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sábado, 29 de agosto de 2026

Espécies marinhas invasoras em Portugal aumentaram 75% em 10 anos

O número de espécies marinhas invasoras nas águas portuguesas aumentou 75% em 10 anos, com mais 98 registos, de acordo com um estudo científico a que hoje a agência Lusa teve acesso.

Este estudo foi uma atualização de um levantamento com 10 anos das “espécies não indígenas ou espécies introduzidas nas águas costeiras portuguesas, portanto estuários nas costeiras, lagoas costeiras, e incluiu tanto o continente como as ilhas”, explicou à Lusa Paula Chainho, do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (Mare), uma das organizações que tutelou o projeto.

“Verificámos que há 10 anos tínhamos reportado 133 espécies não indígenas e atualmente reportámos 231”, que corresponde a “uma taxa muito elevada de novas introduções”, disse.

Isto “é ainda mais preocupante” porque os investigadores que realizaram o estudo há 10 anos admitiam que o elevado número então registado correspondia a espécies que não haviam sido estudadas, mas tudo indica que estes novos 100 registos correspondem a um “aumento bastante acentuado” porque, desde então, têm sido feitas várias análises.

“Das 231 espécies confirmadas, 159 ocorrem em Portugal continental, 81 nos Açores e 62 na Madeira”, pode ler-se na apresentação do trabalho de 31 investigadores de 11 universidades portuguesas entre várias organizações, e liderado pelo Mare e pela Rede de Investigação Aquática (Arnet), que foi publicado na revista Marine Pollution Bulletin e aponta vários problemas na costa portuguesa.

Segundo Paula Chainho, a “navegação é a principal causa de introdução de novos exemplares”, seja através da “incrustação nos cascos das embarcações” de espécies ou pela lavagem dos tanques de água de lastro.

As embarcações de transporte têm tanques de água no interior para ficarem equilibradas quando carregam mercadoria e descarregam conforme necessitem para garantir a estabilidade da estrutura.

“Quando uma embarcação descarrega uma determinada carga, tem que compensar essa saída de peso com um peso adicional e, portanto, neste caso, as águas que são introduzidas nos tanques de lastro”, que são descarregadas noutro ponto do globo quando carregam novas mercadorias.

“Nestas águas que são captadas num local e descarregadas noutro viajam muitos organismos vivos”, explicou a investigadora, que aponta também riscos na aquacultura.

Em causa, nestes casos, está a introdução de novas espécies de produção, mas também organismos que “chegam à boleia” destes exemplares.

Por isso, o “foco deve estar principalmente na prevenção porque quando uma espécie aquática entra num determinado local, nós só vamos detetá-la quando ela já está perfeitamente instalada”, defendeu a investigadora.

Nesse capítulo, existe uma “convenção internacional das águas de lastro que obriga ao tratamento lastro antes de serem descarregadas” mas “em Portugal não temos relatórios oficiais que possamos consultar sobre como é que isto tem vindo a ser implementado”.

Já em relação à aquacultura, “também há regulamentação e, portanto, para ser introduzida uma nova espécie não indígena para a aquacultura é preciso um requerimento específico”, mas também “não há nenhum tipo de verificação em Portugal em relação a como é que isto está a ser cumprido ou não”, disse.

Noutros casos, há espécies como a ameijoa japonesa, uma espécie invasora nas águas nacionais há muitos anos, e em que a única forma de controlar a sua população é através da gestão da pesca, reconheceu.

O trabalho propõe também uma lista de vigilância inédita com 22 espécies detetadas através de ADN ambiental, um sistema de deteção precoce capaz de identificar espécies invasoras antes de serem observadas a olho nu.

Nas águas de Portugal continental, 39% das espécies não indígenas são originárias do Pacífico Norte, seguidas de 24% com origem noutras zonas do Atlântico Norte, uma tendência que é invertida nos Açores e Madeira, com o Pacífico Norte a ter predominância.

De todos os portos, Sines “surge no estudo como um ponto estratégico de entrada, dada a sua localização no cruzamento de rotas marítimas que ligam a Ásia, o Mediterrâneo, os Estados Unidos e África”, refere, justificando a investigação específica desta zona.

“As invasões marinhas são um fenómeno dinâmico e transfronteiriço, e compreendê-las exige uma ciência capaz de trabalhar à mesma escala. Este estudo permitiu-nos ir muito além de uma simples atualização do número de espécies, revelando padrões de introdução, lacunas no conhecimento genético e prioridades para a monitorização futura”, refere Romeu Ribeiro, investigador do Mare e primeiro autor do estudo, num comunicado.

A equipa desenvolveu uma “lista de vigilância pioneira com 22 espécies detetadas exclusivamente por métodos moleculares, como o ADN ambiental”, mesmo “sem confirmação física da existência.

Este mecanismo constitui “um sistema de alerta precoce, capaz de sinalizar potenciais invasores antes de serem visualmente identificados no terreno”.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Sem mais ambição, o Plano de Restauro da Natureza arrisca falhar a recuperação da biodiversidade



Na consulta pública do Plano Nacional de Restauro da Natureza, deixámos um alerta claro: tal como está, o plano não garante que a natureza em Portugal recupere ao ritmo e à escala de que precisa.

“O Plano Nacional de Restauro da Natureza é uma oportunidade única para travarmos a perda da biodiversidade em Portugal. Este é o momento para decidir se queremos apenas cumprir metas no papel ou recuperar verdadeiramente a natureza”, diz Joana Andrade, coordenadora do nosso Departamento de Conservação Marinha.

Na nossa participação na consulta pública que terminou a semana passada, reconhecemos o esforço feito para integrar diagnósticos, estratégias e medidas num único plano, mas consideramos que a versão final tem de ir mais longe. Restaurar a natureza não pode significar apenas contar hectares: é necessário avaliar se as espécies e ecossistemas estão efetivamente a recuperar. É necessário restaurar a conectividade, e não criar “ilhas” de natureza isolada.

Recompor números não chega, é preciso recuperar a vida selvagem
Sublinhamos a necessidade de reforçar a integração da biodiversidade e das espécies nos objetivos, metas e indicadores do plano, defendendo que aves e outros grupos devem ser utilizados como indicadores da eficácia do restauro. Sem isso, alerta, corre-se o risco de investir em medidas que não se traduzem em melhorias reais no estado da natureza.

Sublinhamos também a importância de olhar para os ecossistemas como um todo ligado: florestas, zonas húmidas, áreas agrícolas, mar e cidades estão interligados, tal como as espécies que deles dependem ao longo do seu ciclo de vida.

Outra falha preocupante é a resposta ainda insuficiente e fragmentada a pressões crescentes como a poluição luminosa, apesar dos seus impactos nas aves marinhas e noutros grupos - uma ameaça silenciosa, mas cada vez mais evidente.

O restauro deve chegar às cidades e aos edifícios
A natureza não está apenas nas áreas protegidas - está também onde vivemos. Defendemos que o Plano Nacional de Restauro da Natureza deve entender o ecossistema urbano como um contínuo, promovendo a biodiversidade não só nos espaços verdes, mas também nos espaços edificados. Isso implica proteger e criar condições para a nidificação de aves nos edifícios, restaurar vegetação em avenidas, reduzir a impermeabilização dos solos e adotar soluções que minimizem os impactos da urbanização, evitando que a biodiversidade fique confinada a pequenas ilhas verdes numa selva de asfalto.

Entre as propostas da organização estão a criação e proteção de locais de nidificação, instalação de caixas-ninho e outras estruturas em edifícios, prevenção de colisões com superfícies transparentes ou espelhadas e o reforço da conectividade ecológica nas cidades. Estas soluções mostram que todos podem fazer parte da recuperação da natureza, e que o plano não diz respeito apenas a grandes áreas naturais, mas também às nossas ruas, bairros e casas.

Sem financiamento estável, não há restauro duradouro
Alertamos que o plano assenta em bases financeiras frágeis e pouco claras. Falta ligar, de forma transparente, as medidas propostas aos custos reais e às fontes de financiamento, bem como garantir recursos nacionais estáveis e de longo prazo.

“Restaurar não é plantar hoje e esquecer amanhã”, frisa Joana Andrade. “Sem financiamento para manter, monitorizar e adaptar as medidas ao longo do tempo, os resultados dificilmente serão duradouros.”

Sublinhamos ainda que o financiamento deve ser alinhado com as metas reais do plano, partindo do custo efetivo das medidas em vez de contabilizar fundos já existentes, e defende que o investimento privado só pode ser aceite com garantias rigorosas de transparência e ausência de greenwashing, incluindo um registo público de projetos e resultados. Alertamos também para a necessidade de rever os subsídios públicos que continuam a prejudicar a biodiversidade e de usar a Avaliação Ambiental Estratégica como ferramenta para testar a coerência global do plano e assegurar ganhos ecológicos efetivos.

Sem medir bem, não se sabe se está a resultar
Outro ponto crítico é a monitorização. Defendemos sistemas robustos, com indicadores biológicos que permitam perceber se a natureza está efetivamente a recuperar.

Programas de ciência-cidadã, como o Censo de Aves Comuns, são essenciais para esse acompanhamento, mas precisam de financiamento estável e reconhecimento institucional para continuar a produzir dados de longo prazo.

Restauro faz-se com pessoas, no terreno
Destacamos ainda que o sucesso do plano depende da participação ativa de proprietários, agricultores, comunidades locais e organizações da sociedade civil.

Modelos como a custódia do território - baseados em acordos voluntários e colaboração de longo prazo - são apontados como ferramentas-chave para garantir que as medidas saem do papel e chegam ao terreno, mantendo-se no tempo.

Ilhas e mar não podem ficar para trás
Alertamos também para lacunas importantes no que toca às Regiões Autónomas e aos ecossistemas marinhos, onde continuam a faltar medidas claras para proteger espécies e responder a pressões específicas. A aplicação uniforme de indicadores nacionais ignora a existência de realidades ecológicas distintas nas ilhas, o que compromete a eficácia do plano. Mesmo quando não sejam considerados no reporte europeu, devem ser adotados indicadores regionais que permitam avaliar adequadamente a recuperação da biodiversidade nos Açores e na Madeira.

Uma oportunidade decisiva para a natureza em Portugal
O Plano Nacional de Restauro da Natureza é uma oportunidade única de inverter décadas de degradação ambiental - oportunidade que a formulação atual do plano não está a aproveitar.

“Sem mais ambição, melhor financiamento e uma implementação eficaz, baseada na ciência e na participação, Portugal arrisca perder uma oportunidade que pode não voltar tão cedo”, conclui Joana Andrade.

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domingo, 16 de agosto de 2026

Desertificação. Portugal é o quinto país da UE com mais solo afetado


A desertificação em Portugal não mora só no Alentejo
Um relatório publicado em 2026 pelo Centro Comum de Investigação (JRC) da Comissão Europeia, “Rumo a uma melhor caracterização da degradação dos solos e da desertificação na União Europeia”, aplicou, pela primeira vez, uma metodologia comum a toda a União, respondendo a uma recomendação do Tribunal de Contas Europeu. As zonas áridas, semiáridas e sub-húmidas secas cobrem hoje 15% da UE, e a desertificação afecta 530 mil quilómetros quadrados, cerca de 12% do território comunitário, com impacto directo sobre 42 milhões de pessoas. As percentagens mais altas de território sob condições de desertificação registam-se em Espanha (53%), Chipre (45%) e Grécia (36%). Numa tabela mais detalhada do mesmo relatório, Portugal surge em 5.ª posição, com 27,5% do território classificado em desertificação - atrás da Bulgária, que soma 32,85%.

Cerca de 71% do território de Portugal continental apresenta suscetibilidade moderada, alta ou muito alta à desertificação, alerta a associação ambientalista ZERO, na véspera do arranque da 17.ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17).

A conferência começa esta segunda-feira, 17 de agosto, em Ulaanbaatar, na Mongólia, e prolonga-se até dia 28. Sob o lema «Restoring Land. Restoring Hope.» («Restaurar a Terra. Restaurar a Esperança»), a COP17 reúne as 197 Partes da Convenção, representantes da sociedade civil, cientistas e setores ligados à gestão da terra.

Num contexto em que até 40% da superfície terrestre do planeta está afetada pela degradação das terras, a ZERO defende que a conferência deve permitir acelerar a passagem dos compromissos à ação, nomeadamente através da substituição das atuais políticas de reação às secas por medidas de prevenção, preparação e aumento da resiliência dos territórios.

COP17 tenta chegar a acordo sobre resposta global à seca
Uma das principais questões em discussão na Mongólia será precisamente a governação internacional da seca. A COP16, realizada em Riade, em 2024, terminou sem acordo quanto ao modelo a adotar, remetendo para a conferência deste ano a negociação de um quadro global ou protocolo para uma gestão mais proativa das secas e a definição do seu grau de vinculação.

Para a ZERO, é necessário deixar de encarar as secas essencialmente como emergências às quais se responde depois de os seus efeitos se fazerem sentir. A associação defende o investimento antecipado na saúde dos solos, na retenção e utilização eficiente da água, na recuperação dos ecossistemas, em sistemas de alerta precoce e na adaptação da agricultura e do território.

Entre as prioridades que deverão marcar a COP17 estão a criação de um quadro internacional de prevenção e gestão das secas, a recuperação de solos e ecossistemas degradados, a definição de objetivos mensuráveis para o período pós-2030 e a garantia de financiamento, bem como de maior articulação entre as convenções internacionais sobre clima, biodiversidade e desertificação.

Quase um terço do território português tem suscetibilidade alta ou muito alta
Em Portugal, os dados citados pela ZERO a partir do Relatório do Estado do Ambiente mostram que 4,7% do território continental apresenta suscetibilidade muito elevada à desertificação, 27,9% alta e 38,2% moderada, perfazendo cerca de 71% do território nas três classes.

A associação recorda que desertificação não significa necessariamente a transformação de um território num deserto, mas sim a degradação das terras nas regiões secas, resultante da interação entre o clima e as atividades humanas.

As alterações climáticas aumentam o risco, mas, sublinha a ZERO, a desertificação não é inevitável: más práticas na utilização do solo e da água podem acelerar o fenómeno, enquanto políticas adequadas nas áreas da agricultura, floresta, água e ordenamento do território podem preveni-lo e contribuir para a sua inversão.

A COP17 realiza-se ainda no Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores. Em Portugal, as pastagens representam cerca de um quinto da área continental e mais de metade da Superfície Agrícola Utilizada. Quando corretamente geridas, contribuem para proteger o solo da erosão, reter água, armazenar carbono e preservar a biodiversidade, enquanto o sobrepastoreio, a compactação e a perda de coberto vegetal aceleram a degradação.

ZERO pede ao Governo que faça do combate à desertificação uma prioridade
A associação chama também a atenção para a revisão do Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação (PANCD). O processo deverá estar concluído no final deste ano e, segundo a ZERO, o novo programa deve estabelecer objetivos, metas, indicadores, calendário e financiamento concretos.

A organização ambientalista considera essencial articular as políticas de combate à desertificação com agricultura, regadio, gestão da água, florestas, biodiversidade, clima e ordenamento do território. «Combater a desertificação não é simplesmente aumentar a oferta de água», salienta, defendendo antes a recuperação dos solos, a retenção da água no território e a adaptação das culturas e atividades às disponibilidades hídricas.

À entrada da COP17, a ZERO apela, por isso, ao Governo para que assuma o combate à desertificação como uma prioridade nacional ligada à adaptação climática, conclua a revisão do PANCD com metas e financiamento claros, proteja as pastagens e os sistemas agroflorestais e dê prioridade à saúde dos solos e à retenção da água.

Para a associação, prevenir continua a ser a opção mais eficaz: evitar a degradação do solo é mais eficiente do que tentar recuperá-lo depois de perdida a sua fertilidade e capacidade de retenção de água, pelo que a COP17 deverá servir para acelerar essa mudança, tanto a nível mundial como em Portugal.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Dia Mundial do Elefante 20026


Introdução e Contexto Histórico

Celebrado anualmente a 12 de agosto, o Dia Mundial do Elefante - instituído em 2012 por iniciativa da realizadora canadiana Patricia Sims e da Elephant Reintroduction Foundation da Tailândia - constitui um marco global para a consciencialização sobre a preservação e gestão sustentável da família Elephantidae. Em 2026, a efeméride assume um caráter de acrescida urgência analítica: o declínio demográfico persistente em África e na Ásia impõe a revisão contínua das estratégias de gestão de ecossistemas, o combate ao comércio ilícito de marfim e a reavaliação ética dos modelos do ecoturismo e dos safaris.

1. Divergência taxonómica: as três espécies reconhecidas
A biogeografia contemporânea e a genómica populacional reconhecem atualmente três espécies distintas de elefantes:
  1. Elefante-de-savana-africano (Loxodonta africana): é o maior mamífero terrestre do planeta. Distribui-se maioritariamente pelas savanas e habitats abertos da África Subsaariana. Encontra-se classificado como Em Perigo (EN) pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN.
  2. Elefante-da-floresta-africano (Loxodonta cyclotis): distinguido formalmente do L. africana devido a evidências genéticas inequívocas, habita as florestas tropicais densas da África Central e Ocidental. De menor porte e com presas mais retas, está classificado como Em Perigo Crítico (CR) pela IUCN, tendo sofrido perdas drásticas devido à caça furtiva.
  3. Elefante-asiático (Elephas maximus): presente de forma fragmentada em 13 países do Sul e Sudeste Asiático. Morfologicamente caraterizado por orelhas menores e por uma única projeção digital na tromba, encontra-se igualmente classificado como Em Perigo (EN) na IUCN Red List.
2. Ponto de Situação Populacional e Ameaças
De acordo com os dados compilados no African Elephant Database mantido pela IUCN, estima-se que restem cerca de 400.000 a 415.000 elefantes africanos na natureza. Relatórios da World Wildlife Fund (WWF) e do programa CITES MIKE (Monitoring the Illegal Killing of Elephants) indicam que a população do elefante-da-floresta declinou mais de 86% em três décadas. A população selvagem de elefantes asiáticos é estimada em apenas 40.000 a 50.000 indivíduos.

As pressões antrópicas organizam-se em três eixos centrais:
  1. Caça furtiva e tráfico: a procura ilegal de marfim continua a perturbar as demografias locais.
  2. Fragmentação de habitat: a conversão agrícola e a urbanização destroem cenários de dispersão.
  3. Conflito Humano-Fauna (CHF): o aumento das sobreposições territoriais gera episódios letais de retaliação motivados pela destruição de culturas agrícolas.
3. Estratégias de Preservação e Conservação
As respostas institucionais assentam na transição para abordagens integradas de paisagem e tecnologia:
  1. Corredores ecológicos Transfronteiriços: iniciativas de grande escala, como a KAZA TFCA (Kavango-Zambezi Transfrontier Conservation Area), conectam parques nacionais em cinco países da África Austral, garantindo rotas de migração seguras.
  2. Tecnologia de rastreio e monitorização: implementação de coleiras com GPS via satélite geridas por organizações como a Save the Elephants e aplicação da plataforma de dados SMART (Spatial Monitoring and Reporting Tool) pelas brigadas de fiscalização.
  3. Mitigação biológica do CHF: desenvolvimento de cercas de colmeias (beehive fences) promovidas por projetos científicos como o Elephants and Bees, que aproveitam o repúdio natural dos elefantes relativamente às abelhas para afastar os animais de áreas agrícolas.
4. Restrições no turismo de safari e atividades recreativas
A indústria do ecoturismo atravessa uma reestruturação normativa impulsionada pelo bem-estar animal e por relatórios globais de entidades como a World Animal Protection.

Proibição de Safaris de Montaria (Elephant Rides)
A exploração turística assente na montaria e contacto direto tem sido desmantelada progressivamente:
Na África Austral (em particular no Botsuana), as diretivas da indústria de safari e das autoridades de conservação baniram as práticas comerciais de passeios a dorso de elefante.

No Sudeste Asiático (Tailândia), estudos de monitorização continuada promovidos pela World Animal Protection registam uma queda consistente na oferta de viagens a monte e a transição gradual para o modelo de "apenas observação" (observation-only sanctuaries).

Restrições de Capacidade e Impacto Ambiental em Safaris
Nos ecossistemas de safari em parque aberto (como no Parque Nacional do Chobe ou na Reserva do Masai Mara), os organismos governamentais aplicam diretrizes rigorosas:
  1. Lotação por avistamento: proibição de aglomeração de mais de 2 a 3 veículos em simultâneo junto a manadas.
  2. Manutenção de distâncias mínimas: para evitar stresse comportamental nas matriarcas e crias.
  3. Proibição do Off-Roading: Confinamento estrito aos trilhos oficiais para evitar a degradação da flora nativa.
Considerações Finais
A análise do estado de conservação dos elefantes em 2026 demonstra que a viabilidade a longo prazo da família Elephantidae depende da consolidação de corredores ecológicos contínuos, do combate intransigente ao crime ambiental e da transição definitiva do turismo recreativo para um modelo ético, sustentável e baseado exclusivamente na observação à distância.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Portugueses lideram estudo para descobrir como a poluição atmosférica castiga os mais pobres


Viver numa rua onde o ar carrega o peso de milhares de escapes diários ou o fumo constante de uma fábrica não é, para muitas famílias, uma escolha. É a única opção compatível com o seu orçamento.

A comunidade científica internacional já classifica a poluição atmosférica como o maior perigo ambiental para a sobrevivência humana, mas o risco não é igual para todos. As populações mais vulneráveis enfrentam níveis de exposição muito superiores.

Foi esta desigualdade que motivou uma equipa liderada pela Universidade de Aveiro a analisar exaustivamente a literatura científica global. Em colaboração com a Universidade de Coimbra, o Laboratório Associado de Sistemas Inteligentes da Universidade do Minho e a University of the West of England, os investigadores examinaram 99 artigos internacionais para perceber até que ponto as avaliações de impacto sanitário incorporam justiça ambiental e desigualdades sociais.

Mapa geográfico das falhas
Os resultados, publicados na revista Heliyon, revelam um desequilíbrio geográfico na produção de conhecimento. Dos 21 países onde se realizaram os estudos analisados, os Estados Unidos representam 53 por cento da amostra. O Canadá surge muito atrás, com seis por cento, seguido pela China com cinco por cento.

A investigação sobre injustiça ambiental cresce, no entanto, a ritmo acelerado: mais de metade dos artigos selecionados foram publicados nos últimos cinco anos.

Segundo os autores portugueses, esta tendência mostra uma maior atenção às dimensões sociodemográficas da crise ambiental. Ainda assim, a maioria dos trabalhos concentra-se nos efeitos prolongados da exposição, deixando de fora análises mais imediatas ou de curta duração.

O peso das partículas finas
A quase totalidade dos estudos centra-se nas partículas finas em suspensão, conhecidas como PM2.5. Estas partículas microscópicas conseguem penetrar profundamente no sistema respiratório e estão associadas a doenças graves.

Apesar disso, apenas metade dos artigos cruza os dados de monitorização ambiental com os registos médicos ou com os níveis reais de exposição das populações. A análise estatística clássica domina as metodologias, estando presente em cerca de 71 por cento dos casos. Os restantes trabalhos dividem-se entre modelação de cenários futuros e inquéritos diretos às comunidades afetadas, revelando abordagens ainda pouco integradas.

Ar puro não é para todos
A justiça climática parte da premissa de que quem menos contribui para a poluição é, muitas vezes, quem mais sofre com os seus efeitos. Todos os artigos revistos adotam esta perspetiva, avaliando fatores como rendimento e etnia. Os dados financeiros são o indicador mais utilizado, presente em 99 por cento das investigações.

A Organização Mundial da Saúde e o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas confirmam esta realidade. Famílias com baixos rendimentos e minorias étnicas vivem frequentemente perto de vias rodoviárias saturadas ou complexos industriais. A consequência traduz-se numa maior incidência de asma, doenças cardíacas crónicas e complicações durante a gravidez.

Lacunas na Europa
Perante este diagnóstico, os investigadores portugueses defendem que é urgente alargar estes estudos ao continente europeu e a outras regiões pouco representadas. A equipa sublinha a necessidade de modelos de análise mais robustos e métodos mistos capazes de captar a complexidade das variáveis sociais.

Para além dos dados numéricos, os autores destacam a importância de ouvir as comunidades através de inquéritos de proximidade.

O estudo conclui que compreender as perceções sociais e envolver os cidadãos na monitorização do ar é essencial para que as futuras políticas ambientais e de saúde pública deixem de ignorar as desigualdades que afetam a vida de milhões de pessoas.

Referência da notícia

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Reno, Danúbio, Elba, Loire. Alguns dos maiores rios da Europa vão secar este verão


Uma vaga de calor prolongada e a ausência persistente de precipitação na Europa estão a deixar os principais cursos de água do continente a níveis criticamente baixos. Rios vitais como o Reno, o Danúbio, o Elba e o Loire estão a registar reduções drásticas no seu caudal, ameaçando a navegação comercial, a geração de energia hidroelétrica e nuclear, a agricultura e os ecossistemas aquáticos.

O Danúbio, o segundo maior rio da Europa depois do Volga, caiu para o nível mais baixo dos últimos 30 anos na Roménia, onde desagua no Mar Negro, segundo a agência governamental Romanian Waters.
De acordo com a agência, o caudal do Danúbio em Baziaș, onde o rio entra no país, desceu para cerca de 1.700 m³ por segundo, pouco mais de um terço da média de julho, que ronda 4.700 m³ por segundo.

A seca deixou longos trechos de areia exposta nas margens junto à fronteira com a Bulgária, com vários serviços de ferry suspensos e barcaças de transporte de cereais paradas, reportou a Reuters. A agência acrescentou que a situação deverá melhorar a partir de 20 de julho, quando se previa chuva em vários condados.

Do outro lado do continente, o outro grande rio europeu, o Reno, também foi afetado pela onda de calor e pela seca. A imprensa europeia notou que o nível da água no ponto crítico de medição em Kaub desceu recentemente para 80–90 centímetros.

O Reno é uma rota de transporte essencial para mercadorias como cereais, minerais, minérios, carvão e produtos petrolíferos, incluindo gasolina. Os baixos níveis do rio têm afetado a navegação, obrigando os navios de carga a navegar parcialmente carregados, o que aumenta significativamente os custos de transporte nos centros industriais europeus.

A Reuters noticiou recentemente que o rio deverá subir ligeiramente após chuvas inesperadas no sul da Alemanha, permitindo que os navios transportem cargas maiores.

Em França, o Loire, com 625 milhas (cerca de 1.005 km), ficou recentemente reduzido a um leito seco com poças isoladas após semanas de calor intenso em Montjean-sur-Loire, segundo relatos da imprensa. O Doubs também secou, evidenciando o agravamento das condições de seca.

Impactos Socioeconómicos e perspetivas
A diminuição dos caudais dos rios afeta não só o comércio e as redes de logística industrial, mas agrava também a crise energética no continente. A escassez de água fria limita a capacidade de refrigeração das centrais nucleares e térmicas, enquanto as albufeiras hidroelétricas operam com reservas mínimas.

Segundo as projeções da Agência Europeia do Ambiente e do Observatório Europeu da Seca, a frequência e a intensidade destes eventos extremos tendem a aumentar devido às alterações climáticas, exigindo reformas urgentes na gestão sustentável dos recursos hídricos na Europa.

sábado, 18 de julho de 2026

Anatomia de um arboricídio: o sacrifício de um Pinheiro-Manso em Lisboa

A recente condenação de um pinheiro-manso histórico em Lisboa reabriu o debate sobre a forma leviana como o património natural urbano é gerido em Portugal. No centro da polémica, José Ribeiro e Castro alega que a decisão de abate foi tomada com base num parecer técnico contratado a privados, uma manobra que serviu para ignorar e contornar as indicações expressas em sentido contrário dadas pelos técnicos oficiais da Câmara Municipal de Lisboa. Para justificar o corte, a narrativa oficial recorreu ao clássico exagero mediático, empolando o perigo com expressões alarmistas como "dezenas de toneladas" em risco de queda, e invocando os habituais argumentos dos passeios levantados ou de tubagens danificadas. No entanto, não faltaram alertas legítimos da sociedade civil, com o Fórum Cidadania Lx a encabeçar os avisos de que estávamos perante um atentado ambiental desnecessário.

Este abate coloca Lisboa em total contraciclo com as grandes cidades europeias, que hoje competem para expandir as suas copas urbanas. Ao contrário do que a ignorância política faz crer, a ciência atual oferece inúmeras tecnologias que previnem o arboricídio, sem que seja necessário invocar o exemplo máximo da engenharia tradicional japonesa, o Nemawashi. O progresso tecnológico permite-nos, de facto, resolver estes conflitos sem recurso à motosserra. Para o problema das raízes e dos passeios, existem tecnologias subterrâneas como as células de solo modulares e as barreiras físicas, que direcionam o crescimento radicular para baixo e protegem o pavimento. Para a avaliação da saúde da árvore, o diagnóstico pode ser feito com o rigor de uma ecografia através de tomógrafos sonoros e resistógrafos, que revelam se o tronco está oco sem desferir um único golpe. Numa escala macro, as metrópoles usam sensores de inclinação IoT, drones e laser LiDAR por satélite para vigiar o stress hídrico, complementados por plataformas de cadastro aberto e QR Codes que dão a cada árvore um bilhete de identidade digital, permitindo ao cidadão fiscalizar a legalidade de qualquer intervenção e combater a impunidade.

O argumento do custo financeiro destas tecnologias também não colhe. O mercado oferece hoje soluções em vários patamares: se a monitorização contínua por sensores IoT exige orçamentos de grandes capitais, o desenvolvimento de aplicações de denúncia urbana e a instalação de barreiras de raiz são investimentos perfeitamente acessíveis a qualquer pequeno município. Os especialistas são unânimes: investir na preservação é altamente rentável, pois o custo de manter uma árvore adulta saudável é uma ínfima fração do prejuízo económico e ambiental que resulta da sua remoção, da reparação de infraestruturas e do agravamento das ilhas de calor urbanas. No fundo, este caso expõe uma crise de mentalidade. Confundir a gestão de árvores urbanas com o trabalho de um homem de motosserra é o mesmo que confundir um cirurgião com um carniceiro. Ambos usam ferramentas de corte e ambos alteram o corpo, mas enquanto o primeiro estuda anos para curar e preservar a vida, o segundo apenas quer despachar o trabalho, amputando cegamente o que lhe aparece à frente. Lisboa perdeu mais do que um pinheiro; perdeu a oportunidade de demonstrar maturidade e respeito pela ciência.

domingo, 12 de julho de 2026

Plano Nacional de Restauro da Natureza avança para consulta pública


Projeto coordenado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas vai estar em consulta pública até 19 de agosto, aberta a todos os interessados. Portugal prevê investir 500 milhões por ano até 2030.

A elaboração deste plano é uma resposta ao Regulamento Europeu do Restauro da Natureza, que estabelece que todos os Estados-membros devem restaurar pelo menos 20% das áreas terrestres e marinhas nestes próximos cinco anos, até 2030, garantindo ainda que até 2050 todos os ecossistemas que necessitem de recuperação vão estar em processo de restauro. [Consultar aqui, o estado da arte do Restauro da Natureza, na Europa]

De acordo com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), responsável pela promoção e coordenação deste processo, o projeto do Plano Nacional de Restauro da Natureza (PNRN) “estabelece prioridades de intervenção em ecossistemas terrestres, marinhos, agrícolas, florestais, ripícolas e urbanos, definindo medidas concretas e indicadores de monitorização para acelerar a recuperação dos habitats degradados”.

A nova legislação europeia relativa ao restauro de natureza, aprovada em 2024, definiu que cada um dos Estados-membros tem o dever de apresentar às autoridades europeias, até setembro de 2026, um plano nacional que estabeleça todas as medidas previstas para o alcance das respetivas metas e o caminho para aí chegar, incluindo as necessidades de financiamento.

O plano português prevê um investimento anual de 500 milhões de euros em restauro de natureza até 2030, considerando diferentes instrumentos comunitários e nacionais disponíveis, incluindo verbas do Portugal 2030, da Política Agrícola Comum, do Fundo Ambiental e dos EEA Grants, e também a tendência de crescimento do investimento privado.

O plano define também 407 medidas de intervenção em ecossistemas terrestres, costeiros e de água doce (152 medidas), marinhos (27), fluviais (83), urbanos (oito), agrícolas (84) e florestais (25). Estão ainda previstas 28 medidas para ajudar as espécies polinizadoras.

De acordo com o diagnóstico apresentado pelo Governo quando o plano foi pela primeira vez apresentado publicamente, no início de junho passado, cerca de 260 quilómetros quadrados do território nacional precisam de intervenções de restauro ecológico prioritárias, o equivalente a cerca de 0,3% da superfície do país.

Está prevista também a plantação de três milhões de árvores por ano, até 2030, a realização do plano de ação relativo aos polinizadores em Portugal e também projetos-piloto em cinco municípios (Beja, Évora, Leiria, São João da Madeira e Vila Real), que vão permitir testar soluções de adaptação às alterações climáticas, baseadas na natureza.

O plano inclui também programas já em execução, como o PRO~RIOS, que prevê a recuperação de 1500 quilómetros de linhas de água até ao final da década.

O projeto do PNRN que está agora em consulta pública e que será entregue a Bruxelas vai ser ainda avaliado e revisto a nível europeu, prevendo-se que a versão definitiva seja entregue até setembro de 2027.

Os 11 documentos que fazem parte deste projeto, incluindo a avaliação ambiental estratégica do plano, estão disponíveis no portal Participa e também no Portal do Restauro da Natureza.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Painéis solares em turfeiras podem ser uma dupla vantagem para o clima e para a natureza

Investigadores na Alemanha descobriram que a instalação de painéis solares em turfeiras novamente alagadas proporciona um habitat único para espécies de aves, além de gerar energia verde e, potencialmente, reter carbono.

A instalação de painéis solares em turfeiras novamente alagadas (rewetted) representa um novo tipo de uso da terra, oferecendo uma forma de gerar energia verde e de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa. Agora, uma investigação da Universidade de Greifswald descobriu que este uso inovador do solo também pode beneficiar a natureza.

No estudo, publicado na revista Ecological Solutions and Evidence, os investigadores compararam a diversidade de aves num parque solar situado numa turfeira novamente alagada no norte da Alemanha. O local estava rodeado por turfeiras drenadas e exploradas de forma agrícola intensiva.

Os autores descobriram que o parque solar servia de habitat para várias espécies de aves ameaçadas e apresentava uma mistura invulgar de espécies associadas a ecossistemas agrícolas, zonas húmidas e até zonas florestais.

Hanna Rae Martens, ecologista de turfeiras na Universidade de Greifswald e autora principal do estudo, afirmou:

"A presença de espécies de zonas húmidas, como a escrevedeira-dos-caniços e o ameaçado petinha-dos-prados, mostra que o parque solar está realmente alagado e que as espécies típicas de turfeiras estão a regressar."

"No entanto, também registámos espécies como o pardal-montez e o petinha-das-árvores, que normalmente não se encontram em turfeiras. Todas parecem utilizar a estrutura dos painéis solares. Quando estou no terreno, vejo muitos petinhas-dos-prados pousados nos painéis, que voam para apanhar insetos e depois regressam ao seu poiso."

Cerca de 80% das turfeiras no Reino Unido estão degradadas. Na Alemanha, este número é ainda mais elevado, atingindo os 95%, devido principalmente à drenagem e à utilização agrícola. A nível global, as turfeiras drenadas são responsáveis por 5% das emissões de gases com efeito de estufa.

O alagamento de turfeiras drenadas poderia reduzir drasticamente estas emissões e restaurar a biodiversidade, mas existem dois problemas fundamentais. O primeiro é que, uma vez alagadas, a maioria das culturas agrícolas comuns já não pode ser produzida nestes terrenos. O segundo é que a restauração de turfeiras profundamente degradadas até um estado saudável e funcional pode demorar várias décadas.

O local do estudo é um dos primeiros a instalar painéis solares em turfeiras novamente alagadas. Ao abrigo de um programa do governo alemão, os proprietários de terras recebem incentivos financeiros para instalar painéis solares e alagar o terreno, proporcionando-lhes uma fonte alternativa de rendimento. As conclusões do estudo sugerem que, pelo menos a curto prazo, esta medida poderá também estar a impulsionar a biodiversidade.

"Nos casos em que a alternativa seria uma turfeira drenada e gerida de forma intensiva, a nossa investigação demonstra que os painéis solares em turfeiras novamente alagadas podem beneficiar a diversidade de aves", afirmou Hanna Rae Martens. "Mas não estamos a sugerir que se transformem todas as turfeiras da Alemanha, do Reino Unido ou de qualquer outro país em parques solares. As turfeiras saudáveis ou aquelas que têm um elevado potencial de restauração devem ser evitadas. Os parques solares são apenas mais uma ferramenta possível para apoiar o alagamento das turfeiras."

No estudo, que decorreu entre março e outubro de 2024, os investigadores utilizaram gravadores de áudio e inteligência artificial (machine learning) para comparar a diversidade de aves num parque solar em turfeira alagada com a de turfeiras drenadas vizinhas, utilizadas para a produção de pasto para gado.

Os investigadores alertam, contudo, que o seu estudo representa apenas um caso prático deste novo tipo de uso da terra. Hanna Rae Martens referiu:

"Até à data, existem cerca de cinco parques solares instalados em turfeiras novamente alagadas. São necessárias mais investigações para tirar conclusões sólidas sobre se estes resultados se repetem noutros locais e quais os fatores que contribuem para a composição das espécies."

Os investigadores pretendem agora expandir o seu estudo a mais locais, monitorizar outras espécies — como morcegos e insetos — e identificar quais os elementos das estruturas dos parques solares que podem ser otimizados para favorecer a biodiversidade.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Cerca de 290 lobos em Portugal e quase 400 prejuízos comunicados este ano

Quase 400 comunicações de prejuízos atribuídos ao lobo-ibérico já chegaram este ano ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. O número foi avançado ontem, na Assembleia da República, durante uma audição sobre a proteção da espécie e os impactos na pecuária, e aproxima-se das 511 comunicações registadas em todo o ano anterior.
A audição, requerida pelo PAN e pelo Chega, decorreu na Comissão de Agricultura e Pescas e teve como pano de fundo o Programa Alcateia 2025-2035, aprovado pelo Ministério do Ambiente e Energia. Em debate estiveram as medidas de conservação do lobo-ibérico, mas também a resposta aos produtores pecuários afetados por ataques ao gado.
O ICNF associou o aumento das comunicações à atualização dos valores das compensações, admitindo que muitos produtores que anteriormente já não participavam os prejuízos poderão ter voltado a fazê-lo. O instituto defendeu ainda que o Programa Alcateia foi construído com entidades envolvidas no processo e que foram realizadas ações de comunicação para o fazer chegar aos interessados.
Mas os números abriram uma discussão mais larga sobre a eficácia das respostas no terreno. A Rewilding Portugal defendeu a criação de uma linha telefónica dedicada no ICNF para criadores sem meios digitais, a possibilidade de participação presencial nas juntas de freguesia, GNR ou serviços municipais, melhor articulação entre plataformas como IFAP e SENIRA e vistorias no próprio dia da comunicação. A entidade lembrou ainda que os valores das compensações foram atualizados em 2025 pela primeira vez desde 2017, após oito anos sem revisão.
A dimensão da população de lobo-ibérico em Portugal também entrou na discussão. A Palombar indicou que a espécie tem uma população pequena, fragmentada e em regressão, com uma redução de cerca de 20% da área de presença nas últimas duas décadas. O efetivo nacional foi estimado entre 190 e 390 animais, com uma média aproximada de 290 lobos.
A mesma associação defendeu que a coexistência passa por equipas de proximidade nas zonas onde surgem conflitos, apoio técnico às explorações, valorização da pastorícia, cães de proteção de gado e melhor prevenção. Segundo a Palombar, quando bem aplicadas, as medidas preventivas podem reduzir em 95% o número de ataques.
O BIOPOLIS/CIBIO alertou para a necessidade de análises forenses e genéticas que permitam identificar a origem dos ataques ao gado. A investigadora Raquel Godinho sublinhou a presença de cães errantes no território e o risco de hibridação entre cão e lobo, defendendo monitorização sistemática para distinguir ataques de lobos, cães ou híbridos.
O Grupo Lobo apontou o furtivismo como um dos principais problemas para a conservação da espécie e defendeu equipas de intervenção rápida, cães de proteção de gado, dispositivos de prevenção, melhoria do habitat e promoção de presas silvestres, como o corço. A associação admitiu o pagamento de prejuízos em caso de dúvida, mas rejeitou subsídios de risco generalizados, defendendo antes a valorização dos produtores que aplicam medidas de prevenção.
Da audição saiu um conjunto de prioridades: compensações mais rápidas, menos burocracia, equipas no terreno, controlo de cães errantes, combate ao furtivismo, melhor monitorização científica e apoio direto aos produtores em zonas de presença do lobo.
Em regiões como Trás-os-Montes, o Barroso e o Alto Tâmega, onde a pecuária extensiva mantém peso económico e social, a aplicação prática destas medidas será determinante para compatibilizar a conservação do lobo-ibérico com a atividade das explorações agrícolas.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Curva de Keeling: o gráfico que tirou a "pressão arterial" à Terra

Se pudéssemos tirar a pressão arterial à Terra para avaliar a sua saúde climática, o gráfico resultante seria, sem dúvida, a Curva de Keeling. Este registo gráfico, considerado um dos documentos científicos mais importantes da era moderna, mostra a acumulação contínua de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera terrestre desde o final da década de 1950. Mais do que um simples conjunto de dados estatísticos, a curva funciona como o espelho do impacto da atividade humana no planeta e um aviso claro sobre o futuro do nosso clima.
Até meados do século passado, a comunidade científica sabia que a queima de combustíveis fósseis libertava gases, mas não havia certezas se esse dióxido de carbono se acumulava na atmosfera ou se era totalmente absorvido pelos oceanos e pelas florestas. Tudo mudou quando o cientista americano Charles David Keeling desenvolveu um método de alta precisão para medir o CO2 e, em 1958, começou a recolher amostras de ar no topo do vulcão Mauna Loa, no Havai. A escolha do local foi estratégica: isolado no meio do Oceano Pacífico e a grande altitude, o observatório ficava longe da poluição direta das grandes indústrias, oferecendo uma amostra limpa e global da atmosfera terrestre.
Ao olhar para a Curva de Keeling, saltam imediatamente à vista duas características principais: um padrão anual em forma de ziguezague e uma subida vertical implacável ao longo das décadas. O ziguezague regular representa aquilo a que os cientistas chamam a "respiração" da Terra. Durante a primavera e o verão do Hemisfério Norte - onde se concentra a maior parte da vegetação do planeta -, as florestas crescem e absorvem grandes quantidades de CO2 através da fotossíntese, fazendo os níveis atmosféricos descerem. No outono e no inverno, o processo inverte-se; a vegetação entra em dormência e decompõe-se, libertando o gás de volta para o ar.
No entanto, embora o planeta expire e inspire todos os anos, o topo de cada ziguezague é sucessivamente mais alto do que o do ano anterior. Esta tendência de subida contínua a longo prazo é o resultado direto da atividade humana, impulsionada pela queima de carvão, petróleo e gás natural, além da desflorestação global. 
Quando Keeling fez a sua primeira medição em 1958, a concentração de $CO_2$ era de 315 partes por milhão (ppm). Hoje, esse valor já ultrapassou a barreira dos 420 ppm. Através do estudo de bolhas de ar presas no gelo profundo da Antártida, sabemos que, nos últimos 800 mil anos, estes níveis nunca tinham ultrapassado os 300 ppm. Em menos de um século, a humanidade alterou a composição química do ar de uma forma sem precedentes na história da evolução humana.
O dióxido de carbono atua como um manto térmico em redor do planeta, retendo o calor do Sol que, de outra forma, escaparia para o espaço. À medida que a Curva de Keeling continua a subir, esse cobertor torna-se cada vez mais espesso, alimentando o aquecimento global, o degelo dos glaciares, a subida do nível do mar e a multiplicação de fenómenos meteorológicos extremos. 
No fundo, a Curva de Keeling deixou de ser apenas uma monitorização laboratorial no Havai para se tornar no diagnóstico mais urgente da nossa civilização, lembrando-nos diariamente de que a estabilidade do clima do futuro depende da rapidez com que conseguirmos travar esta subida.

domingo, 10 de maio de 2026

ICNF e APA: WWF, Zero, SPEA e Quercus questionam reestruturação anunciada pela ministra do Ambiente



As quatro organizações reagiram esta quinta-feira com preocupação ao anúncio feito pelo gabinete da ministra do Ambiente e Energia. Quercus pede reunião urgente com Maria da Graça Carvalho.

As mudanças planeadas para o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e para a Agência Portuguesa de Ambiente (APA), anunciadas esta semana pela ministra da tutela, Maria da Graça Carvalho, estão a ser vistas com apreensão por várias organizações ligadas à defesa do ambiente, que pedem para ser escutadas neste processo e receiam que a anunciada “simplificação profunda dos processos de licenciamento” enfraqueça ainda mais a conservação do património natural.

A WWF Portugal foi uma das primeiras a reagir, manifestando preocupação com os planos de reestruturação e exigindo que “qualquer processo de reforma reforce a capacidade técnica e operacional da APA e do ICNF, assegure qualidade técnica nas avaliações ambientais, garanta participação pública efectiva e transparente e mantenha elevados padrões de protecção da natureza e ordenamento do território”

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“O comunicado do Governo centra-se exclusivamente na linguagem da desburocratização e da facilitação do investimento, sem uma única menção à missão fundamental destas instituições: proteger o património natural de Portugal”, afirma a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), defendendo que “a eficiência administrativa não pode ser alcançada à custa do enfraquecimento dos mecanismos de proteção ambiental”.

A mesma opinião é partilhada pela ZERO, que aponta o dedo às reformas em cima da mesa, considerando-as “uma clara tentativa de fragilizar ainda mais as instituições que devem defender o bem comum, criando não só uma inaceitável pressão adicional sobre recursos técnicos que já estão há muito no limite das suas capacidades, mas também prejudicando a qualidade e o rigor das avaliações que serão efetuadas, o que poderá levar a decisões tecnicamente pouco ponderadas”.

A ONG questiona também se este processo de “debilitação” poderá ser agravado por “cortes nos orçamentos de funcionamento das instituições, situação que gerará a inoperacionalidade quase total dos serviços públicos”. E alerta para uma possível “tentativa de desestruturação da política pública de ambiente, em benefício de interesses que poderão não ser compatíveis com os instrumentos de gestão territorial ou com a conservação dos valores naturais protegidos”.

Também a Quercus exige cautela neste processo de reestruturação, admitindo que “a modernização, simplificação e automatização de processos é desejável”, mas desde que “não abra caminho ao eventual esvaziamento de competências e de autonomia destes organismos” nem comprometa a sua capacidade operacional e os meios necessários para fiscalizarem no terreno.

Fiscalizar antes ou no final?
Outra das medidas olhadas com preocupação, aliás, é a “simplificação profunda” dos processos de licenciamento, incluindo a passagem de um modelo de controlo prévio para a aposta na fiscalização a posteriori.

A Quercus teme que a simplificação anunciada tenha de facto como objetivo a criação de “um ‘livre-trânsito’ para atropelar os interesses e as regras ambientais”.

“A destruição de um habitat prioritário, a perturbação de espécies em época de nidificação ou a alteração irreversível de uma zona húmida não são danos que possam ser remediados com uma multa ou uma ordem de reposição”, acrescenta por seu lado a SPEA, que afirma que “enfraquecer os mecanismos de avaliação prévia não só agravaria a situação do património natural como exporia Portugal a sanções comunitárias acrescidas”.

“Proteger a natureza é proteger o futuro de Portugal e dos portugueses. As zonas húmidas que filtram a água que bebemos, as paisagens naturais saudáveis que nos protegem dos incêndios, os ecossistemas costeiros que defendem as comunidades piscatórias — tudo isto depende de instituições públicas capazes de fazer o seu trabalho. Quando se enfraquecem a APA e o ICNF, não é só a Natureza que fica desprotegida são só as aves que ficam desprotegidas: são as pessoas”, afirma Pedro Neto, diretor-executivo da SPEA.

Também a ZERO avisa para a necessidade de mais reflexão face a uma nova simplificação dos processos de licenciamento, depois das iniciativas do Governo socialista (Simplex) e do atual Executivo. “Não deixa de ser preocupante que se proponha mais simplificação sem uma efetiva avaliação de quais foram os resultados das medidas tomadas anteriormente. Não seria aconselhável avaliar o que já foi proposto antes de voltar a sugerir mais alterações?”, questionam.

Além do mais, acrescenta a mesma associação, “o discurso político parece querer passar a mensagem que o licenciamento não tem uma função ou dignidade próprias”. “Ele existe para garantir a equidade entre todos (todos devem ter de cumprir as mesmas obrigações) e garantir que o bem comum não seja usurpado ou prejudicado para interesse apenas de alguns. Nem todo o investimento contribui para o desenvolvimento sustentável do país, nem deve ser aprovado”, sustenta.

ONG de Ambiente querem ser ouvidas
A SPEA apela também à tomada de várias medidas da parte do Governo, incluindo que a missão de conservação da natureza seja assumida como “pilar central da reforma” e não como “o obstáculo a remover”, e lembra também a necessidade de reforço dos meios humanos, técnicos e financeiros do ICNF e da APA – “condição indispensável para que qualquer reforma produza resultados reais”.

Tanto a WWF, SPEA como a Quercus e a ZERO exigem que o processo de reestruturação envolva ouvir as organizações de conservação da natureza, mas também outras entidades como a comunidade científica, “garantindo que as decisões são informadas pelo melhor conhecimento disponível”.

A Quercus anunciou também que vai pedir uma reunião “com urgência” à ministra do Ambiente, “a fim de expôr as suas reservas, preocupações e obter todas as informações sobre esta reestruturação”. “Paralelamente, iremos solicitar uma audiência a todos os Grupos Parlamentares sobre este assunto no sentido de exigir a fiscalização necessária para garantir a defesa do Ambiente”, avisa esta ONG.

sábado, 21 de março de 2026

Dia Mundial dos Glaciares: Por que o Destino dos Glaciares é o Nosso Próprio Destino


No calendário global, o dia 21 de março costuma ser associado ao início da primavera no hemisfério norte, um símbolo de renovação. No entanto, desde que a Assembleia Geral da ONU proclamou esta data como o Dia Mundial da Preservação dos Glaciares, o foco mudou para a conservação crítica do que já temos — e do que estamos prestes a perder. Os glaciares não são apenas blocos estáticos de gelo; são "sentinelas" que moldam a geologia, regulam a temperatura e sustentam a vida humana.

A ciência por trás da sua importância é fascinante e, ao mesmo tempo, alarmante. Estas massas de gelo funcionam como o sistema de refrigeração da Terra através do efeito albedo. Quando a radiação solar atinge a superfície branca e brilhante de um glaciar, a maior parte dessa energia é refletida de volta para o espaço. À medida que o gelo derrete e expõe a rocha escura ou o oceano abaixo, a taxa de absorção de calor aumenta. É um equilíbrio delicado que pode ser resumido pela relação física onde a variação da temperatura  é inversamente proporcional à capacidade de reflexão da superfície (efeito albedo). Pode imaginar o efeito albedo como o sistema de 'espelhos' da Terra. Os glaciares brancos refletem até 90% da luz solar de volta para o espaço, mantendo o planeta fresco. No entanto, quando o gelo derrete e expõe a rocha escura ou o oceano, a superfície passa a absorver a energia solar. Em termos físicos, a redução da refletividade (albedo) resulta num aumento catastrófico da absorção de calor. O infográfico abaixo ilustra claramente este ciclo de aquecimento.




O Ponto de Inflexão
De acordo com o Relatório AR6 do IPCC, a influência humana é 'inequívoca' no recuo global dos glaciares desde a década de 199. Os dados revelam que estamos a perder cerca de 220 mil milhões de toneladas de gelo anualmente, um ritmo que coloca ecossistemas inteiros num ponto de inflexão. Isto significa que certas perdas glaciares tornaram-se irreversíveis, independentemente dos nossos esforços imediatos. O recuo nestas áreas aumenta o risco de inundações catastróficas e, a longo prazo, de secas severas. O impacto não é apenas visual; é uma ameaça direta à segurança hídrica de mil milhões de pessoas que dependem destas fontes de água doce. 

No entanto, o Dia Mundial dos Glaciares não serve apenas para lamentar perdas. É um convite à ação. Do majestoso Perito Moreno na Argentina às cavernas de gelo azul do Vatnajökull na Islândia, estas estruturas guardam a história do nosso clima. Cada bolha de ar presa no gelo profundo é um registo atmosférico de milhares de anos — uma biblioteca congelada que projetos como o Ice Memory tentam salvaguardar em "santuários de gelo" na Antártida.

Porém a rapidez com que o restante gelo desaparece ainda depende das nossas ações hoje. Estima-se que mais de mil milhões de pessoas dependam do degelo sazonal para obter água potável, irrigação e energia. Regiões como os Andes e os Himalaias (o "Terceiro Polo") estão na linha da frente.  

Em 2026, a mensagem da ONU é clara: os glaciares são os "Guardiões do Futuro da Terra". Preservá-los é indissociável das metas de emissões zero. Reduzir a nossa pegada de carbono não é apenas um conceito abstrato; é o esforço direto para manter estes gigantes vivos. Ao celebrarmos este dia, devemos olhar para o gelo não como algo distante, mas como o espelho do nosso próprio destino. Se o gelo respira, nós respiramos.

Para saber mais:
World Glacier Monitoring Service (WGMS) - Global Glacier Change Bulletin

segunda-feira, 16 de março de 2026

A campanha “Salvar o tartaranhão-caçador” já arrancou em Portugal e no oeste de Espanha e uma aplicação de ciência cidadã pode ajudar a salvá-lo da extinção



Os utilizadores da aplicação eBird podem ter um papel importante na conservação do tartaranhão-caçador (Circus pygargus), ave de rapina migradora que está Em Perigo em Portugal. O apelo é feito pelo projeto LIFE SOS Pygargus, que incentiva observadores de aves e cidadãos em geral a registar e partilhar dados sobre a espécie.

Segundo os responsáveis pelo projeto, a participação pública é fundamental para recolher informação atualizada sobre a distribuição da ave e apoiar a campanha anual “Salvar o Tartaranhão-caçador”, que procura melhorar a proteção dos ninhos e compreender as ameaças que afetam esta espécie.
Uma população em forte declínio

A situação do tartaranhão-caçador na Península Ibérica é preocupante. Em Portugal, a população diminuiu cerca de 80% entre 2012 e 2022.

Esta ave de rapina passa o inverno na África subsaariana e regressa à Península Ibérica na primavera para se reproduzir, permanecendo aqui entre março e setembro.

Nesta altura do ano, os primeiros indivíduos já começaram a chegar aos territórios de nidificação, sobretudo em áreas agrícolas e paisagens abertas.

Para os investigadores, recolher dados sobre locais de reprodução, áreas de alimentação e potenciais ameaças é hoje uma prioridade para travar a tendência negativa da espécie.

Como os cidadãos podem ajudar
Os observadores de aves que encontrem um tartaranhão-caçador, um casal ou um ninho podem registar a sua observação na aplicação eBird, considerada a maior plataforma mundial de ciência cidadã dedicada à observação de aves e gerida pelo Laboratório de Ornitologia da Universidade Cornell, nos Estados Unidos.

Além do registo na aplicação, os participantes podem enviar informações adicionais à equipa do projeto, como coordenadas GPS, fotografias, vídeos ou notas de campo. Estes dados ajudam os investigadores a localizar ninhos e a planear medidas de proteção durante a época de reprodução.

Durante este período, que decorre entre março e agosto, é também importante reportar anilhas coloridas de identificação, usadas em programas de monitorização da espécie.

Esta ave de rapina nidifica no solo, sobretudo em campos agrícolas com cereais ou forragens, e depende também desse habitat para se alimentar. Dada esta dependência, uma ameaça importante a esta espécie é a perda de habitat, devido ao declínio acentuado da área semeada com cereais e passagem para outras culturas permanentes, ou outros tipos de uso do solo. A substituição das áreas de cereal para grão por forragens e as alterações climáticas aumentaram significativamente as atividades de ceifa durante o período de nidificação desta espécie, com forte impacto nos casais reprodutores por destruição involuntária dos ninhos e aumento das taxas de predação.[Fonte]

A colaboração dos agricultores com os conservacionistas e cientistas é, por isso, essencial para ajudar na identificação dos ninhos e permitir a implementação de medidas no terreno para os proteger e reduzir ameaças, como a instalação de vedações para garantir a sua salvaguarda durante as atividades agrícolas e evitar ataques de espécies predadoras, como a raposa, por exemplo.

Se forem encontrados ninhos ou situações de risco — como atividades agrícolas próximas, incêndios ou predadores - os responsáveis recomendam que a informação seja comunicada rapidamente à equipa do projeto.

No caso de uma ave ferida ou morta, a recomendação é não tocar no animal e contactar as autoridades ambientais, como o Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente da GNR.

Uma rede de “amigos” para proteger a espécie
Para reforçar a participação pública, o projeto criou ainda a rede “Amigos do Tartaranhão-caçador”, aberta a qualquer pessoa interessada em acompanhar e apoiar as ações de conservação desta ave.

O projeto LIFE SOS Pygargus é uma iniciativa ibérica financiada pelo programa LIFE da União Europeia e envolve várias organizações científicas e ambientais, incluindo a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves SPEA, a Palombar, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) ou a Associação BIOPOLIS-CIBIO.

Para os investigadores, cada registo conta. E, neste caso, um simples registo numa aplicação pode ajudar a garantir o futuro de uma das aves de rapina mais ameaçadas da Península Ibérica.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Novo estudo revela que as culturas de subsistência contribuem também para a desflorestação e para as emissões de gases de efeito de estufa

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Um novo estudo, publicado na revista Nature Food em 23 de fevereiro de 2026, apresenta uma análise sem precedentes sobre a relação entre a produção global de mercadorias, a desflorestação e as respetivas emissões de carbono. 

Através da criação do modelo DeDuCE, os investigadores Chandrakant Singh e Martin Persson conseguiram mapear o impacto de 184 produtos em 179 países, cobrindo o período entre 2001 e 2022. A grande revelação do estudo é que as políticas ambientais atuais podem estar a sofrer de uma "visão em túnel", ao focarem-se excessivamente em produtos de exportação mediáticos, como a carne bovina, a soja e o óleo de palma, enquanto negligenciam o peso das culturas de subsistência e de base alimentar.

Nomeadamente as commodities como óleo de palma e soja têm um impacto concentrado (Sudeste Asiático e América do Sul, respectivamente). Por outro lado, a desflorestação causada por culturas básicas (arroz e milho) está globalmente distribuída, o que torna o seu controlo mais complexo para as cadeias de abastecimento internacionais.

Os dados revelam que a expansão de pastagens para o gado continua a ser a principal culpada, sendo responsável por 42% da desflorestação global e mais de metade das emissões de carbono associadas. No entanto, o estudo destaca que o arroz, o milho e a mandioca — frequentemente ignorados em regulamentações internacionais como as da União Europeia — representam já 11% da perda de florestas no mundo. 

Este fenómeno é particularmente desafiante porque estas culturas básicas estão dispersas globalmente e são destinadas, em grande parte, ao consumo interno dos países produtores, o que as torna menos suscetíveis a pressões comerciais externas.

Ao longo das duas décadas analisadas, a desflorestação para fins comerciais resultou na perda de quase 122 milhões de hectares de floresta e na emissão de 41,2 gigatoneladas de CO2. Os autores sublinham que, se o objetivo internacional for atingir a neutralidade carbónica e travar a perda de biodiversidade, é urgente alargar o âmbito da monitorização. 

O artigo conclui que não basta focar as atenções nas cadeias de abastecimento de luxo ou de exportação; é imperativo integrar as culturas agrícolas de base nas estratégias de conservação, equilibrando a necessidade crítica de segurança alimentar com a proteção dos ecossistemas florestais.