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sábado, 30 de maio de 2026

Classificação: os países que alimentam o mundo


Um grupo relativamente pequeno de países fornece hoje uma enorme fatia dos alimentos comercializados no mundo. Os 10 maiores exportadores, por si só, representam quase metade das exportações agrícolas globais, conferindo a um punhado de economias uma enorme influência sobre os preços e as cadeias de abastecimento globais de alimentos.

As Américas constituem o núcleo do sistema global de comércio de alimentos. Os EUA, o Brasil, o Canadá e o México, em conjunto, representam quase 30% das exportações agrícolas globais, abrangendo desde cereais e carne a alimentos processados ​​e oleaginosas.

Enquanto isso, várias economias populosas apresentam classificações inferiores às esperadas. Apesar de ser o maior produtor agrícola do mundo, a China está muito atrás dos EUA e do Brasil em termos de valor de exportação, o que reflete a parcela da sua produção que é consumida internamente.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Novo estudo revela que as culturas de subsistência contribuem também para a desflorestação e para as emissões de gases de efeito de estufa

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Um novo estudo, publicado na revista Nature Food em 23 de fevereiro de 2026, apresenta uma análise sem precedentes sobre a relação entre a produção global de mercadorias, a desflorestação e as respetivas emissões de carbono. 

Através da criação do modelo DeDuCE, os investigadores Chandrakant Singh e Martin Persson conseguiram mapear o impacto de 184 produtos em 179 países, cobrindo o período entre 2001 e 2022. A grande revelação do estudo é que as políticas ambientais atuais podem estar a sofrer de uma "visão em túnel", ao focarem-se excessivamente em produtos de exportação mediáticos, como a carne bovina, a soja e o óleo de palma, enquanto negligenciam o peso das culturas de subsistência e de base alimentar.

Nomeadamente as commodities como óleo de palma e soja têm um impacto concentrado (Sudeste Asiático e América do Sul, respectivamente). Por outro lado, a desflorestação causada por culturas básicas (arroz e milho) está globalmente distribuída, o que torna o seu controlo mais complexo para as cadeias de abastecimento internacionais.

Os dados revelam que a expansão de pastagens para o gado continua a ser a principal culpada, sendo responsável por 42% da desflorestação global e mais de metade das emissões de carbono associadas. No entanto, o estudo destaca que o arroz, o milho e a mandioca — frequentemente ignorados em regulamentações internacionais como as da União Europeia — representam já 11% da perda de florestas no mundo. 

Este fenómeno é particularmente desafiante porque estas culturas básicas estão dispersas globalmente e são destinadas, em grande parte, ao consumo interno dos países produtores, o que as torna menos suscetíveis a pressões comerciais externas.

Ao longo das duas décadas analisadas, a desflorestação para fins comerciais resultou na perda de quase 122 milhões de hectares de floresta e na emissão de 41,2 gigatoneladas de CO2. Os autores sublinham que, se o objetivo internacional for atingir a neutralidade carbónica e travar a perda de biodiversidade, é urgente alargar o âmbito da monitorização. 

O artigo conclui que não basta focar as atenções nas cadeias de abastecimento de luxo ou de exportação; é imperativo integrar as culturas agrícolas de base nas estratégias de conservação, equilibrando a necessidade crítica de segurança alimentar com a proteção dos ecossistemas florestais.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Inédito - Cientistas conseguem manipular microbioma das plantas para aumentar proteção das plantas contra bactérias


Pela primeira vez, os investigadores da Universidade de Southampton conseguiram manipular o microbioma das plantas para melhorar a saúde das culturas, aumentando a presença de bactérias boas nas plantas. Os resultados do estudo, publicado na revista Nature Communications, poderão reduzir a necessidade e a dependência de pesticidas que são normalmente prejudiciais para o ambiente.

Os microbiomas do intestino humano influenciam o sistema imunitário, que luta contra os organismos causadores de doenças. Nas plantas, microbiomas como bactérias, fungos, vírus e outros microorganismos presentes nas raízes, caules e folhas afectam a vulnerabilidade das plantas a várias doenças.

A equipa de investigação descobriu que a sobreexpressão de um gene específico encontrado no cluster de biossíntese de lignina da planta de arroz aumentava as bactérias benéficas no microbioma da planta. Os resultados mostraram que as plantas modificadas são mais resistentes à praga bacteriana nas culturas de arroz, uma causa comum de perdas de rendimento nos países asiáticos.

“Pela primeira vez, conseguimos alterar a composição do microbioma de uma planta de uma forma direcionada, aumentando o número de bactérias benéficas que podem proteger a planta de outras bactérias nocivas”, afirmou Tomislav Cernava, coautor do artigo e Professor Associado da Universidade de Southampton. Atualmente, os investigadores estão a explorar a presença de outros micróbios benéficos para melhorar ainda mais a saúde das plantas. 

Montalegre quer revitalizar o cultivo de centeio e os fornos tradicionais


Montalegre quer revitalizar a produção de centeio, um cereal cada vez mais valorizado devido à escassez no mercado, no âmbito de um projeto que inclui a requalificação de fornos antigos, disse ontem a presidente da câmara.

Fátima Fernandes explicou que foi já feita uma sementeira com centeio tradicional na Quinta da Veiga, numa parceria com a Cooperativa Agrícola do Barroso (CoopBarroso), com vista à produção de semente biológica.

Segundo informações já divulgadas pela autarquia do norte do distrito de Vila Real, em dois hectares de terreno naquela quinta, a CoopBarroso iniciou em novembro a produção de centeio, adquirido aos agricultores do concelho, com vista à certificação biológica.

O município adiantou que os “700 quilos semeados devem render, em julho próximo, perto de quatro toneladas”.

E, dentro de dois anos, acrescentou, pretende-se ter semente suficiente para replicar a quem queira aderir a este projeto apoiado pela Câmara de Montalegre.

O objetivo, para além do fomento da economia local, passa pelo incentivo à produção de uma semente que não pede grande exigência e que tem procura no mercado.

O município quer “dar nota aos agricultores que tem aqui mais uma fonte de rendimento”, sabendo-se que, atualmente, “o centeio é um cereal muito procurado e valorizado, principalmente aquele que é de produção biológica”.

Os cereais, que têm uma grande importância na dieta alimentar em Portugal, têm registado uma acentuada diminuição de produção nas últimas décadas.

As estimativas do Instituto Nacional de Estatística (INE), reveladas em dezembro, apontam para uma diminuição em volume (-3,8%) na produção de cereais em 2023, em resultado de decréscimos em todos os cereais, à exceção do milho e arroz, devido às condições meteorológicas adversas.

Segundo o INE, a campanha cerealífera “foi bastante negativa, tendo os preços registado uma diminuição significativa (-23,7%), onde se destaca o trigo, a cevada e o milho, em consonância com a diminuição dos preços registada nos mercados internacionais, após o período de escassez de cereais (com preços elevados) na sequência da guerra na Ucrânia”.

“É uma produção fácil e, além do mais, interage muito bem com a produção de batata, porque habitualmente, e tradicionalmente, aquilo que acontecia é que nos terrenos onde havia onde era semeado o centeio, depois eram trabalhados para aí plantar as batatas”, explicou a autarca.

Fátima Fernandes recordou que o concelho de Montalegre já “foi um grande celeiro, principalmente de centeio”, e que ali ainda é produzido um “pão de excelência”

“E, portanto, porque não apostar desde a sementeira até depois ao pão e produto final, passando por todas as etapas, a semente a apanha, a debulha? (…) Temos que revitalizar as nossas eiras para se perceber como é que se fazia antigamente e depois os fornos”, salientou.

A sementeira está, especificou, inserida num projeto maior que quer dinamizar todo o território e cujo objetivo passa, também, pela requalificação de alguns fornos do Barroso, colocando-os a trabalhar, a produzir o pão e, desse modo, fazendo roteiros culturais e gastronómicos.

“É uma aposta que está perfeitamente enquadrada no Património Agrícola Mundial”, salientou.

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Clima extremo: calor insistente na Europa, seca recorde na Austrália, monções mínimas e destruidoras na Índia


Tudo vai se encaminhando para fazer de 2023 o ano mais quente da história. Mas também é possível que, em 31 de dezembro, descubra-se que o ano foi o que registou os eventos climáticos mais extremos, com secas e chuvas intensas e fora de época em todos os cantos do planeta.

Na Europa, Áustria, França, Alemanha, Polónia e Suíça anunciaram na 6ª feira (29/9) o mês de setembro mais quente já registrado nesses países, informa o France24. E as temperaturas excepcionalmente elevadas deverão continuar em outubro, destaca o Guardian.

Na Espanha, o início deste mês foi o mais quente desde que o início dos registros de temperatura, há mais de um século, disse a AEMET, agência meteorológica do país, na 2ª feira (2/10). Segundo a Reuters, quase 40% das estações meteorológicas registaram temperaturas máximas acima de 32oC.

Já no continente asiático, as chuvas de monções na Índia neste ano foram as menores desde 2018, relata a Reuters, com o país registando o agosto o mais seco em mais de um século, disse o departamento meteorológico estatal. As monções são vitais para a economia indiana, respondendo por quase 70% da chuva de que o país precisa para irrigar suas culturas agrícolas e reabastecer reservatórios e aquíferos.

As fracas chuvas aumentaram as preocupações de que a Índia – o segundo maior produtor de trigo, arroz e açúcar do planeta – continue a restringir as exportações de produtos essenciais para gerir a inflação alimentar antes das eleições nacionais em 2024. Tal medida apoiaria os preços globais, explica a Bloomberg. O arroz na Ásia está perto do máximo dos últimos 15 anos, enquanto o açúcar em Nova York saltou mais de 30% este ano.

Ainda que abaixo da média, as monções indianas foram arrasadoras em algumas partes do país, com magnitude e intensidade nunca vistas, segundo a AP. O estrago foi significativo. No estado de Himachal Pradesh, 428 pessoas morreram e houve mais de US$ 1,42 bilião em danos materiais desde junho.

A Austrália, na Oceania, registou o setembro mais seco desde que os registos começaram, em 1900, com uma média nacional de precipitação de apenas 4,83 mm. A precipitação total foi 70,8% inferior à média do mês de 1961-1990. Os dados do Bureau of Meteorology foram divulgados no momento em que incêndios florestais estavam fora de controle em Victoria e Nova Gales do Sul, no meio a alertas de possíveis inundações repentinas no final da semana, explica o Guardian.

New York Times, Bloomberg, VOA News, ABC, Sky News, Accuweather e Guardian também repercutiram os extremos climáticos no mundo.

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Libélula- Camuflagem

Crothemis erythraea, fêmea
Libélula-escarlate
Crocothemis erythraea (Brullé, 1832)
Estatuto de Conservação: LC - Pouco Preocupante

Libélula com tamanho variável, sendo que os adultos podem ultrapassar os 40 mm de comprimento, e atingir os 33 mm de envergadura de asa. Os machos maduros são robustos e vermelhos-escarlate (tórax, abdómen e patas); os olhos são vermelhos com a parte inferior azulada. As fêmeas e os imaturos são castanho-amarelados ou dourados, podendo apresentar uma linha negra abdominal (vista dorsal). O abdómen é largo e achatado. Os dois pares de asas apresentam nervuras anteriores vermelhas e pterostigmas longos, castanho-amarelados. A base das asas posteriores apresentam manchas basais bastante características, que são laranjas no macho e amarelas/âmbar na fêmea. Voam de Fevereiro a Novembro.

Habitat / Ecologia
Encontra-se junto de águas com pouca profundidade, estagnadas e eutróficas tais como lagoas, arrozais e canais de drenagem. É tolerante a alguns graus de salinidade.

Os adultos passam muito do seu tempo empoleirados na vegetação. Os machos têm um voo lançado e rápido, pairando frequentemente no ar. 

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Ano de seca. Colheita de cereais para outono e inverno é "a pior de sempre"


A campanha de colheita de cereais para grão de outono e inverno, já concluída, é “a pior de sempre para todas as espécies cerealíferas”, indicou esta quinta-feira o Instituto Nacional de Estatística. O ano agrícola volta a sofrer os efeitos da situação de seca, quadro que abrange 96,9 por cento do território continental do país.“

A colheita dos cereais para grão de outono/inverno está concluída, confirmando a atual campanha como a pior de sempre para todas as espécies cerealíferas, resultado dos decréscimos de área de produtividade”, adianta o INE nas previsões agrícolas agora divulgadas.

Os cereais semeados tardiamente, por causa das chuvas de dezembro do ano passado e janeiro deste ano, foram “muito penalizados”. Por outro lado, a falta de precipitação na primavera e as altas temperaturas penalizaram igualmente o desenvolvimento de cereais praganosos, o que deu azo a um espigamento precoce.A seca abrange 96,9 por cento do território do continente, dos quais 34,4 por cento, a sul do Tejo, estão sob seca severa ou extrema.

Já a instalação de culturas de primavera e verão “decorreu com normalidade”, dado que o regadio está assegurado em 60 albufeiras. Cinco albufeiras hidrográficas mantêm-se, desde 2022, debaixo de restrições de rega.

O volume de água armazenada nas principais albufeiras com aproveitamento hidroagrícola, em Portugal continental, encontrava-se em julho a 66 por cento da capacidade total, aquém dos 71 por cento do mês anterior, mas acima do período homólogo, quando estava a 61 por cento.

Ainda segundo o Instituto Nacional de Estatística, a “escassa produção de matéria verde para o pastoreio” obrigou à antecipação da suplementação da pecuária em regime extensivo, com base em alimentos conservados.

No Alentejo, as quebras de produtividade da matéria verde foram de 20 a 80 por cento, com a maior redução a ter lugar nos concelhos de Castro Verde, Ourique, Mértola e Almodôvar. A norte do Tejo, todavia, a situação “não assume a mesma gravidade, estando a suplementação com alimentos grosseiros armazenados e/ou alimentos concentrados mais próxima dos parâmetros normais”.

Outras culturas
“De um modo geral”, escreve o INE”, as culturas de primavera e verão “apresentam um regular desenvolvimento, embora no caso do tomate para indústria se antevejam produtividades inferiores ao normal”.

Os pomares de pereiras e macieiras devem sofrer reduções de produtividade de, dez e 15 por cento, respetivamente, ao passo que a produção de cereja registou uma queda de 55 por cento, relativamente à anterior campanha.

Já a área de milho de regadio deverá igualar o valor do ano anterior – esta cultura, em fase de enchimento do grão, mostra “um bom desenvolvimento vegetativo e sem problemas fitossanitários relevantes”.Nas vinhas, o INE não anota acidentes sanitários relevantes e as vindimas devem ser antecipadas. Estima-se que a produtividade aumente em todas as regiões, com a exceção do Dão. O rendimento unitário global deve atingir os 42 hectolitros por hectare, mais oito por cento em comparação com 2022.

A maioria dos arrozais estava, no final de julho, na denominada fase de encanamento. Esta cultura mostra um “bom desenvolvimento vegetativo, embora com a presença de infestantes”, desde logo nas zonas litorais do Baixo Mondego e Vouga.

No norte e no centro, o desenvolvimento da batata de regadio beneficiou das condições meteorológicas. “Na Península de Setúbal, a produtividade da batata de consumo foi idêntica à da campanha anterior, sendo que na batata para indústria foi superior, estimando-se um acréscimo global na ordem de cinco por cento”, lê-se no documento do INE.

Mesmo com um quadro meteorológico desfavorável, os pomares de pessegueiros estão com produtividades de cerca de dez toneladas por hectare, volume próximo do habitual. No que diz respeito à amêndoa, a produtividade global deve crescer 15 por cento.

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Monções beneficiam as culturas de Kharif na Índia


A Índia e outras áreas do sul da Ásia estão vivenciando chuvas generalizadas de monções que beneficiam a maioria das culturas de kharif, conforme análise divulgada pelo USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) em seu boletim semanal. No entanto, em partes mais secas do leste do país, ainda é necessário um maior volume de precipitação.

As chuvas de monções prevaleceram em grande parte da região, incluindo seções anteriormente secas do leste da Índia e Bangladesh. Apesar de algumas áreas de cultivo de arroz no leste terem recebido mais de 100 mm de chuva, ainda há bolsões de clima mais seco, e mais precipitação é necessária para aliviar os déficits de humidade sendo experienciados - com a chuva chegando a ser 60% abaixo do normal.

Em contraste, a maioria das outras áreas de cultivo da Índia beneficiou-se de chuvas consistentes, com a maioria das regiões registando de 25 a 100 mm ou mais no período atual. No entanto, em Telangana, áreas de cultivo de algodão provavelmente enfrentaram inundações com mais de 200 mm de chuva.

Essa chuva, embora necessária para o crescimento das culturas, pode se tornar prejudicial se ocorrer em excesso, como em Telangana, onde há um risco de inundações nas áreas de cultivo de algodão.

A monção é vital para a agricultura na Índia e em outras partes da Ásia do Sul, pois a maior parte das chuvas anuais na região ocorre durante a estação das monções. A agricultura da Índia depende muito das chuvas da monção para o cultivo de kharif, que inclui culturas como milho, algodão, soja e arroz

domingo, 9 de outubro de 2022

O meu primeiro campismo (sem ser dos escuteiros)


Éramos três, eu, o Pedro e o Bernardino. Pedro era calmo, muito inteligente, um aluno que tirava grandes notas. Já estava encaminhado para ser médico. A minha turma de 10º ano era de elite de Gaia. Não estivesse lá o filho do director. Também ele tirava muito boas notas e seguiu medicina. Com o Filipe, era o seu nome, partilhávamos o gosto pela pintura e carros. Éramos 21 jovens, dávamo-nos todos bem.Seriam meus companheiros de estrada entre o 10 e 11º Ano. O 12º na altura era só à noite. Foi aí que nos separamos e tive uma turma diferente.

O Bernardino era o mais desajeitado de todos. Mais distraído nas aulas e só concluiu o 12º ano tinha 20 anos. Isto porque desistiu do curso científico-natural e queria economia. Foi complicado para os pais, mas foi o que fez melhor. Ainda hoje trabalha como contabilista na mesma empresa (assistência técnica e venda de caldeiras a gás) há mais de 30 anos.

Então nós os três queríamos muito buscar fósseis em São Pedro da Cova. Durante os intervalos e à noite telefonávamo-nos para saber quais os autocarros, o fim de semana e o que levar para jantar. Então ficou decidido que o Pedro levava frango assado e a tenda, eu levava o martelo, batatas fritas e rissóis que a minha mãe fazia muito bem e o Bernardino levaria arroz.

Chegou o dia. De Sol, era Junho. Divertidos, relaxados, olhávamos o Douro do nosso lado direito. Às vezes o autocarro escondia-o numa contra-curva. Chegamos ao local seria 7 horas. Ainda andamos para dentro do pinhal até que encontrarmos uma clareira perto dos montes que o Pedro nos garantiu que seria a região com trilobites. Sentamo-nos em cima de uma cama de fetos e já estávamos com fome. Bem, quando o Pedro tira da mochila o apetitoso frango assado, o Bernardino mudou de cores. De pálido passou a vermelho-rosa corado de vergonha quando o eu tirei a embalagem com os rissóis e batas fritas. Viráramo-nos para ele e perguntamos: “O arroz?” e ele apresentou-nos um saco de quilo de arroz, comprado na mercearia naquela manhã. Bem, já imaginam como se conclui a história. Regressamos para casa. 🤐

sábado, 2 de outubro de 2021

Mais de 116,8 milhões de pessoas vivem atualmente sem acesso permanente a alimentos no Brasil.


No Rio de Janeiro, a crise gerada pela pandemia fez crescer a procura por alimentos rejeitados pelos supermercados e o que antes seria para dar aos cães, hoje em dia serve para comer.

Uma reportagem do jornal brasileiro Extra revela como um camião com restos de carne e ossos tornou-se numa esperança para quem tem fome e não tem dinheiro suficiente para comprar alimentos.

Naquela que já é apelidada como "a fila da fome", homens e mulheres, jovens ou mais velhos, juntam-se no bairro da Glória, na zona sul do Rio de Janeiro, à espera do veículo que recolhe ossos e peles dos supermercados da cidade.


Sensibilizados, o motorista e o ajudante da empresa doam parte do que foi recolhido todas as terças e quintas. Em declarações ao jornal, o motorista, José Divino Santos, conta que o número pessoas a pedir os ossos e restos aumentou nos últimos meses

"Há dias em que chego aqui e tenho vontade de chorar. Um país tão rico não pode estar assim. É muito triste as pessoas passarem por esta situação. O meu coração dói. Antes, as pessoas passavam aqui e pediam um pedaço de osso para dar aos cães. Hoje, imploraram por um pouco de ossada para fazer comida. Duas ou três pessoas em situação de sem abrigo passavam aqui e levavam. Hoje, há dias em que há umas 15 pessoas", conta o motorista.

O homem refere ainda que os restos seguem para uma fábrica em Nova Iguaçu. Lá, parte do material é transformado em ração para animais e a outra — a gordura — é utilizada para fazer sabão.

"Às vezes está um pouco estragado, dizemos nós, mas as pessoas querem na mesma", remata.

A pobreza extrema, que leva pessoas à procura de restos, foi acentuada no Brasil durante a pandemia de covid-19. Os dados da Rede Brasileira de Pesquisas em Segurança Alimentar e Nutricional, citados pelo Extra, revelam que mais de 116,8 milhões de pessoas vivem atualmente sem acesso permanente a alimentos no país.

Dessas, 19,1 milhões (cerca de 9% da população) passam fome, vivendo um “quadro de insegurança alimentar grave”. Os números revelam um aumento de 54% no número de pessoas que sofrem com a escassez de alimentos, em comparação a 2018.

É o caso, por exemplo, da desempregada Vanessa Avelino de Souza, de 48 anos, que se desloca uma vez por semana ao ponto de distribuição. Com calma, separa pele a pele e osso por osso em busca de algo melhor para pôr no saco.

"Nós limpamos e separamos o resto de carne. Com o osso, fazemos sopa, colocamos no arroz, no feijão… Depois de fritar, guardamos a gordura e usamos para fazer a comida”, disse ao jornal.

De acordo com a reportagem, há mesmo quem percorra mais de 30 quilómetros em busca destes alimentos: Denise Silva, de 51 anos, é mãe de cinco filhos e avó de 12 e ficou viúva recentemente. Sozinha na luta para alimentar a família, faz o percurso de comboio duas vezes por semana.

"Não vejo um pedaço de carne há muito tempo, desde que a pandemia começou. Este osso é a nossa mistura. Levamos para casa e fazemos para os meninos comerem. Sou muito grata por ter isto aqui", conta ao extra.

sexta-feira, 14 de março de 2008

A ganância contamina nosso sistema alimentar


Nos últimos anos, as preocupações com a qualidade e a segurança dos alimentos aumentaram muito. Cada vez mais problemas de saúde têm sido relacionados a vários tipos de contaminação de alimentos.

Mais perturbador é que várias dessas contaminações são de natureza de longo prazo e, uma vez profundamente arraigadas, não se prestam a soluções fáceis.

Também há incerteza sobre os impactos na saúde de vários produtos químicos e tecnologias introduzidas às pressas para obter lucro rápido sem a verificação adequada de seus perigos potenciais.

Vozes sãs de cientistas seniores estão aconselhando cautela e revisão imparcial antes que nossos sistemas alimentares fiquem ainda mais contaminados.

Uma preocupação extremamente séria expressa repetidamente por vários cientistas seniores refere-se à produção, importação e consumo de alimentos geneticamente modificados (GM), ração para gado e sementes.

Um grupo de cientistas eminentes que constituem o Painel Científico Independente declarou numa revisão após examinar todos os aspectos das culturas GM: “O mais importante de tudo é que as culturas GM não se mostraram seguras. Pelo contrário, surgiram evidências suficientes para levantar sérias preocupações de segurança, que se ignoradas podem resultar em danos irreversíveis à saúde e ao meio ambiente.”

O painel também apontou que muitos cultivos transgênicos estão ligados a herbicidas de amplo espectro – glifosato e glufosinato de amônio. Estes têm sido associados a abortos espontâneos, defeitos congénitos e outros problemas graves de saúde para seres humanos, animais e organismos do solo.

O relatório amplamente citado deste painel acrescenta que as variedades GM são instáveis, com potencial para criar novos vírus e bactérias que causam doenças e para interromper a função do gene em células animais e humanas.

De acordo com outro grupo de 17 cientistas ilustres da Europa, EUA, Canadá e Nova Zelândia, “O processo de transformação GM é altamente mutagénico, levando a interrupções na estrutura e função genética da planta hospedeira, o que, por sua vez, leva a distúrbios na bioquímica da planta.

Isso pode levar à produção de novas toxinas e alérgenos, bem como à redução/alteração da qualidade da nutrição… numerosos estudos de alimentação animal demonstram impactos negativos da ração GM nos rins, fígado, intestino, células sanguíneas, bioquímica sanguínea e sistema imunológico.”

O Greenpeace, na Alemanha, destacou os resultados de um estudo do centro de pesquisa de leite e alimentos da Baviera, que teria sido “mantido a sete chaves por 3 anos”. Este estudo confirma a possibilidade de contaminação do leite devido a OGMs que existe em todos os países onde são cultivadas culturas GM para alimentação de gado (incluindo a Índia).

Outra séria preocupação da segurança alimentar refere-se ao impacto adverso de altas doses de fertilizantes químicos e pesticidas altamente tóxicos na segurança e qualidade nutricional de nossos alimentos. Wendell Berry, o famoso agricultor-escritor-filósofo dos Estados Unidos, comentou muito apropriadamente: “É um dos milagres da ciência e da higiene que os germes que costumavam estar em nossa comida foram substituídos por venenos”.

Um relatório da Comissão de Alimentos de Londres apontou que pelo menos 92 pesticidas libertados para uso na Grã-Bretanha estavam ligados a cancro, defeitos congénitos ou mutação genética em estudos com animais.

Um relatório da National Academy of Sciences, EUA, apontou que pesticidas na alimentação de cidadãos americanos podem causar mais de um milhão de casos adicionais de câncer nos EUA ao longo de sua vida.

Este problema pode ser ainda pior nalguns dos países em desenvolvimento, pois alguns dos pesticidas mais perigosos e persistentes proibidos nos países ricos são exportados para os países mais pobres.

É bem conhecido que o uso de fertilizantes químicos leva a uma perda de sabor e sabor nos alimentos, mas agora é cada vez mais percebido que, além disso, isso também causa perda de qualidade nutricional e cria novos riscos à saúde.

Enquanto a maior parte dos fertilizantes químicos procura fornecer alguns nutrientes importantes para um crescimento rápido, muitos micronutrientes extremamente necessários são negligenciados e esgotados muito rapidamente.

Conforme apontado pelo proeminente nutricionista C Gopalan, “há evidências preocupantes de esgotamento de micronutrientes dos solos em algumas áreas; estes são susceptíveis de ser eventualmente refletidos no valor nutritivo prejudicado de grãos de alimentos cultivados em tais solos”.

Assim, por um lado, algumas culturas, sejam grãos ou frutas, podem ter menos micronutrientes; eles também podem ter excesso de algum nutriente importante.

Como apontado por Richard Douthwaite, “Fertilizantes azotados podem aumentar a quantidade de nitrato na colheita final para quatro ou cinco vezes o nível encontrado no equivalente de cultivo de composto, ao mesmo tempo em que reduz os níveis de vitamina C e matéria seca.

Essa mudança é potencialmente grave, uma vez que os nitratos podem ser transformados em poderosas nitrosaminas cancerígenas por bactérias encontradas na boca, enquanto a vitamina C demonstrou proteger contra o cancro”.

Outras questões importantes de saúde e segurança estão relacionadas ao processamento de alimentos. Houve um aumento maciço no número e quantidade de aditivos utilizados pela indústria de processamento de alimentos, incluindo sabores, cores, emulsificantes, conservantes e outros aditivos. A London Food Commission escreveu que cerca de 3.800 aditivos estavam sendo usados ​​para realizar cerca de cem funções.

A comissão observou que apenas cerca de um décimo deles estava sujeito ao controle do governo. Em termos de vida diária, apontou que uma única refeição pode conter um coquetel de 12 a 16 aditivos, a combinação de aditivos pode reagir entre si e com os alimentos para produzir novas substâncias químicas.

A curto prazo, muitos aditivos têm sido associados a dores de cabeça e impacto adverso na concentração mental, comportamento e resposta imune. A longo prazo, os aditivos têm sido associados ao aumento do risco de cancro, doenças cardiovasculares e outras condições degenerativas.

Várias práticas de processamento de alimentos são conhecidas por serem altamente prejudiciais em termos de nutrição. Muitas vezes, as partes dos grãos que são removidas durante o processamento são as mais nutritivas. O polimento do arroz é um exemplo disso.

Um especialista L Ramachandran escreveu em seu livro amplamente discutido 'Food Planning' que a perda quantitativa no caso de cereais sozinho pode chegar a não menos de 8 milhões de toneladas.

Além disso, ele aponta que a perda qualitativa é ainda maior porque as porções do grão que são retiradas no refinamento são muitas vezes mais ricas em qualidade, proteínas, gorduras, minerais como ferro e fósforo e vitaminas como tiamina, ácido nicotínico, riboflavina e em alguns casos também vitamina A, na forma de caroteno.

Além disso, Ramachandran aponta que esses são precisamente os nutrientes nos quais a dieta indiana média é deficiente.

Outra grande fonte de perda de nutrientes no processamento é a hidrogenação de óleos. A hidrogenação transforma a maioria das gorduras insaturadas em gorduras saturadas. As gorduras saturadas consumidas em excesso podem ser prejudiciais.

Por outro lado, as gorduras insaturadas, especialmente algumas das gorduras polinsaturadas, têm um papel muito importante na nutrição e ajudam a proteger-nos do risco de doenças cardiovasculares e outras doenças. Nas palavras de Ramachandran, “Na hidrogenação, o que é bom e necessário é transformado no que não é necessário e pode ser prejudicial”.