Fritz Thyssen –-the man whose steel combine was the cold heart of the Nazi war machine– talked and talked and talked to a joint US-UK interrogation team.

… What the Allied investigators never understood was that they were not asking Thyssen the right question. Thyssen did not need any foreign bank accounts because his family secretly owned an entire chain of banks.

He did not have to transfer his Nazi assets at the end of World War II, all he had to do was transfer the ownership documents – stocks, bonds, deeds and trusts–from his bank in Berlin through his bank in Holland to his American friends in New York City: Prescott Bush and Herbert Walker [father in law of Prescott Bush]. Thyssen’s partners in crime were the father and [grandfather] of a future President of the United States [George Herbert Walker Bush]. (John Loftus, How the Bush family made its fortune from the Nazis: The Dutch Connection)

The American public was not aware of the links of the Bush family to Nazi Germany because the historical record had been carefully withheld by the mainstream media. In September 2004, however, The Guardian revealed that:

George Bush’s grandfather, the late US senator Prescott Bush, was a director and shareholder of companies that profited from their involvement with the financial backers of Nazi Germany. …

His business dealings, which continued until his company’s assets were seized in 1942 under the Trading with the Enemy Act, has led more than 60 years later to a civil action for damages being brought in Germany against the Bush family by two former slave labourers at Auschwitz and to a hum of pre-election controversy.”

(Ben Aris and Duncan Campbell, How the Bush’s Grandfather Helped Hitlers Rise to Power, Guardian, September 25, 2004)
Screenshot, The Guardian

Evidence of the Bush family’s links to Nazism was available well before George Herbert Walker Bush (Senior) and George W. Bush entered politics.

The U.S. media remained totally mum. According to John Buchanan (New Hampshire Gazette, 10 October 2003):

After 60 years of inattention and even denial by the U.S. media, newly-uncovered government documents in The National Archives and Library of Congress reveal that Prescott Bush, the grandfather of President George W. Bush, served as a business partner of and U.S. banking operative for the financial architect of the Nazi war machine from 1926 until 1942, when Congress took aggressive action against Bush and his “enem\\y national” partners.

The documents also show that Bush and his colleagues, according to reports from the U.S. Department of the Treasury, tried to conceal their financial alliance with German industrialist Fritz Thyssen, a steel and coal baron who, beginning in the mid-1920s, personally funded Adolf Hitler’s rise to power by the subversion of democratic principle and German law. Furthermore, the declassified records demonstrate that Bush and his associates, who included E. Roland Harriman, younger brother of American icon W. Averell Harriman, and George Herbert Walker, President Bush’s maternal great-grandfather, continued their dealings with the German industrial tycoon for nearly a year after the U.S. entered the war.

While Prescott Bush’s company’s assets, namely Union Banking Corporation were seized in 1942 under the Trading with the Enemy Act (See below), George W. Bush’s grandfather was never prosecuted for his business dealings with Nazi Germany.
“In 1952, Prescott Bush was elected to the U.S. Senate, with no press accounts about his well-concealed Nazi past.

There is no record of any U.S. press coverage of the Bush-Nazi connection during any political campaigns conducted by George Herbert Walker Bush, Jeb Bush, or George W. Bush, with the exception of a brief mention in an unrelated story in the Sarasota Herald Tribune in November 2000 and a brief but inaccurate account in The Boston Globe in 2001.” (John Buchanan, op. cit)

Up until Pearl Harbor (December 1941), Wall Street was trading with Germany.

In the wake of Pearl Harbor (1941-1945), Standard Oil “was trading with the enemy” selling oil to Nazi Germany through the intermediation of so-called “neutral countries” including Venezuela and Argentina.

Without the U.S. supply of oil to Nazi Germany instrumented by Standard Oil of New Jersey, the Third Reich would not have been able to invade the Soviet Union.

—Michel Chossudovsky, November 21, 2023

domingo, 20 de março de 2022

Música do BioTerra: Euphoric Movie


00:00 Intro 
01:00 Free To Be Lost 
04:24 Hunting 
06:59 Tiranito 
10:18 Ephemeral 
13:59 Belicoso 
16:48 Alcanzar 
20:01 Trial
22:51 Other Self 
27:00 Mafalda 
30:29 The Odds 
35:39 POP(urrí) 
38:56 Euphoric 
42:59 Orange Blast

Calva Louise é uma banda sediada em Londres, Reino Unido, mas possui uma forte identidade multicultural. A vocalista e líder, Jess Allanic, é de origem venezuelana e francesa, o que explica o facto de muitas letras no vídeo serem em espanhol.
Utiliza uma estética de videojogo e animação digital (CGI) misturada com imagens da banda, criando uma experiência psicadélica e imersiva.

sábado, 13 de novembro de 2021

Agricultura alternativa - Agricultura imperativa


Vou contar, brevemente, que, quando era estudante, ainda em Viçosa, MG, ouvi uma palestra dela. Aliás, essa foi a primeira guinada que dei em relação à Agricultura Ecológica. Fui conquistado pela densidade das informações que a Professora trazia e, principalmente, com a tranquilidade quando respondia às perguntas, em tom quase agressivo, dos professores do departamento de solos daquela universidade. Imagino que a agressividade era filha do desconforto, talvez insegurança, ao verem seus conhecimentos serem postos à prova pela percepção da professora de que as verdades sobre a ciência do solo importadas de países do norte não se adequam aos trópicos. Afinal, quando ela falava em “manejo ecológico do solo”, título da sua obra-prima, ela queria dizer: que tal manejarmos nossos solos a partir dos conhecimentos que temos sobre a casa onde vivemos? 
Não tenho dúvidas que a pergunta ainda cabe!

Passaram-se dez anos e tive a oportunidade de viajar com ela para a cidade de Coro, Venezuela, para a II Assembleia do MAELA – Movimento Agroecológico da América Latina e do Caribe. Fomos e voltamos juntos, o que me permitiu criar certa relação com Ana. Era o juvenil indo jogar uma partida de futebol com seu ídolo de infância, com a figurinha preferida do seu álbum. 

Quando tivemos a oportunidade de convidá-la para dar um curso em Ipê, RS, sede do então CAE-Ipê, não deixamos escapar. Esse vídeo mostra algo dos dois dias que passamos entre sala de aula e idas a campo, aproveitando da companhia e dos conhecimentos da autora mais brilhante que temos no hoje denominado movimento agroecológico. No campo, junto às famílias produtoras, ela pedia para ser chamada de Ana. Nem doutora, nem professora,apenas Ana!

Quero fazer apenas duas menções sobre esse vídeo. A primeira, sobre os rostos que nele aparecem. Técnicos e técnicas, agricultoras e agricultores que ajudaram a fazer história na produção ecológica de alimentos. Interessante observar que todos seguem na mesma batida. Não usar venenos na produção agrícola permitiu crescimento pessoal, profissional, econômico. Ninguém ali morreu de fome, como ouvimos centenas de vezes ocorreria se abandonássemos os agrotóxicos. 

Outra menção é sobre a forma simples como Ana passa informações profundas. Esse vídeo é um deleite, uma aula de como dar uma aula. Admirável síntese de todo um cabedal de informações que a Professora e Doutora Ana Primavesi (ela que me desculpe por isso) nos deixou. Aproveitá-lo, é tarefa nossa. A dela, está mais do que cumprida!

Laércio Meirelles, julho 2021

domingo, 8 de novembro de 2015

Quando as empresas são mais poderosas que os países

Imagine uma companhia com a influência da Google, do Facebook ou da Amazon. E que ainda recebe do Estado o monopólio do comércio com uma zona geográfica. Também pode cobrar impostos, assinar acordos comerciais, prender criminosos e declarar guerras. Esses eram alguns dos poderes e atribuições da Companhia Holandesa das Índias Orientais, criada no século XVII por empresários com o apoio do Governo dos Países Baixos para comercializar com a Ásia. Foi a primeira corporação transnacional que emitiu obrigações e ações no mercado para financiar o seu crescimento, um notório precedente que, séculos mais tarde, chegou às multinacionais modernas. Os novos gigantes empresariais não contam com os excecionais privilégios da histórica companhia holandesa, mas a sua receita e o seu valor na Bolsa superam o PIB de dezenas de países.

Hoje, a concentração de poder é especialmente clara no setor tecnológico. As cinco grandes – Apple, Google, Microsoft, Facebook e Amazon – são as mais valiosas da Bolsa. A sua capitalização oscila entre os 500 mil milhões de dólares do Facebook e os 850 mil milhões de dólares da Apple. Com este critério – um tanto volátil, mas indicador do potencial de uma empresa –, se a Apple fosse um país, teria um tamanho semelhante ao da economia turca, holandesa ou suíça. Silicon Valley, além disso, tem uma presença considerável nos novos negócios: a Google absorve 88% da quota de mercado de publicidade online. O Facebook (incluindo Instagram, Messenger e WhatsApp) controla mais de 70% das redes sociais em telemóveis. A Amazon tem 70% da quota de mercado dos livros eletrónicos e, nos Estados Unidos, absorve 50% do dinheiro gasto em comércio eletrónico.

69 das 100 principais entidades económicas do mundo são empresas e apenas 31 são países

As companhias das Índias (os britânicos e os franceses também tiveram as suas durante o período colonial) foram um reflexo do seu tempo, mas o seu poder faz lembrar, em certos aspetos, o das grandes corporações atuais. Serão os novos colonos? A organização não-governamental Global Justice Now realiza uma classificação que compara o volume de negócios das principais empresas com a receita orçamental dos países. Segundo essa lista, se a cadeia norte-americana de supermercados Walmart fosse um Estado, ocuparia o décimo posto, atrás dos EUA, China, Alemanha, Japão, França, Reino Unido, Itália, Brasil e Canadá. No total, 69 das 100 principais entidades económicas são empresas. As 25 corporações que mais faturam superam o PIB de inúmeros países.

Seria ingénuo pensar que o setor privado não influencia as decisões políticas, a elaboração de leis e o dia a dia dos cidadãos. Como é que esse poder se articula hoje? Moisés Naím afirma em O Fim do Poder que as estruturas estáticas que caraterizavam as grandes empresas há algumas décadas, como as das chamadas Sete Irmãs (conglomerados que controlaram a indústria petrolífera entre os anos quarenta e setenta), mudaram. O padrão, que se repetia na maioria dos setores, consistia em “poucas companhias que dominavam os seus respetivos mercados e eram tão grandes, ricas, potentes e enraizadas que era impensável prescindir delas”.

O autor, membro do Carnegie Endowment for International Peace (um think tank de Washington), diz que o próprio conceito de poder empresarial é agora mais volátil, flexível e fragmentado. “Criou-se um ambiente em que é mais fácil para os novos – em geral, não apenas na economia, incluindo os que têm ideias tóxicas – conseguir poder”, afirma Naím. “ExxonMobil, Sony, Carrefour e JPMorgan Chase têm um poder imenso e autonomia, mas os seus líderes estão mais limitados agora”, acrescenta. Para se adaptar a esta transformação, a humanidade deve “encontrar novas formas de se governar a si mesma”.

O poder hoje é mais competitivo. Reduziram-se as barreiras à entrada: chegam ao topo novas companhias, como a Inditex, e desaparecem clássicos como a Compaq. “É preciso ter em conta o horizonte temporal, porque há 10 anos falávamos do domínio da Microsoft e agora já não”, responde Naím numa entrevista, referindo-se ao poder da Google e do Facebook. Ele prefere não comparar empresas com países. “Não se mede a capacidade de influenciar necessariamente pela faturação de uma empresa em relação ao PIB de um país, já que a forma do poder empresarial difere da do Estado”, esclarece. Além disso, há novos atores cada vez mais influentes, como as novas sociedades de investimento, os fundos de cobertura (hedge funds) e mercados como os dark pools, onde se negoceia a compra e venda de ações sem a supervisão das autoridades.

O novo poder tornou-se mais intangível. “As empresas têm hoje menos ativos fixos e menos trabalhadores, reflexo de uma nova maneira de produzir, mais voltada para os serviços e para o conhecimento”, afirma Jesús María Valdaliso, professor de História e Instituições Económicas da Universidade do País Basco e coautor de Historia Económica de la Empresa (história económica das empresas).

Além disso, hoje os dados são um ativo essencial. Milhões de cidadãos informam-se, relacionam-se com os amigos e compram na Internet. Vão deixando pelo caminho um rasto de informações que se transformaram no “petróleo da era digital”, segundo a revista The Economist. Estes dados pessoais permitem a elaboração de perfis dos utilizadores graças aos algoritmos, que podem aprender, em minutos, padrões de comportamento que um ser humano levaria anos a identificar. “Uma das grandes estratégias das empresas de tecnologia é o efeito de rede: quanto mais utilizadores, melhor. Porque as pessoas utilizam o serviço que prestas, por mais aborrecido que seja, se as outras também o usarem. Afinal, como não estar no Facebook se todos os teus amigos também lá estão?”, afirma o jornalista Noam Cohen, autor de The Know-It-Alls: The Rise of Silicon Valley as a Political Powerhouse and Social Wrecking Ball (2017). Poucos escolhem viver à margem das redes sociais.

As cinco empresas mais valiosas da Bolsa são de tecnologia: Apple, Google, Facebook, Microsoft e Amazon

Como é o efeito político deste novo ouro negro? Através da rede, pode-se influenciar a opinião pública, como se vê na investigação em curso nos EUA sobre as interferências da Rússia nas eleições que deram a vitória a Trump em 2016, nas quais o Facebook, a Google e o Twitter foram fundamentais. “As empresas de tecnologia temem que, mais cedo ou mais tarde, se tente aprovar uma norma que altere substancialmente o seu modelo de negócios”, explica Pankaj Ghemawat, professor da New York University e da IESE Business School. Autor de World 3.0: Global Prosperity and How to Achieve It, ele enfatiza a dificuldade de quantificar e seguir algo tão imaterial como a informação.

Este fluxo de dados não existia no final do século XIX, quando John D. Rockefeller fundou a Standard Oil. “Há vozes que dizem que as fronteiras já não importam. Acredito que é algo exagerado, mas certamente é significativa a capacidade de algumas empresas se expandirem em negócios de todo o tipo”, afirma Ghemawat. A Amazon não é apenas uma das empresas que mais cresceram nos últimos anos; também é uma das que mais se diversificaram. É líder em comércio eletrónico e uma das maiores plataformas logísticas e de marketing, além de fornecer sistemas de armazenamento na nuvem (tendo a CIA entre os seus clientes). E mais: produz filmes e séries, comprou uma cadeia de supermercados e acabou de lançar a sua própria linha de roupa. Será que a Amazon está grande demais?

As grandes corporações modernas despontaram no final do século XIX como resultado da produção e da distribuição em massa, segundo teorizou Alfred D. Chandler, professor da Harvard Business School, que, a partir dos anos setenta, foi pioneiro no estudo da história das empresas. Para Chandler, os gestores (managers) tinham sido os verdadeiros heróis da era industrial porque tinham organizado a atividade económica, acoplando partes do negócio para criar grandes companhias como a General Motors. O académico defendeu essa ideia num dos seus livros, The Visible Hand (A Mão Visível), de 1977, cujo título se opõe à “mão invisível”, metáfora criada pelo economista Adam Smith no século XVIII para expressar a suposta capacidade autorreguladora do livre mercado.

Um exemplo extremo de grande corporação são os chaebol, conglomerados familiares promovidos pela Coreia do Sul para reativar o seu crescimento após a guerra (1950-1953). O maior deles é a Samsung, que responde por 20% do PIB do país asiático. Nos últimos anos, contudo, Seul tomou medidas para reduzir o poder destes gigantes. Prova disso é a recente condenação por corrupção do herdeiro da Samsung, Lee Jae-yong.

As Samsung e General Motors de hoje são diferentes. Ficou para trás a repetida frase que Charles Wilson disse nos anos cinquenta, quando era secretário da Defesa dos EUA: “O que é bom para o nosso país é bom para a General Motors.” Antes de ocupar o cargo, Wilson dirigiu a empresa (o ex-secretário de Estado, Rex Tillerson, presidia antes à ExxonMobil). Mas a globalização levou as grandes firmas a dispersarem-se pelo mundo. Por exemplo, 65% das vendas das empresas que têm ações na Bolsa espanhola vêm do estrangeiro.

Então, onde se localiza o poder neste mundo deslocalizado? Três analistas de sistemas complexos do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, recorreram à matemática para construir um mapa da estrutura do poder económico. Reuniram dados de 43.060 empresas transnacionais, cruzando-os com o seu conjunto de acionistas e o seu volume de negócios. O resultado revelou que 147 firmas controlavam 40% da riqueza, quase todas elas instituições financeiras, como o Barclays Bank, o JPMorgan Chase e o Goldman Sachs.

O estudo foi publicado na revista PLoS One em 2011. Um dos seus autores, James Glattfelder, explica que a equipa trabalha para atualizar os dados. “A previsão é de que a distribuição do poder continue concentrada nas mãos de alguns atores altamente interconectados”, diz ele. O estudo é interessante, mas devemos considerar que as instituições financeiras nem sempre controlam o destino das empresas em que participam. Com muita frequência, simplesmente gerem dinheiro que pertence a investidores privados. Glattfelder responde que, desde 1980, e sobretudo desde a crise de 2008, há “uma enorme concentração da propriedade de ações nas mãos de investidores institucionais”. Tais investidores costumam ser bancos, fundos de pensões, seguradoras e sociedades de investimento que aplicam grandes quantidades de capitais.

Desde os anos noventa, algumas firmas são cada vez mais influentes. É o caso da BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo (controla cinco biliões de dólares, quase cinco vezes o PIB espanhol). Em maio, acionistas liderados por esta empresa rebelaram-se contra a direção da ExxonMobil para obrigá-la a informar sobre as suas medidas contra as alterações climáticas.

Num exemplo mais próximo, há algumas semanas soube-se que a decisão de empresas e bancos catalães de transferir as suas sedes partiu de Nova Iorque e Londres. É nessas cidades que estão os grandes gestores de fundos de investimento, fundos de pensões e companhias de seguros, os acionistas das entidades e os donos de parte da sua grande dívida. A transferência de sede tentava fazer face à incerteza política que ameaçava as suas metas de rentabilidade. Nos EUA, os fundos institucionais possuem 80% do capital do índice Standard & Poor's 500; na Europa, 58% do Standard & Poor's Euro. Já em Espanha, 43% do capital está nas mãos de fundos internacionais, um recorde.

Também desempenham um papel importante os hedge funds (fundos especulativos), que utilizam os mercados de derivados para apostar na queda de um valor negociado no futuro. Um dos mais populares é o fundo de George Soros, conhecido por ganhar milhões após o ataque que perpetrou contra a libra nos anos noventa, embora também tenha perdido muito dinheiro apostando (erradamente) numa queda das Bolsas após a vitória de Trump. Em 1998, havia cerca de 3.000 fundos deste tipo; hoje são mais de 10.000.

E volta a surgir o papel-chave da tecnologia. É interessante o auge dos robôs no mundo financeiro. Eles costumam ser usados, por exemplo, na gestão de um mecanismo com um nome que soa a vilão: os dark pools. São redes privadas em que os investidores compram e vendem ações sem que se conheçam as suas intenções, evitando alterações de valor dos títulos que os possam prejudicar. Cerca de 42% do volume diário negociado nos mercados é feito em dark pools, segundo a empresa de consultoria Tabb Group.

Estes mercados na sombra existem há décadas, mas multiplicaram-se nos últimos anos graças à inteligência artificial. O tempo necessário para realizar uma ordem de compra e venda passou de 20 segundos, há duas décadas, para os 10 microssegundos atuais. Ou seja: 40.000 operações num piscar de olhos. Por isso, convém alargar o campo de visão. Já não basta ter em conta os conselhos de administração; a raiz do poder vai direta ao algoritmo.